Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA IV                                   




frica do
sculo XII ao XVI
EDITOR DJIBRIL TAMSIR NIANE




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  IV
        frica do sculo XII ao XVI
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  IV
frica do sculo
XII ao XVI
EDITOR DjIbRIl TamsIR NIaNE




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, IV: Africa from the twelfth to the sixteenth century. Paris:
UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1984. (Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010 (verso em portugus com reviso ortogrfica e reviso tcnica)

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso e atualizao ortogrfica: M. Corina Rocha
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil




      Histria geral da frica, IV: frica do sculo XII ao XVI / editado por Djibril Tamsir
            Niane.  2.ed. rev.  Braslia : UNESCO, 2010.
            896 p.

          ISBN: 978-85-7652-126-6

          1. Histria 2. Histria medieval 3. Histria africana 4. Culturas africanas 5. frica
      I. Niane, Djibril Tamsir II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade
      Federal de So Carlos



Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
                                     SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XIX
Apresentao do Projeto .................................................................XXV

Captulo 1 Introduo............................................................................... 1
Captulo 2 A unificao do Magreb sob os Almadas............................ 17
Captulo 3 A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a
           civilizao ocidental .............................................................. 65
Captulo 4 A desintegrao da unidade poltica no Magreb................... 89
Captulo 5 A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos
           Almadas ............................................................................ 117
Captulo 6 O Mali e a segunda expanso manden ............................... 133
Captulo 7 O declnio do Imprio do Mali .......................................... 193
Captulo 8 Os Songhai do sculo XII ao XVI ...................................... 211
Captulo 9 Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta,
           do sculo XII ao XVI .......................................................... 237
Captulo 10 Reinos e povos do Chade.................................................. 267
VI                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



Captulo 11 Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central .................... 299
Captulo 12       Os povos da costa  primeiros contatos com os
                  portugueses  de Casamance s lagunas da costa do
                  Marfim ............................................................................. 337
Captulo 13       Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta ................... 361
Captulo 14       Do rio Volta aos Camares ............................................... 379
Captulo 15       O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao
                  incio do XVI) .................................................................. 415
Captulo 16       A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos
                  Funj, no incio do sculo XVI .......................................... 445
Captulo 17       O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os
                  Estados do Chifre da frica ............................................ 475
Captulo 18       O desenvolvimento da civilizao swahili ......................... 511
Captulo 19       Entre a costa e os Grandes Lagos ..................................... 539
Captulo 20       A regio dos Grandes Lagos ............................................. 559
Captulo 21       As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e
                  1500 ................................................................................. 591
Captulo 22       A frica equatorial e Angola: as migraes e o
                  surgimento dos primeiros Estados ................................... 623
Captulo 23       A frica meridional: os povos e as formaes sociais ....... 655
Captulo 24       Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI ...... 677
Captulo 25       Relaes e intercmbios entre as vrias regies ................ 697
Captulo 26       A frica nas relaes intercontinentais ............................. 721
Captulo 27       Concluso ......................................................................... 763

Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao
   de uma Histria Geral da frica ...................................................779
Dados Biogrficos dos Autores do Volume IV....................................781
Abreviaes e Listas de Peridicos ....................................................785
Referncias Bibliogrficas ................................................................793
ndice Remissivo..............................................................................859
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
Cronologia                                                                   XI




                        CRONOLOGIA




   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
        Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
         present), tendo como referncia o ano de + 1950; nesse caso, as datas so
         todas negativas em relao a + 1950.
        Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas
         so simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
         sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de Cristo" so substitudas
         por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
    Exemplos:
    (i) 2300 B.P. = -350
    (ii) 2900 a.C. = -2900
         1800 d.C. = +1800
    (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
          sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                        XIII




                           LISTA DE FIGURAS




Figura 1.1     Mapa-mndi de al-Idrs ....................................................................................... 5
Figura 2.1     Mapa do Magreb durante o sculo XII  atividades econmicas......................... 18
Figura 2.2     Muro ocidental (kibla) da mesquita em Tnmallal (Marrocos) ............................ 29
Figura 2.3     Ptio interno da mesquita em Tnmallal.............................................................. 29
Figura 2.4     Minarete da mesquita Hasan (inacabada) em Rabat ........................................... 34
Figura 2.5     Mapa da reconquista almada.............................................................................. 38
Figura 2.6     Porta da kasaba (fortaleza) de Udya, em Rabat .................................................. 40
Figura. 2.7    Porta da kasaba de Udya em Rabat .................................................................... 40
Figura 3.1     O Alhambra de Granada. Sala lateral do Ptio dos Lees................................... 73
Figura 3.2     Arcadas do claustro, em Soria .............................................................................. 86
Figura 4.1     Mapa do desmembramento do Imprio Almada ............................................... 92
Figura 4.2     A madraa Bou Inania, em Fs. Detalhe de uma janela do ptio ........................ 98
Figura 4.3     A madraa Bou Inania, em Fs. Detalhe de uma meia-porta .............................. 99
Figura 4.4     A mesquita de Karawiyyn, em Fs .................................................................... 100
Figura 5.1     Aghadr (celeiro fortificado) de Fri-Fri, regio de Tiznit (Sul do Marrocos) ..... 119
Figura 5.2     A mesquita da kasaba em Tnis ................................................................ 129
Figura 6.1     Kumbi-Sleh ...................................................................................................... 137
Figura 6.2     Togur Galia. .................................................................................................... 138
Figura 6.3      Togur Galia .............................................................................................138
Figura 6.4      Togur Doupwil. Corte C com urna funerria in situ ...............................139
Figura 6.5      Togur Doupwil. Corte C com urna funerria contendo um esqueleto
                in situ..........................................................................................................139
XIV                                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



Figura 6.6 Mapa do antigo Manden ................................................................................... 145
Figura 6.7 Mapa das escavaes do stio de Niani............................................................... 157
Figura 6.8 Mapa dos stios de Niani ................................................................................... 158
Figura 6.9 Niani. Stio 1 ...................................................................................................... 159
Figura 6.10 Niani. Stio 29 ...................................................................................................... 159
Figura 6.11 Niani. Stio 1 .................................................................................................... 160
Figura 6.12 Niani. Stio 6D (Quarteiro rabe) .................................................................. 161
Figura 6.13 Niani. Stio 6D (Quarteiro rabe) .................................................................. 162
Figura 6.14 Niani. Stio 1 .................................................................................................... 163
Figura 6.15 Niani. Stio 32 (cemitrio) ............................................................................... 164
Figura 6.16 Mapa do Imprio do Mali ............................................................................... 173
Figura 6.17 Mapa das principais rotas transaarianas no sculo XIV ................................... 177
Figura 6.18 Vista da caverna P de Tellem: celeiros de tijolo cru ......................................... 182
Figura 6.19 Taa de Tellem com quatro ps munidos de base, da caverna D...................... 182
Figura 6.20 Tnica de algodo de Tellem encontrada na caverna C ................................... 183
Figura 6.21 Imprio do Mali.............................................................................................. 184
Figura 6.22 Esttua de cavaleiro encontrada na regio de Bamako .................................... 185
Figura 6.23 Imprio do Mali: estatueta de figura barbada, feita em terracota..................... 189
Figura 6.24 Imprio do Mali: estatueta em terracota de me com criana ......................... 190
Figura 6.25 Imprio do Mali: serpente em terracota........................................................... 191
Figura 6.26 Imprio do Mali: estatueta em terracota de figura ajoelhada, da regio de
            Bankoni ........................................................................................................... 192
Figura 7.1 Fachada do kamablon de Kangaba...................................................................... 196
Figura 7.2 O kamablon de Kangaba, cabana das cerimnias setenais .................................. 196
Figura 7.3 Vista de Kamalia, no sudeste de Kangaba, Mali ................................................ 197
Figura 7.4 Mapa dos Estados do Sudo, no sculo XVI ..................................................... 202
Figura 8.1 Estela 11 de Gao-San (SO 50-59 bis), retangular, de quartzo ......................... 219
Figura 8.2 Estela 14 de Gao-San (SO 50-54), de xisto, colorao verde-amarela ............. 220
Figura 8.3 Mapa do Imprio Songhai no fim do sculo XVI ............................................. 227
Figura 9.1 Mapa da regio da curva do Nger e da bacia do Volta, 1100-1600................... 245
Figura 10.1 Mapa da regio do lago Chade (lago Kr)...................................................... 270
Figura 10.2 Mapa simplificado, extrado do grande mapa de al-Idrs (1154) .................... 271
Figura 10.3 Mapa simplificado, extrado do "Pequeno Idrs" (1192) ................................. 272
Figura 10.4 Mapa dos povos e reinos do Chade no sculo XIV ......................................... 288
Figura 10.5 Mapa dos povos e reinos do Chade no sculo XV ........................................... 291
Figura 10.6 Genealogia dos Sfuwa .................................................................................... 292
Figura 11.1 Mapa da localizao dos Haussa e de outros povos na Nigria setentrional.... 323
Figura 12.1 Portulano de Mecia de Viladestes, 1413 .......................................................... 340
Figura 12.2 Mapa da alta Guin no sculo XVI ................................................................. 342
Figura 12.3 Nomoli (estatuetas de esteatita) da Repblica de Serra Leoa .......................... 345
Lista de Figuras                                                                                                                 XV


Figura 12.4 Escultura africana em marfim .......................................................................... 347
Figura 12.5 Trompa de marfim com cenas de caa.............................................................. 348
Figura 12.6 Comerciantes europeus em contato com os habitantes do Cayor em
             Cabo Verde. gua-forte................................................................................... 355
Figura 12.7 Habitaes dos negros...................................................................................... 356
Figura 12.8 A cidade negra de Rufisco ............................................................................... 356
Figura 12.9 Fetiches ............................................................................................................ 357
Figura 12.10 O rei de Sestro (sculo XVII) ........................................................................ 358
Figura 12.11 Fauna e flora da alta Guin ............................................................................ 358
Figura 13.1 Mapa dos stios arqueolgicos na laguna Aby.................................................. 365
Figura 13.2 Cachimbos descobertos no stio de Sgui ...................................................... 366
Figura 13.3 Cachimbos descobertos na necrpole de Nyamw........................................... 366
Figura 13.4 Bracelete descoberto no stio de Sgui ........................................................... 367
Figura 13.5 Vasos descobertos na necrpole de Nyamw.................................................... 367
Figura 13.6 Mapa das migraes akan ................................................................................ 371
Figura 13.7 Mapa da rea entre o vale do Nger e o golfo da Guin .................................. 374
Figura 14.1 Mapa da regio entre o Volta e os Camares no perodo de +1100 a +1500 ... 381
Figura 14.2 Mapa das populaes do delta do Nger .......................................................... 383
Figura 14.3 Cabea em terracota (Owo, Nigria) ............................................................... 391
Figura 14.4 Cidade de Benin .............................................................................................. 397
Figura 14.5 Placa do Benin ................................................................................................. 399
Figura 14.6 Benin: tocador de flauta em bronze ................................................................. 400
Figura 14.7 Vaso em bronze enfeitado com corda............................................................... 402
Figura 14.8 Desenho esquemtico do mesmo vaso ................................................................. 402
Figura 14.9 Bronze esculpido em forma de altar................................................................. 403
Figura 14.10 Cabaa ritual .................................................................................................. 403
Figura 14.11 Grande vaso em bronze, visto de cima ........................................................... 405
Figura 14.12 O mesmo vaso, visto lateralmente .................................................................. 405
Figura 14.13 Bracelete de bronze feito em forma de n ..................................................... 406
Figura 14.14 Cermica: vista geral ...................................................................................... 406
Figura 14.15 Cermica: detalhe........................................................................................... 407
Figura 14.16 Cermica: vista geral ...................................................................................... 407
Figura 14.17 Reconstituio feita por arquelogos do enterro de um chefe em
              Igdo-Ikwu ...................................................................................................... 409
Figura 14.18 Mapa dos stios dos bronzes de Tsoede.......................................................... 410
Figura 14.19 Esttua em bronze (de Tsoede), de uma figura sentada ................................. 411
Figura 15.1 Mapa do Oriente Mdio sob os Mamelucos ................................................... 423
Figura 15.2 Cairo: tmulo de Kayt Bay (1472-1474) ......................................................... 431
Figura 15.3 Cairo: prtico monumental da mesquita de Kansuh al-Ghri......................... 432
Figura 15.4 Cairo: interior da mesquita de Djawhar al-Lla, de origem etope (1430) ...... 433
XVI                                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



Figura 15.5 Candeeiro em vidro esmaltado (poca mameluca) ........................................... 442
Figura 16.1 Mapa da Nbia do fim do sculo XII ao comeo do XVI ............................... 448
Figura 16.2 A igreja e o monastrio de Faras (Nbia) circundados por fortificaes
             rabes ............................................................................................................... 458
Figura 16.3 Muralha da cidadela rabe de Faras ................................................................. 459
Figura 17.1 Mapa da Etipia e do Chifre da frica ........................................................... 477
Figura 17.2 Lalibela: igreja ("casa") de So Jorge ................................................................ 498
Figura 17.3 Lalibela: parte superior da igreja ("casa") de So Jorge .................................... 498
Figura 17.4 Lalibela: elevao vertical da igreja ("casa") de So Jorge................................. 499
Figura 17.5 Lalibela: janela da igreja ("casa") do Redentor do Mundo ............................... 499
Figura 17.6 Manuscrito etope do sculo XV, representando a rvore da vida .................... 502
Figura 17.7 Manuscrito etope do sculo XV, representando a Crucificao ...................... 503
Figura 17.8 Manuscrito etope do sculo XV, representando a Anunciao ....................... 504
Figura 18.1 Mapa das rotas de comrcio interno e transocenico das cidades da costa
             da frica oriental ............................................................................................. 516
Figura 18.2 Siyu, ilha de Pate .............................................................................................. 520
Figura18.3 Ilha de Mafia..................................................................................................... 520
Figura 18.4 Mapa da ilha e da cidade de Kilwa .................................................................. 522
Figura 18.5 A grande mesquita de Kilwa, com suas duas partes geminadas........................... 530
Figura 18.6 Vista geral do portal de entrada do forte de Kilwa Kisiwani ........................... 532
Figura 18.7 Detalhe do portal de entrada do forte de Kilwa Kisiwani ............................... 532
Figura 18.8 Ilha do Songo Mnara: runas da mesquita de Nabkhani ................................. 533
Figura 18.9 Mihrb da grande mesquita de Gedi ................................................................ 533
Figura 19.1 Mapa da localizao aproximada provvel dos povos do interior da frica
             oriental no sculo XII ...................................................................................... 556
Figura 19.2 Mapa da localizao aproximada provvel dos povos do interior da frica
             oriental no sculo XVI ..................................................................................... 557
Figura 20.1 Mapa das primeiras migraes dos Luo........................................................... 570
Figura 20.2 Mapa da localizao dos Bachwezi e dos imigrantes ....................................... 576
Figura 20.3 Mapa do itinerrio do complexo de Kintu e do complexo de Kimera ............. 586
Figura 21.1 Mapa dos stios e tradies arqueolgicas mencionados no texto .................... 592
Figura 21.2 A colina de Isamu Pati (Zmbia), durante as escavaes ................................. 594
Figura 21.3 Runas do Grande Zimbbue. Mapa do stio principal.................................... 606
Figura 21.4 O Grande Zimbbue: a Acrpole e o Grande Cercado ................................... 607
Figura 21.5 Cermica extrada dos estratos superiores da Acrpole, no Grande
             Zimbbue ........................................................................................................ 608
Figura 21.6 Vista interior da plataforma elptica................................................................. 609
Figura 21.7 A muralha do Grande Cercado no Grande Zimbbue .................................... 611
Figura 21.8 Escultura em pedra-sabo de um pssaro numa base monoltica ..................... 611
Figura 21.9 A torre cnica do Grande Zimbbue ...........................................................611
Figura 21.10 Cermica extrada de Chedzugwe, Zimbbue................................................ 615
Lista de Figuras                                                                                                              XVII


Figura 21.11 Dois lingotes de cobre em forma de cruz do Ingombe Ilede, Zmbia ........... 616
Figura 21.12 As tradies e fases arqueolgicas .................................................................. 620
Figura 22.1 Mapa da frica central .................................................................................... 626
Figura 22.2 Sino duplo de ferro, de Mangbetu (Zaire) ....................................................... 637
Figura 22.3 Jarra antropomrfica (perodo Kisaliense)........................................................ 640
Figura 22.4 Tmulo de Kikulu (KUL-T) ........................................................................... 642
Figura 22.5 Contedo de um tmulo kisaliense clssico, no stio de Kanga ....................... 643
Figura 22.6 Esttua "Ntadi Kongo", de pedra, de Mboma, baixo Zaire .............................. 643
Figura 23.1 Mapa da frica meridional: stios arqueolgicos (1100-1500) ........................ 662
Figura 23.2 Mapa da expanso khoi-khoi ........................................................................... 671
Figura 24.1 Madagscar. Mapa das vias de migraes e povoamento da ilha ..................... 678
Figura 24.2 Stio de Antongona (sculos XV-XVIII) ......................................................... 688
Figura 24.3 Antsoheribory, na baa de Boina ......................................................................... 688
Figura 24.4 Ambohitrikanjaka (Imerina)........................................................................................ 690
Figura 24.5 Reconstituio de uma tigela encontrada em Milangana no Vakinisisaony ..... 692
Figura 25.1 Mapa da circulao de homens e tcnicas na frica ocidental.......................... 710
Figura 25.2 Mapa da frica central, oriental e meridional do sculo XI ao XV ................. 713
Figura 26.1 A Terra segundo al-Idrs e Ibn Khaldn ........................................................ 724
Figura 26.2 Relaes econmicas entre as margens do Mediterrneo ocidental .................. 729
Figura 26.3 Mapa dos locais onde o ouro africano era procurado (sculos XII-XV)
             pelos comerciantes europeus ............................................................................ 730
Figura 26.4 Mapa do fluxo do ouro africano na economia muulmana da frica
             setentrional ...................................................................................................... 733
Figura 26.5 Manuscrito rabe do sculo XIII mostrando a presena de negros nas
             embarcaes do oceano ndico......................................................................... 741
Figura 26.6 Mapa do cerco portugus da frica no sculo XV .......................................... 746
                           PREFCIO
                   por M. Amadou - Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no
podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
    Se a Ilada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a "Idade Mdia"
europeia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XX                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
ar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingustica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras,
e destinado ao trabalho forado, o africano veio a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior: a de
negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos africanos
no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria, em cuja apreciao das
realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, tm se esfor-
ado em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de
esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues  fontes africanas
originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os prprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                                 XXI



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e
metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas
criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esfor-
aram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar
a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questes meto-
dolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das
fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e  articu-
lao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito
de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao da obra:
apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim
como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo,
portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um
pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.



1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahi-
     li, peul e portugus; o volume II, em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano,
     kiswahili, peul e portugus; o volume III, em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV, em ingls,
     rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o volume V, em ingls e rabe; o volume VI, em ingls,
     rabe e francs; o volume VII, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII, em ingls
     e francs.
XXII                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e
nove membros, composto por africanos e no africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria
das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade,
palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no
perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que, at recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da
histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do
mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as
instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarre-
gado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz
original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa
"sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no
momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas conse-
quncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes
entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e
de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com
grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui
um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos
conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica
tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
Prefcio                                                                                                XXIII



    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicos amide utiliza-
dos na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histrico de valor, para mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cientfico
Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de
aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre certos
aspectos do passado da frica. Esses trabalhos, publicados na coleo UNESCO
 Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a constituir, de modo til,
um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo desdobrar-se- na ela-
borao de publicaes versando sobre a histria nacional ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade his-
trica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as
Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afro-
descendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, em
maior ou menor grau, segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar
e agir de certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao
norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies
culturais herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclu-
sive, elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns
dos elementos mais importantes da populao.



2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; n. 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4  A historiografia da frica Meridional;
     n. 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6 
     Etnonmias e toponmias; n. 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n.
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; n. 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; n. 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11  Lbia Antiqua; n. 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXIV                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido de que os esforos dos povos da frica para conquistar
ou reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde
os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada
com vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de
certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
srio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra
de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica
e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso
mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra dever ento contribuir para favorecer
a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas
aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto
muito sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit
Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publi-
car essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
Apresentao do Projeto                                                  XXV




     APRESENTAO DO PROJETO
                        pelo Professor Bethwell Allan Ogot
                 Presidente do Comit Cientfico Internacional
                 para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros res-
ponsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
     Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
     A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVI                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



       subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
       da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so
       analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias mul-
       tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da
       frica para o desenvolvimento da humanidade.
      A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das ideias
       e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela fundamenta-se sobre
       uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradio oral e a
       expresso artstica.
      A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu inte-
       rior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
       maneira atravs da qual os autores africanos veem sua prpria civilizao.
       Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
       dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
       para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando os
       fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de
       examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
       alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
       atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
       em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
       uma concepo particular dos valores humanos.
    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhes
de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreendendo
aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos, mapas e
desenhos tracejados).
    Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do
Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles se encarregam da ela-
borao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                  XXVII



da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comit ou,
entre duas sesses do Comit, ao Conselho Executivo.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes captu-
los so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido ao
exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Inter-
nacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de
um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especfico da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo, etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comu-
nidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
XXVIII                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



tarefa tal qual a redao de uma histria da frica, que cobre no espao todo
um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio,
estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tra-
dies histricas. Trata-se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante
aos elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                           Bethwell Allan Ogot
                                                       Em 8 de agosto de 1979
                                  Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                 para a redao de uma Histria Geral da frica
Introduo                                                                      1



                                   CAPTULO 1


                                   Introduo
                                 Djibril Tamsir Niane




         O presente volume abarca a histria da frica do sculo XII ao XVI. A
     periodizao e a diviso cronolgica clssicas so pouco convenientes  aborda-
     gem em questo: como pode uma data ou um sculo ter a mesma importncia
     para todo um continente?  lcito ento perguntar se esse perodo  significativo
     para todas as regies do continente.
         Embora o problema da diviso ainda se coloque, parece-nos que o perodo
     considerado apresenta certa unidade e constitui, sob mais de um aspecto, um
     momento de importncia capital na evoluo histrica do continente como um
     todo.  um perodo privilegiado, em que a frica desenvolve culturas originais e,
     sem perder sua personalidade, assimila influncias do exterior. No volume ante-
     rior, vemos a frica emergir das sombras graas aos escritos rabes: os muul-
     manos descobrem o rico Sudo, ao sul do Saara, dominado pelos Soninke, cujo
     soberano, o kaya maghan, tinha sob sua autoridade todas as regies ocidentais
     do Sudo, da curva do Nger  embocadura do Senegal. Esse vasto imprio, que
     teve seus fastos evocados por al-Bakr, no era a nica unidade poltica; outras
     lhe foram contemporneas, como o Songhai e, mais para leste, estendendo-se at
     o lago Chade, os pases e reinos do Kanem-Bornu. A partir do final do sculo
     XI a documentao escrita relativa  frica ao sul do Saara torna-se cada vez
     mais abundante, principalmente no perodo que vai do fim do sculo XIII ao
     final do XIV. Em meados do sculo XV, as fontes portuguesas vm preencher
2                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



uma lacuna informando-nos sobre os reinos da costa da frica ocidental, ento
em pleno desenvolvimento  mais uma prova de que a ausncia de documen-
tao escrita nada significa. O golfo do Benin e a embocadura do rio Zaire (rio
Congo) foram importantes focos de civilizao. Esse perodo apresenta vrias
caractersticas fundamentais.
    Em primeiro lugar, assiste-se ao triunfo do Isl em grande parte do conti-
nente. Essa religio teve como propagadores a um tempo guerreiros e comer-
ciantes. Os muulmanos revelaram-se excelentes mercadores e dominaram o
comrcio mundial, contribuindo para o desenvolvimento da cincia, da filosofia
e da tcnica em todas as regies em que se instalaram. Fato essencial para o
continente  que, tanto no norte quanto no vasto Sudo ao sul do Saara, a frica
imprimiu ao Isl a marca de sua originalidade. Lembremos que, no sculo XI,
os Almorvidas  cujos exrcitos contavam grandes contingentes de negros do
Takrr, aps conquistarem parte do Magreb e da pennsula Ibrica, oriundos
da foz do Senegal, restauraram a suna, ortodoxia rigorosa, em todo o Ocidente
muulmano.
    A partir de 1050 os Almorvidas combatem o Imprio de Gana, que acaba
por sucumbir em, aproximadamente, 1076; para o Sudo, essa ltima data marca
o incio de um perodo de luta pela hegemonia entre as provncias do imprio.
1076  um ano importante tanto na histria do Magreb como na do Sudo;
no entanto a queda de Kumbi, "capital" de Gana, ocorrida por essa poca, passa
quase despercebida uma vez que o comrcio do ouro praticamente no sofre
interrupo, tornando-se, ao contrrio, mais intenso: certos reinos vassalos de
Gana, ricos em ouro (Takrr, "Mandeng") e o velho reino de Gao, situado no
ramo oriental do Nger, h muito islamizados, continuam a animar os intercm-
bios comerciais com os rabo-berberes. Por outro lado, mercadores provenien-
tes da Arbia e do golfo Prsico abrem a costa oriental africana, do Chifre da
frica a Madagscar, ao comrcio intercontinental. Os ricos centros comerciais
de Sofala, Kilwa e Mogadscio tornam-se as portas da frica para o oceano
ndico. Partindo do Egito, o Isl expande-se rumo  Nbia, o Sudo oriental;
ali encontra forte resistncia dos antigos reinos cristos coptas, o que, durante
algum tempo, detm sua marcha sobre o Nilo. No entanto, do mar Vermelho
e principalmente do Chifre da frica, o Isl difunde-se para o interior, favore-
cendo a emergncia de reinos muulmanos ao redor dos cristos. A luta entre
as duas religies ser rdua nessa regio; a Etipia ir encarar essa resistncia
ao Isl do sculo XII ao XV, antes que os negus tivessem o apoio da nova fora
crist representada por Portugal nos fins do sculo XV e incio do XVI. No
captulo 17, o professor Tadesse Tamrat d nfase a essa forma particularmente
Introduo                                                                       3



africana do cristianismo, com sua arte no menos original e suas igrejas de
estilo to caracterstico. Ao fundar uma nova capital, o rei Lalibela (c. 1181  c.
1221), chamado o "So Lus etope", batiza-a com o nome de Nova Jerusa-
lm; tinha, o devoto soberano, o intuito de oferecer a seus sditos um local de
peregrinao, j que a Etipia fora desligada do patriarcado de Alexandria e do
bero do cristianismo. Nos planaltos da Etipia os conventos multiplicam-se. 
em meio ao silncio desses mosteiros, construdos em locais elevados, pratica-
mente inexpugnveis, que os monges escrevero a histria dos reis e elaboraro
uma reforma. Em meados do sculo XV o cristianismo etope encontra-se em
pleno florescimento. Mantendo as velhas prticas religiosas africanas pr-crists,
d-lhes uma forma crist; a antiga influncia cuxita manifesta-se nas festas, nas
danas, nos cantos e nos sacrifcios de animais. Aqui tambm domina, em todos
os aspectos, a personalidade africana, j que o cristianismo da Nbia e da Etipia
 completamente africanizado, assim como o Isl africano.
    Ao longo da costa, do Chifre da frica a Madagscar, tendo como centro as
feitorias muulmanas, desenvolve-se uma civilizao afro-muulmana original: a
civilizao suali. Esta se exprime na lngua de mesmo nome, que, embora com
diversos emprstimos ao rabe, conserva a estrutura bantu. Ser essa a lngua de
comunicao em toda a frica oriental, do litoral aos Grandes Lagos africanos
e, pouco a pouco, at o rio Zaire (Congo). Assim, direta ou indiretamente, a
influncia do Isl se faz sentir em toda a regio.  comum indagar-se acerca das
razes pelas quais o Isl obteve aceitao to rpida no s na frica como tam-
bm em outros locais; ora,  preciso lembrar que o modo de vida dos nmades
da Arbia pouco diferia, na poca, daquele dos berberes e dos fels da frica
setentrional. Excetuando-se as guerras empreendidas pelos Almorvidas no
Sudo, o islamismo difunde-se lenta e pacificamente no interior da frica. No
existe clero constitudo, nem h missionrios como no Ocidente cristo; religio
de cidades e cortes, o Isl na frica no ameaa as estruturas tradicionais. Nem
os reis sudaneses nem os sultes da frica oriental promovero guerras para
converter as populaes; acima de tudo est o comrcio. A flexibilidade que
o Isl ir demonstrar para com os povos vencidos  deles exigindo apenas um
imposto  permitir que conservem sua individualidade.
    O segundo tema de importncia a se destacar no estudo do perodo em
questo encontra-se intimamente ligado ao Isl e  sua expanso. Trata-se do
formidvel desenvolvimento das relaes comerciais, dos intercmbios culturais
e dos contatos humanos. Do Indo ao Gibraltar, do mar Vermelho a Madagscar,
da frica setentrional s regies subsaarianas, homens e mercadorias circulam
livremente, e de maneira tal que Robert Cornevin escreve, acerca da unidade
4                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



econmica do mundo muulmano e da independncia poltica do Isl africano
face a Bagd:
    Unidade que dificilmente imaginamos em nosso mundo abarrotado de fronteiras,
    em que passaporte e visto so indispensveis a qualquer deslocamento. Durante toda
    a Idade Mdia, o comerciante ou o peregrino muulmano encontrou, do Indo at a
    Espanha e no Sudo, a mesma lngua, o mesmo modo de vida e tambm a mesma
    religio, malgrado as heresias caridjitas e xiitas, que, alis, parecem mais polticas
    que propriamente religiosas.
    Alis, do sculo XII ao XVI a frica torna-se, em muitos aspectos, uma
encruzilhada do comrcio internacional. A atrao que exerce sobre o resto do
mundo  extraordinria; disso trata Jean Devisse, com eloquncia, no captulo
26. Mais do que o Mediterrneo,  o oceano ndico que se torna uma esp-
cie de Mare islamicum antes da instaurao da hegemonia chinesa fundada na
navegao em butres.
    No menos intensas so as relaes inter-regionais; o Saara  percorrido de
norte a sul por grandes caravanas, que contam por vezes de 6 a 12 mil camelos e
transportam gneros e produtos de toda espcie. Entre as savanas sudanesas e as
regies de floresta mais ao sul, do rio Casamance ao golfo do Benin, desenvolve-
-se um intenso comrcio, de cuja existncia os rabes pouco suspeitam, visto
que consideram deserto todo o territrio situado alm de Gao e do Mali. Nos
dias de hoje a arqueologia, a toponmia e a lingustica ajudam-nos a perceber
com maior clareza essas relaes seculares entre a savana e a floresta. Ao sul do
Equador, onde a influncia muulmana  nula, os intercmbios entre regies
no sero menos significativos, graas aos deslocamentos de populaes e aos
inmeros contatos ocorridos por ocasio dos mercados ou feiras.
    Os frequentes intercmbios inter-regionais de que a frica foi palco nesse
perodo explicam a unidade cultural fundamental do continente. Novas plantas
alimentares so introduzidas, vindas principalmente do oceano ndico; operam-
-se transferncias de tcnicas de uma regio a outra. Para ressaltar a originali-
dade da frica ao sul do Sudo, menos conhecida pelos rabes e demais povos
estrangeiros, os autores dos captulos 19, 20, 21, 22 e 23 do nfase  vida
econmica, social e poltica das regies que se estendem dos Grandes Lagos
at os rios Zaire (Congo), Zambeze e Limpopo, vastas zonas que quase no
sofreram a influncia do Isl. Merece destaque a poro da frica meridional
posterior ao vale do alto Nilo, que vai de Assu s cabeceiras do rio; voltaremos
a ela mais adiante. Alm do ouro, a frica exporta marfim bruto ou trabalhado
para a Arbia e a ndia atravs do oceano ndico. O trfico transaariano, por sua
Introduo                                                                                                5



vez,  alimentado pelo florescente artesanato do Sudo e pela rica agricultura
do vale do Nger: gros, sandlias, peles, tecidos de algodo so exportados para
o Norte, enquanto as cortes reais de Niani, de Gao, as vilas como Tombuctu, e
as cidades hau Kano e Katsina importam principalmente produtos de luxo
como sedas, brocados, armas ricamente ornamentadas etc.
   O Sudo exporta igualmente escravos para suprir as necessidades das cortes
magrebinas e egpcias (mulheres para os harns e homens para formar a guarda
de honra dos sultes). Note-se que os peregrinos sudaneses tambm compram
escravos no Cairo, principalmente escravos artistas  msicos, entre outros.
Alguns autores aumentaram exageradamente o nmero de escravos originrios
do Sudo ou da costa oriental levados para os pases rabes. Qualquer que tenha
sido a importncia numrica dos negros no Iraque, no Marrocos ou no Magreb
em geral, no h nada em comum entre o comrcio de escravos no perodo em
estudo e o que ser instaurado no litoral atlntico da frica pelos europeus, aps
a descoberta do novo mundo, visando obter mo-de-obra para as plantaes de
cana-de-acar ou algodo. Os volumes V e VI daro nfase a essa "hemorragia"
que foi o trfico negreiro.




Figura 1.1 Mapa-mndi de al-Idrs (sculo XII da era crist). Carta do Egito, da Arbia e do Ir; a costa
oriental da frica pode ser vista embaixo,  direita. Aqui, al-Idrs retoma a concepo cartogrfica j apre-
sentada por Ptolomeu. (Original guardado na sala de manuscritos para as colees geogrficas da Biblioteca
Real, sob a referncia de n. BN/GE AA 2004.)
6                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



    Enfim, um fato muito importante a ser sublinhado  o desenvolvimento
dos reinos e imprios entre os sculos XII e XVI; durante muito tempo os
historiadores e pesquisadores coloniais quiseram tornar plausvel a ideia de que
os Estados ao sul do Saara desenvolveram-se graas  influncia dos rabes.
Embora a influncia rabe seja incontestvel na zona sudano-saheliana  ainda
que vrios reinos tenham aparecido antes da introduo do Isl na regio ,
somos obrigados a convir que Estados como o reino do Congo, o Zimbbue e
o Monomotapa (Mwene Mutapa) praticamente no sofreram a influncia do
Isl. Evidentemente,  graas aos documentos escritos em rabe que se conhece
melhor a vida urbana nas cidades magrebinas e sudano-sahelianas.
    Cidades de atividade mercantil margeiam as orlas do deserto: uma classe
dinmica de mercadores e letrados anima a vida econmica e cultural de Djenn,
Niani, Gao, Tombuctu, Walata no Sudo ocidental; no norte do Saara, Sidjil-
masa, Tuat, Wargla, Marrakech, Fs e Cairo. No Sudo central, no Kanem -
-Bornu e nas cidades hau tais como Zaria, Katsina e Kano, a vida cultural e
econmica no  menos intensa; sob a influncia dos Wangara, povos como os
Haus especializam-se no comrcio. Na costa da frica oriental, as colnias
rabo-persas, instaladas nos portos a partir dos sculos IX e X, fazem de Mom-
baa e principalmente de Sofala e Madagscar centros comerciais ativos, que
mantm relaes constantes com a ndia e a China.
    No plano poltico, entretanto, o Sudo tem instituies e estruturas sociais
prprias, que o Isl superficial das cortes deixa intactas... Os berberes arabizam-
-se lentamente. Nas cidades do Sudo, o rabe  a lngua dos letrados, gravitando
em torno das mesquitas, e de alguns mercadores abastados; a no h arabizao.
Mesmo no Magreb, onde a arabizao seguiu de perto a imposio do Isl, a
influncia berbere permanecer viva, sendo a lngua berbere ainda falada em
nossos dias nas regies montanhosas.
    O Egito passa a ser o centro cultural do mundo muulmano, tomando o lugar
de Bagd, Damasco e das cidades da Arbia, s quais s restara a aurola da pere-
grinao. No Oeste, Magreb e Andaluzia tornam-se, a partir dos sculos X e XI,
centros de difuso cultural, principalmente da cincia e da filosofia, absorvidas
pela Europa. Magrebinos e andaluzes participam ativamente na preparao de
um renascimento cientfico e cultural na Europa.
    A Itlia meridional no ficar imune  influncia muulmana; lembremos
que  na corte do rei cristo Rogrio da Siclia que al-Idrs escrever sua famosa
Geografia, somatria dos conhecimentos sobre os pases do mundo na poca.
Essa obra, que representa grande progresso, permitiu  Itlia descobrir a frica;
Introduo                                                                    7



a partir da, os negociantes passam a se interessar por esse Eldorado. A Europa,
entretanto, ainda aguarda sua vez.
    No plano poltico, aps o movimento almorvida, que fez afluir o ouro do
Sudo at a Espanha, os homens do "Ribt" logo perdero o flego e seu imp-
rio entrar em decadncia no incio do sculo XII. Afonso VI, rei de Castela,
reconquista aos muulmanos a rica cidade de Toledo. Em 1086, no entanto, Ibn
Tshfin reaviva por momentos a chama almorvida:  frente das tropas muul-
manas, que abrigam grande contingente de habitantes do Takrr, sai vitorioso
na batalha contra os cristos em Zallaca, em que ficaram clebres os guerreiros
negros das foras almorvidas. No prprio continente africano, no Sudo e no
Magreb, o sculo XI termina com a desintegrao do poder dos Almorvidas; a
rivalidade entre os Kabla do Magreb e os do Saara e a resistncia das provn-
cias de Gana aps a morte de Ab Bakr em 1087, em Tagant, pem termo aos
esforos dos Almorvidas na frica subsaariana.
    Assim, o sculo XII inicia-se na frica setentrional com um recuo dos Almo-
rvidas em vrias frentes. Rogrio II, rei das Duas Siclias, aventura-se at as
costas da frica e impe um tributo a certos portos de onde partiam os piratas
berberes. .. Mas essa ousadia ser refreada pelo reflorescimento muulmano, sob
a gide dos Almadas, no sculo XII, e, a leste, no Egito, esse reflorescimento
ter lugar sob os Aibidas e principalmente sob os Mamelucos, durante os scu-
los XIII e XIV. Precisamente nessa poca os cristos iro intensificar o movi-
mento das cruzadas no Oriente Prximo; mas esta expanso ser contida pelo
Egito dos Mamelucos, tendo os cruzados que se refugiar em kraks, ou fortalezas,
j sem controle sobre Jerusalm. Nos sculos XIII e XIV, ao mesmo tempo que
o Egito detm o perigo cristo, suas escolas florescem e imprimem  civilizao
muulmana um brilho especial. Esta  tambm a poca de expanso e apogeu
dos reinos e imprios sudaneses, de que trataremos em seguida.
    O esplendor dos Estados do Mali, do Songhai, do Kanem-Bornu, e dos
reinos mossi e dagomba, na curva do Nger, so temas dos captulos de 6 a 10,
de autoria de especialistas negro-africanos. O estudo das instituies no Mali e
nos reinos Mossi, por exemplo, revela a influncia tradicional africana comum.
O Isl, religio oficial do Mali e de Gao, favorecer a emergncia de uma classe
de letrados; j desde os tempos de Gana, os Wangara (Soninke e Maninke 
"Malinke"), especializados no comrcio, animam a vida econmica: organizam
caravanas, que partem para as florestas do Sul, onde trocam peixe defumado,
tecidos de algodo e objetos de cobre por nozes-de-cola, ouro, azeite de dend
(leo-de-palma), marfim e madeiras preciosas.
8                                                               frica do sculo xii ao sculo xvi



    Os imperadores muulmanos do Mali intensificaro suas relaes com o
Egito em detrimento do Magreb. No sculo XIV o imprio atinge o apogeu.
O sculo XII, entretanto,  pouco conhecido; felizmente, al-Idrs nos informa
da existncia dos reinos do Takrr, do Do, ou Dodugu, do Mali e de Gao, reto-
mando, em parte, os dados fornecidos por al-Bakr. As tradies do Manden,
do Wagadu e do Takrr permitem-nos hoje entrever a luta obstinada que ops
as provncias nascidas da desagregao do Imprio de Gana.
    Sabe-se hoje, pelo estudo das tradies orais, que entre a queda de Gana
e a emergncia do Mali houve o intermdio da dominao dos Sosoe (fra-
o soninke-manden rebelde ao Isl), os quais, por algum tempo, unificaram
as provncias que os kaya maghan controlavam; com o sculo XIII comea a
ascenso do reino de Melli, ou Mali. O grande conquistador Sundiata Keita
derrota Sumaoro Kante (rei dos Sosoe) na famosa batalha de Kirina, em 1235,
e funda o novo Imprio Manden. Fiel  tradio de seus ancestrais, islamizados
desde 1050, Sundiata reata relaes com os comerciantes e os letrados negros
e rabes ao restabelecer o imprio. De 1230 a 1255, coloca em funcionamento
instituies que marcaro por sculos os sucessivos reinos do Sudo ocidental.
A peregrinao e o grande trfico transaariano reanimam as rotas do Saara.
    Comerciantes e peregrinos negros encontram-se pelas encruzilhadas do
Cairo; estabelecem-se embaixadas negras nas cidades do Magreb; intensificam-
-se as relaes culturais e econmicas com o mundo muulmano, sobretudo no
sculo XIV, sob o reinado do faustuoso mansa Ms I e sob o do mansa Solimo;
no Sudo central, Kanem e Bornu tm relaes ainda mais frequentes com o
Egito e a Lbia. As fontes rabes, os escritos locais e a tradio oral mais uma
vez nos trazem importantes esclarecimentos sobre o sculo XIV no Sudo.
     o momento de mencionar certos escritores rabes  historiadores, gegra-
fos, viajantes e secretrios das cortes  que nos deixaram excelente documenta-
o sobre a frica, notadamente no sculo XIV.
    O maior historiador da "Idade Mdia", Ibn Khaldn,  magrebino (13321406).
Participa da vida poltica de seu tempo, tanto nas cortes de Fs e de Tnis
quanto nas de Andaluzia. Aps vrios infortnios, retira-se para um "castelo"
e empreende a redao de sua obra histrica. Sua monumental Kitb al-'Ibr
(Histria universal), que inclui a Histoire des Berbres ... (Histria dos berberes ...), 
o estudo scio-histrico mais minucioso j escrito sobre o Magreb;  num dos
volumes dessa Histria que o autor dedica ao Imprio do Mali pginas que
ficaram clebres. A ele devemos a lista dos soberanos dos sculos XIII e XIV
at 1390. Os Prolegmenos (Mukaddima) dessa grande obra lanam as bases
Introduo                                                                          9



da sociologia e evidenciam os princpios de uma histria cientfica, objetiva,
fundada na crtica das fontes.
   Ibn Battta, clebre por suas viagens,  um verdadeiro andarilho do sculo
XIV. Suas informaes sobre a China, sobre a costa oriental da frica, o relato
de sua viagem ao Mali continuam sendo o modelo do gnero etnolgico. Nada
escapa  sua ateno: modo de vida, problemas alimentares, tipo de governo,
costumes dos povos so tratados com maestria e preciso. Ibn Battta legou-
nos as informaes mais completas sobre a costa da frica oriental, sobre o
comrcio inter-regional na frica e a importncia do comrcio no ndico.
Referindo-se s ilhas Maldivas, escreve:
    A moeda dessas ilhas  o cauri. Trata-se de um animal recolhido no mar.  colocado
    em fossos, onde sua carne desaparece, restando apenas um osso branco... Comercia-
    -se por meio desses cauris a razo de quatro bustu por um dinar. Pode ocorrer que
    seu preo baixe a ponto de se vender doze bustu por um dinar. So vendidos aos
    habitantes de Bangala [Bengala] em troca de arroz.  tambm a moeda dos habi-
    tantes do Bilad Bangala... O cauri  ainda a moeda dos `Sudan' [os negros] em seu
    pas. Vi-os serem vendidos em Melli [Niani, no Imprio do Mali] e Gugu [Gao,
    capital do Songhai]  razo de 1150 por um dinar de ouro.
    Essa concha, o cauri, ser a moeda da maior parte dos reinos sudaneses
durante o perodo em estudo.  encontrada unicamente nas ilhas Maldivas,
o que permite medir a intensidade da circulao de homens e bens na frica
e no oceano ndico.
    Um terceiro autor, cujas informaes precisas fundam-se numa documentao
filtrada,  al-`Umar' Ibn Fadl Allh, secretrio na corte dos Mamelucos entre
1340 e 1348. Na poca, os reis sudaneses mantm no Cairo consulados para a
recepo de centenas de peregrinos que se dirigem  Meca. Assim, al-`Ulmar
dispe, por um lado, dos arquivos reais; por outro, obtm infor- maes junto
aos cairotas que, em viagem, frequentam os reis sudaneses, e junto aos prprios
sudaneses. Sua L'Afrique moins l'gypte (A frica com exceo do Egito)  uma
das principais fontes para a histria da frica medieval.
    Finalmente, citemos Leo, o Africano, hspede do papa, que esteve por
duas vezes no Sudo no incio do sculo XVI. Suas informaes sobre o Sudo
ocidental e central constituem importante testemunho sobre uma poca em
que os ventos da histria sopraram a favor das "brancas caravelas".
    No fim do sculo XVI a decadncia  total; as cidades sudanesas pouco a
pouco vo perdendo seu brilho.
10                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



    Cinco sculos aps seu desaparecimento, Kumbi Sleh (Gana)  identificada
e escavada (1914); o stio de Awdaghust, clebre centro comercial entre Kumbi-
-Sleh e Sidjilmasa, h dez anos vem atraindo a ateno dos arquelogos. Os
professores J. Devisse e S. Robert descobriram ali vrios estgios de ocupaes
humanas; os tesouros exumados atestam que Awker foi realmente a "terra do
ouro". Mais ao sul, Niani, a capital do Mali, cidade edificada com tijolos de
terra batida, v seus tumuli esquadrinhados e escavados; ano aps ano a cidade
"medieval", a capital de Sundiata e do mansa Ms I, revela seus segredos. A
arqueologia mostra-se cada vez mais uma cincia indispensvel para extrair do
solo africano documentos mais eloquentes que os textos ou a tradio.
     tempo de falar do restante da frica, que o Isl no conheceu. Como j
dissemos, a ausncia de documentao escrita nada significa; os monumentos de
pedra da frica equatorial, central e meridional so prova disso, fazendo pensar
imediatamente em reinos do tipo "antigo Egito". Essas construes ciclpicas, os
Zimbbue e os Mapungubwe, situadas longe da costa, contam-se por dezenas.
Obra das populaes Bantu, essas cidades fortificadas, essas escadas gigantes
provam a que ponto de desenvolvimento chegaram certas tcnicas de construo,
isso na ausncia de qualquer tipo de escrita. De bom grado passaremos por cima
das mltiplas teorias elaboradas acerca dos construtores desses monumentos
de pedra, j que os colonizadores, naturalmente, no podiam admitir que os
ancestrais dos Shona e dos Natibete (Matabele) tivessem sido os artesos desses
monumentos, que confundiam a imaginao dos visitantes. Tampouco histo-
riadores coloniais estavam preparados para admitir que os negros pudessem ser
autores de construes de pedra.
    Em sua obra Africa before the White Men, Basil Davidson intitula "Os edifi-
cadores do Sul" o captulo 9, dedicado  frica central e meridional; propondo
uma nova viso das questes colocadas pela histria da frica, o autor devolve
ao continente o que lhe  devido: o ganho moral da obra de seus ancestrais.
    J ao abordar a costa oriental do continente, aps ter dobrado o cabo da Boa
Esperana, os portugueses ouviriam falar, em Sofala, de um poderoso imprio do
interior; chegaram mesmo a entrar em contato com alguns nativos que vinham
regularmente ao litoral comerciar com os rabes. Os primeiros documentos
portugueses falam do reino de Benametapa. Uma das primeiras descries desses
monumentos de pedra, que a fotografia tornou familiares, deve-se a Damio
de Gis:
     No centro desse pas encontra-se uma fortaleza construda de grandes e pesadas
     pedras tanto no interior quanto no exterior (...) uma construo muito curiosa e
Introduo                                                                           11



    bem edificada, pois, segundo o que se conta, no se v nenhuma argamassa a unir as
    pedras. Em outras regies da sobredita plancie, h outras fortalezas construdas do
    mesmo modo, em cada uma das quais o rei tem capites. O rei do Benametapa vive
    em meio ao luxo, sendo servido com grande devoo e deferncia.

Joo de Barros acrescenta que

    os indgenas desse pas chamam a todos esses edifcios de simbao, o que, em sua
    lngua, significa `corte', pois pode ser assim chamado qualquer lugar onde Bename-
    tapa possa se encontrar; dizem eles que, sendo propriedades reais, todas as demais
    moradas do rei trazem esse nome.
    Fato anlogo ao que ocorre no Mali, onde as residncias dos soberanos rece-
bem a denominao de madugu.
    Graas aos trabalhos de inmeros pesquisadores, a frica central e a frica
meridional so hoje mais bem conhecidas. Os esforos conjuntos dos linguis-
tas, arquelogos e antroplogos j trazem grandes esclarecimentos sobre esses
monumentos e seus construtores. O Zimbbue e o Mwene Mutapa (Bename-
tapa para os portugueses, e modernamente, Monomotapa) so reinos poderosos
cujo apogeu situar-se-ia precisamente entre os sculos XI e XIV; so, portanto,
contemporneos de Gana e do Mali, ao norte. O vigor desses reinos funda-se
numa slida organizao social e poltica. Assim como o kaya maghan, o mwene
mutapa (ttulo real) detm o monoplio do ouro; como seu contemporneo
sudans, ele  "senhor dos metais". Esses reinos, cujas reas cobrem hoje parte da
Repblica Popular de Moambique, da Repblica do Zimbbue, da Repblica
de Zmbia e da Repblica do Malavi, situavam-se numa regio rica em cobre,
ferro e ouro. Segundo Davidson, "foram registradas milhares de antigas minas,
talvez at 60 ou 70 mil".
    A cronologia constitui ainda um problema; certo , porm, que o Mwene
Mutapa e o Zimbbue j comeavam a entrar em decadncia quando da chegada
dos portugueses, embora ainda aparecessem como grandes potncias; essa deca-
dncia ir se precipitar com a rapacidade e as pilhagens dos portugueses e dos
demais europeus que os seguiro. As populaes dessas regies, que praticam a
cultura em terraos, desenvolveram rica agricultura. Toma corpo a ideia de que
as diferentes etnias e culturas locais tm a mesma origem bantu. A etnologia,
em certo sentido, prestou pssimo servio  histria ao considerar cada etnia
como uma raa distinta; felizmente, a lingustica permite restabelecer a ordem
das coisas. Todos esses pequenos grupos nascidos de quatro sculos de trfico de
12                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



escravos, de caa ao homem, participam do mesmo mundo bantu; os Bantu se
sobrepuseram a antigas populaes e expulsaram pigmeus e outros grupos para
as florestas inspitas ou para os desertos. Em Zmbia as escavaes prosseguem;
a jovem Repblica do Zimbbue abre um campo de pesquisas bastante promis-
sor. No Transvaal e em outras regies da frica do Sul encontram-se vestgios
de brilhantes civilizaes, anteriores ao sculo XII.
    Rejeitada a tese que atribui o Zimbbue e o Mwene Mutapa aos fencios,
retomando a lenda dourada da "regio de Ofir", a objetividade terminou por
prevalecer entre os pesquisadores: a maioria reconhece hoje que as influncias
externas foram nulas. David Randall MacIver, egiptlogo que realizou pesqui-
sas na "Rodsia do Sul" (Zimbbue), afirma que os monumentos tm origem
africana; por sua pena, assim se expressa a arqueologia cientfica:
     No h traos de estilo oriental ou europeu, seja de que poca for (...) O carter das
     habitaes cercadas pelas runas de pedra, das quais so parte integrante,  africano
     sem sombra de dvida.
     E prossegue:
     As artes e tcnicas de que so testemunhos os objetos encontrados nas habi- taes
     so tipicamente africanas, salvo quando se trata de ntidas importaes medievais
     ou ps-medievais.
   MacIver escreveu estas linhas em 1905; no entanto as provas arqueolgicas
que apresentou no chegaram a desarmar os defensores da teoria "ofiriana". Um
quarto de sculo mais tarde, todavia, a arqueloga Gertrude Caton-Thompson
publicou um relatrio sobre a civilizao de Zimbbue, em que confirma as
palavras de MacIver com "clareza de diamante", segundo Basil Davidson, e
grande intuio arqueolgica. Caton-Thompson, cuja obra se funda em estudo
rigorosamente arqueolgico, escreve:
     O exame de todos os documentos recolhidos em cada setor no pode, no entanto,
     produzir um s objeto que esteja em desacordo com a reivindicao de origem bantu
     e de data medieval.
    Respaldando-se em trabalhos arqueolgicos, o professor Brian Murray Fagan
mostra, no captulo 21, que o Zimbbue e as demais civilizaes do Sul flo-
resceram bem antes do sculo XVI, praticamente resguardados de quaisquer
influncias exteriores; pelo menos, estas no tiveram papel decisivo na gnese
daquelas culturas.
Introduo                                                                     13



     fcil imaginar o que a pena grandiloquente de um autor rabe nos teria
legado se o Zimbbue e o reino do "senhor dos metais" tivessem recebido a visita
de gegrafos e viajantes como os que estiveram em Gana e no Mali, algo como:
O Grande Zimbbue e seus muros de pedra, enigmticos como as pirmides,
so testemunhos da solidez e da coeso das instituies que regeram a vida dos
construtores desses monumentos erigidos para a glria de seus reis e de seus
deuses.
    O espanto e o encantamento dos navegadores portugueses ao desembarcarem
na "Etipia ocidental", a atual frica ocidental, j comea na foz do rio Senegal.
 na Senegmbia que eles entram em contato com os mansa do Mali e travam
relaes com os reis do Diolof (Wolof ). A bordo de suas caravelas, nos esturios
dos rios, esses mulos dos muulmanos procuram descobrir as fontes do ouro.
O que desde o incio os impressiona  a organizao poltico-administrativa, a
prosperidade e a riqueza da regio.
    Quanto mais se afastam rumo ao sul, mais se conscientizam de sua prpria
pobreza; e o sentimento de superioridade advindo da f crist vai cedendo lugar
 cupidez.
    Os captulos 12, 13 e 14 abordam o estudo da costa atlntica da Guin e
do golfo da Guin, isto , da Senegmbia  foz do Nger. No obstante a exi-
guidade de conhecimentos, ficou estabelecido que a floresta no foi um meio
hostil  ocupao humana, como propalaram inmeros africanistas; est aberto
vasto campo de pesquisa para historiadores e arquelogos. As cidades do Benin
e a bela estaturia ioruba desenvolveram-se em meio florestal. As cabeas de
lato, os baixos-relevos dos palcios e muitas outras obras de arte, que hoje se
encontram no Museu Britnico ou nos museus de Berlim e de Bruxelas, foram
atribudos a hipotticos estrangeiros antes que o bom-senso triunfasse, rein-
serindo essas peas em seu contexto sociocultural e reconhecendo nos nativos
seus nicos autores. Graas s pesquisas arqueolgicas, pode-se hoje estabelecer
facilmente a relao entre as terracotas de Nok (500 antes da era crist) e as
cabeas de bronze do Benin (sculos XXIV). Mas quanta tinta se derramou
inutilmente para alijar a frica de seu passado! Quantos crimes para arrancar
ao continente suas obras-primas!
    Como se mostrou rapidamente nos pargrafos anteriores, vrias formas de
Estado existiram na frica. O cl ou linhagem  a forma rudimentar do Estado;
seus membros reconhecem um ancestral comum e vivem sob a autoridade de
um chefe eleito ou de um patriarca, cuja funo essencial  zelar por uma diviso
equitativa dos ganhos do grupo;  pai provedor e pai justiceiro. O cl vive num
14                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



territrio de limites precisos ou possui uma rea de reserva no caso de seus mem-
bros praticarem a pecuria itinerante. Nos desertos (Saara) ou nas florestas, dis-
pem de territrio mais ou menos extenso. Vivem frequentemente em simbiose
com os povos sedentrios, com os quais trocam o produto de suas atividades. O
chefe do cl no exerce poder discricionrio, mas, quando a produo do grupo
aumenta,  dispensado dos trabalhos braais, beneficiando-se do excedente; 
rbitro nos conflitos surgidos por ocasio da partilha das terras.
    O reino congrega vrios cls, sendo o rei, frequentemente, um chefe de cl
que imps sua autoridade a outros cls;  o caso do cl Keita, fundador do Imp-
rio do Mali (sculo XIII). O rei dispe de um conselho cujos membros vivem de
seus benefcios, ocupando o reino territrio bastante extenso; no entanto cada
cl conserva sua estrutura fundiria e seus ritos particulares. Fato importante 
o compromisso de fidelidade ao rei, que se traduz pelo pagamento de um imposto,
frequentemente em gnero. Chefe poltico, o rei mantm, normalmente, os
atributos religiosos do chefe de cl; sua pessoa  sagrada. Esse carter sagrado
manifesta-se nitidamente no caso do rei do Congo, do soberano do Monomo-
tapa e do imperador do Mali, cujos sditos juravam por seu nome.
    Os soberanos que chamamos "imperadores" controlam, em princpio, seno
um vasto territrio, ao menos reis, que gozam de grande autonomia. Temos
como exemplo o Imprio Almada, que se estendeu por boa parte do Magreb:
o sulto, originrio de uma kabla, ou cl, comanda outros sultes, que, por sua
vez, comandam chefes de kabla, ou xeques. O imperador, ou mansa, do Mali
tinha sob sua autoridade doze provncias, das quais duas eram reinos. Seja rei
ou imperador, o soberano est sempre rodeado de um conselho; este, em geral,
exerce influncia moderadora sobre o poder real, que invariavelmente  circuns-
crito por uma "constituio" ou "costume".
    J mencionamos as cidades-Estado, que so, na verdade, reinos reduzidos
s dimenses de uma cidade e seus arredores. As cidades hau e as cidades
ioruba do Benin constituem os casos mais tpicos, com instituies bastante
elaboradas e uma corte formada por funcionrios e pela aristocracia. As cidades
hau reconheciam uma cidade-me, Daura; no caso dos Yoruba, era Ife que
desempenhava esse papel. A comunidade cultural  o cimento que une esses
Estados, frequentemente em guerra entre si.
    Assim, banimos do nosso vocabulrio as expresses "sociedade sem Estado"
e "sociedade segmentar", caras aos pesquisadores e historiadores de certa poca.
Tambm banimos termos como "tribo", "camita", "hamita", "fetichista". Em
certas partes da frica, a palavra "tribo" adquiriu conotao bastante pejorativa.
Aps as independncias, os conflitos sociais e polticos passaram a ser qualifica-
Introduo                                                                      15



dos de "guerras tribais"  entenda-se, "guerras entre selvagens"; para referir tais
circunstncias, criou-se a palavra "tribalismo". "Tribo" designava originalmente
um grupo sociocultural; hoje, aplicada  frica, significa formao "primitiva"
ou "retrgrada". A palavra "fetichismo" tem acepo igualmente pejorativa: os
africanistas empregam-na para designar a religio tradicional africana;  sin-
nimo de "charlatanismo", de "religio dos selvagens", se  que se pode chamar
religio s prticas africanas. "Animismo", que designa a religio tradicional na
frica, tambm comporta carga negativa: assim, usaremos a expresso religio
tradicional africana em lugar de "animismo" ou "fetichismo". A palavra "camita"
ou "hamita" tem longa histria. Designava-se com esse termo os povos pastores
brancos  ou assim supostos  "portadores de civilizao". Esses hipotticos pas-
tores, cuja realidade ou historicidade nunca foi demonstrada, teriam se deslocado
atravs do continente, levando aqui e acol a cultura e a civilizao aos agricul-
tores negros. O mais curioso  que a palavra "camita" deriva de Cam (nome do
ancestral dos negros, segundo a Bblia); , pois, muito intrigante que tenha vindo
a designar um povo branco. De fato, trata-se nada menos do que uma das maio-
res mistificaes da histria. Os historiadores coloniais admitiam por princpio
a superioridade dos pastores sobre os agricultores! Afirmao completamente
gratuita. Infelizmente, o colonialismo, exacerbando as rivalidades entre cls,
entre agricultores e pastores, transformou o Ruanda e o Burundi, por exemplo,
 poca das independncias, num verdadeiro barril de plvora; as lutas entre os
Batutsi (Tutsi) e os Bahima (Bahutu), as perseguies e os episdios sangrentos
de 1962-1963 devem ser creditados aos colonialistas belgas, que, durante mais
de meio sculo, sopraram o fogo da discrdia entre os cls de suas "colnias",
entre pastores ditos "camitas" e agricultores "negros".
    Descolonizar a histria  precisamente derrubar as falsas teorias e todos
os preconceitos criados pelo colonialismo para melhor assentar seu sistema
de dominao e explorao e justificar a poltica de interveno. Essas teorias
pseudocientficas ainda so veiculadas em muitos livros... e at nas publicaes
didticas utilizadas em nossas escolas.  importante que, aqui, se traga  histria
algum rigor.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                      17



                                         CAPTULO 2


 A unificao do Magreb sob os Almadas
                                           O. Saidi




    A poca almada, que se estende de meados do sculo XII a meados do
sculo XIII, marca o apogeu do esforo de unificao do Magreb e mesmo de
todo o ocidente muulmano. A unificao almada, que os poderes posteriores
em vo tentaram reconstituir, ultrapassa amplamente, em extenso, aquela efe-
tivada pelos Almorvidas. Teve como ponto de partida uma "reforma religiosa"
encabeada pelo famoso mahd dos Almadas, Ibn Tmart. Apoiando-se numa
comunidade solidamente organizada, a dos muwahhidn (unitrios ou unitaris-
tas), essa reforma desenvolveu-se e adquiriu as dimenses de um empreendi-
mento poltico global.
    Conduzido pelos soberanos da dinastia fundada por um dos mais antigos
e notveis companheiros de Ibn Tmart, a dos Mumnidas, o movimento no
teve apenas  longe disso  finalidades e razes religiosas e polticas; seu desen-
rolar seguiu igualmente consideraes, imperativos e necessidades de ordem
econmica, cujos dois elementos essenciais residiam, por um lado, no controle
das principais rotas do comrcio transaariano  ou pelo menos das suas sadas
setentrionais , e por outro, na integrao dos diversos plos de desenvolvimento
econmico do Magreb e do ocidente muulmano atravs da ampliao dos
antigos domnios almorvidas no Magreb e na Ifrkiya.
                                                                                                                               18
                                                                                                                               frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 2.1   Mapa do Magreb durante o sculo XII  atividades econmicas. (Mapa de J. Devisse, seg. O. Saidi e C. Vanacker.)
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                    19



    A situao religiosa no Magreb e a corrente almada
    Ortodoxia e Isl
    Em meados do sculo XI, o proselitismo (da'w) xiita batinita (esotrico)
ainda era vigoroso, a despeito do enfraquecimento poltico dos Fatmidas do
Egito1, e o gradual movimento de unificao comunitria, deflagrado havia
muito tempo (ao menos desde a derrota mutazilita, ocorrida em meados do
sculo IX), permanecia bastante esparso.
    A busca da unificao processou-se por diferentes caminhos, que ainda no
tinham alcanado uma sntese doutrinal: o da purificao asctica, fundado no
estudo da tradio sunita e do hadth que podia levar aos excessos do sufismo;
o da sistematizao jurdica, que com frequncia caa no formalismo e num
ritualismo quase mecnico; enfim, o do aprofundamento e aperfeioamento das
proposies teolgicas da sntese asharita2.
    Face ao xiismo e  falsafa (filosofia), essas vrias correntes e tentativas de
snteses parciais  seno pessoais, como veremos adiante  foram marcadas
por real esforo de unificao comunitria, cujo avano era, h muito tempo,
inversamente proporcional ao desmembramento poltico do mundo islmico. 
 luz dessa evoluo que deve ser examinada a situao do Isl e da ortodoxia
no Magreb e tambm no ocidente muulmano3.
    O Isl encontrou no Magreb grandes dificuldades para estabelecer sua domi-
nao e fundar sua unidade4: teve, a, de enfrentar obstinada e duradoura resis-
tncia, rapidamente corporificada na "heresia" caridjita  mistura de anarquismo
e igualitarismo  que seduziu particularmente os meios nmades e as sociedades
rurais. Respaldada em concepes, tradies e formas de organizao tnicas,
essa "heresia" tirou partido das condies particulares criadas pelo exerccio da
soberania islmica para se implantar entre os berberes, pregando a negao do
princpio da hereditariedade na ascenso ao califado bem como da preeminncia
de qualquer cabila, ainda que fosse a do profeta5.


1    Ver LAROUI, 1970, p. 163.
2    Ver verbete "al-Ash`ar" (nascido em 873-874, morto em 935-936) in Encyclopaedia of Islam, nova ed., v.1,
     p. 694-5.
3     evidente que a contestao tumartiana da situao religiosa no Magreb constitui ndice concreto dessa
     prpria situao e da atitude do ocidente muulmano em relao s diferentes escolas islmicas de pen-
     samento religioso.
4    Ver notadamente GOLDZIHER, 1887 e TALBI, 1966, p. 17-21.
5    A propsito do sucesso dessas posies e da atitude recalcitrante dos berberes, ver TALBI, 1966, p. 19.
20                                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



    No Magreb, o caridjismo serviu igualmente de fachada ideolgica a toda sorte
de oposio; por vezes, o termo podia designar grande negligncia na observn-
cia dos deveres religiosos e, em certos casos, a negao pura e simples do Isl.
A isso somava-se a longa persistncia do direito consuetudinrio berbere, que
se manteve, contradizendo por vezes a jurisprudncia islmica, at a interveno
do almorvida Ysuf ben Tshfn. A despeito do imenso esforo de islamizao
promovido pelos Omadas da Espanha, pelos Idrsidas e mesmo pelos Fatmidas,
foi preciso esperar pelos Almorvidas e Almadas para ver desaparecer as graves
alteraes do Isl e as formas mais manifestas da dissidncia berbere, que reco-
briam atitudes socioeconmicas ainda no inteiramente esclarecidas.
    Outra caracterstica do Isl magrebino  a adoo do maliquismo, ainda hoje
predominante na regio. Os discpulos de Mlik ben Anas, como Ibn al-Ksim6,
propagaram e fortaleceram sua escola jurdica arrebanhando adeptos autctones.
Kayrawn (Kairuan) tornou-se rapidamente centro de difuso do maliquismo,
produzindo uma linhagem de doutores  entre os quais se destaca o im
Sahnn (776-854), zeloso divulgador da obra de Ibn al-Ksim  que por diver-
sas vezes obtiveram o apoio das populaes, notadamente quando da ofensiva
xiita fatmida do sculo X7.
    Enquanto se reduzia cada vez mais o estudo dos fundamentos da lei religiosa
(o Coro e os hadth), os manuais de fur` (tratados jurdicos prticos) consti-
tuam a principal referncia no exerccio do direito. Essa tendncia, por vezes,
redundava em real desprezo pelo estudo dos hadth, conforme testemunha o
exemplo de al-Asbagh Ibn Khall8, grande sbio e cdi de Crdoba.
    As raras e tmidas tentativas como as de Bak ben Makhlad9 nada podiam
contra a fortaleza que constitua, ento, a "corporao" dos juristas maliquitas,
que eram muitas vezes grandes proprietrios de terras.
    Essa situao caracteriza-se igualmente pelo pouco interesse dos juristas, ou
fukah', pela dogmtica espiritualista que ento dominava no Oriente. Preten-
diam eles ater-se  "verdade" literal da palavra de Deus, abstendo-se de toda
interpretao, que, a seus olhos, s poderia ser fonte de alterao.
    Tal atitude encobria certas dificuldades, seno contradies, particularmente
no que se refere aos atributos de Deus;  a razo pela qual os Fukah' maliquitas


6    Morto no Cairo em 806, Ibn al-Ksim  autor de al-Mudawwna; principal livro do rito maliquita depois
     da famosa obra do im Mlik ben Anas, o Kitb al-Muwatta' (A senda suave).
7    Ver MONS, 1962, v. 1, p. 197-220
8    A respeito do maliquismo andaluz, ver GOLDZIHER, 1903.
9    A respeito desse exegeta cordobs, ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 1, p. 956-7.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                               21



eram acusados de "antropomorfismo", ou hashwya, isto , de ater-se unicamente
aos sinais exteriores, ligando-se servilmente s cincias das aplicaes jurdicas,
colocando a salvao dos fiis na prtica exterior das prescries da lei e des-
considerando totalmente a vida religiosa interior.
    Assim, nenhuma tentativa de renovao ou de aprofundamento pde fruti-
ficar, e a dominao dos maliquitas, exclusiva e perseguidora, isolou os poucos
adeptos das vias de reflexo e de busca que no Oriente tinham terminado por
triunfar. Esse imobilismo suscitou reaes extremas em nome da liberdade de
pensamento e at mesmo em defesa de uma espcie de religio universal, criando
um paralelismo que exclua qualquer tentativa de sntese10. Fazia grande falta no
Magreb a teologia especulativa asharita, que tendia a se colocar entre o espiritu-
alismo intelectualista dos mutazilitas e o literalismo "antropomorfista". Mesmo
os filsofos do Ocidente muulmano, como Ibn Rushd (Averris), incitavam as
populaes a esse paralelismo, aclamando a massa dos fiis refratria  especula-
o e acusando os asharitas de perturbar a f dos simples. Faziam, assim, o jogo
dos maliquitas, que demonstravam grande tolerncia para com eles.
    Concluindo, a ortodoxia islmica no Magreb e na Andaluzia (al-Andalus)
reduzia-se,  poca de Ibn Tmart, a uma doutrina caracterizada por preocu-
paes normativas, da qual se excluam inquietaes e mistrios. A religio
tornou-se uma questo de previso, de clculo e de "capitalizao"; foi o triunfo
do ritualismo, limitado  repetio montona de certos ritos que asseguravam,
em troca, uma "remunerao". No  de admirar, portanto, que grandes esp-
ritos como al-Ghazzl e Ibn Hazm tenham considerado essa prtica do Isl,
reduzido a uma atividade ritualstica e codificadora, como ameaa  verdadeira
f11. Al-Ghazzl, em particular, critica violentamente essa espcie de fukah'
em sua famosa obra Ihy' `ulm al-dn (Vivificao das cincias da religio), ao
acusar os maliquitas de fazer da vida religiosa um monoplio e tirar proveito
da administrao de montepios religiosos e dos bens dos rfos para enrique-
cimento prprio. Critica igualmente a casustica que utilizavam para justificar
os atos do poder temporal, ao qual estavam ligados por servilismo indigno dos
verdadeiros homens de religio. Seu formalismo dessecado foi rejeitado em favor
do retorno e do acesso  "gua vivificante" das fontes que constituam a suna e o
Coro. Por essa razo, al-Ghazzl foi alvo de intensa hostilidade por parte dos
fukah' maliquitas, sendo absurdamente acusado de trocar a verdadeira f pela
sua dogmtica asharita e por suas tendncias msticas.

10   Sobre Ibn Masarra, morto em 931, ver Encyclopaedia of Islam, v. 3, p. 868-72.
11   Ver MERAD, 1960-1961, v. 17-19, p. 379.
22                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



     A formao de Ibn Tmart
    Pouco sabemos sobre a vida de Ibn Tmart12; seu destino foi tal que passou
 posteridade rodeado de lendas, mistrios e fabulaes. Teria nascido em torno
de 1075 no Antiatlas marroquino, em gllz-n-Hargha (Idjli-en-Warghn). Seu
pai pertencia  cabila dos Hargha13 e sua me  dos Masakkla, ambas fraes
do grupo Masmda, atualmente conhecido pelo nome de Shleh (Shlh). As
necessidades ideolgicas de sua predicao e suas pretenses mahdistas fizeram
com que ele se atribusse  ou se fizesse atribuir  nome rabe e ascendncia
xarifina (mas com interferncias berberes)14.
    Contudo, devia pertencer a uma famlia abastada, pois seu pai ostentava o
ttulo de amghar, que, no sul do Marrocos, designava o chefe de aldeia ou de
cabila. Alm disso, teve condies para instruir-se e completar seus estudos no
Oriente. Segundo Ibn Khaldn15, a famlia de Ibn Tmart distinguia-se por
sua devoo; ele mesmo mereceu o epteto de asafu (tocha, em shleh) por sua
assiduidade no estudo e na orao.
    Em 1107, Ibn Tmart partiu para um longo priplo com a finalidade de
completar seu aprendizado; o itinerrio, as etapas e a extenso real dessa via-
gem so objeto de muita controvrsia e de inmeras verses16. Por outro lado,
contrariamente  hagiografia tumartiana17, ficou provado que ele no encontrou
al-Ghazzl, o grande im mstico, nem seguiu seus ensinamentos e muito
menos dele recebeu a misso de reformar o Isl no Magreb ou de eliminar o
poder dos Almorvidas18.
    A invocao e a apropriao do prestgio de al-Ghazzl foram, na verdade,
bastante tardias: seu nome s aparece, como ponto de partida da carreira de Ibn
Tmart, no preciso momento em que se extingue a antipatia que os fukah' do
Magreb alimentavam pelo sistema teolgico do grande im oriental19.



12   Sobre Ibn Tmart, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 3, p. 958-60.
13   Sobre as questes relativas a essa cabila berbere, ver LVI-PROVENAL, 1928b, p. 55, e MONTAGNE,
     1930, p. 64; ver tb. o excelente artigo da Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 3, p. 207.
14   O mesmo ocorreu com seu pai, que de Tmart Ibn Ugallid passou a `Abd-Allh.
15   IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 163.
16   Ver, por exemplo, IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 4, e IBN KUNFUDH, 1968, p. 100.
17   Ver IBN AL-ATHR (reed. 1876-1891), v. 10, p. 400-7 que nega o encontro, e principalmente HUICI
     MIRANDA, 1949, v. 14, p. 342-5.
18   Ver IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 14-8, e LE TOURNEAU, 1969, p. 79, citando al-Hulal
     al-Mawshiyya.
19   Ver GOLDZIHER, 1903.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                 23



    A carreira de Ibn Tmart pode ser dividida em vrias etapas. Foi sucessiva-
mente o censor de costumes, o telogo que se imps em Marrakech, o chefe de
uma nova escola em Aghmt e finalmente o chefe de um partido-comunidade
 e candidato ao poder  solidamente protegido pelos muros de Tnmallal, em
plena montanha.
    Na Ifrkiya, seu saber e devoo foram, ao que parece, objeto de grande
admirao; nas vrias cidades em que se deteve, multides cada vez maiores
teriam se reunido para ouvi-lo.
    No curso de sua viagem para o oeste, a etapa de Bidjya (atual Bougie), bri-
lhante e prspera capital dos Hamdidas onde os costumes eram particulamente
livres, constitui o ponto culminante das intervenes de Ibn Tmart como cen-
sor de costumes. Sabendo-se em perigo, partiu para Mallla, nos arredores de
Bidjya, onde, ao que parece, passou longo perodo mergulhado no estudo e na
reflexo.
    Por seu significado ulterior, essa etapa reveste-se de grande importncia: foi
ali que Ibn Tmart encontrou-se com seu futuro sucessor, `Abd al-M'min ben
`Al ben `Alw ben Ya`l al-Km Ab Muhammad20, que ento se dirigia para
o Oriente em viagem de estudos. Este foi demovido da ideia de prosseguir e
permaneceu ao lado de Ibn Tmart. O encontro foi rodeado de lendas e de um
simbolismo misterioso; certo , porm, que a partir da Ibn Tmart no estava
mais s: fazendo-se acompanhar de um grupo cada vez maior de seguidores, sua
marcha para oeste torna-se, ao que parece, mais organizada.
    s sesses improvisadas de ensino e de discusso sucederam encontros com
religiosos. Ibn Tmart comea a receber informaes sobre o extremo Magreb
e talvez at alguns emissrios. A cada parada fazia novos contatos21.
    Ao passar de Sala' (atual Sal) para Marrakech, Ibn Tmart recusa -se a
pagar o direito de passagem; na capital almorvida tem lugar a famosa sesso
de confrontos intelectuais com os fukah' da corte, durante a qual, na presena
do emir almorvida `Al Ibn Ysuf, reduziu ao silncio seus adversrios, os quais
dominavam o soberano.
    Ultrapassando, assim, o domnio teolgico, as crticas de Ibn Tmart
tornavam-se perigosas, o que levou o vizir Mlik Ibn Wuhaib a sugerir que
ele fosse eliminado; no entanto, outro personagem da corte, Yintn ben `Umar,
tomou-o sob sua proteo e o persuadiu a fugir da capital. Ele parte, ento, para


20   Sobre `Abd al-M'min e seu pas, ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 1, p. 78-80.
21   Um mapa do itinerrio de Ibn Tmart seria interessante por vrios motivos, principalmente se comparado
     ao roteiro da marcha conquistadora de `Abd al-M'min rumo leste, mais tarde.
24                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



Aghmt22, onde tem incio nova fase de sua carreira: nessa cidade, Ibn Tmart
rebela-se abertamente contra os Almorvidas, recusando-se a retornar a Mar-
rakech quando o emir assim o ordena.
   A partir da, as preocupaes de Ibn Tmart concentram-se na organizao
e implantao efetiva de um movimento  o movimento almada  cujo projeto
poltico, a derrubada do regime almorvida, dia aps dia vai tomando corpo. Ibn
Tmart torna-se progressivamente o chefe espiritual de foras cada vez mais
numerosas, unidas, a essa altura, mais por sentimentos tribais antialmorvidas
que por preocupaes quanto  pureza da lei ou ao rigor da prtica islmica.

     A reforma almada de Ibn Tmart
    Os princpios, as ideias e a formulao da reforma de Ibn Tmart em mat-
ria de moral, de dogmtica teolgica e de legislao parecem ter amadurecido
progressivamente durante sua viagem de estudos ao Oriente, no caminho de
regresso ao extremo Magreb e nos contatos com seus companheiros, cada vez
mais numerosos, com os quais finalmente se instala em seu pas natal23.
    O primeiro princpio dizia respeito, evidentemente, ao tawhd (afirmao da
unicidade de Deus), que, segundo escreve,  a "afirmao de um Deus nico e a
negao de tudo o que no  Ele: divindade, associado, santo, dolo"24. Baseando-se
em vrios hadth, afirmava que o tawhd era o primeiro dentre os conhecimentos
obrigatrios, pelas trs razes seguintes:  um dos fundamentos da religio, a
mais importante das obrigaes e a religio dos primeiros e dos ltimos profetas.
    Os Almadas (corruptela de al-Muwahhidn, que significa crentes da unici-
dade de Deus  al-Muwahhd) pregavam um misticismo marcado pela influn-
cia de al-Ghazzl; tratava-se, com efeito, de um retorno s fontes do Isl como
reao aos Almorvidas, mais ligados  jurisprudncia e ao estudo dos textos que
 busca de uma lei despojada. Os almadas distinguiam-se pela austeridade de
costumes e pela sobriedade, qualidades muito apreciadas pelos berberes, povo
rural pouco afeito ao luxo. Importante  notar que o mahd utilizava a lngua


22   Sobre Aghmat, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 250-1, e DEVISSE, 1972, p. 63, 66 e 70.
23   515/1121*: gllz, sua aldeia natal, onde se instalou em uma caverna declarada a partir da al-Ghr
     al-mukaddas (caverna sagrada); 517/1123: Tinmallal, no vale superior do Nfis, a aproximadamente 75
     km a sudoeste de Marrakech.
     *Alguns acontecimentos do mundo muulmano foram indicados com duas datas (por exemplo: 515/1121).
     A primeira (515) se refere ao calendrio muulmano (que teve incio em 622 da era crist, por ocasio da
     Hgira, quando Maom se retira de Meca para Medina), e a segunda (1121) ao calendrio cristo. (N. da
     Ed.)
24   IBN TMART, trad. francesa, 1903, p. 271.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                 25



berbere em suas pregaes: at mesmo redigiu opsculos em sua lngua materna.
No plano poltico, apoiava-se no conselho dos notveis,  maneira berbere, per-
manecendo fiel s regras do kabla Shleh.
    Ibn Tmart adotou as ideias dos mutazilitas, que consideravam Al como
puro esprito25, e preconizou a interpretao alegrica de certos versculos do
Coro, tidos como ambguos, em que eram empregados termos e frmulas de
carter material ou humano, principalmente no que diz respeito aos atributos de
Deus. Para ele, o importante no era exigir o respeito  literalidade de expres-
ses que beiravam os limites da razo humana, mas recorrer  interpretao
alegrica, a qual exclua o tashbh (comparao) e o taklif (modalidade).  este
um dos pontos essenciais de sua condenao aos Almorvidas26. Considerava-os
infiis porque eram culpados, particularmente, de "tadjsm" (antropomorfismo).
Nesta questo Ibn Tmart mostrava-se radical, apontando sistematicamente
para a excomunho, j que, por princpio, atribua aos que detinham o poder a
responsabilidade pela conduta de seus sditos, o que fazia dos Almorvidas os
principais culpados pelo antropomorfismo corrente no Magreb. Assim, procla-
mava que deviam ser combatidos numa guerra santa (djihd), no que seguia as
posies asharitas e mutazilitas mais extremas.
     O tawhd de Ibn Tmart fazia-o negar a prpria existncia dos atributos de
Deus e criticar duramente aqueles a quem denominava mushrikn (associacio-
nistas, isto , aqueles que conferem atributos a Deus). Opunha-se, ao mesmo
tempo, aos asharitas  segundo os quais Deus tinha atributos eternos inerentes 
sua essncia  e aos tradicionalistas  para os quais esses atributos eram distintos
da essncia divina.
    Para ele, os eptetos dados a Deus, al-asm' al-husn (os mais belos nomes),
no passavam de qualidades destinadas a confirmar sua unicidade absoluta.
Assim, o criador era, necessariamente, vivo, sbio, poderoso, dotado de vontade,
e tudo isso sem que se possa apreender a modalidade dessas qualidades27.
    Aps ter demonstrado a unicidade de Deus, Ibn Tmart preocupa-se em des-
tacar sua eternidade: Deus  o criador e nada o pode preceder; , pois, o primeiro,
sem ter comeo, e o ltimo, sem ter fim28. Tambm d nfase especial  onipotn-

25   Ver a carta de Ibn Tmart  comunidade almada in LVI-PROVENAL, 1928a, p. 78, na qual adverte
     seus adeptos contra a tendncia de ligar Deus aos limites e s direes, o que teria por consequncia
     aproximar a divindade de uma criatura; aquele que chegasse a esse ponto seria como que o adorador de
     um dolo.
26   Ver BOUROUIBA, 1973, p. 145.
27   IBN TMART, trad. francesa, 1903, p. 235.
28   Ibid., p. 232.
26                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



cia divina, temperada pelo fato de que Deus s impe s criaturas aquilo que est
no mbito das possibilidades destas; essa afirmao aproxima-o dos mutazilitas.
    Quanto ao conceito de misso proftica, Ibn Tmart adotava o ponto de vista
dos sunitas, que reconheciam a veracidade do enviado de Deus atravs de sinais
extraordinrios, as provas (yt). Ao abordar uma questo to crucial quanto
a da predestinao, que podia ter  e teve  implicaes polticas, Ibn Tmart
afastou-se do dualismo mutazilita (onipotncia e justia de Deus); a despeito
de sua afirmao da sabedoria divina, admitiu a predestinao.
    H um elemento da doutrina tumartiana que se desviava nitidamente das
posies sunitas:  a crena num mahd (o guia impecvel), que  guiado por Deus.
As tradies relativas ao mahd remontam ao Profeta, a quem se atribuem hadth
que anunciam a vinda de um restaurador, de um redentor, pertencente  famlia do
Profeta. Para os sunitas, o mahd s dever aparecer  vspera do fim dos tempos,
para restabelecer e aplicar a verdadeira religio. Para os xiitas,  um im oculto
que deve reaparecer e governar pessoalmente por direito divino. Entre as classes
populares, a crena no mahd era bastante difundida por simbolizar a justia; essa
esperana  ainda atestada no sculo XIV por Ibn Khaldn29 em Massa, no Ss.
    Ibn Tmart situa sua prpria misso de im imediatamente aps a morte de
`Al, ocorrida em 661 ; , pois, obrigatrio obedec-lo cegamente em tudo o que
concerne  religio e s coisas deste mundo, imit-lo em todos os seus gestos,
aceitar suas decises e a ele se dirigir em qualquer situao. Obedecer ao mahd
 obedecer a Deus e ao seu Profeta, pela simples razo de ser o mahd aquele
que melhor conhece Deus e seu Profeta. Para alguns, o fato de Ibn Tmart ter-
-se proclamado mahdi corresponderia  culminao lgica de sua vocao para
exaltar o bem e proibir o mal; para outros, no teria feito mais do que utilizar-
-se de tradies e crenas locais30 revestidas de referncias islmicas, invocando
hadth provavelmente apcrifos que anunciavam um papel excepcional para o
povo do Magreb. Essas duas hipteses no so necessariamente contraditrias.
 preciso ressaltar, no entanto, que o credo do mahdismo suspende, por assim
dizer, aqueles aspectos da doutrina almada que poderiam levar a um aprofun-
damento teolgico suscetvel de enriquecer o Isl, ento superficial e formalista.
    Ibn Tmart rejeita a apreciao individual, julgando-a fonte de erro; nisso
adota uma postura idntica  dos zairitas. Para responder  objeo implcita




29   IBN KHALDN,trad. francesa, 1863-1868, v. 2, p. 200.
30   Por exemplo, Slih, profeta dos Barghawta, e H-Mm, profeta do Rif.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                           27



relativa  shahda (testemunho), ele acrescenta que esta no constitui um prin-
cpio absoluto (asl), mas simplesmente uma indicao de valor relativo31.
    Assim, as fontes que devem ser utilizadas no estabelecimento das leis da
religio so, para Ibn Tmart, o Coro e a suna e, em certas circunstncias, o
consenso e o raciocnio por analogia. Quanto aos hadth, sua preferncia recai
sobre o povo de Medina, fato que vem comprovar sua preocupao que mani-
festa em se aferrar s fontes mais prximas do Profeta. No podemos concordar
com I. Goldziher32 quando relaciona o interesse de Ibn Tmart pela tradio
e pela prtica medinenses com o desejo de manter boas relaes com a escola
maliquita. Ibn Tmart limita o idjm (consenso) aos companheiros do Profeta;
com relao ao kiys (analogia), sua posio  prudente: condena, efetivamente,
o al-kiys akli (analogia especulativa).
    Aps ter enumerado as fontes do direito muulmano (fikh), Ibn Tmart
prega sua utilizao direta e condena o uso exclusivo dos tratados de fur (tra-
tados de aplicaes jurdicas);  a ocasio, para ele, de criticar os doutores almo-
rvidas, culpados, a seus olhos, de negligenciarem e abandonarem as tradies,
por vezes at desprezando-as.
    Para Ibn Tmart, o fikh deve ser modificado e enriquecido, pois o idjtihd
no termina com Malik e outros chefes de escola; qualquer pessoa versada na
cincia do usl al-fikh (fundamentos, fontes da lei) pode deduzir por si prprio a
lei das fontes. O mahd condena a filiao a uma escola jurdica (madhhab), pois,
segundo diz,  absurdo que haja grande variedade de opinies acerca da mesma
questo. Seguindo a mesma linha de raciocnio, sublinha a impossibilidade de
se reduzir a casos particulares uma ordem expressa de forma generalizada, ideia
que compartilha com os zairitas.

     A organizao do movimento almada: um partido de propaganda,
     de doutrinao e de combate
   Foi provavelmente a partir de seu retiro em Aghmt que Ibn Tmart viu-se pro-
gressivamente  frente de um movimento que iria se expandir para alcanar objetivos
no apenas religiosos mas tambm polticos, e ao qual iriam se engajar as populaes
do Atlas.  provavelmente nessa perspectiva que Ibn Tmart alimentou a ideia
de tornar-se mahd; pois logo aps seu regresso a gllz, em 1121, empenhou-se
em imitar o comportamento do Profeta  entre outras coisas, instalando-se numa


31   GOLDZIHER, 1903, p. 46.
32   Ibid., p. 50.
28                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



caverna  e, desse modo, preparar os espritos ao advento do mahd, que outro no
seria seno ele prprio. Fez-se proclamar mahd por dez de seus companheiros, entre
eles `Abd al-M'min, fato que evoca os al-`Ashara al-Mubashshara (os dez a quem
foi prometido o paraso)33. A proclamao aconteceu sob uma rvore, como a bay `a
em al-Ridwn. As expedies de Ibn Tmart so denominadas maghzi; como as
do Profeta; seu retiro em Tnmallal  designado por hidjra (hgira) e o povo dessa
localidade, os Ahl Tnmallal, so assimilados aos Ans.
    Partindo dessa organizao inicial, Ibn Tmart conquista a maior parte do
Antiatlas e do Ss atravs de escaramuas e de ataques-surpresa; todas as cabilas
dos Masmda estavam prontas a apoi-lo.
    No entanto, como a presso almorvida aumentava cada vez mais, Ibn Tmart
julgou mais prudente retirar-se para uma posio que oferecesse melhores con-
dies de defesa; assim, "emigra" para Tnmallal em 1123. Sua instalao nessa
localidade parece ter transcorrido de maneira violenta: os Ahl Tnmallal da
hierarquia almada aparecem como um grupo heterogneo, o que faz supor que
os antigos habitantes tenham sido liquidados e substitudos por um grupo de
partidrios almadas de diversas procedncias. Numa etapa seguinte, o movi-
mento almada aproveitou-se das dificuldades por que passavam os Almorvidas
na Espanha, bem como da hostilidade que contra estes manifestavam as cabilas
montanhesas, para se expandir e consolidar-se. No entanto, as fileiras almadas
sofreram vrias dissenses internas e os Masmda, fragmentados em inmeros
grupos, estavam despreparados para se incorporarem em federao mais ampla.
    Desde o incio, efetivamente, a estruturao partidria do movimento
estendeu-se ao funcionamento do Estado; por esse motivo, o estudo da orga-
nizao partidria pode constituir uma abordagem frutfera na elucidao das
bases do edifcio almada, bem como das orientaes e dos fatores que deter-
minaram o movimento.
    Os "Dez" distinguiam-se pela cincia, pela capacidade de organizao e
pelo esprito de sacrifcio; foram companheiros de Ibn Tmart antes de este
proclamar-se mahd34, salvo Ab Hafs `Umar Ibn Yahy al-Hintt; cooptado
aps o tawhd, proveniente de Hintta, numeroso grupo de kabla das quais era
um dos principais chefes35. Constata-se, alis, que esse grupo no abrigava um
nico membro dos Hargha.



33   Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 693.
34   IBN `IDHRI AL-MARRKUSH, 1949, p. 188; IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 113.
35   IBN AL-KATTAN, s.d. (1964?), p. 87; HUICI MlRANDA, 1956b, v. 1, p. 103.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                            29




Figura 2.2 Muro ocidental (kibla) da mesquita em Tnmallal (Marrocos). Primeiro grande lugar de orao
da comunidade almada, a mesquita  exemplo da austeridade arquitetnica e decorativa que os Almadas
desejavam impor. (Foto J.-L. Arbey.)




Figura 2.3   Ptio interno da mesquita em Tnmallal. (Foto J.-L. Arbey.)
30                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



    A constituio dos "Cinquenta" (Ahl al-Khamsn), por sua vez, operou-se pro-
gressivamente36. Os Cinquenta representavam as cabilas almadas que estiveram 
base do movimento, integrando-se a este em diferentes momentos37; os Haskura,
por exemplo, s aderiram ao movimento sob o reino de `Abd al-M'min38. Isso
nos inclina a pensar que o conselho j devia estar em gestao em gllz e come-
ou a adquirir sua forma funcional em Tnmallal39. Certas cabilas devem ter tido
representao nesse conselho antes de sua incorporao coletiva.
    O grupo dos talaba parece ter sido anterior aos dois precedentes.
Al-Marrkush40 relata que, antes de Ibn Tmart proclamar-se mahd; enviava
s cabilas homens cujo esprito ele apreciava, no intuito de conseguir adeses
 sua causa. Esses talaba foram, assim, os propagadores do movimento, e sua
atividade deveria se prolongar aps a proclamao de Ibn Tmart41.
    Cada um desses organismos tinha funo especfica, fato que nos ajuda a
visualiz-los com maior clareza.

     Os Dez  Ahl alDjam`a
    O duplo nome que as fontes atribuem a esse conselho42  `ashara (os Dez)
e Ahl al-Djam`a (literalmente, povo da comunidade) torna difcil saber se a
designao se refere  instituio ou ao nmero de membros que a compem,
que varia conforme a fonte. Registram-se os nmeros sete, dez e doze43, o que
sugere que o nmero dez tenha sido atribudo ao conselho por uma preocupao
de analogia aos companheiros do Profeta. O nmero real e a composio devem
ter variado devido a excluses, como a de al-Fakh al-Ifrki44, ou a substituies.
Por outro lado, certos autores45 indicam personagens que pertencem ao mesmo
tempo aos Dez e aos Ahl al-Dar (as "pessoas da casa" ou conselho particular
do mahd), o que implica certa flexibilidade e uma circulao funcional entre

36   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 35-6.
37   Ibid., p. 28; IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 28, 92-3.
38   Ibid., p. 76; IBN KHALDN, trad. francesa, 1956, v. 6, p. 476.
39   HUICI MIRANDA, 1956b, v. 1, p. 103.
40   IBN `IDHR AL-MARRKUSH, 1949, p. 187.
41   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 132; IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 84-93.
42   Ver LVI-PROVENAL, 1928a; al-Baydhak chama-os apenas Ahl al-Djam`a. Ver IBN `IDHR
     AL-MARRKUSH, 1949, p. 188 e 337; IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 28, 30, 74 e 76; IBN AB
     ZAR` , trad. latina, 1843, p. 113.
43   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 97.
44   Ibid., p. 97.
45   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 34.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                    31



os dois organismos. A ordem em que so citados os membros do Conselho
dos Dez varia segundo a fonte e pouco nos auxilia a apreender a importncia
e o papel de cada um deles. A maior parte das fontes atribui a chefia a `Abd
al-M'min, talvez por se tratar do sucessor do mahd; alguns autores, entretanto,
colocam nessa posio `Abd al-Wahd Ash-Shark, ou, ainda, o famoso al-Bashir
al-Wanshars; arquiteto do conhecido tamyz (1128-1129), que, ao que parece,
teria sido a pessoa mais bem colocada para suceder a Ibn Tmart, caso no
tivesse morrido na batalha de al-Buhayra46.
    Os membros do Conselho dos Dez ou Ahl al-Djam`a eram, de certo modo,
o ministrio do mahd; eram homens de confiana que ele consultava acerca
de questes importantes, encarregados de pr em prtica as grandes decises47.
Dentre eles, al-Bashr (com frequncia), `Abd al-M'min, `Umar Asnadj e Ms
Ibn Tamara (em algumas ocasies) desempenharam o papel de comandantes
militares48. Outros foram secretrios, cdis49 etc.

     O Conselho dos Cinquenta  Ahl alKhamsn
    Seguiam-se ento os conselhos consultivos, dos quais o mais importante parece
ter sido o Conselho dos Cinquenta (Ahl al-Khamsn); o nmero cinquenta consti-
tui um ponto de partida sobre o qual a maioria das fontes esto de acordo; todavia,
algumas exibem os nmeros sete, quarenta e setenta50. Como j foi exposto, o con-
selho representava as cabilas afiliadas ao movimento; ora, o movimento de adeso
faz supor certa flutuao no nmero de membros, o que explicaria as cifras de
quarenta a setenta51 encontradas nos documentos. Enfim, os sete, conforme algu-
mas fontes52, constituiriam um subgrupo do Conselho dos Cinquenta, onde repre-
sentariam as trs mais importantes cabilas, a saber, os Hargha, os Ahl-Tnmallal e
os Hintta. Quanto ao nmero setenta, poderia ter resultado da combinao entre
o Conselho dos Cinquenta e outra instituio almada53.


46   Ver MUSA, 1969, v. 23, p. 59 e nota 42; LVI-PROVENAL, 1928a, p. 36; IBN AL-KATTN, s.d.
     (1964?) , p. 102-3; HUICI MIRANDA, 1956b, v. 1, p. 101.
47   Ver IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 74, 81 e 117; e al-Hulal al-Mawshiyya, trad. francesa, 1936, p. 88.
48   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 75; IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 117.
49   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 33; IBN `IDHR AL-MARRKUSH, 1949, p. 338.
50   IBN AL-KATTN, s.d, (1964?), p. 28-9 e 32.
51   Em 524/1130, mais de dez pessoas foram acrescentadas ao Conselho dos Cinquenta aps o expurgo;
     LVI-PROVENAL, 1928b, p. 35.
52   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 30-1; LVI-PROVENAL, 1928b, p. 33-5.
53   Os Cinquenta e o Ahl al-Djam`a, ou os Cinqenta e o Ahl al-Dar; ver HOPKINS, 1958, p. 90.
32                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



   Os grupos majoritrios eram os Ahl-Tnmallal, grupo misto aliado aos
Hintta desde o incio do movimento, os Hargha (a cabila do mahd) e os
Djanfsa54. Os Cinquenta eram descritos como sendo as pessoas que Ibn Tmart
consultava e com as quais se aconselhava (ashab mashwaratihi)55.

     As talaba
    Essa palavra, cuja origem as fontes no nos revelam, , ao que parece, inven-
o almada56. Na poca em que o mahd ainda estava vivo j havia numerosas
talaba. Em 1121, foi grande o nmero de talaba enviado ao Ss57, o que faz pensar
tratar-se de discpulos de Ibn Tmart formados e instrudos durante as inmeras
discusses e controvrsias animadas pelo mahd no curso de sua viagem de regresso
ao Marrocos. Ao passar por Marrakech atraiu ainda mais seguidores; o ensino que
a eles dispensou em gllz, durante cerca de um ano antes de sua proclamao
como mahd, deve ter contribudo para consolidar esse corpo de discpulos58.

     AlKaffa
     a palavra que designa o conjunto dos almadas. Esta instncia tampouco
permaneceu desorganizada, j que Ibn Tmart fez da cabila uma unidade pol-
tica e religiosa. Colocou  testa de cada dezena de pessoas um nakb59, proce-
dendo a constantes revistas 'ard). Entre os almadas, cada categoria correspondia
a um posto (rutba), que eram em nmero de 14 segundo Ibn al-Kattn60.
    Essas formas de organizao permitiram doutrinamento intenso frequen-
temente eficaz, cujos propsitos eram, a um tempo, inculcar nos almadas um
sentimento de exclusividade e uma atitude de sistemtica e violenta hostilidade
em relao aos no-almadas. Essa dupla atitude deveria assegurar uma perfeita
obedincia, como a que emanava do sistema de educao. Este fundava-se em trs
elementos: as ideias de Ibn Tmart, as fontes e as vias de acesso ao conhecimento



54   Ver MUSA, 1969, v. 23, p. 63.
55   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 75 e 81; IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 114.
56   IBN `IDHR AL-MARRKUSH, in HUICI MIRANDA, 1965, v. 3, p. 18.
57   1500, segundo IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 113.
58   Ver IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 87 e 93; LVI-PROVENAL, 1928b, p. 132; IBN AB ZAR`
     trad. latina, 1843, p. 113; AL-SALW, 1894, v. 2, p. 92.
59   Ver IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 27; al-Hull al-Mawshiyya, trad. francesa, 1936, p. 89, onde se l que
     o nakb era tambm chamado de mizwr. Sobre isso, consultar IBN AL-KATTN, 1316, AH, v. I, p. 93.
60   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 28-9 e 81.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                        33



que contavam com seu beneplcito e os mtodos de aprendizado que ele havia
elaborado.
    As ideias de Ibn Tmart no podem ser reduzidas a qualquer outra dou-
trina j elaborada. Elas se distinguem por sutil ecletismo doutrinal que parece
ter favorecido, entre os almadas, o sentimento de exclusividade, de unidade e
mesmo de isolamento nessa exclusividade  na verdadeira f  com relao a
todos os outros muulmanos. A doutrina tumartiana rompeu totalmente com
as prticas adotadas pelo maliquismo61. Os almadas deviam se distinguir dos
outros at no vestir, evitando os lugares onde os homens no acreditassem na
uni cidade de Deus62 e unindo-se aos seus irmos na verdadeira religio.
    Tudo isso foi incansavelmente transmitido pelo mahd, sob a forma de prele-
es, inicialmente, e depois de tratados abundantemente comentados. Preocupava-
-se em unir cincia e ao (`ilm e `amal), utilizando o rabe e o berbere63 e
modulando sua ao formadora em funo dos diferentes nveis de inteleco64.
Esses mtodos de formao pautavam-se por uma severidade muitas vezes exces-
siva, a qual assegurava uma obedincia cega que podia levar um almada a exe-
cutar seu pai, irmo ou filho, caso isso lhe fosse ordenado. Um tal rigor no raro
traduzia-se por expurgos, que por vezes constituam verdadeiras carnificinas65.
    A organizao almada no permaneceu imutvel. Aps a morte de Ibn
Tmart, os Ahl al-Djam` e os Ahl al-Khamsn s so mencionados por ocasio
da bay` a (compromisso de fidelidade) a `Abd al-M'min, o que leva a supor que
este ltimo tenha suprimido os dois conselhos. De fato, Ibn Tmart morreu
aps a grande derrota de al-Buhayra, e sua sucesso parece ter abalado a unidade
almada, `Abd al-M'min, que ao que parece viu-se bastante isolado, deve ter
julgado mais hbil colaborar com indivduos pertencentes a essas instituies,
sem, no entanto, consider-las como tais66.  o que poderia explicar o apare-
cimento do conselho dos xeques almadas, que aparentemente suplantou os
conselhos dos Ahl al-Djam`a e dos Ahl al-Khamsn. Essa reorganizao ttica




61   IBN TMART, trad. francesa, 1903, p. 258-64, 266-7, 290 e 296; IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p.
     42, 46 e 85.
62   IBN TMART, trad. francesa, 1903, p. 261, 263-4.
63   IBN `IDHR AL-MARRKUSH, 1949, p. 188; IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 114.
64   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 24, 29 e 103; IBN `IDHR AL-MARRKUSH, 1949, p. 191;
     IBN AB ZAR`,trad. latina, 1843, p. 118-9.
65   MUSA, 1969, v. 23, p. 71-2.
66   HUICI MIRANDA, 1956b, v. 1, p. 102.
34                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 2.4 Minarete da mesquita Hasan (inacabada) em Rabat; belo exemplo da escultura decorativa dos
Almadas. (Foto J. Devisse.)
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                   35



parece encontrar-se na origem do descontentamento dos dignitrios almadas,
manifestado pela revolta de Ibn Mlwiya em 113367.
    Os xeques, cujo papel crescia em importncia, tinham tendncia a constituir
um poder paralelo ao dos califas; isso levou o califa al-Nsir a desferir rude golpe
no prestgio daqueles s vsperas da batalha de Las Navas de Tolosa, o que pode
ter sido uma das causas dessa grave derrota68. O enfraquecimento do califado
almada deveria lhes dar novo alento; constituram, ento, uma espcie de "cl"
cuja presso tornou-se insuportvel para o califa al-Ma'mn, que terminou por
suprimir o credo no mahd.
    A maior parte dos xeques descendiam dos membros dos Ahl al-Djam`a e dos
Ahl al-Khamsn69, em particular dos Hintta e dos habitantes de Tnmallal; j
entre os Hargha, ao que parece, no houve nenhum xeque influente, o que teria
originado a revolta dos dois irmos do mahd. O conselho dos xeques parece
ter sido uma estrutura constituda para ampliar a base do movimento almada;
efetivamente, serviu de modelo para a organizao de novos setores afiliados.
Assim, aparecem o conselho dos xeques rabes70 e o conselho dos xeques anda-
luzes do Djund71, cujo papel era, entretanto, eminentemente militar.
    O corpo dos talaba foi objeto de especial ateno por parte de `Abd al-M'min.
A atuao destes como propagandistas continua importante aps a tomada de
Marrakech, conforme demonstram as cartas oficiais  entre as quais a missiva
enviada por `Abd al-M'min aos talaba da Andaluzia em 543/1148. Entretanto, eles
adquirem outras competncias e sua ao se exerce em diversos domnios: educao,
ensino, administrao e exrcito.  certo que `Abd al-M'min os incumbiu parti-
cularmente de "ordenar o bem e proibir o mal", mas, com a ampliao do imprio,
parecem assumir cada vez mais o papel de comissrios polticos e "ideolgicos",
principalmente no interior das foras armadas e em particular na marinha72.


67   IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?), v. 3, p. 240-1; IBN ABI ZAR` ,
     trad. latina, 1843, p. 169.
68   IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?) , v. 3, p. 85; IBN SHIB
     AL-SALT, 1964, p. 148, 324 e 399-400; IBN AL-ATHR, 1851-1876, V. 11, p. 186.
69   IBN KHALDN, 1956-1959, V. 6, p. 534, 542, 545-6.
70   IBN SHIB AL-SALT, 1964, p. 218, 399-400; IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-
     -Provenal, s.d. (1929?), v. 3, p. 85.
71   IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 226.
72   Ver o texto da carta in IBN AL-KATTN, s.d. (1964?), p. 150 et seq., e LVI-PROVENAL, 1941b, p.
     6, acerca de uma comisso de talaba encarregada de supervisar a construo da cidade de Djabal al-Fath;
     ver IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?), v. 4, p~ 43-4, sobre o papel
     administrativo dos talaba em Gafsa aps a retomada dessa cidade pelos almadas em 583/1187; ver
     LVI-PROVENAL, 1928a, p. 215.
36                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



   A atitude sectria dos almadas foi, certamente, mantida por longo tempo73;
entanto, parece ter se ressentido muito cedo do fator de isolamento poltico74, o
que explicaria o abandono do dogma do mahdismo por al-Ma'mn75.


     A unificao do Magreb pelos califas almadas mumnidas
    O movimento almada havia levado  organizao de um partido cujo projeto
poltico se tornava cada vez mais ntido: o estabelecimento de um novo poder
visando aplicar a reforma de Ibn Tmart. Os Almorvidas estavam conscientes
disso. Os incios do confronto foram marcados por trs eventos de importncia:
o fracasso dos Almorvidas contra Aghmt; a primeira vitria dos almadas em
Kik (1122)76, aps a qual fixam Marrakech como objetivo; o cerco a Marrakech,
em que os almadas so fragorosamente derrotados pela cavalaria almorvida na
batalha de al-Buhayra (522/1128)77 aps terem sitiado a cidade por quatro dias.
Essa batalha foi para os almadas um verdadeiro desastre: nela perdeu a vida
al-Bashr al-Wanshars, um dos principais companheiros de Ibn Tmart; `Abd
al-M'min ficou gravemente ferido e com grande esforo conseguiu conduzir
os remanescentes das foras almadas at Tnmallal78.
    Foi em meio a estas circunstncias adversas que Ibn Tmart veio a falecer,
em 524/1130; a organizao de sua sucesso e a ascenso de `Abd al-M'min
ao poder em 527/1130 no devem ter transcorrido sem problemas. Ibn Tmart
foi enterrado em Tnmallal onde, segundo Leo, o Africano, seu tmulo ainda
era venerado cinco sculos mais tarde.

     O perodo de `A bd alM'min Ibn `A l e a fundao do imprio
     (11331163)
   O movimento almada certamente atravessou crise bastante longa aps a morte
de Ibn Tmart; pouco se sabe, todavia, sobre ela. A ascenso de `Abd al-M'min
ao poder foi objeto de diversas interpretaes, dentre as quais as "tribalistas" nos

73   Ver MUSA, 1969, v. 23, p. 23; IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?), v.
     3, p. 85.
74   Ibid., p. 291-2.
75   Ibid., p. 263-8; IBN KHALDN, 1956-1959, v. 6, p. 630-7; IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 167-8.
76   LVI-PROVENAL, 1928a, p. 122 et seq.
77   524/1130, segundo LVI-PROVENAL, in Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 3, p. 959.
78   Sobre a batalha de al-Buhayra, ver al-Hulal al-Mawshiyya, 1936, p. 94; LVI-PROVENAL, 1925, frag-
     mento 4; IBN AL-ATHR, nova ed., trad. latina, 1876-1891, v. 10, p. 407, e trad. francesa, 1901, p. 536.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                            37



parecem por demais superficiais. Em nossa opinio, Jean Devisse79 est correto ao
colocar no cerne da questo o papel de `Abd al-M'min ao lado de Ibn Tmart e
no seio do movimento, a partir do encontro ocorrido em Mallla. Nessa perspectiva,
sua ascenso  para a qual parece ter contribudo de maneira decisiva outro compa-
nheiro, Ab Hafs `Umar al-Hintt  deve ser vista como superao do messianismo
local, o que provavelmente correspondia a um projeto ideado pelo prprio `Abd
al-M'min. Estaria ele concretizando o sonho, acalentado desde Mallla, de ver o
Magreb reunificado na estrita observncia do Isl? Ou teria atuado como o edifica-
dor de um imprio em seu prprio interesse ou no de sua famlia? Ou, ainda  o que
parece mais provvel , teria ele concebido um plano para conciliar as duas coisas?
    No curso de um reino de 30 anos, `Abd al-M'min  tinha 35 anos de idade
quando subiu ao poder  vai pr em evidncia suas eminentes qualidades de
general, de estadista e de chefe enrgico de uma coalizo ainda heterognea.
Tais qualidades eram indispensveis para que desenvolvesse com sucesso a dupla
ao de djihd contra os Almorvidas e de organizao e consolidao do movi-
mento almada, cujo objetivo deveria ser a conquista do Magreb, sua submisso
e "pacificao" e a consolidao do seu poder poltico.
    Essa tarefa, que se revelou longa e difcil, foi cumprida metodicamente e em vrias
etapas, segundo uma estratgia bastante precisa em que se combinavam preocupa-
es militares e econmicas80. No pretendemos, aqui, apresentar todos os detalhes,
nem retraar todos os episdios, mas simplesmente ressaltar as etapas decisivas.

     A conquista do Marrocos
   A primeira etapa, que teve por objetivo assegurar a posse do Marrocos,
desenrolou-se em duas fases. Aps a derrota de al-Buhayra, `Abd al-M'min
procurou evitar as plancies, onde a cavalaria almorvida encontrava-se em posi-
o de vantagem, tratando de submeter as montanhas berberes no intuito de
apoderar-se das riquezas minerais e de controlar as vias comerciais81. Obtendo
a adeso de numerosas cabilas do Atlas82, submeteu o Ss e o Wd Dara (Dra),
regies essenciais para o lucrativo comrcio que os Almorvidas mantinham
com a frica subsaariana, e ali constituiu slida base de ataque e, eventualmente,


79   DEVISSE, comunicao sobre LE TOURNEAU, 1969.
80   Ibid.
81   Ver ROSENBERGER, 1970.
82   A opinio de LE TOURNEAU, 1969, p. 52, sobre a transigncia de `Abd al-M'min, deve ser vista com
     nuances.
                                                           38
                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 2.5   Mapa da reconquista almada (seg. O. Saidi)
A unificao do Magreb sob os Almadas                                           39



de recuo. Os almadas poderiam, assim, investir contra a linha de fortalezas
que, cercando o Alto Atlas, ao norte, defendiam o acesso s plancies e  capital.
    Deixando as plancies, o exrcito almada seguiu o caminho das montanhas
rumo nordeste83, manobra destinada a isolar o territrio almorvida central.
Durante os anos 1040-1041, assegurou-se da posse do Mdio Atlas e dos osis do
Tfllet84. Chegando ao norte do Marrocos e baseando-se no macio montanhoso
de Djebala, os almadas tomaram as fortalezas da regio de Tz. Partindo desta
slida posio, `Abd al-M'min empreendeu a conquista das cabilas submediterr-
neas da regio, e terminou por entrar em triunfo na sua prpria aldeia natal, Tagra.
Desse modo, as posies almorvidas encontravam-se totalmente franqueadas; a
estratgia de assdio tinha chegado a bom termo. Pesquisas recentes85 nos levam
a crer que esse itinerrio no tinha apenas valor militar, mas perseguia igualmente
objetivo econmico: as minas das montanhas, o centro nevrlgico da guerra.
    A partir de ento, `Abd al-M'min,  frente de foras considerveis e dispondo
sem dvida de importantes recursos, julgou-se preparado para enfrentar os almo-
rvidas nas plancies. As condies eram bastante favorveis a essa iniciativa. Em
1143, a sucesso de `Al Ibn Ysuf Ibn Tshfn provocou dissenses entre os chefes
lamtna e msufa, pilares do regime almorvida. Em 1145, a morte do catalo
Reverter (al-Ruburtayr), chefe das milcias crists dos almorvidas, privou estes
ltimos de um de seus generais mais devotados e hbeis. Finalmente, o tawhd
(adeso aos almadas) dos Zenta fez com que a balana pendesse em favor dos
almadas, que tomaram Tlemcen e obrigaram o emir almorvida Tshfn Ibn `Ali
a recuar para Or, onde morreu em consequncia de uma queda de cavalo.
    A essa altura, todo o Atlas  at o Rif , a costa mediterrnea e a por-
o ocidental do Magreb central tinham sido submetidos. O cerco almada
fechava-se sobre o territrio almorvida, onde o poder se encontrava cada vez
mais desorganizado. `Abd al-M'min empreendeu a organizao de suas novas
conquistas tomando por base o sistema poltico da comunidade almada. Estas
se mostraram indceis, e o novo califa precisou usar de extrema severidade para
reprimir revoltas e conjuraes86.
    `Abd al-M'min no obteve o apoio unnime dos almadas, que na poca ainda
no constituam um grupo homogneo; assim, enquanto alguns contestavam o
novo chefe, outros manifestavam veleidades de retornar  antiga liberdade. Com


83   LAROUI, 1970, p. 168.
84   Ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 78.
85   ROSENBERGER, 1964, p. 73.
86   MERAD, 1957, p. 114 et seq.
40                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 2.6 Porta da kasaba (fortaleza) de Udya, em Rabat, construda pelos Almadas diante da cidade
de Sala', para vigiar os territrios ainda no submetidos da costa atlntica do Marrocos (vista geral). (Foto
J.-L. Arbey.)




Figura. 2.7 Porta da kasaba de Udya em Rabat (detalhe). A decorao nos arcos de entrada monumentais
 encontrada em cidades da Espanha e do Marrocos. (Foto J.-L. Arbey.)
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                41



efeito, dois almadas  Ibn Mlwiyya, antigo xeque do Ahl al-Djam`a que repre-
sentava os Djanfsa, e `Abd al-`Aziz Ibn Karman al-Harghi, da prpria cabila de
Ibn Tmart  revoltaram-se, mas sem ameaar realmente o novo poder. Tambm
no desenrolar da prpria conquista, os almadas tiveram de enfrentar inmeras
revoltas e movimentos de resistncia, dentre os quais os mais importantes foram
o liderado por um personagem cognominado Masbgh al- Ydayn (o homem de
mos tingidas), na regio de Adjarsf (Guercif ) e de Fs, o de Ab Ya `la, da cabila
dos Izmsin (Sanhadja) e o de S`id dos Ghayyta, da regio de Tz.
    A despeito desses movimentos, os almadas acabaram por constituir um
poderio militar que controlava exatamente o eixo comercial  ento em franco
desenvolvimento  que ligava o Sudo  poro mediterrnea do Marrocos
oriental. A partir desse momento as revoltas suscetveis de persistir por certo
tempo no Ss e na regio de Ceuta a Agadir (Aghadr), zonas que ento tinham
se tornado economicamente secundrias, deixavam de representar real ameaa87,
tanto mais que os almadas, empenhados numa obra monumental, acumu-
lando vitrias e butins, mantinham-se solidamente unidos em torno de `Abd
al-M'min. Este, por sua vez, permanecia fiel  doutrina do mahd, abstinha-se
de inovaes e mantinha a seu lado os famosos xeques, guardies dos interesses
dos almadas e garantia da fidelidade destes.
    No entanto, deve-se medir a importncia da mudana pelo modo como foi
operada e pela reao das populaes atingidas. Os sucessos almadas foram, na
maior parte das vezes, episdios sangrentos; na conquista que empreenderam,
no h registro de ataques fulgurantes, de vitrias fceis ou de cidades impor-
tantes tomadas de assalto. A sociedade almorvida parecia ter estruturas relati-
vamente flexveis88: segundo o autor do al-Ans al-Mutrib bi-Rawd al-Kirts e o
do Hull (annimo)89, a poca almorvida era de calma e prosperidade; as popu-
laes certamente no consideravam os Almorvidas como prncipes mpios e
aceitavam bem o maliquismo. Desse modo, os almadas no poderiam ser per-
cebidos como libertadores  salvo, talvez, nas montanhas de Masmda  seno
por aqueles que, descontentes, procuravam escapar, ainda que provisoriamente,
das imposies do fisco. A maior parte das cidades  polos de desenvolvimento,
sem dvida  resistiu aos assaltos dos Almadas, que demoraram 15 anos para
submeter a totalidade do Marrocos. Assim, no  de admirar que a tomada de
Marrakech por `Abd al-M'min tenha sido sucedida por frequentes revoltas,

87   DEVISSE, comunicao sobre LE TOURNEAU, 1969.
88   AL-IDRS, 1866, p. 8, sobre Aghmt, Fs e Zarkashi.
89   IBN AB ZAR`, trad. latina, 1843, p. 108; al-Hull al-Mawshiyya, 1936, p. 115-6.
42                                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



encorajadas por inmeras cumplicidades e devidas, sem dvida, a motivos bem
mais determinantes que a devoo religiosa ao maliquismo. Exprimem, mais
provavelmente, a reao de uma sociedade radicalmente contestada por uma
comunidade "exclusivista" que se imps atravs de uma guerra implacvel.

     A conquista do Magreb central
    Aps ter restabelecido solidamente sua posio no extremo Magreb, `Abd
al-M'min julgou possvel estender suas conquistas, para alm dos limites das
possesses almorvidas, a todo o resto do Magreb. Antes de empreender o pro-
jeto, todavia, o califa foi chamado a intervir na Andaluzia, onde as populaes
j no suportavam mais a autoridade dos Almorvidas e o perigo castelhano
tornava-se cada vez maior90. J durante o cerco a Marrakech, o califa tinha
recebido uma deputao andaluza, aps obter a adeso de cidades como Jerez
(1144). Enviou ento um corpo expedicionrio do qual participaram dois irmos
do mahd, `Abd al-`Aziz e `Isa Amghar91. Seguiram-se outras adeses, dentre
as quais as de Sevilha e Crdoba, mas as provncias orientais mantiveram suas
reservas para com os Almadas;  a razo pela qual `Abd al-M'min, ao receber,
em 1150, uma delegao da Andaluzia que vinha prestar o juramento de fideli-
dade, no pensou em se engajar de imediato nos negcios da pennsula, olhando,
antes, para o leste. No se pode deixar de pensar que, por essa poca  meados
do sculo XII , o primeiro califa almada comeava a formular planos polticos
bastante precisos: garantir, antes de tudo, uma base slida atravs da unificao
do Magreb, depois lanar-se para alm do estreito de Gibraltar.
    A Ifrkiya via-se ameaada igualmente pelos cristos. Com efeito, o poder
das dinastias sanhadjianas de Kayrawn (Kairuan) e de Bidjya estava minado
na base por uma nova organizao do espao na Ifrkiya e no Magreb central,
a qual beneficiava os principados sanhadjianos e rabes do interior, enquanto
os normandos, liderados pelo rei das Duas Siclias, Rogrio II, firmavam p
nos principais portos do litoral. Uma expedio almada  Ifrkiya poderia,
desde ento, justificar-se, valendo-se, especialmente, do dever do djihd92. Aps
dois anos de preparativos, `Abd al-M'min dirigiu-se a Ceuta, e tudo levava a
crer que tinha a inteno de passar  Espanha. No entanto, fingindo retomar a

90   Sobre o incio do estabelecimento dos almadas na pennsula Ibrica, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed.,
     v. 1, p. 79.
91   Ver detalhes em IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 183-8.
92   A respeito do Magreb central e da Ifrkiya, no perodo que vai da metade do sculo VI ao sculo XII, ver
     IDRIS, 1962, v. 1, cap. 6, p. 303 et seq., p. 363 et seq. Sobre a conquista do Magreb central pelos almadas,
     h um bom resumo em BRIGNON et a!ii, 1967, p. 112.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                  43



Marrakech, tomou o caminho do leste (incio do vero de 1152) e, forando a
marcha, atingiu o Magreb central93.
    Comeou por tomar Argel, ocupando em seguida Bidjya, sem grandes dificul-
dades. Enviou, ento, um destacamento comandado por seu filho `Abd Allh para
capturar a antiga capital hamdida, a kal`a; este tomou a cidade  fora, saqueou-a e
passou a populao a fio de espada. Constantine, cidade onde o prncipe hamdida
Yahy Ibn `Abd al-`Aziz tinha buscado refgio, foi entregue pelo vizir do soberano
hamdida; de l enviou-se uma expedio contra os bedunos da regio. Durante
essas operaes, um certo Ab Kasaba, acompanhado dos Ban Zaldaww, reali-
zou contra Bidjya ataque muito semelhante a uma operao de comando desti-
nada a assassinar o califa. A represso foi intensa e `Abd al-M'min dispersou os
Sanhadja, os Luwata e os Kutama que se tinham unido a eles94.
    A mudana que se operava nos destinos do Magreb central alertou os rabes 
aliados ou clientes da Dinastia vencida dos Sanhadja , que acorreram em socorro
de Bidjya, no momento em que `Abd al-M'min iniciava o regresso ao extremo
Magreb. Rechaados pelos almadas e arrastados at a plancie de Setif, aps trs
dias de herica resistncia foram derrotados (1153) e despojados de seus bens e
de suas mulheres e crianas. A organizao, a solidez e a disciplina do aguerrido
exrcito almada conferiam-lhe mobilidade e mpeto. A batalha teve considervel
repercusso e marcou nova fase nos destinos do novo poder almada.
    O califa almada, reputado severo e mesmo cruel, mostrou-se surpreendente-
mente "generoso" para com os rabes vencidos, cuja coalizo havia rompido. Teria
querido impression-los com uma prova de fora, para em seguida mostrar-lhes
sua clemncia e faz-los aderir  sua causa? Isso  provvel, se levarmos em con-
siderao a importncia do fator rabe no Magreb central e na Ifrkiya e a neces-
sidade do califa de alargar a base berbere-almada de seu regime na proporo
de seu imprio nascente95. Poderia, igualmente, pensar em utilizar contingentes
rabes  em nome do djihd  na Andaluzia, onde se multiplicavam os pedidos
de socorro diante da crescente ameaa crist. Aps esses acontecimentos, o califa
preferiu no se aventurar para alm da rea de Constantine; deixando governa-
dores e guarnies no Magreb central, tomou o caminho do extremo Magreb.


93   No Magreb central, os ltimos Hamdidas de Bidjya, al-Mansur, al-Aziz e Yahy, tinham estabelecido
     um modus vivendi com os hilalianos, os novos senhores dos planaltos, desenvolvido o comrcio e o corso
     - aproveitando-se das dificuldades de seus sobrinhos zridas de Mahdyya -, e iniciado um real restabe-
     lecimento. Ver LAROUI, 1970, p. 168.
94   Ver LVI-PROVENAL, 1928a, texto p. 115 e trad. francesa p. 189-90; IBN AL-ATHR, trad. fran-
     cesa, 1901, p, 504.
95   Ibid., p. 576.
44                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



     A consolidao do poder mumnida
    Como j foi dito, a ascenso de `Abd al-M'min ao califado esteve longe de
obter aprovao unnime; no entanto, a energia e a capacidade de que a todo
instante dava provas deveriam dissuadir as surdas oposies que permeavam as
fileiras almadas. Aumentando as chances de perpetuao de seu poder, suas
vitrias deviam ter exacerbado a impacincia da oposio, que acabou por se
declarar, sob o impulso dos prprios parentes do mahd Ibn Tmart96, entre os
Hargha e os habitantes de Tnmallal (sem, entretanto, se estender a outras cabi-
las almadas). `Abd al-M'min mandou executar os revoltosos e enviou a famlia
de Ibn Tmart, os Ait Amghr, para a cidade de Fs, onde permaneceriam em
priso domiciliar. Aps essa crise, partiu em peregrinao para Tnmallal, onde
fez doaes e mandou ampliar a mesquita  o santurio do mahd , no intuito
de desviar a ateno da opinio pblica dos fatos sangrentos ocorridos h pouco
e de preparar, ao mesmo tempo, a fundao de sua prpria dinastia. Com efeito,
em 1156-1157, no campo de Sala'97, conseguiu que seu filho mais velho fosse
reconhecido como herdeiro presuntivo e em seguida nomeou seus outros filhos
governadores das principais metrpoles do imprio com o ttulo de saiyid.
    Tais medidas foram efetivadas graas ao apoio das novas foras imperiais, os
rabes hilalianos e as cabilas do leste (em particular os Sanhadja) e puderam ser
aplicadas graas  anuncia do famoso xeque almada al-Adjall ("o eminente")
Ab Hafs `Umar al-Hintt. Ao trmino dessas operaes, o califa apressou-se
em divulgar entre as "colnias" almadas das vrias provncias, para apaziguar
os espritos, a notcia de que cada saiyid mumnida seria acompanhado de um
xeque almada como lugar-tenente  vizir, mas tambm conselheiro. As con-
quistas e vitrias de `Abd al-M'min esmagavam os dignitrios dos primeiros
tempos; a aprovao dos chefes do Atlas era, assim, menos prova de adeso leal
que ndice de fraqueza. As medidas tomadas pelo califa provocaram a sublevao
de inmeras cabilas, em particular no sudeste98.
    Os Djazla deram boa acolhida ao famoso Yahy al-Sahrwi, antigo governador
almorvida de Fs e antigo chefe da revolta de Ceuta, e provocaram agitaes nos
confins do Ss. Os Lamuta, os Hashtka, os Lamtna e alguns outros tambm se
sublevaram; a revolta desses grupos, que se colocavam  margem da poltica almada,


96   MERAD, 1957, p. 135 et seq.
97   Ibid., p. 142; ver tb. LVI-PROVENAL, 1941b, p. 34-7; IBN AL-ATHR, trad. francesa, 1901, p.
     581, cuja cronologia coincide com a das cartas oficiais.
98   MERAD, 1957, p. 146.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                   45



teria suas origens nos excessos cometidos pelos governadores mumnidas99. De um
modo mais geral, esses movimentos parecem ter marcado uma fase da evoluo do
novo regime, no decorrer da qual o poder mumnida buscava seu equilbrio.
    Essas revoltas, como um todo, poderiam ser consideradas sem gravidade, se
comparadas a outro evento muito mais significativo por seus prolongamentos
anteriores: trata-se do compl tramado em Marrakech pelos dois irmos do
mahd Ibn Tmart, `Isa e `Abd al-`Aziz, que por pouco no teve sucesso. O califa
retomou  capital em marcha forada e, aps inqurito, descobriram-se do-
cumentos que revelavam a lista dos conjurados: 300 mercadores de Marrakech,
cinco dos quais notveis. Foram todos entregues  clera da populao.
    Aps tais provaes, `Abd al-M'min torna-se definitivamente o chefe de um
imprio  mais que chefe de uma "comunidade de fiis"  e uma espcie de frieza
se estabelece entre ele e as grandes personalidades do movimento almada. Aps o
malogro da conspirao dos Ait Amghr, `Abd al-M'min teria reunido a populao
de Marrakech, conforme nos relata al-Baydhak, para declarar: "Hoje sei que, exceto
vs, no tenho nem irmos nem clientes ..." 100. Confisso sincera  e amarga  ou
demagogia? Um fato, em todo o caso, parece certo: a partir de ento, `Abd al-M'min
imprime nova orientao  sua poltica; cessa de confiar exclusivamente no "cl"
dirigente, na aristocracia Masmuda, e procura estender as bases de seu poder s
outras cabilas, particularmente s dos rabes hilalianos e s do Magreb central. `Abd
al-M'min vai aos poucos se libertando do conceito tumartiano de comunidade,
fundado no cl e na seita, e passa a promover uma verdadeira poltica imperial,
levando em considerao todas as camadas sociais do novo imprio.

     A conquista da Ifrkiya
   Em 1156, o poder mumnida j se encontrava solidamente estabelecido, estando
reduzidas todas as contestaes e oposies101. `Abd al-M'min podia, ento, empre-
ender a segunda campanha para o leste, ao trmino da qual deveria, pela primeira


99   LVI-PROVENAL, 1928a, texto p. 177 e trad. francesa p. 193, cita as palavras de `Abd al-M'min
     a Ab Hafs, encarregado de reprimir as revoltas: "a camela ergueu-se a despeito de sua carga, o Ab
     Hafs".
100 Ibid., texto p. 119 e trad. francesa p. 198-9.
101 A carta oficial n. XVII fala-nos de uma peregrinao de `Abd al-M'min  espcie de excurso de inspeo
    efetuada pelo califa e seu squito. Ele esteve em gllz e Tnmallal, recebendo durante a viagem delegaes
    de inmeras cabilas  fiis desde o princpio ou submetidas num passado tormentoso - que o certificaram
    quanto  sua lealdade. O califa exortou as populaes a reforar seus vnculos com a doutrina almada.
    Retomando a Marrakech a 28 Ramad 552/4 de novembro de 1157, pde festejar a `d al-Fitr (festa da
    ruptura do jejum) como uma festa da paz mumnida no extremo Magreb. Ver MERAD, 1957, p. 154.
46                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



vez, unificar o Magreb sob uma nica e mesma autoridade102. Preparou cuidadosa-
mente a campanha, e s em 1159 decidiu marchar sobre o leste. A refugiada zrida
al-Hasan Ibn `Ali no cessava de encoraj-lo, enquanto as populaes da Ifrkiya
multiplicavam os pedidos de socorro contra as atividades dos cristos.
   Deixando Ab Hafs como tenente no Marrocos, o califa parte de Sala' na
primavera de 1159  frente de foras considerveis103, enquanto uma frota impo-
nente singra paralelamente rumo leste. Seis meses mais tarde o exrcito almada
chega a Tnis104 que  tomada aps bloqueio. Depois foi a vez de Mahdyya, h
doze anos nas mos dos cristos normandos, submetida igualmente aps sete
meses de bloqueio e poderosos ataques. O filho do califa, `Abd-Allh, apossa-
-se de Gabes e Gafsa; nesse meio-tempo, Sfax e Trpoli caem nas mos dos
almadas. Os ataques combinados da frota contra o litoral e as investidas da
cavalaria no sul acabaram por submeter a Ifrkiya. Assim, desaparecem os peque-
nos principados que tinham repartido entre si os despojos do reino zrida, e os
normandos encontram-se desalojados do litoral: o Magreb est unificado.

     Preparativos para a interveno na Andaluzia e o fim do reinado de
     `Abd alM'min
    Na Andaluzia, a situao tornava-se cada vez mais inquietante. Um dos
maiores senhores andaluzes, Ibn Mardansh105, sublevara-se contra a autoridade
almada e ameaava todo o levante; o ltimo representante da Dinastia Almo-
rvida, Ibn Ghniya106, sustentava o movimento antialmada; finalmente, os
cristos ganhavam terreno multiplicando suas incurses ao norte da Andaluzia.
    De volta ao Marrocos, `Abd al-M'min empenhou-se nos preparativos de
sua interveno na Espanha. O exrcito almada, graas aos reforos enviados
 que incluam contingentes rabes , conquistou vitrias em Badajoz e Beja.
Dirigindo-se a Marrakech, `Abd al-M'min recebeu inmeros kumiyya de seus
contribuintes, destinados, ao que parece,  constituio de sua guarda pessoal, e
em 1163 tomou o caminho de Sala' para dirigir grande expedio  Espanha. No
entanto, a morte o surpreendeu antes que seu projeto se concretizasse; transpor-
tado a Tnmallal, foi inumado perto do tmulo do mahd Ibn Tmart.

102 Sobre a conquista da Ifrkiya por `Abd al-M'min, ver IDRIS, 1962, v. 1, p. 384 et seq.
103 Ver MERAD, 1957, p. 154-5, a respeito do nmero de tropas segundo as diferentes fontes.
104 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 1, p. 289-302.
105 Ver a Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 1, p. 84-5; os detalhes sobre os negcios da Espanha ver em
    `INN, 1964, v. 1, p. 304-411.
106 Ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 2, p. 1007-8.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                          47



    No  preciso insistir sobre as qualidades de `Abd al-M'min como chefe
militar e estrategista; cabe, no entanto, sublinhar que empreendeu a conquista
de maneira metdica, dando mostras de grande capacidade de organizao e
de profundo conhecimento da regio e da cincia militar. Mas o mais notvel
 o fato de sua poltica de conquista visar, tambm, objetivos econmicos: o
Marrocos atlntico, que sob os Almorvidas passara a participar das grandes
relaes com o Saara,  desligado de seus contatos africanos, e `Abd al-M'min
assegura-se do controle de um eixo que une o Dar`a (Dra) a Or, doravante rota
de caravanas que trazem ouro e demais produtos do Sudo ocidental.
    Por outro lado, o califa no podia deixar de olhar para o norte e para o leste,
j que o Mediterrneo era essencial para o Magreb, sobretudo num momento em
que a cristandade passava  ofensiva em todas as frentes. Assim, podemos entrever
as dificuldades que teria de enfrentar a empresa almada unitarista, para a qual
devia ser virtualmente impossvel conservar tanto a Andaluzia quanto a Ifrkiya.
    Desfrutando de unidade cultural e econmica j bastante antiga, o Magreb
adquiriu com `Abd al-M'min tambm unidade poltica. Rompendo com a tra-
dio almorvida, por sua vez inspirada na organizao hispano-omada, `Abd
al-M'min estruturou um sistema administrativo que levava em conta tanto as
necessidades polticas impostas pela grande extenso do imprio, quanto o desejo
de no ferir a suscetibilidade de sua entourage, constituda por berberes almadas
dos primeiros tempos. Muitas regras desse sistema subsistem na organizao do
Makhzen do Marrocos moderno. A estrutura administrativa almada combinou
as preocupaes de ordem tcnica  recorrendo, por exemplo, a andaluzes ou
magrebinos formados, na escola andaluza  s de natureza poltica, expressas pela
dualidade saiyid mumnidas/xeques almadas, e ideolgica, representadas pelos
talaba e pelos huffs; verdadeiros "comissrios polticos" do regime.
    Esta organizao, muito mais diferenciada que a dos Almorvidas, era financiada
por um novo sistema fiscal. Conta-se que ao retomar da Ifrkiya, em 555/1160,
`Abd al-M'min mandou executar uma agrimensura107 de todo o Magreb, desde
Barka, na Tripolitnia, at Nul, no sul do Marrocos; um tero foi deduzido como
montanhas e terras improdutivas, e o resto submetido ao khardj (imposto territo-
rial), pagvel em dinheiro ou gneros. `Abd al-M'min foi o primeiro a estabelecer
um cadastro desde a poca romana; pode-se, assim, imaginar os considerveis
recursos de que dispunha o califa. Este fez com que todos os habitantes  exceto
a comunidade almada  pagassem o khardj, assimilando-os, desse modo, aos


107 IBN AB ZAR`, 1843, texto p. 129 e 1860, trad. francesa, p. 174.
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no muulmanos, uma vez que no eram verdadeiros muwahhidn (unitaristas). 
provvel que os hilalianos tivessem institudo um imposto semelhante no Magreb
oriental, e que `Abd al-M'min tenha se limitado a generaliz-lo108, utilizando
esses mesmos hilalianos como coletores. S os territrios dos Almadas no eram
submetidos ao khardj; assim, o Magreb central e a Ifrkiya eram considerados
terras de conquista. Como se v, a unidade deu-se em proveito do vencedor, o
que tornou mais difcil a unificao do Magreb, com o agravante de a ideolo-
gia almada, no obstante as reformas de `Abd al-M'min, ter permanecido por
demais sectria para poder "acalmar os espritos"109.
    `Abd al-M'min parece ter contado mais com seu exrcito e sua frota que
com uma real poltica de unificao, a despeito da ampliao do ncleo Mas-
muda original. Graas ao seu sistema fiscal e  sua slida moeda, os Almadas
puderam constituir exrcito e marinha bastante poderosos. Conhecido por sua
organizao, disciplina e qualidades de combate, o exrcito nunca foi, entretanto,
unificado, ponto fraco que iria se agravar com o correr dos anos.
     importante mencionar, ainda, outro aspecto do reinado de `Abd al-M'min
 difcil de ser apreciado nos limites do presente trabalho  trata-se do processo
conhecido como "deportao" hilaliana. A transferncia dos bedunos obedeceu
a muitas variveis e teve muitas consequncias para poder ser julgada em poucas
palavras, tal como fez Le Tourneau110, que, levado pelos preconceitos do recente
perodo colonial francs, qualificou-a de "calamidade".

     O perodo de estabilidade e equilbrio
     Ab Ysuf Ya`kb (11631184)
    No foi o herdeiro presuntivo Muhammad, designado em 1154, que sucedeu
a `Abd al-M'min, mas outro filho deste ltimo, Ab Ysuf Ya`kb, que s rece-
beu o ttulo califal de amr al-mu'minn em 1168. Houve, portanto, uma crise de
sucesso que teria sido a causa dos levantes que estouraram no norte do Marrocos
entre os Ghumra, opondo Ceuta e al-Kasr al-Kabr (Ksar-el-Kebir). A agitao
transmitiu-se para os vizinhos Sanhadja e Awraba e terminou com a eleio de um
chefe, o qual teria chegado a cunhar moeda111. Da leitura do al-Anis al-Mutrib bi


108 LAROUI, 1970, p. 171.
109 Ibid., p. 172.
110 LE TOURNEAU, 1969, p. 59.
111 Ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 2, p. 1121; MERAD, 1962, p. 409 e notas; IBN AB ZAR`, 1843,
    texto p. 137 e 1860, trad. francesa, p. 296.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                       49



Rawd al-Kirtas112 depreende-se que a agitao deveu-se ao fato de o novo califa ter
licenciado o exrcito recrutado por `Abd al-M'min para a expedio  Andaluzia.
A correspondncia oficial (XXIV) fornece, por sua vez, uma explicao religiosa
para a revolta que, conduzida por um certo Saba Ibn Managhfd, teria durado
dois anos; a resistncia maliquita da regio de Ceuta, liderada pelo famoso cdi
`Iyd, pode conferir certa verossimilhana a esta explicao.
    O movimento foi, em todo caso, de incontestvel gravidade, e o novo califa
viu-se obrigado a conduzir ele mesmo, em companhia de seus irmos `Umar e
`Uthmn, uma expedio contra os rebeldes (1166-1167). Segundo Ibn al-Athr,
a vitria do califa terminou em massacre113. Foi nesse contexto que ele tomou
o ttulo califal de amr al-mu'minn e, para coroar sua campanha, confiou ao
prprio irmo o governo da cidade de Ceuta, com a misso de vigiar o Rif.

    A campanha da Andaluzia
    O califa fez-se preceder por seus irmos `Umar e `Uthmn, que conseguiram
vencer Ibn Mardansh e seus mercenrios cristos em 1165. A capital, Murcia,
conseguiu resistir e o principado manteve-se independente por mais cinco anos.
Por essa poca, uma grande ameaa comeava a tomar corpo no oeste, em Por-
tugal: Giraldo Sempavor, o famoso capito de Afonso Henriques, apossa-se de
vrias localidades (1165) e depois empreende, juntamente com o rei, o assdio
a Badajoz, que foi salva graas  interveno de Fernando II de Leo, aliado
dos Almadas.
    Nesse meio-tempo, a ameaa de Ibn Mardansh no levante foi afastada,
quase sem despesa para os almadas. Tendo rompido com seu sogro, o tenente
Ibn Hamushk (o Hemochico das crnicas crists), viu-se abandonado pela
maioria dos partidrios e morreu em 1172, amargurado por constatar o fracasso
de sua obra. Os membros de sua famlia juntaram-se aos almadas, tornando-se
preciosos conselheiros. Em 1172-1173, o malogro do cerco a Huete (Wabdha),
centro recentemente repopulado que constitua uma ameaa para Cuenca e
para a fronteira do levante, revelou as fraquezas do exrcito e da intendncia
almadas, bem como a falta de energia do califa. A aproximao das foras cas-
telhanas foi suficiente para que o cerco fosse suspenso; os almadas recuaram
para Murcia, onde seu exrcito foi licenciado. Em 1181-1182, o califa chega
a Marrakech com seu exrcito, ao qual se incorporam contingentes rabes da
Ifrkiya conduzidos pelo xeque rabe Ab Sirhn Mas`d Ibn Sultn.

112 Ibid., texto p. 137-8 e trad. francesa p. 295.
113 Ver `INN, 1964, V. 2, p. 23 et seq.; Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 160-1.
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     Ab Ysuf Ya`kb alMansr (11841199)
    O prncipe Ab Ysuf Ya`kb al-Mansr no foi, ao que parece, designado
como herdeiro presuntivo114. Sua eleio pelos almadas foi motivo de protes-
tos; dentre os insatisfeitos estava o seu irmo `Umar, governador de Murcia115.
No entanto, deve ter-se imposto rapidamente, conhecido que era pela bravura
e dinamismo; ademais, na qualidade de antigo vizir e colaborador do pai, fora
iniciado nos negcios do Estado116. Entretanto, o incio de seu reinado foi mar-
cado por dificuldades que no deixavam de ser solidrias com o aumento das
agitaes no Magreb central e na Ifrkiya, provocadas, desta vez, por agentes
determinados a contestar a ordem almada: os Ban Ghniya.

     Os Ban Ghniya no Magreb central
   O nome dessa famlia deriva do da princesa almorvida Ghniya, que foi
dada em casamento pelo sulto almorvida Ysuf Ibn Tshfin a `Al Ibn Ysuf
al-Masufi. O casal teve dois filhos, Yahy e Muhammad117, os quais tiveram
papel considervel durante o perodo almorvida, em particular na Espanha118.
Muhammad era governador das Baleares quando da queda dos Almorvidas;
proclamando-se independente, fez das ilhas base de refgio para onde se diri-
giram numerosos partidrios da dinastia vencida. Seu filho Ishk deu continui-
dade a essa poltica e fez prosperar o pequeno reino graas  pirataria. O filho
de Ishk, Muhammad119, disps-se a reconhecer a suserania almada, mas foi
deposto pelos irmos em favor de outro irmo, `Al. Decidiram, ento, mover luta
implacvel contra os almadas para impedi-los de se apossar das ilhas120. Pouco
depois, resolveram levar a guerra ao Magreb, por razes principalmente econ-
micas. No se trata de simples rebelio, mas de empreendimento quase poltico
que iria ter profunda repercusso entre as populaes do Magreb e pesadas



114 Sobre o reinado desse prncipe, ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 1, p. 165-6; MERAD, 1962.
115 IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?), texto p. 189 e 192 e trad. francesa
    p. 226 e 229; LVI-PROVENAL, 1941a, n. XXVII, p. 158-62, onde se afasta toda deciso da parte do
    califa Ab Ysuf Ya`kb.
116 IBN AL-ATHR, trad. francesa, 1901; IBN `IDHR AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d.
    (1929?),texto p. 192 e trad. francesa p. 229.
117 Ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 2, p. 1007; BEL, 1903.
118 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 1, p. 305 et seq., principalmente p. 314-5, e v. 2, p. 144 et seq.
119 Ibid., v. 1, p. 148; Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 2, p. 1007.
120 Ver MERAD, 1962, p. 422, nota 9.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                   51



consequncias para a empresa almada. `Al, conhecido como `Al Ibn Ghniya,
iria deflagrar a luta, pressionado por um crculo de irredutveis almorvidas.
    O novo califa, Ya`kb, acedeu ao poder em condies pouco brilhantes. Os
Sanhadja hamdidas de Bidjya no tinham perdido a esperana de restaurar
seu poder; aproveitando a oportunidade, os almorvidas maiorquinos realizaram
audaciosa investida que terminou com a tomada de Bidjya, a 12 de novem-
bro de 1184121. Empenharam-se, ento, em reconstituir, por conta prpria, o
antigo reino hamdida. O sucesso desse ataque inesperado, realizado com meios
modestos  20 navios, 200 cavaleiros e 4 000 soldados de infantaria , demonstra
a fragilidade do poder almada, alvo de numerosas foras que se coligaram no
intuito de facilitar a operao maiorquina; esta consegue expulsar o governador
almada, que recua para Tlemcen.
    Aps esse impulso inicial, `Al Ibn Ghniya, ajudado pelos rabes Riyah,
Athbadj e Djudhm, e deixando seu irmo Yahy em Bidjya, toma o rumo do
oeste visando retirar o Magreb central da autoridade almada. Consegue ocupar
Argel, Mzaya e Miliana, onde deixa governadores e guarnies. No vai mais
longe por temer o choque com as populaes da regio de Tlemcen, favorveis
aos almadas; retoma, ento, para o leste, toma a kal`a e ataca Constantine, que
lhe ope forte resistncia. A aproximao do califa almada f-lo recuar122 e,
finalmente, fugir. Embora esta primeira investida almorvida durasse pouco123,
teve repercusso considervel, e  com certa razo que o autor do Mu'djib124
considerou-a como o primeiro golpe srio desferido contra o Imprio Mas-
mudita; no momento em que escrevia (1224-1225), os efeitos daquela ainda se
faziam sentir.
    Todavia, o maiorquino refez-se e mobilizou todas as foras antialmadas, que
nele tinham encontrado, certamente, o chefe que desejavam. Ibn Khaldn125,
por exemplo, descreve com que zelo os rabes o apoiaram.  preciso sublinhar
igualmente a notria lentido do governo central almada, que s reagiu aps
seis meses, tempo suficiente para inquietar as populaes menos inclinadas a
contestar sua autoridade.
    Ibn Ghniya havia tirado proveito das dificuldades do incio do reinado; no
entanto, logo que retomou de Sevilha, o novo califa tratou de preparar, com muito


121 MIRANDA fixa como data 19 Safar 581/22 de maio de 1185.
122 Ver `INAN, 1964, V. 2, p. 148 et seq.; MERAD, 1962, p. 424.
123 Sobre a situao das Baleares durante a ao de Ibn Ghniya no Magreb, ver `INAN, 1964, V. 2, p. 156-8.
124 IBN `IDHARI AL-MARRAKUSHI, ed. Lv-Provenal, s.d. (1929?), p. 230.
125 IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 90; MERAD, 1962, p. 427 et seq.
52                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



empenho, o contra-ataque. Enviou de Ceuta uma expedio por via martima e
terrestre para atacar Argel. Embora a operao, bem sucedida, tenha devolvido aos
Almadas os territrios perdidos, o comandante do exrcito, o saiyid Ab Zayd,
sobrinho do califa, cometeu o grave erro de julgar que Ibn Ghniya, o qual fugira
em direo ao Moab, estivesse fora de combate. Refugiado com seus irmos na
Ifrkiya, este recuperava suas energias para retomar a luta com novo mpeto.

     Os Ban Ghniya na Ifrkiya
   Com a frota destruda e a cabea-de-ponte de Bidjya reocupada pelos
Almadas, os Ban Ghniya iriam imprimir novo estilo  luta antialmada.
Esta adquire a configurao de guerrilha, tendo como base de reagrupamento e
recuo o deserto, cujas populaes se encontravam em estado de dissidncia end-
mica. `Al Ibn Ghniya voltou ao Djard e, com o auxlio dos rabes da regio,
tomou Gafsa. Diante da resistncia de Nafzawa (Tozeur), uniu foras com o
armnio Karksh, escravo liberto de um sobrinho do aibida Salah al-Dn
(Saladino), que, com uma tropa de turcomanos Ghuzz, controlava a regio de
Trpoli. No caminho, Ibn Ghniya obteve a adeso dos berberes Lamtna e
Msufa, bem como o apoio dos rabes Ban Sulaym126. Estando sua posio
consideravelmente reforada, toma uma iniciativa que revela as reais dimen-
ses de sua ambio poltica: presta juramento de fidelidade ao califa abssida
al-Nsir, do qual obtm apoio e promessa de auxlio. Segundo Ibn Khaldn127, o
abssida insta Saladino a favorecer a colaborao entre Karksh e Ibn Ghniya,
a qual no tarda em frutificar: o armnio faz de Gabes sua base principal e o
maiorquino ocupa todo o Djard, constituindo um domnio homogneo no
sudoeste tunisiano.
   A partir dessas posies, as incurses dos dois aliados iriam se multiplicar
na Ifrkiya, chegando a atingir o cabo Bon; s Tnis e Mahdyya escapavam s
investidas128. Impunha-se uma interveno do governo imperial.

     A interveno de Ab Ysuf Ya`kb na Ifrkiya
   Apesar das reticncias e inquietaes surgidas entre os prprios membros da
famlia mumnida, o califa resolveu conduzir pessoalmente uma expedio para


126 Algumas fraes dos Ban Sulaym recusaram-se a deixar seus territrios da Tripolitnia e da Cirenaica,
    a despeito das advertncias do califa Yisuf; ver LVI-PROVENAL, 1941a, n. XXVI, p. 156.
127 Ver IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 93-4.
128 IBN AL-ATHR, trad. francesa, 1901, p. 607-8.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                 53



o leste129.  frente de 20 000 cavaleiros, dirige-se para Tnis em dezembro de
1186. Ao saber da notcia, Ibn Ghniya licencia seus soldados e retira-se para o
Djard. Perseguido por uma tropa almada de 6 000 cavaleiros, empenha-se em
atra-los para o seu territrio e s se volta contra eles em `Umra, nas cercanias
de Gafsa, onde lhes inflige pesada derrota em 24 de junho de 1187. O califa,
que participa pessoalmente das operaes, marcha sobre Kayrawn e impede Ibn
Ghniya de se retirar para Gafsa. Este , ento, derrotado em al-Hamma em
14 de outubro de 1187, tendo suas tropas aniquiladas; embora ferido, consegue
"desaparecer" no deserto. O califa comete o erro de no o perseguir, preferindo
voltar-se contra Karksh e ocupar-lhe a base, Gabes, em 15 de outubro de
1187, capturando sua famlia e apossando-se de seus tesouros, mas poupando-
-lhe a vida.
    Aps essas vitrias, o califa esforou-se por restabelecer a autoridade almada
nas regies conturbadas. Organizou operaes de limpeza em todo o Djard, o
rico manancial que alimentava as foras do adversrio130. Apossou-se de Tozeur,
Takyus e Naft, e, aps duro assdio, retomou Gafsa, castigando os agentes
almorvidas com rigor mas mostrando-se clemente com os Ghuzz, com os quais,
ao que parece, pretendia constituir um corpo de elite em seu exrcito.
    Aniquiladas as foras almorvidas, desmanteladas suas bases e dispersos
os aliados131, todo o sul da Tunsia encontrava-se novamente sob a autoridade
almada. Ao termo de sua campanha, Ab Ysuf Ya`kb procedeu a uma grande
"deportao"132 de grupos Djudhm, Riyah e `sim, os quais, em sua maioria,
deveriam se instalar em Tmasn, regio virtualmente esvaziada de seus habi-
tantes, os famosos Barghawta, desde a conquista almorvida e as sucessivas
expedies repressivas almadas. Assim, o contingente rabe no Marrocos cres-
ceu substancialmente.
    Os acontecimentos subsequentes deveriam demonstrar que a Ifrkiya estava
longe de ter sido pacificada. Sucedendo a seu irmo `Ali, Yahya Ibn Ghniya
iria, com habilidade e energia incomuns, reconstituir a coalizo antialmada
e dar continuidade, durante cerca de meio sculo,  luta contra o Imprio
Almada, desferindo duros golpes em seu poder. Minando sua provncia orien-
tal, causou grandes dificuldades ao Imprio Almada e contribuiu para seu
enfraquecimento.

129 MERAD, 1962, p. 432 et seq.
130 LVI-PROVENAL, 1941a, v. 1, n. XXXI, p. 218.
131 Ibid., n. XXXII, p. 218; id., 1941b, p. 63-4.
132 Ibid., 1941a, v. 2, n. XXXIII (de Manzil Ab Sa`d, perto de Mahdyya, datado de 10 Rabi'), p. 584.
54                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



     Reaparecimento dos Ban Ghniya na Ifrkiya e no Magreb central
    O novo chefe dos Ban Ghniya, Yahya, reconstitui as foras, reata a aliana
com Karksh e retoma suas atividades. Evitando a Ifrkiya, onde a popula-
o rabe nmade havia diminudo em consequncia da grande deportao de
11871188, concentra seus ataques no Magreb central. Buscaria ele, com essa
ttica, alcanar o litoral e restabelecer contato com Maiorca133? Em todo caso,
como seus ataques contra Constantine no obtm sucesso, ele se retira para o sul
onde encontra Karksh, com quem suas relaes se tornam cada vez mais difceis.
    Nesse nterim, Karksh retira seu apoio ttico aos Almadas134 e graas
ao auxlio de um chefe rabe Riyah, Mas`d al-Bult, reconstitui seus antigos
domnios, que se estendem de Trpoli a Gabes135; Yahiy torna-se senhor de
Biskra e passa novamente a controlar, juntamente com o aliado, todo o interior
da Tunsia. Em 1195, um conflito ope os dois aliados; Yahiy consegue expulsar
Karksh para o Djabal Nafsa, graas  interveno de uma esquadra que seu
irmo `Abdallah enviara das Baleares. Torna-se, assim, senhor de vasto territrio
que vai da Tripolitnia ao Djard.
    Uma crise nas fileiras almadas veio enfraquecer ainda mais suas posies na
Ifrkiya. Em 1198, um oficial almada de nome Muhammad Ibn `Abd al-Karim
al-Raghraghi, muito popular em Mahdyya, sua cidade natal, que defendia contra
as incurses dos nmades, entra em conflito com o governador almada de Tnis
e proclama-se independente, tomando, mesmo, o ttulo de al-mutawakkl136. A
empresa malogra em pouco tempo; todavia, o desaparecimento de al-Raghraghi
abre amplas perspectivas a Yahiy, o qual, em dois anos de campanha, consegue
devastar a regio, tomando Beja, Biskra, Tebessa, Kayrawn e Annba (Bne).
    O governador almada de Tnis termina por se submeter; uma ao dos cari-
djitas do Djabal Nafsa vem oportunamente reforar a posio de Ibn Ghniya, que,
senhor de toda a banda oriental do Magreb, encontrava-se no apogeu do poder.

     A campanha de alArak (Alarcos) e o fim do reinado de Ya`kb
  Os alarmantes acontecimentos do leste coincidiram com dificuldades igual-
mente graves na Espanha137, acentuando-se o dilema almada da impossibi-

133 Sobre sua atuao, ver BEL, 1903, p. 89.
134 Provavelmente aps o malogro da embaixada de Saladino junto a Ya`kb al-Mansr em 586/1194; ver
    `INN, 1964, v. 2, p. 181-6.
135 MARAIS, 1913, p. 203-4.
136 Ver detalhes em MERAD, 1962, p. 440.
137 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 2, p. 196 et seq.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                              55



lidade de interveno em duas frentes. As fontes so contraditrias quanto 
atitude tomada por Ya`kb diante desses eventos138; sabe-se, contudo, que a partir
de 1194 o califa parecia resignado a abandonar a Ifrkiya  prpria sorte139 e
voltar-se exclusivamente aos negcios da Espanha.
    A trgua de 1190 com os castelhanos chegava ao seu termo, e Afonso VIII
aproximava-se da regio de Sevilha. Atravessando mais uma vez o estreito de
Gibraltar, o califa vence a famosa batalha de al-Arak, contra os castelhanos, a 18
de julho de 1195; essa vitria lhe valeu o ttulo de al-mansr billah (o vitorioso
pela vontade de Deus). Empreende no ano seguinte uma campanha de devasta-
o que o leva at os muros de Madri, auxiliado, em particular, pelos desacordos
entre castelhanos, navarros e leoneses. Mas essas operaes no passavam de
incurses sem futuro e Ya`kb devia estar consciente disso, pois apressou-se em
aceitar as propostas de trgua da parte de Castela, que se tinha aliado a Arago
contra o reino de Leo.
    Em maro de 1198, o califa deixa Sevilha e parte para o Marrocos. Minado
pela doena, designa, logo ao chegar, seu filho Muhammad como herdeiro pre-
suntivo; entra, em seguida, numa fase de recolhimento que dura at sua morte,
em janeiro de 1199.

    Abu `Abd Allah Muhammad elNsir (11991214)
    A ascenso de Muhammad transcorreu sem problemas140; no entanto, este
herdou uma situao pouco animadora: embora o Marrocos aparentemente
atravessasse um perodo de paz e prosperidade141, na Espanha a relao de foras
no se tinha modificado, e na Ifrkiya Ibn Ghniya era senhor absoluto aps a
submisso do governador de Tnis.
    O novo califa deu prioridade  Ifrkiya, enviando corpos de tropa na ten-
tativa de conter Ibn Ghniya. Este, no entanto, expandia suas possesses cada
vez mais rumo oeste, instalava governadores e fazia recitar as preces em nome
do califa "abssida"142.
    Apesar disso, o califa no teve condies de organizar uma interveno
macia no leste, pois uma revolta, irrompida simultaneamente no Ss e entre



138 Ver MERAD, 1962, p. 443.
139 IBN AL-ATHR, trad. francesa, 1901, p. 613.
140 Embora o autor de al-Kirtas (1843, texto p. 153) assinale uma revolta na terra dos Ghumra em 596.
141 IBN AB ZAR`, 1843, texto p. 153.
142 IBN KHALDN, 1852-1856.
56                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



os Djazla e liderada por um certo Ab Kasaba143, que se dizia o esperado
kahtani, ops-se aos Almadas no Marrocos, onde eram combatidos em nome
do prprio mahdismo. Foi preciso grande campanha para reprimir o levante,
o que foi feito graas, principalmente, aos contingentes Ghuzz do exrcito144.
Amargurado, o califa censurou as populaes da regio por terem permitido
que o movimento de Ab Kasaba adquirisse tais propores, justamente em
territrio que fora o bero do movimento almada145.
    Por a pode-se aferir o quanto os almadas desse fim do sculo XII eram
diferentes dos "cavaleiros" da f e da reforma unitarista dos primeiros tempos.
A apatia e o cansao que grassavam em suas fileiras constituam a mais grave
ameaa para o movimento. Essa atitude derrotista manifestou-se mais clara-
mente no momento em que se fez necessrio adotar uma atitude com relao
a Ibn Ghniya. De todos os conselheiros do califa, s Ab Muhammad `Abd
al-Whid, filho do famoso xeque Ab Hafs `Umar, ops-se  ideia de fazer a paz
com o almorvida, preconizando uma expedio destinada a expuls-lo defini-
tivamente da Ifrkiya146. Assim, sinais de abandono que anunciavam o fracasso
da ideia imperial apareciam at na entourage do califa. Todavia, num mpeto de
energia, este decidiu lanar grande ofensiva contra Ibn Ghniya.

     A ofensiva de alNsir contra os Ban Ghniya e a reorganizao do
     poder almada na Ifrkiya
   A ofensiva de al-Nsir147 distinguiu-se por nova estratgia: comeou por
reduzir o refgio almorvida das Baleares, tomando de assalto a ilha de Maiorca
em dezembro de 1203148, privando os Ban Ghniya da base naval  e sobretudo
comercial , a partir da qual mantinham boas relaes com Arago, Gnova
e Pisa, que nutriam comum hostilidade aos almadas. Contudo, as posies
almorvidas na Ifrkiya consolidavam-se cada vez mais, e a 15 de dezembro de
1203 tomavam Tnis. O califa entra, ento, em campanha149;  sua aproximao,
Ibn Ghniya foge para o interior  aps deixar famlia e tesouros em segurana


143 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 2, p. 656; MERAD, 1962, p. 448-9.
144 IBN `IDHRI AL-MARRKUSH, ed. Lvi-Provenal, s.d. (1929?), p. 276.
145 Ibid., p. 276.
146 IBN KHALDN, 1852-1856. v. 2, p. 220-1.
147 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 2, p. 257-61.
148 LVI-PROVENAL, 1941a.
149 Ver detalhes em `INN, 1964, v. 2, p. 263-70.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                       57



em Mahdyya , e chega  cidade de Gafsa, uma das suas posies mais slidas.
Um desembarque almada culminou com a tomada de Tnis, que terminou
em grande massacre150; em seguida, as foras almadas desdobraram-se em
duas direes: o califa marchou sobre Mahdyya, enquanto Ab Muhammad
se lanava  perseguio de Ibn Ghniya.
    Mahdyya foi tomada aps longo e rduo cerco, e seu governador, `Al Ibn
Ghazi, sobrinho de Ibn Ghniya, terminou por se render e por se juntar aos
almadas (11 de janeiro de 1206). Retornando a Tnis, onde permaneceria
por um ano, o califa dedica-se  reorganizao da provncia, confiando sua
reconquista e pacificao ao irmo Ab Ishk. Este submeteu os Matmata e
os Nafsa, e perseguiu Ibn Ghniya  que nesse nterim fora vencido por Ab
Muhammad `Abd al-Whid, o hafssida, em Tadjra, perto de Gabes, e despo-
jado de todas as suas riquezas, at do territrio de Barka , sem, no entanto,
conseguir captur-lo.
    Seguindo o conselho judicioso, embora no isento, de seus principais tenen-
tes, decide nomear para a importante e difcil funo de governador da Ifrkiya
o xeque hintatiano vencedor em Tadjra, Ab Muhammad `Abd al-Whid. Na
qualidade de "grande do imprio", o xeque s aceita esta delicada misso  que
o afastava do poder central  sob a insistncia do soberano e sob condies que
praticamente lhe conferiam poderes de vice-rei151. Tal medida de prudncia era
atestado suplementar do fracasso da empresa imperial almada.
    Em maio de 1207, o califa retoma o caminho do Marrocos. Ibn Ghniya
reaparece e, com o apoio de numerosos rabes, Riyah, Sulaym e Dawwida,
tenta intercept-lo, mas  vencido na plancie do Chelif. Este bate em retirada
seguindo a orla do deserto e reaparece no sul da Ifrkiya, mas o novo governador,
que se tinha aliado a importantes faces sulaymidas, vence-o no wd Shabrou,
nos arredores de Tebessa, em 1208.
    Ibn Ghniya adentra, ento, o deserto para ressurgir no leste. Tendo atingido
o Tfllet, toma e pilha Sidjilmsa, vence e executa o governador de Tlemcen.
Durante essa campanha devastou todo o Magreb central, regio que no sculo
XIV seria assim descrita por Ibn Khaldn: "No se encontra mais um nico
fogo aceso e no mais se ouve o canto do galo"152.
    `Abd al-Whid, o novo governador da Ifrkiya, intercepta Ibn Ghniya
quando este retornava de sua devastadora campanha, vence-o e despoja-o de

150 IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 221-2 e 286-7.
151 BRUNSCHVIG, 1940, v. 1, p. 13.
152 Ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 2, p. 1007-8.
58                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



todo seu butim nas proximidades do Chelif153. O maiorquino retira-se para a
Tripolitnia junto com seus aliados, onde prepara seu ltimo combate contra
`Abd al-Whid; este, no entanto, vence-o em 12091210, no sop do Djabal
Nafsa, contando com o auxlio de grande contingente de rabes  Riyah, `Awf,
Dabbab, Dawwida  e numerosos Zenta. Os dez anos que se seguiram foram
de paz para a Ifrkiya, graas  energia do novo governador154. Ibn Ghniya
penetra mais para o sul, no Waddn, onde se livra de seu velho aliado e rival
Karksh, mandando execut-lo e tomando o seu lugar em 1212. Em 1233
deveria, por sua vez, ser capturado pelo sucessor de `Abd al-Whid.
    Diversas so as apreciaes acerca da tumultuosa poca dos Ban Ghniya,
que se prolongou durante mais de meio sculo, combinando, de maneira notvel,
uma dimenso martima e insular com uma dimenso nmade e saariana, fato
que lembra irresistivelmente os comeos da epopeia almorvida. Georges Mar-
ais, atendo-se mais aos efeitos que s causas, s conseguiu ver nesse movimento
um prolongamento daquilo que denomina a "catstrofe" hilaliana, "acusando"
os maiorquinos de ter propagado o "flagelo" rabe no Magreb central155. Esse
empreendimento no pode, no entanto, ser reduzido a simples agitao, a uma
rebelio sem horizontes polticos. Trata-se, na verdade, de uma luta de admir-
vel constncia contra a dinastia Mumnida e, mais ainda, contra todo o sistema
almada. Em suma, os Ban Ghniya moveram uma luta de potncias com o
propsito de apresentarem-se como soluo alternativa para a ordem almada.
A perseverana, a resistncia e a constncia que caracterizaram sua luta mostram
que sua ao tinha motivaes profundas e servia a uma causa  qual deviam
estar fortemente ligados. Dentre os motivos da luta, os polticos e ideolgicos
tiveram, sem dvida, grande importncia, uma vez que ela reuniu todas as opo-
sies aos Almadas: antigas dinastias destronadas, meios maliquitas, meios fiis
ao califado abssida de Bagd, cabilas rabes nmades e berberes da Tripolitnia
desejosos de sair do seu isolamento montanhoso156.
    Duas caractersticas podem nos ajudar a pelo menos entrever provveis
razes econmicas para o relativo sucesso dos maiorquinos. A primeira  que
Maiorca constitua uma base martima, comercial e diplomtica, e sua queda


153 Detalhes em MERAD, 1962, p. 454 et seq.; `INN, 1964, v. 2, p. 271-6.
154 IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 290-1.
155 Ver Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 2, p. 1007-8. Atualmente, a questo dos hilalianos tem sido estudada
    com maior seriedade, tendo pesquisadores e historiadores abandonado a tendenciosa teoria segundo a
    qual os "bedunos" seriam o flagelo da civilizao.
156 Muito til seria um estudo sobre esses opositores e seu papel na "epopia maiorquina".
A unificao do Magreb sob os Almadas                                          59



anunciou o fim dos Ban Ghniya. A segunda diz respeito  esfera de influncia
geopoltica dos Ban Ghniya, constituda essencialmente por uma zona que
ia do Waddn e do sudoeste da Tripolitnia, a leste, aos antigos povoamentos
caridjitas do sul do Magreb central, a oeste. Esta longa faixa horizontal, que
podia estender-se para o sul e, por vezes, para o norte, abrangia os ricos osis e
as populaes dissidentes; mas constitua, principalmente, a sada das grandes
e tradicionais rotas transaarianas, cujo interesse  ressaltado em mais de um
captulo do presente volume. O comrcio transaariano foi de importncia capital
na economia do Magreb.
    Assim considerada, a luta dos Ban Ghniya bem podia ter tido como obje-
tivo reunir as heranas fatmida, zrida e almorvida no domnio fundamental
dos intercmbios comerciais. Em contrapartida, o eixo do poder almorvida, a
despeito da atrao exercida pela Espanha, parece ter-se orientado sempre no
sentido oeste-leste, alinhado com o Tell e com o Baixo Tell. Por esse motivo,
 lcito pensar que o empreendimento almada se realizou em perodo menos
prspero que o que viu nascer e desenvolver-se a epopeia almorvida: confron-
tados com os progressos da reconquista espanhola, os Almadas parecem ter
sempre carecido da profundidade comercial e estratgica do rico Sudo, cujo
ouro constitua os pulmes da economia mediterrnea.

    A derrota de al`Ikh (Las Navas de Tolosa) e o fim do reinado de
    alNsir157
    A batalha de Alarcos (em 1195) tinha sido um sinal de alarma para os cris-
tos; assim, no demoraram muito a esquecer suas dissenses, reorganizar-se e
retomar suas atividades antialmadas, apesar da trgua assinada e dos protestos
de al-Nsir. Em 1200, Afonso VIII de Castela ameaou atacar a regio de Mur-
cia e, em 1210, Pedro II de Leo infligiu severas destruies  regio de Valencia;
tais acontecimentos eram indcio de uma nova situao do lado cristo. Sob o
impulso do famoso bispo de Toledo, Rodrigo Jimnez de Rada, a reconquista
iria se tornar verdadeira cruzada que faria calar os desacordos entre os cristos,
recebendo reforos de toda a Europa. A atuao do bispo de Toledo foi coroada
pela obteno de uma declarao de cruzada pelo papa Inocncio III.
    Por essa poca, as fileiras almadas careciam de solidez e unidade. Uma das
primeiras medidas de al-Nsir ao cruzar o estreito de Gibraltar foi proceder a
um expurgo no exrcito atravs da execuo de vrios oficiais superiores. Nesse

157 Ver detalhes em `INN, 1964, V. 2, p. 282-326.
60                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



contexto, no deve causar espanto a severa derrota sofrida pelos almadas em
16 de julho de 1212 em Las Navas de Tolosa, a qual adquiriu rapidamente as
propores de desastre. Os cristos exageraram,  evidente, a extenso de sua
vitria, mas um erudito espanhol, Ambrosio Huici Miranda158, reduziu-a s suas
reais dimenses, observando que ela no chegou a provocar o desmoronamento
das posies muulmanas na Espanha. Las Navas de Tolosa vale, todavia, como
smbolo, tendo alcanado grande repercusso: foi a primeira grande vitria dos
cristos unidos contra os muulmanos da Espanha e do Magreb, conduzidos
pelo califa em pessoa; no se tratava da derrota de um simples exrcito almada,
mas de todo o Imprio Almada, encabeado pelo prprio califa.
    Do lado muulmano, a derrota revelou, alm das falhas militares, a fragilidade
do sistema almada. Mais que revs militar, significou a derrota poltica de um
regime que entrava em crise, assim como a falncia de uma fora militar que havia
perdido o nimo de combater. O Imprio Almada certamente ainda iria conhecer
alguns anos de brilho, mas Las Navas de Tolosa foi sintoma inegvel do incio da
desintegrao do regime.  significativo, enfim, que o ocidente muulmano no
tenha esboado nenhuma reao aps a derrota; pode-se falar mesmo em passi-
vidade e quase indiferena: temos o exemplo do prprio califa, que, aps retornar
rapidamente para Marrakech, mergulhou num estado de depresso que durou at
sua morte, em 1213, fato que lembra, curiosamente, a atitude de seu pai em 1198.


     A fragmentao do imprio e a desintegrao do
     sistema almada
    O sucessor de al-Nsir, Ysuf al-Muntasir (ou al-Mustansir), era um jovem
cuja entronizao pelos dignitrios almadas fez-se acompanhar de condies
que limitavam seu poder159: ele se propunha a no reter por muito tempo em
territrio inimigo os contingentes almadas e a no atrasar o pagamento de
seus soldos. Os negcios do Estado160 conheceram, ento, sensvel deteriorao.
    Entretanto, o reinado transcorreu sem grandes problemas, a despeito do
aparecimento, primeiro entre os Sanhadja e depois entre os Djazla, de dois
personagens que se diziam descendentes dos fatmidas e mahds. A tranquili-
dade deveria prolongar-se at 1218, data em que os Ban Marn apareceram

158 HUICI MIRANDA, 1956a, p. 219-327; 1956b, v. 2, p. 428-9.
159 MERAD, 1962, p. 459-60.
160 IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 227; IBN AB ZAR`, 1843, texto p. 161 e trad. francesa p. 186-7.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                                    61



pela primeira vez nos arredores de Fs161. No entanto, essa calma era apenas
aparente: a ameaa crist crescia cada dia mais, os Ban Ghniya deslocavam-se
novamente e os Ban Marn, que at ento tinham sido mantidos para alm das
fronteiras saarianas do imprio, penetravam no corao do extremo Magreb, de
incio na regio entre Tz e Meknes, depois na regio de Fs162. Ademais, no
que diz respeito ao funcionamento interno do regime, os vizires comeavam a
se investir de poderes exorbitantes, usurpando a prpria autoridade do Estado.
    Deste modo, podemos dizer que o reinado de al-Mustansir foi um perodo
de calmaria enganadora e de expectativa; novos protagonistas no tardariam a
se manifestar no sentido de apressar o fim do imprio. A partir da morte de
al-Mustansir, em 1224, os acontecimentos se precipitam e inicia-se longo perodo
de confuso e de lenta agonia163. Dois soberanos, al-Ma'mn (1227-1232) e seu
filho al-Sa`d (1242-1248), marcaram esse perodo com atitudes enrgicas, mas
suas tentativas de reerguer o imprio estavam fadadas ao fracasso, tendo as causas
da desagregao se tornado muito profundas164. Dentre elas, a mais grave seria,
talvez, o enfraquecimento do exrcito. As foras conquistadoras de outros tempos
cederam lugar a um exrcito pouco homogneo, que no soube resistir nas vrias
frentes e terminou por ceder sob a presso daquilo que se tornava uma cruzada do
ocidente165. Atingidas as frentes militares, outras fraquezas foram aparecendo, em
particular a incapacidade dos Almadas de impor sua doutrina e a surda hostili-
dade entre Mumnidas e xeques almadas. Estes ltimos iriam, a partir de 1224,
tentar retomar o poder e se vingar particularmente dos vizires, como Ibn Djmi;
entretanto, sem chefes e sem horizontes, suas tentativas mostraram-se incipien-
tes e s fizeram aumentar o tumulto. As arrecadaes de impostos, verdadeiras
pilhagens organizadas por uma corte enfraquecida por crescentes necessidades,
acabaram de alienar os xeques, que se apresentaram como defensores do povo.
    Aps a morte de al-Mustansir, os xeques almadas proclamaram califa um
homem idoso que na poca era contestado pelo levante andaluz, onde foi pro-
clamado al-Adil, irmo de al-Nsir, que terminou por se impor. Por meio de
intrigas, em particular com os cristos, os xeques conseguiram que al-Adil fosse


161 Ibid., p. 228.
162 A situao dos Ban Marn nos planaltos de Figuig, onde no reconheciam a autoridade almada, prova,
    entre outras coisas, que o poder almada no mais ultrapassava o Tell no Magreb central; ver LE TOUR-
    NEAU, 1969, p. 90-1.
163 Ver HUICI MlRANDA, 1956b, v. 2, p. 451 et seq., e 1954.
164 Ver o captulo 4 do presente volume.
165 A partir do reinado de al-Mustansir - talvez antes -, os Almadas passaram a utilizar milcias crists no
    Marrocos para defender seu regime. Ver DUFOURQ, 1968, p. 41.
62                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



assassinado em 1227, fato que provocou a rebelio de vrias cabilas, dentre as
quais a dos Khult. Inaugurava-se, assim, um perodo de lutas internas, em que os
cristos e as cabilas rabes iriam desempenhar papel de importncia crescente.
    Ab'l-`al Idrs, que havia tomado o ttulo califal de al-Ma'mn em Sevilha
no ano de 1227, concluiu um acordo com Fernando III de Castela, pelo qual lhe
era permitido recrutar uma milcia crist mediante a cesso de algumas fortifica-
es na Andaluzia. Graas a essa milcia, pde vencer seu concorrente, Yahy Ibn
al-Nsir, aclamado em Marrakech e apoiado por Tnmallal e pelos Hintta.
    Em 1230, al-Ma'mn era senhor de todo o imprio quando tomou duas
atitudes reveladoras: a primeira consistiu na adoo de poltica de tolerncia e de
entendimento com os cristos; a segunda, mais significativa, foi a de renunciar
solenemente  doutrina almada e ao princpio do mahd e de sua infalibili-
dade166. Essa segunda medida provocou numerosas controvrsias, sendo objeto
de explicaes e interpretaes bastante diversas. Tratava-se de uma iniciativa
tomada contra a aristocracia almada ou um gesto de boa vontade para com os
maliquitas? Seja como for, al-Ma'mn parece ter tomado uma deciso oportu-
nista167, cujo efeito foi, na verdade, o de minar sua prpria dinastia, privando-a
de toda legitimidade e de todo fundamento moral e ideolgico.
    A partir de 1230, ele se viu condenado a fazer concesses cada vez mais
importantes aos cristos, dos quais passou a depender, fato que deve estar na
origem da implantao do comrcio cristo do Marrocos e dos privilgios con-
cedidos aos rabes hilalianos encarregados da arrecadao dos impostos. Morreu
em 1232 no vale do Wd Oum al-Rabi` quando marchava contra seu rival
Yahy, que havia retomado Marrakech.
    O filho de al-Ma'mn, al-Rshid, foi aclamado sucessor graas  astcia
de sua me Habbada, escrava de origem crist, e  energia do chefe cristo da
milcia168. O reinado desse soberano de apenas 14 anos de idade inaugurou um
perodo de anarquia e de lutas entre as diversas faces, fato de que as milcias
crists procuraram, tanto quanto possvel, tirar partido, particularmente nos por-
tos mediterrneos do Marrocos169. Al-Rshid teve de lutar at a morte, ocorrida
em dezembro de 1242, contra os Ban Marn e contra seu rival Yahy, sempre
pronto a se refugiar no Atlas e preparar um novo ataque.



166 Ibid., p. 43.
167 Antes de morrer (em 1232), al-Ma'mn teve tempo de restabelecer a ortodoxia almada e - sob a presso dos
    xeques almadas - a preeminncia do mahd Ibn Tmart. Ver BRUNSCHVIG, 1940, v. 1, p. 22, nota 4.
168 DUFOURQ, 1968, p. 54.
169 Ibid., p. 55.
A unificao do Magreb sob os Almadas                                                              63



    Sucedeu-o seu jovem meio-irmo al-Sa`d, filho de al-Ma'mn e de uma
escrava negra. Dando continuidade  poltica de seu antecessor, teve de fazer
frente aos contnuos ataques dos Ban Marn e dos Abd al-Wadid, de Tlemcen.
    Sua morte, ocorrida em 1248, abriu longa crise que durou at 1269, ano
em que os Ban Marn conquistaram Marrakech. De 1269 a 1275, um "poder"
almada manteve-se em Tnmallal. Smbolo um tanto quanto curioso esse
retorno ao ponto de partida!
    A agonia dos Almadas estendeu-se, assim, por quase meio sculo; sua rea
de autoridade no cessou de se retrair sob os golpes de mltiplos adversrios e
de foras centrfugas cada vez mais poderosas. A Ifrkiya foi a primeira regio
a se destacar do imprio170, como consequncia da longa e obstinada resistncia
de Yahy Ibn Ghniya, o qual fez fracassar todas as intervenes imperiais no
leste. Ab Zakariyy, filho do hafssida `Abd al-Wahid, tomou o poder em 1228,
capturou Ibn Ghniya em 1233 e, sob o pretexto de modificar o estado de coi-
sas deixado por al-Ma'mn, proclamou a independncia, colocando-se entre os
pretendentes ao cargo de califa.
    A indiferena e a perda da Espanha seguiram um padro que se tornara
familiar desde o incio do sculo XI. "A autoridade fraciona-se entre os governa-
dores almadas, que cedem o lugar aos andaluzes, os quais, por sua vez, recorrem
ao auxlio dos reis cristos e, transcorrido certo tempo, submetem-se a eles"171.
De resto, o exemplo vem de cima, j que os diversos pretendentes ao califado
com frequncia procuraram apoio junto aos cristos. A situao assim criada
abriu caminho para os descendentes das antigas dinastias locais, Ban Hd e
Ban Mardansh, os quais constituram emirados que deveriam inexoravelmente
tornar-se vassalos dos soberanos cristos. Em 1230, o poder almada desaparecia
da pennsula, sendo substitudo seja pela vaga e longnqua suserania "abssida",
seja pela suserania dos Hafssidas da Ifrkiya. As metrpoles muulmanas da
Andaluzia comearam, ento, a cair uma a uma sob o domnio dos reis de Cas-
tela (Crdoba, 1236) ou de Arago (Valencia, 1238).




170 BRUNSCHVIG, 1940, v. 1, p. 18-23.
171 Essa desintegrao da unidade e a ingerncia dos cristos na poltica interna do ocidente muulmano
    anunciam o fim da hegemonia muulmana no Mediterrneo.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   65



                                          CAPTULO 3


     A expanso da civilizao magrebina:
   seu impacto sobre a civilizao ocidental
                                            Mohamed Talbi




    O sculo dos Almadas
    Apogeu
    difcil precisar o momento de apogeu de uma civilizao. Para o Magreb,
ter sido sob os Aglbidas, quando, no sculo IX, os exrcitos da Ifrkiya ame-
aavam Roma e reinavam sobre o Mediterrneo? Ou no sculo X, quando os
Fatmidas transformaram Mahdyya na sede de um califado que rivalizava com o
de Bagd? Ou ter sido na poca dos Almadas (1147-1269), que pela primeira
vez uniram, sob a autoridade de uma dinastia local e autenticamente berbere, um
imenso imprio, que se estendia de Trpoli a Sevilha?  preciso reconhecer que
houve vrios perodos de glria; e, entre eles, o do sculo XII no foi, certamente,
o de menor importncia.
   E a Espanha? Talvez tenha perdido sua antiga importncia poltica sob o dom-
nio de `Abd al-Rahmn III (912-961), ou sob o "reinado" do ditador al-Mansr
ben Am `Amr, o terrvel Almansor das crnicas crists. Mas o caso de Espa-
nha e Magreb pode ser comparado ao de Grcia e Roma: a Espanha conquistou
duplamente seus rudes conquistadores berberes  Almorvidas ou Almadas  e,
oferecendo-lhes os tesouros seculares de suas tradies artsticas e culturais, f-los
construtores de uma civilizao. Tambm a civilizao do Ocidente muulmano foi,
a partir do sculo XII, mais do que no passado, uma civilizao ibero-magrebina.
66                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



    Em propores difceis de precisar, os negros originrios de regies situadas ao
sul do Saara colaboraram para a formao dessa civilizao. Havia grande nmero
deles no Marrocos e em todo o Magreb. A mestiagem, contra a qual no existia
preconceito, era frequente e teve naturalmente alguma influncia biocultural, difcil,
no entanto, de se indicar com exatido1. Tambm havia negros na Espanha, princi-
palmente em Sevilha e Granada. Como escravos por um tempo, ou homens livres,
tiveram participao considervel no exrcito e na vida econmica, introduzindo
alguns costumes de seus pases de origem2. Alguns deles, como Joo Latino, pro-
fessor universitrio na Espanha, atingiram o nvel mais elevado da vida intelectual e
deram  civilizao ibero-magrebina um sentido mais amplamente africano.

     A arte
    Na poca que nos interessa, o centro dessa civilizao situava-se na metade
ocidental do Magreb. O declnio de Kayrawn era evidente, e a Ifrkiya j havia
perdido sua primazia.  preciso observar que o sculo dos Almadas foi tam-
bm o dos Almorvidas (1061-1147). Afora os aspectos religiosos, no plano
da civilizao, no houve um corte entre as duas dinastias3. A arte almada em
particular foi apenas o florescimento e o resultado final de processos elaborados
ou introduzidos na Espanha pelos Almorvidas.
    Os Almorvidas foram grandes construtores. Pouco sobreviveu de sua arqui-
tetura civil, mais exposta  fria dos homens e aos danos do tempo. Nada se
conservou dos palcios erguidos em Marrakech e em Tagrart; h poucos vest-
gios de suas fortalezas; e sabe-se muito pouco a respeito das obras de utilidade
pblica, principalmente no campo da irrigao. Mas ainda  possvel admirar os
mais belos monumentos consagrados ao culto. Os mais caractersticos situam-se
na atual Arglia. A grande mesquita de Marrakech infelizmente desapareceu,
levada pela mar almada. Em Fs, a mesquita de al-Karawiyyn no  total-
mente almorvida: trata-se de um edifcio de meados do sculo IX alterado
e aumentado. J a grande mesquita de Argel, construda por volta de 1096, 
uma fundao almorvida autntica, que no sofreu muito com as alteraes
introduzidas no sculo XIV e depois, durante o perodo turco. Pode-se tambm
citar a mesquita de Nedroma. Mas, sem dvida, o edifcio mais belo  a grande
mesquita de Tlemcen, monumento imponente de 50 m por 60 m, iniciado por


1    Ver BRUNSCHVIG, 1947, v. 2, p. 158.
2    Ver, mais adiante, captulo 26.
3    Ver captulos 2 e 5 deste volume.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental      67



volta de 1082 e terminado em 1136. Alia o vigor e a majestade dos edifcios
saarianos ao requinte e  delicadeza da arte andaluza.
    No  necessrio  escreve G. Marais4  enfatizar a importncia da grande mes-
    quita de Tlemcen. As peculiaridades de seu projeto e, mais ainda, o fato de estarem
    reunidos, e at mesmo estreitamente associados, a cpula com nervuras andaluzas e
    o consolo de mukarnas [estalactites] de origem iraniana (...) conferem-lhe lugar de
    destaque entre as obras muulmanas.
    A arte almada deu continuidade e desenvolveu a arte almorvida. Pela
majestade das propores, equilbrio dos volumes e riqueza da decorao,
acrescentou-lhe nobreza e graa. Foi o apogeu da arte muulmana do Ocidente.
Sua maior expresso  Kutubiyyn, a mesquita dos Livreiros em Marrakech,
uma das criaes mais belas do Isl, construda, como a de Tnmallal, pelo
fundador da dinastia, `Abd al-M'min ben `Al (1133-1163). Seu minarete de
seis andares, com salas cobertas por abbadas variadas, eleva-se a mais de 67
m do solo. Cinco cpulas de estalactites, "que podem ser consideradas como o
ponto alto da histria das mukarnas" 5, ornam a nave transversal. Mais do que
em Tlemcen, em Kutubiyyn os arcos lobados ou festonados, enriquecidos com
motivos decorativos, estendem-se sobre as 17 naves e sete traves, cruzando-se no
infinito, dando a impresso de amplitude e espao. A grande mesquita de Sevi-
lha, outra joia da arte almada, foi obra do filho e sucessor de `Abd al-M'min,
Ab Ya`kb Ysuf (1163-1184). Depois da Reconquista, foi substituda por
uma catedral; dela s restou o minarete, a famosa Giralda, terminado por Ab
Ysuf Ya`kb al-Mansr (1184-1199) e coroado, a partir do sculo XVI, por um
lanternim cristo. O monumento mais grandioso, a mesquita Hasan, iniciado em
Rabat por al-Mansr, nunca chegou a ser acabado.  possvel, no entanto,
admirar-se ainda hoje sua floresta de colunas, que se elevam de uma superf-
cie de 183 m por 139 m, e seu minarete imponente, a famosa torre Hasan, que
brota majestosamente do meio da fachada. A mesquita da kasaba de Marrakech,
tambm fundada por al-Mansr, foi por demais alterada em tempos posteriores
para poder refletir fielmente a arte almada.
    Pelas mesmas razes e da mesma forma que a almorvida, a arquitetura civil
almada foi menos preservada. Nada resta de seus palcios nem do grande hos-
pital que havia em sua capital. Rabat, fundada por al-Mansr, conserva duas
portas de sua antiga muralha de taipa, que se estendia por mais de 5 km:

4    MARAIS, 1954. p. 196.
5    Ibid., p. 237.
68                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



Bb al-Ruwh (ou Bb er-Ruh) e Bb-Udya. Deve-se tambm aos Almadas, entre
outras obras, a kasaba de Badajoz, a Alcal de Guadaira  cidadela construda a 15 km de
Sevilha  e a clebre Torre do Ouro, de forma dodecagonal, que controlava a navegao
no Guadalquivir. Finalmente, deve-se observar que a arte almada alia a majestade e a
fora  leveza vaporosa da decorao e a cores iridescentes graas, principalmente, ao uso
da faiana policrmica (zalldj).  uma arte de maturidade, poder e grandeza.

     As letras
    O sculo XII tambm foi um perodo de brilhante atividade literria. A
reserva inicial dos Almorvidas e dos Almadas em relao aos poetas e s obras
profanas em geral logo se dissolveu sob o sol quente da Espanha. Levando
adiante a tradio segundo a qual os soberanos rabes eram mecenas inte-
ressados e ilustrados, os prncipes das duas dinastias favoreceram a cultura
e protegeram os homens de letras.
    Tambm nesse plano o lugar de honra foi ocupado pela parte ocidental do
conjunto ibero-magrebino; a Ifrkiya no se destacou. Pode-se, quando muito,
citar Ibn Hamds (c. 1055-1133), poeta autntico e de grande renome, mas
mesmo este era nascido na Siclia. Jovem, teve de deixar sua "ptria siciliana",
conquistada pelos normandos, e a partir de ento no cessou de evocar suas lem-
branas com cativante nostalgia. Aps rpida estada na corte de al-Mu`tamid `ala
'llh (ou, mais propriamente, Muhammad ben `Abbd al-Mu`tadid) em Sevilha,
instalou-se na Ifrkiya, onde passou a maior parte de sua vida.
    No extremo Magreb, e sobretudo na Espanha, sabia-se cortejar melhor as
musas. Entre os artistas que mais se valeram de seus favores, citemos: Ibn `Abdn
(morto em Evora em 1134); Ibn al-Zakkk al-Balans (morto por volta de
1133); Ibn Bak (morto em 1150), que passou toda a sua vida em peregrinaes
entre a Espanha e o Marrocos, e cujas muwashshah  gnero no qual era exce-
lente  acabam com khardja (xodo ) em romance; Ab Bahr Safwn ben Idrs
(morto em 1222); Abu 'l-Hasan `Ab ben Hark (morto em 1225); Muhammad
ben Idrs Mardj al-Kul (morto em 1236); Ibn Dihya, que, saindo da Espanha,
morreu no Cairo aps ter percorrido todo o Magreb e residido algum tempo
em Tnis; Ibn Sahl (morto em 1251), sevilhano de origem judaica, de grande
sensibilidade potica, que passou a servir o governador de Ceuta aps a queda
de sua cidade natal nas mos de Fernando III (1248); Abu 'l-Mutarrif ben
`Amra (morto por volta de 1258), que, nascido em Valencia, serviu os ltimos
Almadas em vrias cidades do Marrocos e no final de sua vida participou da
corte dos Hafssidas de Tnis.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental    69



    Dois literatos tiveram brilho excepcional: Ibn Khafdja (1058-1139), tio de
Ibn al-Zakkk, e principalmente Ibn Kuzmn (nascido d. 1086 e morto em
1160). O primeiro, sem ser exatamente poeta de corte  vinha de famlia abastada
de Arcila (Asilah), na provncia de Valencia , submeteu-se  tradio e exaltou
os poderosos da poca, entre eles, o prncipe almorvida Ab Ishk Ibrhm ben
Tshfn. Mas alcanou a posteridade como inimitvel poeta da natureza. Em
seus versos canta, com sensualidade e toques romnticos, a alegria de viver, a
gua dos rios e lagos, os jardins e as flores, os frutos e os prazeres da existncia.
Foi cognominado al-Djannn (o campestre) e toda antologia antiga ou moderna
contm uma seleo de seus poemas.  um clssico da poesia rabe.
    Ibn Kuzmn foi, indiscutivelmente, o "prncipe da poesia popular" (imm
al-zadjdjlm)  abandonando a linguagem erudita, exprimiu-se com virtuosismo
no hispano-rabe coloquial. Grande e muito feio, com barba ruiva, olhos peque-
nos e estrbico, levou vida escandalosa, libertina e licenciosa, com muita bebida
e sem respeitar qualquer proibio sexual (adultrio e sodomia). Sempre sem
dinheiro, errava de cidade em cidade  sem jamais sair da Espanha   procura de
protetores generosos e de casos de amor. Naturalmente no deixou de ser preso
e s escapou  morte a chicotadas pela interveno de um dignitrio almorvida,
Muhammad ben Sr. Sem recursos, inspirado e vagabundo, chega a lembrar-nos,
em seu arrependimento  provavelmente sincero com a idade , o destino atpico
de um Ab Nuws ou de um Franois Villon. Seus zadjal, dedicados na maioria a
seus protetores, so como que baladas ora muito breves (trs estrofes), ora muito
longas (42 estrofes), onde o poeta, rompendo com a arte potica clssica, cria
novos metros e varia as rimas. O panegrico final, espcie de posfcio dos poemas
com dedicatria,  um trabalho bastante banal. A arte do poeta desabrocha nos
zadjal sem dedicatria  que cantam o amor e o vinho  ou nas "brincadeiras"
que introduzem as obras com dedicatria: o poeta se deixa levar por sua inspi-
rao, e esboa quadros impressionantes e burlescos de seus contemporneos,
reproduzindo brigas de bbados, problemas de maridos enganados e outras cenas
cmicas da existncia cotidiana. Descreve os cantos e danas e adora a natureza
civilizada dos jardins e piscinas, cenrio onde evoluem belas banhistas.  rude,
mas raramente obsceno. Enfim, sua arte tem inspirao autenticamente popular,
e  enriquecida por um raro dom de observao e incansvel brio. A tradio
que sedimentou e da qual foi mestre teria continuidade com seu compatriota
Madghals e seria imitada por muito tempo at no Oriente.
    No h literatura viva sem crticos e antologistas. Ibn Bassm (morto em
1148), que vez por outra fazia versos, preocupava-se sobretudo em defender e
ilustrar as letras de sua ptria espanhola. Sua Dhakhira, vasta e inteligente anto-
70                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



logia ditada pelo orgulho nacional contra a pretensa superioridade do Oriente,
 a melhor fonte sobre a atividade literria na Espanha do sculo XI e comeo
do sculo XII. Deve-se a seu compatriota Ibn Bashkuwl (filho de Pascual,
morto em 1183) o Kitb al-Sila (terminado em 1139), que, concebido como
continuao do Ta'rkh de Ibn al-Farad (morto em 1013), reuniu 1400
biografias de celebridades da Espanha muulmana.
    Dois eminentes especialistas representaram a filologia: Ibn Khayr al-Ishbl
(morto em 1179), autor da Fahrasa (catlogo), que nos informa sobre as obras
ensinadas em seu tempo, e principalmente Ibn Mad' al-Kurtub (morto em
1195), que, muitos sculos antes dos atuais partidrios da simplificao da gra-
mtica rabe, criticou severamente e denunciou no Kitb al-Radd `al 'l-nuht6
sua excessiva e desnecessria complexidade.
    No nos  possvel citar todos os bons historiadores e gegrafos da poca,
mas um, gegrafo, no podemos deixar de mencionar, "talvez o maior do mundo
islmico"7, al- Idrs (1099-c. 1166), que viveu na corte de Rogrio II das Duas
Siclias. Uma edio cientfica de sua obra est sendo preparada na Itlia8.

     Filosofia, medicina e cincias
   O sculo dos Almadas foi principalmente o sculo da filosofia, representada
por grande nmero de nomes ilustres: Ibn Bdjdja (Avempace, morto em 1139),
Ab Bakr, tambm conhecido como Ibn Tufayl ou al-Andalus (Abubacer,
morto em 1185), Ibn Rushd (Averris, 1126-1198) e o judeu andaluz Ibn
Maymn (Moiss Maimnides, 1135-1204). Com exceo de Ibn Maymn,
que emigrou para o Egito antes de 1166, todos estes filsofos serviram aos
Almadas e gozaram, apesar de alguns reveses passageiros, de sua proteo
e de seus subsdios. Afora a filosofia, todos adquiriram bom conhecimento
das disciplinas religiosas e cultivaram vrias cincias prticas: a matemtica, a
astronomia, a botnica e principalmente a medicina. Todos  como demonstra
a deformao latina de seus nomes  foram absorvidos pela Idade Mdia crist,
alimentada, por muito tempo, pelo pensamento destes sbios.
   J que no podemos estud-los um a um, falemos daquele que mais brilhou:
o cordovs A verris. Alm de filsofo, foi [akih. (especialista na lei religiosa) e
exerceu a funo de cdi. Fez observaes de astronomia e escreveu uma obra


6    Ed. do Cairo, 1947.
7    MIELI, 1966, p. 198.
8    AL-IDRS, 1970. Sobre as qualidades cientficas da obra de al-Idrs, pode-se tambm consultar
     LEWICKI, 1966, v. 1, p. 41-55.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   71



de medicina, Kitb al-Kulliyt. O acontecimento decisivo de sua carreira
situou-se por volta de 1169, quando seu amigo Ibn Tufayl apresentou-o
ao califa Ab Ya`kb Ysuf, que comeava a se apaixonar pela filosofia e
lamentava-se da falta de clareza das obras de Aristteles. Convidado pelo
califa, Averris elaborou um comentrio e passou para a posteridade como
o intrprete genial e continuador do grande filsofo da Antiguidade.
    Apesar do apoio e da proteo do califa, a voz de Averris foi calada pela
intolerncia. Condenado pelos telogos, caiu em desgraa e foi banido. Suas
obras foram queimadas. Apenas parte delas, em rabe, sobreviveu. A maioria
de seus escritos chegou a ns em tradues latinas ou hebraicas. Alm dos
Comentrios, devem-se mencionar principalmente o Fasl al-Makl (O tratado
decisivo), onde Averris tentou resolver o difcil e eterno conflito entre a f e a
razo, e o Tahfut al-Tahfut (A incoerncia da incoerncia), refutao detalhada
e minuciosa do Tahfut al-Falsifa (A incoerncia dos filsofos) de al-Ghazzl,
o maior telogo do Isl ortodoxo.
    As opinies sobre as ideias e a contribuio de Averris variam. Ps-se em
discusso sua originalidade. Enfatizou-se sua duplicidade, que o levava a enco-
brir seu materialismo ateu, reservado  elite, sob um discurso ortodoxo, desti-
nado ao vulgo. Na verdade, ainda se est longe da ltima palavra a respeito do
pensamento de Averris, apesar das inmeras obras a ele consagradas. Ningum
chegou a explor-la totalmente e a seguir integralmente sua evoluo atravs dos
textos rabes, latinos e hebraicos nos quais se exprimiu. Como todos os filsofos
da Idade Mdia, Averris muito deve a Aristteles. Mas no se pode esquecer
que seu pensamento formou-se em contato com toda uma corrente filosfica
rabe e, com frequncia, em reao a esta corrente. Tambm  preciso tomar
cuidado para no se separar em Averris  como se fez por vezes arbitrariamente
 o telogo do filsofo. Em nossa opinio, no se pode duvidar da sinceridade
de sua f  esclarecida, e, portanto, suspeita. Averris foi incontestavelmente
um genial comentador de Aristteles, "o maior comentador de filosofia que a
Histria j conheceu", estima A. R. Badaw9. Tambm foi, e indubitavelmente,
um pensador profundo, rico e original. No importa que alguns encontrem
esta originalidade sobretudo no Fasl al-Makl e outros no Tahfut: isto s vem
sublinhar a riqueza e a flexibilidade do pensamento do autor,  vontade tanto
na teologia ou no fikh (Fasl al-Makl), quanto na filosofia pura (Tahfut). Seu
gnio foi o canto do cisne da filosofia muulmana do Ocidente.



9    BADAW, 1972, v. 2, p. 869.
72                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



   O sculo dos Almadas contou tambm com eminentes cientistas, dentre os
quais citamos, sem nos deter, os mdicos Ab 'l-`Al' ben Zuhr (Aboali, morto
em 1130) e seu filho Ab Marwn (Avensoar, morto em 1161); os botnicos
Ibn al-Rmiya, al-Ashshb (o Herbalista, morto em 1239) e Ibn al-Baytr
(morto em 1248), e sobretudo os astrnomos e matemticos Djbir ben Aflah,
al-Bitrdja e al-Zarkl, os trs do sculo XII.

     Os ltimos raios antes do crepsculo
    O imprio fundado por `Abd al-M'min no resistiu ao desastre sofrido
em Las Navas de Tolosa (1212). Exaurido pelas guerras externas e corrodo no
plano interno, cedeu lugar a quatro reinos independentes: um na Espanha e
trs no Magreb.

     Granada, ou um certo apogeu
    O pequeno reino de Granada, escrnio precioso da joia que  o Alhambra,
foi considerado, tambm por influncia do romantismo, o apogeu da civilizao
muulmana medieval. Julgamento, naturalmente, bastante exagerado. Talvez,
tenha sido o apogeu do luxo e de um certo refinamento. Mas, na verdade, como
observa H. Terrasse, "em todos os aspectos, este pequeno reino foi apenas um
reflexo diminuto e tardio do califado de Crdoba"10.
    Devem-se aos Nsridas de Granada numerosos monumentos civis e militares,
dentre os quais o mais famoso  o Alhambra. O visitante tem a impresso de ser o
Alhambra produto da mais exuberante fantasia. Portas, janelas geminadas, fileiras
de arcos cobertos de rendas que sobem por esguias colunas de mrmore, vos de
luz e manchas de sombra, galerias e corredores, tudo parece ter sido concebido
para ajustar sabiamente os efeitos de contraste, para surpreender a cada passagem
e romper a monotonia dos espaos fechados com perspectivas sutis e descon-
certantes. A desordem da fantasia  apenas aparente: visto de fora ou de cima, o
edifcio impressiona pelo equilbrio das formas e pela distribuio harmoniosa
dos volumes. Mas o charme maior do monumento, aquilo que impressiona de
imediato o visitante e o marca mais profundamente , sem dvida, a riqueza e a
suntuosidade da decorao. No h invenes, mas sbia utilizao de todas as
aquisies da arte hispano-magrebina e habilidade tcnica perfeita. Domos de
estalactites, tetos de madeira pintada, esculturas no estuque, pans e afrescos, uma


10   TERRASSE, 1958, p. 203.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental                      73



sinfonia de cores discretas ou voluntariamente agressivas, tudo foi reunido para
criar um ambiente de opulncia tranquila, de sensualidade e de sonho. A arte de
Granada odeia a solido do vazio. As paredes so cobertas por motivos florais,
epigrficos ou geomtricos. Arte abstrata e alegrica, d impresso de amplitude,
de infinito. As linhas se alongam, fogem em todas as direes, param, brotam
novamente, cruzam-se em louca dana, num movimento perptuo. A msica sutil
dessas caligrafias esculpidas ou gravadas, frequentemente compondo as palavras
de lbn Zamrak, vem enfeitiando h geraes os visitantes menos avisados. Arte
mgica, mas tambm,  preciso dizer, arte sem vigor, ltimo canto de uma civi-
lizao que se fecha em seus meandros, no casulo aconchegante de seus sonhos,
sem fora para se renovar nem para enfrentar a vida.
    Sob os Nsridas, a cultura apresenta a mesma fisionomia, constituindo-se
num prolongamento do passado e podendo parecer, em alguns domnios, bas-
tante brilhante. No entanto a filosofia entra em declnio, sem nenhum repre-
sentante de valor. Tambm as cincias, como um todo, estacionam ou mesmo
regridem. No podemos deixar de citar o mdico Ibn Khtima (morto em 1369)
e o matemtico al-Kalasd (1412-1486); mas apenas estes.
    No campo das letras, Granada conservou certo brilho at o fim de seus dias.
Nunca lhe faltaram fillogos, poetas e estilistas que soubessem cinzelar com arte




Figura 3.1    O Alhambra de Granada. Sala lateral do Ptio dos Lees; decorao do sculo XIV. (Foto J.
Devisse.)
74                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



 a mesma que recobre as paredes do Alhambra  a prosa rimada, to apreciada
pelo pblico culto da poca. O escritor mais representativo foi Lisn al-Dn Ibn
al-Khtb (1313-1375), o maior humanista de seu tempo, tido como grande
clssico da literatura rabe. Seu amigo Ibn Khaldn considerava-o "verdadeiro
prodgio na prosa e no verso, nas cincias e nas letras". Secretrio e vizir dos
Nsridas, obteve as mais altas honras e distinguiu-se em todos os ramos do
saber: poesia, antologia, epistolografia, relatos de viagem, histria, mstica
e medicina; produziu pelo menos 60 obras. Imps -se, principalmente, pela
magia do estilo e pelo inegvel virtuosismo da linguagem. O mgico virtuose
teve, no entanto, terrvel fim: em virtude de falsa acusao de heresia por
personagens poderosos  entre os quais, seu protegido, o poeta Ibn Zamrak
(1333- d. 1393), que o sucedeu como vizir , foi sumariamente estrangulado
numa sombria cela em Fs, e seus restos, queimados. A arte de seu sucessor
no era menos fascinante... e seu fim no foi menos trgico: Ibn Zamrak,
outro mgico do verbo em verso e prosa, acabou sendo assassinado por ordem
do sulto. Seu dwn (obra potica) no chegou at nossos dias, mas alguns
de seus poemas, "transfigurados em hieroglficas belezas, em caligrafias refi-
nadas misturadas a arabescos e ornamentos"11, ainda adornam as paredes do
Alhambra. Nada exprime melhor o jogo sutil de relaes entre a arte e a
literatura dos Nsridas.
    Granada foi uma civilizao que terminou em eruditos arabescos verbais e arqui-
tetnicos, arabescos extraordinrios, mas j antiquados, como tantas peas de museu.
Como poderia ela escutar a voz de Ibn al-Hudhayl (morto d. 1392), que tentou, em
vo, arranc-la de seu sonho e louvou-lhe as virtudes viris da arte equestre?

     Os herdeiros magrebinos dos Almadas
   A falta de vitalidade grassava em todos os domnios no Ocidente muulmano.
A histria do Magreb sob os Marnidas, os Zainidas (`Abd al-Wdid) e os Hafs-
sidas, isto , at as ltimas dcadas do sculo XVI,  de uma lenta paralisao.
No nos cabe aqui seguir a evoluo dessa letargia geradora de decadncia,
fenmeno capital, porm ainda no suficientemente estudado. No entanto um
fato  certo: enquanto no Ocidente cristo ocorria verdadeira exploso demo-
grfica, o Ocidente muulmano se despovoava. Esse declnio demogrfico j
era sensvel em meados do sculo XI e parece ter atingido seu nvel extremo
na metade do sculo XIV. Ibn Khaldn observou o fenmeno e apontou-o, com


11   GARCIA-GOMEZ, apud TERRASSE, 1958, p. 211.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   75



razo, como um dos elementos decisivos da regresso e da morte das civilizaes.
A agricultura e principalmente a arboricultura recuavam; o nomadismo se alas-
trava. Cidades e aldeias desapareciam ou se despovoavam. Kayrawn, que contava
centenas de milhares de habitantes nos sculos IX e X, transformou-se numa cida-
dezinha. Leo, o Africano12, assinala que em Bidjya s havia 8 mil lares, quando
a cidade podia comportar facilmente 24 mil. Extrapolando  por no dispormos
ainda de estudos de demografia histrica, indispensveis para o entendimento
desse perodo , podemos estimar que a populao do Magreb reduziu-se a um
tero. Por qu? As pestes  que no so apenas causas, mas tambm efeitos  no
constituem motivo suficiente. Em todo caso, o declnio demogrfico violento
sofrido pelo Magreb explica melhor do que qualquer outro evento  que certa-
mente seria apenas um epifenmeno  o crescente desequilbrio entre o norte do
Mediterrneo, onde, como notou Ibn Khldun13, despontava a Renascena, e o sul,
progressivamente mergulhado nas sombras at a Nahda contempornea, acom-
panhada  fortuitamente?  por uma exploso demogrfica, que ainda prossegue.
    A arquitetura do Magreb, principalmente a do Marrocos e da parte ocidental
da Arglia, continuou a sofrer influncias andaluzas (de Granada). Estas influn-
cias so menos manifestas na Ifrkiya, onde se conservam relativamente poucos
monumentos hafssidas. Os grandes construtores da poca foram os Marnidas.
 impossvel citar todas as suas obras. Observemos apenas que o sculo XIII foi
marcado pelo surgimento de novo tipo de monumento de inspirao oriental: a
madraa, instituto de estudos islmicos. Em geral, seu projeto  bastante simples:
um ptio interior, cercado de galerias, com uma fonte no centro, para onde se
voltam os quartos dos estudantes. Num dos lados h um grande salo dotado de
um mihrb, que servia como sala de aula ou oratrio. Todas as capitais do Magreb
e muitas cidades importantes tiveram suas madraas. A mais monumental  a
Ab `Inniyya de Fs (13501357). Outro tipo de edifcio que surgiu na poca
foi a zwiya, sede de congregao e santurio fnebre do santo fundador. A arte
magrebina ps-almada pode ser considerada da maturidade; representa certo
classicismo. Embora tecnicamente perfeita, no aponta nenhuma evoluo, per-
manecendo num estado de estagnao rgida, que anuncia sua decadncia.
    A cultura sofre do mesmo mal. Ibn Khaldn observa, com sua perspiccia
habitual, que em seu tempo o "mercado do saber estava em pleno marasmo no
Magreb"; adiante, no captulo consagrado s cincias exatas, acrescenta que estas,
principalmente, "haviam quase desaparecido e s eram cultivadas por raros indi-

12   LEO, o Africano, trad. francesa, 1956, v. 2, p. 361.
13   IBN KHALDN, trad. francesa, 1956-1959, p. 700, 866.
76                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



vduos, que sofriam a censura dos doutores ortodoxos"14. Atribua esta situao
ao declnio da civilizao e  diminuio da populao (tankus al-`Umrn).
    O marroquino Ibn al-Bann' (12561321) foi o ltimo matemtico de valor,
e Ibn al-Kammd, da Ifrkiya, o ltimo astrnomo. Na filosofia, pode-se citar
al-bil (1282-1356), de Tlemcen, cujo principal mrito foi ter contribudo
para a formao de Ibn Khaldn. O mestre da geografia descritiva na forma de
relato de viagem (rihla)  foi o marroquino Ibn Battta (1304- c. 1377), que
visitou a ndia, a China e a frica, e cuja competncia ultrapassava, de longe, a
de seus mulos e contemporneos al-`Abdar, Khlid al-Balaw e al-Tdjan. No
 possvel citar todos os historiadores  entre os quais se destaca a figura de Ibn
Khaldn (1332-1406)  nem todos os hagigrafos, bigrafos e antologistas. No
faltaram poetas nem tampouco prosadores, mas a poca que ora tratamos, apesar
de alguns trabalhos bem-sucedidos, foi marcada pela decadncia. Continuava-se,
naturalmente, a compor kasda, panegricos cada vez mais pomposos, que hoje
nos parecem ainda mais ridculos por deformarem grotescamente a realidade.
Tambm se escreviam rith15, uma efuso de lgrimas de crocodilo derramadas
sobre os poderosos, raramente de inspirao em dor verdadeira. As pessoas se
deliciavam com o gnero descritivo. Adorava-se evocar a beleza efmera de um
lrio ou flor de amendoeira e gemer com a na'ra (roda-d'gua). Cantava-se
o amor mstico, mas tambm o vinho, e as pessoas deixavam-se embalar pelo
charme equvoco da poesia ertica, onde, com frequncia, a silhueta da amante
confundia-se com a de um jovem efebo. Temas que h muito haviam se tor-
nado clssicos eram tratados sem nenhuma originalidade. Faziam-se "versos
antigos" sem "novos pensadores". Havia-se esgotado a seiva, mas o ofcio con-
tinuava perfeito. O que as pessoas saboreavam era a delicadeza do artista ou
a habilidade do menestrel. Gostavam de ouvi-lo desfiar lugares-comuns, que
consideravam, de boa vontade, obras-primas, desde que a forma fosse perfeita.
Era a literatura de uma classe refinada, refugiada nos perfumes, ou no ter do
passado. Literatura onde o verso e a prosa  frequentemente misturados em
ternas epstolas  eram bibels finamente cinzelados, bibels cujo desenho e
graa evocavam irresistivelmente os frgeis e graciosos arabescos que ornavam
os palcios e as habitaes burguesas. Formas estagnadas e decadentes, porm
reflexos de uma cultura real, a da burguesia urbana. Nunca, talvez, os livros e
as bibliotecas foram to apreciados. O ensino, incluindo-se a a educao das


14   Ibid., p. 789 e 866.
15   A palavra rith designa um gnero elegaco, de estilo muitas vezes convencional; esse gnero triste e
     lamentoso  mais conhecido como marthiya.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   77



mulheres, era bastante difundido. Adorava-se a msica, com certeza j dominada
pela influncia andaluza  o mlf. Leo, o Africano, observa a respeito
de Tadelles (Dellys): "As pessoas so amveis e levam vida alegre. Quase
todos tocam bem o alade e a harpa"16; e acrescenta adiante: "Os homens
de Bidjya so homens agradveis. Adoram divertir-se: todos sabem fazer
msica e danar, principalmente os senhores"17. Foram os ltimos raios de
uma civilizao crepuscular.


     Impacto sobre a civilizao ocidental
   Apesar dos inevitveis conflitos e da divergncia de destinos, os intercm-
bios materiais e culturais entre o Ocidente muulmano e o Ocidente cristo
nunca foram interrompidos. Para esboar um quadro equilibrado, exporemos
brevemente, em primeiro lugar, os traos especficos dos intercmbios materiais,
limitando-nos  Espanha, principal plataforma do trnsito cultural.

     Os intercmbios materiais
   O comrcio com a Espanha, assim como com o resto da Europa, era regido
por tratados, que fixavam as modalidades em que deveria desenvolver-se e
regulavam o estabelecimento de negcios pessoais. De acordo com esses trata-
dos, os ibricos  entre os quais no estava ausente a rivalidade  dispunham,
em todos os portos magrebinos e at no interior (por exemplo, em Tlemcen e
Marrakech), de uma cadeia de funduk. Ao mesmo tempo albergue (com capela,
fornos, tavernas etc.), entreposto e centro de negcios, os funduk eram, em
geral, geridos por cnsules, que representavam seus iguais junto aos poderes
locais.
   Menos dinmicos  e isto deve ser enfatizado , os magrebinos no conse-
guiram se apoiar em organizaes semelhantes em terras crists. Tambm no
transporte martimo, seu papel era negligencivel. A burguesia aceitou o desen-
volvimento comercial, dele obtendo certo lucro, mas no se integrou ao comrcio.
No tomou iniciativas empresariais nem estimulou a produo interna destinada




16   LEO, o Africano, trad. francesa, 1956, p. 352.
17   Ibid., p. 361.
78                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



 exportao. Os lucros, principalmente sob a forma de censos fiscais pagos pelos
estrangeiros, acabaram enriquecendo principalmente os cofres do Estado18.
    O desequilbrio tambm aparecia nos produtos permutados. Em princpio,
no havia limitaes  importao por qualquer uma das partes. Mas as exporta-
es eram controladas: estabeleciam-se quotas para alguns produtos vitais, como
os cereais, e havia a proibio  mais ou menos respeitada  de exportar mate-
riais estratgicos, como armas, ferro, madeira etc. Os ibricos exportavam para o
Magreb metais, madeira, ferragens, especiarias compradas no Oriente, corantes,
vinho, papel e principalmente tecidos de toda espcie. Importavam ls, peles,
cera  da qual veio o nome atual da cidade de Bougie (vela, em francs) , tma-
ras, tapetes e outros artigos de artesanato. O reino de Arago exigia frequente-
mente desconto sobre os direitos alfandegrios pagos por seus comerciantes e, por
diversos meios, esforava-se por manter o controle do eixo comercial Barcelona-
-Maiorca-Tlemcen-Sidjilmsa, uma das vias que levavam ao ouro do Sudo19.
    Em posio de inferioridade quanto aos intercmbios materiais, o Magreb
exportava em larga escala aquisies de seu patrimnio cultural, que no mais
sabia apreciar devidamente nem fazer frutificar. O Ocidente descobria com
entusiasmo o inestimvel valor dessa cultura, estimulando seu "renascimento"
em todos os campos.

     Os intercmbios culturais
   O Magreb teve papel duplo: serviu como intermedirio, lugar de passagem
obrigatria de todos os valores da civilizao rabo-muulmana introduzidos no
Ocidente, e exportou seus prprios bens culturais. Aqui, vamos nos limitar ao
segundo aspecto da questo, geralmente pouco enfatizado.

     Ambiente e motivaes
    A transferncia de valores culturais do Ocidente muulmano para o Ocidente
cristo foi favorecida, principalmente nos sculos XII e XIII, pelo ambiente de
grande tolerncia que ento prevalecia e que s comeou a se deteriorar seriamente
 culminando com o advento da Inquisio e com a expulso dos mouros em
1609  aps a queda de Granada (1492). Havia dois motivos para essa tolerncia:
simpatia desinteressada e estratgia espiritual. Por gosto pessoal, Rogrio II das


18   Sobre o comrcio com a Europa e a hegemonia martima dos cristos, ver captulo 26 deste volume.
19   Um quadro geral da atividade aragonesa no Magreb pode ser encontrado em DUFOURCQ, 1966, p. 644.
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   79



Duas Siclias (1105-1154) cercou-se de literatos rabes. A tradio manteve-se
e ampliou-se no reinado de Frederico II (1197-1250), o qual tinha profunda
admirao pelo pensamento muulmano. Na Espanha, Pedro I de Arago (1094-
-1104) assinava suas cartas em rabe e cunhava moedas de tipo muulmano20.
Mas havia tambm preocupaes de ordem ttica: os dominicanos e franciscanos,
principalmente, sonhavam com conquistas espirituais. O estudo da lngua rabe
e do pensamento muulmano com objetivos tticos  o que no exclua neces-
sariamente a generosidade  visando apoiar os esforos missionrios data dessa
poca, e no mais desapareceu. Ramn Llull (Raimundo Llio - c. 1235-1315),
uma das personalidades mais marcantes da Idade Mdia espanhola,  quem mais
bem simboliza esse esprito. Durante toda a sua vida procurou o "dilogo" com os
muulmanos, escreveu tratados em rabe e pregou no Marrocos, em Tnis e em
Bidjya, pondo em risco sua vida e sua liberdade. Embora preferisse a via filosfica
para converter os muulmanos, no deixou de insuflar os ventos das Cruzadas,
recorrendo ao papa Celestino V em 1294, a Bonifcio VIII em 1295, a Filipe, o
Belo, em 1298 e a Clemente V em 1302. No Conclio de Viena, em 1311, props
no somente a fundao de colgios para o estudo do rabe, mas tambm a cria-
o de uma ordem militar para combater o Isl. Nesta dupla "cruzada", o estudo
do rabe era apenas uma arma entre outras. O homem que, talvez mais do que
nenhum outro, havia contribudo para forj-la no sabia que a posteridade o
veria como um "sufi cristo", devido  sua permeabilidade s influncias de Ibn
al-`Arab (1165-1240), o maior mstico do Isl espanhol. Desse modo, simpa-
tia desinteressada e preocupaes tticas convergiam de maneira a favorecer
o impacto da civilizao rabo-muulmana sobre um Ocidente cristo que
vibra com toda a energia frentica, o entusiasmo e o apetite da adolescncia.

     Os "studia arabica"
   As contribuies dessa civilizao transitaram por duas rotas, uma prove-
niente da Siclia e da Itlia, e outra, muito mais importante, oriunda da Espanha
e da Frana meridional. As Cruzadas tiveram apenas papel secundrio, contra-
riando uma opinio outrora comum.
   A primeira escola a difundir a cincia rabe na Itlia foi, ao que parece, a
de Salerno. Atribui-se sua fundao a Constantino, o Africano, mdico e nego-
ciante nascido em Tnis por volta de 1015. Muulmano convertido ao cristia-
nismo, no final de sua vida e (1087) foi abade do mosteiro de Monte Cassino.


20   Ibid., p. 23.
80                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



Mas a influncia rabe mais frutfera exerceu-se sobretudo a partir de Palermo,
graas ao apoio de Frederico II, de seu filho natural Manfredo (1258-1266) e
dos primeiros angevinos. Na Siclia, foi o perodo ureo das tradues do rabe
para o latim, em que se destacaram o astrlogo Teodoro, alm de Joo e Moiss
de Palermo, e principalmente o ingls Michael Scot (morto em 1235), todos eles
da corte de Frederico II. Deve-se acrescentar o nome do judeu Faradj ben Slim
de Agrigento, que ps sua escrita a servio de Carlos de Anjou (1264-1282).
    Na Espanha, o movimento iniciado no sculo X na Catalunha, no famoso
mosteiro de Ripoli  onde estudou o monge Gerberto, que fez parte da embai-
xada de Crdoba (971) e que se tornaria o papa Silvestre II (999-1003)  ainda
no  bem conhecido. Alguns detalhes daquele movimento s se tornam dispo-
nveis a partir do primeiro quartel do sculo XII.
    Barcelona foi a primeira a se destacar na rea da traduo; seus tradutores
mais notveis foram Plato de Tvoli e o judeu andaluz Abraham Bar-Hiyy
(morto por volta de 1136), mais conhecido pelo nome de Savasorda (Shib
al-Shurta). Ambos colaboraram na traduo de vrias obras de astrologia e de
astronomia, entre as quais as preciosas tbuas do oriental al-Battn (Albatnio,
morto em 929).
    Em seguida, foi a cidade de Toledo que passou para o primeiro plano, eclip-
sando com seu brilho todos os outros centros. Atraiu sbios de toda a Europa:
da Inglaterra, da Frana, da Alemanha, da Itlia e da Dalmcia. Na fecundao
da cultura do Ocidente cristo pela cultura rabo-muulmana, Toledo teve
o mesmo papel que a Bagd do sculo IX em relao  herana helnica, e
Afonso X, o Sbio (1252-1284), foi a rplica exata de al-Ma'mn (813-833),
que sonhava com Aristteles. Podemos distinguir dois perodos principais nas
atividades da escola de Toledo. O arcebispo Raimundo (1125-1152) inspirou
o primeiro, e Rodrigo Jimnez de Rada (1170-1247), tambm arcebispo, o
segundo. A princpio, judeus e morabes serviram de guias e introdutores
 lngua rabe. As tradues passavam frequentemente por vrias etapas; o
rabe era primeiramente transposto para o hebraico e para o castelhano antes
de chegar  forma latina definitiva; da surgirem erros, inevitveis. Entre os
tradutores do primeiro perodo, devemos mencionar o arquidicono de Seg-
via, Dominicus Gondisalvius (morto em 1181), um dos principais filsofos da
Idade Mdia espanhola, profundamente influenciado pelo peripatetismo rabe.
Seu colaborador foi Joo de Espanha Abendaud (morto em 1166), judeu con-
vertido ao cristianismo. Mas a figura mais importante foi indubitavelmente o
lombardo Gerardo de Cremona (1114-1187). Aprendeu o rabe com o mo-
rabe Galippus (Ghlib) e obteve rapidamente o domnio da lngua que ps a
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   81



servio de seu infatigvel zelo de tradutor. Devem-se a ele no menos do que 70
tradues. Mencionemos tambm dois ingleses  Adelardo de Bath e Roberto
de Ketton; o ltimo fez para Pedro, o Venervel (1092-1156), reformador de
Cluny, a primeira traduo latina do Coro, terminada em 1143. Devemos
acrescentar ainda o nome de Hermann da Dalmcia. O segundo perodo tole-
dano foi dominado por dois tradutores: Michael Scot e Hermann, o Alemo.
A imensa fama de Toledo tornou-se contagiante. Multiplicaram-se os studia
arabica. Em 1236, os frades missionrios, reunidos em Paris, recomendaram que
se estudasse o rabe em todo lugar em que os cristos tivessem contato com os
muulmanos. Em 1250, Ibn Rashk de Murcia nos descreve com admirao
as atividades do convento dessa cidade  ainda muulmana , onde encontrou
monges, com certeza dominicanos, que conheciam perfeitamente o rabe e o
Coro. O studium arabicum de Tnis, fundado por dominicanos sob a reco-
mendao do rei de Arago, Jaime I, o Conquistador (1213-1276), estava em
plena atividade na mesma poca e acolhia, com outros sete frades missionrios,
Ramn Mart (1230-1286), o autor de Pugio Fidei adversus Mauros et Judaeos
(O punhal da f dirigido contra os muulmanos e judeus). Ramn Mart tinha
perfeito conhecimento da lngua rabe, como prova o dicionrio rabo-latino
que lhe  atribudo21. Em 1256, uma escola funcionava tambm em Sevilha,
fundada por iniciativa de Afonso X e dirigida por Egdio de Tebaldis e Pedro
de Reggio. A ltima celebridade desta escola foi Arnaldo de Vilanova (morto
em 1312). Em 1269, Afonso X confiou a direo da escola de Murcia  cidade
conquistada em 1266  a um filsofo muulmano da regio, al-Rakt, antes
de transferi-la, em 1280, para Sevilha. Em 1276, o franciscano Raimundo
Llio fundou em Maiorca o famoso colgio Miramar, onde 13 frades menores
estudaram rabe antes de irem evangelizar as terras do Isl. Enfim, a partir da
sugesto do Conclio de Viena (1311), studia arabica foram abertos em Oxford,
Paris, Salamanca, Roma e Bolonha, onde, no sculo XVI, ainda lecionava Leo,
o Africano (c. 1489- c. 1550).
    No sul da Frana destacou-se a atividade de uma famlia judia originria de
Granada, a dos Ibn Tibbon. Devem-se sobretudo a Yudah Ibn Tibbon, fale-
cido em Lunel em 1190, e a seu filho Samuel, falecido em Marselha em 1232,
numerosas tradues do rabe para o hebraico. Seus netos mantiveram ainda
por certo tempo a tradio da famlia.




21   Ed. Sciaparelli, 1872.
82                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



     As tradues de obras andaluzomagrebinas e seu impacto
     A filosofia
    Embora a corrente de transmisso direta nunca tenha sido interrompida,
 certo que a Idade Mdia crist s pde descobrir, apreciar e compreender
realmente a herana do pensamento antigo atravs das obras dos filsofos
rabo-muulmanos, entre os quais os andaluzes e magrebinos ocupam lugar
de honra. No possumos nenhuma verso latina da obra de Ibn Bdjdja: s
chegaram a nossos dias verses hebraicas, como a do Tadbr al-Mutawahhid
(O regime do solitrio), feita por Moiss de Narbona em meados do sculo
XIV. O mesmo ocorreu com a obra de Ibn Tufayl: seu Hayy ben Yakzn, tra-
duzido para o hebraico em data indeterminada, foi comentado por Moiss de
Narbona, na mesma lngua, em 1349. A primeira traduo latina de que temos
conhecimento, realizada por Pococke com o ttulo de Philosophus autodidactus,
data de 1671.  certo, no entanto, que Ibn Bdjdja e Ab Bakr (Ibn Tufayl),
chamados respectivamente de Avempace e Abubacer, no eram desconhecidos
da Idade Mdia latina.
    Mas o grande mestre foi incontestavelmente Ibn Rushd (Averris). Muitas de
suas obras foram traduzidas  a ponto de terem chegado a ns, em grande parte,
exclusivamente em verso latina ou hebraica  e discutidas com paixo. Da multido
de seus tradutores emerge a figura do ingls Michael Scot, que pode ser considerado
pioneiro na difuso do averrosmo. A seu lado destacou-se Hermann, o Alemo
(morto em 1272). Os dois integravam a corte de Frederico II e haviam trabalhado
em Toledo. Assinalemos tambm que os Ibn Tibbon da Provena se esforaram para
difundir o averrosmo entre os judeus. O sucesso das obras de Averris foi to grande
que vrias verses de seus Comentrios foram elaboradas j no sculo XIII.
    Averris, adversrio de al-Ghazzl e autor do Tahfut (traduzido com o ttulo
de Destructio destructionis), aparecia naturalmente como o campeo do racionalismo
e do antidogmatismo aos olhos dos literatos da Idade Mdia latina. Destarte, o
Ocidente cristo dividiu-se em dois campos: os averrostas e os antiaverrostas. O
defensor mais fervoroso de Averris na Universidade de Paris foi Sigrio de Bra-
bante. No entanto as teses consideradas averrostas  as quais, entre outras coisas,
afirmavam a eternidade do mundo e negavam a imortalidade da alma individual
 no podiam deixar de mobilizar os defensores da Igreja. Alberto Magno (1206-
-1280), Santo Toms de Aquino (1225-1274) e Raimundo Llio dirigiram ofensiva
particularmente vigorosa contra elas. O averrosmo continuava, no entanto, a seduzir.
Em 1277, foi preciso conden-lo oficialmente. Sigrio, preso e excomungado, teve
fim trgico, por volta de 1281. Que as condenaes fossem devidas a um erro de
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental     83



interpretao, pouco importa. Jules Romains mostrou, em Donogoo, como o erro
pode ser frtil. Averris abalou violentamente os espritos; fez pensar, quer por
adeso, quer por reao. Um sinal seguro de seu sucesso e das paixes que desper-
tou  o fato de se ter tornado um smbolo de descrena at para os pintores. Em
Pisa, Andrea Orcagna oferece-lhe um lugar de destaque, ao lado de Maom e do
Anticristo, em seu Inferno, que orna o Campo-Santo, e, na Igreja de Santa Catarina,
numa pintura de Francesco Traini, executada por volta de 1340, pode-se ver o fil-
sofo de cabea para baixo aos ps de Santo Toms. Ora, por uma dessas ironias do
destino que revertem as situaes, Averris teve seu maior triunfo justamente sobre
o seu suposto vencedor. "Santo Toms  ao mesmo tempo o mais srio adversrio da
doutrina averrosta e, pode-se dizer sem paradoxo, o primeiro discpulo do grande
comentarista", escreve Ernest Renan22. M. Asn Palacios e Jos Mara Casciaro
compartilham esse ponto de vista ao apontarem o "averrosmo teolgico" de Santo
Toms, em cuja obra se encontram nada menos do que 503 citaes do grande
filsofo. Expurgado, ou mais bem compreendido, Averris conheceu triunfo ainda
maior no sculo XIV. Joo Baconthorpe (morto em 1346), provincial dos carmelitas
da Inglaterra, foi considerado o "prncipe dos averrostas de seu tempo". E, em 1473,
quando reorganizava o ensino da filosofia, Lus XI recomendou a doutrina de "Aris-
tteles e seu comentarista Averris, reconhecida, h muito tempo, como benfica
e salutar"23. Mas foi na Universidade de Pdua  onde estudou Cesare Cremonini
(morto em 1631), ltimo dos grandes discpulos de Averris  que o averrosmo
exerceu seus efeitos mais brilhantes e duradouros; sua tradio s veio a se extinguir
por completo no sculo XVIII.

     As cincias
    Na Idade Mdia, os filsofos com frequncia exerciam a medicina. Averris
tambm legou ao Ocidente cristo uma obra mdica; Kitb al-Kulliyt (Livro
das generalidades) foi traduzido em Pdua em 1255 pelo judeu Bonacossa, com
o ttulo de Colliget. As melhores obras dos representantes da clebre escola de
medicina de Kayrawn  Ishk ben `Imrn (morto em 893), Ishk ben Sulaymn
al-Isr'l (morto em 932) e Ibn al-Djazzr (morto em 1004)  j haviam sido
traduzidas no sculo XI por Constantino, o Africano, e eram usadas para o ensino
em Salerno. A obra mdica de Ishk al-Isr'l permaneceu em alta conta at o
fim do sculo XVI. Foi publicada em Lio, em 1575, com o ttulo de Omnia opera


22    RENAN, 1866, p. 236.
23   Ibid., p. 317.
84                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



Ysaac. O Zd al-Musfir (Vitico do viajante), de Ibn al-Djazzr, teve o mesmo
sucesso. Alm da verso latina, existem uma em grego e outra em hebraico. O
Kitb al -Ta`rf do andaluz Ab al -Ksim al -Zahrw (conhecido como
Abulcasis, 9311013), parcialmente traduzido por Gerardo de Cremona
com o ttulo de Alsaharavius ou Aaravius, gozou de grande renome durante
toda a Idade Mdia, principalmente no que concerne  cirurgia. Finalmente,
a verso latina do Taysr, de Ibn Zuhr, feita por Paravicius, tornou-se conhe-
cida em Veneza em 1280. Todas essas obras, embora no tivessem alcanado o
mesmo nvel de difuso ou a notoriedade do Cnon da medicina  a bblia de
todos os mdicos da Idade Mdia , do oriental Avicena, muito contriburam
para o progresso dos estudos mdicos no Ocidente cristo. A farmacologia
medieval deve ao andaluz Ibn Wfid (Abenguefit, 988-1074) uma de suas
obras bsicas, tambm traduzida por Gerardo de Cremona com o ttulo de
De medicamentis simplicibus.
    A contribuio andaluza e magrebina  difuso das cincias matemticas e
astronmicas no Ocidente cristo no foi menos importante. Adelardo de Bath
traduziu as Tbuas astronmicas de Maslama al-Madjrt, estabelecidas por volta
do ano 1000 com base no trabalho de al-Khwrizm (morto em 849). Yehud
ben Moshe concluiu em 1254 a traduo castelhana da vasta enciclopdia astro-
lgica de Ibn Ab al-Ridjl (morto aps 1037), da Ifrkiya, o Kitb al-Bri
f-ahkm al-Nudjm. O texto castelhano serviu de base para duas verses latinas,
trs hebraicas, uma portuguesa, e outras em francs e em ingls, o que indica o
enorme sucesso da obra. Deve-se a Gerardo de Cremona a traduo das Tbuas de
al-Zarkl (Azarquiel)  que, com o ttulo de Tablas toledanas, se impuseram a toda
a Europa medieval  e uma verso do Islh al-Madjist (Reforma do Almagesto),
de Djhir ben Aflah (Geber ou Jabir). O Tratado de astronomia (Kitb f 'l-Hay'a)
de al-Bitrdj (Alpetragius) foi traduzido para o latim por Michael Scot e para o
hebraico por Moiss ben Tibbon em 1259. A partir dessa verso, Kalonimos ben
David fez, em 1526, nova traduo latina, impressa em Veneza em 1531, sinal do
contnuo sucesso da obra. Destaquemos, enfim, que o gnio matemtico Leonardo
de Pisa ou Fibonacci (nascido por volta de 1175, passou muito tempo em Bidjya,
onde o pai era notrio) muito deve, principalmente no domnio da lgebra, 
influncia rabe, cujo sistema numrico ele introduziu na Europa.

     Letras, lngua e arte
    O problema da influncia da literatura de expresso rabe na Europa medieval
foi objeto de debates, com frequncia acalorados. A poesia dos trovadores, que
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental      85



floresceu nos sculos XII e XIII, to original por sua forma estrfica ritmada
e rimada, por seu clima psicolgico e por seus temas que versam sobre o amor
corts,  de origem rabe? No, responde Jean Anglade, "os trovadores criaram
tudo, forma e contedo". Sim, estimam Juan Ribera e principalmente Ramn
Menndez Pidal24, um dos maiores especialistas da literatura de romanas. De fato,
as semelhanas entre o muwashshah ou o zadjal da Espanha muulmana (gne-
ros nos quais, como vimos, Ibn Kuzmn era mestre) e a poesia do Languedoc,
representada por Guilherme IX de Poitiers, so surpreendentes, ningum h
de negar. Ademais, os contatos entre cristos e muulmanos, principalmente
na Espanha, eram frequentes, quando no ntimos. Nessas condies, por que
no teria havido influncia? Mas alguns especialistas contemporneos, como Le
Gentil, ainda no esto convencidos a esse respeito; o debate prossegue. Outra
discusso (esta, ao que parece, j encerrada, embora s depois de ter feito correr
muita tinta) desenvolveu-se em torno da Divina Comdia: em La escatologa
musulmana en la Divina Comedia, anlise que pode ser considerada modelo do
gnero, M. Asn Palacios apontou na obra de Dante indubitveis influncias
rabo-muulmanas. Seu ponto de vista no foi unanimemente aceito. O elo
perdido que viria assegurar definitivamente a aceitao de sua tese foi desco-
berto numa verso do Mi`rdj, relato popular da ascenso de Maom ao cu,
que esteve em voga na Espanha muulmana. Foi traduzido para o castelhano
para Afonso X e, a partir dessa verso, hoje perdida, o italiano Boaventura de Siena
realizou duas tradues, uma para o latim, o Liber scalae Machometi, e outra para
o francs antigo, o Livre de l'eschiele Mahomet. Hoje j est estabelecido  aceita-o
E. Cerulli25, entre outros  que Dante conhecia o Mi`rdj, o que, naturalmente,
em nada diminui seu gnio; a questo que ora se apresenta  quanto  extenso
da influncia muulmana na Divina Comdia. Deve-se acrescentar que a Europa
medieval tambm foi influenciada pela literatura rabe de filosofia moral, comum
na Espanha e popularizada por Pedro Afonso, entre outros, em sua Disciplina cleri-
calis, escrita para Afonso I de Arago (1104-1134); o sucesso desta obra manteve-
-se at os tempos modernos.
    Dessa longa intimidade entre o Ocidente muulmano e o Ocidente cristo,
entre a frica de lngua rabe e a Europa, restam muitos vestgios nas lnguas
europeias. Palavras como lgebra, logaritmo, znite, nadir, azimute, alambique, lcool,
cifra, tarifa, xarope, acar e centenas de outras do vocabulrio da matemtica, da


24   MENNDEZ PIDAL, 1941.
25   CERULLI, 1949.
86                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 3.2 Arcadas do claustro, em Soria; exemplo da influncia da esttica muulmana na arte crist
espanhola. (Foto J. Devisse.)



astronomia, da medicina, da qumica, da botnica ou mesmo da vida cotidiana so
de origem rabe. No castelhano h cerca de 4 mil destas palavras.
    As influncias so tambm perceptveis na arte; no apenas na arte mudjar,
esta "flor outonal" da arquitetura hispano-mourisca, segundo G. Marais, mas
tambm na arte romnica. Apontado pela primeira vez nas anlises de E. Mle,
esse segundo aspecto tem sido confirmado em diversos estudos. Terminemos
sublinhando que, como demonstrou Maxime Rodinson, at a cozinha da Europa
medieval deve algo  arte culinria dos rabes.


     Concluso
    Graas a estas duas pontes  a Siclia e sobretudo a Espanha  que ligam a
frica  Europa atravs do Mediterrneo, os intercmbios materiais e culturais
entre os dois mundos, entre os dois continentes, nunca foram interrompidos.
No sculo XII, a chama da cultura africana, em sua forma andaluzo-magrebina,
brilhou pela ltima vez, antes que sua luz, cada vez mais vacilante, se extinguisse
na obscuridade da decadncia. O colapso demogrfico, gerador de estagnao,
de atraso ou de regresso econmica provocou a atrofia cultural. A seiva cessou
de fluir nos ramos secos e asfixiados. Foi ento que a herana acumulada nos
A expanso da civilizao magrebina: seu impacto sobre a civilizao ocidental   87



confins setentrionais da frica e na Espanha muulmana foi recolhida por uma
Europa que, em plena expanso demogrfica, descobriu, com entusiasmo, seu
inestimvel valor cultural e ttico. Esta herana constituiu poderoso estmulo
para a Renascena europia.
   Hoje, o Magreb e a frica como um todo so grandes consumidores dos
frutos da civilizao ocidental, fato que no deixa de gerar conflitos, crises de
conscincia, crises em cujo cerne  modernidade no raro se ope a autentici-
dade. Quais sero as consequncias?
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                              89



                                       CAPTULO 4


                      A desintegrao da
                  unidade poltica no Magreb
                                                Ivan Hrbek




    A queda dos Almadas
   Costuma-se considerar a derrota infligida ao exrcito almada pelas foras uni-
das dos reinos cristos da Espanha, na batalha de Las Navas de Tolosa (al-`Ikb),
em 1212, como o marco inicial da queda do Imprio Almada. Queda que, no
entanto, no se deu abruptamente, e tampouco resultou de processo demorado.
A desintegrao do imprio comeou lentamente logo aps a batalha, ganhando,
em seguida, rapidez e intensidade crescentes: o territrio controlado efetivamente
pelos soberanos almadas tornava-se cada vez mais reduzido, processo este que
teve origem na parte oriental do Magreb (Ifrkiya) ao mesmo tempo que em
Al-Andalus (Espanha muulmana), estendendo-se depois ao Magreb central
(Tlemcen) e ao Marrocos, e chegando finalmente ao sul desse pas  ltimo reduto
do Estado almada , que foi conquistado pelos Marnidas em 1269.
   Quando estudamos as causas profundas da decadncia dos Almadas, nota-
mos que elas podem ser vrias, algumas estreitamente articuladas, j outras, 
primeira vista, sem nenhuma relao entre si.
   Embora numerosos soberanos almadas tivessem tentado melhorar as comuni-
caes no interior de seus Estados mediante a construo de estradas, as dimenses
mesmas de seu imprio  que englobava Al-Andalus e todo o Magreb  tornavam
extremamente difcil o funcionamento de uma administrao central, e a situao
geogrfica excntrica da capital, Marrakech, s fazia agravar esse problema.
90                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    Com os combates que se via obrigado a travar em suas duas extremidades,
Ifrkiya e Espanha, o imprio esgotava seus recursos. Precisava a um s tempo
combater os inimigos externos e reprimir as numerosas revoltas e levantes dos
rabes nmades, dos Ban Ghniya, dos diferentes grupos berberes e at dos
habitantes das cidades. Para tanto, a dinastia recrutava cada vez mais mercen-
rios de origem rabe, Zenta e mesmo crist, o que acabou fazendo Com que o
exrcito almada perdesse seu antigo esprito de luta. A aristocracia almada era
extremamente ciosa de seus privilgios e considerava infiis todos os muulmanos
no almadas; esses, em grande nmero, viram-se privados do direito  terra e
progressivamente esmagados pelos impostos. Essa clivagem entre a massa dos
governados e uma pequena elite dirigente esteve na base de diversas revoltas e
levantes, quer no Magreb, quer na Andaluzia. A prpria aristocracia almada
dividia-se em duas faces hostis: de um lado, os descendentes de `Abd al-M'min,
que usavam o ttulo de saiyid e apoiavam sua prpria cabila, os Kmiya (ramo dos
Zenta) e alguns rabes; de outro, os Almadas Masmda, que incluam tanto os
chefes das vrias linhagens quanto os xeques religiosos. A essa diviso somavam-
-se as tenses entre os xeques e a burocracia andaluza, que no compartilhava as
crenas dos Almadas e no reconhecia outra autoridade alm da do califa.
    A sucesso de califas sem foras para impor-se aps a morte de al-Nsir (1199-
-1213) tambm contribuiu para a queda da dinastia, j retalhada por conflitos
internos. As rivalidades que opunham os xeques almadas  dinastia vieram  luz
em 1230, quando o califa de Sevilha al-Ma'mn invadiu a frica do Norte. 
frente de um destacamento da cavalaria crist que o rei de Castela pusera  sua
disposio, derrotou o exrcito do califa reinante, Yahy Ibn al-Nsir, e dos xeques
almadas, e proclamou-se amr al-mu'minn. At a morte, em 1232, manteve vio-
lenta campanha contra os xeques religiosos, chegando a renegar publicamente a
doutrina almada, o que implicava privar de legitimidade religiosa sua prpria
dinastia. Embora seu filho e sucessor, al-Rshid (12321242), se empenhasse em
pr termo a esses conflitos intestinos, restaurando a doutrina do mahd e chegando
a um acordo com os xeques, era tarde demais: o imprio, incapaz de recuperar-se da
anarquia, desintegrava-se. A dinastia ainda manteve seu reinado no Marrocos, mas
sobre um territrio que se foi reduzindo incessantemente at 1269, data em que o
ltimo califa almada, al-Wthik (12661269) foi deposto pelos Marnidas.


     A tripartio do Magreb
   A queda dos Almadas devolveu o Magreb  situao que precedera a ascenso
dos Fatmidas (ver volume 3, captulo 10); trs Estados independentes  no raro,
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                                         91



adversrios  formaram-se sobre os restos do imprio, internamente minados pelas
querelas dinsticas e pelas revoltas e, no plano externo, cada vez mais ameaados
pelos ataques do inimigo cristo. Esses trs territrios terminariam por dar ori-
gem aos Estados que tomaram os nomes de Tunsia, Arglia e Marrocos e que, a
despeito das vrias caractersticas comuns, evoluram de maneiras diferentes.
    Como o captulo seguinte (captulo 5) traz uma descrio pormenorizada da
sociedade do Magreb ps-almada, limitar-nos-emos, aqui, a traar um resumo
com as caractersticas gerais das estruturas polticas e sociais daqueles Estados.
Cada um dos trs territrios foi governado por uma dinastia de origem berbere,
porm profundamente arabizada, que contava com o apoio das cabilas makhzen1
e que, na prtica, controlava apenas as cidades e os grupos sedentarizados das
plancies. As regies montanhosas e as vastas estepes constituam basties
dos montanheses berberes ou de nmades rabes sempre prontos a atacar as
regies perifricas do territrio makhzen. A obedincia aos decretos do sobe-
rano media-se segundo o poder efetivo deste e sua capacidade de exerc-lo.
Os sultes hafssidas e marnidas disputaram seguidas vezes o ttulo de califa,
nico meio de conseguir de seus turbulentos sditos o reconhecimento de sua
autoridade espiritual. Suas pretenses, porm, jamais alcanaram eco alm das
fronteiras de seus prprios territrios. Excetuando-se o efmero reconheci-
mento do soberano hafssida al-Mustansir, em meados do sculo XIII, pelos
xarifes de Meca e pelos Mamelucos do Egito, esses "califas" ocidentais foram
incapazes de rivalizar com o califado abssida do Cairo no que diz respeito ao
reconhecimento da funo de califa pelo conjunto do mundo islmico.
    Durante o perodo ps-almada, os trs Estados tambm tiveram que lutar
contra a presso cada vez mais forte que os Estados cristos da pennsula Ibrica,
da Itlia, da Siclia e da Frana exerciam sobre todo o Magreb. Tal presso  a
um tempo militar, poltica e econmica  era consequncia das modificaes
ocorridas no equilbrio de foras entre a Europa ocidental e os pases islmicos
do Mediterrneo. Os trs Estados do Magreb tentaram encontrar os meios de
enfrentar essa agressividade, nova, do mundo cristo e, embora tivessem sofrido
vrias perdas menores e no conseguissem evitar que Granada, ltimo reduto
da presena muulmana na Espanha, casse em poder dos cristos, de modo
geral foram capazes de preservar seu patrimnio. Podemos indagar, porm, se
o Magreb em seu conjunto  ou pelo menos em suas regies orientais  no
teria conhecido destino idntico ao de Granada, no sculo XVI, no fosse

1    Makhzen significava originalmente "tesouro"; com o passar do tempo, veio a designar o sistema oficial
     de governo vigente no Marrocos (Encyclopaedia of lslam, 1. ed., v. 3, p. 166-71).
                                                                     92
                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 4.1   Mapa do desmembramento do Imprio Almada. (I.Hrbek.)
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                 93



o surgimento de uma nova potncia islmica, o Imprio Otomano, que nesse
perodo decisivo restabeleceu o equilbrio de foras na bacia do Mediterrneo.
No se deve esquecer que, nessa poca, os Estados ibricos  Portugal e Espanha
 envolviam-se cada vez mais em empresas ultramarinas, as quais concentravam
quase todos os seus interesses e a maior parte dos seus recursos humanos.
    Trs dinastias sucederam aos Almadas, repartindo entre si o Magreb e
conservando-se no poder durante a maior parte do perodo que ora nos interessa:
a dos Hafssidas (12281574), que teve Tnis por capital, a dos Zainidas (`Abd
al-Wdid - 12351554), que governou em Tlemcen (Tilimsan), e a dos Marnidas
(c. 12301472), instalada no Marrocos. Comearemos por situar os principais
acontecimentos que marcaram a histria dessas trs dinastias, para depois exami-
nar os fatos essenciais da histria da frica setentrional como um todo.

    Os Hafssidas
   O ancestral epnimo da dinastia foi o clebre companheiro do mahd Ibn
Tmart, Ab Hafs `Umar al-Hintt, xeque dos berberes Hintta, que em muito
contribuiu para o esplendor do Imprio Almada. Seu filho `Abd al-Wahd Ibn
Ab Hafs governou a Ifrkiya de 1207 a 1221 com poderes quase autnomos
de fato, lanando dessa forma as bases para a futura independncia da regio.
Em 1228, Ab Zakariyy', filho de `Abd al-Wahd que se distinguira na luta
contra os Ban Ghniya (ltimos representantes dos Almorvidas na Ifrkiya),
assumiu o governo. Sob o pretexto de defender o verdadeiro ensinamento e
esprito do movimento almada  eram os tempos em que tal doutrina estava
repudiada pelo prprio califa almada , Ab Zakariyy' deixou de citar o nome
do soberano no sermo (khutba) do meio-dia de sexta-feira e assumiu o ttulo
de emir independente (em 1229). Sete anos mais tarde, afirmou sua soberania
em carter definitivo ao incluir o prprio nome na khutba.
   Embora tivesse rompido com a tutela poltica dos califas almadas, Ab
Zakariyy' no renegou a doutrina almada: ao contrrio, justificou sua prpria
ascenso ao poder como sendo um meio de fazer reviver a autntica ortodoxia
almada, e nisso teve certo xito, pois vrios centros do Marrocos e da Andaluzia
reconheceram-no como califa legtimo. Em 1233, ps termo, definitivamente,
 rebelio dos Ban Ghniya na regio meridional da Ifrkiya. Suas campa-
nhas a oeste saldaram-se por vitrias: sucessivamente conquistou Constan-
tine, Bidjya e Argel; a leste, submeteu toda a costa da Tripolitnia. Assim,
reuniu os elementos que iriam constituir o territrio hafssida. O prprio
fundador da Dinastia Zainida (`Abd al-Wdid), Yaghmurasn Ibn Zayyan,
94                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



submeteu-se  sua autoridade, e tanto os Marnidas quanto os Nsridas de Gra-
nada reconheceram-no como suserano.
    O estabelecimento da paz e da segurana permitiu rpido crescimento eco-
nmico, e a capital Tnis voltou a ser frequentada por mercadores estrangeiros,
provenientes da Provena, da Catalunha e das repblicas italianas. As relaes
com a Siclia tornaram-se amistosas, mas em 1239 o soberano hafssida pas-
sou a pagar tributo a Frederico II pelo direito ao comrcio martimo e  livre
importao do trigo da ilha.
    Quando Ab Zakariyy' morreu, em 1249, deixou a seu filho e sucessor,
Ab `Abd Allh Muhammad al-Mustansir (12491277), um Estado prspero
e seguro, de incontestada hegemonia na frica setentrional. Conspiraes e
revoltas jamais ameaaram seriamente a autoridade de al-Mustansir, ainda que
a abalassem ocasionalmente as rivalidades entre os xeques almadas e os refu-
giados e imigrantes andaluzes, os quais constituam elite poltica de considervel
influncia. Em 1253, al-Mustansir tomou o ttulo de amr al-mu'minn, sendo
reconhecido como califa pelos xarifes de Meca em 1259 e, um ano mais tarde,
pelos Mamelucos do Egito. Mas durou pouco esse seu reconhecimento pelo
Oriente, que, alis, se devia apenas a um concurso de circunstncias excepcionais:
o ltimo califa abssida de Bagd fora morto em 1258 pelos mongis, deixando
vago o califado. Em 1261, o sulto mameluco Baybars instalou no Cairo um
califa abssida fantoche, cuja linhagem seria a nica reconhecida por todo o
Oriente muulmano at 1517. Apesar disso, o efmero califado de al-Mustansir
comprova o grande prestgio dos Hafssidas no mundo islmico, em que seu
Estado era tido como um dos mais poderosos e estveis.
    Alguns anos mais tarde, al-Mustansir teve a oportunidade de aumentar sua
reputao no mundo muulmano, graas aos efeitos da Cruzada conduzida
contra Tnis por Lus IX, rei de Frana, em 1270. No so muito claras as
razes para essa Cruzada tardia, e existem numerosas interpretaes a respeito2.
Aventou-se a hiptese de que os franceses teriam sido atrados pela prosperidade
da Ifrkiya, ou ainda, conforme relata Ibn Khaldn, de que comerciantes da
Provena, diante da dificuldade de obterem o retorno do dinheiro que haviam
emprestado aos tunisianos, teriam insistido para que se fizesse a expedio. Por
sua vez, So Lus (Lus IX) acreditava que al-Mustansir queria se converter ao
cristianismo; ademais, tencionava usar a Ifrkiya como base para futura cam-
panha contra o Egito. A expedio foi mal preparada  at mesmo Carlos de


2    Ver MOLLAT, 1972, p. 289303.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                 95



Anjou, rei da Siclia, irmo de So Lus, s foi informado da empresa no ltimo
instante. Os cruzados desembarcaram em Cartago, mas, passadas poucas sema-
nas, uma epidemia devastou seu campo, matando o prprio rei. Carlos de Anjou
apressou-se em concluir a paz: a Cruzada era-lhe inteiramente indiferente, e,
por outro lado, tinha interesse em restabelecer as boas relaes comerciais com
o Estado hafssida. Al-Mustansir, que desde o comeo das hostilidades pro-
clamara a djihd (guerra santa) e reunira destacamentos compostos de homens
de diversas cidades e de nmades rabes, estava to disposto quanto Carlos de
Anjou a encerrar rapidamente essa infeliz histria, ainda mais que seus aliados
nmades j comeavam a voltar para o sul, buscando as pastagens de inverno.
O tratado de paz foi um compromisso, e o califa hafssida aceitou continuar
pagando tributo  Siclia, assim como os impostos sobre as importaes de trigo;
concordou igualmente em expulsar da Ifrkiya os ltimos representantes da
Dinastia dos Hohenstaufen, que se haviam refugiado em terra africana depois
de vencidos por Carlos de Anjou. Concluso bastante inesperada a dessa ltima
Cruzada: as relaes comerciais tornaram-se ainda mais intensas do que antes.
    Sob os reinados de Ab Zakariyy' e de al-Mustansir, a Dinastia Hafssida
teve seu primeiro apogeu: reconheceu-se sua hegemonia em todo o Magreb,
entendendo-se sua autoridade at a Espanha muulmana, a oeste, e at o Hidjz
(Hedjaz), a leste; os Estados europeus do Mediterrneo ocidental no puderam
ignorar seu poderio, e os governantes espanhis e italianos empenharam-se em
firmar alianas com o imprio.
    Aps a morte de al-Mustansir a situao foi se deteriorando, e durante mais
de um sculo o Imprio Hafssida conheceu lutas intestinas peridicas entre os
membros da dinastia reinante, sendo tambm abalado pelas revoltas dos rabes e
pela dissidncia de cidades e mesmo de regies inteiras. Bidjya e Constantine,
cidades onde essa dissidncia manifestou-se com maior intensidade, em vrias
ocasies constituram principados independentes governados por membros da
dinastia que se opunham ao poder central. Essas tendncias centrfugas se fizeram
sentir com maior vigor nas pocas em que o poder central se revelava enfraque-
cido: chegou a haver ocasies em que trs ou mais governantes hafssidas de
diferentes cidades reivindicavam simultaneamente o trono de Tnis. Tal estado
de coisas forosamente reverteria o movimento do pndulo do poder em favor
do Magreb ocidental, ou seja, dos Marnidas do Marrocos, que, em duas ocasies,
em 1348 e 1357, lograram ocupar com suas tropas parte considervel do territrio
hafssida, inclusive a prpria capital, Tnis. Mas essas duas ocupaes foram de
curta durao, tendo os nmades rabes depressa expulsado os invasores. Pelo
fim do reinado de Ab Ishk (1350-1369), Bidjya, Constantine e Tnis eram
96                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



governadas por trs soberanos hafssidas independentes entre si, enquanto o sul,
o sudeste e parte do litoral (Shil) se mantinham independentes de Tnis.
    O renascimento do poderio hafssida teve incio com Ab 'l-`Abbs (1370-1394)
e prosseguiu sob os longos reinados de seus sucessores Ab Fris (1394-1434) e
`Uthmn (1435-1488). Ab 'l-`Abbs conseguiu reunificar e reorganizar o pas;
anulou as concesses de terras, refreou as tendncias locais  insubordinao
e restaurou o prestgio da dinastia. Dados os conflitos internos que por essa
data grassavam em Tlemcen e a hostilidade ento declarada entre Zainidas
e Marnidas, nada tinha a recear quanto a seu flanco ocidental. Seu filho Ab
Fris completou a obra de reunificao por ele iniciada e destituiu as dinastias
locais de Bidjya, Constantine, Trpoli, Gafsa, Nafzawa e Biskra; para essas
cidades nomeou governadores que escolheu dentre seus prprios escravos
libertos. Posteriormente, estendeu sua autoridade aos Zainidas de Tlemcen e
por diversas vezes interveio no Marrocos e at na Andaluzia. O sucesso de Ab
Fris devia-se, em grande parte, ao fato de praticar uma poltica de equilbrio entre
os principais grupos que compunham a populao de seu reino  almadas, rabes
e andaluzes. Embora fosse muulmano fervoroso, mostrou-se tolerante para com os
judeus; a popularidade de que desfrutou vinha essencialmente de sua preocupao
em ser justo, dos favores com que brindou as autoridades religiosas  tanto ulems
(`ulam') quanto xarifes  da supresso dos impostos ilegais, das construes que man-
dou edificar e, finalmente, da pompa com que fazia celebrar as festas muulmanas.
    Embora os primeiros anos do reinado de `Uthmn, seu neto, tenham sido
perturbados pela luta que o ops a certos membros rebeldes de sua famlia, em
linhas gerais o longo perodo em que governou foi pacfico; o sulto mostrou-se
capaz de manter a integridade de seu reino. Num segundo momento, o governo
de `Uthmn foi abalado pela fome e por epidemias de peste, assim como pelo
reincio da agitao rabe no sul. Ainda assim, porm, conseguiu, no sem difi-
culdades, manter sua influncia sobre Tlemcen, e foi reconhecido pelo fundador
da nova dinastia dos Watssidas (Ban Watts) de Fs. No se conhecem bem os
ltimos anos do reinado de `Uthmn, porm, ao que parece, ele prprio semeou
os germes de problemas futuros ao retomar a prtica de nomear membros de
sua famlia para o posto de governador provincial. Se sua forte personalidade se
revelara capaz de deter a propenso natural desses governadores  independn-
cia, seus sucessores no conseguiram conter o fluxo da anarquia, e o segundo
perodo de hegemonia hafssida esboroou-se to abruptamente quanto o pri-
meiro. Assim, o final do sculo XV e o comeo do XVI viram a anarquia minar
novamente a dinastia, a tal ponto que esta se tornou incapaz de fazer frente 
perigosa situao criada pela rivalidade entre a Espanha e o Imprio Otomano,
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                   97



ambos desejosos de obter a hegemonia na bacia mediterrnica. Mas os esforos
desesperados dos Hafssidas para preservar sua independncia num mundo em
transformao pertencem j ao perodo estudado no volume V.

    Os Marnidas
    Ibn Ab Zar` assim descreve os Marnidas:
       "Originrios do deserto, onde pertenciam aos mais nobres dentre os Zenta, os
    Marnidas vinham do Zb [regio da atual Arglia]. No conheciam nem a prata,
    nem a moeda, nem a agricultura, nem o comrcio. Toda a sua riqueza se reduzia a
    camelos, cavalos e escravos"3.
    Os Marnidas parecem fornecer o modelo ideal para a teoria de Ibn Khaldn
sobre a ascenso das dinastias nmades e sua `asabiyya, ou "esprito de cl", na
qual o historiador identificava a fora que fez os nmades sarem do deserto
para conquistar territrios e fundar Estados. Aps a batalha de Las Navas de
Tolosa (1212), os Ban Marn, que viviam nas estepes pr-saarianas situadas
entre Tfllet e Figuig, iniciaram a invaso do nordeste do Marrocos e, valendo-
-se do enfraquecimento do governo almada, impuseram sua hegemonia aos
agricultores locais, chegando a obrigar at cidades como Tz, Fs e al-Kasr
al-Kabr a lhes pagar tributo. S os impelia, a princpio, o desejo natural de
todos os nmades de enriquecer s custas dos povos sedentrios, mas seus chefes
vieram gradualmente a nutrir ambies polticas.
    Entre 1240, data em que os Marnidas foram derrotados pelo exrcito almada
no cerco de Miknsa (Meknes), e 1269, quando conquistaram Marrakech, a luta
desenvolveu-se com sucesso intermitente. A lentido para se chegar  conquista
sem dvida se explica pela falta de motivao religiosa no conflito, j que foi
essa motivao o que contribuiu para que as conquistas dos Almorvidas e dos
Almadas se processassem num curto espao de tempo. Contudo o primeiro
mpeto marnida, em 1248, foi coroado de sucesso; nesse ano, seu chefe Ab Yahy
(1244-1258) tomou Fs, Tz, Miknsa, Sala' e Rabat. Sob o reinado de Ab Ysuf
Ya`kb (1258-1286), que pode ser considerado o verdadeiro fundador do sultanato
marnida, os ltimos territrios ainda sob dominao almada (o Alto Atlas, o Ss
e a regio de Marrakech) foram sendo integrados ao novo reino, e a conquista de
Marrakech, em 1269, ps termo ao poder dos Almadas.



3    IBN AB ZAR`, trad. francesa, 1860, p. 401.
98                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 4.2 A madraa Bou Inania, em Fs. Detalhe de uma janela do ptio; sculo XIV. (Foto Unesco/
Dominique Roger.)
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                             99




Figura 4.3 A madraa Bou Inania, em Fs. Detalhe de uma meia-porta; sculo XIV. (Foto Unesco/
Dominique Roger.)
100                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 4.4 A mesquita de Karawiyyn, em Fs. Restaurao da poca almorvida; no ptio, a entrada central
da sala de orao. (Clich J.-L. Arbey.)
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                   101



    Em lugar de Marrakech, a nova dinastia escolheu Fs como capital; l Ab
Ysuf fundou uma cidade, Fs al-Djadd (Nova Fs), passando a aglomerao
mais antiga a chamar-se Fs Bl.
    Embora no pudessem reivindicar nenhuma legitimidade religiosa, os Marni-
das logo se consideraram os herdeiros dos Almadas, cujo imprio se esforaram
por restaurar, manifestando preferncia por sua componente ibrica, o que, no
entanto, no os impedia de se voltarem para o Oriente sempre que as condies se
apresentassem favorveis. Curioso fenmeno essa atrao que as colinas verdes e as
plancies frteis da Andaluzia exerciam sobre esses berberes originrios do deserto,
da estepe e da montanha, fossem eles Almorvidas, Almadas ou Marnidas!
    Como a histria dos Hafssidas, a dos Marnidas pode ser dividida em dois
grandes perodos, embora de menor durao: o primeiro cobre os reinados de
Ab Ysuf Ya`kb e de seu filho Ab Ya`kb Ysuf (12861307); o segundo
abrange os reinados de Ab 'l-Hasan (13311348) e de seu filho Ab Inn Fris
(13491358). Foi apenas durante esse segundo perodo que os Marnidas pude-
ram aspirar, por pouqussimo tempo, a uma autntica hegemonia no Magreb.
    A crescente influncia dos rabes no Marrocos foi um dos dados marcan-
tes do reinado dos Marnidas. J sob os Almadas os nmades rabes haviam
comeado a penetrar no territrio marroquino, modificando assim seu carter
exclusivamente berbere. A poltica dos Ban Marn face aos rabes, porm, foi
ditada por consideraes aritmticas: dada a fraqueza numrica dos Zenta, que
os apoiavam, eles s podiam acolher de bom grado a colaborao dos nma-
des rabes. Os prprios Zenta em muito j se haviam assimilado aos rabes,
e o makhzen marnida compunha-se de ambos os grupos. Todos esses fatores
criavam condies favorveis  expanso territorial dos rabes no Marrocos, em
cujas plancies eles, de preferncia, se fixavam. Numerosos grupos berberes foram
arabizados. Ao contrrio dos exrcitos almorvidas e almadas, onde se falava o
berbere, sob os Marnidas a lngua corrente e oficial passou a ser o rabe.
    Esse processo de expanso dos rabes nmades tambm teve aspectos nega-
tivos; enquanto o domnio dos nmades crescia incessantemente, diminua o
dos agricultores: campos, jardins e florestas eram transformados pelos nmades
em reas de pastagem. O desenvolvimento do nomadismo contribuiu, em
grande parte, para cristalizar a estrutura social que iria caracterizar o Mar-
rocos nos sculos seguintes: a diviso da populao em nmades, citadinos e
montanheses.
    No plano poltico, resultava dessa diviso que somente as cidades e as zonas
rurais adjacentes eram diretamente administradas pelos sultes, ao passo que as
tribos makhzen, os rabes e os Zenta desfrutavam de ampla autonomia, e, em
102                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



troca do servio militar que prestavam, recebiam o direito de cobrar impostos
dos camponeses. Porm, como no pudessem confiar inteiramente na lealdade
e eficincia desses contingentes nmades, os governantes marnidas, da mesma
forma que seus predecessores e vizinhos, passaram a depender mais e mais de exr-
citos compostos por escravos mercenrios, aquartelados nas grandes cidades. Os
berberes do Atlas, do Rif e do Djibl permaneceram fora do sistema de governo
propriamente dito, embora s vezes reconhecessem a soberania dos sultes; no
perodo de declnio dos Marnidas, lanaram incurses contra os territrios do
makhzen (bild al-makhzen) e impuseram sua dominao ou protetorado a certas
regies, assim ampliando os limites da "terra de dissidncia" (bild al-sib).
    O afluxo regular de imigrantes andaluzes, que traziam consigo estilo mais
requintado em matria de arquitetura, artes e artesanatos diversos, assim como
na literatura, imprimiu novo vigor  vida e  civilizao urbanas. A capital, Fs,
tornou-se o grande centro cultural do Marrocos, enquanto a antiga metr-
pole, Marrakech, atravessou perodo de decadncia. O enriquecimento cultural
urbano, contudo, s veio aprofundar a separao entre as cidades e as zonas
rurais, que continuavam a ter existncia autnoma. Essa diferena era especial-
mente perceptvel no que diz respeito s modalidades da vida religiosa. Em Fs
e em todas as grandes cidades esta se organizava em torno das universidades,
como a de al-Karawiyyn, e das numerosas madraas (instituies de estudos
islmicos), nas quais predominava o rito ortodoxo maliquita, sob a proteo
oficial dos sultes marnidas; os moradores dos campos, por sua vez, sentiam-se
cada vez mais atrados pelas zwiya, pelas lojas das confrarias msticas (tarka)
e pelos santurios dos santos locais, os marabus. Essa tendncia j comeara a
manifestar-se sob os Almadas; estes haviam incorporado ao ensino oficial
a doutrina de al-Ghazzl (morto em 1111) que integrara o misticismo
(tasawwuf ) ao islamismo ortodoxo. Sob o reinado dos Marnidas, a criao
de vrias ordens suf i, que na sua maior parte constituam ramificaes da
kdirya, marcou a institucionalizao do misticismo. Tal manifestao do
islamismo popular muito contribuiu para a islamizao das reas rurais na
medida em que conseguiu penetrar as regies mais afastadas do Marrocos,
alcanando as populaes montanhesas berberes, que at ento mal haviam
sido atingidas pelo Isl.
    Os diferentes aspectos do desafio cristo e da correspondente reao dos
muulmanos na frica do noroeste sero examinados mais adiante; no entanto
faz-se necessrio abordar desde j, ainda que de maneira sucinta, a questo das
intervenes marnidas na pennsula Ibrica. Aps ter consolidado sua autori-
dade no Marrocos, Ab Ysuf Ya`kb atravessou o estreito de Gibraltar (1275)
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                103



e conseguiu vitria decisiva sobre os castelhanos nas proximidades de Ecija
(Istidja'). At o ano de 1285 o sulto lanou trs novas campanhas contra os
exrcitos espanhis, tendo a armada marnida derrotado a esquadra castelhana
em 1279; este fato teve por efeito conter momentaneamente a ameaa que os
cristos representavam para o Marrocos e Granada. A quarta campanha resultou
num acordo segundo o qual o rei de Castela se comprometia a no intervir nos
negcios dos territrios muulmanos na Espanha e a restituir os manuscritos
rabes de que os cristos se haviam apossado anteriormente. Essa paz de com-
promisso (1285) foi exaltada pelos Marnidas como se fosse uma vitria.
    O sulto Ab Ya`kb Ysuf precisou reprimir uma srie de revoltas no sul do
Marrocos, envolvendo-se com toda a energia na tentativa de conquistar Tlemcen
e liquidar a Dinastia Zainida. Por essas razes, estava pouco disposto a dispen-
sar suas foras intervindo do outro lado do estreito; em 1291, porm, como o rei
de Castela rompesse o acordo firmado seis anos antes, o sulto viu-se forado
a empreender curta campanha  que no trouxe nenhum resultado positivo ,
retomando, em seguida, as operaes contra Tlemcen.
    Depois do assassinato de Ab Ya`kb, a Dinastia Marnida atravessou
perodo de eclipse devido, principalmente,  dissidncia de um dos membros
da famlia reinante, que se havia apoderado de vastas regies do sul do Mar-
rocos e assumido o controle do comrcio transaariano. S se ps fim  rebelio
depois que Ab 'l-Hasan ascendeu ao trono, em 1331. Enquanto durou essa
luta intestina, os Marnidas tiveram que renunciar  sua poltica ofensiva, tanto
na Espanha quanto no Magreb.
    Ab 'l-Hasan foi, sem dvida, o maior dos sultes marnidas. Pouco aps sua
ascenso ao poder, reafirmou a autoridade de Fs sobre o Marrocos meridional,
ps fim aos conflitos internos e retomou a poltica de conquistas. Durante a
primeira metade do reinado, consagrou todos os esforos ao restabelecimento
da soberania muulmana na Espanha, o que se tornava premente, pois em 1337
o rei de Castela retomou as hostilidades contra Granada. Em 1333, o exrcito
marnida atravessou o estreito de Gibraltar e conquistou Algeciras. Nos seis anos
que se seguiram, Ab 'l-Hasan e o emir nsrida de Granada juntaram foras
na tentativa de vibrar golpe mortal contra a Espanha crist, ameaa que levou
 aliana entre Castela e Arago. A frota marnida, com o reforo de alguns
navios hafssidas, conseguiu garantir o controle sobre o estreito e vencer, em
1340, as foras navais castelhanas em batalha decisiva. O exrcito muulmano
cercou, ento, a fortaleza de Tarifa, que conseguiu resistir at a chegada das
tropas crists enviadas em seu socorro. Nos ferozes combates que marcaram a
batalha de Rio Salado (1340), o exrcito muulmano sofreu pesada derrota, a
104                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



mais grave desde Las Navas de Tolosa. Em 1344, Algeciras foi recuperada pelos
cristos. Embora Gibraltar continuasse em poder dos Marnidas, a derrota de
Rio Salado, a que logo se seguiram novos desastres na Ifrkiya, forou o sulto
a desistir de sua aventura espanhola. A partir de ento, os Marnidas  assim
como todas as demais dinastias marroquinas que os sucederam  viram-se sem
condies de intervir ativamente na Espanha. O ltimo vestgio do que fora o
glorioso imprio muulmano na Espanha, o emirado de Granada, ficou, assim,
entregue a si mesmo, em sua desesperada luta pela sobrevivncia.
    Tanto os Zainidas de Tlemcen quanto os Marnidas de Fs aproveitaram-
-se da fraqueza dos Hafssidas durante a primeira metade do sculo XIV para
alargar seus respectivos domnios. Ab 'l-Hasan valeu-se da ocasio com muita
habilidade; a pretexto de socorrer os Hafssidas ameaados pelo soberano zai-
nida, invadiu o Magreb central em 1235 e, aps assdio de dois anos, conquistou
Tlemcen, capital zainida. Essa vitria sobre seus tradicionais adversrios 
vitria que ele fez proclamar perante todos os monarcas do mundo muulmano
 deu a Ab 'l-Hasan a possibilidade de concretizar seu sonho de um Magreb
unificado sob sua autoridade. O territrio zainida foi ocupado pelos exrcitos
marnidas, e os Hafssidas tornaram-se praticamente vassalos de Ab 'l-Hasan.
Mais tarde, num momento em que a Dinastia Hafssida se encontrava nova-
mente s voltas com conflitos de sucesso, o sulto marchou sobre Tnis (1347)
e anexou o Reino Hafssida. Essa conquista marcou o ponto culminante de seu
reinado e da histria da Dinastia Marnida4.
    Ao apogeu seguiu-se a queda: a poltica de interferncia nos negcios das cabilas
rabes da Ifrkiya conduzida por Ab 'l-Hasan terminou por lev-las a uma revolta
generalizada; em 1348, o exrcito do sulto sofreu uma derrota perto de Kayrawn,
e Ab 'l-Hasan viu-se cercado em sua prpria capital. Embora conseguisse escapar
e restabelecer, ao menos em parte, sua autoridade em Tnis, essa derrota revelava a
fragilidade da hegemonia marnida sobre o Magreb. Tlemcen repeliu o jugo da
Dinastia Marnida; os prncipes hafssidas de Bidjya, Constantine e Annba
(Bne) seguiram-lhe o exemplo. O filho de Ab 'l-Hasan, Ab Inn Fris,
proclamou-se sulto em Fs, depondo o prprio pai; quando este tentou recon-
quistar o trono, com o que restara de seu exrcito, foi derrotado por Ab Inn
Fris, em 1350, vendo-se obrigado a buscar refgio nas montanhas, onde
morreu um ano mais tarde.


4     O grande historiador Ibn Khaldn alimentou, por muito tempo, a esperana de que os Marnidas
      pudessem reunificar o Magreb; assim, o insucesso de Ab 'l-Hasan trouxe-lhe grande decepo. Ver
      IBN KHALDN, trad. francesa, 1852-1856, v. 4, p. 253.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                    105



    A ascenso e queda de Ab 'l-Hasan pode ser vista como uma sntese da
histria heroica e trgica do Magreb sob as dinastias berberes: uma lenta acumu-
lao de foras, a que se segue um longo perodo de sucessos cada vez maiores, e
repentinamente, no apogeu da glria, no momento em que finalmente parecem
realizar-se os projetos mais audaciosos, o desastre e a queda que destroam tudo
o que at ento se conquistou, liberando por completo as foras da anarquia e
da discrdia. As causas do revs final de Ab 'l-Hasan lembram as que levaram
ao declnio dos Almadas: excessiva disperso dos recursos humanos e materiais
em campanhas ofensivas lanadas em duas direes, incapacidade de admitir os
particularismos e interesses locais e tribais, situao financeira precria, falta de
coeso interna at mesmo no seio da prpria dinastia.
    Os primeiros anos do reinado de Ab Inn Fris transcorreram em clima
de prosperidade, tal como no governo do pai, vinte anos antes. Demonstrando
ambio igual  de Ab 'l-Hasan, arrogou-se o ttulo de amr al-mu'minn, pri-
vativo dos califas, e quis reunificar o Magreb. Em 1352, reconquistou Tlemcen;
no ano seguinte, foi a vez de Bidjya, e, em 1357, no pice da glria, tomou
Tnis. Apesar de todos esses sucessos, sua queda foi to rpida quanto a do pai
e deveu-se s mesmas razes  basicamente a oposio dos rabes, que o obrigou
a abandonar a Ifrkiya e retornar a Fs, onde foi assassinado, pouco tempo mais
tarde, por um dos vizires. Com a morte de Ab Inn Fris encerra-se o perodo
da grandeza marnida. A partir de ento, a histria da dinastia, at sua extino
no sculo XV, foi apenas de anarquia, revolta e decadncia em todos os nveis,
poltico, econmico e cultural. Entre 1358 e 1465, nada menos que 17 sultes
sucederam-se no trono de Fs, porm nenhum capaz de conter quer as foras de
dissenso interna, quer a ameaa externa. Os vizires viram aumentar seu poder,
sendo que, a partir de 1420, tal funo se tornou privilgio dos membros do cl
Banu Watts, da tribo dos Zenta. Os Watssidas, cuja influncia era crescente,
tiveram o poder de fazer reis durante a segunda metade do sculo XV at 1472,
data em que Muhammad al-Shaykh foi proclamado sulto em Fs, aps seis
anos de lutas contra os xarifes que se pretendiam descendentes de Idris II (fun-
dador de Fs) e objetivavam o poder poltico. A ascenso desses xarifes estava
relacionada ao culto dos santos e  crena na baraka (bno) que podia ser
concedida pelos marabus e, mais especialmente, pelos descendentes do profeta
Maom. Por outro lado, a crescente presso exercida sobre o Marrocos pelos
portugueses suscitou amplo descontentamento popular e a oposio  Dinastia
Marnida, que se mostrara incapaz de conter as incurses dos infiis.
    Embora os primeiros sultes watssidas, Muhammad al-Shaykh (1472
1505) e seu filho Muhammad al-Burtukl (15051524), tivessem conseguido
106                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



restabelecer, em certa medida, o poder do sultanato de Fs, contendo o movi-
mento xarifino, no foram capazes de impedir a expanso portuguesa no litoral
atlntico. Ademais, a rea de autoridade dos Watssidas quase no ia alm de
Fs e arredores; as regies do sul do Marrocos, praticamente independentes,
escapavam ao seu controle. Foi nessas regies que as novas foras populares,
sob o comando de uma famlia xarifina, deflagraram, no incio do sculo XVI,
guerra santa contra os fortes portugueses da zona costeira. Esses combates cons-
tituram os primeiros passos rumo  queda definitiva da Dinastia Watssida5.


      Os Zainidas (`Abd alWdidas)

    Originrio de um ramo menor dos Zenta, o governador almada de Tilimsan
(Tlemcen), Yaghmursan Ibn Zayyn, proclamou-se independente da tutela do
sulto  que reinava sobre um imprio em plena desagregao  no ano de 1235,
tal como fizera Ab Zakariyy' em Tnis. A dinastia que fundou sobreviveu por
mais de trs sculos (at 1554). Desde o nascimento, o novo reino teve a exis-
tncia ameaada por vizinhos, mais poderosos, do oeste e do leste, e pelos rabes
nmades do sul.  quase um milagre que tenha sobrevivido por tanto tempo. Tal
longevidade foi fruto de poltica hbil, conduzida por alguns soberanos muito
capazes, dentre os quais, os mais bem-sucedidos foram o prprio Yaghmursan,
fundador da dinastia (1235-1283), e Ab Hamm II (13591389). Sob esses
soberanos, o reino de Tlemcen tomou por diversas vezes a ofensiva contra os
Marnidas e Hafssidas, tendo como objetivo atingir o vale do Chelif e Bidjya,
a leste, e chegar at as cercanias de Fs, a oeste. A maior parte do tempo, porm,
os Zainidas foram forados  defensiva. Tlemcen foi atacada e cercada seguidas
vezes por tropas marnidas, e, no sculo XV, os marroquinos ocuparam por vrios
decnios a maior poro do territrio zainida.
    Os perodos de fraqueza da dinastia foram todos explorados pelos rabes
nmades, que penetraram sistematicamente at o centro do reino, conseguindo
priv-lo de algumas das suas provncias perifricas. Paralelamente, a arabizao
dos berberes Zenta intensificou-se de tal modo que a Arglia ocidental veio a
perder seu carter essencialmente berbere.
    A principal debilidade do reino devia-se ao fato de serem suas bases eco-
nmicas estreitas e unilaterais: o Estado, cujo territrio compreendia as regies
menos frteis do Tell, tinha uma populao sedentria numericamente pequena
e uma grande maioria de pastores nmades, os quais, por sua vez, sofriam a

5     Ver o captulo 8 do volume V.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                               107



presso das incurses dos rabes originrios do sul, perdendo regularmente suas
pastagens. A instabilidade assim criada contribuiu em grande medida para a
multiplicao dos conflitos tanto no interior da sociedade como no seio da pr-
pria dinastia. No surpreende, dadas estas condies, que os Zainidas tenham
estado submetidos por longos perodos aos protetorados marnida, hafssida e,
ainda, ao aragons.
    Em condies polticas e econmicas to desfavorveis, parece inacredit-
vel que esse Estado tenha conseguido sobreviver at a conquista otomana, em
meados do sculo XVI. Seu principal trunfo foi a cidade de Tlemcen, o mais
importante dos entrepostos comerciais do Magreb central, depois de Thart,
Graas  sua posio geogrfica  no encontro da privilegiada rota norte-sul,
que ia de Or (Wahrn) aos osis saarianos, prosseguindo at o Sudo, com o
eixo oeste-leste, que ligava Fs  Ifrkiya  Tlemcen logo superou as demais
metrpoles, tornando-se o ponto central no comrcio entre a Europa, o Magreb
e o Sudo ocidental. Ademais a cidade ligava-se diretamente com Sidjilmsa,
o trmino setentrional das vias comerciais que atravessavam o Saara. A disputa
pelo controle do comrcio transaariano explica parcialmente a luta travada entre
as duas dinastias rivais, Marnida e Zainida. Yaghmursan lbn Zayyn foi o pri-
meiro a perceber a importncia da obteno de tal controle. Aps uma primeira
tentativa, infeliz, em 1257, conseguiu conquistar Sidjilmsa em 1264, mantendo
a cidade em seu poder durante cerca de dez anos; era a primeira vez que uma
nica autoridade submetia as duas principais sadas do comrcio transaariano,
Tlemcen e Sidjilmsa. Embora os Zainidas logo perdessem Sidjilmsa para os
Marnidas, Tlemcen continuou atraindo a maior parte do comrcio que passava
pela regio.
    Essa rica cidade comercial logo excitou a cobia dos Marnidas e dos Hafs-
sidas. Os primeiros tentaram, por diversas vezes, sua conquista. Entre 1299 e
1307, Ab Ya`kb Ysuf cercou Tlemcen e mandou construir uma nova cidade
 sua frente, que chamou de al-Mansra, mais conhecida como Nova Tlemcen
(Tilimsn al-Djadd); esta rapidamente se transformou em importante centro
comercial, aambarcando a maior parte das atividades mercantis de sua rival.
Contudo, aps a morte de Ab Ya`kb Ysuf, o exrcito marnida teve que se
retirar e, uma vez libertada Tlemcen do assdio inimigo, a primeira coisa que
fizeram os Zainidas foi destruir a cidade adversria de al-Mansra.
    Nos 30 anos que se seguiram, Tlemcen recuperou a posio de importante
metrpole comercial, atraindo os mercadores da Europa, do Magreb e do Oriente
108                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



muulmano. Contava, ento, cerca de quarenta mil habitantes6. Um provrbio
corrente at hoje em Tlemcen evoca as riquezas que o comrcio transaariano
proporcionava  cidade: "O melhor remdio contra a pobreza  o Sudo". O
Estado pde igualmente adquirir maior liberdade poltica e desenvolver uma
poltica ofensiva contra os enfraquecidos Hafssidas, num momento em que
tambm a Dinastia Marnida tinha de enfrentar querelas internas.
    Contudo a ascenso de Ab 'l-Hasan ao trono dos Marnidas ps termo 
expanso zainida. Depois de assdio que durou dois anos, Tlemcen foi conquis-
tada em 1337, e os terminais do comrcio transaariano passaram ao poder dos
Marnidas. Apesar disso, como j indicamos acima, os esforos de Ab 'l-Hasan
com vistas  reunificao do Magreb no tiveram futuro; enquanto esse sulto e
seu filho disputavam o poder, Tlemcen recobrou a independncia.
    Embora o Estado de Tlemcen conhecesse perodo de expanso e abundncia
sob o reinado do competente soberano Ab Hamm Ms II (1359-1389), na
segunda metade do sculo XIV foi ocupado duas vezes pelos sultes marnidas,
sendo palco, ainda, de incurses e revoltas rabes. Foi por essa poca que o grande
historiador Ibn Khaldn viveu em Tlemcen e serviu como intermedirio de Ab
Hamm junto aos chefes dos grupos nmades rabes, o que lhe permitiu com-
preender bem os mecanismos da vida poltica e da troca de alianas. Tambm
deixou seu depoimento sobre a cultura zainida: "Aqui [em Tlemcen] a cincia
e as artes prosperaram. Nesta cidade nasceram sbios e homens excepcionais,
cuja glria transps suas fronteiras". Tlemcen ornou-se de vrios monumentos
que, tendo sobrevivido at nossos dias, fizeram dessa cidade o mais importante
centro da arquitetura islmica do Magreb central.
    Depois que Ab Hamm foi destronado pelo prprio filho, Ab Tshfn II
(13891394), o reino de Tlemcen entrou em longo perodo de decadncia, durante
o qual foi vassalo ora de Fs, ora de Tnis, tendo papel de somenos importncia
na poltica do Magreb. No correr do sculo XV, tornou-se praticamente proteto-
rado de Arago e terminou por se fracionar em grande nmero de componentes,
ficando a autoridade dos emires zainidas de Tlemcen restrita  cidade e seus
arredores. Os conflitos de sucesso obrigaram-nos a requerer, cada vez mais, a
ajuda dos espanhis e a se apoiarem nos mercenrios cristos, que acabaram por
ter nas mos o poder efetivo. No sculo XVI, o reino de Tlemcen no passava de
simples peo na grande partida disputada pela Espanha e pelo Imprio Otomano
e terminou desaparecendo, ante os ataques dos turcos, em 1554.

6     Pela mesma poca, Fs e Tnis possuam cerca de 100 mil habitantes cada uma, enquanto Marrakech
      contava aproximadamente 60 mil. Ver LACOSTE, 1966, p. 50.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                                           109



    O desafio da Europa crist
    Do sculo XIII at o XVI, os contatos entre o Ocidente muulmano e a
Europa crist foram muito mais profundos do que haviam sido at ento. Seria
errneo, porm, considerar cada um dos lados como entidade nica e homognea,
com rgida poltica de hostilidade contra o outro. Aps o desaparecimento dos
Almadas, o Ocidente muulmano cindiu-se em quatro entidades polticas: o
emirado nsrida de Granada, o sultanato marnida do Marrocos, o reino zainida
de Tlemcen e o sultanato hafssida de Tnis. Seus adversrios da outra margem do
Mediterrneo encontravam-se ainda mais divididos. Na pennsula Ibrica, havia
os reinos de Castela e Arago, aos quais depois se juntou o de Portugal; na Itlia,
Gnova, Pisa e Veneza, assim como a Siclia (antes de ser anexada por Arago),
tinham polticas independentes e muitas vezes conflituosas. Os franceses, aps
o fracasso da ltima Cruzada, dirigida por So Lus, passaram a segundo plano,
desempenhando papel menor no Magreb.
    Com essa multiplicidade de Estados abrindo enorme gama de possibilidades
a um jogo de alianas que tantas vezes ignorava as fronteiras religiosas, seria
muito simplista reduzir as relaes entre muulmanos e cristos do Mediter-
rneo ocidental, nesse perodo, a uma guerra inexorvel entre dois adversrios
inflexveis, um animado pelo esprito do djihd (guerra santa), o outro imbudo
do fervor das Cruzadas. No que esses fenmenos fossem irrelevantes. Com
efeito, chegaram a ser mesmo determinantes em certos perodos, mas pode-se
discernir por trs deles um confronto de interesses econmicos e comerciais,
que explica o emaranhado de alianas e contra-alianas firmadas entre Esta-
dos muulmanos e cristos, incompreensvel de outro modo. Como o captulo
26 deste volume examina esses fatores subjacentes numa perspectiva ampla e
intercontinental, aqui nos contentaremos em estudar os aspectos polticos das
relaes entre muulmanos e cristos.
    Uma mudana decisiva marcou a histria do Mediterrneo ocidental em
meados do sculo XVII, quando a Reconquista7 atingiu seu ponto culminante


7    O termo Reconquista  utilizado na historiografia ibrica e europeia para designar o processo da resis-
     tncia crist  dominao muulmana e as guerras que tiveram por objetivo sua expulso da pennsula.
     Cobre, tradicionalmente, o perodo que vai de 722 a 1492, isto , da batalha de Covadonga at a queda
     de Granada. Nos ltimos anos, alguns estudiosos espanhis tm comeado a criticar a noo mesma de
     "reconquista", assinalando que nos perodos de 722 a 1031 e de 1252 a 1481 no houve conquistas nem
     reconquistas crists, e que o prprio termo "conquista" s poderia adequar-se ao perodo de 1035 a 1262,
     e mais especificamente aos anos que vo da tomada de Toledo, em 1085,  conquista de quase toda a
     Andaluzia, em 1249, e ao perodo que se estende de 1481 a 1492, culminando na queda de Granada.
     Ver CRUZ HERNNDEZ, 1970.
110                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



com a tomada dos territrios centrais da Andaluzia pelos cristos. Os domnios
muulmanos que sucessivamente caram em poder dos diferentes reinos ibricos
foram os seguintes: ilhas Baleares (Maiorca) em 1229, Badajoz em 1230, Cr-
doba em 1236, Valencia em 1238, Murcia em 1243. Jaen (Djayyn) em 1246,
Sevilha em 1248, Algarve (Gharb al-Andalus) em 1249, Cdiz (Kdis), Jerez
e Niebla (Labla ) em 12601262. Assim, aproximadamente nove dcimos da
pennsula Ibrica encontravam-se agora sob controle cristo, restringindo-se o
territrio muulmano ao pequeno emirado nsrida de Granada, fundado em
1232. Graas  rivalidade entre Castela e Arago, e  ajuda que os Marnidas
lhe proporcionaram no primeiro sculo de existncia, Granada conseguiu sobre-
viver at 1492. Embora os emires nsridas s vezes interviessem ativamente na
poltica norte-africana, e assim contribussem para tornar ainda mais complexa
a situao poltica, o papel da Espanha muulmana enquanto potncia mediter-
rnica independente podia considerar-se praticamente encerrado.
    Essa modificao no equilbrio de foras no se fez sentir de imediato; como
vimos, os Marnidas tentaram vrias vezes mudar o rumo da situao  no seu
entender, apenas provisria  na Espanha e assim reconstituir o Imprio Almada
nas suas antigas fronteiras. Foi somente em meados do sculo XIV que a vanta-
gem dos cristos tornou-se evidente, estando o Magreb reduzido  defensiva.
    J mencionamos alguns dos fatores que explicam o declnio do poder poltico
e militar dos Estados muulmanos. Em todos esses Estados, o poder poltico,
centralizado quando do nascimento das novas dinastias, sofreu eroso regu-
lar e crescente por parte de diversas foras centrfugas  membros dissidentes
das famlias reinantes, chefes de tribos nmades, mercenrios cristos, xeques
sufi, xarifes. Todos estes pretendiam seja participar do exerccio do poder, seja
adquirir o mximo de autonomia sem nenhuma preocupao com o que fosse
de interesse geral. A dicotomia existente, de um lado, entre as cidades litor-
neas, voltadas para o comrcio exterior, e o campo, e, de outro, entre nmades e
sedentrios, constitua fator suplementar de diviso, numa sociedade em que se
enfrentavam faces com quase nada em comum.
    O agravamento da crise que afetava o Magreb deveu-se, igualmente, a fatores
intrnsecos. Comparada com outras partes do Mediterrneo, a regio era rela-
tivamente subpovoada, e parece que durante esses sculos crticos sua taxa de
crescimento demogrfico manteve-se baixa8. O afluxo de refugiados andaluzes


8     A populao do conjunto do Magreb em fins do sculo XVI era estimada em trs milhes. Pela mesma
      poca, a pennsula Ibrica contava cerca de nove milhes de habitantes; a Frana, aproximadamente
      quinze milhes; e a Itlia, doze milhes. Ver MONLA, 1964, p. 39-40.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                 111



mal compensava o nmero de vtimas causadas, em meados do sculo XIV,
pela epidemia conhecida como peste negra. O regime feudal e a instabilidade
generalizada resultaram, em vrias regies, no abandono das terras cultivadas.
Documentos datados do incio do sculo XVI trazem abundantes referncias a
terras abandonadas, mostrando que, mesmo em regies anteriormente cultivadas
e bem povoadas, a populao tornou-se rarefeita. A progressiva deteriorao dos
solos tambm esteve entre as causas do abandono das terras; devia-se em parte
aos rebanhos dos nmades, em parte  diminuio da fertilidade em zonas ri-
das, exauridas por uma agricultura excessivamente intensiva. Alm disso, a escas-
sez de mo de obra no permitia que se recuperasse a produtividade anterior.
    O comrcio transaariano, que durante vrios sculos assegurou a prosperidade
econmica do Magreb, comeava, a partir da dcada de 1350, a orientar-se mais
e mais para o Egito. As repercusses dessa mudana fizeram-se sentir no apenas
no seio da classe comerciante, mas tambm, e ainda mais, na classe governante,
pois as taxas alfandegrias cobradas sobre as mercadorias representavam uma das
suas fontes mais fceis de renda.
    Tudo isso acontecia na mesma poca em que os Estados cristos consolidavam
seu poder poltico, militar e econmico. Embora o Magreb oriental, ento sob o
reinado dos Hafssidas, no se encontrasse to ameaado quanto as regies mais
a oeste, esteve sujeito de tempos em tempos a incurses e campanhas militares.
Em 1282, Carlos de Anjou ocupa Collo; nos anos seguintes, foras sicilianas e
aragonesas, sob o comando do almirante Rogrio de Lauria, conquistam Djrba
(Djerba), Kerkenna e Mars al-Khriz (La Calle ). A ilha de Djrba permaneceu
em poder dos cristos at 1335, como um espinho nos flancos do Estado hafssida.
Pelo final do sculo XIV, as frotas crists retomam os ataques contra as regies
litorneas. Os franceses, aliados dessa feita aos venezianos, assediam sem sucesso
al-Mahdyya (1390). As armadas de Valencia e Maiorca atacam Tedelles (Dellys)
(1398) e Annba (1399). Os aragoneses renovam a ofensiva contra Kerkenna e
Djrba em 1424 e 1432; e at o final do sculo XV, os vrios portos da regio
entre Trpoli e Argel iro sofrer inmeros ataques e incurses de genoveses e
venezianos. Esses atos hostis, assim como as aes dos corsrios magrebinos, s
podiam agravar as relaes entre os Hafssidas e os Estados cristos; no entanto
jamais acarretaram a ruptura total dessas relaes, e a atividade comercial nada
perdeu de seu vigor. Politicamente, os italianos no representavam ameaa sria,
j que, movidos por objetivos puramente comerciais, no aspiravam  conquista
de novos territrios. Os dirigentes muulmanos em geral relacionavam-se mais
facilmente com os mercadores italianos do que com os da pennsula Ibrica, cujas
ambies eram, acima de tudo, polticas.
112                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    A situao que imperava no Magreb central e ocidental era diferente, e mais
complexa. Durante todo o sculo XIV e a primeira metade do sculo XV, os reis
de Arago mantiveram relaes polticas amistosas com o Marrocos e exerceram
forte influncia em Tlemcen. Essa conduta era ditada pela rivalidade que os opu-
nha a Castela bem como por suas ambies polticas na Itlia e no centro da bacia
mediterrnica. Em compensao, Castela e Portugal esperavam apenas uma oca-
sio para intervir no Marrocos. A vitria de Rio Salado marcou o fim da presena
marroquina em solo espanhol, j que, a partir dessa batalha, a luta entre Castela e
Granada assumiu mais o carter de conflito feudal entre suserano e vassalo do que o
de guerra entre cristos e muulmanos. Para os castelhanos, os verdadeiros inimigos
eram os muulmanos do Magreb; assim, esforaram-se por repelir um duplo perigo:
a ameaa de invaso marroquina e a intensificao das atividades dos corsrios.
    A pirataria no cessara no Mediterrneo desde a Antiguidade, tendo sido
praticada na Idade Mdia tanto por muulmanos quanto por cristos. Mas
a reconquista da Espanha pelos cristos deu a essa atividade  cujo principal
objetivo era, obviamente, material  uma colorao religiosa; a partir do sculo
XV os corsrios muulmanos, e muito especialmente os que haviam sido
expulsos da Andaluzia, passaram a considerar suas aes como uma espcie
de djihd (guerra santa) e como uma forma de represlia por sua expulso. Em
alguns dos portos mais importantes do Magreb, os corsrios haviam fundado
"repblicas" independentes, com base nas quais se dedicavam a atividades
muitas vezes contrrias  vontade das autoridades oficiais. Perante os corsrios,
os Marnidas e Watssidas, assim como os Hafssidas, haviam adotado uma
poltica oscilante: ora lhes emprestavam apoio, ora se empenhavam em conter
suas atividades, temendo que fornecessem s potncias crists pretexto para
expedies punitivas. Algumas das incurses s regies costeiras da frica
setentrional, mencionadas acima, foram na verdade represlias a ataques de
corsrios muulmanos contra navios cristos ou contra as costas da Espanha.
Recolocadas em perspectiva histrica, as atividades dos corsrios muulmanos
aparecem como uma espcie de resposta ao desafio cristo, numa poca em que
os governos dos Estados magrebinos, internamente debilitados, no estavam
aptos a fazer frente  ofensiva europeia. Sob certos aspectos, as atividades dos
corsrios podem ser comparadas aos movimentos populares que se desenvol-
veram no interior do Marrocos durante os sculos XV e XVI, sob a direo
dos xarifes e marabus, contra um poder central que se mostrava incapaz de
expulsar os portugueses.
    A situao interna da Espanha antes da unio de Arago e Castela (1479)
no lhe permitia lanar de imediato uma ofensiva conjunta contra o Magreb.
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                 113



A ocupao temporria de Tetuan (Tittwn) pelos castelhanos em 1399, no
correr da qual metade da populao foi massacrada e a outra metade reduzida
 escravido, foi durante muito tempo a nica interveno espanhola de
importncia em territrio marroquino. A Espanha s voltou  ofensiva aps
a tomada de Granada, em 1492.
    Os portugueses haviam-se revelado agressores muito mais perigosos, tanto
para o Magreb quanto para o resto do continente africano. Aps expulsarem os
ltimos mouros de seus territrios, os reis da dinastia de Avis, que tomaram o
poder em 1385, decidiram levar adiante a luta contra os infiis, em solo africano.
Eram complexos os seus verdadeiros mveis, que aliavam o fervor religioso, a
esperana de conquistar territrios e de reunir um rico butim e o desejo de
acabar de uma vez por todas com os corsrios muulmanos.
    Em 1415, sob o comando dos infantes Henrique (o futuro Henrique, o
Navegador) e Fernando, filhos do rei D. Joo I, a frota e o exrcito portugueses
conquistaram, aps breves combates, o porto marroquino de Ceuta; essa vitria
marcou os comeos da expanso colonial portuguesa no alm-mar. Para quase
todos os historiadores, a tomada de Ceuta constitui marco importante na hist-
ria europeia, ou mesmo universal: nela veem o ponto de partida para a expanso
da Europa, alm de suas fronteiras naturais, no rumo da conquista e da coloni-
zao. Tal juzo deve, porm, ser matizado, pois as Cruzadas j representavam 
no devemos esquecer  tentativa anloga de expanso no ultramar, de controle
sobre o comrcio oriental e de explorao de pases e povos no europeus. Em
compensao,  indiscutvel que o ano de 1415 marcou o incio dessa poltica
de agresso ininterrupta dos Estados da Europa ocidental, que iria permitir-lhes
adquirir pouco a pouco o domnio de outros continentes e descobrir terras novas,
nas quais pudessem dar continuidade  sua empresa colonizadora. Esse aspecto
geral ser estudado mais amplamente na introduo ao prximo volume; aqui
nos contentaremos em examinar as consequncias da agresso portuguesa na
frica do noroeste e, em especial, no Marrocos.
    As ambies dos portugueses no se limitavam, evidentemente,  conquista
de um nico porto; seu objetivo era ocupar a totalidade do territrio marroquino,
visando obter o controle do lucrativo trfico do ouro. Conforme j dissemos, a
Dinastia Marnida revelara-se incapaz de resistir a tal ameaa, e foi, na verdade,
o vizir Ab Zakariyy' al-Watts quem se empenhou em mobilizar o pas. Em
1437, sob o comando dos dois infantes, os portugueses fizeram nova tentativa
de conquistar Tnger (Tandja), mas sofreram formidvel derrota e foram obri-
gados a devolver Ceuta aos marroquinos vitoriosos, deixando como refm desse
compromisso o infante Fernando. Apesar disso, seu irmo, o rei D. Duarte,
114                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



recusou-se obstinadamente a abandonar a posio-chave que ocupava em solo
africano, e o infeliz Fernando morreu no cativeiro, em Fs.
    A derrota de Tnger modificou, at certo ponto, a poltica e os projetos de
expanso dos portugueses, na medida em que deixou evidente a impossibilidade
de conquistarem o Marrocos e as vias comerciais sudanesas atravs de um ataque
frontal. Precisaram, pois, buscar outros meios para chegar s fontes de provisiona-
mento de ouro. Ao mesmo tempo, alimentavam a esperana de encontrar, ao sul
do Marrocos, um aliado que pudesse ajud-los a avanar sobre as terras do inimigo
muulmano. Essa mudana de prioridades no significava, obviamente, que os reis
e a burguesia de Portugal tivessem abandonado seus projetos para a frica do noro-
este; sua ateno se fixava cada vez mais na costa atlntica. A partir de meados do
sculo XV, ocuparam, sucessivamente, as seguintes cidades do litoral do Marrocos:
al-Kasr al-Kabr (1458), Anf (1469), Arcla (1471), Massat (1488), Agadir (1505),
Sf (1508), Azammr (1513), Mazaghan (1514) e Aghz (1519). Foi em 1471
que conseguiram, finalmente, apoderar-se de Tnger. A seus olhos, a conquista do
Marrocos no constitua simplesmente uma etapa a mais de seu avano expansio-
nista ao longo da costa africana; tinha tambm valor intrnseco, j que o Tesouro
portugus retirava lucros substanciais das incurses efetuadas no interior do pas.
Durante essas incurses, muitas cidades (inclusive Marrakech, em 1515) e aldeias
foram saqueadas, e seus habitantes escravizados e vendidos. Ao mesmo tempo,
curiosamente, os portugueses continuaram a manter relaes comerciais amistosas
com os marroquinos, de quem compravam basicamente cereais, cavalos e, sobretudo,
tecidos de l, que depois trocavam na frica ocidental por escravos e ouro.
    Enquanto a expanso portuguesa prosseguia com sucesso ao longo da costa
atlntica do Marrocos e mais ao sul,  procura de ouro e do legendrio Preste
Joo  em quem esperavam encontrar um aliado contra o inimigo muulmano,
inaugurando dessa forma a era dos grandes descobrimentos e dos imprios
coloniais , Castela e Arago selavam sua unio mediante o casamento do rei
Fernando com a rainha Isabel. Depois de guerra que durou dez anos, Granada
caiu em mos dos espanhis. No mesmo ano (1492), Cristvo Colombo fazia
sua primeira viagem, no curso da qual descobriria a via de acesso mais curta a
esse Novo Mundo que, mais tarde, viria a receber o nome de Amrica.
    A descoberta de novos horizontes alm dos mares no desviou, porm, a
ateno dos espanhis de seus inimigos imediatos na frica setentrional.
    Em 1494 o papa sanciona o acordo pelo qual os dois reinos da pennsula
Ibrica dividiam entre si o Magreb: as regies a oeste de Ceuta caberiam a
Portugal, enquanto as que estavam a leste seriam da Espanha. Os espanhis
no tardaram a se valer desse acordo, bem como da fraqueza dos Zainidas e
A desintegrao da unidade poltica no Magreb                                 115



dos Hafssidas. Entre 1496 e 1510, apoderaram-se de vrios portos mediter-
rnicos; dentre os mais importantes, citemos Melilla (Malla), Mers al-Kabr,
Or, Bidjya (Bougie) e Trpoli. Foram, porm, incapazes de penetrar mais a
fundo no interior do pas; seus presidios (entre os quais Melilla, ainda hoje con-
trolada pela Espanha) limitavam-se aos portos e s podiam ser abastecidos por
mar, o que os tornava particularmente vulnerveis perante qualquer potncia
naval.
    No final do sculo XV, portanto, o enfraquecimento do poder islmico no
Magreb chegou a seu ponto mximo. A maior parte dos portos muulmanos,
tanto no litoral atlntico como nas costas do Mediterrneo, estava agora nas mos
dos cristos; o poder central, em cada um dos Estados magrebinos, apresentava-se
ineficiente e fraco; os prprios pases encontravam-se divididos entre numerosas
faces rivais; suas economias eram precrias e prejudicadas pelas tenses nasci-
das da ruptura do equilbrio global de foras. Embora o sculo XVI fosse para
o Magreb uma era de renascimento, graas ao pujante movimento popular que
se manifestou em suas partes ocidentais, bem como  interveno dos corsrios
turcos e, mais tarde,  interveno do prprio Imprio Otomano, o Magreb jamais
tornaria a atingir o esplendor poltico, econmico e cultural que conhecera sob o
reinado dos Almorvidas, dos Almadas e dos primeiros soberanos hafssidas e
marnidas.
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                                            117



                                        CAPTULO 5


             A sociedade no Magreb aps o
             desaparecimento dos Almadas
                                          Hady Roger Idris




   Embora a historiografia do Magreb esteja bastante desenvolvida, pelo menos
para algumas fases do perodo aqui estudado, a histria social da regio ainda
no foi levantada. A escassez de obras de sntese sobre o assunto reflete esta situ-
ao1; faz-se necessrio srio trabalho de pesquisa, de anlise e de interpretao
de documentos. As generalizaes sobre o Isl medieval no deixam, decerto,
de ser teis para a compreenso de muitas questes, mas  preciso considerar
as diferenas entre o Oriente e o Ocidente e suas formas de evoluo diversas,
ainda que se revelem vagas ou lentas2.


    O predomnio do nomadismo e a vida urbana
    Os nmades
   A partir do sculo XI, rompe-se o equilbrio secular, mas precrio, entre os modos
de vida sedentrio e nmade, em favor do ltimo, devido  invaso dos nmades
rabes, os Ban Hill, a quem seguiram, no sculo XII, os Ban Sulaym. No incio
do sculo XIII, a ao devastadora desses povos arruinou as culturas e semeou a

1   Dispe-se, no entanto, de duas obras de valor: MARAIS, 1913; BRUNSCHVIG, 1940, v. 1, e 1947, v. 2.
2   A respeito da histria urbana, de particular importncia neste captulo, pode-se consultar, sob perspectivas
    comparativas, uma coletnea de estudos sobre as cidades orientais: HOURANI, A. H. & STERN, 1970.
118                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



anarquia na Ifrkiya e no Magreb central3. Os Almadas, por questes de estratgia
econmica e militar, cederam-lhes as plancies atlnticas, para onde se transferiram
em grande nmero, enquanto outros bedunos, os Ban Ma`kil, ocupavam o sul
e o leste do Atlas marroquino. Desta forma, o Magreb encontrou-se separado do
Oriente, suas relaes com o Sudo enfraqueceram-se bastante, e sua civilizao,
principalmente no leste e no centro, foi empurrada para a costa mediterrnica.

      A populao rural
    Os camponeses  criadores de gado sedentrios, agricultores, arboricultores
ou horticultores, dependendo das terras onde habitavam  constituam a maior
parte da populao, mesmo porque havia certa interpenetrao entre as popu-
laes urbana, sobretudo dos burgos, e rural. A numerosa mo de obra exigida
pela agricultura, que pouco havia progredido desde a Antiguidade, no era
serva; dominavam pequenas culturas familiares. Alguns indivduos poderosos
tinham grandes propriedades, mas a grande maioria dos habitantes do campo
vivia e trabalhava em propriedades coletivas. Muitos lotes eram habous4 privados
ou pblicos cultivados pelos prprios adjudicatrios ou por eles arrendados.
Frequentemente, se no na maioria dos casos, a terra era cultivada segundo um
contrato concludo com o proprietrio: as plantaes eram arrendadas a diversos
agricultores, e havia vrias formas de arrendamento e parceria, sendo o quinto a
mais comum. Os parceiros (khamm) nem sempre conseguiam garantir a sub-
sistncia, e, em geral, viviam em condies miserveis, principalmente nos anos
de m colheita. As famlias tiravam seu magro sustento da terra que possuam
ou cultivavam para o proprietrio. Os produtos da agricultura e da criao, assim
como os do artesanato rural ou urbano, eram trocados nos mercados rurais 
semanais ou sazonais , que comumente se transformavam em burgos, onde
sedentrios, nmades e seminmades entravam em contato.
    Dada a falta de documentao,  arriscado analisar a estrutura social das
aldeias. Variando segundo a rea, essa estrutura manteve-se intacta nas regies
isoladas, onde, at pocas recentes, persistiu o uso da lngua berbere; j nas
zonas em que sofreu a influncia dos nmades sem ter sido por eles absorvida,



3     Os historiadores esto longe de concordar com a tese dessa "ao devastadora". LAROUI (1970, p. 139-46)
      faz uma crtica nada negligencivel deste ponto de vista.
4     O habous ou wakf era uma doao ou fundo religioso, pblico ou privado, constitudo por bens de mo-
      -morta, cujo usufruto estava reservado aos cessionrios (que podiam ser os pobres de uma cidade, grupos
      sociais, famlias particulares ou estudantes).
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                                           119



seu novo equilbrio, na essncia, deu continuidade ao passado, permanecendo
inalterado ao longo dos sculos.

    A populao urbana
   A vida urbana deve ser analisada separadamente em cada um dos trs
Estados do Magreb, comeando-se pelo oeste, de onde vem a influncia
preponderante. Antes, porm, cabe apontar alguns traos de ordem geral.
   No  necessrio estendermo-nos sobre as caractersticas da sociedade
rabo-muulmana: famlia patriarcal, separao de sexos com o uso do vu




Figura 5.1   Aghadr (celeiro fortificado) de Fri-Fri, regio de Tiznit (Sul do Marrocos). (Fonte: Camps,
1980.)
120                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



pelas citadinas, poligamia, concubinagem, endogamia, distino entre homens
livres e escravos, entre muulmanos e tributrios etc. O mesmo se pode dizer
da organizao urbana tradicional dos muulmanos: a grande mesquita em
meio s ruelas comerciais (suk) estreitas e sinuosas, hammm5, muralhas com
portes, perto dos quais se situavam os cemitrios, mercados e subrbios.
    Os tecidos importados eram armazenados em depsitos (kaysariyya), e outras
mercadorias em caravanars (funduk), cujas salas davam para um ptio interno.
Os negociantes europeus hospedados nos portos ficavam no funduk de sua
nacionalidade, e cada funduk tinha seu prprio cnsul. Os corsrios traziam
escravos, que eram empregados sobretudo em tarefas domsticas; por vezes,
monges cristos resgatavam-nos.
    A populao judaica aumentou no fim do sculo XIV em razo da chegada de
grande nmero de refugiados das perseguies crists. Os judeus tiveram papel pre-
ponderante na economia devido ao capital que detinham, s suas aptides e s rela-
es que mantinham com os judeus que haviam permanecido na Europa. Muitos se
estabeleceram em Tlemcen e Bidjya. Apesar de terem sido bem recebidos na Ifrkiya,
no alcanaram ali os altos postos que com frequncia ocupavam no Marrocos. Em
Fs, eclodiram pogroms no incio e no final do reinado dos Marnidas. A comunidade
judaica de Tuat tambm foi perseguida durante a segunda metade do sculo XV.
    A imigrao mais importante foi, porm, a de espanhis muulmanos, ime-
diatamente aps a Reconquista; desenrolou-se num fluxo contnuo, com alguns
pontos altos na primeira metade do sculo XIII e no final do sculo XV. Esses
andaluzes instalaram-se principalmente nos portos, formando grupos coesos,
cujos membros exerciam atividades diversas, de cima a baixo da escala social:
homens de letras, msicos, juristas, secretrios, militares, comerciantes, tecelos,
bordadores, pedreiros, jardineiros, agricultores etc. Era entre eles que, com fre-
quncia, os sultes escolhiam seus favoritos.
    Por outro lado, observava-se, nas cidades e em algumas populaes rurais
e nmades, uma mestiagem decorrente do afluxo de escravos negros dos dois
sexos e do concubinato com mulheres negras.
    A simbiose rabo-berbere6 iniciou-se logo aps a conquista e j se encontrava
bastante avanada no comeo do sculo IX. No entanto, mesmo nas cidades, seu
meio mais propcio, ela no extirpou certo tribalismo, que continuou profundamente
enraizado apesar do islamismo.  bem conhecida a vocao urbana da religio


5     "Hammn: literalmente, calefator (rabe: hamma, esquentar; hebraico: hmam, estar quente), banho de
      vapor quente. O hammm  edifcio isolado, que se comunica com a rua por uma porta mais ou menos
      monumental." Encyclopaedia of lslam, 1. ed., v. 2, p. 253.
6     IDRIS, 1973b.
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                     121



islmica, nascida numa cidade de comrcio e de caravanas da Arbia; , portanto,
com referncia na vida urbana que se deve traar o quadro da evoluo religiosa da
sociedade magrebina, fundamentalmente sacra, do sculo XIII ao XVI.


    O triunfo do maliquismo e as correntes msticas
    O almoadismo no abalou o maliquismo dos magrebinos; constou como
religio oficial para legitimar o poder dos Masmda, mas sofreu golpe fatal com
sua queda. Sem uma doutrina religiosa prpria, seus sucessores, os Marnidas e
Zainidas, adotaram a ortodoxia maliquita, que estimularam fundando muitas
madraas, onde eram hospedados e instrudos os estudantes, entre os quais
recrutavam seus funcionrios; a influncia andaluza logo se fez sentir.
    No leste da regio berbere, a situao foi diferente. Os Hafssidas eram
Almadas que continuavam fiis  doutrina que suas primeiras madraas se
empenharam em difundir  sem sucesso, no entanto, pois os habitantes da
Ifrkiya permaneciam profundamente maliquitas. Ademais, na segunda metade
do sculo XII, eminentes doutores trouxeram novo brilho ao maliquismo, que
passou a orientar todas as instituies religiosas, magistraturas e o ensino nas
madraas. Os Hafssidas no s permitiram que essa evoluo ocorresse, como
tambm colaboraram com os doutores maliquitas, e, graas ao clebre Ibn `Arafa,
o maliquismo chega ao auge na segunda metade do sculo XIV.
    O maliquismo no foi o nico fator de unificao religiosa. Desde o sculo
XII, a religio popular magrebina vinha se impregnando de misticismo. O povo
marroquino j havia sofrido a coero da jurisprudncia rgida, estreita e des-
secante dos Almorvidas, autores do auto-de-f das obras de al-Ghazzl. Os
Almadas em vo tentaram impor aos marroquinos sua doutrina  mais flexvel,
mas por demais racionalista , a qual, ao proclamar a impecabilidade do mahd
e condenar a jurisprudncia, feria o maliquismo inerradicvel desse povo, que se
voltava para o sufismo, com ele nutrindo sua devoo frustrada. Com o desapa-
recimento dos Almadas, esse movimento desenvolveu-se consideravelmente no
Marrocos, influenciado pelo sufismo andaluz e por um antigo ascetismo local,
difundido por bom nmero de chefes msticos, que se tornaram santos populares;
espalhou-se, em seguida, pelo Magreb central e pela Ifrkiya.
    Aps ter estudado mstica com os marroquinos, Ab Madyan al-Andalus (Sd
Bu Medine), nascido perto de Sevilha, foi procurar as origens dessa cincia no
Oriente. Depois de longa estada em Bidjya, foi chamado pelo califa de Marrakech,
que j se inquietava com a grande reputao do religioso, e morreu a caminho de
122                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Tlemcen (11971198). Teve um rival em Naft (Nefta) , Sd Ab `Ali al-Naft, e,
entre seus discpulos, al-Dahmni (morto em 1224), beduno originrio da estepe
de Kayrawn, e al-Mahdwi (morto em 1224), de Mahdyya. Ab Sa`d al-Bdj
(Sd Bu Sa`d, morto em 1231) pregou o sufismo em Tnis e seus arredores.
    Outro discpulo de Ab Madyan, Mulay `Abd al-Salm ben Mashsh, era grande
homem santo da regio. Seu aluno, Ab 'l-Hasan al-Shdhil (Sd Belhasen), nas-
cido ao sul de Tetuan (Tittwn - c. 1197), comeou a pregar nos arredores de Tnis,
onde se instalou, cercado de muitos fiis, aps um retiro em Djebel Zaghun. Sus-
peito de ser um agitador `Alid  dizia-se xarife e descendente de al-Hasan ben `Al
, foi obrigado a se retirar para o Oriente, onde morreu (1258); deixou em Tnis
inmeros adeptos. Seu sufismo, fervoroso mas primitivo, tendia ao culto dos santos
(marabusmo, baraka, taumaturgia, pobreza, excentricidade, vida numa cela ou numa
zwiya) e  confraria religiosa. Mais tarde seria conhecido como shadilismo, no
Marrocos, pas considerado pioneiro da seita.
    Entre os cerca de 50 companheiros de al-Shdhil, pode-se citar Lalla
Manubiyya, mulher da Ifrkiya hafssida (morta em 1267), temida e vene-
rada a despeito de sua demncia; juristas ortodoxos pediram sua priso, mas
o soberano se lhes ops. Extravagncias desse tipo logo deixaram de esbarrar
em oposio sria. Al-Murdjani (morto em 1300), xeque de zwiya, manteve
at excelentes relaes com a corte e os telogos...
    No perodo seguinte destacou-se Sd ben `Ars (morto em 1463). Originrio
do cabo Bon, exerceu, a princpio, tarefas humildes, enquanto estudava o sufismo
na Tunsia e no Marrocos, onde habitou por muito tempo. De volta a Tnis,
viveu como marabu girvago7 e taumaturgo, abandonando-se a excentricidades
escandalosas e ao tahrb (violao de regras morais e religiosas). Sofreu a hosti-
lidade de alguns juristas, mas gozou de grande popularidade e da solicitude de
muitos Hafssidas. Quando enterrado em sua zwiya, toda a populao, do mais
humilde ao mais abastado, chorou um santo que foi comparado imediatamente
a Sd Mahrez, patrono de Tnis h cinco sculos. Deixou numerosos adeptos,
mas a confraria dos `Arsiyya s foi criada no sculo XVI.
    Na Ifrkiya proliferaram os ascetas, e constituram-se cabilas de marabus,
como a dos Shbbiyya', que fundaram um Estado marabusta, tendo Kayrawn
como capital. Este Estado mais tarde se levantou contra espanhis e turcos. Mas
foi no Marrocos, ptria de seu fundador, que o shadilismo floresceu com maior


7     Girvago - nome dado aos monges que passavam a vida vagando de provncia em provncia, de cela em
      cela, permanecendo apenas trs ou quatro dias no mesmo local e vivendo de esmolas; tambm eram
      chamados de "messalianos".
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                      123



vigor; principalmente em Aghmt e Marrakech. Em 1370, os Ragrga fundaram
uma zwiya shadilita, cujos missionrios se espalharam por todo o sul do pas,
tanto na plancie quanto nas montanhas.
    Finalmente, o advento de al-Djazl (morto em 1465) deu novo impulso ao
sufismo, orientando-o para o marabusmo e para o xarifismo. Este berbere do
Sus, que, segundo a lenda, descendia do Profeta, foi contemporneo da descoberta
de um corpo (1437), milagrosamente conservado numa mesquita de Fs, logo
atribudo a Idrs II. Mulay Idrs tornou-se, assim, objeto de culto fervoroso. Em
Meknes e Fs, os xarifes idrsidas formaram grupos poderosos, que, por condes-
cendncia dos Marnidas, eram representados por um nakb. Al-DjazI, que
adotara e praticava o shadilismo, logo passou a contar com numerosos adeptos,
organizados, provavelmente, numa verdadeira confraria. O sul do Marrocos fer-
vilhava de marabus, que vagavam para o norte e para o leste at a Tripolitnia. O
marabusmo e o xarifismo associaram-se estreitamente; as confrarias contaram
com a adeso de letrados e juristas que haviam abandonado o sufismo. Com a
morte do mestre, um discpulo de al-Djazl organizou poderosa revolta no Ss,
transportando consigo, durante 20 anos, o corpo de seu xeque num esquife. O
xarife sdida al-A`radj transferiu (1524), enfim, o corpo, com o do prprio pai,
para um mesmo mausolu em Marrakech, selando assim a aliana da nova dinas-
tia com o djazulismo, que, desta forma, teve seu triunfo assegurado.
    Foi tambm a partir do Marrocos que o mawlid (ou mawld), festa da nativi-
dade do Profeta (12 Rabi`I), celebrada no Oriente pelos Aibidas no comeo do
sculo XIII, espalhou-se pela regio berbere, palco de grande exaltao religiosa.
A festa, mencionada pela primeira vez em Ceuta em meados do sculo XIII,
foi oficializada pelo marnida Ab Ya`kb Ysuf em 1292. Na metade do sculo
seguinte, o zainida Ab Hamm II celebrou-a com grande pompa em Tle-
mcen. O hafssida Ab Yahy (1318-1346) quis fazer o mesmo em Tnis, mas
renunciou a essa iniciativa devido  violenta reprovao dos juristas. A Ifrkiya s
adotou definitivamente o mawlid  como no Marrocos e Tlemcen, com recita-
o de poemas, cantos, msica, iluminaes etc.  no governo do hafssida Ab
Fris (1394-1434). Tambm na Ifrkiya a festa foi iniciada e monopolizada pelas
confrarias, e sua celebrao provocou o aumento do prestgio dos xarifes.


    O poder dinstico e a estrutura social
   As dinastias marnida, zainida e hafssida foram fundadas pelas tribos ber-
beres conquistadoras, e o cl vencedor, o makhzen, identificou-se com o Estado.
124                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



Esta distino entre vencidos e vencedores era diferente da diviso tradicional
entre khssa (particulares, cortesos, aristocracia poltico-militar, elite etc.) e
`amm (homens comuns, plebe, povo etc.), criada pelos juristas, historigrafos
e governantes. Alm disso, o igualitarismo fundamental do islamismo  bem
conhecido; o termo khssa, com frequncia, aplicava-se aos letrados, e `amm,
aos analfabetos. No obstante, em Fs, Tlemcen e Tnis, uma classe mdia,
espcie de pequena burguesia com grande poder de assimilao, rompe este
bipartidarismo terico, temperando o esprito de casta. Abre-se para todos a
possibilidade de ascenso social pela fortuna ou cultura, ou mesmo pela piedade
ou favor dos poderosos.

      Os Marnidas
    Em tempo de guerra, os Marnidas convocavam cavaleiros Zenta do Magreb
central e rabes, para reforar sua pequena fora de cavalaria. Dispunham de cerca
de 8 mil cavaleiros mercenrios (turcomanos, francos, renegados8, andaluzes) e de
uma guarda do sulto, provavelmente Zenta. Os Zenta constituam a aristocracia
poltico-militar, de onde provinham os altos funcionrios ou vizires, pertencentes
a famlias rivais cada vez mais influentes. A famlia dos Ban Watts proveu de
regentes at o ltimo marnida e fundou uma dinastia que controlou Fs e parte
do pas. A chancelaria e a contabilidade eram confiadas a secretrios (ktib) marro-
quinos ou andaluzes. Os camareiros (hdjib), em sua maioria escravos libertos, no
tinham autoridade poltica; h o caso nico de um judeu, hdjib de Ab Ya`kb
Ysuf (1286-1307), que acabou se tornando chefe de governo, e o de outros
dois, que foram encarregados pelo ltimo marnida, em dbito com os judeus, de
receber os impostos. Os djndr9 ficavam  porta do soberano e executavam suas
ordens; seu preboste era o mizwr, que cuidava da observncia da etiqueta nas
audincias dadas no dr al-amm ("casa do povo"). O herdeiro presuntivo estava
estreitamente vinculado ao exerccio do poder. Os grandes governadores de pro-
vncia eram prncipes de sangue ou chefes Zenta ou rabes.
    No Atlas, praticamente autnomo, as cabilas submissas eram dirigidas por
poderosos emires, escolhidos nas grandes famlias fiis  dinastia. s cabilas



8     Os renegados eram mercenrios geralmente apstatas que, vindos da Espanha em sua maioria, se punham
      a servio do exrcito magrebino.
9     "Djndr (ou djandr): no reinado dos Mamelucos e dos Marnidas, a Nbat al-Djndriy era a guarda parti-
      cular do sulto, tanto em palcio como em viagens; encarregavam-se de introduzir os emires nos aposentos do
      sulto para audincias ou para render-lhe homenagens..." Encyclopaedia of lslam, 1. ed., v. 1, p. 1014.
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                                                        125



rabes reservava-se o direito de arrecadar o imposto (ikt`)10; os xarifes e os
homens santos beneficiavam-se de parte da receita fiscal, e as confrarias, das
isenes de impostos.
    Fs atingiu o apogeu em meados do sculo XIV. J senhor do Marrocos, Ab
Ysuf Ya`kb abandonou Marrakech, capital dos Almorvidas vencidos, e se instalou
em Fs, onde fundou, em 1276, uma nova cidade, Fs al-Djadd (Nova Fs). Cidade
administrativa e militar, compreendia o bairro dos prncipes, um outro, dito "dos
cristos", e um terceiro, que se tornaria o Mallh (bairro judeu). Os judeus que se con-
vertiam  aqueles que no aceitavam viver no Mallh  misturavam-se  populao
muulmana, dedicando-se ao comrcio atacadista. Numerosos refugiados andaluzes
vieram reforar a elite intelectual, artstica e comercial.
    Para alojar, alimentar e educar os estudantes que afluam a Fs, Ab Ysuf
Ya`kb fundou, na cidade velha, a primeira das famosas madraas marnidas, que
dispunham de fundaes habous; quatro outras foram edificadas de 1320 a 1323,
uma sexta em 13461347, tendo Ab `Inn Fris (13491358) a elas somado
a que leva seu nome.
    O comrcio com a Espanha, Portugal, Gnova e Veneza era intenso. A
comunidade de mercadores cristos reunia-se num edifcio, sob a autoridade de
uma espcie de cnsul comum (o "feitor" dos textos portugueses); a comunidade
judaica tinha seu chefe e administrao prprios. O muhtasib11 controlava a
atividade comercial.
    A prosperidade econmica e intelectual de Fs declinou com a dinastia. O
advento dos Sdidas pouco favoreceu a cidade, j que eles escolheram Marrakech,
eclipsada e quase arruinada, para sua capital, dando-lhe, com isso, novo vigor.

     Zainidas (`Abd alWdid)
   Parentes e rivais dos Marnidas, os Zainidas de Tlemcen eram, como
aqueles, berberes nmades Zenta que assumiram a liderana de um Estado
sedentrio. O fundador da dinastia, Yaghmursan (12351283), viveu em
tendas at por volta de seus 30 anos e s falava o berbere. O vizirato, con-


10    difcil encontrar nas lnguas europeias (ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 3, p. 1088) um correspondente
     tanto para o termo ikt` como para a realidade jurdica e fiscal que designa. Neste caso, significa o direito de
     arrecadar o imposto.
11 "Muhtasib: censor, funcionrio nomeado pelo califa ou por seu vizir para observar se os preceitos religiosos
   do Isl so respeitados, descobrir delitos e punir os delinquentes. Em alguns casos, suas funes eram
   paralelas s do cdi, mas a jurisdio do muhtasib limitava-se s questes relativas a transaes comerciais,
   pesos e medidas irregulares, vendas fraudulentas e no pagamento das dvidas." Encyclopaedia of lslam,
   1. ed., v. 3, p. 702-3.
126                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



fiado a princpio a parentes do soberano, passou, a partir de Ab Hamm I
(13081318), para as mos de cambistas, cuja famlia j exercera essa profisso
em Crdoba; estes adquiriram terras nos subrbios de Tlemcen, fazendo-as
valorizar. Um desses, do Mallh, foi ministro das finanas de Yaghmursan.
O intendente do palcio, escolhido entre os juristas, era tambm encarregado,
entre outras coisas, da chancelaria e da contabilidade.
    Ab Tashfn I (13181337) escolheu para hdjib (mestre de cerimnias,
superintendente do palcio ou primeiro-ministro), com poder supremo na
administrao, um liberto andaluz, Hilal, o Catalo.
    Yaghmursan empregou mercenrios  turcos, curdos e cristos  que haviam ser-
vido aos Almadas (os cristos foram dispensados aps 1254). Mas o corpo principal
do exrcito era formado pelos Ban Hill; estes, alm de se beneficiarem de importan-
tes concesses fiscais (ikt`), coletavam os impostos, dos quais retinham uma parte.
    Muito devoto, Yaghmursan mandou construir minaretes nas grandes mes-
quitas de Tlemcen e Agadir. A ele se atribui a fundao da fortaleza de Mashwr,
onde residiu. Seu sucessor ergueu a mesquita de Sd Bel Hasen (1296), e Ab
Hamm I construiu uma madraa para que dois doutores ali difundissem seu
saber. Seu filho fundou mais uma madraa e edificou trs palcios. Tlemcen
atingiu, nessa poca, o auge da prosperidade.
    Durante o cerco de Tlemcen (12981306), o marnida Ab Ya`kb Ysuf
construiu a cidade-fortaleza de al-Mansra, que Ab 'l-Hasan retomou e for-
tificou durante novo cerco (1335). Senhores de Tlemcen de 1337 a 1348, os
Marnidas fomentaram o culto a Sd Bu Medine (Ab Madyan); embelezaram
seu mausolu e acrescentaram  sua construo a mesquita de al-`Ubbad e uma
madraa. Durante a segunda ocupao marnida (13521359), Ab `Inn Fris
mandou construir a mesquita de Sd 'l-Halw  santo de origem andaluza que se
havia estabelecido em Tlemcen no incio do sculo XIII , com uma madraa e
uma zwiya. Mashwr conheceu seus melhores dias no reinado de Ab Hamm II
(13591389); durante as noites do mawlid eram oferecidas esplndidas recepes
aos dignitrios e ao povo, nas quais a mangana, relgio monumental com figuras
que se movimentavam, era muito admirada. Ab Hamm II construiu tambm
vasto conjunto de edificaes religiosas nos arredores da cidade: um mausolu
de famlia, uma madraa e uma zwiya. Deve-se a Ab 'l-`Abbs (14301461) o
mausolu e a mesquita dedicados a Sd Lahsan (morto em 1453).
    Mesmo atravessando vicissitudes polticas, Tlemcen nada perdeu em brilho, tam-
pouco sua riqueza parece ter-se abalado. A opulncia de seus mercadores, muul-
manos e judeus, repousava no comrcio exterior florescente. Tecidos importados
da Europa eram estocados e vendidos numa kaysariyya perto da Grande Mesquita.
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                                               127



Os mercadores genoveses e venezianos comerciavam no funduk reservado para cada
nacionalidade. A atividade artesanal era intensa: produziam-se tecidos de l, tapetes,
faianas, arreios, couros bordados etc. O trfego martimo passava por Hunayn e Or.
Enfim, Tlemcen parece ter suplantado Marrakech como escala do comrcio saariano,
que passou por certa renovao nos sculos XIII e XIV. O ouro e os escravos chega-
vam de Sidjilmsa a Tlemcen por uma rota controlada pelos Ban Ma`kil.

     Os Hafssidas
    Bidjya, porto comercial, base de corsrios, centro intelectual e religioso e
por vezes capital, foi, junto com Tlemcen, um dos polos do Magreb central. A
floresta da Cablia fornecia aos estaleiros madeira e piche. Alm dos estrangeiros
em trnsito, dos hspedes peridicos e de uma comunidade judaica e crist, a
populao era formada por indivduos provenientes da Cablia e da Andalu-
zia. Ao que parece. na cidade no havia madraas nem zwiya enquanto em
Constantine, cidade do mesmo porte, contavam-se vrias. Constantine abrigava
numerosa comunidade judaica e uma rica e antiga burguesia.
    Na regio berbere oriental, os Hafssidas perpetuaram a ordem almada.
    Seus parentes foram reunidos sob a autoridade de um deles, que tomou o
ttulo de mazwr al-karba. Os homens ligados ao exerccio do poder, princi-
palmente os governadores de provncia, recebiam o ttulo de emir. Seus filhos,
criados na corte com os do sulto e os dos principais cortesos, eram os sibyn
(garons ou pajens), e recebiam educao primorosa. Entre os servidores do
palcio, os renegados cristos, antigos escravos, tinham papel cada vez mais
importante no alto comando civil e militar. O intendente palaciano era um
eunuco. O cl dos xeques almadas, aristocracia militar, agrupava os descen-
dentes das "tribos" almadas primitivas; cada uma delas era liderada por um
mazwr12, e todas obedeciam ao xeque al-muwahhidn, um dos mais poderosos
pilares do Estado, cujo cargo era vitalcio. Os "grandes xeques" eram divididos
em grupos de Trs, de Dez e de Cinquenta13. Os "pequenos xeques" participavam
das cerimnias. Em virtude do igualitarismo almada, todos os xeques, assim
como o sulto, ganhavam o mesmo soldo; alm disso, recebiam concesses de
terras e doao anual em dinheiro e espcie. Embora viessem a perder pouco a
pouco sua influncia para os andaluzes e alguns libertos, houve momentos de

12   "O termo mizwr (ou mazwr) aparece cedo na historiografia magrebina, relacionado s instituies
     almadas. Designa o chefe da faco e a funo correspondente, que,  poca, parece ter sido confundida
     com a do haf z ou do muhtasib". Ibid., p. 543.
13   Quanto  origem destes diferentes grupos, ver  contribuio de Omar Saidi, captulo 2.
128                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



brilhante revivescncia. O conselho (shr) era composto por Almadas e outros
notveis. O califa encabeava frequentes reunies pblicas e privadas, e toda
semana reunia em conselho os cdis e os muftis, os juristas da capital. Assumia
pessoalmente a represso aos abusos (radd al-mazlim)
    Enquanto eram apenas governadores almadas, os Hafssidas designavam
como deputado um ktib, espcie de primeiro-ministro. Ab Zakariyy' (1228
1249) tinha trs vizires: o do exrcito, grande xeque almada ou mesmo o xeque
dos Almadas, que desempenhava a funo de primeiro-ministro, o das finanas
e o da chancelaria. No final do sculo XIII aparece a funo de camareiro (hdjib),
de origem espanhola e essencialmente domstica, exercida por andaluzes, cuja
influncia aumentava; no sculo XIV, o hdjib torna-se o primeiro-ministro.
Aps o governo do hdjib Ibn Tafrdjin (1350-1364), um ditador, embora o
ttulo tenha subsistido, o cargo torna-se honorrio. O vizir das finanas, a prin-
cpio escolhido entre os xeques almadas, passa a s-la entre funcionrios ou
andaluzes. A partir de Ab Fris (fim do sculo XIV e comeo do sculo XV),
o al-munaffid, coordenador das despesas da casa real,  quem detm o poder
supremo sobre as finanas; depois do desaparecimento do xeque dos Almadas
e hdjib (em 1462), ele passa a ocupar o posto mais elevado na hierarquia dos
funcionrios, enquanto o vizir das finanas  relegado  funo de tesoureiro. O
mazwr  mordomo do palcio, porteiro e chefe das guardas e dos servidores 
no final do sculo XV chega a controlar a administrao do exrcito e a ocupar
o segundo lugar na hierarquia depois do munaffid. Os escribas, em sua maioria
andaluzes, gradualmente vo sendo substitudos por naturais da Ifrkiya.
    Inicialmente, os xeques almadas eram encarregados das provncias; nos sculos
XIV e XV cedem lugar a funcionrios de origem frequentemente servil, os k`id.
Os Hafssidas escolhiam os principais governadores regionais entre os parentes,
principalmente os filhos, em particular os primognitos, que assim faziam sua apren-
dizagem; cada um deles tinha um assistente, inicialmente chamado ktib e depois
hdjib. Os xeques tribais, escolhidos entre os membros de uma famlia ou cl que,
tendo alcanado a supremacia, havia sido investida pelo sulto, comandavam o
contingente de sua cabila e coletavam os impostos para o tesouro, beneficiando-se
de concesses fiscais e doaes de terras.
    O exrcito, bastante heterogneo, era constitudo por Almadas, rabes nmades,
berberes do Magreb ou da Ifrkiya, orientais, andaluzes e francos cristos; mas a fora
dos primeiros era pouco significativa se comparada  do contingente de rabes da
Ifrkiya, de peso considervel. Havia uma milcia urbana, uma andaluza, outra de
mercenrios turcomanos e outra ainda de cavaleiros cristos; estes, vindos da Espa-
nha ou da Itlia, formavam a guarda sultanesca, praticavam sua religio e moravam
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                     129




Figura 5.2    A mesquita da kasaba em Tnis. (Foto B. Nantet.)



num subrbio da capital. Os renegados cristos, escravos libertos em sua maioria,
constituam um slido elemento militar; os generais eram, com frequncia, escravos
libertos ou renegados. O corso tinha papel importante: os navios eram armados pelo
governo ou por homens de negcios.
    Voltados para o mar, os Hafssidas no se esforaram para reintegrar Kayrawn,
a antiga capital da Ifrkiya, que a invaso dos Ban Hill reduziria  obscuridade.
A antiga populao urbana foi absorvida pela horda beduna, que tomou conta das
plancies. O artesanato em Kayrawn manteve certa vitalidade graas  produo
dos pastores nmades. Foram fundadas na cidade numerosas zwiya.
    Tnis era uma metrpole em expanso. A kasaba (casb) almada foi refor-
mada por Ab Zakariyy', que a transformou numa pequena cidade governa-
mental. Por volta de 1240, ele mandou construir, perto da grande mesquita de
Zaytna, a madraa de al-Samma`iyya, a mais antiga da frica setentrional. A
partir do sculo XV, uma dezena de outras foram fundadas por prncipes e prin-
cesas. As zwiya multiplicaram-se na madna e nos subrbios. Na rea do porto,
elevavam-se os funduk de mercadores cristos, agrupados por nacionalidade. Nos
130                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



subrbios, numerosos pomares e hortas eram cultivados por andaluzes. Os parques
e habitaes de prncipes abundavam; o Bardo j era mencionado em 1420.
    Em Tnis nasceu a personagem mais representativa de seu tempo, Ibn
Khaldn (13321406); alguns detalhes de sua existncia e suas reflexes sobre
a poca serviro de concluso a este estudo.
    rabes de origem iemenita, estabelecidos em Sevilha, desde sua conquista e
ali exercendo funes polticas, os Khaldn emigraram, devido  Reconquista,
para Ceuta, e depois para a Ifrkiya. O tatarav de Ibn Khaldn serviu a Ab
Zakariyy' em Annba, seu bisav foi ministro das finanas de Ab Ishk, e seu
av foi sucessivamente hdjib de Ab Fris em Bidjya, primeiro-ministro de
Ab Hafs, vice-hdjib de Ab `Asd e favorito de Ab Yahy Ab Bakr. Seu pai
dedicava-se s letras, ao fikh e  religio; morreu durante a Grande Peste (1349).
Ibn Khaldn, ento com 17 anos, tinha slida formao cultural, adquirida em
Tnis, onde pde aprender com os doutores que para l afluram  poca da
invaso marnida (13471349). No ano seguinte, recebeu o cargo de escrevente
(`alma) de Ab Ishk II. Quando o emir de Constantine invadiu a Ifrkiya,
Ibn Khaldn foge para o oeste, inaugurando uma carreira movimentada e fr-
til em reviravoltas e intrigas. Aps ter passado a servir o marnida Ab `Inn
Fris em Fs, completou sua educao, mas participou de uma conspirao e
permaneceu aprisionado por dois anos (13571358). Secretrio de chancelaria e
panegirista de Ab Salm, foi nomeado juiz dos mazlin. As intrigas obrigaram-
-no a se refugiar em Granada, onde foi acolhido por seu amigo, o vizir Ibn
al-Hatb; em 1364, foi encarregado de uma embaixada junto a Pedro, o Cruel,
em Sevilha. No ano seguinte, foi hdjib do hafssida de Bidjya, deposto pouco
tempo depois por seu primo de Constantine, ao qual Ibn Khaldn entregou a cidade
(1366). Logo teve de se refugiar entre os rabes Dawwida, e, pouco depois, junto aos
Ban Muzn de Biskra. Recusou o cargo de hdjib oferecido pelo sulto de Tlemcen,
Ab Hamm II, alegando querer dedicar-se aos estudos. E realmente o fez, sem
contudo renunciar  poltica: favoreceu a aliana do hafssida de Tnis com o zainida
de Tlemcen contra o hafssida de Bidjya, recrutando, a seguir, contingentes rabes
para o marnida de Fs. Apos muitas outras tribulaes no Magreb central, em Fs
e em Granada, voltou a Tlemcen (1375), onde o sulto Ab Hamm II confiou-lhe
misso junto aos Dawwida. Aproveitou a ocasio para fazer um retiro em Kal`a lbn
Salma, perto de Tiaret, onde, durante quatro anos, elaborou a clebre al-Mukaddima.
No intuito de consultar documentos que lhe permitiriam dar prosseguimento  sua
obra, conseguiu autorizao do hafssida para voltar a Tnis (dezembro de 1378),
onde lecionou e pde terminar sua Histria, da qual ofereceu um exemplar ao sulto.
A conspirao liderada pelo jurista Ibn `Arafa obrigou-o a fazer a peregrinao 
A sociedade no Magreb aps o desaparecimento dos Almadas                        131



Meca (1382). Passou o resto da vida no Cairo, onde lecionou e exerceu por vrias
vezes a funo de grande cdi maliquita. Encontrava-se em Damasco quando esta
foi sitiada por Tamerlo; teve, assim, oportunidade de conhecer, alguns anos antes de
morrer, o conquistador mongol. A obra de Ibn Khaldn alimentou-se da experincia
do autor no Magreb, da qual ele soube extrair ensinamentos geniais, de originalidade
surpreendente.
    Al-Mukaddima  fruto da prodigiosa reflexo de um quinquagenrio sobre o
que viu e fez. Ao redigir este tratado de epistemologia histrica, Ibn Khaldn tinha
conscincia de que estava fundando uma "cincia nova": a histria da civilizao.
Sua inteno era compreender e explicar os fatos que obedecem a leis, e elaborar
uma filosofia da histria. Considerava dois dados fundamentais: o modo de vida e o
"tribalismo". Opunha a vida nmade, primitiva,  vida urbana, civilizada. A primeira
baseava-se essencialmente na cabila e na conscincia de grupo (`asabiyya), fora viva
que fundava novos imprios e ameaava continuamente os Estados constitudos; a
segunda desabrochava, definhava e por fim desaparecia sob o impacto de nova fora
nmade. Para ele, a invaso dos Ban Hill e a Grande Peste trouxeram to profundas
transformaes na vida do Ocidente muulmano, que chega a falar de um "mundo
novo". Sua viso cclica da evoluo no  otimista nem pessimista, mas fundamen-
tada na natureza das coisas tais quais ele as observava. O mesmo se pode dizer de sua
teoria segundo a qual a soberania s se mantm por quatro geraes.
    O que impressiona no pensamento de Ibn Khaldn  o realismo, a ausncia
de apriorismo, o determinismo cientfico, em uma palavra, a modernidade.
Compreende-se por que esse genial filsofo da histria tem sido considerado
precursor da histria "total", da economia social e at mesmo da sociologia
moderna e do materialismo histrico, no obstante sua obra tambm eviden-
ciar traos prprios do homem de seu tempo e de seu meio.  um sacrilgio
querer interpretar anacronicamente esse monumento, edificado com tanto
senso de proporo graas a um equilbrio constante entre o realismo, fruto da
observao, e o racionalismo, que explica e deduz leis inelutveis.
    Embora sua Histria universal (Kitb al-`Ibr) no aplique o mtodo preco-
nizado em sua "Introduo  profisso de historiador", diferentemente dos anais
rabo-muulmanos tradicionais, ela estuda primeiro a histria das cabilas rabes
e de suas dinastias, e depois a dos berberes e de seus reinados. Constitui, para o
perodo mais prximo da vida do autor, a fonte documentria fundamental.
O Mali e a segunda expanso manden                                                           133



                                     CAPTULO 6


     O Mali e a segunda expanso manden
                                     Djibril Tamsir Niane




    O povo Manden (Mandenka ou Mandingo) compreende vrios grupos e
subgrupos, dispersos por toda a zona sudano-saheliana, do Atlntico at o macio
do Air, com projees bastante profundas nas florestas do golfo do Benin. No incio
do sculo XII, porm, o habitat dos Manden era muito mais restrito. No apogeu do
Imprio de Gana, ao findar o sculo XI, podiam-se distinguir trs grandes grupos:
os Soninke ou Sarakolle, fundadores de Gana, ocupavam especialmente as provncias
de Wagadu (Awker), Baxunu (Bakhunu) e Kaniaga; ao sul, aos ps dos montes de
Kulikoro, estavam instalados os Sosoe, ou Sosso, que tinham sua capital na cidade
de Sosoe; e, ainda mais ao sul, viviam os Maninka ou Malink, do territrio cha-
mado Mande ou Manden, situado na bacia do alto Nger, entre Kangaba e Siguiri.
Os Soninke, tambm conhecidos como Marka ou Wakore (Wangara)1 fundaram o
Imprio de Gana, primeira expresso da expanso manden2. Quando o imprio ruiu,
sob os repetidos ataques dos Almorvidas, os Soninke j haviam deixado em grande

1   A palavra Wangara (que os franceses escrevem Ouangara)  utilizada pelos Fulbe (Peul) e Haussa
    (Hawsa) para designar os Manden (ou Mandingo). Wangara e Wakore tm a mesma origem, embora
    Wakore se aplique mais especificamente aos Soninke (ou Sarakolle). Na floresta da Costa do Marfim,
    os Manden (Mandingo) so conhecidos como Jula (ou Diula ), que significa comerciante, em lngua
    malink. Wangara e Jula (Diula) so sinnimos e indicam, mais particularmente, os Manden (Mandingo)
    que se dedicam ao comrcio.
2   Segundo MAHMD KA`TI, 1964, "o Imprio do Mali s se constitui realmente depois da queda da
    Dinastia dos Kayamaga, cujo poder se estendia por toda a regio ocidental, sem exceo de nenhuma
    provncia".
134                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



nmero o Wagadu natal, para se mesclarem com os povos das margens do Nger,
onde se estabeleceram. A busca do ouro levou-os longe, em direo do sul, at
a orla da floresta. Acredita-se que a cidade de Djenn  que teve seu apogeu no
sculo XV  tenha sido fundada por comerciantes Soninke, provavelmente muito
antes da chegada dos rabes  regio.
    Neste ponto, impe-se uma pequena digresso sobre o desenvolvimento de
Djenn. Nos ltimos anos, tem-se obtido nmero cada vez maior de informaes
sobre a cidade e seus arredores; seu antigo stio, chamado Djenne-Djeno, foi estudado
por arquelogos, e os resultados colhidos provam que o desenvolvimento da cidade
no se deve ao comrcio transaariano promovido pelos rabes a partir dos sculos
IX e X. Na verdade, a ocupao mais antiga de Djenne-Djeno remonta ao sculo
III antes da era crist; a cidade foi construda por populaes que se dedicavam 
agricultura,  criao de animais e ao trabalho do ferro3. Excetuando-se o planalto
de Bauchi, na Nigria, a antiga cidade de Djenne-Djeno  o nico lugar da frica
ocidental no qual se evidenciou a prtica da metalurgia  poca.
    O arroz j era cultivado na regio desde o sculo I da era crist; assim, se
a cultura da variedade africana desse cereal (Oryza glaberrima) remonta a essa
data pelo menos, fica definitivamente refutada a tese dos que pretendem que
a planta  originria da sia. Por volta do sculo III, Djenne-Djeno era uma
grande cidade, com pequenas aldeias de agricultores, em contato com aldeias
maiores, espalhadas ao longo do rio Nger e de seu afluente, o Bani4.
    Por volta do ano 500 j existia um comrcio transaariano, conforme atestam
objetos de cobre encontrados em Djenne-Djeno datados desse perodo; esse metal s
poderia provir das minas do Saara, mais especificamente, de Takedda. Por essa poca
a cidade atingiu sua extenso mxima, a saber, 34 hectares; sua periferia tambm era
amplamente povoada, como provaram escavaes efetuadas em 1977.
    Quando e por que a populao abandonou Djenne-Djeno para se instalar em
Djenn?  provvel que o ncleo de comerciantes muulmanos da antiga cidade
tenha preferido afastar-se da grande massa, que se conservara pag. Por volta do ano
800, a nova cidade j era importante centro comercial, em ligao com os territrios
da savana e do Sahel. Tal como Igbo-Ikwu, na foz do Nger, Djenn era grande
importadora do cobre do sul, que trocava por ouro, nozes-de-cola e marfim5.

3     Ver McINTOSH & McINTOSH, 1981.
4     A arqueologia confirma as informaes do Ta'rkh al-Sdn: a regio de Djenn era to populosa e as
      aldeias to prximas umas das outras que as ordens do rei eram proclamadas do alto dos basties e
      retransmitidas de aldeia em aldeia pelos arautos. O limo depositado pelos dois rios era muito frtil e
      facilitava o cultivo do arroz.
5     Ver o captulo 14 deste volume.
O Mali e a segunda expanso manden                                               135



    O cobre encontrado em Djenn e Igbo-Ikwu, datado de antes do sculo VIII,
constitui prova de que os rabes foram responsveis to-somente pela ampliao
do comrcio transaariano. A atividade comercial dos Wangara, ou Jula,  anterior
 chegada dos rabes  regio. Atravs da guerra e do comrcio, os Wangara
puderam estender amplamente em todas as direes sua rea de influncia.
    Aps a queda de Kumbi-Sleh, no final do sculo XI, iniciou-se um perodo
sobre o qual pouco se conhece. Desse espao de tempo entre a conquista da
cidade pelos Almorvidas, por volta de 1076, e a vitria de Sundiata em 1235,
data em que nasceu o Mali, so poucas as fontes escritas de que dispomos
relativas ao Sudo ocidental. A segunda expanso manden correspondeu ao
surgimento do Mali. Partindo do alto Nger, os cls Maninka levaram a guerra
at o Atlntico, a oeste, e estabeleceram-se na Senegmbia. No sculo XIV,
os mercadores mandenka (mandingo) introduziram o Isl nas terras haussa e,
seguindo para o sul, chegaram a penetrar a floresta, onde iam comprar de povos
no convertidos ao Isl ouro e as preciosas nozes-de-cola.
    Essa expanso dos Mandenka teve ao mesmo tempo carter pacfico e guerreiro.
No territrio haussa, e em direo ao sul, ela se deveu aos mercadores e aos marabus,
enquanto na Senegmbia, a oeste, foi, a princpio, belicosa; aps os conquistadores,
contudo, marabus e mercadores acorreram em grande nmero  regio. Com isso,
as provncias ocidentais tornaram-se um prolongamento do antigo Manden.
    O Imprio Manden entrou em declnio no sculo XV; no entanto manteve
sua atividade expansionista, sobretudo em direo ao sul, onde os Maninka
fundaram vrios centros comerciais, sendo um dos mais importantes Begho, no
territrio bron ou akan, particularmente rico em ouro.
    No presente estudo procuraremos identificar os primrdios dessa expanso e seu
desenvolvimento entre os sculos XIII e XIV, e distinguir os traos fundamentais da
civilizao manden. Antes, porm, duas questes devem ser respondidas: 1) Qual era
a situao do Sudo ocidental no incio do sculo XII? 2) Como se apresentavam os
povos e reinos da regio aps a queda de Kumbi-Sleh?


    Reinos e provncias do Sudo ocidental no sculo XII
   Kumbi-Sleh, capital de Gana, caiu em poder dos Almorvidas em cerca
de 1076. Muito pouco se conhece da histria do Sudo no sculo XII; entre
as valiosas informaes fornecidas por al-Bakr por volta de 1068 e os relatos
do gegrafo al-Idrs, escritos em 1154, h uma grande lacuna documental.
Contudo, aps a independncia dos Estados da frica ocidental, passaram a
136                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



ser feitas coletas de tradies orais, atravs das quais comeamos a conhecer a
histria interna de Gana posterior  queda de Kumbi-Sleh6; os ta'rkh sudane-
ses do sculo XII, baseados em tradies orais, incluem sequncias importantes
sobre o conjunto do Sudo ocidental. A essas fontes, acrescente-se o papel cada
vez mais significativo da arqueologia: escavaes realizadas nos ltimos vinte
anos nos stios das cidades de Kumbi-Sleh, Awdaghust e Niani forneceram
abundante material e confirmaram muitos dados da tradio oral7.

      O Takrr
    Desde meados do sculo XI8, o Takrr, como o Manden e outras provncias
importantes, no mais se encontrava sob o domnio de Gana. Wardjabi, rei do
Takrr, convertido ao Isl, tomara parte ativa na guerra santa iniciada pelos Almo-
rvidas; seu filho Labi (ou Laba) deu prosseguimento a essa poltica de aliana
com os Almorvidas, tendo ao lado deles combatido os Godala9 em 1056.
    Mantendo o domnio sobre o rio Senegal e o controle sobre as minas de ouro
de Galam, o Takrr por algum tempo tomou o lugar de Kumbi-Sleh como
centro comercial. Segundo al-Idrs, no sculo XII o Takrr era poderoso reino,
e sua autoridade sobre o rio Senegal, incontestvel; alm de haver anexado a
cidade de Barissa, tinha sob o controle de seus reis as minas de sal de Awlil.
    Nessa poca, o Takrr era o reino mais conhecido dos rabes depois de
Gana. Ao que parece, seus comerciantes chegaram a superar os de Gana, que
se viam prejudicados pela guerra civil que devastava as provncias soninke
de Wagadu, Baxunu, Kaniaga e Nema (ou Mema). O Senegal, navegvel at
Gundiuru (regio de Kayes), constitua cmoda via de penetrao para os
comerciantes do Takrr (ou Tukuloor), que dele se serviam para trocar o sal de
Awlil por ouro, adiante de Barissa10.
    Parece cada vez mais evidente que o apogeu do reino do Takrr se deu entre
o trmino do sculo XI e a metade do XII. Antes da emergncia do Sosoe e do
Mali, foi o Takrr que exerceu papel econmico de primeiro plano; assim, no 
de se estranhar que os rabes designassem por Takrr todo o Sudo ocidental.
    As cidades de Sangana, Takrr e Sylla eram frequentadas por comerciantes
rabo-berberes; a queda de Kumbi-Sleh no interrompera o trfico do ouro; ao

6     SYLLA, 1975.
7     ROBERT, ROBERT & DEVISSE, 1970.
8     Ver ALIDRS, 1866; ver tambm IBN SA`D, in CUOQ, 1975.
9     Os Godala, ou Gdala, faziam parte das cabilas berberes Sanhadja, que viviam no Saara.
10    ALIDRS, 1866; ver tambm IBN SA`D, in CUOQ, 1975, p. 201-5.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                   137




Figura 6.1 Kumbi-Sleh. As escavaes mostram partes da mesquita construda entre os sculos X e XIV.
(Clich I. M. R. S.)



contrrio, o Takrr por certo tempo ocupou o espao deixado por Kumbi-Sleh11.
A cidade de Takrr, como a descreve al-Bakr, era uma grande metrpole que,
da mesma forma que Kumbi-Sleh, tinha um bairro de rabo-berberes.
   No entanto o reino do Takrr restringiu sua rea de influncia  bacia do rio
Senegal, no tomando parte na luta pela hegemonia, que opunha os Soninke e
Maninka aos Sosoe.

     O Songhai

     O Imprio de Gana no estendeu seu domnio ao Songhai. Este reino, j antigo,
     desde cedo manteve relaes com o Magreb; seus reis, convertidos ao Isl por volta




11   Al-BAKR, AL-IDRS e IBN SA`D citam as cidades do Takrr, mas at hoje no se empreendeu
     qualquer trabalho de envergadura para localizar os stios de tais centros, enterrados pelo deserto ou
     destrudos por guerras. A traduo do livro de al-Bakr  muito antiga; relendo-a,  possvel, hoje,
     decifrar nomes de lugares e pessoas. As cidades de Sangana, Takrr e Barissa, porm, ainda no foram
     localizadas ao longo do rio Senegal.
138                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.2 Togur Galia. Plano geral do outeiro interceptado pelo rio Bani, visto de oeste. (Clich G.
Jansen, Instituto de Antropobiologia, Universidade do Estado, Utrecht.)




Figura 6.3 Togur Galia. Corte com trs urnas funerrias in situ. Datao: posterior ao Perodo II
(1600 ?). (Clich G. Jansen.)
O Mali e a segunda expanso manden                                     139


                                     Figura 6.4 Togur Doupwil.
                                     Corte C com urna funerria in situ.
                                     A tampa  selada com moldura de
                                     argila. Datao: Perodo I, sculo
                                     XIII-XIV? (Clich G. Jansen.)




                                     Figura 6.5 Togur Doupwil.
                                     Corte C com urna funerria contendo
                                     um esqueleto in situ. Indivduo adulto,
                                     certamente masculino, em posio fIe-
                                     tida. Datao: Perodo I, sculo XIII-
                                     -XIV? (Clich G. Jansen.) (Fonte:
                                     Palaeohistoria n. XX, 1978, Recherches
                                     archologiques dans le delta intrieur
                                     du Niger.)
140                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



      de 1010, haviam atrado para Kkya e Gao letrados e mercadores rabo-berberes12.
      Foi no final do sculo XI que os Songhai subiram o Nger, partindo de Kkya, no
      Dendi, para ocupar a curva do rio, transferindo para Gao a capital, at ento em
      Kkya. Em cerca de 1100, ao final do sculo V da Hgira, os tuaregues Magcharen
      fundaram a cidade de Tombuctu.

        "Vinham a essas regies apascentar seu rebanhos... No incio, era ali que se encon-
        travam os que viajavam por terra e os que vinham pela gua"13.

      Os Songhai no tardaram a ocupar toda a curva do Nger. Sua instalao em Tom-
      buctu fez dessa nova cidade importante ponto de cruzamento das rotas comerciais.
      A progresso dos reis de Gao rumo ao delta interior do Nger parece indicar que
      eles tambm pretendiam desempenhar papel poltico na regio; no entanto sua hora
      ainda no tinha chegado.


      As provncias soninke
    A tomada de Kumbi-Sleh provocou uma srie de guerras e de desloca-
mentos de populao entre os Soninke. Antes mesmo de cair em mos dos
Almorvidas, Kumbi-Sleh j contava numerosos adeptos do Isl entre seus
mercadores; conta-nos al-Bakr que um parente do rei havia se convertido 
nova religio: "A cidade de Aluken [...] obedece a um senhor de nome Canmer,
filho de Beci [o rei]. Dizem que ele  muulmano, porm oculta sua f"14. No
esqueamos que, desde o sculo VIII, Gana mantinha relaes comerciais com
o Magreb. Na corte, havia muulmanos rabo-berberes ocupando altos pos-
tos15; mas, de modo geral, a massa da populao conservava-se fiel  religio
dos ancestrais. Lutas confusas opuseram as provncias umas s outras e, no
interior delas, os cls.
    Wagadu, provncia central, foi palco de sangrentas guerras civis; alguns
grupos Soninke que se haviam mantido fiis aos ritos antigos fugiram para a
provncia de Nema, onde se estabeleceram16; lutas de igual natureza tambm


12    Ver o captulo 3 do volume III. O rei Za-Kosoi converteu-se ao Isl em 1010; ver AL-SA`D', 1964, p.
      5. ALBAKR fala em Kgha, ou Gao, "cujos habitantes so muulmanos [...] As mercadorias que l
      chegam em maior quantidade so o sal, os cauris, o cobre e o eufrbio." In CUOQ, 1975, p. 365.
13    AL-SA`D', 1964, p. 36-7.
14    AL-BAKR, 1965, p. 335.
15    Ver o captulo 3 do volume III.
16    LEVTZION, 1973, p. 46-9; MONTEIL, C., 1929, p. 353.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                      141



dividiram os habitantes de Kaniaga. A propsito dessa ltima provncia, escreve
Mahmd Ka'ti:
     Havia em Kaniaga uma cidade importante e antiga, anteriormente instalada em Zara
     (Diara), e que servia de capital; chamavam-na Sain Demba; era a principal cidade dos
     habitantes do Diafunu, chamados Diafununke. Existia desde o tempo dos Kayamaga
     e arruinou-se quando dos distrbios que se seguiram  derrota destes. Foi aps a
     destruio do Imprio de Kayamaga que se edificou Zara. Parte dos habitantes do
     imprio emigrou para Kussata  a eles se deu o nome de Kussa. Outros seguiram
     para Diara; foram vencidos pelo Kaniaga faren, que tomou seu reino e submeteu os
     rabes que ali viviam, chegando at Fututi, Tichit e Takanaka17.
   O reino de Zara participou das lutas pela hegemonia e enfrentou os Sosoe,
na poca em plena expanso.


     A hegemonia sosoe
   Foi de curta durao e situou-se entre 1180 e 1230. Ao findar o sculo XII, o
povo Sosoe, sob a dinastia dos Kante, entrou em guerra contra os muulmanos.

     Os Sosoe
    Constituem uma frao do grupo Maninka. Segundo a tradio, o stio de
sua capital, Sosoe, estaria na regio de Kulikoro, nas montanhas (a 80 km ao
norte de Bamako)18. Mas at o presente, ao contrrio do que se fez em Gana e
no Mali, no houve pesquisas na regio para tentar identificar suas runas. Os
Sosoe, na verdade, no passavam de um cl Maninka especializado na meta-
lurgia do ferro. Desde meados do sculo XII, esse cl de ferreiros manifestou
a firme vontade de repelir o Isl e impor-se no espao soninke19. De acordo
com a lenda, o cl Soninke dos Jarisso (Diarisso) tornou-se independente de
Gana antes mesmo da queda de Kumbi-Sleh; os Kante tomaram o poder no
Sosoe e no Kaniaga, e fundaram uma dinastia. O rei Sosoe Kemoko, no final
do sculo XII, juntou o Kaniaga e o Sosoe num s reino; seu filho Sumaoro


17   KA`TI, 1964, p. 70-1; sobre os Kussa, ver MEILLASSOUX, DOUCOUR & SIMAGHA, 1967, p. 9.
18   Foi a cidade que deu nome ao povo. Os Sosoe constituam uma frao dos Maninka, estando, a nica
     diferena entre os dois grupos, no fato de que os Maninka e seus reis eram favorveis ao Isl, enquanto
     os Sosoe mostravam-se hostis  nova religio e apegados s tradies ancestrais.
19   LEVTZION, 1973, p. 51.
142                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



(ou Sumanguru) Kante sucedeu-lhe no trono e deu prosseguimento a suas
conquistas.

      Sumaoro Kante
    As tradies orais mandenka (mandingo) relatam as faanhas de guerra de
Sumaoro Kante, cujo reinado se situa entre 1200 e 123520. Segundo essas fontes,
depois de submeter as provncias soninke, Sumaoro Kante atacou o Manden,
cujos reis lhe opuseram obstinada resistncia; Sumaoro teria "quebrado" (saque-
ado) nove vezes o Manden; a cada vez, porm, os Maninka recompuseram suas
foras e revidaram o ataque21. Aps a morte do rei Nare Fa Maghan, seu filho
mais velho, o mansa Dankaran Tuman, entendeu ser mais prudente compor-se
com Sumaoro Kante. Para melhor marcar sua submisso, deu-lhe em casamento
a irm, a princesa Nana Triban; a autoridade do rei de Sosoe estendia-se a todas
as provncias outrora sob o domnio de Gana, com exceo do Manden.
    As tradies orais enfatizam a crueldade de Sumaoro Kante: ele fez reinar o
terror no Manden a tal ponto que "os homens j no se atreviam sequer a conversar,
de medo que o vento levasse suas palavras ao rei". Sumaoro Kante atemorizava os
povos tanto pela fora militar quanto pelo poder mgico; com efeito, era temido
como grande mago ou feiticeiro. Chamavam-no de Rei-Feiticeiro22. A ele se atri-
bui tambm a inveno do balafo e do dan, violo tetracrdio usado pelo griot dos
caadores. Mas  outro aspecto de Sumaoro Kante, inteiramente distinto deste, que
nos revelam as pesquisas realizadas entre os ferreiros kante: ao que parece, ele teria
tentado suprimir o trfico de escravos, exercido pelos Soninke com a conivncia
dos Maninka. O que h de comum porm, em todos os relatos,  que Sumaoro


20    A cronologia do Mali foi estabelecida por Maurice Delafosse com base na durao dos reinados
      registrada por Ibn Khaldn. Trata-se, porm, de cronologia relativa; seu trmino ad quem  dado
      pelo incio do reinado de Maghan III, em 1390, evento referido por Ibn Khaldn, que concluiu sua
      Histria dos berberes logo aps essa data.
21    Sobre a lenda de Sumaoro Kante, ver DELAFOSSE, 1913; MONTEIL, C., 1929; NIANE, 1960;
      PREMIER COLLOQUE INTERNATlONAL DE BAMAKO, 1975; INNES, 1974.
22    Ver PREMIER COLLOQUE... Uma tradio recolhida pelos pesquisadores da Fundao SCOA,
      que a ouviram de Wa Kamissoko, griot de Kirina, afirma que a inteno inicial de Sumaoro Kante era
      unicamente expulsar do pas os mercadores soninke, que alimentavam o trfico de escravos. Os Maninka
      repeliram, porm, os propsitos do rei de Sosoe.
      Constata-se que  possvel ainda recolher boas informaes sobre esse perodo mediante o estudo das
      sociedades secretas, das confrarias de caadores, que conservam as tradies no-oficiais como as dos
      descendentes de griots que serviam os prncipes do Mali.
      Obs.: A palavra francesa griot  usada aqui para referir o menestrel da tradio africana (dieli, em
      bambara), embora no seja muito precisa, sob certos aspectos. Sobre as funes do dieli/griot, ver o
      captulo 8, de autoria de A. Hampat B, no volume I, especialmente p. 202-8.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                      143



Kante foi feroz adversrio do Isl  teria vencido e matado nove reis. Os excessos
do Rei-Feiticeiro levaram os habitantes do Manden a se revoltarem uma vez mais.
Estes tentaram persuadir o mansa Dankaran Tuman a comand-los; contudo,
temendo as represlias de Sumaoro Kante, o rei do Manden fugiu para o sul e l
fundou, em plena floresta, Kissidugu, a "cidade da salvao". No vazio de poder que
resultou da desero do mansa, os insurretos recorreram a Sundiata Keita, segundo
filho de Nare Fa Maghan, que ento vivia exilado em Nema23. Antes, porm, de
tratarmos das guerras e conquistas do jovem prncipe, convm apresentarmos em
linhas gerais um quadro do Manden, ncleo do futuro Imprio do Mali24.


     O Manden antes de Sundiata
     Fontes escritas
   Al-Bakr, no sculo XI, foi o primeiro viajante a mencionar o Mali  que
chama de Malel  e o reino de Do.
     Os negros Adjemm, denominados Nungharmata [Wangara], so negociantes e
     transportam ouro em p de Iresni para outros pases. Defronte dessa cidade, do outro
     lado do rio [Senegal], existe um grande reino cuja travessia exige oito jornadas e
     cujo soberano porta o ttulo de du [do]. Seu povo vai  guerra armado com flechas.
     Para alm das fronteiras desse pas, h outro, chamado Malel, cujo rei tem o ttulo
     de al-Muslimani25.
    Um sculo mais tarde, al-Idrs retoma as informaes de al -Bakr,
acrescentando-lhes detalhes interessantes. Conta que, ao sul de Barissa (a Iresni
referida por al-Bakr), encontrava-se o territrio dos Lem-Lem, alvo constante
das incurses dos habitantes do Takrr e de Gana, que buscavam escravos. O
gegrafo rabe refere-se a duas cidades, Malel e Do26, separadas por quatro dias
de marcha.

23   NIANE, 1960.
24   No presente estudo, para evitar-se qualquer confuso, Manden designar o ncleo original dos Maninka
     (Malink). Empregaremos o termo Mandenka (Mandingo) para indicar todos os povos que se aparentam
     linguisticamente aos Soninke e Maninka. Sob diversas denominaes, encontram-se falantes da lngua
     do Manden nas Repblicas da Guin, do Mali, do Senegal, da Guin-Bissau, da Costa do Marfim, do
     Burkina Fasso (ex-Alto Volta), da Libria, de Serra Leoa etc. Essa expanso, a partir do ncleo central,
     ocorreu entre os sculos XII e XIX.
25   AL-BAKR, in CUOQ, 1975, p. 33. Na mesma passagem, o autor descreve as circunstncias em que o
     rei do Manden foi convertido por um hspede muulmano que vivia em sua corte.
26   AL-IDRS, in CUOQ, 1975, p. 132.
144                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    Os dois autores referem duas entidades polticas, o Malel (ou Mand) e Do;
ambos mencionam os comerciantes Wangara.  interessante notar que al-Idrs
conta que os habitantes de Gana e do Takrr organizavam ataques-surpresa s
terras dos pagos no intuito de fazer prisioneiros e vend-los como escravos;
na mesma passagem, al-Idrs assinala que os Lem-Lem marcavam o prprio
rosto (tratava-se de estigmas ou escarificaes): em muitos detalhes, todas essas
descries se aplicam aos povos do alto Nger e do Senegal27.

      Fontes orais
   As fontes orais permitem-nos conhecer, a partir de uma perspectiva interna,
a histria da regio; h duas dcadas elas vm sendo coletadas em toda a zona
da savana. Existem vrios centros, ou "escolas", de tradies orais no territ-
rio mandenka (mandingo). Citemos, entre elas, Keyla, nas proximidades de
Kangaba, mantida pelos griots do cl Diabate; Niagassola; Djelibakoro; Keita;
Fadama etc. (ver fig. 6.6)28. As tradies ensinadas nestas "escolas" dirigidas
pelos "Mestres da Palavra", ou belen-tigui, constituem variantes do corpus da
histria do Mali, que tem como personagem central a figura de Sundiata
Keita. Com diferena de pormenores, os principais traos acerca das origens
do Mali e das faanhas militares do fundador do imprio so os mesmos em
todas as "escolas".
   Estas fontes confirmam que, inicialmente, existiam dois reinos  o de Do e
o de Kiri, ou Manden. O ltimo nome veio a designar, mais tarde, o conjunto
dos territrios maninka. O reino de Do, ou Dodugu, era habitado pelo cl dos
Konde e situava-se ao norte do territrio de Kiri (Manden), habitado pelos
Konate e pelos Keita. O cl dos Kamara tinha como principais cidades Sibi e
Tabon e aos poucos foi conquistando toda a margem direita do rio Nger. Os


27    DELAFOSSE, 1913; MONTEIL, C., 1929, p. 320-35. Malel ou Mali designa o ncleo original do
      qual partiram os Maninka para criar o Imprio do Mali.
28 Situada a 10 km da cidade de Kangaba (na Repblica do Mali), Keyla  a aldeia dos griots que conservam
   as tradies orais da famlia imperial dos Keita.  o cl Diabate de Keyla que organiza, a cada sete
   anos, a cerimnia de restaurao do telhado da Cabana-Museu (ou kamablon) de Kangaba. Durante as
   festividades que marcam essa cerimnia, o chefe do cl Diabate conta a histria de Sundiata Keita e a
   gnese do Imprio do Mali. Kita  outro centro de tradies orais. Massa Makan Diabat, da grande
   famlia dos griots dessa regio, recolheu e transcreveu os relatos do tio, o clebre Kele Monzon (ver
   DIABAT, 1970). Fadama, s margens do rio Niandan, na Guin,  centro de tradies orais dirigido
   pelos griots Konde (ou Cond); outro centro, tambm na Guin,  o de Djelibakoro.  possvel ainda
   recolher tradies orais em Niani, pequena aldeia dos Keita, localizada no stio da antiga capital (na
   Guin). Na Senegmbia, os griots ensinam histria, porm, a par da gesta de Sundiata Keita, atribuem
   grande importncia a seu general Tiramaghan Traore, que conquistou a regio e  considerado o
   fundador do reino de Gabu ou Kaabu (entre o rio Gmbia e o Rio Grande).
O Mali e a segunda expanso manden                   145




figura 6.6   Mapa do antigo Manden. (D. T. Niane.)
146                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



Traore, por sua vez, ocupavam parte de Kiri, mas, na sua maioria, viviam na pro-
vncia que mais tarde teria o nome de Gangaran. O poderoso reino de Dodugu
contava 12 cidades, cujos nomes a tradio no conservou, e a margem direita
do Nger (ou Bako, ou ainda, Mane), quatro29.
    As tradies histricas da regio confirmam, portanto, as informaes escri-
tas quanto  existncia de pelo menos dois reinos, Do e Malel (ou, segundo a
tradio oral, Do e Kiri). A unificao dos dois ser efetuada pelo Malel, e o
nome Do ir desaparecer.
    Al-Bakr informa-nos que o rei do Malel se converteu ao Isl antes da queda
de Kumbi-Sleh, mas  Ibn Khaldn quem nos fornece o nome desse monarca:
Barmandana ou Sarmandana30.  possvel identific-lo com um mansa Beremun
da lista de reis mandenka (mandingo) que Massa Makan Diabat recolheu em
Kita31. Todos os pequenos reinos do alto Nger foram unificados pela ao dos reis
do cl Keita, entre os sculos XI e XII. Segundo Ibn Khaldn, o rei Barmandana
converteu-se ao Isl e foi em peregrinao a Meca; ora, essa expedio s poderia
ter sido realizada se em seu tempo Do e Kiri j constitussem um nico reino, ou
se, pelo menos, o Malel j fosse bastante poderoso.
    Os Keita, fundadores do Mali, acreditam ser descendentes de Dion Bilali (ou
Bilali Bunama ou Bill ben Rabh), companheiro do Profeta Maom e primeiro
almuadem ou muezim (mu'addhin) da comunidade muulmana32. Seu filho
Lawalo ter-se-ia instalado no Manden, fundando a cidade de Kiri ou Ki33.
    O filho de Lawalo, Latal Kalabi, era pai de Damal Kalabi, cujo filho, Lahila-
tul Kalabi, foi o primeiro rei do Manden a fazer a peregrinao a Meca. O neto
de Lahilatul Kalabi, Mamadi Kani, "mestre-caador"34, estendeu a dominao
dos Keita aos reinos do Do, Kiri, Bako e Burem. Na sua maioria, esses reis


29     uma frmula vocal que nos d essa informao: Do ni Kiri, Dodugu tan nifla; Bako dugu nani, isto ,
      "Do e Kiri, pas das doze cidades; Bako, reino das quatro cidades". MONTEIL, C. (1929, p. 320-1)
      acredita terem existido dois reinos, o Mali setentrional e Mali meridional. Este ltimo desenvolveu-se
      sob Sundiata Keita, vindo a tornar-se o Imprio do Mali. O bero dos Keita  a regio montanhosa
      do Manden, em torno das cidades de Dakadiala, Narena e Kiri. Ainda hoje, uma provncia da regio
      de Siguiri (Guin) tem o nome de Kende (Manden). Mali  uma alterao da palavra Manden, que se
      processou entre os Fulbe; Mellit  a variante berbere.
30    Ver IBN KHALDN, in CUOQ, 1975.
31    DIABAT, M., 1970.
32    Ver LEVITZION, 1973, p. 53-61; MONTEIL, C., 1929, p. 345-6. A adoo de ancestrais muulma-
      nos originrios do Oriente era prtica corrente nas cortes sudanesas.  de se notar que os Keita no
      reivindicam um ancestral branco, mas um negro abissnio, Bill ben Rabh.
33    Ki significa trabalho; Kele Monzon exalta o trabalho quando canta a origem de Kiri: "No princpio era
      o trabalho". Ver DIABAT, M., 1970, p. 9.
34    NIANE, 1960, p. 15-6.
O Mali e a segunda expanso manden                                               147



foram grandes caadores; ao que parece, a primeira fora militar do Man-
den era constituda de caadores35. No territrio maninka, at data recente,
os caadores formavam uma associao bastante fechada, que tinha a fama
de possuir muitos segredos do bosque e da floresta; o ttulo de simbon, ou
mestre-caador, era bastante cobiado. Os caadores, relata a tradio, foram
os primeiros defensores das comunidades aldes. Para formar seu exrcito,
Mamadi Kani reuniu os caadores que pertenciam aos cls Kamara, Keita,
Konate e Traore.
    O reinado de Mamadi Kani pode ser datado do comeo do sculo XII.
    Este soberano teve quatro filhos, um dos quais, o simbon Bamari Tagnogokelin, foi
pai de Mbali Nene, cujo bisneto Maghan Kon Fatta (ou Farako Maghan Kegni) foi
pai de Sundiata Keita, o conquistador fundador do Imprio do Mali. Maghan Kon
Fatta reinou no incio do sculo XIII, quando o Sosoe se encontrava em plena expan-
so sob a Dinastia dos Kante. Aps sua morte, o filho mais velho, o mansa Dankaran
Tuman, subiu ao trono, porm Sumaoro Kante, rei de Sosoe, anexou o Manden.
    Assim, segundo a tradio36, dezesseis reis precederam Sundiata Keita no
trono. As listas de reis diferem de "escola" para "escola"; a de Kele Monzon, de
Kita, menciona, como vimos, um certo mansa Beremun, que identificamos como
sendo o Barmandana (ou Baramundana) de Ibn Khaldn. As tradies orais do
Siguiri citam Lahilatul Kalabi como primeiro rei manden a fazer peregrinao
a Meca. Todas as tradies concordam, porm, em afirmar que os primeiros reis
foram "mestres-caadores" ou simbon, e todas enfatizam o fato de o Isl ter sido
introduzido bem cedo no Manden.
    Os caadores desempenharam papel de primeiro plano nas origens do Mali;
a me de Sundiata Keita foi dada em casamento a Maghan Kon Fatta por
caadores do cl Traore37. Os membros dos cls a que pertenciam dominavam
vasto territrio, o Gangaran, a noroeste do Burem, anexado ao Manden pouco
antes do reinado de Farako Maghan Kegni.

     A unio dos cls Maninka (Malink)
   Sob o reinado do mansa Dankaran Tuman, os Maninka (Malink)
sublevaram-se mais uma vez contra a autoridade de Sumaoro Kante; diante



35   Ibid., p. 16.
36   Ibid., p. 14-7.
37   CISS, 1964, p. 175-6.
148                                                                                frica do sculo xii ao sculo xvi



da fuga do rei, apelaram, conforme j dissemos, para seu irmo Sundiata. A
guerra que ops o Manden ao Sosoe situa-se entre 1220 e 1235.


      A personalidade de Sundiata Keita
    bem provvel que, se Ibn Battta e Ibn Khaldn no tivessem mencionado o
conquistador em seus escritos  em 1353 e 1376 respectivamente , os historiadores
europeus considerassem Sundiata Keita ancestral mtico ou lendrio, tamanha  a
importncia dele na histria tradicional do Mali.
      O mais poderoso desses monarcas foi o que submeteu os Susso [Sosoe], ocupou-
      -lhes a cidade e tomou-lhes o poder supremo. Chamava-se Mari Diata; na sua
      lngua, mari quer dizer emir, diata significa leo. Esse rei, cuja genealogia no
      pudemos descobrir, reinou vinte anos, de acordo com o que me foi narrado38.
    Ibn Khaldn consultou as fontes originais; alm disso, foi o nico autor da
poca a citar os Sosoe, que tinham hegemonia no espao soninke-maninka.
    Mas o que mais sabemos de Sundiata Keita? Se os escritos nos dizem pouco, a
tradio oral sobre seus feitos mais notveis39  prolixa. Sundiata Keita teve infncia
difcil; durante muito tempo sofreu de paralisia nas pernas, motivo pelo qual sua
me, Sogolon Konde, era objeto do escrnio das outras esposas do rei. Quando
finalmente conseguiu andar, Sundiata tornou-se chefe de seu grupo etrio; porm,
perseguido por Dankaran Tuman, teve que fugir com a me e o irmo Mande
Bugari (Abubakar)40. Esse exlio (nieni na bori) durou longos anos; como nenhum
chefe maninka se atrevesse a hosped-los, precisaram seguir para Gana: Sundiata
Keita foi bem recebido em Kumbi-Sleh, porm acabou por se estabelecer em
Nema com a me e o irmo. O rei de Nema, o mansa Tunkara ou Nema Farin
Tunkara, admirado com a bravura do jovem Diata confiou-lhe tarefas de grande
responsabilidade. Foi em Nema que os mensageiros do Manden o encontraram; o
rei forneceu-lhe um contingente de soldados, e ele retomou ao pas de origem.


38    IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 344.
39    Depois da publicao de Soundjata ou l'pope mandingue, tornou-se sistemtica a coleta de tradies
      orais. Ver INNES, 1974, que recolheu na Senegmbia trs verses da histria de Sundiata; ver tambm
      CISSOKO, 1966; LY-TALL, 1977 e 1981; PREMIER COLLOQUE INTERNATlONAL DE
      BAMAKO, 1975, e os colquios de 1977 e 1980; e o COLLOQUE da Fundao Senghor sobre as
      tradies orais da regio de Gabu (Kaabu), 1980.
40    NIANE, 1960, p. 56-73. Com poucas diferenas, a epopEia de Sundiata Keita narrada pelas diversas
      "escolas" coincide nos pontos essenciais: a difcil infncia do heri, seu exlio em Nema, o envio de emissrios
       sua procura, o retorno, a aliana com os chefes de cl e seu juramento, a derrota e desaparecimento de
      Sumaoro Kante, proclamao de Sundiata Keita como mansa (rei, imperador).
O Mali e a segunda expanso manden                                              149



    A batalha de Kirina
    O anncio de sua chegada suscitou grande entusiasmo entre os Maninka.
Cada cl havia formado um exrcito, e os principais generais, como Tabon
Wana (Tabon Ghana), pertenciam ao mesmo grupo etrio de Sundiata. Tabon
Wana chefiava uma frao dos Kamara, da mesma forma que o primo Kama-
dian Kamara, de Sibi (localizada entre Siguiri e Kangaba). Faoni Konde, Siara
Kuman Konate e Tiramaghan Traore, chefes militares, assumiram essa causa em
comum acordo: encontraram-se com Sundiata na plancie de Sibi, e ali selaram
a unio de suas foras; Sundiata assumiu a direo das operaes militares.
    Os Kamara das aldeias de Niani, Selefugu e Tigan, na margem direita do rio
Nger, reunidos em torno do mansa Kara Noro, haviam sido os primeiros a se revoltar,
opondo ento viva resistncia a Sumaoro Kante, cuja vitria se devera unicamente 
atuao do sobrinho Fakoli, general-em-chefe de suas tropas. A luta fora rdua, por-
que os soldados do mansa Kara Noro portavam armaduras de ferro; Fakoli conseguiu
derrot-los graas  traio da rainha, que lhe entregou o prprio marido.
    Para celebrar essa vitria, Sumaoro Kante organizou grandes festas em Niani,
capital do mansa Kara Noro; foi ento que rompeu com o sobrinho Fakoli, tam-
bm conhecido como Wana ou Ghana Fakoli. Seduzido pelo talento culinrio
de Keleya Konkon, mulher do sobrinho, Sumaoro tirou-a dele. Ofendido, Fakoli
atravessou o Nger com suas tropas e, num gesto de vingana, juntou-se aos
aliados, reunidos em Sibi. Sumaoro perdia, assim, seu melhor lugar-tenente; no
entanto, passou imediatamente  ofensiva. Aps duas batalhas indefinidas, os
Maninka se encorajaram. O combate decisivo travou-se em Kirina, lugar difcil
de situar pois, segundo as tradies orais, a atual aldeia de Kirina  de fundao
recente. Sabe-se que o exrcito de Sumaoro Kante era bastante numeroso; 
difcil, no entanto, sugerir qualquer cifra. Dentre seus generais estava Diolofing
( Jolofing) Mansa, rei do Diolof ( Jolof ) e chefe dos Tunkara de Kita, tambm
conhecido como grande feiticeiro. A cavalaria de Sumaoro Kante era clebre:
no havia como resistir a suas cargas. Mas as tropas de Sundiata Keita trans-
bordavam de entusiasmo, e o chefe dos aliados exibia muita segurana. Sua
irm Nana Triban, que fora forada a casar-se com Sumaoro Kante, conseguira
fugir de Sosoe e juntar-se a Sundiata; assim, ele detinha o segredo da fora de
Sumaoro Kante. Na frica antiga, a magia era inseparvel de toda e qualquer
ao. Sumaoro Kante era invulnervel ao ferro; seu tana (totem) era uma espora
de galo branco. Mas ele sabia, desde a fuga da mulher e do griot Bala Fasseke
Kuyate, que seu segredo fora violado. Apareceu desanimado no campo de bata-
lha, no tinha a imponncia nem a arrogncia que tanto inflamam os soldados.
150                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



Contudo dominou sua perturbao interior e aceitou a batalha. A debandada
dos Sosoe foi completa; Sundiata Keita perseguiu o adversrio at Kulikoro, mas
no conseguiu aprision-lo. Avanou sobre a cidade de Sosoe e arrasou-a.
   A vitria de Kirina no foi apenas um triunfo militar dos aliados; consolidou
tambm a aliana entre os cls, e, embora essa guerra de fetiches e magia tivesse
garantido a hegemonia da dinastia dos Keita, paradoxalmente foi o preldio da
expanso do Isl, pois Sundiata fez-se protetor dos muulmanos. A delegao
que partiu em sua busca, quando estava exilado, inclua alguns marabus. Esse
defensor inconsciente do Isl no  citado por nenhum autor rabe do sculo
XIII, e a batalha de Kirina tampouco aparece nos anais rabes. Contudo Ibn
Battta relata-nos que Sundiata ou Maridiata converteu-se ao islamismo por
intermdio de um certo Mudrik, cujo neto vivia na corte do mansa Ms41. As
tradies orais, porm, nele s reconhecem o libertador dos Maninka.

      A obra de Sundiata Keita
      As conquistas militares
   Assistido por brilhantes generais, Sundiata dominou quase todos os territ-
rios outrora controlados pelo Imprio de Gana; as tradies orais conservaram,
dos seus chefes militares, os nomes de Tiramaghan Traore e Fakoli Kuruma (ou
Koroma). O primeiro recebeu a incumbncia de invadir o Diolof e combater
Diolofing Mansa, que detivera uma caravana de mercadores encarregada por
Sundiata de comprar cavalos. Depois de vencer o rei do Diolof, Tiramaghan
levou a guerra  Senegmbia, conquistando Casamance e a regio montanhosa
da atual Guin-Bissau, o Gabu (ou Kaabu). Tiramaghan  considerado pelos
Mandenka ocidentais fundador de vrios reinos, dos quais o mais importante foi
o de Gabu42. Quanto a Fakoli Kuruma, submeteu as regies sulinas limtrofes

41    IBN BATTTA, 1966, p. 63.
42    O episdio de Diolofing Mansa  muito importante na epopEia de Sundiata Keita. O rei de Diolof fora
      aliado de Sumaoro Kante e, como este, era hostil ao Isl. Tendo confiscado os cavalos de Sundiata Keita,
      enviou-lhe uma pele, sugerindo que dela fizesse sapatos, j que no era nem caador nem rei digno de
      montar a cavalo. Sundiata teve um acesso de clera e encerrou-se, sem ver ningum, durante vrios dias;
      quando reapareceu, reuniu seus generais e ordenou o ataque ao Diolof. Tiramaghan suplicou-lhe que
      o autorizasse a ir sozinho combater o inimigo, alegando que para essa tarefa no havia necessidade de
      mobilizar todas as tropas. Diante da insistncia do general, que at ameaou matar-se caso seu pedido no
      fosse atendido, Sundiata Keita confiou-lhe um corpo de exrcito, e ele partiu. Tiramaghan Traore venceu
      Diolofing Mansa, conquistou a Senegmbia e o Gabu. Sua gesta  cantada pelos griots do Gabu em longos
      poemas acompanhados pelo som da kora. Vrias aldeias do Gabu afirmam que so depositrias dos restos
      de Tiramaghan Traore. Contudo, segundo certas tradies do Gangaran o vencedor de Diolofing Mansa
      teria retornado ao Mali. (Ver CISSOKO, 1981a e b e LY-TALL, 1981.) Ainda no foram realizadas
      coletas de tradies orais no alto Gmbia e no Senegal oriental; essas regies possuem stios e aldeias de
      grande importncia para o conhecimento da expanso dos Manden em direo a oeste.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                  151



da floresta e conquistou o alto Senegal43. Pessoalmente, Sundiata Keita venceu
os reis de Diaghan (ou Diafunu) e de Kita, ambos aliados de Sumaoro Kante.
Restabeleceu, assim, a unidade do Sudo ocidental. Seu filho e seus generais
daro prosseguimento a suas conquistas anexando Gao e o Takrr.

     A constituio do Mali
    A tradio do Manden atribui ao jovem vencedor de Kirina a codificao
dos costumes e interditos que ainda hoje regem, de um lado, as relaes entre
os cls Mandenka e, de outro, as relaes destes com os demais cls da frica
ocidental. A esse mulo de Alexandre, o Grande, foram imputados feitos que
lhe so bem posteriores. Contudo, em linhas gerais, a constituio e as estruturas
administrativas que se consolidaram no Imprio do Mali foram implantadas por
ele. Sundiata foi homem de muitos nomes: na lngua soninke chamavam-no de
Maghan Sundiata, o que quer dizer "rei Sundiata"; em maninka, foi conhecido
como Maridiata, ou "senhor Diata" (leo); tambm teve os nomes de Nare
Maghan Konate, isto , "rei dos Konate, filho de Nare Maghan", e Simbon Salaba,
"mestre-caador de fronte venervel".
    Diz a tradio oral que em Kurukan Fuga, plancie relativamente prxima de
Kangaba, realizou-se a Grande Assembleia (Gbara), verdadeira assembleia consti-
tuinte que reuniu os aliados aps a vitria, e onde ocorreram os seguintes fatos:
        a)    Sundiata Keita foi solenemente proclamado mansa (em maninka) ou
              maghan (em soninke), isto , imperador, rei dos reis. Cada chefe aliado foi
              confirmado farin de sua provncia; apenas os chefes de Nema e Wagadu
              receberam o ttulo de rei.
        b)    A Assembleia decretou que o imperador deveria ser escolhido na linhagem
              de Sundiata, e que os prncipes escolheriam sua primeira esposa no cl Konde
              (como recordao do feliz matrimnio de Nare Fa Maghan e Sogolon Konde,
              me de Sundiata Keita).
        c)    Decidiu-se que, em conformidade com a tradio antiga, o irmo sucederia
              ao irmo (sucesso fratrilinear).
        d)    Proclamou-se que o mansa seria o juiz supremo, o patriarca, o "pai de todos
              os seus sditos"  da a frmula Nfa mansa, "Senhor, meu pai", usada por
              quem se dirigia a ele.


43   Dele descendem os cls Cissoko, Dumbuya e Kuruma; em Norassoba, aldeia dos Kuruma, na Repblica
     da Guin, estariam os fetiches e vestimentas de guerra que teriam pertencido a Fakoli. Em geral, os
     Manden mantm pequenos museus, reservados a um pblico restrito de iniciados e privilegiados. Dessa
     forma, conservam-se relquias das mais antigas.
152                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



          e)    Os Maninka e aliados agruparam-se em 16 cls de homens livres ou nobres
                (tonta-dion tani woro), os "portadores de aljavas"44.
          f)    Os cinco cls de marabus  entre os quais os Ture e os Berete aliados desde
                o incio, que participaram j da misso que fora buscar Sundiata Keita no
                exlio, foram proclamados os "cinco guardies da f", ou mori kanda lolu.
                Entre esses cls,  preciso incluir os Cisse (Sisse) do Wagadu, islamizados,
                aliados polticos de Sundiata Keita.
          g)    Os homens que praticavam determinados ofcios foram divididos em quatro
                cls (nara nani), entre os quais os griots, os sapateiros e certos cls de ferreiros.
                Os nomes clnicos mandenka foram reconhecidos como correspondentes de
                nomes clnicos de outras etnias do Sudo; estabeleceram-se relaes jocosas
                de parentesco entre as etnias, prtica que perdurou aps a morte de Sundiata,
                e que no raro contribuiu para reduzir tenses entre grupos tnicos45. Para
                recompensar os barqueiros somono e bozo do Nger, Sundiata deu-lhes o ttulo
                de "mestres das guas". Conforme narra a tradio, o imperador "dividiu o mundo",
                isto , fixou os direitos e deveres de cada cl.
          h)    Medida especial aplicou-se aos Sosoe: foram divididos entre os cls de of-
                cio ou castas, e seu territrio foi declarado domnio imperial. Muitos deles
                emigraram para oeste.
   O valor e o alcance dessa constituio foram notveis. Antes de mais nada, ela
reproduzia a estrutura social do Imprio de Gana, que reconhecia o carter parti-
cular de cada regio. Alm disso, Sundiata codificou o sistema dos cls de ofcio,
tornando-se, as profisses, hereditrias. Nos tempos de Gana, ao que parece, cada
um praticava o ofcio de sua escolha; doravante o filho deveria seguir o do pai,
principalmente se pertencesse a um dos quatro cls ou castas de ofcio.

      O governo de Sundiata
  Sundiata instalou-se no governo com os companheiros. Alm de militares e
homens de guerra, cercou-se de letrados negros pertencentes aos cls de marabus

44    O arco e a aljava eram a insgnia dos homens livres. Somente eles tinham o direito de andar armados. Os
      portugueses observaram, no sculo XV, que os nobres maninka passeavam nas cidades com suas aljavas
      carregadas de flechas, das quais nunca se separavam, pois era este o sinal que os distinguia.
45    Por exemplo, entre os Wolof, um homem do cl Konde  considerado irmo pelos membros do cl
      Ndiaye; da mesma forma, um Traore  tratado como irmo pelos Diop ( Jop) etc. Um Traore que se
      instale em territrio wolof pode tomar o nome clnico Diop; inversamente, um Diop torna-se Traore
      se for morar entre os Mandenka. Esse parentesco fictcio, essa fraternidade entre cls, desempenhou e
      continua a desempenhar papel importante no Sudo ocidental. Desde o tempo de Sundiata, novos elos
      se estabeleceram entre os Mandenka e os povos dos territrios em que eles se instalaram (regio florestal
      da Guin, da Libria e da Costa do Marfim).
O Mali e a segunda expanso manden                                                                          153



j referidos, cujos membros eram "primos jocosos" dos integrantes do cl dos
Keita.  provvel que durante seu reinado alguns mercadores rabes tenham
frequentado a corte. Como j vimos, segundo Ibn Battta, um descendente de
certo Mudrik, que converteu Maridiata ao islamismo, vivia na corte do mansa
Solimo. A tradio, contudo, s v Sundiata como libertador do Manden e
protetor dos oprimidos, e no como propagador do Isl.
    Havia dois tipos de provncia: aquelas que se tinham unido, desde o incio,
aos aliados, cujos reis conservaram os ttulos  caso de Gana (Kumbi-Sleh) e
de Nema46 , e as provncias conquistadas. Nessas ltimas, ao lado do chefe tra-
dicional, um governador ou farin representava o mansa. Sundiata Keita respeitou
as instituies tradicionais das provncias que conquistou; o carter flexvel de
sua administrao fazia com que o imprio se assemelhasse mais a uma federa-
o de reinos ou provncias do que a uma organizao unitria. Por outro lado,
a existncia de guarnies mandenka nas principais regies garantia a segurana,
ao mesmo tempo que servia como fora de dissuaso.
    Foi provavelmente Sundiata Keita quem dividiu o imprio em duas regies
    militares.
     "O prncipe tinha sob suas ordens dois generais: um para a parte meridional, outro
     para a setentrional; o primeiro chamava-se Sangar Zuma, o segundo Faran Sura.
     Cada um comandava certo nmero de cades e de tropas"47.


     Niani, capital do Mali
    A cidade de Niani, situada s margens do rio Sankarani, encontrava-se em
territrio kamara. Vimos anteriormente que os Keita estavam estabelecidos,
desde tempos remotos, em Dakadiala, Kiri e Narena. Na verdade, foi aps a
vitria de Kirina que Sundiata Keita decidiu instalar a capital no territrio de



46   "Em toda a extenso do reino desse soberano [mansa], ningum tem o ttulo de rei, a no ser o governante
     de Gana, que hoje, porm,  mero lugar-tenente do soberano." AL-`UMAR, 1927, p. 57. Essa passagem
     refuta a afirmao de Maurice Delafosse, de que Mari Diata teria destrudo Gana em 1240. A tradio 
     formal a esse respeito: os reis do Wagadu, os de Sisse e os de Nema estiveram entre os primeiros aliados
     de Sundiata Keita, o que explica o privilgio concedido a eles.
47   AL-SA`D', 1964, p. 20. H certamente um erro nessa leitura. Na lngua manden, dir-se-ia sankaran soma
     para chefe do Sankaran, provncia meridional que compreendia a bacia do alto Nger e seus afluentes;
     ao invs de faran sura, proponho que se leia sura farin, isto , "chefe dos territrios setentrionais". Sura
     designa os territrios do Sahel, ocupados pelos mouros e pelos tuaregues, que na lngua maninka eram
     chamados "gente de Sura", ou Suraka.
154                                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



Mani48, ento rica em ouro e ferro. O historiador pode perguntar-se por que
Sundiata preferiu o Mani  velha aldeia de Dakadiala, que fora residncia real
durante vrias geraes. As razes so mltiplas49:
          a)    O conquistador no se sentia seguro no interior do prprio cl, em Dakadiala;
          b)    A cidade, rodeada de montanhas, era de difcil acesso;
          c)    Niani possua boas defesas naturais. A cidade localizava-se na extensa plancie
                ao longo do Sankarani, cercada de um semicrculo de colinas interligadas
                por passos e dominadas por um pico rochoso, o Niani Kuru. Alm disso, o
                Sankarani  profundo e navegvel o ano todo;
          d)    Mani ou Niani limitava-se com a floresta, de onde vinham ouro, nozes-de-cola
                e azeite-de-dend, e aonde os comerciantes maninka iam vender tecidos de
                algodo e objetos de cobre. At ento no passara de cidade pequena, famosa
                apenas pela resistncia que seu rei opusera a Sumaoro. Situada muito ao sul, a
                nova capital estava longe da zona de turbulncia dos povos nmades do Sahel.
    A cidade desenvolveu-se rapidamente na vasta plancie, tornando-se a capital
poltica e econmica do imprio. Duas grandes pistas partiam de Niani: a rota
do Manden, que apontava para o norte (Manden sila)50, e a rota das caravanas
(Sarakolle sila), orientada para nordeste. Esta ltima seguia pelo passo que separa
o monte Niani do monte Dauleni Kuru (ou montanha da Porta Vermelha).
    Niani atraiu tanto mercadores negros quanto rabo-berberes. Ibn Battta,
que a visitou em 1353, chamou-a de "Malli". Mas Ibn Fadl Allh al-`Umar
foi mais preciso:
      A regio do Mali  aquela em que se encontra a residncia do rei, a cidade de Nyeni,
      e da qual dependem todas as outras regies; estas, alis, tm o nome oficial de Mali,
      porque  a capital das regies desse reino51.




48    Niani situa-se no territrio kamara. O primeiro povoado com esse nome, fundado pelos Kamara de
      Sibi, encontrava-se nas montanhas da margem esquerda, entre Bamako e Kangaba. Ver PREMIER
      COLLOQUE INTERNATIONAL DE BAMAKO, 1975 (comunicao de Y. Ciss).
49    Ver DELAFOSSE, 1912, v. 2, p. 181-2 para a identificao de Niani. Baseando-se nas pesquisas que Vidal e
      Gaillard realizaram no stio de Niani, e efetuando minuciosa anlise do itinerrio percorrido por Ibn Battta,
      Maurice Delafosse concluiu (corretamente) que a capital dos mansa situava-se mesmo em Niani.
50    Os Maninka designam habitualmente os Soninke pelos nomes de Marka ou Sarakolle; na sua prpria
      lngua, por sinal, usam os termos Soninke ou Sununke para se referirem aos Maninka que conservam a
      religio tradicional. Na Senegmbia, Soninke  sinnimo do Mandenka fiel  religio tradicional; nesse
      pas, pouco se utiliza a palavra Sarakolle. Manden sila quer dizer estrada do Mande; Sarakolle sila, a dos
      Sarakolle. A primeira dirige-se para o norte (onde fica o Manden), a segunda para o leste.
51    Ver AL-`UMAR, trad. francesa, 1927, p. 57.
O Mali e a segunda expanso manden                                                       155



    O problema da localizao da capital do Mali preocupou durante muito tempo
os historiadores; surgiram numerosas hipteses at que Maurice Delafosse con-
seguiu fazer uma leitura correta do manuscrito de al-`Umar . Foi este texto que
permitiu conhecer o nome exato da capital do Mali. Tratava-se mesmo de Nyeni
ou Niani, que Delafosse localizou perto da atual aldeia de Niani,  margem do rio
Sankarani, onde hoje est a fronteira do Mali com a Guin.
    Desde sua identificao, na dcada de 1920, o stio de Niani recebeu a visita
de muitos pesquisadores52. Mas foi s em 1968 que se realizaram trabalhos
arqueolgicos importantes; desde aquele ano, uma misso guinu-polonesa vem
escavando o stio: j foram identificados a Vila Real e o quarteiro rabe, e
exumados os alicerces das casas de pedra assim como as fundaes e o mihrb
de uma mesquita na Vila Real. Tambm se localizou o traado do muro que
circundava esta vila. Vale a pena notar que todas as construes eram de tijolos
de terra batida (ou banco), como j assinalava al-`Umar :
     "As casas dessa cidade so construdas com camadas de argila, como os muros dos
     jardins de Damasco. Eis como so edificadas: constri-se em argila at uma altura
     de dois teros de um cvado e deixa-se secar; em seguida, constri-se por cima, e
     assim sucessivamente, at o trmino da obra. Os tetos so feitos com vigas e canios
     [bambus]; em geral, tm forma de cpula [entenda-se cnica] ou de corcovas de
     camelo, como arcos de abbada. O cho das casas  de terra misturada com areia"53.
   O estilo de construo descrito por al-`Umar manteve-se at a chegada dos
colonizadores, quando foi introduzido o tijolo moldado; mas, como se sabe, so
ainda frequentes em toda a savana mandenka as casas com telhado cnico de
palha e cho de terra batida. A precisa descrio de al-`Umar constituiu impor-
tante orientao para os estudiosos, que a cotejaram com relatos das tradies.
     A cidade de Nyeni  extensa, tanto no comprimento como na largura; mede cerca de
     1 berid (23 km) por 1 berid. No  rodeada por muralhas, e de modo geral as casas so
     isoladas. O rei possui um conjunto de palcios, protegidos por um muro circular54.
    Os arquelogos confirmaram que as moradias eram dispersas;  volta da
Vila Real, havia grande nmero de aldeias ou aglomeraes das castas de ofcio
(ferreiros, pescadores etc.). Hoje as runas se estendem de Niani at Sidikila,
por cerca de 25 km.


52   GAILLARD, J., 1923; VIDAL, J., 1924, p. 251-68; MAUNY, 1961; FILIPOWIAK, 1972 e 1979.
53   AL-`UMAR, 1927, p. 54-6.
54   Ibid., p. 57.
156                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



   Sundiata Keita declarou Niani territrio imperial e ptria comum de todos
os povos55. A cidade tinha uma populao cosmopolita, j que abrigava repre-
sentantes de todas as provncias, bem como de todas as corporaes de ofcio. O
conquistador restaurou a tradio segundo a qual os filhos dos farin e dos reis
vassalos deviam ser educados na corte, como no tempo dos kaya maghan.

      A morte de Sundiata Keita
   Correm vrias lendas sobre a morte do conquistador; tudo o que nos resta
so hipteses, uma vez que no h concordncia entre os detentores da tradi-
o oral. Ademais, no territrio manden  proibido revelar onde se encontram
os tmulos dos grandes reis. No se conhece nem cemitrio nem local de
inumao dos soberanos. Segundo tradio recolhida por Maurice Delafosse,
Sundiata Keita teria sido flechado acidentalmente durante uma cerimnia.
A nosso ver, porm, Sundiata Keita teria morrido afogado nas guas do
Sankarani, em condies que ficaram obscuras, pois sabemos que, 10 km a
montante de Niani, encontra-se o lugar que tem por nome Sundiata-dun
(gua profunda de Sundiata). Essa parte do Sankarani  muito profunda
e agitada por redemoinhos; as pirogas evitam-na. Nessa altura do rio, os
Keita de Niani estabeleceram locais de culto em ambas as margens, onde
os privilegiados descendentes do conquistador renem-se periodicamente
para sacrificar frangos, carneiros, cabras e bois. Vrias aldeias conservam
locais de culto em memria de Sundiata Keita: em Kirina, no Nger, os "tra-
dicionalistas" Mamissoko oferecem-lhe sacrifcios numa floresta sagrada.
Em Tigan, a nordeste de Niani, existe em territrio kamara um enorme monte
de cinzas, conhecido como bundalin, sob o qual se encontrariam calados, uma
faca e um traje de guerra que teriam pertencido a Sundiata Keita. Tambm 
conhecido o culto celebrado a cada sete anos em Kangaba, junto ao santurio cha-
mado Kamablon, que conteria igualmente objetos pertencentes ao conquistador56.
Para terminar, notemos que a msica tradicional mandenka nasceu "no tempo de
Sundiata" (Sundiata tele). A saga do heri  declamada com o acompanhamento
de rias bem definidas; essa epopeia, ou Sundiata fassa, foi composta por Bala
Fasseke Kuyate, griot do conquistador. O canto conhecido como Boloba (a Grande
Msica), composto pelos griots de Sumaoro Kante, foi adotado por Sundiata Keita


55    Tradio recolhida pelo autor deste captulo. Comunicao ao PREMIER COLLOQUE
      INTERNATIONAL DE BAMAKO, 1975.
56    Tradio recolhida pelo autor deste captulo em Niani em 1968.
O Mali e a segunda expanso manden                157
                                     1100
                                     1050    50
                                     1000    00
                                     950    950
                                     900    900
                                            300
                                            250
                                            200
                                            150
                                            100
                                            500
                                            550
                                            500
                                            450




                                                    Mapa das escavaes do stio de Niani. (W. Filipowiak.)
                                            400
                                            350
                                            300
                                            250
                                            200
                                            150
                                            100
                                            50
                                            100




                                                    Figura 6.7
                                            50
                                            100
                                                        158
                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 6.8   Mapa dos stios de Niani. (D. T. Niane.)
O Mali e a segunda expanso manden                                                                   159




Figura 6.9   Niani. Stio 1. Vista geral das fundaes das cabanas na rea habitada (camada II).




Figura 6.10 Niani. Stio 29. Grandes doleritos na encosta do Niani Kuru, onde foram encontrados numerosos
fragmentos de cermica. Teria sido local de culto religioso?
160                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.11   Niani. Stio 1. Conjunto de rodelas de fuso encontradas nas camadas do setor residencial da
Vila Real.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                    161




Figura 6.12   Niani. Stio 6D (Quarteiro rabe). Seleo de tipos de cermica das camadas III-VI; datadas
por C14.
162                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.13   Niani. Stio 6D (Quarteiro rabe). Seleo de cermicas das camadas I-IIb.
O Mali e a segunda expanso manden                                                        163




Figura 6.14   Niani. Stio 1. Seleo de tipos de cermica das camadas datadas por C14.
164                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.15 Niani. Stio 32 (cemitrio). Taa de argila do aterro do tumulus n. 1. (Fonte das figs. 6.7,
6.9-6.15: Filopowiak, 1979.)



como a msica de todo guerreiro mandenka; isto significa que qualquer Maninka
pode solicitar a um griot que o execute, seja para ouvi-lo, seja para dan-lo. A
cano conhecida por Janjon (Glria ao Guerreiro) foi composta em homenagem
a Fakoli Kuruma, por seus feitos no campo de batalha; o Tiramaghan Fassa57 canta
a bravura e as faanhas de guerra do conquistador das provncias ocidentais do
Imprio do Mali. Duga, velha msica guerreira,  bem anterior a Sundiata, sendo
reservada aos guerreiros que mais se distinguiam no imprio.


      Os sucessores de Sundiata Keita
   Devemos a Ibn Khaldn a lista completa dos mansa do Mali, de meados do
sculo XIII at o final do sculo XIV. Essa relao coincide, em muitos pontos,
com a fornecida pelas tradies histricas do Manden58.
   Em sua notvel Histria dos berberes e nos Prolegmenos, Ibn Khaldn mostrou
toda a importncia poltica e econmica do Mali no mundo muulmano do sculo
XIV. As informaes que coletou foram obtidas junto a mercadores rabes e embai-
xadas malienses no Cairo. Consciente do papel do Mali no mundo muulmano do
sculo XIV, Ibn Khaldn dedicou longas pginas  histria do imprio dos mansa.


57    Trata-se de Tiramaghan Traore.
58    Para a cronologia dos mansa do Mali, ver LEVTZION, 1963.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                 165



    O velho princpio de sucesso colateral (fratrilinear) no foi respeitado aps
a morte de Sundiata Keita. Seu filho mais velho, mansa Yerelenku (ou Walin, ou
Ulin), tomou o poder, reinando de 1250 at cerca de 1270. Soube manter coeso o
exrcito; os generais prosseguiram as conquistas. Foi certamente em seu reinado que
os Maninka dominaram a regio do Takrr e consolidaram as conquistas de Tira-
maghan Traore na Senegmbia; nessas terras os Mandenka implantaram colnias
de povoamento. A peregrinao de mansa Yerelenku a Meca chamou a ateno dos
pases rabes para o Mali. Aps a morte do mansa, o imprio esteve a ponto de se
desagregar, devido a intrigas palacianas. Foi salvo por Sakura, general de Sundiata
Keita59, que retomou as conquistas, submeteu as "tribos" tuaregues, reafirmou a
autoridade do Mali sobre o vale do Nger e tornou-se senhor de Gao. Depois de
restabelecer a ordem, partiu para Meca, mas foi assassinado, quando retomava, por
bandidos do Saara. Conta-se que seu corpo foi levado de volta ao Mali, onde rece-
beu honras reais60. Sucederam-lhe soberanos de pouca expresso. Por volta de 1307,
porm, subiu ao trono um sobrinho de Sundiata Keita, Kanku Ms, Sob o ttulo de
mansa Ms I, reinou de 1307 at cerca de 1332. Sua peregrinao a Meca, em 1325,
foi descrita por diversos autores. Em seu reinado, o Mali atingiu o apogeu. Teve por
sucessor o filho Maghan I, ou Soma Burema Maghan Kegni, que foi deposto por
volta de 1336 pelo mansa Solimo, irmo do mansa Ms I. Embora ele conseguisse
manter toda a grandeza do imprio, a corte viu-se novamente dividida por intrigas
ao trmino de seu reinado61. Vrios "cls" polticos se haviam formado em torno dos
prncipes que descendiam do mansa Ms I e do mansa Solimo; por outro lado, o
"cl" Keita j no ocultava mais suas pretenses  coroa. Fomba (ou Kassa), filho do
mansa Solimo, manteve-se no trono por apenas um ano (1359). Foi destronado por
Mari Diata (ou Sundiata) II, que reinou como verdadeiro dspota.
     Tinha arruinado o imprio [...] exaurido o tesouro real [...] Vendeu a clebre pea
     de ouro que era guardada como um de Seus mais raros tesouros; a massa de metal
     pesava 20 kintr. Esse prncipe dissipador  conclui Ibn Khaldn  vendeu-a a preo
     vil a mercadores egpcios62.
  Vencido pela doena do sono, Mari Diata II viu-se afastado do poder; o filho
mansa Ms II (1374-1387) substituiu-o, porm quem governou de fato foi seu

59   IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 345.
60 DELAFOSSE, 1912, v. 2, p. 185-6.
61   IBN BAITTA, 1966, p. 62-3. O clebre viajante conta como a esposa do mansa Solimo participou
     da conspirao para depor o prprio marido. Essas lutas intestinas seriam a causa da decadncia do
     imprio.
62   IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 348-9.
166                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



general, que dirigiu com seriedade os negcios do Estado, restaurou a ordem sufo-
cando um levante em Tiggida (Takedda), cidade famosa pelo trabalho do cobre.
Intrigas palacianas, fomentadas pelas princesas, conturbaram o final do sculo XIV.
No obstante o fato de os governadores provinciais respeitarem cada vez menos a
autoridade central, o imprio ainda conservaria seu prestgio por muito tempo.

      Genealogia dos mansa do Mali, segundo lbn Khaldn
   (Os nomes fornecidos pela tradio oral figuram entre parnteses.)
   Estas so as datas, estimadas por Maurice Delafosse, de durao dos reinados
de Sundiata a mansa Ms I63:
      Sundiata                            12301255
      mansa Ulin (Yerelenku)              12551270
      Wal                                 12701274
      Khalifa (Xalifa)                    12741275
      Ab Bakr                             12731285
      Sakura                              (12851300)
      Kaw (Ko)                            13001305
      Muhammad                            1305l310




63    Segundo IBN KHALDN, mansa Ms reinou 25 anos; seria necessrio, pois, corrigir esse quadro, de
      modo a datar seu reinado de 1307 a 1332. In CUOQ, 1975, p. 343-6.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                    167



     O triunfo do Isl, sob o reinado de mansa Ms
     Mansa Ms I (13071332)
    Foi o mais conhecido dos imperadores do Mali, e essa reputao se deveu
 sua peregrinao a Meca em 1325 e, sobretudo,  temporada no Cairo, onde
distribuiu ouro em tal quantidade que fez baixar a cotao do precioso metal
por muito tempo.
    Essa peregrinao teve consequncias bastante importantes para a subsequente
histria do Sudo ocidental, regio que doravante passaria a ocupar a mente dos
homens; Egito, Magreb, Portugal e as cidades mercantis da Itlia interessavam-se
cada vez mais pelo Mali. O prprio mansa Ms, orgulhoso de seu poder, muito
fez para que o Mali se afigurasse um Eldorado aos olhos dos estrangeiros64.
    Uma vez no trono, tratou de consolidar as aquisies dos predecessores e de
fazer respeitada a autoridade central, contando, para isso, com a ajuda do insigne
general Saran Mandian. Este reafirmou o poder do soberano, no apenas no vale
do Nger at adiante de Gao, como tambm em todo o Sahel, conquistando a
submisso dos nmades saarianos, to inclinados ao saque e  revolta. Desse modo,
criou condies favorveis  viagem do seu senhor a Meca, pois a morte de Sakura
por nmades saarianos no se apagara da lembrana dos soberanos maninka.
    Mansa Ms I preparou a viagem com toda a mincia requerida pela tra-
dio, solicitando a todas as cidades mercantis e provncias uma contribuio
particular. Deixou Niani acompanhado por enorme escolta; as cifras fornecidas
pelos autores rabes podem parecer excessivas, mas fazem entrever o poderio
do soberano maninka: 60 mil carregadores e 500 servidores com vestimentas
recamadas de ouro, cada um com uma bengala tambm de ouro. No incio
do sculo XVI, Mahmd Ka`ti relata, segundo tradio j ento escrita, que o
imperador ainda se encontrava em palcio quando a cabea da caravana chegava
a Tombuctu. Mansa Ms I recebeu no Cairo as honras devidas a um grande
sulto; impunha-se pelo porte e por generosidade digna dos reis das Mil e uma
noites.  um dos raros soberanos de quem nos chegou uma descrio fsica.
"Era  escreveu al-Makrz  um rapaz de tez morena, fisionomia agradvel e de belo
estilo, instrudo no rito maliquita. Exibia-se magnificamente vestido e montado, entre


64   Mansa Ms partiu com numeroso squito: levou consigo "80 volumes de ouro em p, cada um dos quais
     pesava 3 kintr, isto , cerca de 3,8 kg. Fazia-se acompanhar de 60 mil carregadores e de 500 escravos;
     destes, cada um levava uma bengala de ouro pesando mais de 500 mithkl, ou seja, mais ou menos 3 kg".
     DELAFOSSE, 1913, p. 187. J em 1375, os cartgrafos representavam o Sudo com um retrato de
     mansa Ms segurando uma pepita de ouro.
168                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



seus companheiros; acompanhavam-no mais de 10 mil sditos. Levava presentes que
maravilhavam o olhar, por sua beleza e esplendor"65.

Segundo a tradio oral, comprou terras e casas em Meca e no Cairo para abrigar os
peregrinos sudaneses. O importante, porm,  que mansa Ms estabeleceu slidas
relaes com os pases que percorreu.

Mansa Ms, construtor e mecenas
    Certamente impressionado pela beleza e majestade dos palcios do Cairo,
mansa Ms voltou ao seu pas com um arquiteto, o clebre Ishk al-Tuedjin,
que construiu a grande mesquita de Gao (da qual hoje s restam algumas runas
e parte do mihrb. Em Tombuctu, o arquiteto do imperador ergueu a grande
mesquita ou djinguereber, e um palcio real ou madugu. Mas a mais bela obra de
al-Tuedjin foi, sem dvida, a clebre sala de audincias construda em Niani, na
qual empregou todos os recursos de sua arte. O imperador queria uma construo
slida revestida de gesso, al-Tuedjin
      construiu uma sala quadrada encimada por uma cpula [...] e, tendo-a reves-
      tido com gesso e adornado com arabescos em cores vivas, fez dela um admi-
      rvel monumento. Como a arquitetura era desconhecida no pas, o sulto
      ficou encantado, e deu a al-Tuedjin 12 mil mithkl de ouro em p, em sinal de
      reconhecimento66.
    No h dvida de que o arquiteto do imperador teve de empregar o mate-
rial mais comum nessa parte do Sudo, a terra batida. Na latitude de Niani,
monumentos construdos com esse material necessitam de constantes trabalhos
de restaurao; mais ao norte, o baixo ndice pluviomtrico permite melhor
conservao dos edifcios   o caso das mesquitas de Djenn, Tombuctu e
Gao. Na falta de pedra, a terra batida (ou banco)  reforada por uma armao
de madeira: da vem o estilo original das mesquitas sudanesas, guarnecidas com
madeira. Aps as sucessivas destruies de que Niani foi vtima, as construes
perderam seu revestimento de gesso e a obra do poeta-arquiteto, como a maior
parte dos monumentos da capital, transformou-se, sob a ao das chuvas, num
amlgama de argila e pedra.
    No Cairo, o mansa respondeu, prestativo, s perguntas que lhe formularam
os sbios e cortesos que gravitavam  sua volta. Deu-lhes muitas informaes

65    AL-MAKRZ, in CUOQ, 1975, p. 91-2.
66    IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 348.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                  169



sobre o imprio, frequentemente exageradas. Afirmou que possua "direitos
exclusivos sobre o ouro e recolhia-o como tributo". Ibn Amr Adjib, gover-
nador do Cairo e de Karafa, que o sulto mameluco pusera a servio do real
peregrino, conta-nos que as cores do viajante eram o amarelo sobre fundo
vermelho:
     Quando est a cavalo, fazem pairar sobre sua cabea os estandartes reais, enormes
     bandeiras". E a respeito de seu imprio: "os habitantes so inmeros, uma imensa
     multido. Contudo [a populao do imprio], se comparada aos povos negros que
     a rodeiam, que se estendem rumo ao sul, no passa de pequena mancha branca no
     dorso de uma vaca preta.
   Mansa Ms sabia perfeitamente da existncia de povos e reinos ao sul do
Mali. O soberano tambm revelou que possua uma cidade de nome Tiggida
(Takedda, atual Azelik) "onde se encontra uma mina de cobre vermelho"; o
metal era levado em lingotes at Niani.
     "Nada existe em meu Imprio", contou-me o sulto, "que me fornea tantas taxas
     quanto a importao desse cobre bruto: o metal vem dessa mina apenas; de nenhuma
     outra mais. Ns o enviamos ao territrio dos negros pagos, onde o vendemos  razo
     de 1 mithkl por dois teros do seu peso em ouro"67.
  Foi ainda no Cairo que mansa Ms I revelou que seu predecessor morrera
numa expedio martima,
     "pois esse soberano no queria admitir ser impossvel chegar  outra extremidade do
     mar circundante; quis atingi-la e obstinou-se em seu desgnio". Depois do fracasso
     de duzentos navios "repletos de homens, e outros tantos, abarrotados de ouro, gua
     e vveres suficientes para alguns anos ...",
   o prprio imperador assumiu o comando das operaes, equipou 2 mil navios
e partiu  para nunca mais voltar. Qual foi a sorte dessa expedio, e que crdito
podemos dar ao relato de mansa Ms I? Alguns autores, como L. Wiener e
M. D. W. J effreys, j levantaram a questo da descoberta da Amrica pelos
Maninka. Os negros teriam chegado s costas americanas dois sculos antes
de Colombo! O que a anedota nos prova, no entanto,  que os conquistadores




67   AL-`UMAR, 1927, p. 80-81. Esse detalhe  muito interessante, porque documenta a intensa atividade
     comercial entre o Mali e os territrios da floresta, de onde o imprio importava o azeite-de-dend,
     nozes-de-cola e ouro; ver o captulo 25 deste volume.
170                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



manden, ao se estabelecerem no litoral, especialmente na Gmbia, no eram
indiferentes aos problemas da navegao martima68.
    O grande peregrino atraiu  sua corte numerosos homens de letras; ele prprio
era um fino letrado rabe, mas servia-se sempre de intrpretes para falar com os
rabes. Teve cdis, secretrios e genunos diwn, mas s por ostentao.
    Depois dessa clebre peregrinao, os Marnidas de Fs e as cidades comer-
ciais do Magreb passaram a demonstrar vivo interesse pelo Mali, havendo troca
de presentes e embaixadas entre seus soberanos. Mansa Ms abriu escolas
cornicas; comprara grande nmero de livros nos lugares santos e no Cairo. Foi
provavelmente em seu reinado que Walata ganhou importncia e que se iniciou
em Djenn e Tombuctu o processo de desenvolvimento que as transformaria,
um sculo mais tarde, em centros urbanos de renome mundial.
    Como construtor, mansa Ms I deixou obra duradoura: sua marca ficou nos
monumentos de terra batida, guarnecidos com madeira, ainda hoje encontrados
em todas as cidades sudanesas. As mesquitas de Djenn e Tombuctu so o pro-
ttipo do que se convencionou chamar de estilo sudans. Enquanto mecenas e
protetor das belas-letras, mansa Ms contribuiu para o aparecimento de uma
literatura negra de expresso rabe, que dar seus mais belos frutos nos sculos
XIV e XVI, nas cidades de Djenn e Tombuctu69.

      Mansa Solimo
      A vida na corte
   Depois do curto reinado de Maghan I, filho de mansa Ms, o trono passou
ao irmo deste, mansa Solimo (13361358), o legtimo herdeiro, segundo a
tradio. Foi durante seu reinado que o clebre viajante Ibn Battta visitou o
Mali, permanecendo na capital por nove meses. Este completou as informaes
coletadas por al-`Umar e deixou-nos um quadro vvido da corte e da adminis-


68    Ivan Sertima, pesquisador afro-americano, prope a hiptese de que os negros teriam sido os primeiros a
      navegar para a Amrica. Em obra publicada em 1976, faz minuciosa anlise das civilizaes do Mxico
      e da Amrica Central, para concluir que nessas culturas existem elementos mandenka. A tese  sedutora,
      mas aguarda confirmao.
69 H raras menes de mansa Ms nas tradies orais. Algumas at o ignoram completamente. Aps
   longas investigaes, concluiu-se que mansa Ms  considerado "infiel  tradio ancestral manden";
   sua peregrinao  bem conhecida de alguns tradicionalistas, j que estes o culpam de haver dilapidado
   o tesouro imperial. Ver o COLLOQUE, de 1980, da Fundao SCOA. Pode-se situar em seu reinado
   o surgimento da sociedade secreta do Komo, criada pelos Bambara (Bamana), que romperam com os
   Maninka (Manden islamizados) e, para se manterem fiis  religio tradicional, renegaram a autoridade
   do mansa. Ver o Recueil de littrature mandingue, 1980, p. 215-27.
O Mali e a segunda expanso manden                                                171



trao do imprio. Um protocolo muito estrito presidia as cerimnias da corte;
Ibn Battta descreve-o nos menores detalhes.

     O mansa e sua corte
    Como o kaya maghan, o mansa  conhecido, antes de mais nada, como justi-
ceiro, o patriarca que recebe as queixas de todos. Nas regies,  representado pelos
governadores, mas, se estes cometem atos injustos, em princpio so destitudos
to logo o mansa seja informado. Os sditos abordam o mansa com humildade;
cobrindo-se de poeira e dizendo-lhe Nfa Mansa, "Senhor, meu pai". Segundo Ibn
Battta, o mansa dava duas audincias: uma, na famosa sala de audincia cons-
truda por Ms I, dentro do palcio; outra, ao ar livre, debaixo de uma rvore,
ficando o trono sustentado por armaes de marfim e ouro. O lugar-tenente geral
do reino (kankoro sigui), os dignitrios, os governadores, o sacerdote e os juriscon-
sultos assentavam-se, e o dieli ou griot, que atuava como porta-voz ou mestre-de-
cerimnias, ficava de p perante a assembleia reunida na sala de audincia.
     Seu turbante  adornado com franjas, que esse povo sabe arrumar com muita beleza.
     De seu colo pende um sabre, numa bainha de ouro; nos ps, traz botas e esporas;
     ningum, a no ser ele, cala botas nos dias de audincia. Empunha duas lanas
     curtas, uma de prata e outra de ouro, ambas com ponta de ferro70.
    A sesso ao ar livre, tambm descrita por Ibn Battta, no era menos solene.
Tal audincia era concedida, ritualmente, todas as sextas-feiras aps a prece do
meio-dia. Nessa ocasio o griot "recitava" a histria, recordando a lista dos reis
e as faanhas destes. A tradio oral ento triunfava. A histria era ensinada
permanentemente, tanto na corte como no seio das famlias. O povo jurava em
nome do rei, prtica que perdurou at o sculo XIX.
    O cerimonial de Niani retomava, mas com maior fausto, o protocolo dos kaya
maghan; a novidade, porm, estava em ser o imperador muulmano. O mansa cele-
brava com toda a solenidade as grandes festas muulmanas; no entanto conservava-
-se fiel a certas prticas pags. Ibn Battta escandalizou-se com algumas prticas
pouco ortodoxas; excetuando-se a presena dos rabes e o fraco verniz muulmano,
o que se passava na corte dos mansa era pouco diferente do que se poderia observar
na corte de reis no muulmanos, como, por exemplo, os Mossi71.



70   IBN BATTTA, 1966.
71   Ver o volume 3, captulos 9 e 10.
172                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



      Os dignitrios
    Segundo al-`Umar; estes se apresentavam esplendidamente trajados e cober-
tos de ouro, ostentando armas magnficas. Os militares distinguiam-se por suas
aljavas; a nobreza de aljava era formada por descendentes dos conquistadores,
enquanto os marabus negros provenientes dos cinco cls guardies da f (mori
kanda lolu) constituam a nobreza de turbante.


      A civilizao mandenka (mandingo)
      Os povos do imprio
   Em seu apogeu, sob os reinados de mansa Ms I e mansa Solimo, o Imprio
do Mali abrangia toda a frica ocidental sudano-saheliana; diversos povos e
etnias faziam parte, assim, de um nico conjunto poltico.

      Nmades e pastores
   Os grandes nmades do Saara, especialmente os Messufa, possuam vasto
domnio de pastoreio, que ia das salinas de Teghazza at a cidade de Walata,
grande centro maliense do comrcio transaariano. Os Messufa eram os principais
agentes do comrcio do sal, e entre eles se recrutavam os guias das caravanas, pois
era preciso conhecer perfeitamente o Saara para viajar do Magreb ao Sudo. A
oeste, perto do Atlntico, os Lamtna Sanhadja e os Godala, berberes que ocu-
pavam a regio correspondente  atual Mauritnia, como os Messufa, tambm
exploravam as minas de sal de Idjil e o comrcio transaariano. De Walata at a
curva do Nger, estendia-se o territrio dos tuaregues. Todos esses povos nmades
do deserto eram controlados por guarnies estacionadas em Walata, Tombuctu,
Gao e Kumbi-Sleh. O vasto domnio saariano estava subordinado ao comando
militar do sura farin.

      Os povos do Sahel
   quela poca, o clima do Sahel era mais moderado, e suas pastagens,
abundantes. Nessa zona se encontravam as cidades setentrionais do Sudo,
como Takrr, Awdaghust, Kumbi-Sleh, Walata e Tombuctu.
   Da foz do Senegal, no Atlntico, at a curva do Nger, viviam os nmades
Fulbe (Fulani), criadores de bovinos. Em tempos mais antigos praticavam a
transumncia em espao bastante restrito. No sculo XIV, contudo, alguns gru-
                                                                 O Mali e a segunda expanso manden
                                                                 173
Figura 6.16   Mapa do Imprio do Mali, em 1325. (D. T. Niane.)
174                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



pos Fulbe haviam se infiltrado bem ao sul e tendiam a sedentarizar-se, espe-
cialmente na regio de Djenn, bem como na margem direita do rio Sankarani,
perto de Niani, e na zona do Takrr72.
    Os agricultores sahelianos  Tukuloor73, Soninke e Songhai , todos eles
islamizados j nos sculos XI e XII, viviam em grandes aldeias. Nessa regio de
plancies as comunicaes eram fceis, o que favorecia a fundao de cidades
novas e a constituio de cultura comum, mesmo entre povos que no falavam
a mesma lngua.

      Os povos da savana
    Os principais grupos eram, de oeste para leste, os Diolof (Wolof ), os Mandenka
(Mandingo) e os Soninke. Os Maninka (Malink) instalaram-se em massa na regio
de Casamance e na Senegmbia, aps as conquistas de Tiramaghan Traore; esses
territrios ocidentais foram, ento, colnias de povoamento. Coloca-se, porm, a
questo de saber se j no haveria grupos Maninka na Senegmbia antes do reinado
de Sundiata. Parece bastante provvel que mercadores e marabus soninke e maninka
frequentassem essas regies muito antes do sculo XIII74. Os Maninka instalaram-se
 volta das comunidades de agricultores da costa  Biafada, Balante, Felup e Bainuk
 que viviam entre a Gmbia e o Rio Grande e se dedicavam  rizicultura.
    Em meados do sculo XV, os navegantes portugueses, chegando  embo-
cadura do rio Gmbia, entraram em contato com o mansa; graas a eles,
sabemos que essas regies ocidentais eram fortemente influenciadas pelos
Mandenka75.
    Tambm sabemos, pelos cronistas de Tombuctu, que o Mali era muito
povoado, especialmente a regio de Djenn, conforme relata o autor do Ta'rkh
Al-Sdn:




72    A ocupao peul ("pullo") da margem direita do Sankarani resultou, dois sculos mais tarde, no
      surgimento da provncia de Wasulu. Os Fulbe (Peul) dessa regio esqueceram seu idioma, passando a
      expressar-se em maninka. Provavelmente a infiltrao peul nas regies de Futa-Djalon, Takrr, Bundu,
      e Macina comeou por volta dos sculos XI e XII, intensificando-se a partir do sculo XV.
73    Tukuloor (ou Toucouleur)  deformao de Takrr; os povos assim conhecidos do a si prprios o
      nome de Hal pulaaren (os que falam pular, isto , peul). Mas todos os seus vizinhos, Diolof ou Seereer,
      chamam-nos de Tukuloor. Ocupam-se principalmente da agricultura e do comrcio e, em menor escala,
      do pastoreio. Os linguistas classificam as lnguas pular (ou peul), diolof e seereer na mesma famlia
      lingustica atlntico-ocidental.
74    Ver CISSOKO, 1981a, e MAN, 1981.
75    Ver os captulos 7 e 12 deste volume; DONELHA, 1977, p. 107-21, e KAK, 1981.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                    175



     O territrio de Djenn  frtil e povoado; conta, todos os dias da semana, com numerosas
     feiras. Afirma-se que abriga 7077 aldeias bastante prximas umas das outras. E o fato
     seguinte bastar para dar ideia dessa proximidade das aglomeraes: se o sulto precisa,
     por exemplo, mandar chamar um morador de aldeia situada na regio do lago Debo, seu
     mensageiro vai at uma das portas dos basties, de onde grita a mensagem; esta  repetida
     de aldeia em aldeia, de modo que a mensagem chega prontamente ao interessado, que
     ento obedece  convocao que assim lhe foi transmitida76.
   Ainda que possa parecer exagero a presena de 7077 aldeias s na regio de
Djenn, convm notarmos, de passagem, a importncia da oralidade como meio
de transmisso.
   Mahmd Ka`ti, por sua vez, afirma que o Mali
     abrange cerca de 400 cidades e sua terra  extremamente rica. Dentre os reinos dos
     soberanos do mundo, somente a Sria  pas mais belo. Os seus habitantes so ricos
     e vivem confortavelmente77.

Essas cifras querem significar, apenas, que o reino era muito populoso; pode-se
admitir que a populao do Mali chegava,  poca, a 4050 milhes de habitantes.
Os vales dos rios Nger e Senegal constituam verdadeiros formigueiros humanos.
No sculo XIV, Niani, a capital, contava pelo menos 100 mil almas78.
   Os imperadores do Mali no parecem ter-se interessado pela margem direita
do Nger, na altura de Tombuctu; o mesmo no aconteceu, porm, com os
soberanos de Gao, que delegaram um governador para Hombori, no sop das
montanhas79, perto do territrio dogon.
   A cultura dogon  das mais estudadas da frica negra, porm segundo perspectiva
etnolgica limitada, que no nos permite situar os Dogon dos primeiros tempos no
seu contexto histrico, em relao s outras populaes do Sudo.
   Deste modo, a originalidade dos trabalhos de R. M. A. Bedaux est em procu-
rarem estabelecer relaes entre os Dogon, os Tellem e outros povos da curva do

76   AL-SA`D', 1964, p. 24-5.
77   KA`TI, 1964, p. 67.
78   No comeo do sculo XVI, quando Niani j deixara de ser a grande metrpole sudanesa, Leo, o Afri-
     cano, avaliava sua populao em 6 mil lares, o que d cerca de 60 mil habitantes, supondo a mdia de
     dez moradores por casa - o que, tratando-se da frica,  o mnimo que se deve considerar.
79   KA`TI, 1964, p. 150, 254-5. Chi `Al morreu quando retomava de uma campanha que empreendera
     perto do pas dos Tombo (ou Habe, ou Dogon), em 1492. Uma tradio recolhida em Niani afirma
     que as conquistas dos Keita se estenderam at o Kado Kuru (montanha dos Dogon). Tais conquistas
     so atribudas a Sere Nandiugu, rei do sculo XVII, o que parece plausvel, uma vez que nessa poca o
     governante de Niani no controlava mais o conjunto do pas maninka: o imprio j se desagregara.
176                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



Nger, numa perspectiva scio-histrica. Os objetos de arte dogon so conhecidos
no mundo inteiro; no entanto, os mais belos no esto no Museu de Bamako, mas
nas colees particulares euro-americanas e nos museus da Europa80.

      Os Dogon
    Pela regio da curva do Nger estendem-se falsias pertencentes ao con-
junto montanhoso de Hombori, das quais a mais conhecida  a de Bandiagara.
Nessa regio montanhosa, viviam os Dogon, sobre os quais os soberanos da
savana tinham pouco controle; todas as tentativas de domin-los fracassaram.
Distribuam-se em pequenas aldeias presas aos flancos da montanha81. Quem
eram os Dogon? Segundo sua prpria tradio oral, eles teriam emigrado do
Manden para as montanhas, instalando-se, por volta dos sculos XIV e XV,
no stio de Sanga82. Os Dogon teriam encontrado outros povos j vivendo nas
montanhas, a quem deram o nome de Tellem ("achamo-los no lugar"). Estes
teriam deixado a regio  sua chegada, para irem se estabelecer no Yatenga.
    Admite-se hoje que os Dogon vieram das regies meridionais (Manden),
porm muitas questes permanecem em aberto, tanto sobre eles quanto sobre os
Tellem. Estudos comparativos de cermicas dogon e maninka de Niani  cer-
micas com ps  permitem supor que houve contato entre essas duas culturas.
    Uma cultura comum ligava os povos do Sahel sudans. O quadro criado
pelo imprio reforou os pontos comuns e atenuou as divergncias, graas ao
sistema de correspondncia de nomes, s relaes de parentesco, e tambm
s relaes jocosas de parentesco, que se estabeleceram entre os Mandenka e
os Fulbe, entre estes e os Diolof, e entre os Mandenka e os povos da costa de
modo geral.

      A organizao poltica e administrativa
   Esse vasto imprio era, em ltima anlise, uma espcie de confederao, na qual
cada provncia conservava ampla autonomia; j vimos que reinos vassalos, como
Gana e Nema, ligavam-se ao poder central por submisso quase simblica.



80    Ver GRIAULE, 1938 e 1966; CISSOKO, 1968; ROUCH, 1953; BEDAUX, 1972 e 1974; DESPLAGNES,
      1907.
81    Os Dogon so chamados de Habe pelos Fulbe, e de Kado pelos Maninka. As tradies mandenka dizem
      que so originrios do Manden, mas esta afirmao deve ser verificada.
82    BEDAUX, 1977, p. 87 e 92.
                                                                                      O Mali e a segunda expanso manden
                                                                                      177
Figura 6.17   Mapa das principais rotas transaarianas no sculo XIV. (D. T. Niane.)
178                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



      O poder central
    O mansa era o chefe do governo e fonte de todo o poder. Cercava-se de altos
funcionrios e dignitrios escolhidos entre os descendentes dos companheiros
de Sundiata Keita.
    No Manden, a aldeia ou dugu constitua a base do edifcio poltico. Normal-
mente, uma aldeia compunha-se de descendentes do mesmo patriarca. Vrias
aldeias, submetidas ao mesmo chefe, formavam uma provncia ou kafu (jamana).
    No princpio, o rei do Manden era um chefe entre outros; foi a unio das
provncias de Do, Kiri e Bako que fez do chefe keita um rei poderoso. Graas s
conquistas de Sundiata Keita e seus sucessores, ele tornou-se mansa (imperador),
tendo autoridade sobre vrios reis. Os descendentes dos generais de Sundiata
Keita constituram a aristocracia militar; junto ao mansa, formaram um conselho
cuja opinio pesava nas decises do soberano. O griot era tambm personagem
importante; Ibn Battta deixou-nos preciosas informaes acerca da funo
deste na corte do mansa Solimo. Sabemos que o cargo era hereditrio  o griot
do mansa era sempre escolhido no cl dos Kuyate, descendentes de Bala Faseke,
griot de Sundiata Keita. Seu primeiro encargo era o de porta-voz do mansa, pois
este deveria falar baixo: o griot repetia, em voz alta, suas palavras. Diariamente,
partiam estafetas a cavalo de Niani; os que vinham das provncias dirigiam-se ao
griot. Este tambm era preceptor dos prncipes, mestre de cerimnias e regente
da orquestra da corte83.
    No sculo XIV, desde o reinado de mansa Ms I, o soberano dispunha de um
corpo de secretrios, que s funcionava quando o mansa enviava mensagens aos
sultes ou recebia os comunicados destes. No entanto, a oralidade mantinha-se
como forma corrente de se transmitir ou de se conservar mensagens.
    O imperador sempre fez questo de exercer o papel de "pai do povo"; assim, ele
distribua a justia pessoalmente84 em sesses solenes. Ele mesmo ouvia as queixas
dos sditos contra os governadores ou farin que o representavam nas provncias.
Tambm julgava litgios entre particulares, com base nas leis existentes.
    Assim, apesar de todas as aparncias de uma corte muulmana, o mansa
manteve-se como o patriarca, o pai a quem todos podiam pedir justia. Nas provn-
cias, a justia era dispensada segundo a lei cornica, por cdis que ele nomeava.



83    IBN BATTTA, 1975, p. 303-5.
84    AL-`UMAR, 1927, p. 57-8; IBN BATTTA, 1975, p. 303-5. Os camponeses caminhavam dezenas
      de quilmetros a p, para se queixarem dos excessos dos governadores; se o mansa julgava que tinham
      razo, demitia o governador. Ibid., p. 309.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                       179



     Os funcionrios
    Excetuando-se o griot, cuja importante funo foi descrita por Ibn Battta,
conhecemos mal os demais agentes do poder central. Segundo o mesmo viajante,
o mansa tinha a secund-lo um lugar-tenente geral, cujas funes no eram
muito claras; parece ter sido o chefe das foras armadas85.
    O santigui (senhor do tesouro) era uma espcie de ministro das Finanas.
Inicialmente, fora incumbido de zelar pelos celeiros reais. Com o aumento das
fontes de renda, passou a ter a guarda dos depsitos de ouro e outras riquezas,
como marfim, cobre e pedras preciosas. Suas funes, nos primeiros tempos,
eram exercidas por um escravo do soberano.
    Sabemos pela tradio oral que todas as castas de ofcios faziam-se representar
por chefes junto ao mansa. Este lhes dava ordens, que eles transmitiam s respectivas
castas; assim, o chefe dos ferreiros, ou o dos barqueiros e pescadores ou o dos sapa-
teiros, era, na verdade, responsvel por uma verdadeira corporao de artesos.

     Governo das provncias
    O imprio era constitudo por provncias e reinos vassalos. Cada uma das
provncias conhecia a autoridade de um governador (ou farin).
    No sculo XIV, quando atingiu o apogeu, o imprio contava doze provn-
cias86. Destas, as mais importantes eram: o Takrr, no baixo e mdio Senegal, na
verdade um reino conquistado pelas armas, que compreendia numerosas cidades
comerciais, sobressaindo Sylla e a prpria cidade de Takrr; Bambuku, conhe-
cida por suas minas de ouro, cuja populao se compunha quase exclusivamente
de Maninka; Dia (Zaga ou Ja), no territrio de Diafunu (Diaghan), no vale do
mdio Nger; Gao ou Songhai, reino anexado pelos sucessores de Mari Diata,
cuja capital, Gao, se achava em plena expanso no sculo XIV (j no fim desse
sculo os Songhai conseguiriam libertar-se da dominao mandenka); Sanagana,


85   Ibid., p. 304. Ver, tambm, o captulo 8 deste volume. Parece plausvel que os Songhai tenham se ins-
     pirado nas estruturas administrativas do Mali. Em Gao, instalaram-se vrios ministrios, cuja origem
     remonta aos tempos do Imprio do Mali. Citemos, entre outros, o ministro das Finanas, ou xalis farma;
     o ministro dos brancos (estrangeiros), korei farma; o kanfari ou balama, que era uma espcie de vice-rei
     ou intendente-geral do imprio; o waney farma dos Songhai, que equivalia ao santigui dos Maninka e
     controlava as propriedades reais; o sao farma, que era o tu tigui dos Mandenka, isto , o encarregado das
     florestas (funo que no Mali cabia inicialmente a um prncipe de sangue, e depois passou ao chefe dos
     ferreiros); e, finalmente, o hari farma songhai, que correspondia ao djitigui, ou senhor das guas, dos
     Maninka (escolhido entre os Somono ou Bozo).
86 AL-`UMAR, 1972. Algumas provncias citadas por AL-`UMAR no puderam ser identificadas, talvez
   por terem seus nomes deformados.
180                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



citada por al-`Umar, territrio de nomadismo dos Sanagana (Sanhadja) e Godala
(trata-se da atual Mauritnia); finalmente, os reinos de Gana e Nema, aliados
de primeira hora de Sundiata Keita. O Manden, onde se encontrava a capital,
dependia diretamente do mansa.
    Cada provncia dividia-se em cantes, que por vezes correspondiam ao territrio
de um cl. O governo provincial reproduzia, em escala menor, o poder central: o farin
rodeava-se de dignitrios e notveis, respeitando usos e costumes dos mesmos. J o
canto compunha-se de comunidades aldes, reunidas sob a autoridade de um chefe
tradicional local (dugutigui).
    Essa flexvel organizao provincial, baseada na incorporao dos chefes
locais, foi responsvel pela grande estabilidade interna do Mali. A segurana
dos bens e das pessoas era garantida por uma poltica eficaz e por um exrcito
que se manteve invencvel durante muito tempo.

      O exrcito
    Dispomos de poucas informaes sobre os efetivos do exrcito. A cifra que
figura habitualmente nos documentos rabes  a de 100 mil homens, o que
apenas serve para indicar sua relativa grandeza. A fora desse exrcito residia
no temperamento guerreiro e no senso de disciplina dos Mandenka, que for-
neciam a maioria dos efetivos. Havia uma guarnio acantonada em cada uma
das principais cidades do imprio, como Walata, Gao, Tombuctu, Niani etc. A
autoridade dos mansa fazia-se sentir at Teghazza; pode-se medir o respeito que
o Mali inspirava aos prncipes magrebinos quando estes, depostos, chegaram a
pedir a mansa Ms I que os ajudasse a recuperar o trono87.
    A aristocracia, ou "nobreza de aljava", dava preferncia s funes militares.
A cavalaria era formada pelos tontigui, ou "portadores de aljavas". Os cavalos
vinham, na maior parte, do Takrr e do Diolof, mas sua criao rapidamente
se desenvolveu no vale do rio Nger. O cavaleiro mandenka portava, alm da
aljava e do arco, longas lanas e sabres88. Desde Sundiata Keita, a cavalaria era
o corpo de elite, e ficava diretamente sob as ordens do mansa. A infantaria era
comandada pela pequena nobreza; conforme a regio de origem, os soldados
vinham armados de lanas ou aljavas. Os do Manden geralmente muniam-se
de flechas e aljavas, enquanto os do Saara protegiam-se com escudos de peles
e lutavam com lanas. Ao que parece, no seu apogeu, o imprio no utilizou


87    IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 347; KAK, 1980, p. 46-51.
88    AL-`UMAR, 1927, p. 57-9; KAK, 1980.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                      181



tropas escravas; essas s apareceram tardiamente no exrcito do Mali. Cada
provncia fornecia um contingente de homens livres; a existncia de guarnies
nas cidades e de numerosas foras nas fronteiras nevrlgicas, tais como as do
Sahel-Saara, resguardou por muito tempo o imprio dos levantes internos e das
incurses dos vizinhos.


     A vida econmica

     A agricultura
    O imprio dos mansa era conhecido, no estrangeiro, por sua riqueza em ouro;
no entanto, a economia repousava essencialmente na agricultura e na criao,
que ocupavam a maior parte da populao. No conhecemos detalhadamente as
atividades rurais; no entanto, as fontes escritas do sculo XIV sempre ressaltam a
abundncia de vveres. O arroz era cultivado nos vales do Nger e do Sankarani,
na Senegmbia e no Gabu (Kaabu). Mais indicado para terrenos secos, o milhete
era a principal cultura do Sahel, que ento recebia chuva dois ou trs meses por
ano. Tambm se plantava feijo e muitos outros legumes. Ibn Battta insistiu na
abundncia de alimentos que conheceu no Mali: a vida no era cara, e o viajante
no precisava fazer provises, pois em cada aldeia encontrava mantimentos em
quantidade.
    Era essa riqueza agrcola que capacitava o mansa a manter um exrcito to
numeroso e a desempenhar o papel de "pai do povo", oferecendo frequentes
banquetes  multido.
    A cada colheita, uma parte, ainda que simblica, deveria ser oferecida ao mansa
ou a seus representantes; a negao da sua autoridade manifestava-se pela recusa
em lhe dar tais primcias. Era velha tradio, no Manden, reservar os primeiros
frutos do inhame ao chefe89 em sinal de respeito, razo pela qual o mansa punia
severamente os ladres de inhame. A cultura do algodo era muito difundida no
imprio no final do sculo XV; os navegantes portugueses90 mencionam a grande
riqueza de Casamance em algodo, que era trocado por ferro.




89   AL-`UMAR, 1927. O inhame  de fcil conservao, podendo servir de alimento durante o inverno.
     Vrios cantos mandenka exaltam a agricultura. Os nobres no desdenhavam cultivar seus campos; depois
     da guerra, a lavoura era a ocupao normal do homem livre. A caa ligava-se estreitamente  agricultura:
     eram estas as duas nicas atividades que um nobre podia exercer sem perder sua posio.
90 Entre eles, FERNANDES, 1951.
182                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.18 Vista da caverna P de Tellem: celeiros de tijolo cru. Data: Fase 3 de Tellem, sculos XIII-XIV.
(Foto G. Jansen.)




Figura 6.19 Taa de Tellem com quatro ps munidos de base, da caverna D. Data: Fase 2 de Tellem, sculos
XI-XII. (Museu Nacional de Bamako.)
                                                                                                                                                     O Mali e a segunda expanso manden
                                                                                                                                                     183
Figura 6.20 Tnica de algodo de Tellem encontrada na caverna C. Data: Fase 2 de Tellem, sculos XI-XII. (Foto G. Jansen.) (Fonte: Bedaux . 1977.)
                                                                                                                                       184
                                                                                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 6.21   Imprio do Mali: conjunto de esttuas (cavaleiros) encontradas na regio de Bamako (provavelmente dos sculos XIV-XV).
O Mali e a segunda expanso manden                                                                185




Figura 6.22 Esttua de cavaleiro encontrada na regio de Bamako. Data estimada por termoluminescncia:
680 anos, com uma variao de  105, antes de 1979 (1194-1404).
186                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      A criao e a pesca
    A criao de animais era a atividade caracterstica dos povos do Sahel, como
os Fulbe. No sculo XIV, porm, a maior parte dos camponeses do vale do rio
Nger tambm praticava a criao de bovinos, ovinos e caprinos. Nessa poca,
alguns grupos Fulbe j se haviam sedentarizado nas regies do Diolof, do Takrr
e do Manden, atrados pelas ricas pastagens do vale.
    A pesca era praticada por grupos tnicos muito especializados: os Somono, no
alto Nger, os Bozo, no seu curso mdio, e os Sorko, entre Tombuctu e Gao, em
territrio songhai. O peixe, defumado ou seco, era embalado em grandes cestos para
ser vendido por todo o imprio, at a orla da floresta, bem no sul. No h muito
tempo, ainda se consumia em Gana, na Costa do Marfim e em Burkina Fasso
(ex-Alto Volta) o peixe de Mopti (cidade que ocupou o lugar de Djenn)91.

      Os artesos
    O artesanato reservava-se s castas. O trabalho com o ferro era limitado aos
ferreiros; com o metal, abundante nos montes Manden, assim como na regio
de Niani, estes fabricavam ferramentas para arar (daba, foice) e armas. O mansa
possua grandes forjas em Niani92.
    Peles e couros, tratados pelos cls de sapateiros, constituam considervel
fonte de recursos, pois eram importados em grande quantidade pelos pases da
frica setentrional.
    O trabalho do ouro era atividade honrada. No Manden, ela cabia a uma
frao de ferreiros conhecidos como siaki, que residiam nos grandes centros
urbanos. No Takrr e no Diolof, os metais preciosos eram trabalhados desde
os tempos dos kaya maghan; os artesos dessas regies so dos mais reputados
da frica ocidental.
    A tecelagem tambm florescia, movimentando grande comrcio de tecidos de
algodo que eram exportados em rolos das provncias para o sul. Os tecidos tingi-
dos com ndigo logo se converteram na especialidade dos Tukuloor e dos Soninke.
No Takrr, uma casta especial, o cl Mabo, dedicava-se  tecelagem e  tintura.
    Os artesos praticavam a endogamia. Sob os mansa, as castas certamente
tinham deveres, mas gozavam, igualmente, de alguns direitos muito precisos:


91    Ver o captulo 8. As somas exigidas dos pescadores e camponeses eram fixadas pelo costume e pagas
      pelas famlias. Tratava-se de quantias fixas, que fazem pensar mais em servido do que em escravido.
92    FILIPOWIAK, 1970.  volta do stio de Niani, vrios pontos de extrao do ferro foram localizados
      pelos arquelogos. O minrio da regio contm bom teor de ferro.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                        187



nem o imperador, nem os nobres, e muito menos os homens livres podiam exigir
deles mais do que era fixado pelo costume.

     O comrcio
     O ouro, o sal, o cobre e as nozes-de-cola desempenharam papel importan-
tssimo na economia do Mali. O imprio possua numerosas minas de ouro, o
que o tornava o maior produtor de metais preciosos do Velho Mundo: explorava
o ouro do Burem  provncia limtrofe do Manden cuja populao se dedicava
unicamente  extrao do metal  do Bambuku, do Galam (no alto Senegal) e
da regio de Niani. Da mesma forma que os antigos kaya maghan, o mansa tinha
direitos exclusivos sobre as pepitas de ouro93. O metal vinha-lhe, igualmente,
das florestas do sul.
    Begho, em territrio bron (na atual Gana), era grande centro de comrcio de
nozes-de-cola, ouro e cobre94. O sal extrado em Teghazza e Idjil era vendido no
varejo pelos Diula (comerciantes), em todas as partes do imprio; as regies cos-
teiras da Senegmbia produziam sal marinho, mas este no chegava at as terras
do interior. Takedda constitua, ento, o maior centro de produo e comercia-
lizao do cobre; fundido em hastes, o metal era exportado para o sul, onde era
mais apreciado que o prprio ouro. Sabemos, hoje, que esse cobre se vendia no
somente entre os Akan, mas tambm na rea cultural Benin-Ife/Igbo-Ikwu95.
O comrcio das nozes-de-cola, importadas pelo Mali dos pases ao sul, colocou
os Soninke e Maninka em contato com vrios povos da floresta, entre os quais
os Akan e os Guro (etnias que hoje vivem na Costa do Marfim e em Gana).
Estes povos da floresta deram queles o nome de Diula ou Wangara, que significa
comerciante96.
    Procurando nozes-de-cola e ouro, os Mandenka estabeleceram postos nas
estradas que levam das margens do Nger at Kong (na atual Costa do Marfim)
e Begho (na atual Gana); tambm difundiram o Isl e a cultura mandenka at
regies distantes, no sul97. Rezam as tradies haussa que o Isl foi introduzido


93   AL-`UMAR, 1927.
94   POSNANSKY, 1974. Seria arriscado especular qual a quantidade de ouro enviada por ano para os
     pases setentrionais. O certo, porm,  que no sculo XIV havia forte demanda desse metal na bacia do
     Mediterrneo, dada a adoo do padro-ouro por cidades mercantis como Marselha, Gnova etc.
95   Ver o captulo 25 deste volume, sobre o comrcio transaariano e o comrcio entre a savana e a floresta.
96 Sobre o comrcio de nozes-de-cola na regio das florestas, ver ZUNON GNOBO, 1977.
97 O avano dos Mandenka para o sul intensificou-se pelo final do sculo XV, quando o Mali perdeu as
   provncias orientais da curva do Nger.
188                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



no Sudo central pelos Wangara no sculo XIV98. Os Diula ou Wangara envia-
vam para a floresta caravanas de burros carregados de sal, tecidos de algodo e
objetos de cobre; tambm utilizavam carregadores. Conta Valentim Fernandes
que alguns Wangara de Djenn chegavam a possuir duzentos escravos para
transportar rumo ao sul o sal que trocavam pelo ouro das florestas99.
   Essa tradio e o tino comercial ainda hoje caracterizam os Mandenka, que
so dos principais comerciantes na frica ocidental.




98    Ver os captulos 11 e 25 deste volume.
99    Ver FERNANDES, 1938, p. 85-6; ver, tambm, o captulo 25 deste volume.
O Mali e a segunda expanso manden                                                                                189




Figura 6.23 Imprio do Mali: estatueta de figura barbada, feita em terracota. Data estimada por termoluminescncia: 860
anos, com uma variao de  180, antes de 1979 (939-1299). (Foto R. Asselberghs.) (Fonte: De Grunne, 1980.)
190                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.24 Imprio do Mali: estatueta em terracota de me com criana. Data estimada por termoluminescncia:
 690 anos antes de 1979 (1184-1394). (Foto R. Asselberghs.) (Fonte: De Grunne, 1980.)
O Mali e a segunda expanso manden                                                                 191




Figura 6.25 Imprio do Mali: serpente em terracota. Data estimada por termoluminescncia: 420 anos, com
uma variao de  65, antes de 1979 (1494-1624). (Foto R. Asselberghs.) (Fonte: De Grunne. 1980.)
192                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 6.26 Imprio do Mali: estatueta em terracota de figura ajoelhada, da regio de Bankoni. Data estimada
por termoluminescncia: 1396-1586. (Foto R. Asselberghs.) (Fonte: De Grunne, 1980.)
O declnio do Imprio do Mali                                                                  193



                                      CAPTULO 7


              O declnio do Imprio do Mali
                                        Madina Ly-Tall




    Introduo
    Aps o sculo XIV, dominado pela figura notvel do mansa Kanku Ms,
o Mali entrou num perodo de declnio gradual1. Os sculos XV e XVI foram
marcados pela mudana progressiva do centro de interesse do imprio para o
oeste. Enquanto o monoplio comercial muulmano permanecia intacto nos
demais pases do sul do Saara (Songhai, Kanem etc.), o comrcio do Mali, at
ento tambm orientado para o mundo rabe, a partir de meados do sculo XV
voltou-se parcialmente para o litoral. Os mercados de Sutuco e de Djamma
Sura (Djagrancura), s margens do rio Gmbia, substituram os de Tombuctu
e de Djenn, agora controlados pelos Songhai. O sensvel enfraquecimento das
relaes com o mundo muulmano explica por que temos to poucas fontes
rabes sobre esse perodo. Ibn Khaldn, principal fonte da cronologia dos mansa
do Mali, informou-nos at o fim do sculo XIV. Foi preciso, porm, esperar
mais de um sculo pelos ltimos testemunhos rabes sobre o Imprio do Mali,
a Descrio da frica, de Leo, o Africano2.


1   Estas ltimas informaes sobre o Mali datam de 1393; Ibn Khaldn terminou a redao do Kitb
    al-`Ibr em 1393-1394, embora a revisasse constantemente at a morte, em 1406.
2   Alguns indcios incitam  prudncia; Leo, o Africano, como era conhecido na Europa, ou al-`Hasan ben
    Muhammad al-Wuzza'n (c. 1494-c. 1552) no parece ter efetivamente visitado todos os pases que cita.
194                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



    A importncia crescente do oeste do imprio pode ser explicada pela presena
portuguesa aps a tomada de Ceuta, em 1415: os rabes no eram mais os nicos a
comerciar com a frica ocidental. As fontes rabes sobre o Mali foram substitudas
pelas europeias, sobretudo pelos relatos de viagem portugueses, principalmente nas
provncias ocidentais da Gmbia e de Casamance. Os relatos de Ca Da Mosto3 e de
Diogo Gomes4, que subiram o rio Gmbia em 1455 e em 1456, respectivamente,
se completam. No incio do sculo XVI, foram apresentados dois testemunhos con-
temporneos: Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1506)5, e as
preciosas informaes de Valentim Fernandes (1506-1507)6.
    Mas a fonte mais importante - em que aparecem os ltimos resqucios de
poder e de renome do Mali, at o ltimo quartel do sculo XVI -  o Tratado
breve dos rios de Guin, de Andr lvares D'Almada, portugus nascido na frica,
na ilha de Santiago do Cabo Verde, que comerciava no litoral da Guin.
    Ao lado dos documentos rabes e europeus, tm-se as tradies orais, que, apesar
de antigas, muitas vezes trazem informaes valiosas. Apesar da parcialidade de seus
autores, o Ta'rkh al-Sdn e o Ta'rkh al-fattsh, crnicas sudanesas da metade do
sculo XVII, so teis para o conhecimento do Mali aps seu desmembramento.
Vm complement-las todas as tradies manden (mandingo) da Repblica Popu-
lar Revolucionria da Guin, da Repblica do Mali e da Repblica de Gmbia. Os
detentores da tradio oral da regio de Siguiri referem-se, frequentemente, a Niani
Mansa Mamudu, que Yves Person identifica ao mansa Muhammad (Mohamed)
IV 7. A oeste, as tradies dos Manden (Mandingo) ocidentais so particularmente
importantes, em virtude do especial papel econmico da provncia da Gmbia no
Imprio Manden dos sculos XV e XVI. No menos importantes so as tradies
do reino manden do Gabu (Kaabu). As tradies fulbe (peul) do Futa-Toro e do
Futa-Djalon muito esclarecem sobre as relaes entre o Imprio Manden e o Estado
fulbe (peul) de Futa-Toro.
    Fontes portuguesas ainda pouco exploradas e pesquisas mais profundas sobre
as tradies permitem abordar o perodo dos sculos XV e XVI do Imprio
Manden sob novo ngulo.



3     CA DA MOSTO, 1895.
4     GOMES, 1959.
5     PEREIRA, 1956.
6     FERNANDES, 1951.
7     O primeiro Muhammad (Mohamed) reinou de 1305 a 1310; o que atacou Djenn em 1599  o quarto
      com esse nome.
O declnio do Imprio do Mali                                                 195



    Aps o sculo XIV, as relaes do Mali com a frica setentrional
intensificaram-se, em consequncia da clebre peregrinao do mansa Kanku
Ms a Meca. Dessa peregrinao resultou intenso desenvolvimento econ-
mico e cultural, responsvel pela expanso da influncia do Mali para alm
de suas fronteiras. No entanto, a introduo macia da cultura islmica per-
turbou os costumes do pas. Enquanto o governo esteve em mos de mansa
enrgicos, como Kanku Ms e Solimo, tudo correu bem. Entretanto, no
reinado de seus sucessores, lderes de menor envergadura, multiplicaram-se
as intrigas na corte. O sculo XIV, durante o qual se assistiu ao apogeu do
imprio, terminou com o enfraquecimento do poder central.
    Enquanto isso, uma nova potncia - o Songhai -, que suplantaria o Mali nas
provncias setentrionais, desenvolveu-se no baixo Nger.


    O Imprio do Mali perde o controle do comrcio
    transaariano
   Os primeiros atentados contra o Imprio Manden foram movidos pelos tua-
regues e por outros berberes, seguidos por Sunn `Al e pelas tropas songhai.

    Os tuaregues e os berberes
    Vrios grupos berberes dependiam do Imprio Manden durante seu apogeu,
no sculo XIV. Alguns, como os Kel Antessar, os Yantara, os Meddusa (Madasa)
e os Lamtna (Lemtuna), estavam em processo de sedentarizao e pagavam
regularmente tributos aos mansa do Mali; outros, entretanto, que eram nmades
do Air e do Adrar dos Iforha, continuavam bastante rebeldes  autoridade central.
A submisso desses grupos s se fez notar em determinados momentos, sob o
reinado de mansa como Kanku Ms e Solimo. Por volta de 1387, com a morte
do mansa Ms II, o Manden passou por uma crise de sucesso; os descendentes
de Sundiata Keita - o ramo mais antigo da famlia real - tentaram reconquistar
o poder, que se encontrava, desde o advento de Kanku Ms, nas mos do ramo
mais jovem, descendente de Mande Bory, irmo caula de Sundiata.
    Em trs anos, dois mansa foram assassinados em consequncia dessas disputas,
que tambm contriburam para o enfraquecimento do poder real e da autoridade
central, principalmente nas regies do Sahel. A partir do sculo XV, os tuaregues,
que aps vrias investidas conseguiram tomar Tombuctu (1433), apossaram-se da
196                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 7.1   Fachada do kamablon de Kangaba. (Foto Madina Ly-Tall.)




Figura 7.2   O kamablon de Kangaba, cabana das cerimnias setenais. (Foto J. Basin.)
O declnio do Imprio do Mali                                                    197




Figura 7.3 Vista de Kamalia, no sudeste de Kangaba, Mali. (Fonte: Park, 1799.)




maioria das cidades do Sahel, entre as quais Walata, Nema (Mema) e, mesmo,
Gao.
   Assim, aps privar o Mali das antigas dependncias setentrionais, esse povo
nmade reforou, com o avano para o sul, sua posio e seu papel no comrcio
transaariano. Entretanto, sua influncia no predominou por muito tempo na
regio: a emergncia do Estado Songhai, com Sunni `Al, foi um srio revs para
os tuaregues, e explica os conflitos posteriores entre esse chefe e a aristocracia
de Tombuctu, formada por sbios e por ulems originrios, em sua maioria, da
cidade berbere de Walata.
   Como consequncia das atividades militares tuaregues e da hegemonia
songhai, a economia do Mali viu-se seriamente ameaada. Todavia, o desen-
volvimento do comrcio atlntico, com a chegada dos portugueses ao litoral,
198                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



deu-lhe novo alento. As provncias ocidentais passaram, ento, a desempenhar
papel importante no comrcio, substituindo as provncias do interior.

      As provncias ocidentais do Mali
    Apesar das tentativas infrutferas de navegao no Atlntico durante o reinado
do mansa Ab Bakr8, predecessor de Kanku Ms, as provncias da Senegmbia e o
oceano tiveram papel apenas marginal na orientao geopoltica e comercial do Mali
antes da descoberta portuguesa. A partir do sculo XV, porm, estabeleceram-se laos
diplomticos entre os soberanos de Portugal e do Mali, num momento em que as
relaes comerciais j eram intensas.

      O comrcio
    As minas de ouro do Burem continuavam sob o domnio dos mansa do Mali;
alm disso, os comerciantes Wangara iam at a regio ashanti  procura desse metal.
De tempos em tempos, caravanas chegavam  costa para trocar ouro por cobre, teci-
dos de algodo pretos e azuis, linho, tecidos da ndia, fibras vermelhas ou vestimentas
ornadas de ouro e de prata9. Frequentemente, os Wangara tinham mais ouro do que
valiam as mercadorias trazidas pelas caravelas e voltavam  sua regio com o restante
do metal. Eram, de fato, hbeis comerciantes, que usavam balanas e pesos e no se
contentavam com estimativas incertas, conseguindo, assim, o mximo de lucro com
seu ouro10.
    Em pouco tempo, os europeus comearam a utilizar as possibilidades de
troca entre as diversas regies. Compravam cavalos no Futa para vend-los na
Gmbia. Esse trfico, que reforou os exrcitos manden, provocou o desenvolvi-
mento de outro comrcio: o de escravos. Diante da crescente demanda de cavalos
por parte dos reis do Diolof (Wolof ) e dos governantes mali da Gmbia, os
portugueses, que levavam cada vez mais negros para Portugal, habituaram-se a
trocar cavalos por escravos (no comeo, um cavalo valia oito escravos, nmero
que em pouco tempo se elevou para quinze). As relaes comerciais alteraram-se
rapidamente, em detrimento dos africanos.
    Nas provncias ocidentais do Imprio do Mali, o comrcio continuou intenso
at o fim do sculo XVI. Em 1594, o portugus Andr lvares D'Almada


8     Ver o captulo 26 deste volume.
9     PEREIRA, 1956, p. 69 e 73; e D'ALMADA, 1842, p. 26, 27, 29 e 43.
10    D'ALMADA, 1842, p. 30.
O declnio do Imprio do Mali                                               199



escreveu: "O centro comercial mais importante da Guin  a Gmbia", apesar de
a Gmbia ainda ser provncia do Mali11. Entretanto, s uma parte especializada
da populao participava do comrcio  os Wangara , j que a grande maioria
era composta por agricultores e pastores.

     A agricultura e a criao
   As provncias ocidentais do Mali, bem regadas pelas chuvas e pelos cursos
de gua, ostentavam durante a estao chuvosa belos arrozais e campos de
algodo, principalmente ao longo das margens do Gmbia12. As chuvas eram
abundantes em todo o curso desse majestoso rio, provendo suas margens de
ricos solos aluviais. As inundaes eram to extensas que, muitas vezes, os
navios que o percorriam deixavam o leito, indo encalhar no meio das rvores13.
As florestas-galerias ao longo das margens abrigavam muita caa; no interior
delas, onde a mata era menos densa, viviam enormes manadas de elefantes,
cujas presas alimentavam o comrcio do marfim. Assim como os Manden
(Mandingo) orientais, os Manden ocidentais eram grandes caadores. A caa
era inseparvel da religio: um caador reputado deveria, necessariamente,
ser grande conhecedor da floresta, e esse conhecimento achava-se associado
 magia. Nessas provncias ocidentais particularmente midas, a criao de
animais estava ligada  agricultura. Os camponeses eram, tambm, criadores
de animais domsticos. Na Gmbia e no Gabu, crescia o nmero de pastores
Fulbe (Peul), que tendiam  sedentarizao em torno dos pastos abundantes.
   Por volta do final do sculo XV, essas comunidades fulbe organizaram-se e
passaram a desempenhar papel poltico, conforme ser visto adiante.
   No se pode negligenciar a importncia da criao na economia da regio,
embora o comrcio de peles s viesse a se desenvolver mais tarde.

     A sociedade e os costumes dos Manden ocidentais
   A famlia estava baseada na descendncia matrilinear. Como entre os
Soninke de Gana, as crianas pertenciam  linhagem da me, o que, no plano
poltico, se traduzia na sucesso matrilinear. Assim, o chefe de toda a Gmbia,
o farin Sangoli, era representado em Niumi, perto da foz do Gmbia, por um


11   Ibid., p. 35.
12   ZURARA, 1960, p. 346, e CA DA MOSTO, 1895, p. 70.
13   D'ALMADA, 1842, p. 33.
200                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



dos sobrinhos. Para os Manden ocidentais, muitos atributos da mansaya
(realeza) estavam ligados ao sangue real, da a escolha de um sobrinho
para evitar qualquer erro14. Al-Bakr d a mesma explicao para a suces-
so matrilinear em Gana. Uma vez designado pelo Conselho dos Ancios,
o novo farin deveria, em regies como Casamance, isolar-se durante um
ano para se purificar, perodo em que o pas seria governado por regentes.
Estes eram, geralmente, generais do farin precedente, sendo que pelo menos
um pertencia  famlia real15. Esse costume era, evidentemente, uma porta
aberta para intrigas polticas.
    As crenas religiosas constituam outra caracterstica dos Manden ocidentais,
profundamente "animistas"16. Nos processos, as acusaes sempre mencionavam
a feitiaria. Praticamente todos os casos de doena eram imputados a essa pr-
tica. O acusado era citado perante o farin, que se valia, como prova, do chamado
"julgamento da gua vermelha": as duas partes eram obrigadas a beber gua
avermelhada pelas razes da Khaya senegalensis; o que vomitasse antes, ganhava
o processo; o perdedor, assim reconhecido como feiticeiro, era jogado s feras
ou posto em cativeiro, juntamente com os familiares17. Para os chefes, tratava-se,
evidentemente, de processo bastante cmodo de obter escravos.
    Era entre os chefes que se encontrava o maior nmero de muulmanos, na
maioria das vezes um islamismo de fachada. Assim, em Casamance, o mansa
muulmano tinha o hbito de solicitar ao im que consultasse os adivinhos,
antes de se engajar numa guerra18. Tambm em Casamance, o chefe muulmano
nunca bebia vinho ou dolo sem derramar algumas gotas no cho, como oferenda
aos mortos. Nos campos, estacas emplastradas com farinha de arroz e de milho,
sangue de bode ou vitela deveriam assegurar boas colheitas. O culto agrrio era
poderoso. Mais para o interior, no rio Casamance e no Rio Grande, o reino
manden do Gabu (Kaabu) permaneceu muito apegado  religio tradicional. No
sculo XV, o rei ainda se encontrava sob a autoridade do poder central de Niani,
mas j havia subordinado a quase totalidade das provncias manden. As tradies
do Gabu designavam o rei pelo termo kaabu mansaba (o grande rei do Kaabu),
mas nos textos portugueses era conhecido pelo nome de farin Cabo19.


14    Ibid., p. 80.
15    Ibid., p. 42.
16    CA DA MOSTO, 1895, p. 70.
17    D'ALMADA, 1842, p. 40.
18    Ibid., p. 39.
19 DONELHA, 1977.
O declnio do Imprio do Mali                                                                          201



   No sculo XVI, entretanto, o Isl progrediu bastante nessas regies20. Em
muitos pontos da costa, circulavam marabus que proibiam a carne de porco
e distribuam amuletos. No entanto, como no sculo XIV, o proselitismo dos
marabus era dirigido sobretudo aos chefes: caso estes abraassem a nova reli-
gio, a converso dos sditos j estaria garantida - ao menos na aparncia. Essa
converso era, porm, to superficial que os chefes no hesitavam, na primeira
oportunidade que surgia, em trocar a f islmica pelo cristianismo21.
   Como se v, a sociedade manden ocidental precisou confrontar-se com novas
realidades, isto , a infiltrao das culturas muulmana e crist. Essas influncias
externas no poderiam deixar de perturbar o equilbrio tradicional; no entanto, o
perigo mais grave era de ordem militar: enquanto os Manden s tinham olhos
para seu comrcio e sua agricultura, desenvolvia-se ao norte a temvel potncia
do Grande Ful22.


     A emergncia dos Fulbe: ameaa s provncias ocidentais
     do Mali
     Os Tenguella: 14901512
    A partir do sculo XIII, os Fulbe, que viviam como nmades no Termes,
comearam a se infiltrar em direo ao sul, primeiramente no Futa-Toro e de
l para as grandes extenses do Bundu, de Macina e dos planaltos ervosos do
Futa-Djalon. A princpio, submeteram-se aos chefes locais, mas acabaram se
impondo s populaes autctones e fundando poderosos Estados (ver fig. 7.4).
Assim, constituiu-se o Estado fulbe de Futa-Toro, sob a liderana de Tenguella,
cujo filho, Koly,  mais conhecido.
    Koly Tenguella foi uma das personagens africanas cuja histria virou lenda. As
tradies do Futa-Toro afirmam que era filho de Sundiata Keita; Tenguella seria
apenas seu pai adotivo. Essa filiao s pode ser encarada como tentativa de apro-
ximar essas duas grandes figuras histricas da "Idade Mdia" da frica ocidental.
Pode-se supor, como muitos o fizeram, que Koly tivesse sangue manden23.


20   Este fato relaciona-se, certamente, com mudanas no plano da religio tradicional: no Futa, as crenas
     dos Hal Pulaar substituram as dos Fulbe Denianke.
21   Ver a espetacular converso do mansa de Niumi em GOMES, 1959, p. 42-44; ver tambm D'ALMADA,
     1842, p. 25.
22 Assim era chamado o chefe dos Fulbe Denianke.
23   BOULGUE, 1968, p. 168.
                                                                                   202
                                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 7.4   Mapa dos Estados do Sudo, no sculo XVI. (Segundo Madina Ly-Tall.)
O declnio do Imprio do Mali                                                                             203



   Liderados por Tenguella e por Koly, os Fulbe Denianke (ou Deniankoobe)
invadiram toda a Senegmbia. O itinerrio percorrido , ainda, objeto de dis-
cusso. Para alguns, partiram do Futa-Toro em direo ao Futa-Djalon24. Para
outros, fizeram o percurso inverso25. Nos dois casos, tiveram que enfrentar os
Manden26.
   As guerras entre os Denianke e os mansa do Mali no esto datadas com
preciso; sabe-se, apenas, que ocorreram entre 1481 e 1514. Os exrcitos fulbe
deixaram vivas lembranas nas tradies do pas. Quase um sculo depois, Andr
lvares D'Almada ouviria falar que o exrcito invasor contava numeroso con-
tingente de cavaleiros. As tradies orais, tanto dos Fulbe quanto dos pases que
atravessaram, do nfase ao grande nmero de guerreiros e de cabeas de gado,
o que mostra que Koly no s conquistou, mas tambm se instalou no Futa,
atrado pela fertilidade da regio.
   A autoridade do Mali, que at ento era exercida principalmente sobre
a rea dos contrafortes do Futa-Djalon, comeou a regredir. Suas linhas de
comunicao com as provncias ocidentais recuaram para o norte, em direo
 Gmbia e a Casamance27. A partir do sculo XV e comeo do sculo XVI,
o corredor que ligava o Mali ocidental ao Mali oriental comeou a se estreitar.
Os comerciantes enviados pelo mansa do Mali para vender ouro no mercado
de Sutuco, na Gmbia, no tinham mais segurana. Eles eram obrigados a
efetuar inmeros desvios, que prolongavam suas viagens por at seis meses28.
   Os exrcitos de Koly e do pai, reforados por homens das colnias fulbe
(principalmente de Macina), investiram sobre o Bundu e, depois, sobre
o Futa-Toro29. Atravessaram o rio Gmbia por um stio que passou a ser
conhecido, em virtude desse episdio, como a "passagem dos Fulbe". Para
se ter ideia do efetivo desses exrcitos, as tradies orais contam que para
fazer um vau de uma lgua de largura no rio, cada soldado s precisou
carregar uma pedra. Depois do Bundu, pai e filho se separaram. Tenguella
foi em direo do reino de Zara (Diara) e Koly empreendeu a conquista
do Futa-Toro.

24    a teoria de Maurice Delafosse, revisada e corrigida, no que concerne s datas, por A. Teixeira da Mota.
25   BOULGUE, 1968 (p. 183), demonstra, ao contrrio, que os Fulbe progrediram do Futa-Djalon ao
     Futa-Toro.
26   Talvez a conexo Ba/Keita entre os cls Fulbe e Manden tenha sido estabelecida em relao  genealogia
     de Koly Tenguella.
27   PERSON, 1970, p. 287.
28   D'ALMAOA, 1842, p. 30 e 31.
29   BOULGUE, 1968, p. 186-9.
204                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



      A conquista do reino de Zara (Diara)
    Vimos que o reino de Zara (Diara ou Sankura) havia cado nas mos dos Songhai,
nos primeiros anos do sculo XVI (1500-1501). O askiya Muhammad correu em
socorro do irmo `Umar Komdigho, que se encontrava em dificuldades no reino
manden de Zara, e l venceu o representante do mansa. O askiya permaneceu por
muito tempo na regio, a fim de "pacific-la" e organiz-la em novas bases30.
    Entretanto, a paz no durou muito. Os exrcitos fulbe, j em movimento, logo
irromperam no reino de Zara. O irmo do askiya desencadeou nova campanha,
mais bem-sucedida do que aquela movida contra os Manden:
    Tenguella foi vencido e morto em 1511-1512, segundo o Ta'rkh al-Sdn31
ou em 1512-1513, segundo o Ta'rkh al-fattsh32.
    Mais uma vez os Songhai demonstraram o quanto valorizavam o reino de
Zara, que lhes permitia controlar as minas de Bambuku. Koly no insistiu,
dirigindo-se, ento, para o Futa-Toro33.

      A conquista do FutaToro e do Diolof (Wolof )
    O Futa ainda guardava resqucios da administrao manden. Os diver-
sos farin, que deveriam ser sditos do rei de Zara, quando este ainda estava
subordinado ao mansa do Mali, acabaram por se emancipar, aproveitando a
anexao do reino pelos Songhai.
Os pequenos chefes locais contra os quais Koly teve que lutar encontravam-se divi-
didos, facilitando-lhe grandemente a tarefa. Koly fixou sua capital em Anyam-Godo
e dali liderou diversos ataques contra o imprio do Diolof, do qual conquistou vrios
territrios. Segundo as tradies recolhidas por A. Raffenel, em 1846, Koly
      logo se tornou o terror de todos os povos vizinhos, principalmente dos Wolof
      (Ouolof ), que derrotou em muitas batalhas. Alm disso, acrescentou, s suas
      conquistas sobre os mouros, as belas terras que aqueles povos ocupavam. A partir
      de ento, tudo o que restou aos Wolof foram as terras do sul, afastadas do rio e
      de seus afluentes34.
A soberania do Futa sobre o Diolof durou at a primeira metade do sculo XVIII.


30    AL-SA`D', 1964, p. 124 e 125.
31    Ibid., p. 127.
32    KA`T, 1964, p. 127.
33    AL-SA`D', 1964, p. 127.
34    RAFFENEL, 1846, p. 317 e 318.
O declnio do Imprio do Mali                                                                205



   Assim, o Mali viu-se privado de suas possesses ocidentais por aquele que
os portugueses denominavam imprecisamente "Grande Ful", isto , o silatigui
do Futa. Mesmo assim, a autoridade do Manden mansa (imperador do Mali)
manteve-se do Gmbia a Casamance at o fim do sculo XVI, segundo o que
se depreende do testemunho de Andr lvares D'Almada. O mansa do Mali
era conhecido e obedecido em regies distantes mais de 1500 quilmetros de
Sutuco. Nas crenas populares, passava por soberano de todos os negros. Os
habitantes da Mina (Elmina) chamavam-no de "grande elefante". Um elefante
que, no entanto, j sentia o peso da idade.


     O fim do Imprio do Mali
   O velho imprio, atacado pelo leste e pelo oeste, precisou enfrentar ainda
outra ameaa, no menos perigosa, apesar de velada: a ingerncia portuguesa na
vida poltica do oeste africano.

     O Mali e os portugueses: mansa Mahmd II e mansa Mahmd III.
    Aps os primeiros contatos particularmente violentos com a frica negra, os
portugueses viram-se obrigados a mudar de poltica, diante da firme resistncia
das populaes costeiras. Assim, empenharam-se, principalmente, em ganhar
a confiana dos soberanos locais35. Os reis de Portugal enviaram numerosas
misses diplomticas a seus homlogos da frica ocidental. Assim, entre 1481
e 1495, D. Joo II de Portugal enviou embaixadas ao rei do Futa, ao koi de
Tombuctu e ao mansa do Mali.
    Duas misses diplomticas foram enviadas ao Mali, mostrando a importncia
que o soberano portugus atribua a esse pas. A primeira partiu pelo Gmbia, a
segunda partiu do forte de Elmina. O mansa que as recebeu, Mahmd, era filho
do mansa Ule (Wule) e neto do mansa Ms36. O Mali j lutava contra os Fulbe
Denianke, mas seu poder ainda era grande. Numa carta ao rei de Portugal, o
mansa Mahmd II afirmava que sua autoridade s era comparvel  de quatro
sultes: o do Imen, o de Bagd, o do Cairo e o do Takrr37. Em 1534, o mansa
Mahmd III recebeu uma misso portuguesa expedida por Joo de Barros,



35   Foi uma verdadeira caada humana; ver LY-TALL, 1977, p. 17.
36   Observe-se a frequncia dos nomes Mahmd, Ule (Wule), Ms; a homonmia era corrente na famlia
     real do Mali.
37   O mansa Mahmd II deve ter cedido  tentao de exagerar seu poder.
206                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



representante do rei de Portugal no forte de Elmina, que tratou com o soberano
manden de vrios negcios relativos ao comrcio no rio Gmbia,
    Os portugueses, porm, j comeavam a se imiscuir nos conflitos internos
dos pases costeiros. Por volta de 1482, Bemoy, regente do trono de Diolof,
beneficiou-se do auxlio militar portugus contra os herdeiros legtimos. Alm
disso, as misses de "amizade" eram, tambm, fontes de informao sobre a
situao interna do velho imprio.
    Outra estratgia dos portugueses era oferecer vantagens comerciais aos
pequenos chefes da costa, levando-os, assim, a se emanciparem da tutela do
Manden mansa. Este foi o caso do reino de Salum.

      O Mali e o reino de Salum
    O reino de Salum foi fundado, provavelmente, por Mbegan Ndur, rei de Sine,
no final do sculo XV, tendo conhecido grande expanso no sculo XVI. Por
volta de 1566, ocupava todo o norte do rio Gmbia e grande parte do Sine. Suas
estruturas administrativas e militares eram muito slidas, o que o tornava uma
das chefarias mais poderosas da provncia da Gmbia38. A eficcia de sua orga-
nizao militar impressionou particularmente o negociante portugus Andr
lvares D' Almada. Dois capites-gerais, os jagaraf (ou jaraf) , dominavam todos
os chefes de aldeia, chamados jagodim.
      Quando o rei quer levantar um exrcito, avisa os dois jagaraf, que transmitem suas
      ordens aos jagodim; cada um rene sua gente, de maneira que em pouco tempo
      forma-se numeroso exrcito que conta grande nmero de cavaleiros, montados em
      cavalos comprados aos Fulbe e aos mouros - conta Andr lvares D'Almada39.
   O reino de Salum emancipou-se da tutela da Gmbia e anexou muitas
pequenas chefarias ao longo do rio. No incio do sculo XVII (1620-1624), o
ingls Richard Jobson no mais ouviria falar do reino da Gmbia na regio. O
lugar dessa importante provncia do Mali estava ocupado por trs reinos: Salum,
Wuli (Uli) e Kantor40.
   O que restara do velho imprio do Mali acabava de perder sua nica janela
para o exterior. Num ltimo esforo, o mansa do Mali tentou retomar uma base
no delta central do Nger, em 1599. Foi seu canto de cisne.

38    D'ALMADA, 1842, p. 26.
39    Ibid., p. 23.
40    BOULGUE, 1968 (p. 238), e DONELHA, 1977, revelaram a existncia do reino do Gabu ou Kaabu
      (Farin Cabo). Aps 1600, esse reino manden cobria, provavelmente, a maior parte da Senegmbia.
O declnio do Imprio do Mali                                                207



     O ltimo esforo do Mali: derrota do mansa Mahmd IV diante de
     Djenn, em 1599
    O mansa Mahmd IV tentou tirar partido da situao problemtica criada
pela ocupao marroquina do delta do Nger. Fortalecido pelo apoio da maioria
dos chefes locais bambara (bamana) e fulbe - O kala chaa de Boka, o kala ou
hamadi amina de Macina e os chefes regionais de Farko e de Oma -, marchou
sobre Djenn. Entretanto, foi trado pelo kala chaa, que, percebendo a ausncia
dos dois capites-gerais do mansa, o zengar zuma e o faran sura, preferiu passar
para o lado dos marroquinos. Caso isso no ocorresse, o mansa do Mali talvez
tivesse sucesso na reconquista de Djenn. Em todo caso, quando chegaram 
cidade, os reforos marroquinos impressionaram-se com o exrcito do imperador
do Mali, "cujas tropas eram to numerosas que se estendiam at o brao de rio
por onde os barcos deveriam passar para alcanar a cidade"41.
    Graas aos conselhos pertinentes do kala chaa, os marroquinos domina-
ram o exrcito manden, aps violenta fuzilaria. Entretanto, mesmo vencido,
o mansa teve direito a honrarias: o kala chaa e o sorya muhammad "foram
encontr-lo em lugar seguro, saudaram-no como sulto e descobriram a cabea
para prestar-lhe homenagem, como era de costume"42. A ltima tentativa do
mansa Mahmd para reassumir o controle da grande metrpole comercial da
frica ocidental fracassara. As provncias ainda subordinadas ao mansa do
Mali emanciparam-se uma a uma. Segundo al-Sa`d, esse esfacelamento deu
origem a cinco pequenos reinos43.
    Os grandes beneficirios da queda do Mali foram os Bambara. Sob a depen-
dncia dos mansa at o incio do sculo XVII, estes j haviam formado ncleos
bastante importantes no reino de Zara e no delta interior do Nger. Tais ncleos
foram reforados durante esse mesmo sculo por grandes migraes - as mais
importantes foram as lideradas pelos irmos Baramangolo e Niangolo -, que
serviram de base para a fundao dos reinos bambara de Segu e de Kaarta. O
Mali, reduzido ao reino do Manden, contava apenas com as regies de Kaabu,
Kita, Dioma e Kyumawanya (Djumawanya)44.




41   AL-SA`D', 1964, p. 279.
42   Ibid., p. 279.
43   Ibid., p. 21.
44   PERSON, 1970, p. 283.
208                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



      Concluso geral
   O Imprio do Mali passou por longo perodo de declnio poltico. Privado de
suas provncias setentrionais pelos tuaregues e, depois, pelo Songhai na primeira
metade do sculo XV, manteve-se a par desse novo Estado at o fim do sculo
XVI, graas ao dinamismo econmico de suas provncias ocidentais. A vitalidade
dos Wangara e dos Jula (Diula) fez dos sculos XV e XVI um perodo de brilho
cultural e comercial. Os europeus que visitaram o Mali ocidental trouxeram a
imagem de um Estado com slidas estruturas polticas, econmicas e sociais.
   No plano administrativo, o mansa do Mali era representado por um farin, do
qual dependiam vrios chefes de aldeia: os niumi mansa, os bati mansa, os casa
mansa etc. Em meados do sculo XV, o farin chamava-se Sangoli e residia a dez
dias de viagem a su-sudeste da aldeia de Batimansa45. Alguns de seus chefes de
aldeia eram escravos ligados  famlia real; a sucesso era, geralmente, matrili-
near. Diogo Gomes relata que Frangazik, chefe de uma aldeia prxima  foz do
Gmbia, era sobrinho do farin Sangoli46. No sculo XVI, entretanto, devido 
converso de certos mansa locais ao Isl, foi introduzida a sucesso patrilinear.
A partir do sculo XVI, o Gabu afirmou-se como reino independente e passou
a dominar o conjunto de pases da Senegmbia47.
   O farin tinha um squito numeroso, que inclua muitos escravos. Para saud-lo,
os escravos deviam despir-se; os homens livres desarmavam-se e ajoelhavam-se,
colando o rosto ao cho. Funcionrios ou farba percorriam as aldeias para receber
impostos, principal fonte de renda dos mansa.
   Banhada pelos rios Casamance e Gmbia, a rea era abundante em produtos
agrcolas. Todas as fontes portuguesas dos sculos XV e XVI falam de belos
campos de algodo, vastos arrozais e belas florestas nos reinos da Gmbia e de
Casamance. Entretanto, a atividade econmica mais importante era o comrcio.
Da foz do Gmbia, o sal era levado ao interior, onde era trocado por ouro. O
comrcio deu origem a importantes cidades-mercados ao longo do rio Gmbia -
Sutuco, Djamma Sura -, frequentadas por negociantes portugueses que l vendiam
cavalos, vinho, tecidos da Bretanha, adornos de vidro, contas, pregos e braceletes.
Os Manden impressionaram os portugueses com sua experincia comercial48. O


45    CA DA MOSTO, 1937, p. 67.
46    GOMES, 1959, p. 34.
47    D'ALMADA, 1842, p. 8, e DONELHA, 1977, p. 119 e 120.
48    D'ALMADA, 1842, p. 29. Serviam-se de balanas para pesar o ouro e manejavam perfeitamente os
      pesos.
O declnio do Imprio do Mali                                                                       209



comrcio de ouro, que trazia lucros considerveis, deu origem a uma casta de ricos
negociantes, os Wangara. Esses precursores dos Jula teriam papel importante na
difuso da cultura manden, principalmente nas regies florestais do sul (Costa do
Marfim, Gana, Guin).
    Nos sculos XV e XVI, a influncia do Isl na frica ocidental continuou
fraca49. Diogo Gomes encontrou, na corte de niumi mansa, um marabu originrio
das provncias orientais do Mali, mas a influncia deste era to insignificante que
o viajante no teve dificuldade em convencer o mansa a se converter ao cristia-
nismo50. O Isl comeou a penetrar mais profundamente no reino da Gmbia
apenas na segunda metade do sculo XVI. Contudo, apesar de serem, com fre-
quncia, muulmanos, os chefes preservavam suas crenas animistas. Bastio da
religio tradicional da Senegmbia, o Gabu barrou a entrada dos muulmanos
fulbe ou soninke at o sculo XIX51.
    Com o declnio do comrcio do ouro, os Manden retiraram-se para o sul,
atrados pelo comrcio das nozes-de-cola52. No final do sculo XVI, ocorreram
numerosas migraes de povos Manden para o sul e para o sudoeste53, onde
fundaram aldeias ao longo das rotas das nozes-de-cola. Samori Tur se apoiar
sobre estes ncleos para construir seu imprio, no sculo XIX.




49   Os habitantes da Gmbia eram animistas, em sua maioria. Ver BARROS, 1937, p. 70.
50   GOMES, 1959, p. 42-4.
51   D'ALMADA, 1842, p. 28. Estudos sobre as tradies orais do Gabu: ver CISSOKO, 1972, e a comunicao
     de M. Sidib, no Congresso Mandingo de Londres, em 1972.
52   Uma regresso no comrcio do ouro acompanhou a intensificao do comrcio de escravos na costa.
53   PERSON, 1970, p. 284.
Os Songhai do sculo XII ao XVI                                                              211



                                     CAPTULO 8


          Os Songhai do sculo XII ao XVI
                                    Skn Mody Cissoko




   Ao fim de longa evoluo de cerca de oito sculos, os Songhai, estabelecidos
nas duas margens do mdio Nger, erigiram um poderoso Estado e unificaram
grande parte do Sudo, permitindo assim o desabrochar de brilhante civilizao,
em gestao durante todo esse tempo. Para maior clareza, consideraremos dois
grandes perodos desta evoluo, tentando distinguir seus principais aspectos,
na medida em que seja possvel discerni-los nos dois Ta'rkh de Tombuctu1, nas
fontes rabes e europeias e nas tradies songhai.


    O reino de Gao do sculo XII ao advento de Sunn `Al
    Ber em 1464
   Conhece-se mal a histria dos Songhai anterior ao reinado de Sunn `AlBer
(1464-1492). As raras fontes rabes sobre o perodo mais suscitam problemas do
que informam. As tradies orais do apenas um quadro imperfeito da realidade
desses tempos antigos. O estudo desse perodo ser, portanto, crtico; levantar
mais questes do que as resolver, e as solues propostas serviro apenas como
hipteses de pesquisa.

1   Ver AL-SA`D', 1964; KA`TI, 1964. Estas duas obras, escritas por sudaneses em meados do sculo
    XVII, constituem as fontes fundamentais da histria dos Songhai e do Sudo ocidental para o perodo
    estudado.
212                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



      O reino de Gao no sculo XII
    Por sua posio geogrfica s margens do Nger, na zona fronteiria entre
o Sudo e o Sahel, Gao tornou-se, no sculo XII, a capital do jovem Estado
songhai, acabando por eclipsar a antiga cidade de Kkya (ou Kgha, conforme
os autores rabes). O comrcio do sal de Tawtek (local no identificado), a
passagem por Tadmekka de mercadorias provenientes da Lbia, do Egito, da
Ifrkiya, as caravanas do Tuat e de lugares mais distantes do Magreb ocidental
transformaram Gao num grande mercado cosmopolita.
    As fontes rabes, no entanto, no so muito precisas quanto ao nome da cidade.
Segundo al-Bakr, que transcreve "Kaw-Kaw" 2, a cidade situava-se no Nger.
Al-Idrs distingue a cidade de Kgha, "bem populosa", cercada de muros3 na
margem norte, a vinte dias de marcha de Kaw-Kaw (Gao-Gao) ao norte. O que
se deve sublinhar  a existncia das duas cidades, Gao e Kkya, no sculo XII.
    O reino que se estendia sobre as duas margens do Nger, de Dendi a Gao, era
dirigido pelos Dia ou Za, provavelmente uma frao dos Songhai miscigenada com
berberes 4. De qualquer modo, no sculo XI o Dia tinha o ttulo songhai de Kanta
ou Kanda. Evento de importncia capital foi a converso do Dia kossoy ao Isl em
1019; o exemplo no parece ter sido seguido pelos Songhai, que por muito tempo
ainda permaneceram fiis s suas crenas e prticas religiosas tradicionais.
    Estelas funerrias encontradas em Gao-San mencionam nomes muulmanos
diferentes daqueles dos Ta'rkh. Por vrias razes, elas parecem ter sido importadas.

      A dominao Manden (Mandingo) e a Dinastia dos Sunn: sculos
      XIII a XV
   Provavelmente entre 1285 e 13005, exrcitos manden (mandingo) conquis-
taram o reino de Gao. Entre 1324 e 1325 aproximadamente, o mansa Kanku
Ms, voltando de peregrinao, construiu uma mesquita em Gao. Sob a direo
dos farin ou governadores, os Manden organizaram a regio da curva do Nger



2     MONTEIL, V., 1968, p. 79.
3     AL-IDRS, 1866, seo 3, p. 12-4.
4     AL-SA`D, 1964, cap. 1, narra a lenda que explica a origem dos Dia (ou Za), cujos ancestrais teriam
      vindo do Imen. DELAFOSSE, 1912, v. 2,  de opinio que os Dia eram "berberes cristianizados" que
      libertaram o reino de Gao da pilhagem dos Sorko. HAMA, 1968, acha que constituam uma frao
      miscigenada e islamizada dos Songhai setentrionais.
5     MONTEIL, V., 1968, esclarece a questo atravs da crtica rigorosa da tese de DELAFOSSE, 1912, v.
      2, que situa a conquista manden entre 1324-1325.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                              213



e encorajaram seu desenvolvimento econmico. Gao tornou-se, ento, grande
centro comercial e uma das cidades mais belas do Sudo6.
    A dominao manden no foi contnua. O Dia de Gao era, na realidade, um
tributrio que aproveitou as dificuldades do Mali para se emancipar. Em todo
caso, parece que o final do sculo XIV marcou o trmino da dominao manden
sobre o Gao. Uma nova dinastia  a dos Sunn  fundada por `Al Kolon no
sculo XIII, tornou-se independente e expulsou os Manden.
    Segundo Boubou Hama7, esta dinastia, cuja origem ainda  objeto de discus-
so, teria vindo de Kkya e expulsado os Manden de Gao. Os Sunni, tambm
conhecidos como Sii ou Chi, eram guerreiros. Os trs ltimos representantes da
linhagem deixaram Gao e levaram a guerra para leste, na direo da rica regio
de Macina e do Imprio do Mali. Sunn Madawu, pai de Sunn `Al, empreendeu
grande ataque contra Niani, capital do Imprio Manden, saqueando-a e tomando
24 tribos de escravos pertencentes ao mansa. Seu sucessor Sunn Solimo Daama,
por sua vez, invadiu e destruiu Nema (Mema), centro da provncia soninke do
Imprio do Mali, arrebatando grande butim. As guerras aumentaram os meios
de ao da monarquia. O rei de Gao tornou-se o verdadeiro senhor da curva
do Nger e com a ascenso de Sunn `Al, em 1464, a dinastia atingiu o apogeu.


    O Imprio Songhai nos sculos XV e XVI
    Sunn `Al Ber ou Sunn `Al, o Grande (14641492)
    Conquista e organizao de um imprio
    Sunn `Al Ber mudou os destinos do reino de Gao. Abandonou a poltica de
pilhagem adotada pelos predecessores, substituindo-a pela conquista territorial8.
Para tal, contou com um exrcito experiente e bem estruturado, chefiado por
homens competentes: uma flotilha no Nger comandada pelo hi koy (minis-
tro do rio e da esquadra), uma infantaria que aumentava continuamente com
a incorporao dos guerreiros vencidos e, sobretudo, uma cavalaria que, por
sua mobilidade, foi a ponta-de-lana de suas conquistas. Durante o reinado,
Sunn `Al Ber percorreu,  frente dos cavaleiros, o Sudo nigeriano em todos
os sentidos, desconcertando seus adversrios pela surpresa e rapidez, e impondo


6    IBN BATTTA, 1966, p. 72.
7    HAMA, 1968, cap, 3-5.
8    A respeito do Imprio Songhai, pode-se consultar tambm PARDO, 1971.
214                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



sua autoridade pela violncia e pelo medo. Seus contemporneos julgavam-no
invencvel, a encarnao mesmo do esprito da guerra. Conhecido como grande
mgico, era considerado um homem extraordinrio, carismtico, tanto que o
povo conferiu-lhe o ttulo de daali9.
    Como os predecessores, Sunn `Al foi atrado pela rica regio ocidental,
pelas cidades nigerianas e pelo delta central do Nger. Conquistou sucessi-
vamente Djenn, parte da regio de Macina, onde abateu grande nmero de
Fulbe (Peul ou Fulani), e, o mais importante, Tombuctu (1468). Atacou os
tuaregues, rechaando-os para o Sahel setentrional; no sul, empreendeu vrias
expedies contra os Dogon, os Mossi e os Bariba. Em 1483, nas cercanias de
Djenn, venceu o rei mossi Nasere I, que voltava de Walata trazendo rico butim.
Desta forma, Sunn `Al acabou com a ameaa dos Mossi no vale do Nger. Em
1492, ano de sua morte acidental, ele dirigia um grande imprio que, centrado
no Nger, estendia-se desde a regio de Dendi at a de Macina. Organizou-o
segundo o modelo manden. Criou novas provncias, confiadas a soberanos que
se intitulavam fari ou farma (manden) e koy ou mondzo (songhai)10. Nomeou
um cdi para Tombuctu e provavelmente para outras cidades muulmanas.
Todos esses agentes do leste estavam diretamente subordinados a Sunn; desta
forma, o Estado patriarcal e consuetudinrio de Gao tornou-se um Estado
centralizado que controlava todas as regies do Nger. Sunn `Al favoreceu
o desenvolvimento econmico do jovem imprio. Se, por um lado, falhou na
escavao de um canal unindo o Nger a Walata, por outro, construiu diques
no vale do rio e incentivou a agricultura.

      Poltica religiosa
   Sunn `Al Ber enfrentou grandes dificuldades junto  aristocracia muulmana,
principalmente em Tombuctu. Dois sculos mais tarde, os ulems desta cidade
descrev-lo-iam  posteridade como um soberano cruel, tirnico e libertino;
hoje j est reabilitado11. Os motivos de sua oposio aos ulems eram tanto
polticos quanto ideolgicos. Tendo sido educado no Faru (Sokoto), terra de sua
me, nunca foi bom muulmano, pois jamais abandonou os cultos tradicionais
songhai. Os ulems criticavam-no constantemente e muitos deles aliaram-se

9     KA`TI, 1964, p. 84, traduziu daali por "muito elevado" e acha que este ttulo devia ser atribudo a Deus.
10 Ver mais adiante, p. 215, em Organizao poltica e administrativa.
11    Os defensores de Sunn `Al  ROUCH, 1953; HAMA, 1968; DIOP, 1960; MAUNY, 1961;
      CISSOKO, 1966 e outros historiadores , corrigiram a injustia de que foi vtima o grande soberano
      e explicaram suas aes pelo contexto histrico em que se encontrava.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                                      215



aos tuaregues de Akil Ak Melawl, contra os quais Sunn lutava. Acima de tudo,
o imperador simbolizava a cultura tradicional songhai diante de foras novas:
o Isl e as cidades.

     A Dinastia dos Askiya (14921592)
     Askiya Muhammad I, o Syllanke12
    A morte de Sunn `Al provocou uma guerra civil. Sunn Baare recusou-se a se
converter ao Isl. Um partido muulmano, dirigido pelo hombori-loi Muhammad
e seu irmo `Umar Komdigho, revoltou-se contra o novo sunn e o derrotou em
Anfao, na regio de Gao. Muhammad Tur ou Sylla apossou-se do poder sobe-
rano com o ttulo de askiya, fundando, assim, uma dinastia muulmana.
    O Askiya Muhammad era de origem soninke, do cl dos Tur ou Sylla13,
provenientes do Takrr. Apesar de iletrado, era muulmano fervoroso, homem
equilibrado e moderado, alm de poltico sagaz. Apoiou-se sobre as novas foras
para expandir e consolidar o imprio fundado por Sunn `Al Ber; sua vitria foi
a do Isl. O incio de seu reinado foi marcado no tanto pelas conquistas, mas
pela peregrinao que empreendeu a Meca.
    Em 1496-1497, por motivos religiosos e polticos, o novo soberano visitou
os lugares santos do Isl. Fez-se acompanhar de um exrcito de 800 cavaleiros
e de numerosos ulems, levando uma soma de cerca de 300 000 dinares para as
despesas. No Cairo, visitou um dos pilares do Isl, o gro-mestre da mesquita
de al-Azhar, al-Suyt, de quem recebeu conselhos sobre a arte de governar.
Adquiriu uma concesso em Meca para abrigar os peregrinos do Sudo e obteve
do xarife de Meca o ttulo de califa do Sudo, as insgnias do novo poder, assim
como o envio a seu imprio de embaixador, o xarife al-Sakl. Voltou ao Sudo
legitimado na f muulmana e com seu poder universalmente consagrado.
    O Askiya Muhammad deu continuidade  obra de Sunn `Al Ber. Auxiliado
pelo irmo `Umar Komdigho, expandiu o imprio em todas as fronteiras.
Dominou as regies de Macina e de Zara (Diara) onde, em 1512, foi morto
Tenguella (Tonguella), sucedido pelo filho Koly Tenguella. Tornou-se senhor
do Saara at as minas de Teghazza, conquistou Agadez e as cidades haussa de
Katsina e Kano. No entanto, as incurses contra os povos do sul  os Bariba,
os Mossi e os Dogon  no foram bem-sucedidas. Graas a suas conquistas,


12   Syllanke: termo soninke que significa "pertencente  famlia dos Sylla".
13   Os dois nomes so dados pelos Ta'rkh. O askiya era provavelmente do cl Sylla; na poca, Tur era um
     ttulo religioso como Cisse. O ttulo Tur foi adotado pelos conquistadores marroquinos.
216                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



consolidou o Imprio Songhai, expandindo-o a seus limites mximos, de Dendi
 Sibiridugu, ao sul de Segu, e de Teghazza  fronteira de Yatenga.
    O askiya organizou o imprio conforme a tradio herdada de Sunn `Al.
Para o cargo de kurmina fari, nomeou o irmo `Umar Komdigho, que construiu uma
capital inteiramente nova, Tendirma. Criou, ainda, outras provncias, substituiu os
funcionrios de Sunn `Al por homens que lhe eram fiis, alm de nomear cdis para
todas as cidades muulmanas. Tambm reorganizou a corte e o conselho imperial,
estabelecendo hierarquias e o protocolo, distribuindo as tarefas palacianas entre seus
vrios servidores e instituindo normas para os ulems e os cdis da corte.
    O Askiya Muhammad foi um soberano esclarecido que se interessou por
todas as atividades do imprio. Alm de ter encorajado o comrcio, que muito
enriqueceu o pas, esforou-se por estabelecer e controlar a utilizao de instru-
mentos de medida, por garantir a pronta aplicao da justia pelos cdis e por
assegurar a ordem nos negcios, criando, para isso, um corpo de inspetores de
mercado. Teria construdo um canal na regio de Kabara-Tombuctu14. Incenti-
vou a agricultura criando numerosas colnias de cultivo, povoadas de escravos
trazidos das guerras e, principalmente, diminuindo os impostos pagos sobre os
produtos agrcolas. Favoreceu, ainda, o desenvolvimento dos estudos, distri-
buindo presentes e penses aos ulems, e, sobretudo, cercando-os de respeito.
No entanto, o soberano sofreu o infortnio de ter muitos filhos e permanecer
por muito tempo no poder. Velho e cego, foi derrubado por uma conspirao
dos filhos, liderados pelo primognito, o fari mondzo (ministro das terras) Ms,
que foi proclamado askiya em 1528.

      Os sucessores do Askiya Muhammad
    Os filhos do Askiya Muhammad sucederam-se no poder at 1583: Ms (1528-
-1531), Muhammad II Benkan Kiriai (1531-1537), Ism`l (1537-1539), Ishk I
(1539-1549), Dwd (1549-1583). Em seguida, a sucesso passou para os filhos
de Dwd: al-Hadj Muhammad III (1583-1586), Muhammad IV (1586-1588),
Ishk II (1588-1591) e Muhammad Gao (1592). No tendo, de fato, mais o que
conquistar, faziam incurses aos pases limtrofes. No plano interno, a curva do Nger
assistiu, mais de uma vez, a sangrentas crises de sucesso. No exterior, surge novo
problema, o das minas de sal de Teghazza, o qual envenenaria as relaes com os
sultes do Marrocos. Examinaremos estes problemas nos trs principais reinados.


14    Segundo tradies orais recolhidas em Tombuctu, onde ainda se v o traado de um canal em direo a
      Kabara.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                217



    Ishk I (1539-1549)15  descrito nos Ta'rkh como prncipe autoritrio, que
impunha obedincia. Seu irmo Dwd liderou uma incurso contra a capital
do Mali para pilh-la. Foi no reinado de Ishk I que veio  tona a questo de
Teghazza: o sulto do Marrocos, o sa`d Muhammad al-Shaykh reivindicou
o direito de propriedade sobre as minas de sal, mas fracassou na tentativa de
ocup-las; Ishk I reagiu, organizando os cavaleiros tuaregues para invadir o
Dra (Dar`a) marroquino16.
    Dwd (1549-1583), filho do Askiya Muhammad I, teve um reinado longo
e prspero, que correspondeu ao florescimento do Imprio Songhai. Os Ta'rkh
descrevem o askiya Dwd como prncipe inteligente, astuto, aberto a tudo,
amigo dos letrados. Sua grande experincia nos negcios e no trato com as pes-
soas decorria do fato de ter exercido vrios cargos polticos e de se ter envolvido
nas questes surgidas nos reinados dos irmos.
    O imprio alcanou o apogeu durante o reinado do askiya Dwd, prosperando
econmica e intelectualmente. O vale do rio foi intensamente cultivado e as gran-
des cidades de comrcio mostraram-se mais ativas do que nunca. Era a poca em
que as caravanas transaarianas suplantavam as caravelas atlnticas, conforme narra
V. M. Godinho17. A prosperidade geral trouxe grandes lucros ao askiya, que chegou
a amealhar um tesouro com o numerrio proveniente das taxas sobre o comrcio
e as terras imperiais. Seus armazns recebiam milhares de toneladas de cereais
recolhidos atravs do imprio. Como o pai, Dwd foi grande mecenas. Honrou
os homens de letras, cumulando-os de considerao e presentes. Contribuiu para
a restaurao de mesquitas e para o sustento dos pobres.
    No plano militar, o askiya promoveu inmeras campanhas de pacificao na
regio de Macina e a leste, combatendo principalmente os Mossi. O litgio em
torno de Teghazza continuava a ser o problema mais grave. O sulto do Marro-
cos, Mlay Ahmad al-Mansr, insistia em reivindicar as minas. Ao que parece,
chegou-se a um acordo pelo qual eram preservados os direitos e propriedades
songhai. No entanto, uma expedio marroquina ocupou as minas durante o
reinado do askiya al-Hadj Muhammad III (1583-1586). Os tuaregues passaram
a explorar Tenawdara (Taud`eni), situada 150 quilmetros ao sul de Teghazza,
que logo caiu em runas.
    Com a morte de Muhammad III em 1586, seu irmo Muhammad IV Bano foi
proclamado askiya, fato que terminou por originar uma guerra civil. Muitos irmos

15   AL-SA`D', 1964, p. 157-64.
16   Ibid., p. 163-64; ver tambm MAUNY, 1949.
17   GODINHO, 1969.
218                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



do askiya revoltaram-se, entre eles o balama da regio de Tombuctu, al-Saddk.
Liderando as foras de Kurmina e das provncias ocidentais, al-Saddk marchou
sobre Gao em 1588. Proclamado askiya em Tombuctu, foi, porm, derrotado pelo
novo askiya de Gao, Ishk II, que reprimiu cruelmente a rebelio e dizimou os exr-
citos ocidentais. O imprio se viu, assim, moralmente cindido. A regio ocidental,
decepcionada, perdeu o interesse por Gao, e muitos prncipes songhai aliaram-se
sem dificuldade aos invasores marroquinos em 1591, trs anos aps a guerra civil.
O Imprio Songhai iria, assim, desmoronar, vtima das prprias contradies.


      A civilizao songhai
      Organizao poltica e administrativa
   O Imprio Songhai foi profundamente original quanto  organizao poltica
e administrativa. A forte estruturao do poder, a centralizao sistemtica e o
absolutismo real so caractersticas que atriburam uma colorao moderna 
monarquia de Gao, distinguindo-a do sistema tradicional de federao de reinos,
vigente nos imprios de Gana e do Mali.

      A monarquia18
   A monarquia de Gao sob os askiya, herdeira de longa tradio de governo,
fundava-se nos valores islmicos e consuetudinrios. Segundo os antigos cos-
tumes sudaneses e songhai, o toi (rei) era o pai do povo, dotado de poderes
semissagrados, fonte de fecundidade e prosperidade. Quem dele se aproximasse,
tinha de se prostrar em sinal de venerao. J a tradio islmica estipulava que
o monarca de Gao, muulmano desde o sculo XI, devia governar segundo os
preceitos do Coro. Estas duas tradies combinavam-se; dependendo da per-
sonalidade do soberano, predominava uma ou outra. O Askiya Muhammad I
e o askiya Dwd apoiaram-se no Isl; Sunn `Al e a maioria dos outros askiya
foram mais songhai do que muulmanos.
   O imperador residia em Gao, cercado de numerosa corte, a sunna, que com-
preendia membros da famlia, grandes dignitrios e griots* Guesere e Mabo.
Sentava-se numa espcie de estrado, rodeado de setecentos eunucos. O griot
Wandu atuava como arauto. Inmeros serviais, geralmente escravos, realizavam



*     Sobre a funo do griot, ver o captulo 8, no volume I, especialmente p. 202-8.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                                     219




Figura 8.1 Estela 11 de Gao-San (SO 50-59 bis), retangular, de quartzo (alt. 38 cm, larg. 28 cm). "Este
 o tmulo de Muhammad b. al-Gum'a; Al lhe tenha piedade. Faleceu na sexta-feira 6 Sha`ban 496 (15 de
maio de 1103)." (Foto IFAN.) (Fonte: Vir, 1959.)
220                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura. 8.2 Estela 14 de Gao-San (SO 50-54), de xisto, colorao verde-amarela (alt. 49 cm, larg. 29 cm).
"Todo ser vivo  perecvel e deve retornar a Al: Este  o tmulo de Hawa [?], filha de Muhammad; Al
lhe tenha piedade. Faleceu na noite de... quinta-feira 12 Ramadn 534 (1 de maio de 1140)." (Foto IFAN.)
(Fonte: Vir, 1959.)
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                                 221



as diversas tarefas domsticas, dirigidos pelo hu hokoroy koy, mordomo-mor do
palcio. O encarregado do guarda-roupa cuidava do vesturio18.
    Com a morte do soberano, sucedia-lhe o irmo mais velho. De fato, decidia-se
a sucesso pela fora, da as crises peridicas. O novo askiya era proclamado pela
sunna e entronizado na antiga capital de Kkya.
    O governo era constitudo por ministros e conselheiros nomeados, que
podiam ser demitidos pelo askiya, e obedeciam a uma hierarquia segundo a sua
funo. Pode-se distinguir o governo central do askiya e o das provncias.

    O governo central
    Os funcionrios do governo central formavam o conselho imperial, que
debatia todos os problemas do imprio. Um secretrio-chanceler redigia as atas
do conselho, tratava da correspondncia do soberano, da redao e da execuo
de suas leis. Outros funcionrios, cujas tarefas so mais ou menos conhecidas,
cuidavam dos vrios departamentos administrativos. No havia propriamente
especializao de funes. Os Ta'rkhi fornecem a lista de dignitrios do poder
central, sendo os principais19:
    O hi koy era o "senhor da gua", o chefe da flotilha. Sua funo era das mais
antigas e importantes, em virtude do papel do Nger na vida dos antigos Songhai. O
hi koy tornou-se um dos mais altos dignitrios da corte, uma espcie de ministro do
Interior, que dirigia os governadores das provncias. Desta maneira entende-se, sob
o reinado do askiya Ishk I, que o hi koy repreenda o prncipe Dwd, governador
de Kurmina, ordenando-lhe que volte imediatamente  sua provncia.
    O fari mondzo ou mondio era o ministro da Agricultura.  possvel que diri-
gisse as numerosas propriedades imperiais espalhadas pelo pas, grandes fontes
de renda. Sua funo, muito importante, era geralmente confiada a prncipes
de sangue, seno ao prncipe herdeiro. Com certeza, competia tambm ao fari
mondzo resolver conflitos de terra. O hari farma, inspetor das guas e lagos, o
saw farma, inspetor das florestas e o waney farma, encarregado das propriedades,
desempenhavam funes semelhantes.
    O kalissa farma (ministro das Finanas) tem uma funo mal definida nos
Ta'rkhi; devia estar ligada  tesouraria imperial. Sabe-se que os askiya eram
muito ricos, e que suas rendas em espcie ou dinheiro eram centralizadas em
Gao. O kalissa farma cuidava da guarda do tesouro e controlava as despesas do

18 Quase 210 vestimentas em seda, l e algodo. Ver KA`TI, 1964, p. 260-1.
19 Uma lista completa dos funcionrios do governo imperial  dada por KODJO, 1971, p. 270-2 e ROUCH,
   1953, p. 192-3.
222                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



soberano. O numerrio em moedas constitudo pelo askiya Dwd estava, sem
dvida, sob a responsabilidade de um desses funcionrios. O kalissa farma era
auxiliado pelo waney farma, senhor dos bens, pelo bana farma, encarregado dos
salrios, e pelo doy farma, chefe de compras.
    O balama desempenhava funes militares, embora os Ta'rkhi no as des-
crevam com preciso. Em tempos antigos, o balama era chefe do exrcito. O
cargo deve ter perdido importncia no sculo XVI, quando no h meno
do balama  frente dos exrcitos imperiais. O balama tornou-se chefe de um
corpo de exrcito estacionado na regio de Kabara-Tombuctu, com certeza sob
a jurisdio do kurmina fari. Ao que parece, a funo era reservada a prncipes
de sangue.
    Embora no haja referncias nos Ta'rkhi,  possvel que para a administrao
do imprio, Gao possusse outros departamentos. Pode-se mencionar o korei
farma, ministro encarregado dos estrangeiros brancos, e os comissrios imperiais,
que o imperador enviava periodicamente s provncias para resolver problemas
urgentes, arrecadar impostos extraordinrios dos comerciantes das grandes cida-
des ou fiscalizar os funcionrios e administradores das provncias.

      O governo das provncias
    Os Songhai adotaram dois sistemas de governo, de acordo com o territrio
em questo.
    Um primeiro grupo compreendia as provncias conquistadas, governadas por
chefes nomeados e demissveis a qualquer momento pelo askiya. Estes gover-
nadores, hierarquizados, exerciam o poder soberano  exceto a justia, confiada
aos cdis. Eram intitulados fari, farma ou farba, nomes derivados da instituio
manden farin. O Imprio do Mali havia institudo farin (governadores) na curva
do Nger, e Sunn `Al e os askiya deram continuidade  funo e ao ttulo. O koy
(chefe) era uma instituio songhai de menor importncia, assim como o mondzo,
ttulo que se aplicava tanto ao funcionrio de uma localidade (Tombuctu mondzo)
quanto ao de um departamento ministerial (fari mondzo). Nada sabemos sobre os
ttulos de cha, marenfa e outros.
    O imprio era dividido em duas grandes provncias: Kurmina a oeste e Dendi
a sudeste. A funo do kurmina fari ou kanfari era exercida, com raras excees,
por prncipes de sangue, muito frequentemente pelo prprio prncipe herdeiro20.
O kurmina fari habitava Tendirma, aparecendo como o segundo personagem


20    Entre outros, os askiya Muhammad II Benkan e Dwd.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                   223



em importncia do Estado. No se conhecem com certeza os limites de sua
jurisdio; ao que parece, dirigia todas as provncias a oeste de Tombuctu. Isso
carece, porm, de confirmao, j que os governadores da regio eram nomeados
por Gao e subordinados ao askiya. Por volta do final do sculo XVI, o kurmina
fari tornou-se o verdadeiro chefe de todas as provncias do oeste, impondo-se
pelo seu poderio militar. De fato, dispunha de poderoso exrcito que, com cerca
de 4 mil homens, era capaz de contrabalanar as foras de Gao, conforme ficou
patente em vrias ocasies.
    O dendi fari, governador da provncia de Dendi, supervisionava toda a regio
dendi, ou seja, a parte sudeste do imprio. Era o terceiro personagem em importn-
cia do Estado; o titular era geralmente grande dignitrio da corte. Seu exrcito devia
ser pouco mais modesto que o de Kurmina, tendo por funo defender as fronteiras
meridionais do imprio. As provncias secundrias eram governadas por chefes
nomeados pelo askiya: o bara koy, o dirma koy, o hombori koy, o arabinda farma, o
benga farma, o kala cha e o baghena farma, que perdera seu ttulo de askiya.
    As cidades de comrcio, como Tombuctu, Djenn, Teghazza e Walata, gozavam
de certa autonomia sob o governo de seus koy ou mondzo. As atividades comerciais e
artesanais e a grande populao requeriam a presena de muitos funcionrios admi-
nistrativos. Assim, em Tombuctu, alm do cdi encarregado da justia e do Tombuctu
koy, chefe da cidade, havia extenso quadro de funcionrios: o asara mondzo, espcie de
comissrio responsvel pelo policiamento dos mercados e pela execuo das sentenas
do cdi, os inspetores de pesos e medidas, os coletores de impostos dos mercados,
os inspetores alfandegrios de Kabara, os mestres de diversas profisses, os chefes
das diversas subdivises de etnias  agrupadas por bairros  e os comissrios das
cabanas dos subrbios. Este pessoal formava o ncleo de uma administrao eficaz
nas grandes cidades.

     Administrao indireta
   A administrao indireta concernia aos pases vassalos ou tributrios. O chefe
do territrio era nomeado segundo os costumes locais e reconhecido pelo askiya.
Disputas entre os pretendentes ou rebelies contra a autoridade imperial, no
entanto, aconteciam. Neste caso, o askiya intervinha e impunha seu candidato.
Dessa forma, o fondoko da regio de Macina, Bubu Mariama, foi destronado
pelo askiya al-Hadj Muhammad III, que o exilou em Gao21. Os Estados haussa



21   AL-SA`D', 1964, p. 189.
224                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



 Kano e Katsina , o reino de Agadez, o Imprio do Mali22, a federao tuare-
gue Kel Antessar (os Andassen de al-Sa`d'), a de "Magcharen"23 (tuaregues de
origem Sanhadja da regio de Tombuctu-Walata) agrupavam-se nessa categoria,
sendo mais ou menos tributrios, de acordo com a orientao poltica de Gao.
Seus soberanos deviam pagar tributos peridicos, enviar contingentes de guer-
reiros quando o imperador pedisse e manter boas relaes com Gao atravs de
visitas, presentes e casamentos.
    Com estes vrios sistemas de administrao  o central, o provincial e o indi-
reto, o Imprio de Gao conseguiu organizar as populaes do Sudo nigeriano,
manter pessoas e bens em segurana e alcanar grande desenvolvimento econ-
mico. A monarquia dos askiya foi um poder estruturado e impessoal, enraizado
em valores songhai e islmicos, que triunfou em diversas crises dinsticas. Se no
houvesse sido debilitada pela conquista marroquina, poderia ter evoludo para
uma forma de Estado moderno africano, que preservasse as liberdades essenciais
do homem apesar da forte centralizao poltica.

      As grandes instituies do Estado
    O Estado dispunha de importantes recursos para se consolidar e permanecer
independente, e de uma fora armada permanente, capaz de proteger o imprio,
impor a vontade do soberano a seus sditos e dominar qualquer rebelio. Este
aparelho de Estado, poderoso e estvel, no era, no entanto, desptico. A justia,
confiada a cdis quase autnomos ou a chefes consuetudinrios, preservava a
liberdade e os direitos do povo. O estudo das engrenagens do Estado pe em
evidncia a modernidade do Imprio Songhai, o qual herdou longa tradio
guerreira. Os Songhai no eram camponeses ou comerciantes, mas guerreiros:
      "Os grandes homens do Songhai", escreveu Mahmd Ka`ti, "eram versados na arte
      da guerra. Eram bravos e audaciosos e conheciam os ardis da guerra"24.




22    O domnio dos Songhai sobre o Imprio do Mali nunca foi contnuo. Segundo LEO, o AFRICANO,
      1956, o mansa do Mali era tributrio do Askiya Muhammad I. Esta dominao, se foi efetiva, no teve
      sequncia, pois foram necessrias novas expedies contra o Mali no reinado do askiya Ishk I. Na
      realidade, o mansa escapou  suserania de Gao. O Sibiridugu, que fazia fronteira entre os dois imprios,
      devia estar situado mais ao sul de Segu, no limite do Manden, na atual regio de Kulikoro.  a opinio
      de Djibril Tamsir Niane, fundamentada nas tradies manden que coletou na regio de Niani.
23    Os "Magcharen" no eram grupo tnico ou clnico; constituam a camada nobre da sociedade. Ver
      LHOTE, 1955-1956, p. 334-70.
24    KA`TI, 1964, p. 146
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                                      225



   A nobreza tinha vocao para as funes polticas e militares. Constitua a
parte essencial da cavalaria, ponta-de-lana do exrcito songhai. Armados de
longas lanas, sabres e flechas, os cavaleiros songhai usavam armaduras de ferro
sob suas tnicas de guerra. Como os cavalos custavam muito (valiam cerca de
dez escravos no sculo XVI),  cavalaria pertencia uma elite privilegiada. A
unidade mais numerosa era a infantaria, que reunia homens de todas as camadas
sociais: escravos, baixa nobreza, homens livres etc. Como armas, utilizavam lan-
as, flechas e escudo de couro ou cobre. Os pescadores do Nger, principalmente
os Sorko, constituam uma flotilha permanente no rio, de mais de 2 mil pirogas.
O exrcito levava estandartes e longas trombetas, os kakaki, seguia uma ordem
de marcha e, no combate, procedia  formao em leque.
   Ignoram-se os verdadeiros efetivos do exrcito. As reformas dos askiya
Muhammad I e Muhammad II Benkan aumentaram o exrcito permanente
de Gao para 4 mil homens, sem contar os 300 guerreiros da guarda pessoal do
soberano, a sunna25. Em sua maioria, os soldados eram escravos do askiya, que
lhes herdava os bens e podia desposar suas filhas. O exrcito completo, reunido
em 1591 na batalha de Tondibi, contava 30 mil soldados de infantaria e 10 mil
cavaleiros. Era a maior fora organizada do Sudo ocidental; permitiu que o
askiya impusesse sua vontade e trouxe-lhe substanciais butins de guerra.

     Recursos financeiros
   O soberano de Gao era rico e poderoso. A monarquia dispunha de recursos
seguros e permanentes, arrecadados em todo o imprio e geridos por grande
nmero de funcionrios administrativos, sob a direo do kalissa farma. Havia
diversas fontes de renda imperial: os rendimentos das propriedades pessoais do
soberano, o zakt, dzimo coletado para o sustento dos pobres, os impostos sobre
as colheitas, o gado e a pesca, pagos em espcie, as taxas e os direitos alfande-
grios sobre a atividade comercial, as contribuies extraordinrias arrecadadas
dos comerciantes das grandes cidades e, principalmente, o butim de guerra quase
anual. O soberano dispunha, portanto, de rendas inesgotveis, que gastava como
queria. Grande parte era utilizada para a manuteno da corte e do exrcito
permanente. O askiya tambm contribua para a construo e restaurao de
mesquitas, para o sustento dos pobres do imprio, para as esmolas e os presentes
dados aos grandes marabus.


25   No confundir com a sunna do conselho imperial. Neste caso, trata-se de soldados que, com certeza,
     haviam prestado juramento e eram de uma fidelidade incondicional. A sunna no devia fugir ao combate.
     Por esta razo, foi massacrada em Tondibi em 1591.
226                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



      Justia
    A justia era prerrogativa real. O askiya, como emir dos muulmanos, pai do
povo, delegava-a a representantes completamente independentes do poder cen-
tral ou de seus funcionrios. Pode-se distinguir duas jurisdies, a muulmana
e a consuetudinria.
    A primeira regia as comunidades muulmanas. Inspirava-se no direito
maliquita, ensinado nas universidades sudanesas. O cdi era o juiz soberano
e supremo, com cargo vitalcio outorgado pelo imperador; a reduzida procura
para esse cargo fazia com que, frequentemente, o askiya nomeasse o cdi  fora.
Em Tombuctu, durante todo o sculo XVI, o cargo foi monoplio da famlia
do cdi Mahmd ben `Umar al-Akit (1498-1548), a que tambm pertenciam
os ims da mesquita de Sankor26. Em numerosas cidades, o cargo tornou-se
hereditrio. O cdi era assistido por auxiliares de justia: oficiais da corte, secre-
trios, notrios etc. A execuo das penas cabia ao assara mondzo, funcionrio
do poder imperial. O cdi julgava todos os assuntos, criminais ou comerciais,
e no era possvel recorrer da sentena. Alm disso, atuava como uma espcie
de tabelio: registrava alforrias de escravos, partilhas de herana, validava docu-
mentos privados etc. O cdi era o verdadeiro chefe da cidade de Tombuctu; sua
autoridade exercia-se alm do quadro da justia, protegendo tambm a liberdade
dos cidados.
    A justia consuetudinria concernia  maior parte do imprio, e, mesmo nas
grandes cidades muulmanas, as pessoas resolviam seus conflitos em famlia
ou com o chefe do grupo tnico, de acordo com seus prprios costumes. Em
Gao, o conselho imperial mantinha um tribunal para julgar os casos de Estado,
geralmente de conspiradores  prncipes e seus cmplices. Para combater a
licenciosidade e, particularmente, o adultrio, um flagelo na refinada sociedade
da curva do Nger, o askiya Ishk II instituiu um tribunal de adultrio que punia
severamente os casos de flagrante. Digno de nota  o fato de a populao poder
fazer uso da justia em seu prprio benefcio atravs de tribunais competentes,
garantia maior da ordem e da liberdade. O Estado songhai favoreceu, deste modo,
o desabrochar de brilhante civilizao intelectual e de grande desenvolvimento
econmico e social.




26    A respeito desta famlia, ver CUOQ, 1978, p. 85-102.
                                                                                    Os Songhai do sculo xii ao xvi
                                                                                    227
Figura 8.3   Mapa do Imprio Songhai no fim do sculo XVI. (Segundo D. T. Niane.)
228                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



      Desenvolvimento econmico
    Por sua localizao geogrfica no centro do Sahel sudans, o Imprio Songhai
era uma regio privilegiada para os intercmbios transaarianos. O Nger, que o
atravessava de oeste para leste, facilitava as comunicaes, e seu vale frtil era
intensamente cultivado. Assim, distinguem-se dois setores econmicos, um rural
e tradicional, e o outro urbano e comercial.

      Setor rural
   Os Ta'rkh do-nos pouca informao sobre as atividades rurais. As tcnicas
agrcolas no evoluram muito desde aquele tempo. A enxada (o kaunu dos
Songhai), os adubos animais, a prtica da horticultura no vale, a cultura itine-
rante na savana etc., so os mesmos h sculos, mas o vale do Nger torna-se
mais densamente povoado por indivduos que praticam a agricultura, a pesca e
a criao. As grandes propriedades dos prncipes ou dos ulems eram explora-
das por escravos estabelecidos em colnias agrcolas. O prprio askiya, grande
proprietrio de terras, tinha seus campos, espalhados pelo vale, cultivados por
comunidades de escravos sob a direo de capatazes, os fanfa. Uma espcie de
imposto era arrecadado sobre as colheitas e enviado a Gao27. O mesmo ocorria
com os escravos pertencentes a particulares.
   A pesca era praticada pelos Sorko, pelos Do e pelos Bozo. Os peixes eram
secados ou defumados e vendidos por todo o imprio. A criao de bovinos e
caprinos na regio fronteiria do Sahel e nas regies de Macina e do Baxunu,
bem como a criao de bovinos praticada pelas populaes sedentrias do vale
do Macina, constituam importante fonte de leite e carne, principalmente para
as populaes urbanas.
   De fato, grande parte dos produtos agrcolas (cereais, peixe, carne) alimentava
o comrcio e permitia  populao rural obter produtos de primeira necessidade,
como o sal.

      Setor comercial
   As cidades do Sahel sudans  Walata, Tombuctu, Djenn, Gao  , centros
do grande comrcio transaariano, tinham contato com os grandes mercados do
Saara e com as regies mais longnquas, como a Europa mediterrnica. Do vale
do Nger, partiam caravanas transaarianas, estabelecendo rotas em direo ao

27    KA`TI, 1964, p. 178-80.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                                  229



norte28. As principais eram as de TombuctuTeghazzaTuat rumo ao Tfllet
e ao oeste argelino, TombuctuWalataTichitWadane rumo ao Dra (Dra`a) e
ao Tfllet , GaoTadmekkaGht rumo  Lbia e ao Egito, GaoTadmekka
Ghadames rumo  costa lbia e tunisiana, e GaoHaussaKanem-Bornu rumo
ao vale do Nilo. Como se pode observar, o comrcio transaariano dos sculos
XV e XVI orientava-se principalmente para o Marrocos, a Arglia e a Lbia.
No centro, as minas de sal de Teghazza e os osis de Tuat e de Ght eram as
grandes etapas comerciais rumo ao Sudo. O comrcio estava em mos de
mercadores rabo-berberes (havia muitos mercadores de Tuat e de Ghadames
em Tombuctu), e dos sudaneses Wangara (Manden), Wakore (Soninke), Mossi,
Haussa e Songhai. Os pontos de encontro eram as cidades em que os habitan-
tes obtinham grandes benefcios com a corretagem. Alguns comerciantes, bem
organizados, tinham sucursais em muitas cidades e acompanhavam, com lucro, a
flutuao dos preos. Dispunham de frota comercial no Nger, de camelos e bois
para o transporte das mercadorias. O porto de Kabara estava repleto de artigos
comerciveis quando Leo, o Africano, l chegou, no incio do sculo XVI29.
    O comrcio se fazia por trocas e mais frequenternente por intermdio de
moeda de transferncia: cauris para os pequenos negcios, ouro, sal ou cobre,
conforme o mercado. O Sudo importava tecidos que vinham, em sua maior
parte, da Europa30 (Veneza, Florena, Gnova, Maiorca, Inglaterra, Frana etc.),
sal de Teghazza e de Idjil, armas, cavalos, cobre, artigos de vidro, acar, arte-
sanato magrebino (sapatos, artigos de l) etc. O sal era a mola-mestra deste
comrcio. Era moldado em blocos retangulares de 25 a 30 kg, e distribudo por
todo o interior do pas. Os artigos de exportao do Sudo eram ouro, escra-
vos, marfim, especiarias, nozes-de-cola, artigos de algodo etc. O ouro  em
p (tibar) ou em pepitas , proveniente das minas de Bambuku, do Burem, da
regio mossi e principalmente da regio ashanti, o Bitu, constitua-se no piv
do comrcio transaariano e supria o mercado europeu31.
    O comrcio interno sudans baseava-se nos produtos locais. Em todas as
aglomeraes importantes, havia um mercado, lugar de encontro dos cam-
poneses, que trocavam produtos agrcolas e compravam sal, tecidos e demais


28   MAUNY, 1961, v. 3C, n. 5.
29   LEO, o AFRICANO, 1956, v. 2, p. 467.
30   BRAUDEL, 1946, HEERS, 1958, e GAUTIER, 1935, demonstraram satisfatoriamente a importncia
     do comrcio sudans para a economia mediterrnica e europeia na Idade Mdia. Ver tambm o artigo
     de DEVISSE, no captulo 26 deste volume.
31   HEERS, 1958.
230                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



mercadorias de mascates vindos do norte. Os cereais do delta central ou da
regio de Dendi, por exemplo, eram encaminhados para Tombuctu, Gao e para
o Sahel, enquanto as nozes-de-cola e o ouro seguiam do sul para o norte, de
onde saam as mercadorias transaarianas. Djenn teve papel considervel como
mercado de atrao e distribuio dos produtos de todo o oeste africano.
    Concluindo, o comrcio favoreceu o enriquecimento das cidades do vale do Nger
bem como a instalao de um padro de vida razovel no campo. Infelizmente, s
envolvia pequena parte dos produtos locais, agrcolas ou artesanais. As mercadorias
essenciais eram produtos de extrao mineral ou coleta. Em suma, o comrcio
transaariano apontava antes para um sistema de trocas de produtos que para
uma verdadeira economia de mercado baseada na produo local. No pde,
assim, provocar mudana nas estruturas sociais nem favorecer a revoluo
tecnolgica, permitindo, no entanto, certo progresso material nas condies
de vida das populaes nigerianas e a ascenso de uma refinada aristocracia.
A longa tnica (bubu), os chinelos (babush), o conforto das residncias, a dieta
variada eram os sinais de progresso na sociedade do Nger.

      Sociedade
    Em suas estruturas profundas, a sociedade songhai assemelhava-se aos
demais grupos sociais do Sudo ocidental. Sua originalidade baseava-se no
desenvolvimento de uma economia comercial, a qual deu origem a uma socie-
dade urbana com atividades diferenciadas, por sua vez um tanto marginal em
relao ao conjunto da sociedade, fundamentalmente rural.

      Estrutura da sociedade do Nger
    Na cidade ou no campo, a sociedade songhai definia-se pela importncia
atribuda aos laos de parentesco. O elemento bsico que coloria todas as insti-
tuies sociais na vida cotidiana era a famlia.
    Os cls agrupavam muitas famlias. As mais antigas eram de origem Soninke
(os Tur, os Sylla, os Tunkara, os Cisse, os Diakite, os Drame, os Diwara). Poucas
(os Maiga) eram Songhai, o que levanta o problema da prpria estrutura do
povo Songhai, bastante miscigenado de Soninke, berberes e outras etnias, como
a Manden, a Gobri, a Haussa etc.
    Quanto  composio tnica, ela s  mencionada nos Ta'rkh para designar
populaes servis32, ou rurais, presas  cultura dos campos, ou a castas de ofcios.

32    KA`TI, 1964, p. 20-1.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                               231



A caracterstica fundamental da sociedade songhai era a hierarquizao, que
dividia a populao em nobreza, homens livres, membros de castas de ofcios
e escravos. No Sudo ocidental, a nobreza se distinguia claramente das demais
classes, por dedicar-se quase exclusivamente  administrao e s armas. Os
escravos, bastante numerosos, cumpriam tarefas domsticas ou trabalhavam nos
campos, tendo papel poltico e militar subalterno.

     Sociedade rural
    Fora do vale do Nger, onde se encontravam as cidades comerciais, os Son-
ghai e os demais povos do imprio viviam de atividades rurais. Agrupados em
aldeias de cabanas redondas, os camponeses dos sculos XV e XVI eram pouco
diferentes dos atuais; as estruturas fundamentais no foram modificadas por
revoluo tcnica ou de qualquer outra natureza. Sem dvida, as condies de
vida transformaram-se. As poucas informaes dos Ta'rkh mostram uma densa
populao rural no vale do Nger, principalmente na regio de Djenn, que vivia
sobretudo da agricultura. L tambm se encontravam artesos divididos em
castas (ferreiros, carpinteiros, ceramistas etc.), mas seu trabalho era temporrio
e a maior parte deles tirava o sustento das atividades agrcolas. O mesmo devia
ocorrer com os pescadores do Nger (os Sorko, os Bozo, os Somono ), que cul-
tivavam o solo durante a estao das chuvas. As condies de vida no parecem
ter sido to miserveis, como afirma Leo, o Africano33. Havia segurana e a
fome era rara. Os Ta'rkh nos deixam entrever alguns aspectos da vida no campo.
No h, praticamente, nenhuma aluso a revoltas camponesas; a renda exigida
pelos senhores nunca era esmagadora para os escravos. O inventrio da fortuna
de um capataz imperial na regio de Dendi d, ao contrrio, a impresso de
certo bem-estar no campo. Os camponeses podiam vender parte da produo
nos mercados locais, onde obtinham produtos como sal e tecidos, participando,
assim, dos intercmbios comerciais.
    O Isl no enraizou no campo: os camponeses mantiveram os valores locais,
e as regies mais rurais, como a de Dendi e as do sul, permaneceram ligadas
s crenas tradicionais, apesar da islamizao superficial. Deste modo, o campo,
aberto  economia comercial, continuou fechado aos valores espirituais originrios
das cidades, segundo caracterstica fundamental da sociedade do Nger.



33   LEO, o AFRICANO, 1956, v. 2, p. 472, mostra os camponeses miserveis, ignorantes e esmagados
     pelos impostos imperiais.
232                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



      As cidades e a sociedade urbana
    A grande expanso comercial permitiu o desenvolvimento da civilizao urbana
em toda a regio do Sahel sudans. Nos sculos XV e XVI, destacam-se as cidades
de Walata, Djenn, Tenenku, Tendirma, Tombuctu, Bamba, Gao, Agadez e as cida-
des haussa de Kano e Katsina. Eram, geralmente, cidades abertas, sem muralhas.
O mercado ficava no interior da cidade, e uma populao mvel residia em tendas
e cabanas nos subrbios. No centro, encontravam-se casas de alvenaria, no estilo
sudans, de um ou dois andares; um vestbulo dava acesso a um ptio interno, para
o qual abriam-se os quartos.
     necessrio dizer mais sobre as trs maiores cidades: Tombuctu, Djenn
e Gao. Conquistada por Sunn `Al por volta de 1468, Tombuctu alcanou o
apogeu no sculo XVI: teria cerca de 80 mil habitantes34 no reinado do askiya
Dwd. Era ento a capital econmica do imprio, cidade sagrada do Sudo,
clebre pelos homens santos e pela universidade.
    Djenn35, uma ilha no delta central, ligada econmica e espiritualmente a
Tombuctu, com populao de 30 a 40 mil habitantes, constitua a aglomerao
negra mais importante do interior do Sudo. Dominada por sua bela mesquita,
prola da arte sudanesa, era o grande mercado do sul, tendo contato com a regio
da savana e da floresta.
    Gao, capital poltica, mais antiga do que as outras, era uma cidade imensa,
com cerca de 100 mil habitantes36. Sua posio orientava-a para o mundo haussa,
para a regio do Dendi, a Lbia e o Egito.
    Em todas estas cidades, encontrava-se, ao lado de um ncleo Songhai predo-
minante, cuja lngua servia de vnculo comum, uma populao cosmopolita de
rabo-berberes, Mossi, Haussa, Manden (Wangara), Soninke, Fulbe etc.
    O mundo urbano era constitudo por uma sociedade hierarquizada segundo o
modelo sudans, mas entre os Songhai o critrio de diferenciao era econmico. A
sociedade urbana compreendia trs elementos bsicos, os comerciantes, os artesos e
os religiosos, que viviam todos, direta ou indiretamente, do comrcio.


34     uma cifra bastante aproximativa; parece-nos, entretanto, mais prxima da realidade do que os 25 mil
      habitantes propostos por MAUNY, 1961, p. 497. No sculo XVI, o stio de Tombuctu cobria extensa
      rea. As tradies orais afirmam unanimemente que o tmulo do cdi Mahmd, atualmente distante da
      cidade, era ento sua casa. A areia que diariamente se deposita sobre a cidade nos faz questionar o valor
      das fotos areas do antigo stio. Por outro lado, deve-se observar que Tombuctu era uma cidade vertical,
      onde havia muitas casas de dois andares. O espao urbano era muito concentrado
35 Ver o artigo de KEECH & McINTOSH, 1980, que prope novas solues para a questo de Djenn.
36    Esta cifra provm do primeiro recenseamento da cidade, feito por volta do fim do sculo XVI, que contou
      7 626 casas, excluindo as palhoas do subrbio.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                  233



    Os comerciantes eram, na maioria, estrangeiros; os artesos e pequenos
comerciantes, camada dinmica e ativa, agrupavam-se em corporaes, com suas
regras e costumes. Os intelectuais  marabus, estudantes , pessoas de maneiras
requintadas, gozavam de grande considerao social.
    Pelo menos ao nvel da aristocracia, a sociedade nigeriana denotava organi-
zao e refinamento. Gostava de roupas amplas, das clssicas babuchas amarelas,
do bem-estar em casa, de pratos bem temperados e principalmente de boa com-
panhia. Isto levou a certa negligncia moral, evidenciada pelo grande nmero
de cortess e pela devassido da aristocracia principesca.
    A sociedade urbana distinguia-se, portanto, da sociedade tradicional do
campo, para onde nunca extravasou. Sua camada dirigente era formada, em
geral, por estrangeiros, imbuda de valores islmicos e comerciais, e parecia
justaposta  sociedade global. Do mesmo modo, a burguesia comerciante no
conseguiu se implantar solidamente no pas, j que sua economia de trocas no
permitiu que exercesse sobre a sociedade songhai influncia mais profunda e
durvel.

    Desenvolvimento religioso e intelectual
    Implantado no Sudo ocidental desde o sculo XI, o Isl progrediu lenta e
desigualmente, acabando por se impor na curva do Nger e na regio do Sahel.
Em outras partes, aplicou apenas um frgil verniz sobre as antigas crenas, sem
se enraizar profundamente. Nas zonas urbanas, o Isl criou uma elite letrada que,
atravs de grande esforo criador, contribuiu para ilustr-lo e reinterpret-lo. Este
desenvolvimento foi possvel graas  prosperidade geral do Sudo, que atraiu, a
partir do sculo XV, grande nmero de intelectuais estrangeiros, principalmente
graas  poltica benevolente dos soberanos de Gao. Seguindo o exemplo do
fundador da dinastia dos askiya, estes cumularam os doutores muulmanos de
honras e presentes, assegurando-lhes grande prestgio social no pas. O Askiya
Muhammad I adotou uma poltica muulmana sistemtica, visando implantar e
expandir o Isl no Sudo.

    Vida religiosa
   A religio dominante nos sculos XV e XVI, no entanto, no foi o Isl. A
grande maioria dos Songhai e dos povos do imprio, que viviam no campo,
permaneceu ligada s crenas ancestrais da regio. Em uma carta a al-Maghl,
o Askiya Muhammad I deplora esta situao, que em vo procurou combater.
234                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



    Os Songhai cultuavam os hole (duplos) e os espritos que habitavam a natu-
reza, dos quais se podia obter favores37. Seu panteo era numeroso, incluindo,
entre outros, Harake Dikko, divindade do rio, e Dongo, do trovo. Seus curan-
deiros mgicos, os sonyanke, considerados descendentes da dinastia deposta dos
Sunn, eram venerados pelo povo e protegiam a sociedade contra os espritos
malficos e os feiticeiros tierkei. Todo chefe de cl promovia um culto aos mor-
tos. Deste modo, a religio tradicional, to viva no campo, servia  sociedade,
protegendo-a, proporcionando-lhe equilbrio psquico e continuidade.
    Justaposta a estas crenas, a f islmica pouco impacto teve no campo. Urbana
e aristocrtica, acabou sofrendo adaptaes para melhor se expandir; j se tratava,
portanto, de um islamismo negro-africano, tolerante. Ganhou terreno pela ao
do Askiya Muhammad I e dos doutores muulmanos, bem como pela expanso
pacfica do comrcio, ao qual era intimamente ligado desde os comeos de sua
difuso na frica negra. Aconselhado pelos grandes doutores al -Maghl de
Tuat38 e al-Suyt39 do Cairo, e por grande nmero de marabus do imprio,
o Askiya Muhammad I combateu os fetiches, perseguiu os companheiros de
Sunn, os "maus muulmanos", imps o cdi e o direito maliquita a numerosas
comunidades e empreendeu a djihd (guerra santa) contra os infiis Mossi. Os
vendedores ambulantes e outros negociantes fizeram o resto, levando o Isl ao
corao das zonas florestais do sul.
    Assim, no final do sculo XVI, a religio islmica dominava toda a curva do
Nger, da regio de Macina  do Dendi; seu avano fora considervel tambm
em outras partes. A vida religiosa pode ser mais bem entendida observando-se
as cidades. Djenn e Dia no delta central, Gao, Tombuctu etc. tinham mesquita,
im, cdi, cemitrios e inmeras escolas dirigidas por homens piedosos e san-
tos, ainda hoje venerados na curva do Nger. Tombuctu servia de modelo: as
trs grandes mesquitas  Djinguereber, Sd Yahy e Sankor (as duas ltimas,
construdas na primeira metade do sculo XV)  e a reputao de seus santos
e doutores (o xarife Sd Yahy, morto em 1464; o cdi Mahmd ben `Umar
al-Akit, morto em 1548 e muitos membros de sua famlia, como o cdi al-Akb,
que restaurou as grandes mesquitas etc.), tornaram-na conhecida como a cidade
santa do Sudo. Sua universidade contribuiu para a difuso da cultura islmica
no Sudo ocidental.



37    ROUCH, 1954 e 1960, e BOULNOIS & HAMA, 1954, corrigem a concepo islamocntrica da histria songhai.
38    M'BAYE, 1972.
39    HUNWICK, 1970.
Os Songhai do sculo xii ao xvi                                                 235



     Vida intelectual
    O Sudo nigeriano conheceu grande florescimento intelectual nos sculos XV
e XVI; o humanismo sudans imps-se como componente fundamental do Isl
universal. Formada nos sculos XIV e XV nas universidades de al-Karawiyyn
em Fs e al-Azhar no Cairo, a elite sudanesa emancipou-se e, por seu prprio
esforo, alcanou o apogeu da cincia islmica. Os centros de movimentao
intelectual continuavam a ser as grandes cidades; os lucros advindos do comr-
cio propiciaram o surgimento de uma classe de letrados dedicada  religio e
aos estudos. A prosperidade geral atraiu para as cidades do Nger estudiosos
de todas as regies do Sudo e do Sahel40. Sem dvida, a universidade mais
clebre foi a de Tombuctu, que nos deu os dois Ta'rkh; apesar de escritos no
sculo XVII, constituem a obra histrica mais monumental j produzida no
Sudo. A universidade, centro de aquisio e difuso de conhecimento, no era
uma instituio organizada como na frica setentrional; compreendia grande
nmero de escolas autnomas, destacando-se a famosa mesquita de Sankor,
que ministrava o ensino superior. Tombuctu abrigava, no sculo XVI, cerca de
124 escolas cornicas frequentadas por milhares de estudantes de todas as regies do
Sudo e do Sahel, que moravam com os professores ou em alojamentos especiais.
Os professores, apesar de no remunerados, no enfrentavam dificuldades materiais,
dedicando todo o seu tempo aos estudos.
    Havia dois nveis de estudo: o elementar (escola cornica), centrado na lei-
tura e recitao do Coro, e o superior, em que o estudante aprendia a cincia
islmica. Como todas as universidades contemporneas do mundo muulmano,
a universidade sudanesa ministrava o ensino de humanidades, que comportava
as cincias tradicionais  teologia (tawhd), exegese (tafsr), tradies (hadth),
direito maliquita (f ikh), gramtica, retrica, lgica, astrologia, astronomia,
histria, geografia etc. Os conhecimentos cientficos e matemticos deviam
ser bem rudimentares. O direito maliquita era a especialidade dos doutores
de Tombuctu, que os Ta'rkh. chamam de "jurisconsultos". Os mtodos de
ensino pouco evoluram desde o sculo XVI, sendo sua caracterstica essencial
a explicao e o comentrio de textos nos moldes escolsticos.
    Numerosos professores sudaneses e saarianos a ensinavam. Destacaram-se,
no sculo XV, o xarife Sd Yahy e Moadib Muhammad al-Kabr (originrio
de Kabara), que formaram os mestres da gerao seguinte. O sculo XVI viu
surgir uma srie de professores famosos na curva do Nger, muitos deles origi-


40   CHERBONNEAU, 1854-1855.
236                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



nrios de duas grandes famlias berberes, os Akit e os Anda Ag Muhammad,
ligadas entre si por casamentos. Os mais clebres foram o cdi Mahmd ben
`Umar al-Akit (1463-1548), jurista e gramtico, seu irmo Ahmad (morto em
1536), seu primo al-Mukhtr, seus sobrinhos, entre os quais o famoso `Abbs
Ahmad Baba ibn Ahmad ben Ahmad Akit (1556-1627)41.
    Pouco nos chegou da grande atividade intelectual dos sculos XV e XVI.
No entanto, as obras conhecidas por seus ttulos constituem, em geral, trabalhos
de erudio que no devem ser subestimados. Os eruditos sudaneses tentaram
entender e interpretar a jurisprudncia islmica, terica e prtica, com seus
prprios recursos.
    Esta cultura islmica deve, porm, ser situada no contexto geral sudans.
Era fundamentalmente uma cultura de elite, acessvel a poucos; embora fosse
baseada na escrita, no chegou a integrar as lnguas e culturas autctones.
Urbana, permaneceu marginal e desmoronou com as cidades que lhe deram
origem.




41    Ibid. e HUNWICK, 1964 e 1966a.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta, do sculo XII ao XVI   237



                                         CAPTULO 9


    Os povos e reinos da curva do Nger e
   da bacia do Volta, do sculo XII ao XVI
                                             Michel Izard




    Os Mossi da curva do Nger
    No estgio atual de nossos conhecimentos, o estudo da histria dos povos da
curva do Nger, na poca remota que vai do sculo XII ao XVI, ter necessariamente
de girar em torno do surgimento e da expanso territorial dos reinos mamprusi,
dagomba e mossi. Isso se deve a duas razes, por sinal interligadas. A primeira  que
as informaes que temos sobre esse conjunto de reinos so incomparavelmente
mais ricas do que as disponveis sobre outras formaes histricas da mesma
regio, como por exemplo o Gurma e, obviamente, as sociedades nas quais o
poder poltico no  centralizado. A segunda razo  que qualquer tentativa de se
estabelecer uma histria formal dos Mossi suscita a questo capital da identifi-
cao dos "Mossi" mencionados nas duas crnicas clssicas, o Ta'rkh al-Sdn e
o Ta'rkh al-fattsh; veremos que da soluo desse problema depende a definio
de um quadro cronolgico satisfatrio para o conjunto territorial abordado neste
captulo.
    Deve-se comear necessariamente pela anlise das referncias que as crnicas
sudanesas fazem aos "Mossi". O Ta'rkh al-fattsh registra incurses mossi no
reino songhai de Gao que teriam ocorrido em meados do sculo XIII, isto ,
no primeiro quartel do perodo a que se refere este volume. O za Baray, contra
quem teriam guerreado os Mossi, foi, ao que parece, o mesmo za Beirafoloko
238                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



da lista dinstica estabeleci da por Jean Rouch1: sua autoridade no vale do Nger
estendia-se de Gao at Tillaberi. Foi no reinado de seu sucessor, o za Asibay,
que o reino de Gao passou  suserania do mansa Walin do Mali, que, segundo
Nehemia Levtzion, reinou de 1260 a 1277. O Ta'rkh al-fattsh, que no localiza
o territrio dos Mossi, conta-nos que estes por vezes invadiam a parte ocidental
da curva do Nger, onde a influncia do Mali esbarrava na dos tuaregues, que
dominavam ao norte. Os dois breves fragmentos do Ta'rkh al-fattsh a que
nos referimos2 fornecem importante indicao ao citarem um "Mossi koy", isto
, um "chefe" ou "rei" dos Mossi. Nada do que nos chegou permite supor que
esses Mossi fossem bandos de saqueadores mais ou menos sem comando; tudo
indica, ao contrrio, que estamos diante de povo ou grupo dirigente dotado de
forte organizao poltica e militar, talvez de tipo estatal, e de slida base terri-
torial, da qual sabemos apenas que se situava no interior da curva do Nger, sem
qualquer outra preciso. Em todo caso, essa sociedade militar encontrava-se
em condies, j desde a metade do sculo XIII, de enfrentar os principais
poderes hegemnicos que dividiam entre si a curva do rio. Finalmente, aqueles
fragmentos tambm mencionam incurses mossi na direo de Tombuctu; como
veremos, os Mossi dos Ta'rkh tero por objetivo permanente, durante toda a
sucesso de empreendimentos de grande envergadura em que se aventuraram, o
controle direto das praas comerciais do noroeste da curva.
    Seguindo a ordem cronolgica, tornamos a encontrar os Mossi da curva do
Nger nos tempos do mansa Kanku Ms (1312-1337), sendo que dessa vez os
acontecimentos so relatados pelo Ta'rkh al-Sdn. A clebre passagem relativa
 tomada de Tombuctu pelos Mossi merece ser citada integralmente;
      "Foi, ao que se afirma, o sulto Kanku Ms quem mandou construir o minarete da
      grande mesquita de Tombuctu, e foi quando reinava um dos prncipes de sua dinastia
      que o sulto dos Mossi,  frente de poderoso exrcito, comandou uma expedio contra
      essa cidade. Aterrorizados, os homens de Melli fugiram, abandonando Tombuctu aos
      invasores. O sulto dos Mossi penetrou na cidade, saqueou-a, incendiou-a, arruinou-a
      e, depois de mandar matar todos os que encontrou e de tomar todas as riquezas que
      viu, retomou a seu pas"3.
    Considera-se geralmente que a tomada de Tombuctu pelos Mossi se deu por
volta de 13374; assim, quase um sculo depois de ter ameaado Gao, no somente

1     ROUCH, 1953, p. 174, nota 13.
2     KA`TI. 1913-1914, p. 333-4.
3     AL-SA`D, 1900, p. 16-7.
4     MONTEIL, C., 1929, p. 414-5.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                           239



esse povo guerreiro no recuou, como ainda parece haver aumentado seu poderio.
Partindo de seu enigmtico pas, o "sulto" dos Mossi lana expedies contra terras
longnquas, ataca cidades grandes e provavelmente bem defendidas, o que supe
considervel potencial de homens, cavalos e armas. Ainda o Ta'rkh al-Sdn narra
uma incurso contra Benka (oeste da curva do Nger, a montante de Tombuctu),
que parece ter ocorrido pouco antes de 1433-1434, ano em que os tuaregues con-
quistaram Tombuctu5. Passara-se mais um sculo, e a ameaa mossi ainda persistia.
Com argumentao muito consistente, Rouch inclui a expedio contra Benka
numa srie de aes que teriam sido empreendidas na regio dos lagos6.
   Chegamos agora ao perodo mais conhecido da histria dos Mossi setentrionais,
que corresponde aos reinados de Sunn `Al e do Askiya Muhammad, menciona-
dos nos dois Ta'rkh; as referncias que figuram nessas fontes complementam-se
mutuamente.
   Para o reinado de Sunn `Al (1464-1492), as seguintes datas servem de
pontos de referncia:
   1464-1465: ascenso de Sunn `Al ao trono; guerra contra os Mossi, chefia-
   dos por um "rei" de nome Komdao; os Mossi so derrotados pelos Songhai,
   que os perseguem at o territrio bambara (Bamana), enquanto Komdao
   consegue refugiar-se em sua capital, Arguma;
   1470-1471 at 1471-1472: incurses songhai em territrio mossi, inicial-
   mente sob o comando de Sunn `Al e, depois, do yikoy Yat; destruio de
   Barkana, local de residncia do rei dos Mossi, e morte de um chefe mossi a
   quem o Ta'rkh al-fattsh atribui o ttulo de tenga niama;
   1477-1478: penetrao dos Mossi em territrio songhai, onde permanecem at
   1483-1484; tomada de Sama, localidade situada entre o rio Nger e Walata;
   1480: ocupao de Walata pelos Mossi, aps um ms de assdio, seguida da
   retirada dos invasores, que abandonam os prisioneiros de guerra aos moradores
   da cidade;
   1483-1484: Batalha de Kobi ou de Djiniki-To'oi, ocorrida aps a captura
   de membros da casa do chefe dos Mossi e a apropriao de seu tesouro de
   guerra pelos Songhai. Os Mossi retrocedem para seu pas, acossados pelos
   Songhai, que chegam a invadi-lo7.


5    Ver AL-SA`D, 1898, p. 45-6, a respeito de Benka, e KA`TI, 1913-1914, p. 118, 173 e 178, sobre a
     tomada de Tombuctu pelos tuaregues.
6    ROUCH, 1953, p. 177.
7    Sobre os Mossi da curva do Nger e Sunn `Al, ver KA`TI, 1913-1914, p. 85-6 e 88-9, e IZARD, 1970,
     p. 38-44.
240                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



    O que aconteceu entre os meados do sculo XV, marcados acima de tudo
pela incurso contra Tombuctu, e os meados do sculo seguinte, que parecem
fixar a um s tempo o apogeu do expansionismo mossi (com a tomada de
Walata) e o comeo de seus reveses? Sobre esse novo perodo de um sculo,
as fontes escritas se omitem. Dos acontecimentos que preenchem a segunda
metade do sculo XV, pode-se ao menos deduzir o seguinte: quando subiu ao
trono Sunn `Al, soberano de excepcional capacidade, os Mossi constituam
tal perigo para o Imprio Songhai que este s poderia firmar seu poder se
conseguisse destruir o adversrio. Sob o reinado de Sunn `Al, no se trata
mais de expedies ocasionais dos Mossi contra as cidades da curva do Nger,
nem tampouco de reaes defensivas por parte dos Songhai; trata-se de guerra
longa e implacvel, opondo duas grandes potncias militares que disputam a
hegemonia na regio. No final do reinado, Sunn `Al conseguiu vencer; seus
sucessores, porm, no se contentaro com essa vitria, aplicando-se em aniqui-
lar completamente os Mossi setentrionais, que no incio do reinado do Askiya
Muhammad ainda se mantinham como Estado, embora j sem qualquer poder
de iniciativa.
    Os fragmentos dos Ta'rkh que se referem  histria dos Mossi setentrio-
nais so muito pobres em fatos, porm fornecem importante informao: sob
Muhammad I (1493-1529) e seus sucessores, as guerras songhai contra os Mossi
passam a ser movidas em nome do Isl, sendo os Mossi chamados de "pagos",
da mesma forma que os habitantes do Gurma8. Em 1497-1498, Muhammad
dirige uma expedio contra o territrio mossi, governado pelo "sulto" Na`asira;
o exrcito songhai sai vitorioso, enquanto os Mossi contam numerosas perdas,
tendo sua capital destruda e suas mulheres e crianas arrastadas para o cativeiro.
Dwd (1549-1582) guerreia contra os Mossi em trs ocasies: no ano em que
sobe ao trono, em 1561-1562 e, finalmente, por volta de 1575. A expedio de
1561-1562 permite datar com preciso o quase desaparecimento do poder mossi
setentrional, que j existia, ento, at onde sabemos, por trs sculos. O Ta'rkh
al-Sdn conta-nos que, depois da segunda expedio de Dwd, "o chefe [dos
Mossi] abandonou o pas com todas as suas tropas". Da terceira e ltima expe-
dio conduzida por Dwd, a de 1575 (?), o mesmo Ta'rkh diz, lacnico, que
os Songhai retornaram "sem nada terem pilhado", o que certamente significa
que no havia mais nada a pilhar e que o exrcito songhai invadira um pas
despovoado e exaurido pela guerra9.

8     Ver KA`TI, 1913-1914, p. 114-5 e 134-5; AL-SA`D', 1900, p. 121-2 e 124.
9     Ver AL-SA`D', 1900, p. 168, 173 e 179.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                     241



    Assim, o carter fragmentrio da informao na qual temos de nos apoiar
no nos impede de dar  histria dos Mossi da curva do Nger uma trama
relativamente coerente. Durante mais de trs sculos, uma sociedade militar
conquistadora lutou contra os Songhai  visando controlar as terras do interior
e, depois, todo o rio  at ser finalmente vencida; o antagonismo poltico foi
reforado, a partir do reinado de Muhammad I, pelo antagonismo religioso.
Infelizmente s se podem formular hipteses muito vagas acerca da identidade
dos Mossi, bem como sobre a localizao de seu territrio; tudo indica que,
no sendo possvel qualquer recurso  tradio oral, a ampliao dos nossos
conhecimentos nesse setor depende exclusivamente dos resultados das inves-
tigaes arqueolgicas.
    Por enquanto, at que novas linhas de pesquisa sejam exploradas, dispomos
de algumas informaes, no provenientes dos Ta'rkh, que podem contribuir
para o conhecimento sobre os Mossi ou, pelo menos, para tornar mais con-
sistentes as hipteses acerca desse povo ou grupo. Boubou Hama alude a um
misterioso manuscrito, redigido em rabe e intitulado Aguinass Afriquia, que
dataria do sculo XV e cujo autor se presume ser Abkal Uld Audar10. Segundo
sabemos, essa crnica, tambm chamada Ta'rkh de Say, no foi publicada nem
traduzida; alm disso, embora Boubou Hama resuma seu contedo, no faz
nenhuma citao literal do texto. Portanto, segundo Boubou Hama  inspi-
rado em Audar  os Mossi, provenientes do leste, teriam fundado, na margem
esquerda do rio Nger, um Estado de nome Dyamare, cuja ltima capital foi
Rozi, no Dallol Bosso. O Estado de Rozi teria existido por aproximadamente
quinhentos anos, do sculo VIII ao XII. Por volta do sculo XII, ainda na
margem haussa do Nger, os Mossi criaram um segundo Dyamare, cujo cen-
tro poltico era Mindji; Rozi fora abandonada devido  presso berbere. Foi
efmera a existncia do segundo Dyamare; pouco tempo aps sua fundao,
os Mossi, acossados pela fome, atravessaram o rio e se instalaram na margem
gurma. Depois de vencerem os povos da regio  os Gurmankyeba e talvez os
Kurumba  fundaram o terceiro e ltimo Dyamare. Enquanto no dispusermos
do texto completo e autenticado do Ta'rkh de Say, no poderemos analisar
cientificamente as informaes fornecidas por Boubou Hama nem (o que seria
o mais importante) julgar a validade de certas indicaes cronolgicas por ele
apresentadas   o caso, por exemplo, da data de 1132, que marcaria a passagem
do segundo ao terceiro Dyamare e que, segundo L. Tauxier11, corresponderia

10   HAMA, 1966; ver IZARD, 1970, v. 1, p. 47-8.
11   TAUXIER, 1924, p. 22.
242                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



ao incio do reinado do za Baray, primeiro soberano songhai a lutar contra os
Mossi, de acordo com os Ta'rkh clssicos.
   Em outro documento rabe, este bem conhecido, o Maslk al-Absr f 
Mamlk al-Amsr, escrito em 1337 (o ano em que se supe ter ocorrido a
tomada de Tombuctu pelos Mossi), Ibn Fadl Allh al-`Umar relata uma con-
versa entre o mansa Ms e o futuro emir Ab' l-Hasan `Al, um dos informantes
do cronista. Quando o egpcio pergunta ao soberano do Mali contra quem ele
est em guerra, este ltimo responde: "Temos um inimigo encarniado que,
para os negros,  como os trtaros para vs"; o imperador acrescenta que esses
inimigos "lanam flechas com muita destreza" e possuem "cavalos castrados
de nariz fendido"12. Embora a prtica de castrar cavalos fosse desconhecida no
interior da curva do Nger, podemos nos perguntar se os cavaleiros em questo
no seriam os Mossi setentrionais.
   Sabemos que o mercador genovs Antonio Malfante viajou pelo Tuat em
1447; uma carta escrita em latim a seu compatriota Giovanni Mariono  editada
por La Roncire13 contm uma passagem que, segundo Yves Person, aludiria
aos Mossi setentrionais14. Falando de uma cidade chamada Vallo (que Person
identifica como Walata), Malfante conta que um "rei `fetichista' comandando
500 mil homens" veio assedi-la.
   Uma ltima fonte escrita a ser citada so as Dcadas da Asia (1552-1553), em
que Joo de Barros fala do povo dos "Moses". O autor portugus relata a visita de
um prncipe wolof (diolof ), de nome Bemoy,  corte de D. Joo II, em 1488. Bemoy
explicou ao rei de Portugal que o territrio dos "Moses" se estendia de Tombuctu
para o leste, localizao coerente, em se tratando dos Mossi setentrionais, com a
sugerida pela leitura dos Ta'rkh. O poderio do rei dos "Moses" pareceu to grande
a D. Joo II que ele pensou tratar-se do famoso Preste Joo, descendente da rainha
de Sab, que est, conforme sabemos, na origem legendria da monarquia etope.
Bemoy contou que havia guerras entre o rei dos "Moses" e Mandi Mansa, "rei dos
Manden", e apresentou os costumes dos "Moses" de tal maneira que seus interlo-
cutores se convenceram de que fossem cristos; tal como os autores dos Ta'rkh15,
Joo de Barros conclui que, pelo menos, no eram muulmanos.

12    Passagem citada no Empire du Mali, 1959, p. 61.
13    LA RONCIRE, 1924-1927, v. 1, p. 156; La Roncire d o texto latino da carta, bem como a traduo
      em francs.
14 PERSON, 1962, p. 45-6; observemos que o nome Vallo, utilizado por C. de La Roncire, torna-se Wallo,
   segundo Y. Person; ver IZARD, 1970, v. 1, p. 50-3.
15    Ver o texto de Joo de Barros in MARC, 1909, p. 6-18; ver igualmente TAUXIER, 1917, p. 84-5, e
      IZARD, 1970, v. 1, p. 53-5.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                          243



   Assim, as Dcadas de Joo de Barros pouco mais fazem que confirmar as cr-
nicas de Tombuctu; quanto s demais fontes escritas citadas, embora no sejam
explcitas, ao menos deixam patente que durante o sculo XV o Mali e o Imprio
Songhai confrontaram-se com um poder negro e "pago", com o qual as outras
grandes potncias hegemnicas dessa parte da frica ocidental mantiveram-se
em conflito constante. Alm disso, devemos a Claude Meillassoux16 a coleta
de interessantes tradies orais do Mali, que, no obstante suscitarem delica-
dos problemas de interpretao, parecem referir-se aos Mossi setentrionais.
Meillassoux localiza os vestgios desse povo em regio muito distante da curva
do Nger, a do Hodh, do Kaniaga e do Wagadu; at o presente momento so
essas as nicas tradies orais que remetem ao povo guerreiro dos Ta'rkh. No
Diankoloni ( Jankoloni), entre Niamina e Nara, existe uma fileira de poos que,
segundo a memria oral, teriam sido cavados pelos Mossi  o que, havemos de
notar, casa-se mal com a imagem exclusivamente guerreira que temos deles.
Na mesma rea, os Mossi teriam aniquilado ou assimilado a maior parte dos
cls Sumar, enquanto os cls Diarisso ( Jarisso) resistiram vitoriosamente aos
invasores. Guarda-se a lembrana da batalha que teria sido travada entre os
Mossi e os povos da regio, nas cercanias do stio atual de Dianguit-Kamara,
uns cem quilmetros ao sul de Murdiah. No Hodh, os Mossi teriam ocupado
vrias localidades e instalado uma chefaria regional em Gara, controlando cerca de
quarenta aldeias; finalmente, teriam invadido Daol-Guilb, a pequena distncia
do stio de Kumbi- Saleh17.


     Os Mossi da curva do Nger e os Mossi da bacia do Volta:
     a tese clssica
    Os autores dos primeiros trabalhos sobre os Mossi da bacia do Volta Branco
fundaram suas anlises histricas na tradio oral  que associa o conjunto das
dinastias reais Mossi  descendncia de um nico ancestral, Naaba Wedraogo
 e estabeleceram uma relao explcita entre a origem dos reinos mossi e a dos
Estados mamprusi-nanumba-dagomba. Foram M. Delafosse18, L. Frobenius19e


16   Comunicao pessoal, utilizada por IZARD, 1970, v. 1, p. 55-6.
17   Kumbi-Sleh: suposta capital do Imprio de Gana. O stio de Kumbi-Sleh encontra-se 60 quilmetros
     ao sul de Timbedra, na Mauritnia.
18   DELAFOSSE, 1912, v. 2, p. 140-2.
19   FROBENIUS, 1925, p. 260-2.
244                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



L. Tauxier20 os primeiros a tentar traar uma histria dos Mossi, partindo o
primeiro do exame das monografias administrativas coloniais de 1909 e os dois
ltimos de materiais que eles prprios recolheram. Nas atuais tradies mossi
no se encontram quaisquer vestgios de aes que esse povo possa ter diri-
gido contra os Songhai no passado, nem de uma duradoura presena mossi no
interior da curva do Nger. Os autores citados conheciam o Ta'rkh al-Sdn;
o Ta'rkh al-fattsh, porm, s foi editado e traduzido posteriormente  outra
grande crnica de Tombuctu, sem exegese to rigorosa. A despeito do silncio
da tradio oral mossi acerca daqueles a quem chamamos de Mossi da curva
do Nger, os fundadores da historiografia mossi jamais puseram em questo
que os Mossi setentrionais e os do rio Volta Branco constitussem um nico
povo. Essa hiptese  pois no passava de mera hiptese, fundada quase exclu-
sivamente numa aproximao etnonmica  podia ser formulada,  claro, e era
at normal que o fosse, mas, uma vez apresentada, os historiadores tinham
de verific-la e, caso faltassem provas decisivas, abandon-la. Ora, a hiptese
jamais foi verificada, pois no se pode considerar como prova razovel de sua
validade a possvel relao entre, por exemplo, o nome de um chefe mossi
citado nas crnicas  Na`asira21  e o de um dos soberanos do Yatenga, de
quem, por sinal, nada se sabe22. Foi, portanto, sobre bases to frgeis que se
constituiu a histria dos Mossi, com o risco de omitir justamente aquilo que
constitui a originalidade das formaes estatais ou pr-estatais dos Mossi da
curva do Nger e, mais ainda, de esterilizar a pesquisa histrica sobre eles, ao
dar por resolvida uma questo que nem mesmo foi colocada. Assimilando os
Mossi da curva do Nger aos do Volta Branco, M. Delafosse e L. Tauxier, em
especial, produziam sem maiores esforos um quadro cronolgico onde inserir
a histria dos reinos mossi atuais; ao mesmo tempo, davam a essa cronologia
uma "extenso" muito superior  que se pode deduzir do simples estudo das
tradies orais desses reinos e das formaes histricas vizinhas. Com efeito,
para manter a validade da tradio dominante relativa  origem meridional
dos reinos mossi atuais e fazer dos Mossi do rio Volta Branco os conquista-
dores de Tombuctu era preciso levantar a seguinte hiptese complementar: os
Mossi s puderam lanar-se em expedies militares de longo alcance aps
terem seu poder solidamente estabelecido entre os povos autctones da bacia


20    TAUXIER, 1917, p. 67-84.
21    DELAFOSSE, 1912, v. 2, p. 141-2; TAUXIER, 1917, p. 81.
22    Trata-se do Yatenga naaba de nome Nasodoba, que reinou, por curto perodo, na primeira metade do
      sculo XVII.
                                                                                                      Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta
                                                                                                      245
Figura 9.1   Mapa da regio da curva do Nger e da bacia do Volta, 1100-1600. (Fonte: Izard, 1970.)
246                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



do Volta; as aes mencionadas nos Ta'rkh no poderiam, ento, ter ocorrido
nos primeiros tempos da histria dos reinos. Para tornar plausvel hiptese
to arriscada quanto carente de verificao, M. Delafosse terminou por situar
os primrdios da histria dos atuais reinos mossi por volta do final do sculo
X23. Isso implicava, quer esticar consideravelmente a durao mdia do reinado
de cada um dos soberanos mossi cujo tempo de governo no fosse registrado
pela tradio oral, quer considerar que as listas dinsticas recolhidas em terri-
trio mossi comportam numerosas lacunas, o que  a um tempo improvvel e
impossvel de se verificar, considerando-se a riqueza do material genealgico
que a tradio oral fornece sobre as dinastias de reis e chefes.
    Devemos a um administrador militar francs, o capito Lambert24, a crtica,
j em 1907,  assimilao dos Mossi dos Ta'rkh aos Mossi atuais. Infelizmente
para a historiografia mossi, o estudo de Lambert  a despeito de sua qualidade
 jamais foi publicado, assumindo as teses de M. Delafosse e L. Tauxier o
carter de dogma, sem que sequer fossem consideradas as divergncias entre os
dois autores e, sobretudo, a origem dessas divergncias25. Foi preciso aguardar
o ano de 1964 para que a tese que chamamos de "clssica"  a de M. Delafosse
e L. Tauxier  recebesse crtica radical, por parte do eminente historiador
britnico John Fage. Num artigo memorvel26, Fage procede a um reexame
atento da tese clssica e, depois de refut-la, prope uma reinterpretao de
conjunto da histria dos "Mossi" a partir da ntida distino entre os Mossi
da curva do Nger e os da bacia do Volta, sem com isso descartar a hiptese 
admitida com muitas restries  de uma possvel relao entre os dois grupos.
Para Fage, a tese clssica depara com uma dificuldade insupervel no que se
refere  cronologia. Como resultado de estudo que empreendera juntamente
com o saudoso David Tait acerca das tradies orais dagomba, Fage concluiu
que tanto a cronologia clssica da histria dos Mossi como a proposta por E.
F. Tamakloe, geralmente aceita para a histria dos Dagomba, eram excessiva-
mente longas; assim, props situar por volta de 1480 o incio do reinado de
Na Nyaghse, fundador do Estado dagomba27. Para Fage, o surgimento da for-
mao estatal de que se originaram os reinos em estudo no pode ser anterior


23    DELAFOSSE, 1912.
24    Preserva-se o original da monografia de Lambert nos Arquivos do Senegal, em Dacar.
25    Delafosse jamais revisou sua obra aps a publicao (em 1912), ao contrrio de Tauxier, cujas teses de
      1924 oferecem uma interpretao dos Ta'rkh mais matizada que as de 1917.
26    FAGE, 1964a.
27    As pesquisas de J. D. Fage e D. Tait sobre a histria do reino dagomba no foram publicadas.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                      247



ao sculo XV. Ele aceita a hiptese da origem comum dos Mossi setentrionais
e dos Mossi dos rios Volta, mas associa os primeiros a uma fase pr-estatal e
os outros a uma fase estatal da mesma histria. Seguindo a perspectiva aberta
por Fage, Nehemia Levtzion28 props, em 1965, um quadro cronolgico com-
parado para o conjunto dos Estados da bacia do Volta (excluindo o Gurma, a
cujo respeito faltam informaes). Estabelecidos com base nas listas dinsticas
disponveis e atribuindo uma durao mdia de quarenta anos para cada gera-
o, os resultados de Levtzion concordam com os de Fage, j que o reinado
de Na Nyaghse  situado de 1460 a 1500, correspondendo as duas geraes
anteriores (a primeira, fundao do reino mamprusi; a segunda, fundao do
reino nanumba) s sequncias 1380-1420 e 1420-1460.
    Tambm procuramos contribuir para esse debate29, propondo um quadro
cronolgico para a histria das formaes estatais dos rios Volta, com base
no estudo do material genealgico mossi, especialmente no que se refere aos
dois principais reinos mossi atuais, Uagadugu (Wogodogo) e Yatenga. O
mtodo empregado consistiu em definir, inicialmente, uma data-piv para a
fundao do Yatenga, determinando-se, para isso, uma durao mdia para
as geraes, por sua vez obtida a partir do exame das duraes conhecidas
de reinados pr-coloniais. Destarte, chegamos  data de 1540 para a fun-
dao do Yatenga; em seguida, remontamos de Naaba Yadega, fundador do
Yatenga, at seu ancestral Naaba Wubri, fundador do reino de Uagadugu,
utilizando as caractersticas distintivas da genealogia dinstica de Uagadugu
para efetuar essa segunda extrapolao. Pudemos, ento, situar em 1495 o
incio do reinado de Naaba Wubri. Para remontar aos tempos anteriores
 fundao do reino de Uagadugu, a pobreza do material cronolgico bem
como as incertezas quanto ao modo de transmisso do poder levaram-nos a
propor uma cronologia aberta, na qual a durao mdia das geraes variasse
de quinze a trinta anos. Antes de Naaba Wubri, as genealogias reais mossi
citam seu "pai", Naaba Zungrana, o "pai" deste, Naaba Wedraogo, e a me
deste ltimo, Yenenga, primeira filha (?) do fundador do reino mamprusi,
chamado de Na Bawa ou Gbewa pelos Mamprusi, e de Na Nedega pelos
Mossi e pelos Dagomba. Assim, obtivemos os seguintes resultados, nos quais
as datas indicadas assinalam os incios de "reinados" reais ou fictcios ( este
o caso, pelo menos, de Yenenga):


28   LEVTZION, 1968, p. 194-203.
29   IZARD, 1970, v. 1, p. 56-70.
248                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




                  Durao
                                15 anos      20 anos      25 anos          30 anos
 Reinado
 5. Naaba Wubri                   1495         1495          1495              1495
 4. Naaba Zungrana                1480         1475          1470              1465
 3. Naaba Wedraogo                1465         1455          1445              1435
 2. Yenenga                       1450         1435          1420              1405
 1. Na Bawa                       1435         1415          1395              1375

   O leitor observar que, nesse quadro, cada coluna corresponde  mesma dura-
o mdia para todas as geraes; pode-se pensar, porm  e  esta a hiptese mais
verossmil  que, entre uma gerao e outra, possam ter variado as duraes, de
modo que um quadro completo deveria levar em conta uma verdadeira combi-
natria de tempos distintos. Sob a forma apresentada, essa cronologia aberta no
entra em contradio com a proposta por Levtzion, uma vez que este, baseando-
-se numa durao mdia de quarenta anos para cada gerao, situa o reinado de
Na Bawa entre 1380 e 1420, enquanto nossas hipteses de durao mais longa
permitem dat-lo entre 1395 e 1420 (durao de 25 anos), ou entre 1375 e 1405
(durao de trinta anos).


      A origem dos Estados da bacia do Volta:
      nossos conhecimentos atuais
   Comecemos resumindo o que podemos extrair das diversas fontes relativas
aos Mossi da curva do Nger. Na primeira metade do sculo XIII, os Proto-
mossi do Dyamare II (que tinham Mindji como capital) atravessaram o rio na
regio de Say e fundaram o terceiro Dyamare. Os primeiros tempos da histria
do Dyamare III parecem ter sido dominados por guerras contra os Songhai de
Gao, certamente com a finalidade de consolidar a nova formao territorial. No
sculo XIV, alcanado esse objetivo, a expanso mossi deixou de visar o leste,
voltando-se para o oeste da curva do Nger, como indica a expedio de 1337
contra Tombuctu. O sculo XV principiou com novo avano mossi rumo ao
oeste e ao noroeste, em que se inclui a incurso contra Benka. A segunda metade
do sculo XV foi marcada inicialmente por considerveis sucessos mossi; depois,
pela vigorosa contra-ofensiva dos Songhai que, sob a chefia de Sunn `Al, con-
quistaram rpida vitria. Posteriormente, do reinado do Askiya Muhammad ao
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                       249



do askiya Dwd  por quase um sculo , os Mossi mantiveram-se na defensiva,
enquanto os soberanos songhai, muulmanos, pregavam contra eles a guerra
santa. Por volta de 1575 j se esgotara toda a resistncia organizada dos Mossi
setentrionais.
    Enquanto no pudermos contar com informaes satisfatrias sobre o
Gurma, e enquanto a pesquisa arqueolgica no constituir alternativa para a
anlise de textos e a coleta de tradies orais, no estaremos em condies de
propor hipteses vlidas acerca da relao entre os Mossi setentrionais e os da
bacia do Volta, nem, em escala mais ampla, entre os Mossi dos Dyamare e os
guerreiros que participaram da formao do reino mamprusi, do qual nasceram,
por um lado, as formaes nanumba e dagomba, e, por outro, as atuais formaes
mossi, das quais talvez tenha surgido, finalmente, a atual Dinastia de Nungu
(Fada Ngurma). A questo  importante; refere-se, na verdade, ao modo pelo
qual se difundiu um modelo de organizao poltica atravs de vasta regio
da frica ocidental a partir, talvez, do Bornu, sendo Zamfara, no atual pas
haussa, uma de suas possveis etapas. O que parece firmemente estabelecido
 que os ancestrais dos soberanos mamprusi vinham do leste. As tradies de
Gana setentrional dizem que o ancestral original direto de Na Bawa, primeiro
soberano mamprusi (final do sculo XIV ou incio do XV) teria sido um "caa-
dor vermelho", conhecido pelo nome de Tohajiye. Seguiremos, aqui, a tradio
dominante, recolhida entre os Dagomba por E. F. Tamakloe, em 193130.
    Tohajiye vivia numa caverna e caava em regio vizinha ao reino de Malle,
situado nas proximidades do territrio haussa. Estando em guerra com seus
vizinhos, o rei de Malle pediu ajuda a Tohajiye; uma vez alcanada a paz, o sobe-
rano ofereceu-lhe como recompensa uma das filhas, Pagawolga, que era manca.
Pagawolga deu a luz a um filho, Kpogonumbo; todas as tradies afirmam que
tinha a estatura de um gigante e alguns mitos de fundao acrescentam que s
tinha "um brao e uma perna". Kpogonumbo permaneceu junto do pai at che-
gar  idade adulta. Novamente em dificuldades, o rei de Malle solicitou ao filho
a ajuda que j no podia pedir ao pai. Depois de guerrear com sucesso, por conta
de seu protetor, Kpogonumbo preferiu partir para oeste, em vez de retornar 
caverna paterna. Depois de vrios dias de viagem, chegou a Biun, no Gurma.
O "senhor da terra" de Biun deu a Kpogonumbo uma das filhas, Suhusabga ou
Sisabge. Dessa unio nasceram cinco filhos: dois gmeos, que morreram cedo,
depois Namzisielle, Nyalgeh e Ngmal-gensam. Desejando tornar-se senhor


30   TAMAKLOE, 1931.
250                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



de Biun, Kpogonumbo matou o sogro e fez-se reconhecer como chefe. Essa
usurpao, porm, provocou a ira de Daramani, rei do Gurma, que entrou em
guerra contra o novo chefe de Biun; no conseguindo vencer Kpogonumbo,
Daramani decidiu-se a firmar a paz e, em penhor de seu acordo, ofereceu ao
antigo adversrio uma das filhas, Soyini ou Solyini. Esta deu  luz quele que,
mais tarde, seria chamado Na Bawa ou Gbewa, conhecido entre os Dagomba e
os Mossi pelo nome de Na Nedega. Da descendncia imediata de Kpogonumbo,
somente esse ltimo filho haveria de deixar o Gurma para procurar a fortuna em
outra parte.  frente de considervel tropa, penetrou no territrio hoje ocupado
pelos Kusasi e instalou-se em Pusuga, de onde moveu guerra contra os Kusasi
e os Bisa visando firmar sua autoridade na regio.
    Na Bawa teria tido nove filhos: uma primognita, de nome Kachiogo, e oito
vares, que se chamaram  por ordem de nascimento  Zirili, Kufogo, Tohago,
Ngmantambo, Sitobo, Sibie, Biemmone e Bogoyelgo. Embora o sucessor devesse
ser Zirili, o mais velho dos filhos homens, Na Bawa entendeu-se com os outros
para excluir do poder o herdeiro presuntivo, de quem receava a perversidade.
Assim, Na Bawa escolheu como sucessor o segundo filho, Kufogo; porm Zirili,
que atravs da me soubera o que se tramava contra ele, mandou matar o herdeiro
designado. Ao ser informado da perda de Kufogo, Na Bawa tambm morreu. A
filha mais velha de Na Bawa, Kachiogo, subiu ao trono, mas Zirili conseguiu priv-la
do poder rgio, s lhe deixando, a ttulo de consolao, a chefia de Gundogo. Zirili
aparece como o verdadeiro organizador do reino mamprusi. Quando morreu, eclo-
diu entre trs dos irmos mais jovens  Tohago (Tosugu), Ngmantambo e Sitobo
 um conflito pela sucesso. Tohago foi expulso do reino de Na Bawa; fundou
Nalerigu, onde se originou a atual Dinastia Mamprusi. Ngmantambo instalou-se
entre os Nanumba, de quem se tornou rei. Quanto a Sitobo, fixou-se primeiro em
Gambaga, depois em Nabare; ainda era vivo quando o filho mais velho, Nyaghse,
estabeleceu-se em Bagale; nele se enraza a Dinastia Dagomba.
     evidente que o que foi exposto em poucas linhas mereceria desenvolvi-
mento bem mais extenso, pois, a rigor, dever-se-ia considerar a multiplicidade de
variantes que essa tradio geral conhece. Neste trabalho, porm, importa sobre-
tudo tentar extrair desse material indicaes histricas vlidas para o conjunto.
    Se nossa cronologia  ou a de Levtzion, to prxima da nossa  for aceita, a
proto-histria mamprusi ter-se-ia desenvolvido em territrio haussa (na margem
haussa do Nger), depois no Gurma, no correr do sculo XIV, isto , na poca em
que os Mossi da curva do Nger empenharam-se nas primeiras grandes expedies
rumo a oeste. Se  que h alguma relao entre esses Mossi e os ancestrais dos
Mamprusi, ela s poderia situar-se numa origem comum, porm antiga, remon-
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                            251



tando talvez aos tempos do segundo reino de Dyamare (margem haussa do Nger)
ou do terceiro (margem Gurma). Poder-se-ia fixar no sculo XIII a poca em que,
partindo da base territorial dos Protomossi, guerreiros mercenrios penetraram
no Gurma, atravessaram-no e chegaram  regio de Pusuga. Ter-se- observado
que as tradies dagomba relatadas por E. F. Tamakloe mencionam um rei de
Malle, nome que bem pode evocar o do Mali. A esse propsito, vale assinalar que
os atuais Mossi do Yatenga distinguem dois "Manden": um Manden ocidental,
correspondendo ao Mali, e um Manden oriental, do qual proviriam os Kurumba
do Lurum31 e os Mossi da antiga chefaria menor de Bursuma32.
    Como dissemos, Na Bawa  conhecido entre os Mossi atuais pelo nome
de Na Nedega, podendo-se assimilar Kachiogo, filha mais velha de Na Bawa
segundo a tradio dagomba, a Yenenga, primognita de Na Nedega de acordo
com a tradio mossi. O que nos importa aqui  menos o pormenor das tradi-
es, por sinal to complexo, do que os dois fatos seguintes: a) existe uma relao
direta entre a formao dos Estados mamprusi, nanumba e dagomba, por um
lado, e os Estados mossi, por outro; b) esta relao direta no  de natureza
agntica  tipo de relao que prevalece nas dinastias setentrionais de Gana 
porm uterina, o que, numa sociedade patrilinear,  a marca inegvel de soluo
de continuidade, de uma dialtica da continuidade e da ruptura histricas.
    Recenseamos pelo menos 15 verses da histria legendria da origem dos
reinos mossi, e  certo que uma coleta cuidadosa das tradies orais revelaria
muitas outras. Examinemos a tradio que se poderia chamar dominante, isto ,
a que predomina indiscutivelmente em territrio mossi, especialmente no reino
do Uagadugu. Diz ela que Na Nedega, rei dos Dagomba (e no dos Mamprusi),
cuja capital era Gambaga, tinha uma filha primognita, Yenenga, que ele se
recusava a dar em casamento, preferindo conserv-la a seu lado em virtude de
suas qualidades guerreiras. As diferentes verses da tradio dominante hesitam
quanto s razes que conduziram Yenenga, montada num garanho, at uma
floresta nas cercanias de Bitu, onde se perdeu. Estaria fugindo da casa do pai,
pouco desejosa de sacrificar sua feminilidade aos desgnios belicosos daquele,
ou teria seu cavalo, em corrida desenfreada, desgarrado da tropa de cavaleiros
que ela dirigia? O fato  que os azares do galope proposital ou casual a fizeram
conhecer, em plena floresta, um prncipe de origem manden, Ryale ou Ryare, de


31   Para uma sntese de conjunto a respeito dos Kurumba, ver SCHWEEGER-HEFEL & STAUDE, 1972,
     especialmente as p. 19-127.
32   Bursuma  uma aldeia no centro do Yatenga, cujos habitantes dizem ser Mossi do Manden oriental; no
     entanto, so considerados pelos demais Mossi como "filhos da terra".
252                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



profisso caador de elefantes. Desse encontro nasceu um menino, conhecido
em territrio mossi pelo nome de Naaba Wedraogo, da palavra moore (mossi)
wedraogo, que significa "garanho". Naaba Wedraogo haveria de ser o primeiro
dos Mossi, o ancestral comum a um povo inteiro.
    As tradies disponveis calam-se a propsito de Ryale, que s intervm
como genitor de Naaba Wedraogo; em termos sociais, Naaba Wedraogo no
tem "pai",  filho apenas de Yenenga. Essas mesmas tradies tambm so avaras
de detalhes acerca do fim da vida de Yenenga e os comeos do filho na cena
histrica. Algumas delas, porm, acrescentam que, ao chegar  idade de portar
armas, Naaba Wedraogo foi apresentado pela me ao av materno, que deu ao
neto uterino o comando de uma tropa de guerreiros. Recordemos que agora
estamos, provavelmente, em meados do sculo XV.
    Nessa poca j so numerosos os indcios da existncia do Estado do Gurma,
ainda que os soberanos de ento no pertencessem forosamente  dinastia reinante
atual. Mais do que um Estado centralizado e nico, o Gurma devia ser ento  e,
em certa medida, permaneceu  uma confederao de chefarias territoriais mais
ou menos independentes entre si. Sabe-se que os Ta'rkh mencionam o Gurma;
a ltima expedio de Sunn `Al foi dirigida contra esse pas, no final do sculo
XV33. No sculo XVI, todos os soberanos songhai efetuaram incurses contra os
"pagos" do Gurma. No apndice ao Ta'rkh al-fattsh escrito por Ibn al-Mukhtr,
neto do principal autor da crnica, Mahmd Ka`ti, fala-se da entrada do askiya
Ishk em Bilanga, "residncia real do soberano do Gurma"34. Entretanto, com essas
poucas excees,  quase total nossa ignorncia quanto s origens do Estado do
Gurma  ou dos diversos Estados que se sucederam no mesmo territrio.
    A tradio dominante mossi, porm, tem algo a dizer sobre a origem da Dinas-
tia de Nungu: segundo ela, o primeiro nunbado (isto , soberano de Nungu), Jaaba,
ancestral dos Lompo, seria filho de Naaba Wedraogo. Mas essa tradio , ao que
parece, relativamente tardia, e, sem dvida, procede do imperialismo ideolgico
mossi. Em Durtenga, Junzo Kawada35 recolheu uma tradio segundo a qual
Jaaba seria filho de Na Nedega, rei de Gambaga.  significativo que tais tradies
paream ser ignoradas justamente em Gurma, onde se conta que, assim como o
primeiro rei kurumba do Lurum36, o primeiro soberano de Nungu teria descido



33    AL-SA`D', 1900, p. 105, 115 e 116.
34    KA`TI, 1913-1914, p. 275-6, nota 1, e p. 276, nota 2.
35    KAWADA, 1979.
36    STAUDE, 1961.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                              253



do cu, lenda que, ao menos, serve para marcar a autonomia da histria dinstica
do Gurma frente s dinastias setentrionais de Gana e dos Mossi.


     Os primrdios da histria dos reinos Mossi
    No decorrer do sculo XVI, os descendentes de Naaba Wedraogo vo ampliar
o domnio sobre o conjunto dos povos do vale do rio Volta Branco; na direo
oeste, atravessaro o Volta Vermelho; Boromo, no vale do Volta Negro, marcar
o termo da expanso ocidental dos Mossi. Em etapa posterior, os contornos do
territrio mossi se reduziro, mas tambm se estabilizaro, conservando-se as
mesmas fronteiras externas at o perodo colonial, quando se desenvolver um
expansionismo mossi de novo tipo, centrado na colonizao agrcola.
    Durante muito tempo os primrdios da histria do reino mossi mantiveram-se
obscuros para os historiadores, especialmente devido  preeminncia que a tra-
dio de Tenkudugo (Tenkogodo) veio a adquirir em pocas mais recentes sobre
as tradies das chefarias meridionais que, embora mais antigas, so hoje pouco
difundidas. Graas aos trabalhos de Junzo Kawada37, pode-se hoje conceber
com bastante preciso a complexa formao das chefarias territoriais no sul do
territrio mossi. Tal complexidade ainda constitui obstculo para uma viso de
conjunto da histria mossi; certo , porm, que esta pressupe um longo perodo
de maturao, que precedeu a conquista propriamente dita do vale do rio Volta
Branco e a implantao das grandes dinastias reais que hoje conhecemos. Segundo
Kawada, o reino mamprusi originou-se sob sua primeira forma, em Pusuga;
Zambarga e Sanga seriam, strictu sensu, as mais antigas chefarias regionais mossi.
Ao que parece, as dinastias locais de Durtenga e Komin-Yanga, cujos chefes so
Gurmankyeba  ou, mais exatamente, Yase38, vieram diretamente de Pusuga, e
j vimos que a atual Dinastia de Nungu poderia ter-se originado em Durtenga.
Da chefaria de Zambarga teria provindo a de Kinzem, que por sua vez teria dado
origem s de Wargay, Lalgay e Tenoagen; os primeiros conquistadores teriam
partido de Kinzem rumo ao noroeste. A Dinastia de Tenoagen teria originado
a de Gode, da qual ter-se-ia destacado a de Tenkudugo.
    Durante um perodo que parece ter sido preparatrio para empreendimentos
poltico-militares ambiciosos, os Mossi restringiram suas atividades ao territrio


37   KAWADA, 1979.
38   O termo yanga designa o leste, em lngua moore; os Yase vivem a leste dos Mossi da zona meridional e
     so considerados intermedirios entre os Mossi e os Gurmankyeba.
254                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



meridional compreendido pelas imediaes de Zambarga, Kinzem e algumas loca-
lidades menores. Aps isso, as conquistas mossi se expandiram rapidamente. Duas
figuras fundamentais dessa histria primitiva  Naaba Rawa e Naaba Zungrana,
cujos feitos podem ser situados na segunda metade do sculo XV  colocam-se,
segundo a tradio oral, entre os "filhos" de Naaba Wedraogo.  quase desnecessrio
assinalar que as relaes de filiao  e, da mesma forma, as de fraternidade  que
estabelecemos entre os primeiros personagens da histria mossi so extremamente
problemticas;  o caso, notadamente, das ligaes entre Naaba Wedraogo,
Naaba Rawa e Naaba Zungrana. A esse respeito, alis, convm notar que as
tradies que se referem a esses dois supostos filhos de Naaba Wedraogo so
mutuamente excludentes: quando se conhece Naaba Rawa, ignora-se Naaba
Zungrana, e vice-versa. Finalmente, se a existncia histrica de Naaba Rawa
no admite dvidas, pela quantidade e coerncia das informaes e testemunhos
relativos a ele, a de Naaba Zungrana  muito duvidosa. Enquanto deste ltimo
s encontramos vestgios em algumas localidades do centro e do sul do territrio
mossi, Naaba Rawa assume nitidamente a estatura de grande conquistador.
    Os msicos do Yatenga sadam Naaba Rawa com os ttulos de chefe de Po
(territrio kasena, conhecido como Pugo, na lngua moore), Zondoma, Sanga
e Dubare; estas trs ltimas localidades atualmente pertencem ao territrio
do grande reino mossi setentrional. Naaba Rawa foi o fundador da nica das
formaes polticas mossi que mereceu o nome de "imprio". O Imprio de
Rawatenga39 reuniu sob uma autoridade nica, por curtssimo espao de tempo,
a maior parte do atual territrio mossi, existindo em sua regio central consi-
dervel rede de chefarias locais, das quais as principais foram Nyu, Nanoro,
Sao, Dapelego, Meje e Yabu. O Rawatenga, porm, no conseguiu manter a
unidade, devido s suas dimenses excessivamente grandes e ao fato de se ter
constitudo cedo demais, quando ainda era fraca a densidade das chefarias mossi
e apenas parcial a submisso dos povos autctones. Embora alguns dos filhos
ou companheiros de Naaba Rawa pudessem conservar por muito tempo suas
chefarias no centro do territrio mossi, a nica formao poltica coerente a sair
do Rawatenga, ainda em vida de seu fundador, foi o reino de Zondoma, que
assumiu o nome de uma das trs residncias de Naaba Rawa no atual territrio
do Yatenga. Naaba Rawa terminou as suas conquistas na plancie do Gondo,
povoada pelos Dogon, a quem expulsou do Yatenga para a falsia de Bandiagara


39    A palavra tenga quer dizer "terra", em moore, tendo tambm o sentido de "territrio"; vm da formaes
      como "Rawatenga" (territrio ou terra de Rawa), "Yatenga" (territrio ou terra de Yadega), "Wubritenga"
      (territrio ou terra de Wubri) etc.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                            255



(Sanga e Dubare hoje se situam no limite dos territrios mossi e dogon). No
norte, Naaba Rawa criou vrias chefarias locais, que entregou a filhos, irmos
mais moos e lugares-tenentes. Em nossos dias, so numerosos no Yatenga
os chefes que pertencem, diretamente ou por assimilao,  descendncia de
Naaba Rawa  entre eles se conta o chefe da aldeia de Zondoma, onde est
enterrado o conquistador ; tm o status de "senhores da guerra" (tasobanamba)
e, durante toda a histria do reino, forneceram  corte grande nmero de dig-
nitrios (nayiridemba). Foi em grande parte s custas do reino de Zondoma
que se desenvolveu territorialmente o Yatenga, a partir da segunda metade do
sculo XVI. Conforme j foi exposto, a historiografia mossi pouco tem a dizer
a respeito de Naaba Zungrana, "irmo" mais novo de Naaba Rawa. H, porm,
vestgios de sua presena em diversos pontos do pas, especialmente na regio
meridional de Manga, e consta que os dois pequenos reinos do Ratenga e do
Zitenga, que se limitam com o Yatenga ao sudeste, teriam sido fundados por
"filhos" desse chefe pouco conhecido.
    Nessa poca de implantao das primeiras formaes polticas mossi, pode-
mos distinguir cinco grandes correntes de penetrao na zona central do rio
Volta Branco, a partir do sul. A primeira afetou o oeste dessa regio, com
Naaba Pasgo e Naaba Silga atravessando o Volta Branco e ampliando sua rea
de influncia at Kombisiri e Manga. A segunda teve por objetivo a regio de
Kugupela (Kupela). J a terceira atingiu as margens do lago de Bam, onde se
instalou Naaba Ratageba, fundador do Ratenga, enquanto seu irmo Naaba
Ziido fundava, nas proximidades, o Zitenga. A quarta corrente, liderada por
Naaba Gigma, visou a zona de Bulsa, enquanto a ltima foi dar no mago
da regio central, onde surgiu o Wubritenga, fundado, como o prprio nome
indica, por Naaba Wubri, "filho" de Naaba Zungrana. Dos conquistadores e
fundadores de dinastias do final do sculo XV e comeo do XVI, dois personagens
se destacam particularmente: Naaba Gigma e Naaba Wubri. As tradies do leste
afirmam que Naaba Gigma foi irmo mais velho de Naaba Wubri, descartado
do poder em favor do irmo caula40. Naaba Gigma empreendeu a conquista da
poro oriental do que  hoje o territrio mossi e estendeu sua influncia at os
confins atuais do Liptako, ao norte41. A esse respeito,  interessante notar que as


40   A excluso do irmo mais velho pelo caula  tema frequente nas tradies mossi sobre a origem das
     chefarias territoriais.
41   Recordemos que o Liptako, emirado fulbe (peul) que tem Dori por capital, formou-se muito tempo
     depois do perodo em pauta; a populao dessa regio do norte de Burkina Fasso (ex -Alto Volta)
     compunha-se provavelmente de Songhai, Kurumba e Gurmankyeba.
256                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



formaes polticas mossi do leste desenharam, em seu conjunto, uma larga faixa
territorial orientada do norte para o sul, ao longo da fronteira do Gurma; isso parece
demonstrar que, j nessa poca, os Gurmankyeba estavam organizados numa base
suficientemente slida para que seu territrio fixasse limites definitivos  expanso
mossi em direo ao leste.
    Naaba Wubri foi o fundador da dinastia que ainda governa o reino de
Uagadugu (Wogodogo), cujos soberanos portam o ttulo de Moogo naaba,
"chefe do Moogo", isto , do conjunto do pas mossi42. Situamos o incio da
atividade poltica de Naaba Wubri bem no final do sculo XV (1495 cons-
titui uma hiptese formal); na prtica, portanto, seu reinado desenrola-se no
comeo do sculo XVI. Naaba Wubri conquistou a regio de Zinyare, que mais
tarde viria a chamar-se Wubritenga; conta-se que sua chegada ps termo s
ininterruptas guerras em que se confrontavam os povos autctones. Do Wubri-
tenga, Naaba Wubri ampliou sua autoridade para leste e nordeste; guerreou
contra o povo de Lay, e suas conquistas o levaram at Yako e Kudugu, regies
que j contavam numerosas chefarias mossi locais, tendo algumas pertencido
ao Rawatenga. Naaba Wubri morreu em La, perto de Yako, onde  possvel que
tivesse fixado sua ltima residncia; seus restos foram transladados para a aldeia
que depois se chamou Wubriyaog ("lugar da tumba de Wubri"), enquanto
suas relquias teriam sido depostas em Gilongu, Dabozug-Yaog e Lumbila,
onde existem santurios dos reis de Uagadugu. Quando Naaba Wubri morreu,
o reino que fundara reunia quase todas as chefarias locais da regio central;
os sucessores imediatos prosseguiram sua obra, ampliando o territrio mossi
sobretudo em direo ao oeste. Sob o governo de Naaba Nasbiire, terceiro filho
de Naaba Wubri a reinar, a capital do reino esteve instalada em La, onde morrera
o fundador da dinastia. Na direo do atual Yatenga partiram dois filhos de Naaba
Wubri: Naaba Rimso, que criou o comando de Gambo, e o irmo caula,
Naaba Wumtane, fundador do reino de Giti, que lutou contra os Dogon e
escravizou seus ferreiros. Na mesma poca, um chefe militar, Naaba Swida,
instalou-se em Minima, perto de Gursi, onde tambm se estabeleceu outro chefe,
Naaba Warma, vindo do sul.
    O incio do reinado de Naaba Kumdumye, filho de Naaba Nyingnemdo
e neto de Naaba Wubri, coincidiu com a partida de Naaba Yadega, filho de
Naaba Nasbiire, para a regio de Gursi. Naaba Yadega, que fora criado por
Naaba Swida, chefe de Minima, no conseguiu vencer Naaba Kumdumye

42    Os Mossi (Moose, singular Mooga) chamam Moogo ao conjunto territorial por eles controlado; o territrio
      mossi  praticamente assimilado ao "mundo".
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                                                    257



na competio pelo poder e foi tentar a sorte em outro lugar, na companhia
da irm mais velha, Pabre, que por ele roubou as insgnias reais das quais ela
tinha a guarda, na qualidade de napoko43. Situamos esses acontecimentos, por
hiptese, em 1540: , como j dissemos, nossa segunda data-eixo da histria
dos Mossi. Naaba Kumdumye viria a desempenhar papel da maior importn-
cia na implantao dos atuais reinos mossi. Sob sua chefia, a expanso mossi
atingiu o apogeu, com uma penetrao profunda  porm de curto flego  em
territrio gurunsi. Os descendentes diretos de Naaba Kumdumye fundaram
os atuais reinos do Konkistenga, de Yako, Tema, Mane e Busuma. Na gerao
anterior, a Dinastia de Bulsa  que dura at hoje  fora fundada por um filho
de Naaba Wubri, Naaba Namende, que assim recolheu parte do legado poltico
de Naaba Gigma; um filho de Naaba Namende, Naaba Kurita44, fundou por
sua vez o reino de Kugupel. Na gerao dos netos de Naaba Wubri tambm se
deve situar a fundao do reino de Kayao por Naaba Yelleku, filho de Naaba
Nasbiire e, portanto, irmo de Naaba Yadega pelo mesmo pai. Com Naaba
Kuda, filho de Naaba Kumdumye, o territrio mossi central adquiriu, na
segunda metade do sculo XVI, sua fisionomia definitiva. A principal inicia-
tiva desse soberano, o ltimo Moogo naaba do perodo que ora estudamos, foi
enviar s montanhas do Risyam seu filho Naaba Tasango, fundador do atual
reino do Tatenga.
    Quando Naaba Yadega atingiu a regio de Gursi, numerosas chefarias mossi
j se estabeleciam no atual territrio do Yatenga. A mais importante fora pol-
tica da regio era o reino de Zondoma, avatar setentrional do Rawatenga, que
enfrentava a rivalidade de outras formaes, a comear pelo reino de Giti; no
sudoeste, nos confins do recm-estabelecido territrio mossi e do territrio samo,
as chefarias de Minima e Gursi eram apenas as principais praas-fortes mossi, em
meio a uma srie de outras em torno das quais se formaram chefarias regionais
menores. Ao partir de Gursi, Naaba Yadega tinha trs objetivos: neutralizar o pai
adotivo, Naaba Swida, aliar-se com o chefe de Gursi, Naaba Warma, e ampliar
suas conquistas em direo ao territrio samo. Depois de garantir sua base em


43   Quando morre um chefe ou rei mossi, o poder, entre a proclamao oficial do falecimento (que se
     distingue do momento em que ocorre, efetivamente, a morte) e a nomeao do sucessor, compete
     interinamente  filha mais velha do defunto, que porta o ttulo de napoko, literalmente "chefa". A
     napoko  a substituta do pai e usa as roupas dele.
44 O kurita  o representante, entre os vivos, de um chefe morto; essa palavra, que significa "morto reinante",
    construda por analogia a narita, "chefe reinante". Geralmente se escolhe o kurita entre os filhos do
   chefe falecido; seu ttulo no lhe confere poder algum, pelo contrrio, at o exclui da sucesso. Mas ele
   pode tornar-se chefe numa rea fora daquela em que se exerce o comando da famlia: nesse caso, ter o
   epteto (zab yure) de Naaba Kurita.
258                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Gursi45, Naaba Yadega instalou uma segunda residncia em Lago. No final do
sculo XVI, seu segundo filho, Naaba Geda, libertou definitivamente o novssimo
reino do Yatenga de qualquer vnculo com o reino de Uagadugu46. A partir de
ento, os dois grandes reinos mossi  o de Uagadugu e o do Yatenga  seguiriam
destinos diversos, constituindo os dois grandes polos hegemnicos do territrio
mossi e abrigando pequenos reinos vassalos em sua zona de influncia.
    Em resumo, a histria dos reinos mossi, que comeou na primeira metade
ou, quando muito, em meados do sculo XV, desenvolveu-se em trs fases, no
decorrer do perodo que nos interessa: uma fase de maturao (segunda metade
do sculo XV), um perodo de conquistas (primeira metade do sculo XVI) e,
finalmente, uma fase de estabilizao (segunda metade do sculo XVI).


      O sistema poltico mossi
    Traaremos aqui um panorama muito sucinto do sistema poltico mossi, uma
vez que a histria das instituies mossi  pouco conhecida, s podendo ser deli-
neada a partir do final do sculo XVIII (Yatenga) e do incio do sculo XIX (reino
de Uagadugu). A rica informao recolhida, desde 1907, a respeito da organizao
dos reinos mossi nos permite, no mximo, descrever o funcionamento das insti-
tuies pblicas quando j terminava o perodo pr-colonial. A principal caracte-
rstica do sistema poltico mossi  neste ponto, todos os observadores concordam
  a distino social entre os detentores da terra (tengsobondo) e os do poder
(naam). Os primeiros representam os autctones, tambm chamados "filhos da
terra" ou "gente da terra"; os segundos eram, em princpio, os Mossi, embora a esse
respeito a diviso de tarefas entre autctones e conquistadores nem sempre esteja
isenta de ambiguidade. Assim  que, ao lado dos Mossi propriamente ditos (isto
, os descendentes de Naaba Wedraogo), incluem-se entre os "filhos do poder" os
cativos das cortes reais, em sua maioria de origem no mossi. A distino entre
autctones e conquistadores, ou entre "gente da terra" e "gente do poder", liga-se
diretamente a oposio entre o "senhor da terra" (tengsoba) e o "chefe" (naaba) 


45    Atualmente, importante localidade do sudoeste do Yatenga. Ao que parece, Gursi foi, desde tempos
      remotos, centro econmico conhecido por seu artesanato e seu comrcio, servindo tambm de parada
      na rota das caravanas.
46    O fundador do Yatenga, Naaba Yadega, conservava as insgnias reais de Naaba Wubri, que haviam
      sido roubadas pela irm mais velha, a napoko Pabre. Conta-se, no entanto, que seus dois sucessores
      imediatos, Naaba Kurita e Naaba Geda, foram coroados em La, que naquela poca era residncia dos
      reis de Uagadugu.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                        259



oposio que tambm repercute na ideologia religiosa, j que os filhos da terra se
associam, como o prprio nome indica, ao culto da terra, enquanto a "gente do
poder" reconhece a supremacia divina de Wende, de origem celeste e talvez solar.
A unidade da sociedade, em que o sagrado se associa aos autctones e o poder aos
conquistadores,  marcada pela unio sincrtica de Naaba Wende (naaba = "chefe")
e de Napaga Tenga (napaga = "mulher de chefe").
    Muito pouco se sabe sobre a identidade dos povos anteriores aos Mossi,
exceto no caso do Yatenga, cujo povoamento j tem histria escrita47. Ao que
parece, podem-se distinguir trs grandes grupos entre os autctones: os povos
chamados Gurunsi, de lngua "voltaica" ou gur, aos quais, com base em afini-
dades precisamente lingusticas, podemos vincular os Kurumba, que os Mossi
chamam de Fulse e que constituram o principal substrato do Yatenga, ante-
riormente aos prprios Mossi; os Dogon (Kibse, na lngua moore ), cujo antigo
habitat, no atual territrio mossi, parece ter sido muito extenso, mas que, devido
 sua resistncia armada  conquista, foram as principais vtimas do novo poder;
finalmente, os povos Manden, entre os quais os mais importantes so os Samo
(Nimise) e os Bisa (Busase), hoje separados no plano territorial mas de origem
possivelmente comum. Senhores da terra, os autctones tm a seu cargo os
ritos anuais de fertilidade; no Yatenga, por exemplo,  atravs de sacrifcios em
certos altares da terra que o rei recm-designado  e que, como todo detentor
do poder, porta o ttulo de naaba (Yatenga naaba)  pode ser entronizado e, por
conseguinte, tornar-se rima, o que lhe confere o direito a ter uma sepultura no
cemitrio real e, ainda, capacita seus filhos  sucesso rgia.
    Tomemos ainda o Yatenga como exemplo. Os detentores do poder, alm do
prprio rei, dividem-se em trs categorias: a "gente da casa do rei" (nayiridemba),
os "senhores da guerra" (tasobanamba) e os membros da linhagem real ou nakombse,
que constituem o grupo de onde sai o soberano. Os componentes da casa do rei,
ou servidores reais, e os senhores da guerra tanto podem ser Mossi como cativos
de linhagem real; os de origem mossi pertencem a antigas famlias de chefes,
cuja origem muitas vezes remonta a formaes polticas anteriores ao Yatenga
(por exemplo, ao reino de Zondoma). Assim,  entre Mossi consideravelmente
afastados do rei, do ponto de vista genealgico, ou entre cativos, que o soberano
escolher os homens sobre os quais se sustentar diretamente seu poder, enquanto
 contra aqueles que lhe so prximos, os nakombse, que exercer seu poder. O
Yatenga naaba tem a seu dispor quatro residncias reais e vive numa delas, rodeado


47   Ver IZARD, 1965.
260                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



das esposas e dos servidores, reais ou cativos. Em cada residncia real os servi-
dores dividem-se em quatro grupos, cada qual chefiado por um alto dignitrio
de nome nesomde (plural, nesomba). Assim, cada uma das quatro cortes potenciais
conta com um colgio de quatro nesomba, sendo trs de origem mossi (togo naaba,
balum naaba e weranga naaba) e um de origem cativa (bin naaba ou rasam naaba).
Os nesomba so nomeados pelo rei. O colgio de nesomba que estiver associado
 residncia real efetiva constitui o verdadeiro governo do reino; falecendo o rei,
tambm funciona como colgio eleitoral, competindo-lhe a escolha do novo sobe-
rano entre os candidatos ao trono, j que o sistema de atribuio do poder ignora
qualquer regra de transmisso automtica do mesmo. Com efeito, a passagem do
poder do irmo mais velho ao mais novo torna lcita a candidatura de todo filho de
rei ou, mais exatamente, de todo aquele que for o mais velho, num grupo de filhos
do mesmo rei. A histria do Yatenga no sculo XIX, bem conhecida, mostra que
a falta de rigor no costume mossi de transmisso do poder resultou em frequen-
tes crises dinsticas, que por sua vez acarretavam verdadeiras guerras civis entre
faces opostas no interior da linhagem real. Pode-se supor que, aps o perodo
das conquistas no Exterior, os Mossi se tenham envolvido em lutas incessantes
pelo poder, no interior de suas fronteiras, isso apesar da progressiva centralizao
da autoridade e a despeito da crescente importncia assumida pelo aparelho de
Estado em detrimento da nobreza, que fornecia candidatos ao trono.
    De um extremo a outro do territrio mossi,  claro que se constatariam
numerosas variantes nos pormenores das instituies; mas o que mais impres-
siona na sociedade mossi, to heterclita do ponto de vista histrico,  sua
notvel unidade lingustica e cultural  unidade que se manifesta ainda mais
na coerncia da ideologia do poder e na profundidade de sua filosofia poltica.
Trata-se de uma das grandes civilizaes da frica ocidental.


      Os povos da bacia do Volta sem sistema poltico
      centralizado
    Tambm aqui parece difcil nos determos em questes que, embora se ins-
crevam no mbito da historiografia, so muito pouco conhecidas.  certo que
dispomos de um quadro coerente das sociedades sem Estado da bacia do Volta,
mas esse quadro  contemporneo; na maior parte dos casos, a histria daque-
las sociedades ainda est por se fazer. Remontando-se aos tempos anteriores 
colonizao, a ausncia de estrutura estatal reduz com frequncia a histria das
sociedades baseadas na linhagem ou em comunidades aldes a um inventrio de
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                         261



migraes recentes (do sculo XIX) ou ainda  e neste caso retomamos  questo
das sociedades com Estado  s incidncias que sobre elas tiveram as polticas de
conquista e assimilao dos reinos vizinhos. Em quase todos os casos, certamente
devido  falta de investigaes sistemticas, o que hoje sabemos das sociedades
sem Estado no permite um recuo para perodos anteriores ao final do sculo
XVIII ou comeo do XIX: entre a histria recente e os mitos de fundao, perma-
nece uma lacuna que o historiador dever tentar preencher. Em outras palavras:
no h margem de certeza possvel para discutirmos a histria das sociedades
aqui apresentadas, no perodo que nos interessa (scs. XII-XVI).
    J que centramos este estudo na histria dos reinos mossi, parece-nos legtimo
comear pelas sociedades denominadas "voltaicas" ou gur, nomes que se devem,
estritamente, a classificaes lingusticas.
    As lnguas gur foram amplamente estudadas  segundo perspectiva mais taxio-
nmica do que gentica,  verdade  e devemos a Gabriel Manessy48 o resumo dos
conhecimentos disponveis sobre essa importante famlia lingustica. O grupo gur
compreende grande nmero das lnguas que hoje se falam em Burkina Fasso
(ex-Alto Volta) e em vastas zonas setentrionais da Costa do Marfim, Gana, Togo
e Benin. De Lavergne de Tressan divide as lnguas gur em trs subgrupos: moore,
lobi-bobo e senufo, sendo que o subgrupo moore compreende, por sua vez, as
lnguas moere, gurma, tem e gurunde49. D. Westermann e M. A. Bryan identifi-
cam, como G. Manessy, um subgrupo senufo, mas diversificam consideravelmente
os demais subgrupos, isolando assim tambm o kulango, o lobi-dogon (lobi, bobo e
dogon), o grusi, o gurma, o tem, o bargu e o mossi; associam o mossi, por sua vez, a
um grupo de lnguas que compreende, alm dele, o dagomba, o nankanse, o talensi,
o wala, o dagari, o birifo e o namnam50. J. H. Greenberg prope uma classificao
prxima da anterior, subdividindo a subfamlia mossi-grunshi ou gur em sete grupos:
senufo, mossi, grunshi, tem, bargu, gurma, kilinga51. O. Khler, cuja classificao
foi reconstituda por G. Manessy, identifica um ncleo central de lnguas gur,
que ele reparte em trs grupos: mossi-dagomba (mamprusi, dagomba e mossi,
lnguas do Atacora), grusi (grusi oriental: kabre, tem, kala; grusi ocidental; grusi
setentrional: kurumba) e gurma. O. Khler inclui ainda entre as lnguas gur o
senufo e o bariba, assim como certo nmero de lnguas residuais do Togo e o



48   MANESSY, 1963.
49   LAVERGNE DE TRESSAN, 1953.
50   WESTERMANN & BRYAN, 1970.
51   GREENBERG, 1955.
262                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



dogon, que tem afinidades lexicais com as lnguas gur, mas cuja sintaxe seria de
tipo manden52.
    Embora estejamos longe de um consenso entre os especialistas  dos quais,
por sinal, nenhum chegou a sistematizar os critrios formais que fundamentaram
sua classificao  considera-se geralmente que entre as lnguas gur  possvel
distinguir considervel grupo mossi que, por sua vez, compreende trs subgrupos:
mossi, dagomba e birifo-dagari-wile; destes, o subgrupo dagomba inclui as lnguas
dagomba, mamprusi, nanumba, nankana, talensi e kusasi. Esses problemas de
classificao desembocam em questes mais complexas, de filiao gentica entre
as lnguas, para cuja elucidao a contribuio da glotocronologia tem sido, at o
momento, bem pequena. O simples agrupamento das lnguas segundo suas afini-
dades mostra, pelo menos, que lnguas aparentadas so faladas, indiferentemente,
em sociedades com Estado e sem Estado; tal  o caso, por exemplo, do moore (ln-
gua dos Mossi) e do dagari. Pode-se notar, quando muito, que a unificao estatal
resulta em menor dialetizao das lnguas, ao passo que a no centralizao dos
sistemas polticos coincide com a dialetizao extrema. Ademais, as classificaes
lingusticas levam-nos a colocar o seguinte problema: teriam os conquistadores
estrangeiros  como durante muito tempo se pensou, no caso dos Mossi, e como
certos indcios levam a crer  imposto sua lngua aos vencidos, que foram obriga-
dos a abandonar os idiomas prprios, ou se ter passado o fenmeno inverso, em
que os donos do poder so, de alguma forma, aculturados pelos filhos da terra?
Quando tivermos condies de responder com preciso essa questo, teremos
dado, sem dvida, um enorme passo rumo  compreenso de certos mecanismos
fundamentais da implantao dos sistemas centralizados africanos.
    Considerando o vasto grupo das lnguas gur, somos tentados a passar de uma
classificao das lnguas a uma classificao das culturas. Tal transio supe,
porm, que estejam resolvidos problemas de mtodo que ainda no o foram, e
 isso que explica por que as tentativas de M. Delafosse53, H. Baumann e D.
Westermann54 e G. P. Murdock55 se revelam, em conjunto, carentes de maiores
resultados. Alm disso, no se pode esquecer que os universos lingustico e
cultural "voltaicos" no coincidem com exatido. Para tomarmos um s exemplo:
os Bwa falam uma lngua gur, mas so de cultura manden, como seus vizinhos,
os Bobo, que se expressam numa lngua manden.


52    KHLER, 1958 e MANESSY, 1963.
53    DELAFOSSE, 1912.
54    BAUMANN, 1948? .
55    MURDOCK, 1959.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                        263



   Oswald Khler, a quem j citamos56, forneceu um quadro bastante completo
das sociedades da bacia do Volta, mas as aproximaes que efetua mantm-se por
demais presas  classificao lingustica; assim, chama de "Grusi setentrionais" os
Kurumba, embora estes estejam culturalmente muito distantes do conjunto de
povos que os antroplogos denominam "Gurunsi", e que ocupam vasta rea a oeste
do territrio mossi. De inteno menos sistemtica, porm fundando-se efetiva-
mente na abordagem antropolgica das sociedades, o inventrio estabelecido por
Guy Le Moal57 tem o mrito de estar isento de pressuposies taxionmicas.
   Entre os povos da bacia do Volta, Le Moal distingue, com base em apro-
ximaes culturais e regionais, os conjuntos Mossi, Gurunsi, Bobo, Manden e
Senufo e rene os povos do sudoeste da atual Burkina Fasso (ex-Alto Volta)
sob uma denominao comum.
   Deve-se associar aos Mossi os povos pr-mossi cuja identidade foi parcialmente
preservada.  o caso dos Kurumba, que, conforme se sabe, constituram uma formao
poltica  o reino do Lurum  que inclua elementos de centralizao do poder, num
contexto inicial de "realeza sagrada". Com o nome de Fulse, os Kurumba pertencem
aos grupos de filhos da terra dos reinos mossi, especialmente do Yatenga, da mesma
forma que os Marase, que eram Songhai, os Yase, originalmente Manden (em sua
maioria), e os Kambose, de origem bambara, dafin ou jula (diula). Com os Gurunsi,
deixamos o domnio dos Estados. Classicamente, os antroplogos do o nome
de "Gurunsi" a seis sociedades de base segmentria: Lela, Nuna, Kasena, Sisala,
Ko e Puguli. So-lhes associadas sociedades que se estabeleceram na regio onde
hoje se encontram os confins do Gana e de Burkina Fasso (ex-Alto Volta), como
os Talensi, os Kusasi e os Nankanse, povos que podemos considerar culturalmente
autnomos face s formaes estatais vizinhas, mas que, do ponto de vista desses
Estados, constituem sociedades tributrias. Como sabemos, depois dos trabalhos de
Meyer Fortes58, essas ltimas sociedades passaram a fornecer  teoria antropolgica
o modelo do sistema poltico conhecido como "segmentrio por linhagens".
   Os povos de nome Bobo (aos quais podemos associar os Boron, de origem
manden) englobam, essencialmente, os Bwa (a quem antigamente se chamava
de Bobowule) e os Bobo propriamente ditos (os antigos Bobofin). Nessas
sociedades, nas quais a iniciao ligada ao culto do do desempenha impor-
tante papel, a organizao poltica funda-se na existncia de comunidades
aldes autnomas. O mesmo ocorre com os Samo e os Bisa, por um lado,

56   KHLER. (19..?)
57   LE MOAL, 1963.
58   FORTES, 1940.
264                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



e com os Dafin ou Marka, por outro. O territrio dafin estende-se do vale
do Suru, ao norte,  regio de Bobo-Diulasso, ao sul. Muulmanos  entre
os quais existiam, porm, considerveis minorias fiis  religio tradicional
, comerciantes e guerreiros, os Dafin foram responsveis pela fundao de
numerosos pequenos Estados centralizados; seu modo de insero na histria
do vale do Volta Negro  comparvel ao dos Jula na histria da regio que vai
de Bobo-Diulasso at Kong. Dessa cultura so tributrias, em vrios aspectos,
as sociedades aparentadas aos Senufo, como os Karaboro, os Tusia, os Turka, os
Gwe e os Wara. Pode-se citar como exemplo os Tusia, que tm uma sociedade
secreta, o lo, com caractersticas muito prximas s do poro. Sob a denominao
regional de "povos do sudoeste", G. Le Moal agrupa os Wile, os Dagari, os
Birifo, os Lobi e os Dia, entre outros. Esses grupos, originrios de territrios
atualmente situados na Repblica de Gana, atravessaram o Volta Negro, em
levas sucessivas, a partir do sculo XVI. Os Wile, primeiros a chegar, foraram
os Puguli a se retirarem da regio; depois vieram os Dagari, deles aparentados
lingustica e culturalmente, embora possuam sistema de filiao bilateral e
no patrilateral, como o dos Wile. Os Birifo chegaram simultaneamente aos
Dagari, ou seja, depois dos Lobi; tm sistema de filiao comparvel ao dos
Dagari. Os Wile, os Dagari e os Birifo falam uma lngua pertencente ao grupo
mossi; caracterizam-se, ademais, pela importncia atribuda, na vida social, 
iniciao secreta do bagre; os Birifo, vizinhos mais prximos dos Lobi, herda-
ram destes grande nmero de traos culturais. J entre os Lobi os elementos
matrilineares predominam, em larga escala, sobre os patrilineares; a iniciao
no dyoro desempenha papel importantssimo no controle social. Os Dia so
prximos dos Lobi e atravessaram o Volta Negro quase ao mesmo tempo que
eles. Os povos do sudoeste possuem organizao poltica segmentria, sem
conhecerem, ao contrrio dos Gurunsi, formas de centralizao do poder
subordinadas  realeza sagrada.
    Alm dessas sociedades de agricultores, vale lembrar que existiram socieda-
des pastoris  os Fulbe e os tuaregues  na curva do Nger e na bacia superior
do Volta. Os Fulbe, encontrados nos vales do Volta Negro e do Suru, na plancie
do Gondo, no Jelgoji, no Liptako e no Yoga, constituram numerosas chefarias
locais (Dokwi, no vale do Volta Negro; Barani, no vale do Suru; Jibo, Barabule,
Tongomayel, no Jelgoji). Esse povo est na origem da fundao do Estado do
Liptako  mas, tambm neste caso, s se pode fazer um esboo da histria das
formaes histricas fulbe para um perodo mais recente (comeando nos
sculos XVII e XVIII) que o estudado neste volume.
Os povos e reinos da curva do Nger e da bacia do Volta                         265



     Abordagem econmica
    A maior parte da zona em estudo encontra-se dominada, no que concerne
s culturas de subsistncia, pelo cultivo do milhete, que cede lugar, no norte, s
variedades selvagens e cultivadas do fonio, e, no sul, aos tubrculos. O algodo
da espcie Gossypium punctatum, conhecido ainda hoje,  cultivado, certamente
h muitssimo tempo, na zona de savana arbustiva e seca. O que parece esta-
belecido  que, na poca em que se implantaram os primeiros reinos mossi,
a tecelagem j era difundida, embora as vestes longas fossem reservadas aos
chefes. Em territrio mossi, a tecelagem acha-se vinculada aos Yase, originrios
do Manden ocidental; a tradio oral dos "Yase" do reino de Uagadugu conta
que um tecelo confeccionou para Naaba Wubri um conjunto composto de
blusa, cala e bon. To antigo quanto a tecelagem, o artesanato da tinturaria,
especialidade songhai, complementa-a. As duas principais plantas usadas para
tingir so o indigueiro e uma combretcea, Anogeissus leiocarpus, que fornece
tintura de cor amarelo-cqui.
    A criao de bovinos (zebu)  praticada pelos Fulbe, pastores do Sahel. Os
agricultores, por sua vez, criam apenas animais de quintal: ovinos, caprinos,
galinceos. Merece meno particular a criao de burros e cavalos, na qual o
norte do territrio mossi atual desempenhou papel importante desde tempos
remotos. Assim, o Yatenga exportava burros para o territrio mossi central e
meridional, e as zonas orientais desse reino eram prezadas pela qualidade dos
cavalos Dongolawi, remotamente originrios do Alto Egito. O cavalo, animal
de guerra por excelncia (ao passo que o burro serve basicamente para o trans-
porte em caravanas),  representado por cinco raas: as do Yatenga, do Jelgoji,
do territrio kurumba, da plancie do Gondo e de Barani59.
    As duas indstrias locais, geralmente associadas, so a metalurgia e a cermica.
Tambm sob este aspecto o Yatenga distingue-se do restante do territrio mossi, por
ser rico em minrio de ferro de teor relativamente elevado, embora esse metal seja
encontradio em toda a regio ocidental do atual Burkina Fasso (ex-Alto Volta).
    Muito pouco se sabe sobre a histria antiga do comrcio de longa distncia.
Este era praticado pelos Yase na bacia do Volta; ao que parece, j se havia
estabelecido quando chegaram os Mossi, mas  certo que, com a formao dos
novos Estados, conheceu considervel desenvolvimento. A esse respeito, existe
relao direta entre o desenvolvimento do comrcio de longa distncia e o dom-


59   Ver FRANCO, 1905.
266                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



nio das tcnicas de tecelagem. Os "Yase", teceles e comerciantes, utilizavam
faixas de tecido de algodo, tanto branco quanto tingido, como mercadoria de
frete local, em suas trocas inter-regionais. Estas se davam segundo um itine-
rrio nortesul e sulnorte, o norte fornecendo especialmente o sal do Saara,
em placas (mas, tambm, peixe seco e esteiras), e o sul dedicando-se sobretudo
ao comrcio de nozes-de-cola. A moeda de troca era o cauri (pesado, Cyprea
annulus, ou leve, Cyprea moneta), cujo valor tinha sido fixado, ainda em tempos
remotos, comparativamente ao do ouro. Na prtica, existiam vrios padres de
valor para as mercadorias: o cvado (66 cm) de tecido de algodo servia como
unidade de clculo para as mercadorias mais comuns, enquanto os cavalos,
por exemplo, eram usualmente pagos em escravos. Os ferreiros dos centros
metalrgicos comerciavam diretamente seus produtos acabados (ferramentas e
armas), bem como bolas de ferro, destinadas a um artesanato mais refinado.
    Enquanto faltarem dados arqueolgicos, tudo o que foi dito acerca da economia
da bacia do Volta, no perodo que se estende dos sculos XII ao XVI, no passar,
infelizmente, de extrapolao hipottica construda sobre dados recolhidos por
viajantes europeus do sculo XIX; a est, portanto, um campo de pesquisa
cuja investigao se reveste de importncia capital.
Reinos e povos do Chade                                                    267



                                 CAPTULO 10



                    Reinos e povos do Chade
                                      Dierk Lange




    No sculo XII, a maior parte da regio do lago Chade era dominada pelo
poderoso reino do Kanem. Nessa poca certamente existiam outros reinos na
rea, mas a maior parte dos habitantes ainda vivia organizada em cls e grupos
tnicos independentes. O Kanem foi conhecido em tempos muito remotos pelos
viajantes e gegrafos rabes, desfrutando assim de renome claramente maior
que as outras entidades polticas situadas entre os Nuba do vale do Nilo e os
Kawkaw da curva do Nger.
    Tendo-se em vista as fontes existentes e os conhecimentos de que hoje dis-
pomos, nosso estudo se prender necessariamente mais ao desenvolvimento
interno do Estado do Kanem e aos povos que viviam nesse reino do que aos
de fora, que no chamaram a ateno dos cronistas e sobre os quais, por isso
mesmo, existe pouca informao.
    Mencionado em diversas fontes externas desde o sculo IX, o Kanem
caracteriza-se tambm pela existncia de uma fonte interna: o Dwn dos
sultes do Kanem-Bornu1. Ele provavelmente comeou a ser redigido na pri-
meira metade do sculo XIII. Nessa poca, os cronistas da corte comearam a
fixar por escrito certos fatos relacionados  histria dinstica que at ento eram
transmitidos apenas oralmente. Mas, antes de chegar aos acontecimentos de seu


1   O texto do Dwn foi traduzido e comentado por D. LANGE, 1977a.
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prprio tempo, trataram de registrar os principais elementos de uma tradio
que remontava ao final do sculo X. Na sequncia, a obra foi sendo constante-
mente atualizada, at o sculo XIX, quando findou a Dinastia dos Sfuwa: a cada
soberano que morria acrescentava-se um curto pargrafo, resumindo seu reinado.
Esse modo de composio poderia, ao cabo de seis sculos, resultar numa obra
volumosa; na verdade, porm, o Dwn, em sua forma atual, no passa de cinco
pginas e meia.  certo que as informaes que d referem-se acima de tudo 
histria dinstica do Kanem-Bornu, mas delas tambm podemos deduzir certas
indicaes a respeito de outros aspectos da histria do Sudo central2.
    Por outro lado, tambm dispomos dos relatos de alguns gegrafos rabes.
Para a histria do Sudo central so especialmente preciosos os depoimentos de
al- Idrs (que escreveu em 1154)3, Ibn Sa`d (falecido em 1286)4 e al-Makrz
(que morreu em 1442)5. As duas sries de informaes complementam muito
bem uma  outra: os cronistas africanos fornecem o quadro temporal, os ge-
grafos rabes, a dimenso espacial (ver figs. 10.1 a 10.3).


      A Dinastia dos Sfuwa
    No terceiro volume vimos que o Kanem esteve sob o poder dos Zaghwa
durante vrios sculos6. Essa dominao s terminou durante a segunda metade
do sculo XI, com o surgimento de nova dinastia, que assumiu o nome de
Sfuwa porque pretendia descender do heri iemenita Sayf ben Dh Yazan (ver
fig. 10.6).
    O fundador dessa dinastia foi Hummay (c. 1075-1086). Vrios indcios
fazem supor que tivesse origem berbere; j o nome (derivado de Muhammad)
e sua genealogia mostram ter ele pertencido a um grupo profundamente islami-
zado: sabemos, por meio de al- Idrs, que nesse tempo boa parte dos habitantes
do Kawr eram berberes mulaththamn (que usavam o lithm)7. Outras fontes
permitem afirmar que a islamizao dessa regio  anterior  segunda metade



2     LANGE, 1977a.
3     AL IDRS, 1866.
4     IBN SA`D, AL-MAGHRIB (ed. J. V. Gines), 1958.
5     Ver AL-MAKRZ, 1979, e CUOQ, 1975, p. 382-9.
6     Ver o captulo 15 do volume III.
7     AL IDRS, 1866, p. 46.
Reinos e povos do Chade                                                                        269



do sculo IX8. Seria tentador pensar que Hummay fosse originrio do Kawr;
mas  igualmente possvel que pertencesse a um grupo berbere, j integrado no
Kanem no tempo em que reinavam os Zaghwa.
    De qualquer forma, a pretenso de ter ascendncia iemenita indica clara-
mente que Hummay e os seus estavam em contato com berberes da frica
setentrional; estes, para se distinguirem dos rabes adnanitas, tinham o hbito
de reivindicar ancestrais himiaritas. Assim, no pode ser por acaso que o Dwn
cita, para os supostos ancestrais de Sayf ben Dh Yazan, unicamente nomes
denunciando contexto norte-arbico: encontramos referncias a Kuraish (ances-
tral epnimo da tribo do Profeta), a Meca (lugar de peregrinao) e a Bagd
(capital dos Abssidas)  mas nenhuma aluso a Himyar, a Kahtn nem sequer
ao Imen. No comeo do sculo XIII, a genealogia de Hummay foi claramente
esvaziada de seu contedo berbere, para receber nova funo: em vez de atestar
a origem himiarita, a genealogia oficial dos reis sfuwa deveria, antes de mais
nada, provar a antiguidade de sua adeso ao islamismo. Por essa ocasio, o nome
de Sayf ben Dh Yazan j se tornara um fssil, despido de qualquer significao9.
    Outras evidncias confirmam que os reis sfuwa quiseram fazer esquecer sua
verdadeira origem. Os cronistas do sculo XIII registram, por exemplo, sobre
Salmma ben `Abd Allh (c. 1182-1210), filho do bisneto de Hummay, que ele
era "muito escuro". Acrescentam que "nenhum sulto nascera negro, do sulto Sayf
at ele, pois eram todos vermelhos como os rabes bedunos" (Dwn, pargrafo
17). A informao refere-se, est claro, apenas  segunda dinastia. Mesmo assim,
poderamos esperar nesse ponto aluso  origem berbere dos Sfuwa; porm,
uma vez mais, os cronistas preferem omiti-la, invocando os rabes no lugar dos
berberes. Esse exemplo mostra claramente que, para os cronistas, a cor branca s
tinha prestgio na medida em que estivesse associada  religio muulmana. Em
outras palavras, era a religio que importava, no a cor da pele.
    Uma passagem do texto de Ibn Sa`d mostra que a lembrana da origem
estrangeira dos Sfuwa evanesceu-se rapidamente na conscincia popular.
Baseando-se no depoimento de Ibn Ftima, que visitara pessoalmente o Kanem,
Ibn Sa`d escreve:




8   AL-YA`KB, 1937, p. 205.
9   Numa carta do Bornu, do final do sculo XIV, Sayf ben Dh Yazan tambm  vinculado ao ancestral
    epnimo da "tribo" do Profeta. Al-Kalkashand comenta: "Eles esto enganados, porque Sayf ben Dh
    Yazan descendia dos Tubba do Imen, que so himiaritas".
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Figura 10.1   Mapa da regio do lago Chade (lago Kr). (Mapa de D. Lange, reconstitudo de extrato do mapa de Ibn Sa`d, da primeira metade do sculo XIII.)
                                                                                                                                                         Reinos e povos do Chade
Figura 10.2 Mapa simplificado, extrado do grande mapa de al-Idrs (1154) (segundo reconstituio de K. Miller). (Fonte: Ysuf Kmal, 1926-1951, p. 867.)




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Figura 10.3   Mapa simplificado, extrado do "Pequeno Idrs" (1192) (segundo reconstituio de K. Miller). (Fonte: Miller, 1926-1931, v. 1, p. 99.)
Reinos e povos do Chade                                                                                      273



     "O sulto do Kanem ( ... )  Muhammadi ben Djabl, descendente de Sayf ben Dh
     Yazan. A capital de seus ancestrais infiis, antes de eles se converterem ao Isl, era
     Mnn; desses antepassados, o seu quarto bisav tornou-se muulmano por influn-
     cia de um jurisconsulto, aps o que o Isl difundiu-se por todo o Kanem"10
    Ora, Muhammad ben Djl era o nome pelo qual se fez conhecido no mundo
exterior o grande rei Dnama Dbalmi (c. 1210-1248). Ibn Ftima estivera no
Kanem durante seu reinado, na primeira metade do sculo XIII. Vemos, ento,
que nessa poca os Sfuwa eram considerados descendentes diretos dos Dguwa
(reis da Dinastia Zaghwa). S a introduo do Isl, reduzida a uma pacfica
"converso", e a mudana de capital ainda recordavam, no campo das tradies
populares, as transformaes polticas da segunda metade do sculo XI.
    Da continuidade das tradies dinsticas, tambm corroboradas pelo Dwn,
pode-se inferir que o Kanem j fosse ento um Estado fortemente estrutu-
rado, de slida organizao territorial. Aparentemente, a introduo do Isl e a
mudana dinstica no chegaram a ameaar os fundamentos desse Estado, cujas
origens remontam, provavelmente, ao final do sculo VI11. A prpria mudana
de capital  que ocorreu ao mesmo tempo ou logo aps o advento da nova
dinastia12  no parece haver acarretado grandes consequncias no tocante ao
desenvolvimento poltico. Tanto o Estado dos Zaghwa como o dos Sfuwa
tinham por centro uma capital permanente: Mnn abrigou os reis dguwa
durante pelo menos um sculo, enquanto Djm foi a residncia real sfuwa por
trs sculos. Foi somente ao findar o sculo XIV, quando os Sfuwa viram-se
forados a abandonar definitivamente o Kanem, que Djm perdeu seu estatuto
privilegiado, para tornar-se uma cidade como as demais13. Quanto  mudana
de capital ocorrida na segunda metade do sculo XI (ou no comeo do XII), 


10   IBN SA`D, AL-MAGHRIB (ed. J. V. Gines), 1958, p. 95; CUOQ, 1975, p. 209.
11   Vimos que a tradio citada por Ibn Sa`d no merece grande confiana. Al-Idrs, que escreve em meados
     do sculo XII, menciona tanto Mnn quanto Djm. Segundo ele, Mnn seria "a residncia do prncipe
     e senhor do pas" (dos Zaghwa?) , enquanto de Djm, cidade menor, s diz que pertencia ao Kanem.
     Parece evidente que al-Idrs tentou combinar dados contemporneos seus com informaes relativas
     ao perodo zaghwa. No  impossvel, portanto, que nessa poca Djm j fosse capital do Kanem.
12   Ver LANGE, 1977a, cap. 7.
13   Alm de Djm e Mnn, as nicas cidades do Kanem citadas nas fontes externas so Tarzaki (por
     al-Muhallab) e Nay (por Ibn Sa`d ). Mais tarde, Ibn Furtwa, relatando as expedies guerreiras de Idrs
     Alawma (1564-1596), menciona grande nmero de localidades da regio do lago Chade, entre as quais
     Djm. Por outro lado, devemos notar que o Dwn indica os lugares onde foram enterrados todos os reis do
     Kanem-Bornu, desde o sculo XI. Alguns desses lugares talvez fossem cidades relativamente importantes: seria
     o caso, em especial, de Zamtam (Dwn, pargrafos 17 e 38), Nnigham (pargrafos 25 e 36) e Diskama
     (pargrafo 20), das quais tudo o que sabemos, em termos de localizao,  que se situavam a oeste do
     lago. Em Djm, quatro reis foram enterrados, segundo o registro (pargrafos 19, 21, 28 e 29).
274                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



importante notar que Djm se situava muito mais ao sul do que Mnn: nesse
deslocamento, poderamos ver o incio da crescente influncia dos povos seden-
trios do Kanem, em detrimento dos seminmades do Sahel.
    Se acompanhamos a poltica matrimonial dos primeiros reis sfuwa, tal como
a delineiam as indicaes do Dwn, observamos que a "desberberizao" da nova
dinastia  to perceptvel no plano ideolgico  vai de par com o progressivo
aumento do peso poltico dos povos sedentrios. Graas ao cuidado que os cro-
nistas tiveram, de anotar a origem tnica das rainhas-mes, podemos estabelecer
a seguinte lista: a me de Hummay (c. 1075-1086) descendia dos Kay (Koym);
a de Dnama ben Hummay (c. 1086-1140) era uma Tubu; a de Br ben Dnama
(c. 1140-1166) era uma Kay; a de `Abd Allh ben Br (c. 1166-1182) pertencia aos
Tubu; a de Salmma ben `Abd Allh (c. 1182-1210) era uma Dabr; a de Dnama
ben Salmma (c. 1210-1248) era uma Magomi (a linhagem real). Subsequente-
mente, todas as rainhas-mes parecem ter sido de origem magomi, exceto a me
de Ibrhm ben Br (c. 1296-1315), que foi uma Kunkuna.
    Nota-se, assim, que j no se mencionam os Tomaghra  que deram duas
rainhas-mes no perodo dguwa  relacionados aos reis sfuwa, o que talvez
seja indcio de que j tivessem perdido a posio de predominncia ao ocorrer
a mudana dinstica da segunda metade do sculo XI.  certo, porm, que os
Tomaghra continuaram a desempenhar papel importante na regio do Sudo
central, porque ainda hoje os encontramos no Tibesti e no Kawr (osis de
Bilma), onde predominam sobre outros grupos tubu. Eles tambm so encon-
trados no Kanem e no Bornu, onde se assimilaram amplamente aos Kanembu
e aos Kanuri. Segundo tradies recolhidas no Bornu, deles teriam se originado
as dinastias do Munio e do Mandara14.
    Contrariamente aos Tomaghra, os Kay so citados no contexto de ambas
as dinastias. Portanto, aparentemente seu estatuto poltico no foi afetado pela
queda dos Dguwa. Observaremos, particularmente, que a me do fundador
da nova dinastia pertencia aos Kay. Hoje, os Kay  conhecidos pelo nome de
Koyam  vivem ao norte do Bornu, perto de Komadugu Yobe. So sedentrios;
contudo, o fato de continuarem a criar camelos em meio pouco favorvel a essa
atividade j basta para atestar suas origens de nmades do norte.
    J os Tubu so mencionados no Dwn apenas relacionados aos Sfuwa. Tal
fato pode ser devido  natureza das informaes registradas, porque os nicos
reinados dguwa cuja histria os cronistas relatam com certa preciso so os


14    NACHTIGAL, 1967, v. 2, p. 338.
Reinos e povos do Chade                                                                            275



posteriores a Ayma (c. 987-1007). Contudo, parece significativo que a me
de Dnama ben Hummay  portanto, a esposa principal de Hummay  fosse
uma Tubu:  bem possvel que os Tubu tenham contribudo para a queda dos
Dguwa. Mas temos de admitir que a relao entre os Tubu do Dwn e os
Zaghwa mencionados nas fontes externas est longe de ser clara. Somente o
depoimento de Ibn Ftima, que data da primeira metade do sculo XIII e que
foi anotado por Ibn Sa`d, permite distinguir nitidamente as duas entidades
tnicas: os Zaghwa, mencionados juntamente com os Tadjwa (Dadjo ), so
situados, de maneira vaga, entre o Kanem e a Nbia, enquanto os Tubu so
localizados, com muita preciso; nas paragens do Bahr al-Ghazl15. H alguns
grupos Tubu que ainda vivem nessa regio a leste do Kanem. So chamados,
em seu conjunto, de Daza ou Gorhan. Os Tubu "autnticos" vivem no Tibesti
e seus arredores. Esse macio montanhoso  considerado, de modo geral, como o
territrio originrio de todos os Tubu (tu-bu significaria "habitantes da montanha"),
mas no h certeza alguma a esse respeito16.
    Dois outros grupos tnicos mencionados no Dwn, os Dabir e os Kunkuna,
j no existem mais. Pelas informaes recolhidas por G. Nachtigal, os Dabr (ou
melhor, os Dibbri ) teriam sido Kanembu sedentrios; depois de se fundirem
com nmades daza, teriam formado o grupo dos Kadawa, que ainda vive no
Kanem. H. Barth e G. Nachtigal consideram que tambm os Kunkuna teriam
sido um povo de Kanembu sedentrios, mas nenhum desses historiadores con-
seguiu fili-los a qualquer grupo tnico de nossos dias17.
    Finalmente, os Magomi  os cronistas escrevem M.gh.r.m. (Dwn, pargrafos 17
e 18)  constituam a patrilinhagem dos reis sfuwa. Se acreditarmos nas indicaes
do Dwn, a me de Dnama Dbalmi (c. 1210-1248) seria filha de irmo de `Abd
Allh Bakar (c. 1166-1182). Nisso pode-se ver, ao que parece, o sinal da constitui-
o de um grupo de linhagem que acabar constituindo o ncleo do povo Kanuri.
Nada permite supor que os Magomi existissem antes do reinado dos Sfuwa, e
sem dvida seria um engano ver neles a fora poltica que permitiu a Hummay
atingir o poder. Em compensao,  muito provvel que eles compreendessem
efetivamente todos os descendentes dos reis sfuwa (por via agntica), como



15   Os textos existentes do Kitb al-Djughrfiy apresentam o nome dos Tubu deformado de diversas formas.
     Ver MARQUART, 1913, p. LXXXIV, e tambm LANGE, 1977a, cap. 2, pargrafo 13, n. 2.
16 Sobre os Tubu em geral, ver CHAPELLE, 1957. Mas deve-se notar que o captulo sobre a histria dos
   Tubu no merece muita confiana, porque o autor se baseou excessivamente na compilao rpida e
   superficial efetuada por URVOY, 1949.
17   Sobre os Dabr, ver NACHTIGAL, 1967, v. 2, p. 319-20.
276                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



sugerem suas genealogias e os nomes de suas diferentes subdivises18. Sendo essa
hiptese correta, os Magomi seriam o ncleo de um povo (os Kanuri), que se
constituiu gradualmente a partir de uma dinastia (a dos Sfuwa); mas a prpria
origem do Estado (do Kanem-Bornu) precederia a do povo que hoje forma seu
principal substrato.
    Antes da formao do povo Kanuri, o poder dos reis do Kanem se apoiava sobre
diversos grupos tnicos. Esses grupos compreendiam nmades e sedentrios; falavam
lnguas nilo-saarianas (como os Tubu, Zaghwa e Kanuri de nossos dias)19 e tambm
lnguas tchdias20. Em certos perodos, como no sculo XIII, o poder dos reis do
Kanem deve ter igualmente afetado grupos de fala berbere; mas estes parecem
ter sido sempre culturalmente minoritrios, se confrontados com os grupos nilo-
-saarianos21. A considerarmos verdadeiros os escassos indcios fornecidos pelo Dwn,
poderemos pensar numa evoluo em trs etapas, a qual teria levado ao reforo da
base tnica dos reis sfuwa.
    Na primeira fase, que vai do advento de Hummay at meados do sculo XII,
dois grupos nmades  os Tubu e os Kay  parecem haver desempenhado papel
predominante. Na segunda, os Dabr e os Kunkuna  e provavelmente outros
sedentrios  substituram os Tubu e os Kay na qualidade de principais aliados
dos Sfuwa22. Foi depois dessa inverso de alianas que se afirmou  j numa
terceira fase  a fora poltica da linhagem real dos Magomi: era Magomi a me
de Dnama Dbalmi (c. 1210-1248), assim como uma de suas esposas, a que
foi me de Kaday (c. 1248-1277); outra de suas esposas, a me de Br (c. 1277-
-1296), talvez tambm fosse uma Magomi, mas os cronistas omitem sua origem
tnica. Em todo caso, o filho e sucessor de Br, Ibrhm Nikle (c. 1296-1315),
era filho de uma Kunkuna. A partir da o Dwn para de indicar a origem tnica
das rainhas-mes: pode-se pensar que, no comeo do sculo XIV, os Magomi
tenham ofuscado definitivamente os demais grupos sedentrios do Kanem.


18    NACHTIGAL,1967, v. 2, p.418-9, menciona as seguintes subdivises: Magomi Umewa (descendentes de
      Hummay), Magomi Tsilimwa (de Salmma), Magomi Biriwa (de Br) e Magomi Dalawa(de `Abd Allh ).
19    Os atuais Zaghwa no mais se assemelham aos Zaghwa mencionados pelos autores rabes anteriores
      a Ibn Sa`d, da mesma forma que os Kanuri no se assemelham a qualquer grupo nilo-saariano de antes
      do sculo XIII. Apenas os Tubu preservaram sua identidade tnica e cultural desde aquela poca, sem
      sofrerem modificaes maiores.
20    Entre estas ltimas, contam atualmente o ngizim, o kotoko e as lnguas hadjeray.
21    Barth atribui origem berbere aos Tomaghra, da mesma forma que considera como sobrevivncia berbere
      o papel predominante atribudo  rainha-me (ghumsa). Em contrapartida, salienta a falta de elementos
      berberes no lxico kanuri.
22 Poderamos ser tentados a explicar a mudana de capital por essa inverso de alianas; nesse caso, daramos
   razo a al-Idrs contra lbn Sa`d (ver nota 11).
Reinos e povos do Chade                                                                                 277



    O fechamento da linhagem real sobre si mesma poderia explicar, por um lado,
o poderio do reino nos tempos de Dnama Dbalmi (c. 1210-1248) e de seus
sucessores imediatos. Por outro lado, tambm pode ter sido a causa  pelo menos
indireta  da longa guerra contra os Tubu, que comeou durante seu reinado. Se
for verdade, como pensa H. Barth, que a segunda esposa de Dnama (a me de
Br) provinha do grupo tnico conhecido como Lakmama23, poderemos atribuir a
formao de linhagens rivais, derivadas dos dois filhos de Dnama  Kaday (cuja
me era uma Magomi) e Br   luta de influncias entre os grupos sedentrios
do Kanem e a patrilinhagem dos Magomi24. muito significativo, em todo
caso, que o perodo pacfico, marcado pelas sucesses de pai para filho, tenha
terminado justamente quando os reis sfuwa deixaram de tomar estrangeiras
por esposas (principais), passando a escolh-las entre mulheres de sua prpria
patrilinhagem25.


     O Kanem no seu apogeu
    No se pode explicar o desenvolvimento do Estado do Kanem se ele for visto
isolado do comrcio transaariano. Certamente no foi por acaso que o maior Estado
do Sudo central se formou no terminal sul do grande eixo caravaneiro que passa
pelo Fezzn e pelos osis do Kawr. Provavelmente essa trilha j fosse utilizada no
perodo romano: constitua a mais direta via de comunicao entre a regio do lago
Chade e o Mediterrneo. A leste, s poderia eventualmente fazer-lhe concorrncia
a rota que atravessava os osis de Kufra, mas que era muito penosa ao trfego; a
oeste, somente a trilha que passava por Takedda e, mais tarde, por Agadez.

     A organizao poltica
  O Dwn se omite quase completamente a respeito da organizao poltica do
Kanem. Pode-se supor, porm, que, num primeiro perodo, que vai at o reinado


23   BARTH, 1965, v. 2, p. 584. Vimos que a esposa principal de Br  a me de Ibrhim Nikle  tampouco
     era uma Magomi.
24   Os cronistas registram, a respeito do reinado de Dnama Dbalmi: "Em seu tempo, os filhos do sul-
     to dividiram-se em faces" (Dwn, pargrafo 17). Esses conflitos entre os filhos de Dnama talvez
     constitussem o reflexo, no plano dinstico, da oposio entre os Magomi e os demais grupos tnicos.
     Essa oposio poderia, ento, ser uma das causas da primeira sucesso colateral que ocorreu na histria
     da segunda dinastia do Kanem.
25 A primeira sucesso colateral tambm pode ser explicada pelo enfraquecimento da posio da esposa
   principal, fato que, por sua vez, talvez tenha resultado da lenta "desberberizao" dos Sfuwa.
278                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



de Dnama Dbalmi (c. 1210-1248), os membros da famlia real ocupassem o
primeiro plano no aparato estatal.
    Essa situao modifica-se no sculo XIII, quando os cronistas do a enten-
der que o sulto entra em conflito com os prprios filhos (Dwn, pargrafo
17). Mais tarde, Ibrhim Nikle manda executar o prprio filho (pargrafo 20).
Desses indcios, podemos inferir que, do sculo XIII em diante, os Sfuwa afastaram
os familiares dos postos-chave do governo, vindo a apoiar-se em elementos estranhos
a seu sangue, eventualmente, em chefes locais. Os ttulos de yerima (governador do
norte) e kayghamma (governador do sul) pertencem, com toda a probabilidade,
ao perodo do Bornu. Ambos parecem ter-se originado em regies a oeste do
lago Chade. Yeri era o nome de uma provncia a noroeste de Komadugu Yobe,
e Kgha, da rea prxima  atual cidade de Maiduguri.
    Sabemos, no que se refere a perodos mais recentes, que a rainha-me exercia
papel da maior importncia no Bornu. No  por acaso, portanto, que o Dwn
registra a origem tnica das mes dos dez primeiros reis. E h um detalhe
interessante a se destacar: o apoio do cl da me do futuro sulto podia ser
determinante quando terminava um reinado. Mais tarde, a primeira esposa do
rei (a gumsu ou ghumsa) tornou-se mais importante que as outras esposas, e era
dentre seus filhos que o rei escolhia o herdeiro do trono (o shiroma).
    No dispomos de informaes precisas sobre a administrao territorial,
porm sabemos que, ao encerrar-se o sculo XV, a autoridade dos Sfuwa era
reconhecida por doze reinos tributrios26. A administrao direta, por sua vez,
exercia-se sobre um territrio mais restrito e, provavelmente, j estava a cargo
dos escravos da casa do rei.
    Quanto  fora militar, os textos fazem supor que o rei tivesse um exrcito
permanente: eles distinguem o djnd, combatente convocado para uma cam-
panha, do `askr, soldado profissional.
    A justia provavelmente pertencia ao rei, da mesma forma que na corte do
mansa do Mali, a despeito da converso dos soberanos ao Isl. Isso no exclui
que em certas pocas se tenha tentado estabelecer uma jurisdio com base na
shar`a (lei cannica do Isl), como aconteceu sob o reinado de Idrs Alawma27.
    Direta ou indiretamente, quase todos os Estados da regio foram influenciados
pelo Kanem-Bornu, cuja organizao poltica inspirou tanto os Haussa quanto os
Kotoko e os Bagirmi.


26    Ver AL-MAKRZ, 1979.
27    Ver IBN FURTWA, 1932.
Reinos e povos do Chade                                                                                279



     O comrcio e as trocas
     Situado a nordeste do lago Chade, o Kanem forosamente tenderia a con-
trolar a regio a oeste do lago  onde mais tarde se formaria o Bornu , para
garantir o domnio sobre as rotas de comrcio do Kawr em direo ao sul.
Mas, como o Kawr tambm era acessvel a partir do Air (Takedda, depois
Agadez), a conquista dessa importante etapa nas rotas comerciais acabaria por
se converter num objetivo primordial tanto para os reis do Kanem quanto para
os do Bornu. O domnio do Kawr revestia-se de importncia ainda maior do
que poderia sugerir sua posio estratgica no comrcio transaariano; com efeito,
as riqussimas salinas de Bilma e Aghram (Fachi ) forneciam a seus senhores
rendimentos considerveis, graas  macia exportao de sal para os pases do
Sahel. Nenhuma outra salina do Saara central tinha valor econmico compa-
rvel.  preciso salientar, porm, que no dispomos de qualquer referncia que
permita estabelecer exatamente quando comeou a explorao do sal no Kawr.
Talvez os autores do Dwn estejam se referindo a uma primeira conquista das
salinas do Kawr pelos reis do Kanem, quando contam que Arku (c. 1023-1067)
instalou colnias de escravos em Dirku e Siggedim  mas isso no pode ser
afirmado com certeza28.
     Na primeira metade do sculo XII, os habitantes do Kawr mantinham-se inde-
pendentes dos poderosos vizinhos do norte e do sul. Al-Idrs atesta a existncia,
ali, de numerosas cidadezinhas habitadas por comerciantes e por trabalhadores das
salinas. Os chefes dessas comunidades eram berberes (Tuwrik ou tuaregues) que usa-
vam o lithm. Segundo al-Idrs, a principal ocupao dos habitantes do Kawr
consistia em extrair e comercializar o alume (utilizado em tinturaria e para curtir
couros), que transportavam at o Egito, a leste, e at Wargla, a oeste29. Esse
quadro deve-se indubitavelmente  viso errnea de observador estrangeiro; pois,
se o comrcio do sal com os pases da zona do Sahel j era ativo nessa poca, sem
dvida devia superar  de longe  o volume das exportaes de alume dirigidas
para as cidades da frica setentrional. Por outro lado,  preciso observar que
al-Idrs sequer menciona o grande comrcio transaariano, que tinha no Kawr
a nica etapa de pouso entre o Fezzn e a regio do lago Chade. Seu silncio a
esse respeito talvez seja indicativo da importncia respectiva desses dois tipos
de atividade comercial: o comrcio regional, ento florescente, provavelmente

28   Em estudo recente, FUCHS, 1974, forneceu indicaes precisas sobre os enormes lucros obtidos pelos
     tuaregues do Air, que atualmente se encarregam de transportar o sal de Bilma e Fachi para os pases do
     Sahel.
29   AL-IDRS, 1866.
280                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



no fosse muito inferior  pelo menos em volume, seno em valor  ao grande
comrcio internacional.
   Para o comrcio de longa distncia, o grupo de osis do Fezzn era mais
importante que o Kawr: situando-se na interseco de duas das maiores vias
comerciais da frica ocidental, seu controle permitia governar tanto as tro-
cas nortesul (Ifrkiya/TrpoliKanem-Bornu) quanto o comrcio leste-oeste
(EgitoGana/Mali/Songhai). O Kanem no dispunha de rota alternativa para
suas trocas de longa distncia com os pases do Mediterrneo (exceto com os
do extremo Magreb): a maior parte das mercadorias que importava e exportava
devia passar por ali. Somente os negociantes que comerciavam com o Magreb
podiam evitar o Fezzn, se tomassem a rota extremamente difcil que passa
por Djdj e pelo Tassili. Assim, a segurana no eixo caravaneiro nortesul e o
Controle das etapas de pouso tinham necessariamente de estar entre os objetivos
primordiais dos reis do Kanem-Bornu.
   Que mercadorias o Kanem trocava com o norte? As fontes disponveis do
escassas informaes a esse respeito; mas podemos supor que o elenco de mer-
cadorias no tenha variado muito entre os primrdios da poca muulmana
e o sculo XIX: provavelmente o trfico de escravos tenha tido sempre papel
de destaque nesse comrcio. A informao mais antiga acerca disso deve-se a
al-Ya`kb, que registra terem os comerciantes berberes do Kawr levado nume-
rosos escravos negros a Zawla, capital do Fezzn30. Esses escravos, sem dvida,
vinham do Kanem. Leo, o Africano, ao iniciar-se o sculo XVI, fornece-nos
informaes mais precisas sobre os comerciantes da frica setentrional que,
nessa poca, iam at o Bornu para adquirir escravos em troca de cavalos: eram
frequentemente obrigados a esperar um ano inteiro, at que o rei reunisse nmero
suficiente de cativos31. Aparentemente, as incurses efetuadas pelo rei contra os
povos no muulmanos ao sul do Bornu, com o objetivo de capturar escravos,
no conseguiam satisfazer a intensa demanda. Quando o reino se enfraquecia, os
prprios habitantes do Kanem-Bornu viam-se ameaados de escravizao pelos
inimigos externos, embora desde o sculo XIII a maior parte deles tambm fosse
muulmana. No final do sculo XIV, Br ben Idrs (c. 1389-1421) queixou-se,
em carta dirigida ao sulto Baybars do Egito, dos rabes que reduziam os seus
sditos muulmanos ao cativeiro32. Sabemos, graas a D. Girard, que no sculo



30    AL-YA`KB, 1937, p. 205.
31    LEO, o AFRICANO, 1956, v. 2, p. 480.
32    AL-KALKASHAND, in CUOQ, 1975, p. 40.
Reinos e povos do Chade                                                                             281



XVII certos habitantes do Bornu padeciam a mesma sorte, em consequncia
de ataques tuaregues33.
   Alm dos escravos, as caravanas que se destinavam ao Fezzn e aos centros
mediterrnicos tambm transportavam alguns produtos exticos, como presas
de elefantes, penas de avestruz e at animais vivos34. Mas, para avaliarmos a
verdadeira importncia do trfico de escravos,  fundamental situ-lo frente ao
conjunto das atividades de produo. Sob esse aspecto, no h dvida de que o
Kanem-Bornu devia sua prosperidade  agricultura em expanso,  criao de
animais e s minas de sal, mais que aos rendimentos proporcionados pelo comr-
cio de escravos. Tambm se deve destacar o papel importante que cabia ao arte-
sanato, cuja produo era em parte exportada para os pases vizinhos. No sculo
XIV, Ibn Battta registra que, alm de escravos, o Bornu igualmente exportava
roupas bordadas35. No esqueamos, alm do mais, que, segundo al-Idrs (sculo
XII), o alume do Kawr era muito cotado na frica setentrional36.
   As importaes consistiam principalmente em cavalos, que eram procurados
em funo de seu valor militar. Os cronistas afirmam que a cavalaria de Dnama
Dbalmi (c. 1210-1248) compunha-se de 41 mil animais (Dwn; pargrafo
17). Al-Makrz fornece informao interessante: os cavalos do Kanem eram
especialmente pequenos  o que pode ser indcio de criao autctone desde
tempos antigos37.
   Do norte tambm se importavam produtos manufaturados, como roupas e
tecidos, alm de armas de ferro. Ibn Sa`d observa, de passagem, que nos tempos
de Dnama Dbalmi o Kanem importava vestimentas da capital tunisiana38.
Anteriormente, al-Muhallab j havia observado que o rei dos Zaghwa usava
roupas de l e seda provenientes de Sousse. No sculo XIV, a tecelagem local j
se desenvolvera o bastante para que os habitantes do Kanem utilizassem faixas
de algodo como medida de valor nas trocas comerciais39.
   Por outro lado, pode-se supor que entre as mercadorias vendidas ao Sudo
central tambm estivesse o cobre. Sabemos que no sculo XIV esse metal era


33   Ver LA RONCIRE, 1919. A propsito da escravido e do trfico de escravos no Sudo central, ver
     FISHER, A. G. B. & FISHER, H. J., 1970.
34   Sabemos, graas a IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 346-7, que em 1268 o "soberano de Kanem e senhor
     de Bornu enviara ao sulto hafssida al-Mustansir uma girafa, que provocou grande emoo em Tnis".
35   IBN BATTTA, 1853-1859, v. 4, p. 441-2.
36   AL-IDRS, 1866, p. 39.
37   AL-MAKRZ, in HAMAKER, 1820, p. 206.
38   IBN SA`D, AL MAGHRIB (ed. J. V. Gines), 1958, p. 95.
39   AL-`UMAR, 1927, p. 45.
282                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



extrado, provavelmente em quantidades pequenas, de minas situadas na regio
de Takedda40. Nessa poca, provavelmente j se comeara a explorar as jazidas
de estanho do planalto nigeriano. Ptis de la Croix nos informa que, no fim do
sculo XVII, o estanho era uma das mercadorias que o Bornu vendia a Trpoli41.
Ora, o cobre e o estanho (assim como o zinco) so indispensveis na fabricao
do bronze, e sabe-se que existia uma admirvel arte do bronze em Benin e Nupe,
antes mesmo de chegarem os portugueses  costa atlntica.
    O volume de trocas norte-sul dependia muito da segurana existente no grande
eixo caravaneiro do Saara central. Na primeira metade do sculo XII, a segu-
rana da circulao estava a cargo de trs diferentes poderes: ao norte, do reino
do Fezzn, dominado desde o comeo do sculo X pela dinastia berbere dos
Ban Khatb; ao centro, dos chefes berberes do Kawr; ao sul, do Kanem. Assim,
quando o chefe guerreiro mameluco Sharf al-Din Karksh conquistou o
Fezzn, em 1172-1173, submetendo o pas a ferro e fogo, o antigo equilbrio
viu-se perigosamente ameaado42. O vazio poltico criado pela queda dos
Ban Khatb foraria, mais cedo ou mais tarde, os reis do Kanem a intervir
no Fezzn.
    Com efeito, no sculo XIII Ibn Sa`d  cujos registros sobre o Kanem se
referem ao reinado de Dnama Dbalmi (c. 1210-1248)  observa que o rei do
Kanem dominava o Kawr e o Fezzn43. A expanso do Kanem para o norte 
confirmada por al-`Umar, que escreve em meados do sculo XIV:
      O imprio [do Kanem] comea ao lado do Egito, numa cidade que se chama Zelia
      [a nordeste do Fezzn], e termina, no sentido da largura, numa cidade de nome
      Kk44; a distncia entre elas  de trs meses45.
   O poderio do Kanem nessa poca  tambm atestado pelo viajante al-Tidjn,
que conta que em 1258-1259 "emissrios" do rei do Kanem conseguiram matar
um dos filhos de Karksh, que invadira o Waddn, regio situada ao norte do
Fezzn46.



40    IBN BATTTA, 1853-1859, v. 4, p. 441.
41    Bibliothque Nationale, Paris, manuscrito 7488 das novas aquisies. (Doravante referido como B. N.,
      Paris, Ms. 7488 das n. aq.)
42    AL-TIDJN, 1958; 1852 e 1853.
43    IBN SA`D, AL MAGHRIB, 1970, p. 114-5 e 127.
44    Segundo AL-KALKASHAND, 1913-1919, v. 5, p. 281, Kk era o nome da capital do Bornu. Kk
      , provavelmente, a mesma Djdj de Ibn Sa`d (ver notas 69 e 79).
45    AL-`UMAR, 1927, p. 43.
46    AL-TIDJN, 1958, p. 111.
Reinos e povos do Chade                                                                          283



    Mas, para controlar de maneira efetiva todo o comrcio entre o Sudo central e
a frica setentrional, era necessrio garantir que as trocas no fossem desviadas para
rotas secundrias. Assim, Ibn Sa`d afirma que o rei do Kanem controlava, a oeste,
a cidade de Takedda (no texto, Tadmekka)47 e que sua autoridade era reconhecida, a
leste, at pelos Tadjwa (Dadjo ) e pelos Zaghwa. O rei do Kanem tambm domi-
nava o reino de Djdj, a noroeste do lago Chade, e os berberes do sul (tuaregues)48.
    Seria imprudente, porm, afirmar que no sculo XIII o Kanem fosse um vasto
imprio dotado de slida organizao territorial. Em particular, no dispomos de
nenhuma informao que permita determinar qual era a natureza do poder que o
Kanem exercia sobre o Fezzn: o may `Al, cujo tmulo ainda se pode ver em Traghen,
era na verdade o rei Idrs ben `Al (c. 1677-1696), que morreu no Fezzn durante
uma peregrinao, e no, como se pensou anteriormente, um antigo "governador"
ou "vice-rei" representante do rei do Kanem49. Por outro lado, no se tem como
totalmente certo que o Kanem dominasse, a leste, at os arredores do Darfr. O
prprio Ibn Sa`d informa que os Tubu do Bahr al-Ghazl  no muito longe de
Djm  constituam um povo independente50. Aparentemente, Dnama Dbalmi
no conseguira submet-los, a despeito da longa guerra de "sete anos, sete meses e
sete dias" de que fala Ibn Furtwa51. Os povos que viviam ao redor do lago Chade e
nas ilhas lacustres tambm continuaram a defender com sucesso sua independncia.
Com base nos relatos de Ibn Ftima, Ibn Sa`d afirma que "o lago Kr [Chade] est
cercado de sudaneses insubmissos e infiis, que comem carne humana"52. Ao norte
do lago, ele situa os Bad (Bedde?) que, segundo al-Makrz, estavam organizados
em um reino53; ao sul, os Ankazar (que seriam os Kotoko?); a noroeste, os Djb; e
a sudeste, na embocadura  do Bahr al-Ghazl, os Kri (hoje instalados nas ilhas).
Alm disso, havia,  beira do lago, um lugar chamado dar al-sin`a (que significa
"arsenal" ou, etimologicamente, "manufatura"), a cujo respeito Ibn Sa`d conta:




47   Ver, sobre os problemas suscitados por essa identificao, BUCAILLE, 1975.
48   IBN SA`D, 1970, p. 94-5.
49   B. N., Paris, Ms. 7488 das n. aq.
50   Ibn Sa`d afirma que os Tubu eram um povo negro e infiel. De acordo com informaes coletadas por
     NACHTIGAL, 1967, v. 3, p. 210, os grupos Tubu do Bahr al-Ghazl teriam sido os primeiros a se
     converter ao Isl.
51   IBN FURWA, 1932, p. 123-4.
52   IBN SA`D, 1970, p. 94.
53   AL-MAKRZ, 1979.
284                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



       dali, na maior parte das vezes, que o sulto parte em campanha com sua frota
      contra os pases infiis, situados s margens do lago, para atacar suas embarcaes,
      matando-os e fazendo cativos54.
    Al-Makrz, tambm baseado em fonte do sculo XIII, menciona os nomes de
vrios povos pagos que viviam nas proximidades do Kanem. Entre eles, podemos
identificar os Bedde (?) os Afnu (nome dos Haussa em lngua kanuri) e os Kotoko
(no texto, Kan. k)55. O mesmo autor nota que, por volta de 1252-1253, o rei do
Kanem, vindo de Djm, fez uma incurso contra os Klkn, subgrupo dos Mabna
(os Mabba do Wadday?), sem dvida, com a finalidade de obter cativos56.
    Parece plausvel deduzir dessas informaes que a expanso do Kanem se
limitasse  regio setentrional. No sul, as relaes com os povos no muul-
manos aparentemente no se haviam modificado, o que no deve causar estra-
nheza, porque a prosperidade do reino  ou, pelo menos, a do rei  dependia
mais imediatamente dos rendimentos oriundos do comrcio transaariano que
do aumento da produo agrcola ou pastoril. Ora, os escravos constituam a
principal "mercadoria" que se podia trocar pelos produtos importados do norte
e eram obtidos atravs de incurses dirigidas contra os povos no muulmanos
do sul. Os reis do Kanem, por conseguinte, no tinham interesse em facilitar a
expanso do Isl alm de certos limites.
    No prprio Kanem, o Isl no deitara razes profundas antes do sculo XIII.
Escrevendo no sculo XV, al-Makrz considera Dnama Dbalmi o primeiro
rei muulmano do Kanem  o que, seguramente,  falso. O Dwn contm
informaes provando que todos os Sfuwa eram muulmanos. A acreditarmos
nos cronistas, o segundo rei dos Sfuwa, Dnama ben Hummay (c. 1086-1140),
teria at mesmo feito duas vezes a peregrinao a Meca, morrendo durante
a terceira; o prprio Hummay, fundador da dinastia dos Sfuwa, faleceu no
Egito, informao que  se for exata  poderia sugerir que tambm ele estava
em peregrinao (Dwn, pargrafos 12 e 13). Alm disso,  importante recor-
darmos que, desde o reinado de Br ben Dnama (c. 1140-1166), as esposas
principais dos reis eram muulmanas, a julgar por seus nomes  ou pelos de seus
pais , indicados no Dwn. Mas, provavelmente, foi s a partir do reinado de
Dnama Dbalmi (c. 1210-1248) que o Isl em sua forma ortodoxa penetrou
profundamente nas camadas populares.

54    IBN SA`D, 1970, p. 94-5.
55    As fortificaes das cidades kotoko podem datar do sculo XIII  ocasio em que tais aglomeraes
      teriam sido cercadas de muralhas, para poderem resistir s incurses do Kanem.
56    AL-MAKRZ, 1979.
Reinos e povos do Chade                                                                             285



    Das fontes internas e externas pode-se deduzir que Dnama Dbalmi foi um
grande reformador muulmano. Os autores do Dwn  que omitem as peregrina-
es de dois reis do sculo XIV  e Ibn Furtwa censuram-no por haver destru-
do um objeto sagrado, de nome mune. Com toda a probabilidade, tratava-se do
elemento central de um culto rgio, herdado da poca pr-islmica. Ibn Furtwa,
embora ele prprio tenha sido im (no sculo XVI), viu nesse "ato sacrlego" a
causa de numerosos distrbios; atribuiu-lhe, em particular, a responsabilidade
pelo incio da longa guerra contra os Tubu57.  provvel que tambm tenha sido
Dnama Dbalmi quem fundou uma madraa no Cairo, destinada aos sditos
do Kanem58. Ibn Sa`d registra que ele ficou "clebre pela guerra santa e por suas
aes louvveis", e acrescenta que se rodeou de jurisconsultos muulmanos. Ele
forou alguns povos do Sudo central, especialmente certos grupos berberes, a se
converterem ao Isl59. Assim se v claramente que, na primeira metade do sculo
XIII, a difuso do Isl andava de par com a expanso territorial.
    Dnama Dbalmi morreu por volta de 1248 e foi enterrado em Zantam,
cidade situada a oeste do lago Chade. No dispomos de nenhuma fonte compa-
rvel ao Kitb al-Djughrfiy, de Ibn Sa`d, para nos informar sobre a extenso
do Kanem e a expanso do Isl no perodo seguinte. O Dwn registra, sob o
reinado de Br ben Dnama (c. 1277-1296), a visita ao Kanem de dois xeques
dos "Fellata" (Fulbe) do Mali, mas sequer menciona as peregrinaes de Ibrhm
ben Br (c. 1296-1315) e Idrs ben Ibrhm (c. 1342-1366)60.
    Escrevendo em meados do sculo XIV, al-`Umar tambm fornece poucos
dados precisos. Segundo ele, o Kanem era um imprio muito fraco, de recursos
escassos e tropas pouco numerosas. Em compensao, a religiosidade de seus
habitantes devia ser notvel, pois ele afirma: "A justia reina em seu pas; seguem
o rito do im Mlik. Nada usam de suprfluo nas roupas e tm f ardente"61.
    Se al-`Umar merece crdito, nessa poca o Kanem ainda dominava o Fezzn.
Takedda, em compensao, sem dvida tinha um sulto independente62. Foi
certamente em consequncia dos conflitos dinsticos que eclodiram na segunda
metade do sculo XIV que o Kanem precisou dividir o controle sobre a rota das

57   IBN FURTWA, 1932, p. 123-4.
58   AL-`UMAR, 1927, p. 46. A mudana foi fundada entre 620 e 630 da Hgira (1242 e 1252 da era
     crist).
59   IBN SA`D, 1970, p. 95-6.
60   Em sua carta ao sulto do Egito, Br ben Idrs refere-se a eles pelo ttulo de al-Hadjdj (o que fez a
     peregrinao a Meca). Ver AL-KALKASHAND, 1931-1919, v. 8 ,p. 117.
61   AL-`UMAR, 1927, p. 43.
62   IBN BATTTA, 1853-1859, v. 4, p. 441-2.
286                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



caravanas do Saara central, que at ento exercera com exclusividade. Quando,
no final do sculo XIV, os Bulla conseguiram conquistar o Kanem e romper
o monoplio do comrcio com a frica setentrional, os Sfuwa entraram no
perodo mais negro de sua histria.


      Do Kanem ao Bornu
    O mais tardar no sculo XII, diversos povos do Kanem comearam a
deslocar-se rumo a oeste, para se instalarem no Bornu, a oeste do lago Chade.
Entre os primeiros imigrantes que assim chegaram ao Bornu deviam estar os
Tomaghra, os Tra, os Kay (Koyam) e os Ngalma Dukko. Os grupos Magomi
mais antigos tambm devem ter se originado no Kanem, enquanto os que se
constituram depois do final do sculo XIV s existiam no Bornu. Na segunda
metade do sculo XVI, depois das expedies vitoriosas de Idrs Alawma, foi a
vez de um grande nmero de Tubu e rabes deixarem o Kanem, para ocupar as
terras mais frteis e bem protegidas a oeste do lago Chade. Essa corrente migra-
tria, que, no caso dos seminmades, provavelmente acompanhou a expanso
poltica, somente se encerrou no incio do perodo colonial63.
    A oeste do lago Chade, os grupos oriundos do Kanem encontraram diversos
povos sedentrios que falavam lnguas tchdias. Seguindo o uso das tradies
kanuri, podemos aplicar-lhes o nome coletivo de Sao (So). Esta denominao
no aparece em Ibn Sa`d nem em al-Makrz. Mas os cronistas registram que
quatro reis sfuwa morreram, em meados do sculo XIV, lutando contra os Sao
(Diwn, pargrafos 22-25). Dois deles foram mortos em Ghaliwa, localidade
que talvez se possa identificar como sendo a atual cidade de Ngala, ao sul do
lago64. Ngala tem hoje populao Kotoko, mas, segundo tradies orais reco-
lhidas no sculo XIX, teria sido habitada por Sao em tempos mais remotos65.
Nas fontes escritas, os Sao reaparecem na primeira metade do sculo XVI nos
escritos de Leo, o Africano, que os situa a oeste do lago Chade e ao sul do
Bornu66. Meio sculo mais tarde, Ibn Furtwa aplica o nome Sao a dois grupos
tnicos: os Ghafat, que viviam ao longo do Komadugu Yobe, e os Tatla, da

63    NACHTIGAL, 1967, v. 2, p. 415-47, fornece numerosas informaes sobre o povoamento do Bornu.
64    Os ltimos cronistas referem-se a essa cidade pelo nome de Ghala (Dwn, pargrafo 66).
65 NACHTIGAL, 1967, v. 2, p. 426-7, registra em Ngala a existncia de enorme mausolu, com os tmulos
   de 45 reis kotoko. Ele supe se tratar do nmero de soberanos que reinaram em Ngala depois que os
   Kotoko substituram os Sao.
66    LEO, o AFRICANO, 1956, v. 1, p. 5 e 53; v. 2, p. 480.
Reinos e povos do Chade                                                                    287



margem ocidental do lago Chade. Idrs Alawma (1564-1596) desferiu uma
srie de ataques extremamente violentos contra esses dois povos, forando os
sobreviventes a abandonar suas moradas ancestrais67. Alguns se refugiaram nas
ilhas do lago. Ora, em 1582 o gegrafo italiano G. L. Anania aplica ao lago
Chade justamente o nome de "Sauo"68. Hoje, Sao (ou So)  o nome pelo qual os
Kanuri designam os povos que os precederam  seja no Kanem, no Bornu ou no
Kawr , mas a respeito dos quais j no se tem nenhuma informao precisa.
     difcil determinar a natureza das relaes que existiam entre o Kanem e o
Bornu antes do fim do sculo XIV. Uma coisa  certa: entre o comeo do sculo
XIII e o final do XIV, o Bornu cresceu em importncia, em comparao com o
Kanem. Ibn Sa`d menciona um reino a oeste do lago Chade, mas cita apenas
a capital, Djdj69. Sua situao geogrfica, porm, faz pensar que se tratasse do
Bornu. Diz o autor:
     A cidade de Djdj  a residncia [kurs] de um reino distinto, que domina cidades
     e terras. Atualmente, pertence ao sulto do Kanem70.
    H fortes razes, portanto, para supormos que antes do sculo XIII o Bornu
constitusse um reino independente. Al-Makrz  que teve acesso a um texto,
hoje desaparecido, de Ibn Sa`d  emprega o mesmo termo ambguo kurs, mas
usa-o tanto para o Kanem como para o Bornu. Segundo ele, Ibrhm ben Br
(c. 1296-1315) possua o trono (kurs) do Kanem e o trono (kurs do Bornu71. Ibn
Khaldn menciona, a propsito do ano 1268, o "soberano do Kanem e senhor do
Bornu"72. Ibn Battta, que esteve em Takedda  ao sul do Air , em 1353, sabia
de um rei sfuwa do Bornu, mas a distncia que indica para se chegar  capital
localiza-a a leste do lago Chade, no Kanem73. Poderemos conciliar essas dife-
rentes informaes se admitirmos que o Kanem e o Bornu eram inicialmente
dois reinos distintos, que desde o sculo XIII estariam sob a dominao de uma
nica dinastia, a dos Sfuwa.
    Contudo, em meados do sculo XIV al-`Umar afirma que os sultes
mamelucos do Egito trocavam cartas tanto com o rei do Kanem quanto com

67   IBN FURTWA, 1926, p. 63-9.
68   Ver LANGE e BERTHOUD, 1972, p. 350-1
69   A mesma cidade que al-`Umar chamou de Kk. Ver AL-`UMAR, 1927, p. 43.
70   IBN SA`D, AL MAGHRIB, 1970, p. 94. Ibn Sa`d fala do Kawr em termos quase idnticos, mas
     nesse caso a existncia de chefarias mais antigas  confirmada por AL-IDRS, 1866, p. 114.
71   AL-MAKRZ, in HAMAKER, 1820, p. 207.
72   IBN KHALDN, 1925-1926, 1956-1959, v. 2, p. 346-7.
73   IBN BATTTA, 1853-1859, v. 4, p. 441-2.
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Figura 10.4   Mapa dos povos e reinos do Chade no sculo XIV. (D. Lange.)
Reinos e povos do Chade                                                                        289



o do Bornu74. Aparentemente, podemos deduzir dessa informao que o Bornu
conservara alguma autonomia, apesar da suserania dos reis do Kanem, e que
a antiga dinastia continuava a desempenhar papel importante naquele reino.
Quando o poder dos Sfuwa se enfraquecia, a autoridade dos reis locais se
fortalecia, para reduzir-se quando se fortaleciam os seus suseranos. O substrato
tnico, porm, devia ser o mesmo nos dois Estados: seno, como Ibn Battta
teria usado o nome "Bornu" para designar o imprio dos Sfuwa?
    Essa situao deveria modificar-se por volta do final do sculo XIV, quando,
em consequncia de ataques desferidos pelos Bulla e pelos rabes, os Sfuwa
foram forados a abandonar o Kanem, para se instalarem definitivamente no
Bornu (ver figura 10.4). Os Bulla eram um povo de pastores que, ao que tudo
indica, j estavam estabelecidos na regio do lago Fitri  onde hoje vivem ,
antes de iniciarem suas incurses no Kanem75. Em seu territrio eles dominavam
os Kuke, povo que falava uma lngua aparentada ao sara. Talvez sua ofensiva
contra o Kanem esteja relacionada  migrao de algumas tribos rabes rumo ao
oeste, posterior ao desmembramento do reino cristo da Nbia (no comeo do
sculo XIV). No final do sculo XVI, havia rabes entre os aliados dos Bulla,
segundo Ibn Furtwa. J no fim do sculo XIV um dos reis sfuwa morrera em
combate contra os rabes.
    Parece que a razo imediata para a interveno dos Bulla no Kanem foi a
debilitao do reino dos Sfuwa, causada pelo conflito dinstico que ops Dwd
ben Ibrhm Nikle (c. 1366-1376) aos filhos do irmo e predecessor, Idrs. O
prprio Dwd foi morto pelo rei bulla `Abd al-Djall. Seus trs sucessores mor-
reram todos em combate com os Bulla. O quarto rei depois de Dwd, `Umar ben
Idrs (c. 1382-1387), acabou tendo de deixar Djm e, ao que parece, tambm o
reino inteiro do Kanem (Dwn, pargrafos 27-31). Segundo uma carta do irmo
Br ben Idrs, ele foi morto por rabes Djudhm (que devem ser os Djuhayna do
texto)76. Mais dois reis sfuwa ainda deviam morrer em batalha contra os Bulla
at que, no longo reinado de Br ben Idrs (c. 1389-1421), fosse possvel afastar
a ameaa que esses temveis inimigos faziam pairar sobre o Imprio dos Sfuwa.


74   AL-`UMAR, 1894, p. 27 et seqs.
75   IBN FURTWA, 1932, p. 4-5. Segundo BARTH, 1965, v. 2, p. 545, 586, os Bulla descenderiam de
     um certo Djl Shikomni, que por sua vez seria filho de Dnama Dbalmi; mas o mais provvel  que
     no existisse nenhum parentesco entre os Bulla e os Sfuwa (NACHTIGAL, 1967, v. 3, p. 38-9).
76   O nome Djudhm j cara em desuso no sculo XIV (Encyclopdie de l 'lslam, v. 1, p. 1090-1). Os
     Djuhayna, em compensao, tiveram papel importante no desmembramento do reino cristo da
     Nbia. Posteriormente, seguiram nas direes sul e oeste. Ver MAcMICHAEL, 1922, v. 2, p. 187
     et seqs.
290                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



   Tais acontecimentos no passaram despercebidos aos demais pases muulmanos.
Al-Makrz assim os resume:
      Por volta do ano 700 [a Hgira, isto , c. 1300 da era crist], era seu rei al-Hadjdj
      Ibrhm, descendente de Sayf ben Dh Yazan; ele ocupava os tronos do Kanem e do
      Bornu. Depois dele reinou o filho al-Hadjdj Idrs, depois o irmo deste, Dwd ben
      Ibrhm, depois `Umar, filho de seu irmo al-Hadjdj Idrs; finalmente, seu irmo,
      `Uthmn ben Idrs77, que reinou pouco antes do ano 800 [+ 1397-1398]. Mas o povo
      do Kanem revoltou-se contra eles [os reis] e renegou sua f. J o Bornu permaneceu
      em seu imprio. Seus habitantes so muulmanos e travam a guerra santa contra o
      povo do Kanem. Eles tm doze reinos78.
   O relato de al-Makrz poderia fazer supor que os Bulla no fossem
muulmanos  mais isso no  confirmado pelo Dwn, nem por Ibn Furtwa.
Merece maior crdito a parte que se refere ao novo Imprio dos Sfuwa. O
Bornu constituiu seu centro, e numerosos chefes locais parecem haver-se
submetido a ele. Kk tornou-se a nova capital79. Ao que tudo indica, Br
(`Uthmn) ben Idrs dispunha de foras suficientes para levar a guerra ao
territrio inimigo.
   Os Bulla, por sua vez, fundaram um poderoso reino no Kanem. Sabemos,
graas a Ibn Furtwa, que tinham os Tubu e os rabes como aliados. Leo, o
Africano, conheceu seu reino pelo nome de "Gaoga", certamente derivado de
Kuka80. De acordo com suas informaes, o Kanem era mais extenso e poderoso
que o Bornu; seu rei mantinha excelentes relaes com o sulto do Egito81. Essa
descrio no pode referir-se ao comeo do sculo XVI  quando Leo, o Afri-
cano, pretende ter visitado os reinos do Sahel82 , mas bem poderia corresponder
 situao do final do sculo XV, como lhe foi descrita por comerciantes da


77    No Dwn, seu nome  Br ben Idrs (pargrafo 34).
78    AL-MAKRZ, manuscrito 1744 da Bibliothque Nationale de Paris. As tradues anteriores dessa
      passagem tiveram como base um texto falho (HAMAKER, 1820, p. 207).
79    AL-KALKASHAND, 1913-1919, v. 5, p. 281. Kk tambm  mencionada por al-`Umar e pode ser
      a mesma cidade que a Djdj de Ibn Sa`d e a Kgha do Dwn (pargrafo 31) (ver notas 44 e 69).
80 Trata-se de um grupo tnico, e no da cidade de Gao ou Gao-Gao, cujo nome  muitas vezes grafado
   Kaw-Kaw.
81    LEO, o AFRICANO, 1956, v. 1, p. 10; v. 2, p. 479-83.
82    Os numerosos erros contidos em sua "descrio" dos reinos do Sudo excluem a possibilidade de que
      Leo, o Africano, tenha visitado pessoalmente a regio. Chama de Habraam (Ibrhm) o rei do Bornu
      e menciona dois reis do "Gaoga", Mose (Ms) e Homara (`Umar). O nico soberano de nome Ibrhm
      a reinar no Bornu no perodo que inclui o sculo XV e o comeo do XVI foi Ibrhm ben `Uthmn (c.
      1431-1439). E no se conhece nenhum rei bulla dessa poca que se chamasse Ms ou `Umar.
                                                                           Reinos e povos do Chade
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Figura 10.5   Mapa dos povos e reinos do Chade no sculo XV. (D. Lange.)
292                                               frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 10.6   Genealogia dos Sfuwa. (D. Lange.)
Reinos e povos do Chade                                                            293



frica setentrional. Sabemos, com efeito, que as tropas do Bornu reconquistam
Djm pelo comeo do reinado de Idrs Katakarmbi (c. 1497-1519)  122 anos
depois de serem expulsas da antiga capital83. A derrota final dos Bulla, porm,
s ocorrer frente a Idrs Alawma, na segunda metade do sculo XVI.



     Crises dinsticas e crises polticas
    A maior parte das informaes contidas no Dwn diz respeito  histria
dinstica, que, por essa razo,  o aspecto mais bem conhecido na histria do
Kanem-Bornu (ver fig. 10.6). Em princpio, o Dwn fornece apenas informaes
ligadas s sucesses (os pargrafos se sucedem segundo a ordem dos reinados),
mas esses registros bastam para podermos determinar as relaes de filiao entre
os diversos reis (sua genealogia) e a evoluo das regras sucessrias. Era com base
em tais regras  ou melhor, em tais precedentes  que se escolhia um sucessor
para o rei defunto. Embora tambm fosse levada em considerao a relao de
fora entre os vrios grupos dinsticos, era a conformidade s regras existentes
que conferia legitimidade a uma determinada sucesso. Essas regras no escritas
eram mais estveis e duradouras que nossas constituies atuais. S variavam aps
perodos bastante longos, e em consequncia de alteraes importantes. Os grupos
dinsticos se constituam segundo essas regras e no podiam manipul-las a seu
arbtrio. Por conseguinte, a reconstituio das regras sucessrias e de suas variaes
permitir melhor entendimento no apenas da histria dinstica  em sentido
estrito , mas tambm de certos aspectos do processo histrico.
    Segundo o Dwn, os seis primeiros reis sfuwa se sucederam no trono,
em linha direta de pai para filho. Os cronistas indicam que o mesmo modo de
sucesso j era praticado pelos reis dguwa; as duraes dos reinados destes,
porm, mostram que os reis que se sucediam no podiam pertencer a geraes
distintas. O modelo de sucesso de pai para filho deve ter-se originado, por-
tanto, entre os chefes do Kawr, provveis ancestrais de Hummay, que fundou
a Dinastia dos Sfuwa.
    Foi entre os filhos de Dnama Dbalmi que ocorreu a primeira sucesso
colateral (um irmo sucedendo ao outro); mas  preciso notar que Kaday ben
Dnama (c. 1248-1277) e Br ben Dnama (c. 1277-1296) eram filhos de
mes diferentes. A me de Kaday devia ser uma Magomi, enquanto a de Br


83   IBN FURTWA, 1932, flio 5.
294                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



possivelmente descendia de um dos antigos cls do Kanem. Essa interpretao
deve ser vista sob a luz do importante comentrio que os cronistas deixaram,
a propsito do reinado de Dnama Dbalmi: "No seu tempo, os filhos do
sulto dividiram-se em faces; antes, no havia faces" (Dwn, pargrafo
17). Parece plausvel concluir que a rivalidade entre a descendncia de Kaday
e a de Br refletisse conflitos dinsticos que j haviam eclodido na primeira
metade do sculo XIII. Na base desses conflitos estava, provavelmente, o
crescente antagonismo entre a linhagem real dos Magomi e as linhagens dos
sedentrios do Kanem.
     tambm de se notar que a primeira sucesso colateral na histria dos Sfuwa
se deu, dizem os cronistas, depois da primeira morte violenta de um rei do Kanem
em seu prprio reino (Dnama ben Hummay foi morto em meio a uma pere-
grinao aos lugares santos): com efeito, Kaday morreu em combate contra o
`andkama Dnama  certamente um dos grandes senhores feudais do reino. Em
compensao, o seu irmo e sucessor Br morreu em Djm, de morte natural.
Ibrhm Nikle (c. 1296-1315) sucedeu ao pai, conforme o modelo sucessrio
patrilinear, mas ele prprio sucumbiu a outro grande senhor feudal, o yrima
Muhammad ben Ghad, e o poder passou s mos do primo, `Abd Allh ben
Kaday (c. 1315-1335). Depois dele, retornou-se, uma vez mais, ao antigo princpio
de sucesso: depois de sua morte natural, ocorrida em Djm, sucedeu-lhe o filho
Salmma (c. 1335-1339). Dessas informaes podemos concluir que, durante a
segunda metade do sculo XIII e o comeo do XIV, a sucesso patrilinear ainda
constitua o modelo predominante, que somente se rompia pela violncia.
    Posteriormente, porm, a sucesso colateral imps-se mais e mais: quatro filhos
de `Abd Allh exerceram sucessivamente o poder, mas  preciso ressalvar que todos
eles morreram, aps reinados de curta durao, lutando contra os Sao. Aparen-
temente incapazes de derrotar os Sao, os descendentes de Kaday ben Dnama
cederam o poder a um neto de Br, Idrs ben Ibrhm Nikle (c. 1342-1366). Esse
rei talvez tivesse mais condies de conciliar-se com os autctones do Bornu, pois
pertencia  linhagem de Br ben Dnama, que mantinha relaes estreitas com os
povos no Magomi do Kanem. Em todo caso, parece que conseguiu estabelecer
um modus vivendi com os grupos Sao e fez reinar a ordem no Bornu.
    Quando da morte de Idrs, o problema sucessrio se colocou de maneira mais
aguda do que nunca: quem iria suceder-lhe, um filho ou um irmo? Foi esco-
lhido um irmo no uterino, Dwd, em prejuzo de seus filhos84 que, porm,


84    Contrariamente aos filhos de Dnama Dbalmi, os de Ibrhm Nikle no parecem haver representado
      dois grupos distintos: pois, segundo as indicaes do Dwn, as mes de Idrs e Dwd eram irms. Tudo
      indica que ambas fossem Magomi.
Reinos e povos do Chade                                                                                  295



no aceitaram a eleio. Contam os cronistas que, durante o reinado de Dwd,
"a guerra eclodiu entre o filho [ou filhos] do sulto e o sulto85. Pode-se pen-
sar que essa guerra de sucesso, que enfraqueceu os Sfuwa, tenha provocado
a nova interveno dos Bulla em seus domnios: todos os sete reis que se
sucederam entre 1376 e 1388 morreram lutando contra os invasores (Dwn,
pargrafos 27-33). O conflito tambm acarretou a polarizao de dois grupos
de descendncia na famlia real, os Dawdidas e os Idrssidas, os quais, devido 
competio  frequentemente violenta  pelo poder debilitaram perigosamente a
monarquia dos Sfuwa. Levaria um sculo at se resolver o problema da suces-
so, mediante a eliminao completa de uma das duas linhas.
    De imediato, a agresso externa provocou um reflexo de defesa: `Uthmn (c.
1376-1379) sucedeu sem dificuldades ao pai Dwd e, na sequncia, Dawdidas e
Idrssidas reinaram alternadamente, at cessarem os combates no Kanem. Durante
esse perodo, o modo de sucesso colateral foi-se tornando regra: `Uthmn ben
Idrs sucedeu a `Uthmn ben Dwd e `Umar ben Idrs a Ab Bakr ben Dwd.
O princpio de legitimidade na sucesso visivelmente se subordinava aos impe-
rativos polticos do momento.
    No surpreende, nessas circunstncias, que at mesmo um no sfuwa ascen-
desse ao trono: o "rei" (malik, e no sulto) Sa`d (c. 1387-1388) assim sucedeu a
`Umar, que fora forado pelos Bulla a abandonar o Kanem. Sa`d foi, portanto,
o primeiro rei a governar apenas o Bornu. Provavelmente foi escolhido por
representar melhor os interesses dos habitantes dessa parte do antigo reino. At
seramos tentados a ver nele um membro da antiga dinastia do prprio Bornu.
Ele e seu sucessor Kaday Afnu ben Idrs (c. 1388-1389) tambm sucumbiram
lutando contra os Bulla, antes que Br (`Uthmn) ben Idrs finalmente conse-
guisse expulsar os invasores.
    Seria de se pensar que esse sucesso desse aos Idrssidas elementos suficientes
para excluir definitivamente do poder os descendentes de Dwd. A essa altura,
os Dawdidas j haviam sido descartados da sucesso trs vezes, e o longo reinado
de Br (`Uilimn) ben Idrs (c. 1389-1421) tornaria ainda mais difcil sua volta
ao poder. Se, apesar disso, `Uthmn Kalnama ben Dwd (c. 1421-1422) conse-
guiu suceder a Bir (`Uthmn), foi porque nessa poca os verdadeiros detentores
do poder j no eram mais os Sfuwa, porm alguns grandes ministros do reino.



85   Poderia pensar-se que se tratasse dos filhos de Dwd, mas, neste caso, os cronistas provavelmente escre-
     veriam: "A guerra eclodiu entre o sulto e seu [ou seus] filho[s]", como fizeram a propsito do reinado
     de Dnama Dbalmi (Dwn, pargrafo 17).
296                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



    O Dwn conta-nos que o prprio rei Br (`Uthmn) j tivera de combater
o kayghamma (chefe do exrcito) Muhammad Dalatu. `Uthmn Kalnama, seu
sucessor, reinou por apenas nove meses  sendo destitudo pelo kayghamma
Nikle ben Ibrhm e pelo yerima (governador do norte) Kaday Ka`aku. O poder
passou ento a dois dos filhos de `Umar ben Idrs, Dnama (c. 1422-1424) e
`Abd Allh (c. 1424-1431), antes de voltar s mos de dois Dawdidas, Ibrhm
ben `Uthmn (c. 1431-1439) e Kaday ben `Uthmn (c. 1439-1440). Essa osci-
lao do poder entre as duas linhagens devia-se incontestavelmente  manipu-
lao da sucesso pelos ministros do reino e, em especial, pelo kayghamma. Os
cronistas no deixam nenhuma dvida quanto ao enorme poder de que ento
dispunha o comandante do exrcito. Falando do reinado de `Abd Allh ben
`Umar, assinalam que ele foi deposto pelo kayghamma `Abd Allh Daghalma,
que o substituiu pelo dawdida Ibrhm ben`Uthmn, para depois, aps a morte
deste, restaurar no trono o rei que ele prprio afastara. Durante pelo menos vinte
anos, os verdadeiros senhores do Bornu foram, portanto, os chefes militares, e
no os prncipes de sangue real.
    Certamente no foi por acaso que a influncia crescente dos altos funcionrios
do reino, em particular a do kayghamma, fez-se sentir exatamente sob o reinado
de Br (`Uthmn), isto , num momento em que o perigo externo, representado
pelos Bulla, estava descartado. Depois de cessarem as hostilidades, os principais
artfices da consolidao do reino viam-se tentados a impor sua influncia  dinas-
tia reinante. No tinham fora suficiente  nem a unio necessria  para tentar
substituir os Sfuwa86. Mas, utilizando-se para seus fins particulares das divises
existentes no interior da famlia real, contriburam para reavivar a crise dinstica,
que, aps o longo reinado de Br (`Uthmn), bem poderia ter sido resolvida.
    Houve ainda vinte anos de confrontos diretos entre Dawdidas e Idrssidas:
Dnama ben Br (c. 1440-1444) venceu Kaday ben `Uthmn e recuperou a rea-
leza para os descendentes de Idrs. Sucederam-lhe dois irmos  Muhammad ben
Matala e `Amr ben `A'isha bint `Uthmn87 , cujos reinados somados no comple-
taram dois anos, depois do que os Dawdidas retomaram ao trono. No se sabe
em que circunstncias Muhammad ben Kaday (c. 1445-1449) sucedeu a `Amr, mas


86    Os nomes dos diferentes kayghamma no permitem concluir que seu cargo ento fosse hereditrio.
      SMITH, H. F. C., 1971, p. 180, formula a hiptese de que os kayghamma fossem chefes do Kgha
      (na parte sul do Bornu), incomodados pela intromisso dos Sfuwa em seu domnio prprio. Como a
      funo militar dos kayghamma s est documentada a partir da segunda metade do sculo XVI (por Ibn
      Furtwa), essa hiptese  perfeitamente plausvel.
87    Se os cronistas no indicam a filiao agntica,  provavelmente porque esta se supunha conhecida. De
      sua omisso, portanto, no se pode deduzir que Muhammad e `Amr fossem usurpadores.
Reinos e povos do Chade                                                         297



 provvel que tenha sido pela fora. Tambm lhe sucederam seus dois irmos:
Ghadj ben Imt88 (c. 1449-1454) e `Uthmn ben Kaday (c. 1454-1459). Este
ltimo foi vencido por `Al Ghadjidni; assim terminou a existncia dos Dawdidas
enquanto fora poltica. O grande conflito dinstico, que dilacerara o pas durante
quase um sculo, saldou-se, dessa forma, pela vitria completa dos Idrssidas.
    Mas isso no bastou para garantir a sucesso a `Al Ghadjidni, filho de
Dnama ben Br; parece que dois membros mais antigos da sua linhagem tinham
direitos mais fortes que o seu: assim, ele somente ascendeu ao poder depois de
`Umar ben `Abd Allh (c. 1459-1460) e Muhammad (c. 1460-1465).  de se supor
que, durante a longa luta entre Dawdidas e Idrssidas, os dois agrupamentos
dinsticos estruturam-se solidamente, impondo-se a sucesso colateral (segundo
a idade) at esgotamento completo de uma gerao como regra to estrita que o
prprio vencedor dos Dawdidas no se pde furtar a ela.
    So muito escassas as informaes incontestveis que nos chegaram sobre o
reinado de ``Al Ghadjidni (c. 1465-1497). Tudo o que sabemos com certeza 
que ele construiu a cidade de Gazargamo (situada entre Kano e o lago Chade),
que foi a capital dos Sfuwa por mais de trs sculos. Contudo, pode-se medir a
importncia do reinado de `Al Ghadjidni pela transformao da regra sucessria
que nesse perodo ocorreu e que veio a beneficiar os descendentes diretos desse
soberano, seu filho Idrs Katakarmbi (c. 1497-1519) e seu neto Muhammad ben
Idrs (c. 1519-1538). Depois de longo perodo de conflitos, o retorno  sucesso
de pai para filho devia aparecer aos habitantes do Bornu como uma volta  idade
de ouro.




88   Ver nota precedente.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                  299



                                      CAPTULO 11


                    Os Haussa e seus vizinhos
                        do Sudo central
                                             Mahdi Adamu*




    A zona tradicionalmente habitada pelos Haussa (Hawsa) situa-se na regio
que vai dos montes Air (Azbin), ao norte, at as bordas setentrionais do planalto
de Jos, ao sul, e da fronteira do antigo reino do Bornu, a leste, at o vale do
Nger, a oeste. Nesta rea, o haussa  a nica lngua indgena conhecida, desde
tempos muito antigos. Sublinhando sua importncia, o territrio no tinha
nome especial: era chamado simplesmente de Kasar hausa, ou seja, o territrio
de lngua haussa. Acrescentando-se as migraes e a assimilao, a rea na qual
o haussa era empregado como lngua principal de comunicao expandiu-se
para o sul e para oeste; pelo norte, alguns povos no Haussa, sobretudo os tua-
regues, os Zabarma (Djerma) e os Fulbe ("Fulani"), penetraram e se instalaram
no territrio.
    O haussa  atualmente a lngua dominante na zona das savanas do Sudo
central.  falado por vrios grupos que, miscigenando-se ao longo dos sculos,
acabaram por ter a mesma identidade cultural. Juntos, deram origem a uma
brilhante civilizao. De fato, pode-se afirmar com Guy Nicolas que,



*   O Bureau decidiu revisar este captulo, utilizando uma contribuio de Andr Salifou. A reviso de
    conjunto foi realizada por um subcomit, designado pelo Comit Cientfico Internacional, composto
    pelos professores Jean Devisse, Ivan Hrbek e Yusuf Talib.
300                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



      "por falar a mesma lngua, observar os mesmos costumes, obedecer s mesmas ins-
      tituies polticas, os Haussa formam um dos grupos tnicos mais importantes da
      frica. Atrados por sua cultura, muitos povos vizinhos abandonaram a prpria
      lngua e seus costumes para fazer parte dos Haussa"1.
    Mas de onde veio este grupo? Qual sua origem? Trataremos destas questes
na primeira parte deste captulo, antes de examinarmos a formao dos Estados
haussa e sua evoluo at o sculo XVI. Nos itens seguintes, sero examinadas
principalmente a organizao poltica e administrativa, assim como a estrutura
social e econmica. Neste captulo, tambm sero analisadas a natureza e especi-
ficidade de relaes que existiram entre os territrios componentes dos Estados
haussa, e destes com os Estados vizinhos, como o Songhai e o Bornu.


      Origem dos Haussa
   Muitas so as teorias propostas para explicar as origens dos Haussa, quase
sempre contraditrias e aqui expostas resumidamente.
   A primeira delas, baseada em falsa interpretao da lenda de Bayajida (ou
de Daura), pretende que os ancestrais dos Haussa foram originariamente rabes
de Bagd, no Iraque2. Andr Salifou props recentemente outra verso desta
lenda, que W. K. R. Hallam interpretou como um relato sobre o surgimento de
novas dinastias em territrio haussa, no incio do presente milnio3. Segundo
Abdullahi Smith,
      se a lenda de Bayajida significa algo, seria sobretudo a influncia do Bornu sobre as
      instituies polticas dos Haussa, demonstrada at certo ponto pelas palavras kanuri
      existentes no vocabulrio haussa4.

Os historiadores no concordam mais com a teoria da origem rabe.
   A segunda teoria sustenta que os Haussa habitavam, originariamente, o sul do
Saara, antes que esta regio se tornasse desrtica, e que, posteriormente, emigraram
ainda mais para o sul5. Aps terem penetrado, pelo norte, no territrio da atual
Repblica Federal da Nigria, os Haussa rechaaram os povos autctones para o


1     NICOLAS, 1969, p. 202.
2     PALMER, 1928, v. 3, p. 133 et seqs.
3     SALIFOU, 1971, p. 321-45; HALLAM, 1966.
4     SMITH, H. F. C., 1970a; sobre a influncia do kanuri na lngua haussa, ver GREENBERG, 1960.
5     SMITH, H. F. C., 1970a.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                            301



planalto de Bauchi, ou  outra hiptese  esse lugar era to pouco povoado, que
no houve necessidade de expulso. Esta seria a explicao para a coexistncia,
nesse planalto, de numerosas etnias de lnguas pertencentes a grupos lingusticos
diferentes do haussa. A teoria da origem saariana dos Haussa  plausvel, mas no
h qualquer fato real para comprov-la, da continuar sendo apenas uma hiptese.
    A terceira teoria ope-se s duas primeiras, afirmando que os ancestrais dos
Haussa eram os povos que viviam da caa, da pesca e da cultura de subsistncia,
s margens do grande lago Chade6. Quando o lago comeou a diminuir at
alcanar seu tamanho atual, decidiram continuar no local, e tornaram-se agricul-
tores sedentrios7. Segundo esta teoria, a civilizao haussa se desenvolveu nos
territrios que constituiriam os reinos de Daura, Kano, Rano e Garun Gobas;
dali estendeu-se para oeste e norte, at incluir as regies de Katsina, Zazzau,
Gobir, Zamfara e Kebbi. J. E. G. Sutton resume assim sua teoria:
    De modo geral, a histria do territrio haussa, no presente milnio, foi um movi-
    mento para oeste, da regio de Hadejia-Daura-Kano  de Sokoto e para alm8.
    Rejeita, portanto, a tese defendida por Abdullahi Smith, segundo a qual os
Haussa seriam originrios do Saara. Faltam, porm, provas decisivas para sua
teoria.
    Recentemente, M. Adamu props uma quarta explicao para a origem dos
Haussa9. O principal argumento em favor desta teoria  o fato de nenhuma
frao dos Haussa jamais ter tido tradio migratria fora do prprio territrio;
algumas tradies de Zamfara, de Katsina e do sul do Azbin (Air ) chegam a
afirmar que, nestas localidades, os ancestrais dos Haussa "saram de buracos no
cho". Esse tipo de tradio, tambm encontrada em outras regies da frica,
parece significar que eles eram autctones.  provvel, ento, que a origem dos
Haussa situe-se precisamente na regio hoje conhecida como territrio haussa.
Este grupo tnico, naturalmente, foi beneficiado pelas grandes ondas imigra-
trias vindas do norte e do leste; mais tarde, alguns povos Wangara ( Jula) e
Fulbe ("Fulani") instalaram-se no territrio haussa. Nada vem contradizer a
teoria segundo a qual a etnia e a lngua haussa desenvolveram-se, a princpio,


6    O atual lago Chade  o vestgio de antigo mar interior que na poca pr-histrica ocupava 400 mil
     quilmetros quadrados. O lago atingiu seu nvel mximo por volta de -8000, limite que durou at cerca
     de -2000. Ver o captulo 16 do volume I.
7    Esta hiptese foi recentemente difundida por SUTTON, 1979, p. 184-5.
8    Ibid.
9    ADAMU. "A thousand years of Hausaland participation in the trans-saharian trade". Mesmo SMITH, H.
     F. C., 1970a, sustenta que os povos de lngua haussa habitam a rea atual desde tempos muito antigos.
302                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



no territrio haussa, apesar de o processo desta etnognese ser ainda obscuro
devido  distncia temporal10.
   , no entanto, bem possvel que algumas regies do sul do Saara, prin-
cipalmente a do Azbin, se inclussem no territrio habitado pelos Haussa11.
Vrias fontes indicam que esta rea foi conquistada no sculo XIV ou XV
pelos tuaregues, que obrigaram a maioria dos Haussa a emigrar rumo ao sul,
para o Gobir. As presses exercidas ao norte levaram os Haussa a se deslo-
carem em bloco para o sul e a se instalarem em regies habitadas por outros
grupos tnicos, que, lentamente, nos sculos seguintes, adotaram a lngua e os
costumes dos invasores.
   Como etnnimo das populaes do territrio haussa, o termo hawsa s
apareceu nos documentos escritos por volta dos sculos XVI ou XVII. At
ento s eram conhecidas pelos nomes de suas cidades ou reinos (Kanawa,
Katsinawa, Gobirawa etc.). No incio do sculo XVI, Leo, o Africano, escre-
veu que o gobir era a lngua comum na rea setentrional da atual Repblica
Federal da Nigria12. No entanto, o poli-historiador egpcio al-Suyt (1445-1505)
havia empregado o termo hawsa para designar esse territrio, em suas Epstolas aos reis
do Sudo, Haussa e al-Takrr13. Tambm os autores do Ta'rikh al-fattsh e do Ta'rikh
al-Sdn, de Tombuctu, utilizavam regularmente o termo hawsa, ao se referirem s
regies situadas  margem esquerda do Nger, habitadas pelos Haussa; j para
designar as populaes da margem direita, usavam o termo gurma14.
   Originariamente, o termo hawsa concernia apenas  lngua materna dos
habitantes do territrio haussa, onde as pessoas se autodenominavam hausawa,
ou seja, os que falam haussa15. Por vezes, porm, empregavam o termo hawsa
para se referir somente ao territrio formado pelos antigos reinos de Zamfara,
de Kebbi e do Gobir, o que confirma indiretamente as crnicas sudanesas, j
que estes reinos eram as terras haussa mais prximas do Songhai.


10    Deixamos de lado algumas teorias, um tanto foradas, propostas por MEEK, 1931b, v. 1, p. 61-87,
      NIVEN, 1957, p. 265-6 ou PALMER (em seus muitos escritos), todas elas variaes do "mito camtico",
      atualmente desacreditado, segundo o qual os Haussa seriam de origem copta, nbia ou berbere. Ver, a
      propsito, o captulo 1 do volume I.
11    MAUNY, 1961, p. 144, pretende que os atuais Harratin dos osis saarianos sejam descendentes destes
      antigos negros, que eram parte da populao de lngua haussa.
12    LEO, o AFRICANO, 1956, p. 9.
13    Ver PALMER, 1914.
14    KA`TI, 1913-1914, p. 53, 178, 330; AL-SA`D', 1900, p. 41, 152,232; ver tambm SKINNER, N.,
      1968.
15    OLDEROGGE, 1960, p. 68, estabelece uma ligao entre o etnnimo hawsa e o termo haussa hausa,
      que significa linguagem, lngua, por exemplo: na gane hawsarka, compreendo sua lngua.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                           303



    Uma prova de que o emprego generalizado do termo hawsa como etnnimo
 de origem relativamente recente,  o fato de que atualmente certos grupos
no muulmanos da Nigria e do Nger, de cultura e lngua exclusivamente
haussa, recusam-se a ser chamados de Haussa. Na Repblica Federal da Nigria,
chamam a si mesmos e so chamados pelos outros Haussa de Maguzawa (ou
Bamaguje), enquanto na Repblica do Nger so conhecidos pelo nome de Azna
ou Arna, palavras haussa para designar pago. As denominaes Azna/Arna
tambm concernem  extenso geogrfica do termo hawsa, na medida em que
se limita s reas de Zamfara, de Kebbi e do Gobir. Como o termo maguzawa
 provavelmente derivado do rabe madjs (originariamente "adorador do fogo",
depois "pago"),  possvel que a polarizao haussa-maguzawa/arna s tenha
comeado com a difuso do Isl entre os Haussa, ou seja, depois dos sculos
XVII e XVIII.
    Neste captulo, designaremos por Haussa todos os povos cuja lngua materna
 o haussa, independentemente de sua localizao geogrfica ou religio.


     Nascimento e evoluo dos Estados haussa
   A lenda popular sobre a origem dos Haussa evoca a partida do prncipe
Bayajida de Bagd para oeste, em direo ao Kanem-Bornu16. Ali, o mai (rei)
deu-lhe a mo da filha em casamento, mas privou-o da escolta. Com medo do
mai, Bayajida fugiu novamente para oeste, chegando, algum tempo mais tarde,
a uma cidade cujos habitantes eram impedidos de alcanar a gua por uma
serpente chamada sarki (chefe). Com sua espada17, o prncipe matou a serpente;
como recompensa, Daura, a rainha local, esposou-o e tambm deu-lhe uma
concubina gwari. Do casamento com Daura, nasceu-lhe um filho chamado
Bawogari; a concubina deu-lhe outro menino, que foi denominado Karbogari
ou Karafgari (conquistador de cidades). A cidade passou a se chamar Daura.
Bawogari, que sucedeu ao pai, teve seis filhos, trs pares de gmeos, que se
tornaram chefes de Kano e Daura, Gobir e Zazzau (Zegzeg ou Zaria), Katsina
e Rano; juntamente com Biram, governado pelo filho que Bayajida teve com a


16   PALMER, 1936, p. 273-4 e HALLAM, 1966, acreditam que haja conexo histrica entre Bayajida e
     Ab Yzid, que liderou uma revolta dos berberes caridjitas contra os Fatmidas, na frica setentrional,
     durante a primeira metade do sculo X. Ab Yzid nasceu provavelmente no oeste do Sudo; era filho
     de uma escrava de Tadmekka, e foi morto pelos Fatmidas em 947.
17   Tambm entre os Manden (Mandingo) existe a lenda do matador de serpentes (origem dos reis de
     Wagadu).
304                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



princesa de Bornu, estes Estados formaram os hawsa bakwai, os sete (Estados)
haussa. Os filhos de Karbogari tambm fundaram sete Estados: Kebbi, Zamfara,
Gwari, Jukun (Kwararafa ou Kororofa), Yoruba, Nupe e Yawuri, chamados de
banza bakwai, os sete bastardos ou os sete imprestveis18.
    Apesar de conter alguns detalhes mais antigos, esta lenda reflete uma situ-
ao ocorrida no norte da Nigria, no sculo XVI. Os Estados que formariam
os hawsa bakwai foram os sobreviventes de sculos de combates vitoriosos con-
tra grupos vizinhos rivais. Como enfatizou Abdullahi Smith, as dinastias e os
governos centralizados no apareceram no territrio haussa como obra de um
heri civilizador vindo do leste e portador de cultura superior, pois a prpria
lenda de Bayajida reconhece que, ao chegar o heri a Daura, j encontrou uma
rainha no local19. A mesma histria repetiu-se em Kano, onde uma dinastia real
j governava a cidade antes da chegada de Bagauda, filho de Bayajida, consi-
derado fundador da cidade. Isto significa que o verdadeiro sentido da lenda de
Daura ainda no foi revelado.
    A origem relativamente tardia da lenda  atestada pela interessante des-
crio da diviso de trabalho entre as cidades haussa. De acordo com a lenda,
Kano e Rano tornaram-se sarakunan babba (os reis do ndigo), pois sua principal
ocupao era a produo e tintura de tecidos; Katsina e Daura foram denominadas
sarakunan kasuwa (os reis do mercado), pois todo o comrcio concentrava-se nestas
cidades. Gobir era sarkin yaki (o rei da guerra), e sua funo era a de defender
as outras cidades contra os inimigos do exterior; Zazzau (Zegzeg ou Zaria)
tornou-se sarkin bayi (o rei dos escravos), pois fornecia mo de obra servil s
outras cidades haussa20. Esta histria reflete a situao geral instaurada aps a
criao das principais cidades-Estado haussa, surgidas quando atingiram alto
grau de crescimento econmico.
    A apario de Estados centralizados parece estar intimamente ligada ao
estabelecimento de grandes cidades chamadas birane (singular: birni), como
centros de poder poltico. A importncia das cidades haussa variou, conforme a
poca. Por esse motivo, s examinaremos Kano, Katsina, Zazzau (Zaria), Gobir
e Kebbi, que tiveram papel importante, principalmente depois do sculo XIV.



18    Ver PALMER, 1928, v. 3, p. 132-4. As diversas verses da lenda de Daura divergem quanto  com-
      posio destes grupos de sete: entre os hawsa bakwai, encontram-se, s vezes, Zamfara, Kebbi
      e Bauchi, excluindo-se Biram e Rano; so includos, entre os banza bakwai, Gwambe, Bauchi,
      Gurma, Zaberma e Borgu. Ver OLDEROGGE, 1960, p. 72-3, que tabulou estas divergncias.
19    SMITH, H. F. C., 1970a, p. 329 et seqs.
20    TREMEARNE, 1913, p. 141.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                             305



     Kano
    Graas s suas crnicas, e  riqueza da tradio oral, a histria de Kano ,
sem dvida, a mais bem conhecida21. O territrio que mais tarde constituiu o
reino de Kano era, originariamente, dominado por pequenas chefarias, lideradas
por indivduos cuja autoridade se baseava numa jurisdio ritual. As chefarias
mais importantes eram Sheme, Dala e Santolo. Em Dala, seis geraes de chefes
sucederam-se antes da chegada de Bagauda.
    Segundo H. R. Palmer, Bagauda chegou  regio de Kano no ano +999; at
hoje, esta data no foi contestada, apesar de ser evidente que a cronologia de
Palmer  arbitrria e bastante aproximativa22.
    Bagauda viveu e morreu em Sheme, aps ter obrigado os autctones a reco-
nhecerem sua autoridade poltica. Seu neto Gijimasu (10951134) fundou Kano,
aos ps do monte Dala. Iniciou tambm a construo de fortificaes que s
seriam acabadas durante o reinado do filho Tsaraki (11361194). Em 1200, os
chefes de Kano j haviam submetido praticamente todas as chefarias da regio,
exceto Santolo, que continuou independente ainda por um sculo e meio.
    Durante o governo de Yaji (13491385), o processo de dominao da rea e
da populao foi levado a bom termo, apesar das revoltas espordicas de muitos
grupos, dentro e fora da cidade. A expanso para o exterior foi marcada pela
conquista de chefarias ainda independentes da regio de Zamnagaba, e pela
ocupao de Rano por dois anos. A partir dessa poca, apesar de continuar a
existir, Rano no mais recuperou a soberania plena.
    Segundo a Crnica de Kano, Yaji foi auxiliado, na guerra contra Santolo, por
grande grupo de muulmanos Wangarawa ( Jula), recm-chegados  cidade.
Alm de unirem seu exrcito ao de Yaji, os Wangarawa tambm rezaram pelo
sucesso da campanha. Finalmente, Santolo foi vencida, e o centro religioso
da cidade, onde ocorriam os sacrifcios tradicionais, completamente destrudo.
Esta conquista completou a definio territorial do reino de Kano.  interes-
sante observar que a Crnica de Kano descreve a luta entre a classe dirigente
e o povo  que frequentemente se rebelava contra uma forma de autoridade
cada vez mais desptica  como um combate entre os muulmanos e os adeptos


21   A Crnica de Kano, escrita em rabe, foi composta por volta de 1890, mas baseia-se em textos anteriores
      djihd. Enumera 48 sarakuna  reis haussa (ou, aps 1807, fulbe), de Bagauda a Muhammad Bello.
     A traduo inglesa foi publicada por PALMER, 1909, e reimpressa pelo mesmo, 1928, v. 3, p. 92-132.
     Existe tambm uma traduo haussa, Tarihin Kano, em EAST, 1933. No Canto de Bagauda, annimo,
     encontra-se uma variante da lista dos reis de Kano; ver HISKETT, 1964, 1965.
22   Ver PALMER, 1928, v. 3, p. 92 et seqs.
306                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



da religio tradicional23. Trata-se, evidentemente, de interpretao tardia do
processo de centralizao. A expanso de Kano era orientada para o sul; outras
campanhas seguiram-se  de Santolo nas regies do sul, onde os exrcitos de Kano
defrontaram-se, pela primeira vez, com os Kwararafa (Kororofa ou Jukun). O
resultado da batalha parece no ter sido decisivo, pois os Kwararafa recusaram-se a
pagar tributo a Yagi, mas lhe deram cem escravos.
    Kananeji (13901410) deu continuidade a esta poltica de expanso e, aps
duas campanhas, submeteu Zazzau, cujo rei foi morto em combate. As relaes
com os Kwararafa eram aparentemente pacficas. Kano lhes dava cavalos em
troca de escravos. Os contatos com o exterior intensificaram-se, como prova a
introduo do lifidi (proteo acolchoada para cavalos de guerra), dos capacetes
de ferro e das cotas de malha24. A influncia estrangeira aumentou durante o
governo de Dauda (14211438), com a chegada a Kano de um prncipe refu-
giado do Bornu, com seus homens e muitos mallam. Alm de presentes  cava-
los, tambores, trombetas e bandeiras , o povo de Bornu trouxe conceitos mais
sofisticados de administrao, e a partir desta poca, ttulos do Bornu, como
galadima, chiroma e kaigama, passaram a ser usados em Kano.
    Apesar de as guerras e expedies terem prosseguido por todo o sculo XV,
as crescentes atividades comerciais dos Kanawa passaram a ser mais importan-
tes. Afirma-se ter sido aberta, em meados do sculo, uma estrada entre Bornu
e Gwanja (atual Gonja, na Repblica de Gana); os camelos e o sal do Saara
tornaram-se comuns no territrio haussa, e comeou a se expandir o comrcio
de nozes-de-cola e de eunucos. Muitos religiosos muulmanos foram atrados a
Kano pela crescente prosperidade do reino e por uma islamizao acentuada da
classe dirigente. Por volta de 1450, os Fulbe, vindos do Mali, trouxeram os "livros
da divindade e da etimologia" (anteriormente, no territrio haussa, s se conhe-
ciam os livros da lei e das tradies). No fim do sculo, tambm chegaram ao pas
alguns sharf (descendentes do profeta Maom) e o enrgico religioso muulmano
al-Maghl25. Por outro lado, os reis de Kano foram obrigados a pagar tributo
ao Bornu, e envolveram-se numa guerra contra Katsina que durou um sculo.
    A Crnica de Kano atribui a Muhammad Rumfa (14661499) uma srie de
inovaes, de maior ou menor importncia, tais como a ampliao das muralhas
da cidade e a construo de novas portas, a nomeao de eunucos para cargos


23    Id., ibid., p. 102 et seqs. A Crnica de Kano tambm menciona a introduo, nesta poca, de trombetas e
      de um hino nacional, Zauna daidai Kano garingkine  "Coragem, Kano  sua cidade". Ver ibid., p. 104.
24    Ibid., p. 107.
25    Ibid., p. 111. A respeito de al-Maghl e seu papel, ver adiante.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                         307



de Estado, a criao do mercado de Kurmi (principal mercado de Kano) e a
instituio do Conselho de nove funcionrios dirigentes, os Tara-ta-Kano, os
"Nove de Kano", que formavam uma espcie de ministrio. Algumas destas
inovaes indicam que Rumfa ambicionava imitar as maneiras das cortes do
Bornu, ou mesmo do Magreb: a construo de um novo palcio (Gidan Rumfa),
a utilizao de longas trombetas e leques de penas de avestruz como smbolos
reais, o estabelecimento de um harm fechado com mil esposas e, finalmente, o
festival comemorativo do trmino do jejum de Ramadan (`d al-fitr).
    A primeira guerra contra Katsina ocorreu durante o reinado de Rumfa, durou
onze anos, sem que houvesse vencido ou vencedor. Seus sucessores, Abdllh
(14991509) e Muhammad Kisoki (15091565), deram continuidade a essa
poltica, lutando, sem muito sucesso, contra Katsina, mas derrotando Zaria. O
poderio crescente do Bornu comeava a lanar sombras ameaadoras sobre o
territrio haussa. Mais de uma vez, os sarki de Kano foram derrotados pelo mai,
mas, em outras ocasies, Kano pde defender vitoriosamente seu territrio.

     Katsina
    Existem bem menos informaes sobre a histria de Katsina26, que, de modo
geral, parece ter-se desenvolvido paralelamente  de Kano, mas com um lapso de
tempo considervel. O territrio, que seria mais tarde conhecido pelo nome de
reino de Katsina, era ocupado, nos sculos XIII e XIV, por chefarias independen-
tes, de lngua haussa. A mais importante era Durbi-ta-Kusheyi, a partir da qual
se desenvolveu, finalmente, a cidade-Estado centralizada de Katsina. Com o sarki
Muhammad Korau (14451495), provvel fundador de nova dinastia, entrou-se
num perodo historicamente mais estvel. Ainda em Durbi, Korau descobriu um
importante stio no qual se cruzavam muitas rotas comerciais, havendo tambm
uma mina de ferro e um santurio chamado Bawada. Neste local, o sarki construiu
uma nova cidade fortificada (birni), denominada Katsina27. O novo povoamento
logo atraiu habitantes e comerciantes em trnsito, que trouxeram, assim, mais
riqueza e poder a seu senhor. Pouco a pouco, os chefes das redondezas comearam
a pagar-lhe um tributo em barras de ferro; era o comeo do haraji (capitao) em
Katsina. Partindo desta slida base econmica e poltica, Korau passou a mandar


26   PALMER, 1927, publicou uma lista dos reis de Katsina. Ver tambm PALMER, 1928, v. 3, p. 78-82.
     Uma referncia sobre a histria de Katsina  uma tese de doutoramento defendida na Universidade de
     Zaria por Y. B. Usman.
27   Y. B. Usman mostra que  errada a afirmao de alguns autores antigos, segundo a qual a cidade de
     Katsina teria sido fundada por imigrantes Wangarawa.
308                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



expedies para terras mais distantes, at formar um vasto domnio, o reino de
Katsina. Muhammad Korau  considerado, tradicionalmente, o primeiro dirigente
muulmano de Katsina28. Durante seu reinado, al-Maghl esteve na cidade. A
mesquita de Gobarau, ainda existente em parte, foi construda nesse perodo,
segundo os modelos de Gao e Djenn. As campanhas militares de Katsina fora
do territrio haussa concentraram-se, assim como as de Kano, na regio situada
ao sul do reino. A Crnica de Kano lembra29 que Muhammad Korau lanou-se
numa campanha contra Nupe, que tinha, ento, fronteira comum com Katsina.
Talvez esta guerra tenha sido provocada pelo prprio expansionismo nascente de
Nupe, que j havia entrado em conflito com os Yoruba.
   Entre os sucessores de Korau, Ibrhm Sura (14931499) passou para a
histria como chefe severo, que obrigava os sditos a rezar e prendia os que se
recusavam a faz-lo. Manteve correspondncia com o clebre poli-historiador
al-Suyt, O sucessor de Ibrhm, `Al, cujo longo reinado cobriu o primeiro
quarto do sculo XVI, foi chamado murbit, "homem do ribat", talvez por ter
fortificado a cidade30.

      Zazzau
    O quadro da histria primeva de Zazzau  tambm chamada Zaria ou Zegzeg
  ainda mais obscuro que o de Katsina. O material histrico  muito limitado
para que se possa reconstituir razoavelmente a histria poltica da regio, e as
interpretaes feitas a partir das fontes existentes so contraditrias. Segundo
Abdullahi Smith, o povo haussa "j vivia em Zazzau havia mais de um milnio,
antes do advento de um governo centralizado na regio, com base, a princpio,
em Turunku"31. Dali, os chefes estenderam seu territrio, anexando as pequenas
chefarias vizinhas e estabelecendo, mais tarde, sua nova sede, no stio da atual
cidade de Zaria. Provavelmente, todos estes fatos se deram no fim do sculo XV.
    Recentemente, Murray Last sugeriu um quadro completamente diferente
para a origem da dominao haussa em Zazzau: j em 1200, existia um reino
neste territrio chamado Kankuma (Kangoma ou Kwangoma, como se pronun-
cia atualmente); seus dirigentes eram kamuku e no haussa. Esta federao kan-


28    SMITH, H.F. C., 1971, p. 196-8.
29    PALMER, 1928, v. 3, p. 79-80. Ver tambm USMAN, 1972.
30    A cronologia da origem de Katsina  confusa. SMITH, H. F. C., 1961, com base na meno de um
      eclipse durante o reinado de Aliyu Karyagiwa  datado por Palmer de 1419 a 1431 , demonstrou que
      as dataes de Palmer antecipam os eventos em mais de um sculo.
31    SMITH, H. F. C., 1970b.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                     309



goma era "herdeira da cultura nok, e sua economia baseava-se no comrcio de
metais". Quando esta federao se rompeu, "o reino de Kangoma (surgido desta
ruptura), com base em Turunku, foi conhecido, no sculo XVI, como Zegzeg".
Foi somente em 1641 que o povo haussa comeou a dominar Zegzeg ou Zazzau,
com Zaria como capital32.  uma teoria audaciosa, com vrios pontos duvidosos
(a maior parte de ordem lingustica); enquanto no houver argumentos mais
convincentes para sustent-la, continuar no domnio das hipteses.
    Abdullahi Smith prope uma explicao mais satisfatria para a histria de
Zazzau nesse perodo, que pode ser assim resumida: na plancie de Zazzau, no
extremo sul do territrio haussa, foram fundados, pouco antes do sculo XV,
alguns centros urbanos organizados administrativamente como cidades-Estado.
Enquanto se desenvolviam politicamente, duas cidades, Turunku e Kufena, pas-
saram a exercer autoridade sobre as outras. Ambas eram, originariamente, inde-
pendentes uma da outra, e assim continuaram at o fim do sculo XV, quando
um dirigente de Turunku, Bakwa, tomou o poder em Kufena. Mais tarde, os
reis de Zazzau, que governavam os antigos territrios de Kufena e Turunku,
instalaram-se permanentemente na nova capital, construda no extremo leste
do birni de Kufena, e chamada Zaria, nome de uma filha de Bakwa, irm da
clebre Amina. O reino de Zazzau teria nascido, de fato, da fuso de Turunku
e Kufena. A partir do incio do sculo XVI, Zazzau comeou a expandir seu
territrio para oeste e para o sul. Segundo as tradies histricas, o exrcito,
durante certas campanhas, foi comandado pela gimbiya (princesa) Amina, filha
de Bakwa, que tambm fortificou Zaria e Kufena, cercando as cidades de gran-
des muralhas. No h nada que comprove, na literatura e nas tradies orais no
palacianas, ter sido Amina rainha de Zazzau. Seu nome no consta em nenhuma
lista dos reis de Zazzau. Viveu e morreu princesa  com certeza, muito influente.
A lenda descreve-a como grande guerreira, empreendedora de campanhas fora
das fronteiras de Zazzau, atingindo a regio nupe, a sudoeste, e at Kwararafa,
a sudeste. Na Crnica de Kano, afirma-se que o "sarki de Nupe enviou-lhe 40
eunucos e 10 mil nozes-de-cola. Foi a primeira, no territrio haussa, a possuir
eunucos e nozes-de-cola. Todos os produtos do oeste foram introduzidos no
territrio haussa em sua poca"33.


32   LAST, in ADAMU, no prelo b.
33   PALMER, 1928, v. 3, p. 109. Segundo a Crnica de Kano, ela foi contempornea de Dauda de Kano
     (1421-1438). Alguns especialistas esto inclinados a aceitar esta data, como ADELEYE, 1971, e
     FISHER, H. J., 1977, enquanto outros afirmam que ela viveu no sculo XVI, como HOGBEN e
     KIRK-GREENE, 1966, p. 216-8, que a situam depois de 1576, e SMITII, H. F. C., 1970b, que a pe
     no comeo do sculo XVI, opinio compartilhada pelos editores deste captulo.
310                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



      Gobir
    Zazzau era o Estado haussa mais meridional; Gobir, o mais setentrional. O
territrio de origem dos Gobirawa situava-se mais ao norte, a partir da regio
de Agadez, incluindo o macio do Air. O termo haussa para designar essa rea
 Azbin (a pronncia correta  Abzin); a palavra Gobir era empregada para se
referir ao conjunto poltico formado pelos Gobirawa34. Os diversos grupos que o
integravam sofriam, desde o sculo XII, a presso dos tuaregues, que os haviam
afastado para o sul. Alguns se estabeleceram nas plancies da regio atualmente
chamada Adar, e passaram a ser conhecidos pelo nome de Adarawa. Outros gru-
pos de lngua haussa, que mais tarde tornaram-se Gobirawa, tambm migraram
para o sul, e criaram, em locais e pocas diferentes, o reino de Gobir. Assim, no
perodo anterior a 1405, este reino situava-se na atual Repblica do Nger (seu
centro seria Marandet?); ulteriormente, deslocou-se para o sul e estabeleceu,
durante algum tempo, a capital em Birnin Lalle. A Crnica de Kano menciona
a chegada dos Abzinawa a Gobir na metade do sculo XV, e acrescenta que, a
partir desta poca, o sal tornou-se artigo comum no territrio haussa35.
    As fontes escritas e orais so insuficientes para reconstituir de maneira mais
coerente a histria de Gobir ou o processo pelo qual se formou, neste reino,
um Estado centralizado. O mesmo acontece com a cronologia: nenhuma das
verses das listas de reis que chegaram a ns  confivel. No entanto, j por
volta do sculo IX, Marandet se destacava, ao lado de Gao, como importante
centro comercial e industrial, cuja base era o comrcio transaariano;  possvel,
portanto, que Gobir se tornasse um Estado centralizado quela poca. Apesar
da contnua presso dos tuaregues, os Gobirawa conseguiram desempenhar com
sucesso, durante esse perodo e mais tarde, o papel de defensores das fronteiras
setentrionais do territrio haussa.

      Rano
   Na maioria das obras que tratam das origens dos Estados haussa, Rano 
apresentado como um dos reinos que se estabeleceram no incio do atual milnio,
e que, ulteriormente, perdeu a soberania em favor de Kano. Mais recentemente,
Murray Last chamou a ateno para o fato de que, se a Crnica de Kano fosse
cuidadosamente examinada, no se encontraria nenhuma prova da existncia


34    LAST, Murray, in Kano Studies, 1979, p. 13-5.
35    PALMER, 1928, v. 3, p. 104.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                       311



do reino de Rano antes do sculo XV36. Existia uma chefaria haussa chamada
Zamnagaba (ou Zamnakogi), independente de Kano. Segundo a Crnica de
Kano37, o sarkin de Kano Yagi (1349-1385) expulsou o chefe zamnagaba de sua
capital, e se dirigiu para Rano e Bubu, l residindo durante dois anos. Murray
Last sugere que, antes desta conquista, Zamnagaba fazia parte do sistema pol-
tico de Santolo, ento independente de Kano, e s dominado por Yagi no fim
de seu reinado. Parece que seria preciso reconsiderar a incluso de Rano entre os
primeiros Estados haussa e examinar mais cuidadosamente as relaes de Rano
com Santolo e Kano, respectivamente. Talvez Zamnagaba devesse substituir
Rano na lista dos primeiros hawsa bakwai38.

     Zamfara
    Pode-se dizer que somente no comeo do sculo XVI o reino de Zamfara
surgiu claramente como Estado. Antes dessa poca, as principais chefarias da
regio eram Dutsi, Togno (Togai), Kiyawa (ou Kiawa) e Jata. Infelizmente,
nenhum dos documentos disponveis mostra o processo pelo qual se desen-
volveu, nessa regio, um sistema de governo centralizado. Parece, porm, que
nas reas onde, a princpio, criou-se uma administrao, tambm se fundia o
minrio de ferro e existiam colinas com significado religioso39. O processo de
centralizao comeou com os senhores de Dutsi, que dominaram as outras che-
farias. A criao de Birnin Zamfara, como capital permanente do reino, pode ter
acontecido em meados do sculo XVI, pois nessa poca Zamfara empreendeu
campanhas em diversas direes, alcanando Yawuri, na bacia do Nger, sem que
disso resultasse ocupao permanente. At 1600, a principal preocupao dos
lderes de Zamfara era a consolidao do Estado40.

     Kebbi
   Apesar de Kebbi, a parte mais ocidental do territrio haussa, ter sido habi-
tada desde tempos muito antigos por povos de lngua haussa, a tradio local no
inclui as populaes desta regio entre os hawsa bakwai, e sim entre os banza


36   LAST, Murray, in Kano Studies, 1979, p. 13-5.
37   PALMER, 1928, v. 3, p. 104.
38   O sentido que a Crnica de Daura (ver ibid., p. 134) d a Zamnakogi  nome do fundador de Kano 
     tambm precisaria ser mais cuidadosamente pesquisado.
39   Ver GARBA, 1977.
40   Ver KRIEGER, 1959.
312                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



bakwai. De acordo com M. Muhammad Bello, "o povo de Kebbi descende de
me katsina e pai songhai"41.
   A excluso de Kebbi dos "sete Estados haussa" pode ter origem no fato de
que, no sculo XVI, o reino de Kebbi era aliado do Songhai; empreendeu vrias
campanhas contra outros Estados haussa, que consideravam-no inimigo.
   Kebbi entrou para a histria no momento em que essa rea caiu, pela primeira
vez, em mos dos Songhai, durante o reinado de Sunn `Al (1464-1492). Nessa
poca, o vale inferior do Rima era administrado por chefes de cl que tinham
o ttulo de magaji (sucessor); pouco depois, comearam a chegar imigrantes
de outras regies haussa. Entre os imigrantes, certo Muhammadu Kanta, de
Kuyambana, ao sul de Katsina, eclipsou rapidamente os magaji locais, graas
s suas proezas militares, e tornou -se governador de facto da subprovncia
de Kebbi (Imprio Songhai)42. Ingressando no exrcito songhai como barde
(capito), participou da campanha bem-sucedida contra o sulto de Agadez,
quando foi arrebatado grande butim. No recebendo a parte que esperavam,
Kanta e seus seguidores romperam com o Imprio Songhai e foram declarados
rebeldes. Isto ocorreu em 1516; seguiram-se vrios combates contra os Songhai,
durante alguns anos, mas Kanta conseguiu manter-se independente43. Estabe-
leceu, ento, a capital em Surame, e encorajou as pequenas aldeias a se unirem
e formarem cidades fortificadas, com muralhas que assegurassem a defesa. Ele
prprio agrupou nove aglomeraes separadas para constituir Birnin Laka. Como
base defensiva contra os Songhai, fundou a seguir outra cidade, que se chamou
Birnin Kebbi44.
   Aps ter consolidado o sistema de defesa, Kanta voltou-se para o exterior.
Arrebatou do controle dos Songhai a regio de Air (Agadez). M. Muhammad
Bello atribui a Kanta a conquista de todo o territrio haussa e de algumas
regies de Bornu45. Outras fontes falam das invases do Yawuri e do Nupe, ao sul46.
Kanta no parece ter criado uma administrao que integrasse os territrios conquis-
tados  provncia metropolitana. Bastava-lhe que os Estados vassalos reconhecessem



41    MUHAMMAD BELLO, 1922, p. 13. A excluso de Kebbi dos "sete Estados haussa" pode ter origem
      no fato de que, no sculo XVI, o reino de Kebbi era aliado do Songhai; empreendeu vrias campanhas
      contra outros Estados haussa, que consideravam-no inimigo.
42    Sobre a gnese de Kebbi, incluindo a ascenso e queda de Kanta, ver ALKALI, 1969.
43    AL-SA'D', 1900, p. 129-30.
44    ALKALI, 1969, p. 55 et seqs
45    MUHAMMAD BELLO, 1922, p. 13-4.
46    EAST, 1933, v. 1.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                   313



a suserania de Kebbi e lhe pagassem tributo47. No sculo XVI, Kebbi tornou-se
grande potncia, que funcionava como uma espcie de Estado-tampo entre
o territrio haussa e a bacia do Nger. O reino de Bornu, inquieto com o sur-
gimento do novo Estado poderoso, tentou domin-lo, invadindo os Estados
haussa sditos de Kanta, mas seus exrcitos foram esmagados. Kanta morreu
em 1556, ao voltar de outra campanha vitoriosa a oeste de Bornu. Os Estados
haussa pararam de pagar tributos a Kebbi e recobraram a independncia. Ahmadu,
primognito e sucessor de Kanta, no pegou em armas para obrig-los ao pagamento.
No final do sculo XVI, os senhores de Kebbi no dominavam nem mesmo Aga-
dez, pois Kano e Katsina l intervieram para defender um inimigo de Kebbi. De
"imprio" que fora, Kebbi transformou-se em reino local, cuja autoridade sobre o
territrio haussa desapareceu definitivamente.
    Pode-se ver, pelo que foi dito at agora, que o perodo situado entre 1200 e
1600 deve ser considerado crucial na histria dos Haussa. Governos centralizados
estabeleceram-se em meia dzia de Estados, em torno de capitais fortificadas, que
tambm eram importantes centros comerciais. Alguns destes Estados j comea-
vam a se expandir e a atacar outros povos, no territrio haussa e no exterior.


     As relaes com os povos vizinhos
     claro que os Haussa no eram os nicos habitantes do Sudo central, ou
seja, da regio que se estende do lago Chade, a leste,  bacia do Nger, a oeste,
e do Sahel, ao norte,  bacia do Benue, ao sul. Neste permetro, os Haussa
desenvolveram contatos com outros grupos tnicos. A lenda de Daura  mito
das origens haussa , enumera alguns dos povos no Haussa com os quais
se relacionaram por volta de 1500. Apesar de vrias listas dos banza bakwai
inclurem, por vezes, grupos de lngua haussa (Kebbi, Zamfara), os principais
representantes destes povos eram os Jukun, os Kwararafa, os Gwari, os Yoruba,
os Nupe e os Yawuri. E interessante notar que nenhuma das listas cita os nomes
dos maiores e mais importantes vizinhos  o Kanem-Bornu e o Songhai ,
cuja influncia, no territrio haussa, deve ter sido considervel desde tempos
muito antigos.
    Barebari (ou Beriberi) era a denominao em geral usada pelos Haussa para
os povos do Imprio do Kanem-Bornu. Os nomes Kanembu, Kanuri, rabes
Shuwa, Bolawa, Ngizim etc. s passaram a ser conhecidos no territrio haussa

47   ADELEYE, 1971.
314                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



em tempos modernos. Dentre os Barebari, as classes sociais que dominavam as
relaes do Bornu com o territrio haussa  os dirigentes, os comerciantes, os
religiosos muulmanos  eram, geralmente, de origem kanuri; portanto, alguns
aspectos da cultura kanuri se tornaram representativos dos Barebari48.
    As relaes com o Kanem-Bornu foram de grande importncia para a hist-
ria do territrio haussa, pois esse Estado forneceu muitos elementos culturais e
ideias novas, que se tornaram parte integrante da cultura e civilizao haussa. Os
contatos entre os Haussa e os Kanuri comearam quando estes ainda habitavam
o Kanem, assumindo nova dimenso quando eles se estabeleceram definitiva-
mente no Bornu, a sudoeste do lago Chade49.
    Na segunda metade do sculo XV, aps longo perodo de conflitos inces-
santes, o reino de Bornu entrou num perodo de estabilidade, associado  cria-
o de uma capital permanente e fortificada, a oeste do Chade, Ngazargumu,
que passou a ser uma base slida para a expanso ocidental do Bornu, em
direo ao territrio haussa50. Por volta de 1425, `Uthmn Kalnama, dirigente
deposto do Bornu, refugiou-se em Kano com um grupo de partidrios, tendo
atuao importante nos reinados de Dauda (14211438) e de Abdllh Burja
(14381452). Como dificilmente o mai do Bornu pudesse ignorar esta ameaa
do territrio haussa, reduziu Kano e outras partes da regio  vassalagem, de
maneira que numerosas cidades passaram a pagar tributo a Bornu51.
    Por esta poca, Katsina tambm foi parcialmente dominada e obrigada a
enviar o tributo anual de cem escravos a Ngazargumu52. No sabemos at que
ponto o territrio haussa, como um todo, foi dependente do Bornu, nem por
quanto tempo. M. G. Smith tende a pensar que, a princpio, apenas Biram e
Kano foram vassalos do Bornu, pois Kano, o principal Estado haussa fronteirio,
foi o primeiro a despertar a ambio dos Kanuri53. Por outro lado, conforme a
Sokoto Provincial Gazetteer,
      Yawuri enviava um tributo anual a Zaria, seu superior imediato, e portanto, a Bornu.
      Todos os outros Estados haussa enviavam seu tributo a Daura, para Bornu54.



48    USMAN, 1972.
49    Ver ADAMU, 1979. A histria do Kanem-Bornu  tratada no captulo 10 deste volume.
50    SMITH, H. F. C.; 1971, p. 182.
51    Ver a Crnica de Kano, em PALMER, 1928, v. 3, p. 109-10
52    Ibid., p. 83.
53 SMITH, M. G., 1964a.
54    Citado por ibid.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                               315



    A verdadeira suserania do Bornu sobre o territrio haussa e suas diversas
regies, durante esse perodo, ainda exige outras pesquisas. No entanto, j se
estabeleceu que, a partir dessa poca, a influncia do Bornu, principalmente
sobre Kano, tornou-se mais forte, contribuindo assim para o desenvolvimento
cultural do territrio haussa.
    Durante o sculo XVI, o advento do Kebbi como o Estado mais belicoso do
Sudo central, provocou lutas prolongadas entre este reino e os senhores do Bornu.
Muhammadu Kanta saiu vencedor dessa luta, que visava principalmente ao dom-
nio do Air (Agadez), importante ponto de cruzamento das rotas transaarianas
que levavam ao territrio haussa.  ainda difcil dizer em que medida os Estados
haussa participaram deste jogo de poder. Mas parece que Kanta dominou, pelo
menos, algumas cidades-Estado, eliminando, assim, a tutela poltica do Bornu.
    Outro Estado poderoso, limtrofe ao territrio haussa, era o Imprio Songhai.
Seu predecessor hegemnico no Sudo central, o Mali55, nunca exerceu qualquer
papel poltico na histria haussa, apesar de sua influncia cultural  principalmente
atravs dos comerciantes e religiosos Wangarawa (Wangara)  ter sido, desde cedo,
bastante sentida.
    At h pouco tempo, a maioria dos historiadores acreditava que o Askiya
Muhammad I (14921528), poderoso chefe do Imprio Songhai, teria con-
quistado, durante os primeiros anos do sculo XVI, todo o territrio haussa,
impondo sua suserania a Kano, Katsina, Gobir, Zamfara e Zazzau. De acordo
com esta tese, a regio haussa se teria tornado, nas dcadas seguintes, palco da
luta entre dois Estados imperiais, o Songhai e o Bornu, apesar do surgimento de
Kebbi como reino independente ter enfraquecido o domnio direto do Songhai
sobre o territrio haussa, desde 1515. Mas, como bem demonstrou H. J. Fisher,
a nica fonte que evoca esta invaso e ocupao songhai  o relato de Leo, o
Africano, viajante marroquino, que esteve em vrios lugares do Sudo ocidental
entre 1510 e 151356. No se pode negar que a descrio da invaso songhai seja
expressiva e contenha inmeros detalhes sobre o destino dos chefes haussa, os
tributos esmagadores e as alianas matrimoniais57. Mas, por outro lado, as crni-
cas haussa calam-se a respeito desse acontecimento, to essencial para a histria
poltica do territrio. Isto no pode ser explicado unicamente pelo desejo dos
cronistas de suprimir a lembrana de uma derrota humilhante, j que a Crnica


55 O Songhai  frequentemente evocado nas crnicas haussa como o Meli, no sentido de "imprio
   ocidental".
56   FISHER, H. J., 1978.
57   LEO, o AFRICANO, 1956, v. 2, p. 473 et seqs.
316                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



de Kano evoca frequentemente as derrotas do sarki de Kano, em vrias ocasies,
e frente a Estados menos poderosos, como Katsina, Zaria ou Kwararafa. Mais
importante ainda  o fato de as crnicas de Tombuctu  que narram estes acon-
tecimentos do ponto de vista songhai  no mencionarem a alegada campanha
vitoriosa de seu heri preferido, o Askiya Muhammad I. Referem-se brevemente
a uma expedio menor contra Katsina em 1514, pouco aps a visita de Leo,
o Africano58. Atualmente, parece mais do que provvel que a conquista songhai
do territrio haussa jamais tenha acontecido, e que os Estados desta rea nunca
estiveram, de fato, sob o domnio songhai.
    Ao sul do territrio haussa, s margens do mdio Benue, vivem, atualmente, os
Jukun. Embora sejam hoje pouco numerosos, tiveram papel considervel, em outros
tempos, na histria das regies central e setentrional da atual Repblica Federal da
Nigria, exercendo influncia duradoura sobre muitos de seus vizinhos.
    Segundo teoria geralmente aceita, os Jukun vieram do nordeste. Quanto 
regio de origem, as tradies so divergentes: algumas mencionam o vale do
Nilo e o Kordofan, outras chegam a indicar a Arbia e o Imen. Uma tradio
afirma, ainda, que os Jukun chegaram na mesma poca que os Kanuri59. Apesar
de tradies de origem muito remota parecerem suspeitas,  plausvel que os
Jukun tenham vindo do nordeste atravs da regio situada entre os planaltos de
Mandara e o lago Chade. As provas lingusticas, porm, mostram que a lngua
jukun pertence  subfamlia de Benue-Congo, assim como o tiv, o ibibio, o efik e
a maioria das lnguas do vale do Cross River, o que indicaria uma origem meri-
dional. No se exclui, no entanto, a possibilidade de os Jukun terem formado a
ltima onda de um movimento migratrio, do norte e do nordeste para o sul.
    Duas teorias foram propostas para identificar em qual regio da Nigria os
Jukun teriam, a princpio, estabelecido seu poder poltico.
    A primeira sustenta que os Jukun estabeleceram o Imprio Kwararafa, fre-
quentemente mencionado nos textos tradicionais haussa60, na bacia do mdio
Benue, ao sul do leito do rio. As runas da cidade conhecida como Kwararafa
ainda podem ser vistas na regio. Kwararafa foi o nome que os Haussa deram
aos Jukun,  sua capital e a seu reino61. Quando a cidade foi abandonada, no

58    KA`TI, 1913-1914, p. 77 e 147; AL-SA`D', 1900, p. 78 e 129.
59    MEEK, 1931a, p. XV.
60    Ibid.
61    Kwararafa  derivado de kororo-afa, que geralmente significa "povo do sal", pois o territrio jukun era
      famoso por suas minas de sal. Ver BAIKIE, 1856, p. 455. Os termos kororofa ou kororofawa que se
      encontram nos textos, talvez se refiram aos povos em geral do vale do Benue e no forosamente e
      sempre ao mesmo povo  os Jukun. Ver HODGKIN, 1975, p. 31.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                              317



fim do sculo XVIII62, Wukari, que ainda existe, foi fundada na mesma rea.
A partir do sul da bacia do Benue, os Jukun se espalharam para o norte, para
o vale do Gongola e, mais tarde, para o Kasar Chiki63. Esta expanso para o
norte ainda no foi datada, mas ocorreu antes de ser abandonada a cidade de
Kwararafa. As relaes entre os Haussa e os Jukun desenvolveram-se, a princ-
pio, ao sul da bacia do Benue. Demonstrou-se que a lngua jukun  originria
dessa regio, tendo-se expandido, depois, para o norte64. A origem meridional do
poder poltico jukun  ainda sustentada pelas tradies orais de vrias cidades do
Kasar Chiki, segundo as quais suas populaes descendem de imigrantes Jukun
provenientes do sul (Kwararafa e Wukari).
    De acordo com a segunda teoria, os Jukun comearam a organizar seu poder
poltico, e a estabelecer relaes militares e comerciais com os Haussa no vale
do Gongola, ao norte do Benue, e em algumas partes da bacia do Benue. O
domnio jukun ao sul do Benue somente se teria desenvolvido bem mais tarde.
Ainda se ignora quando e como65.
    Estas duas teorias no so inteiramente incompatveis, e parece que os Jukun
tinham dois centros de poder poltico: a parte sul da bacia do Benue e o vale do
Gongola. Por razes ainda obscuras, a regio sul da bacia do Benue conseguiu
eclipsar politicamente todas as outras reas de povoao jukun.  possvel que
alguns dos ataques contra os Estados haussa, que partiam do vale do Gongola,
tenham sido ordenados pelo aku, chefe supremo dos Jukun66, instalado na regio
meridional, na atualmente abandonada cidade de Kwararafa. Apoiando-se no
fato de que os Haussa e os Kanuri chamavam seu inimigo comum por nomes
diferentes  Kwana em kanuri, Kwararafa em haussa , M. Riad sugeriu a exis-
tncia de dois Estados jukun, um ao norte, perto do Bornu, chamado Kwana,
outro mais ao sul, e mais ligado ao territrio haussa. Estes Estados no teriam
sido contemporneos, pois o segundo  mencionado, na Crnica de Kano, como
tendo existido no sculo XIV67.

62   A respeito do declnio da cidade de Kwararafa, ver MEEK, 1931a, p. 32 et seqs., e ADAMU, 1978, p.
     38-43.
63   Kasar Chiki  a parte baixa do atual Estado de Plateau, na Repblica Federal da Nigria, que engloba
     as reas de governo local de Wase (Langtang ), Shendam e Awe. Kasar Chiki significa, literalmente, em
     haussa, "entre-territrios"; ainda no se estudou a origem deste termo.
64   Ver a tese de 1971, sobre a lngua jukun, de K. Shimuzu.
65   A teoria do Gongola foi sustentada por SMITH, H. F. C., 1971, e ultimamente por ABUBAKAR, 1980,
     p. 168 et seqs.
66   O aku devia a posio a seu papel religioso: acreditava-se que era designado pela divindade e servia de
     intermedirio entre os deuses e o povo. Ver YOUNG, 1966.
67   RIAD, 1960, p. 483 et seqs.
318                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



    Infelizmente, os Jukun no conservaram sua histria, nem por escrito, nem em
"histria de tambor"68. A maioria dos Jukun atuais, com a exceo importante do
grupo Pindiga, esqueceu os detalhes de suas antigas atividades belicosas. Graas
a diversas fontes,  claro, no entanto, que de 1200 a 1600 os Jukun j estavam
estabelecidos na bacia do mdio Benue e no vale do Gongola.  at possvel que
sua expanso em direo ao Kasar Chiki tenha comeado a partir do sculo XVI.
Durante este perodo, formaram um Estado poderoso que, em 1600, alcanou o
apogeu de sua fora militar. A importncia passada dos Jukun tambm  atestada
pelo fato de grupos tnicos ou afirmarem que so seus descendentes, ou imitarem
aspectos de sua cultura, diretamente ou por intermdio dos Igala. Alm dos Igala,
estes grupos compreendem os Idoma, os Ankwe, os Montol, os Igbira e outros69.
    Com os Nupe, atingimos a parte mais meridional do Sudo central. Evidn-
cias lingusticas e tradies orais indicam, no entanto, que as primeiras conexes
importantes foram estabelecidas mais com o sul que o norte. Por sua localizao
geogrfica, porm, o territrio nupe estava destinado a ligar a savana, ao norte,
s regies florestais do sul, tornando-se ponto de encontro e confluncia. Tudo
indica que os Nupe eram autctones na regio que ocupam atualmente, prxima
do local onde o Benue se lana no Nger. Mesmo a histria de Tsoede  "o heri
da cultura e fundador mtico do reino de Nupe"70  refere-se apenas ao surgi-
mento de um governo centralizado, e no  origem dos Nupe como povo71. Antes
da era de Tsoede (seu outro nome, empregado particularmente pelos Haussa, era
Edeji), os Nupe dividiam-se em cinco subgrupos ou cls: os Ebe, os Beni (ou
Bini), os Ebagi, os Bataci e os Dibo (ou Zitako, tambm chamados Ganagana
pelos Haussa). Formavam uma confederao pouco centralizada, chamada con-
federao de Beni. Pelas fontes, evidencia-se a existncia de reis antes da poca de
Tsoede: so conhecidos os nomes de alguns deles. M. D. Mason afirma que Tsoede
 "simplesmente a personificao de uma srie de acontecimentos que conduziram
 fundao de um Estado supratribal"72. Este perodo foi revolucionrio, no sentido


68    Os tambores e os cantores so veculos das tradies orais de muitas comunidades da frica ocidental.
      Os acontecimentos histricos so geralmente conservados em cantos ou citaes, transmitidos de pai
      para filho, nas famlias de msicos tradicionais (griots). A maioria destes relatos concerne  histria
      poltica, pois s os reis e os chefes podiam permitir-se a assistncia contnua dos griots. Os cantos eram
      recitados durante as cerimnias. Nos Estados haussa, tambm existem "histrias de tambor", mas no
      foram recolhidas sistematicamente. A maior parte dos historiadores obtm suas informaes atravs dos
      relatos de cortesos do palcio e de religiosos muulmanos (os mallam), alm de documentos escritos.
69    Detalhes a este respeito podem ser encontrados nas obras de TEMPLE, 1922 e MEEK, 1931a.
70    NADEL, 1942, p. 72.
71    MASON, M. D., 1970-1971, p. 32-3.
72    Ibid.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                       319



da unificao feita por Tsoede no apenas dos Nupe sedentrios, representados
pela confederao de Beni, mas tambm dos ribeirinhos Kyedye (ou Kede)  que
"dominavam a gua" , e muitos outros subgrupos constitudos pelos Yoruba,
Gwari, Kanuri e Igala imigrantes ou assimilados.
    Acredita-se que o prprio Tsoede tivesse vivido na primeira parte do sculo
XVI, mas esta data  incerta. Apesar de at hoje no se poder situar cronologica-
mente e de forma segura o processo de formao do Estado nupe, as referncias
a este povo, nas fontes haussa, remontam ao sculo XV;  possvel que algumas
delas se refiram  confederao de Beni. Desde o sculo XV, os Nupe faziam
parte de grupo tnico em rpida expanso. Foi reforado em nmero por enco-
rajar o estabelecimento e, mais tarde, a assimilao de imigrantes do territrio
yoruba, de Igala (povo que se supe ter vindo com Tsoede) e do Bornu, junta-
mente com os Gwari e alguns Kambari. Nos sculos XV e XVI, desenvolveu-se
uma cultura dinmica para os Nupe como um todo, em detrimento dos valores
dos pequenos grupos tnicos. O Estado de Tsoede evoluiu no sentido de uma
centralizao crescente. Durante esse perodo, os reis de Nupe estabeleceram
relaes diplomticas com as cidades haussa.
    Outro grupo a manter relaes com os Haussa, nessa poca, foram os habi-
tantes de Bauchi. Os Haussa denominavam Bauchi o territrio situado ao sul
do territrio haussa  Kasashen Bauchi , que corresponde, na atual Repblica
Federal da Nigria, s reas dos Estados de Bauchi, Plateau, o sul de Kaduna, o
norte do Nger e o sul de Sokoto (Zuru e Yawuri)73. Muitos povos consideram
este vasto territrio como sua ptria:  exceo dos Kambari, so pequenos
grupos tnicos74. Suas tradies  ainda excetuando os Kambari  afirmam que
so originrios do territrio haussa ou do Bornu.
     difcil reconstituir o relacionamento dos Haussa com os povos de Bauchi at o
sculo XVI, em virtude da escassez de fontes histricas. Parece que existiram, princi-
palmente, migraes haussa para o territrio bauchi. Muitos povos aventuraram-se
para o sul com objetivos militares ou comerciais e vrios outros como refugiados75.
Em sua maioria, estes migrantes  exceto os soldados  instalavam-se e no mais
voltavam de Kasashen Bauchi. Alguns conservavam a lngua haussa, mas os des-
cendentes de outros grupos foram assimilados linguisticamente pelos povos
que os acolhiam, como os Kambari, Gungawa, Dakarawa, Gwari, Kamuku
ou Warjawa. Por outro lado, o territrio de Bauchi era o alvo predileto das

73   Uma breve discusso sobre o uso tradicional do termo Bauchi encontra-se em ADAMU, 1978, p. 23.
74   Ver MEEK, 1925 e TEMPLE, 1922.
75   ADAMU, 1978, p. 39-40.
320                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



expedies escravagistas de Kano e Zazzau; da muitos de seus habitantes serem
conduzidos para o territrio haussa.
    Entre os povos de Bauchi, somente os Kambari e os Kamuku parecem ter
fundado espcies de governos centralizados antes do sculo XVI. A histria pol-
tica de Yawuri mostra que no fim do sculo XIV, quando os Haussa comearam
a se estabelecer nessa regio, chocaram-se com a chefaria kambari de Maginga,
tomando-a e dominando-a a partir de ento. , no entanto, possvel que Maginga
j formasse um reino kambari por volta do ano de 1200.  difcil precisar sua
relao com os primeiros Estados haussa, em virtude da falta de documentos. ,
porm, interessante observar que os primeiros Haussa a dominarem Yawuri, no
sculo XIV, eram comerciantes do sul de Katsina, residentes na regio76.
    Quanto aos Kamuku,  possvel identific-los a um povo chamado Karuku,
mencionado por al-Makrz (morto em 1442), em al-Khbar an adjnas al-Sdn
(As raas do Sudo), e tambm ao reino de Kankuma (Kwangoma ou Kangoma)77.
No se sabe se o reino pretensamente dominado pelos Kamuku j existia em
1200 e se foi ele o Estado predecessor de Zaria, como afirma M. Last78. No
entanto, o testemunho de al-Makrz indica a existncia de certa forma de
organizao poltica entre os Kamuku, desde os sculos XIV e XV.


      Principais acontecimentos do territrio haussa
      A imigrao
    Um dos principais acontecimentos deste perodo foi a imigrao em massa
de povos e grupos de origens diversas, em diferentes momentos, e com diver-
sos objetivos, para o territrio haussa. A maioria dos imigrantes era do Sahel,
ao norte, do Bornu, a leste, e de partes dos imprios do Mali e do Songhai, a
oeste. Entre os imigrantes encontravam-se pastores, pescadores, agricultores,
mercadores, negociantes, religiosos muulmanos, eruditos (mallam, em haussa),
e tambm alguns aristocratas.
    Os primeiros imigrantes pastores foram os Fulbe ("Fulani"), logo seguidos
pelos tuaregues. Do grande nmero de escritos sobre a histria dos Fulbe no
Sudo central no resultou qualquer reconstituio plausvel de sua migrao,


76    Ver ADAMU, no prelo a, captulo 2.
77    Uma nova edio deste texto figura em LANGE, 1979b; a traduo anterior  de PALMER, 1928, v. 2, p. 6.
78    Ver LAST, in ADAMU, no prelo b.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                         321



a no ser a concordncia da maioria dos especialistas de que chegaram a essa
regio pelo oeste. Mas a cronologia e suas rotas continuam pouco conhecidas.
Segundo Yusf B. Usman, os Fulbe chegaram a Katsina durante o reinado do
sarki de Katsina Jabdayaki (c. 14051445)79. Pouco aps, sua chegada  men-
cionada pela Crnica de Kano nestes termos:
     Na poca de Yak'ubu (1452-1463), os Fulbe chegaram de Melle ao territrio haussa,
     trazendo os livros da divindade e da etimologia. Anteriormente, nossos doutores s
     dispunham, alm do Coro, dos livros da lei e das tradies. Os Fulbe atravessaram
     a regio, indo para Bornu; alguns permaneceram no territrio haussa, com escravos
     e pessoas cansadas de viajar80.
    Apesar de vrios destes Fulbe serem religiosos muulmanos, como indica a
citao, a imensa maioria era de pastores nmades ligados s crenas tradicionais.
Vinham ao territrio haussa  procura de novas e melhores pastagens para seu
gado caprino e ovino.  impossvel determinar o nmero de Fulbe que chegou
 regio setentrional da atual Repblica Federal da Nigria naquela poca, mas
ele parece ter sido grande. No territrio haussa, os Fulbe podiam ser encontrados
no centro de Kano, ao norte de Katsina e no vale do Rima (partes de Zamfara e
Kebbi). Os religiosos muulmanos viviam sobretudo nos centros urbanos, onde
contriburam para reforar o Isl, principalmente nos Estados de Katsina e Kano.
    Os tuaregues entraram no territrio haussa por Azbin, no fim do sculo XIV,
poca em que se chocaram com os Haussa do Gobir. J observamos que eles
expulsaram os antigos ocupantes e o chefe haussa do Gobir da regio do Azbin,
e que instalaram seu sultanato em Agadez em 140581. Sendo pastores, no lhes
interessava a ocupao territorial estvel; preocupavam-se principalmente em
trocar seus produtos por outros de origem agrcola, e tambm em empreender
incurses contra as comunidades sedentrias do sul de Azbin.
    Alguns grupos de imigrantes tuaregues, no entanto, continuaram a penetrar
no territrio haussa,  procura de pastagens, mas o movimento de imigrao s
se intensificou mais tarde.
    As migraes do Bornu para o territrio haussa constituem, provavelmente,
processo muito antigo82, mas s foram documentados a partir do sculo XV. Alm



79   USMAN, 1979b.
80   PALMER, 1928, v. 3, p. 111.
81   HUNWICK, 1971b, p. 218-22.
82   Ver ADAMU, 1979.
322                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



dos aristocratas refugiados do Bornu, mencionados na Crnica de Kano83, muitos
migrantes  principalmente eruditos e mercadores  continuaram a chegar ao
territrio haussa. Instalaram-se por todo o territrio, principalmente em Kano,
Katsina e Zaria84 apesar de considerarmos que a imigrao posterior a 1600 foi
bem menos densa que a anterior. Nada atesta que houvesse artesos entre os
primeiros imigrantes do Bornu, mas esta possibilidade no deve ser descartada.
    Os Wangarawa/Jula constituram outra onda imigratria. Como sua chegada
est estreitamente ligada ao problema da introduo do Isl nessa regio, ainda
se discutindo sua datao, trataremos deste problema mais tarde.  primeira
onda  no sculo XIV ou XV , seguiu-se a de outros grupos Wangarawa,
principalmente mercadores. Alguns se estabeleceram em Yandoto e Kuyambana,
em Katsina Leka85, outros escolheram os centros urbanos de Zazzau86, e muitos,
naturalmente, instalaram-se em Kano. Os Wangarawa logo se integraram ao
sistema social haussa, apesar de no terem perdido o controle de suas atividades
econmicas, formando, por algum tempo, um grupo social  parte87.
    Outro grupo de imigrantes do oeste era formado por pescadores songhai,
que se instalaram no vale do Rima inferior. Quando chegaram, possuam ins-
trumentos e mtodos de pesca bem desenvolvidos88, sendo tambm agricultores.
Como os outros grupos estrangeiros, acabaram por perder todas as marcas da
cultura songhai. Tornaram-se Haussa, e criaram, assim, o que se pode chamar
de fronteiras ocidentais do territrio haussa89.
    A ltima categoria de imigrantes a se mencionar era constituda por mer-
cadores e eruditos rabes e berberes, da frica setentrional e de Tombuctu.
Comearam a penetrar no territrio haussa na segunda metade do sculo XV,
quase ao mesmo tempo que os Fulbe, e, novamente, Kano e Katsina foram
escolhidas como locais de residncia. Kano, em particular, tornou-se centro de
atrao para os eruditos muulmanos de regies distantes. Este afluxo devia-se


83    PALMER, 1928, v. 3, p. 109.
84    Ver USMAN, 1972, e LAST, in ADAMU, no prelo b.
85    USMAN, 1979b.
86    LAST, in ADAMU, no prelo b.
87    O aspecto mais notvel desta adaptao social foi a diminuio do emprego das nisba (nome de cl) em
      territrio haussa. Assim, nunca foram comuns, no pas haussa, nomes de cl como Kamara, Cisse (Sisse),
      Traore, Watara etc. O haussa tornou-se a nica lngua de comunicao dos Wangarawa, ao menos em
      pblico.
88    Ver ALKALI, 1969, p. 49; mas A. Augie  em sua tese de doutoramento, sobre a histria da bacia do
      Rima antes da djihd de Sokoto (1804)  discorda de M. B. Alkali.
89    Ver a fig. 11.1.
                                                                                                      Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central
                                                                                                      323
Figura 11.1   Mapa da localizao dos Haussa e de outros povos na Nigria setentrional. (M. Adamu.)
324                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



tanto  prosperidade crescente dos Estados haussa, quanto  adoo da religio
islmica por vrios grupos e camadas da populao urbana.

      A emigrao
    Assim como o territrio haussa recebia imigrantes de vrias regies, perdia
populao em escala nada negligencivel. A maioria dos emigrantes dirigia-se
para o sul ou para o oeste90. O movimento humano que ia do territrio haussa
para regies imediatamente ao sul parece muito antigo, mas nenhum testemunho
a este respeito sobreviveu. Os primeiros textos referentes s emigraes haussa
para o sul tratam, em sua maioria, das campanhas militares empreendidas pelos
senhores de Kano, Katsina e Zaira (Zaria?). J no sculo XIV, os povos no
Haussa dos atuais Estados de Bauchi e Gongola da Repblica Federal da Nig-
ria  como os Kudawa, os Warjawa, os Kwararafa ( Jukun)  foram atacados
pelos exrcitos dos Estados haussa. Nos sculos XV e XVI, estas campanhas
no somente se intensificaram, como se diversificaram91. Foram atacadas as altas
terras de Plateau, regio atualmente conhecida como Zaria do Sul, e a regio
de Yawuri. Algumas destas campanhas incluam stios e ocupao prolongada
para operaes de limpeza. Os textos mencionam92 que muitos Haussa no
pertencentes ao corpo do exrcito deixavam suas casas e seguiam as tropas,
comerciando e providenciando servios remunerados para os soldados. Grande
parte desta gente nunca voltou ao territrio haussa, e as campanhas militares
assim contriburam para a emigrao e a disperso dos Haussa.
    Outras categorias de emigrantes incluam comerciantes e religiosos muul-
manos. Foi desta forma que gente da regio de Kuyambana, ao sul de Katsina,
imps o domnio haussa a Yawuri, na segunda metade do sculo XIV93. O
Bornu tambm acolheu alguns Haussa de Kano, no princpio do sculo XV,
de acordo com a Crnica de Kano94. Embora os movimentos haussa tivessem
comeado durante este perodo, intensificaram-se somente aps o sculo XVI,
quando se transformaram em vasta dispora haussa em diversas regies da
frica ocidental.



90    Pode-se encontrar uma anlise detalhada destes movimentos em ADAMU, 1978, captulos 3, 5, 6 e 7.
91    Ibid., p. 24-5.
92    PALMER, 1928, v. 3, p. 110.
93    Ver ADAMU, 1979.
94    PALMER, 1928, v. 3, p. 108.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                             325



     A difuso do Isl
    A introduo da religio islmica no territrio haussa  ainda objeto de pol-
mica entre os especialistas. Muitos autores aceitaram, sem crticas, a afirmao
da Crnica de Kano, segundo a qual o Isl teria sido introduzido, nessa rea,
em meados dos sculos XIV pelos Wangarawa ( Jula), vindos do Mali, durante
o reinado do sarki de Kano Yaji (13491385). Apesar de se tratar do primeiro
testemunho escrito sobre a religio muulmana no territrio haussa,  mais do
que provvel que sua difuso j se tivesse iniciado em poca bem anterior, pois
ela era praticada no Kanem-Bornu desde o sculo XI95. Seria surpreendente essa
religio no ter atingido o territrio haussa durante o perodo que precedeu o sculo
XIV, sabendo-se dos contatos contnuos entre os Haussa e o Kanem-Bornu, desde
bem antes dessa poca96. Kano logo sofreu influncias islmicas deste Estado
vizinho, como atestam os elementos de ordem lingustica: muitas palavras rabes
ligadas  religio haviam sido introduzidas na lngua haussa por intermdio de
Kanuri97, mostrando que o Isl penetrou na rea antes pelo leste do que pelo
oeste. Em segundo lugar, a tradio oral, recolhida em Kano recentemente,
indica que o Isl j estava presente na cidade de Kano bem antes da chegada
dos Wangarawa98. Em terceiro lugar, a rota comercial de Fezzn a Gao atraves-
sava o territrio do Gobir, onde Marandet se havia desenvolvido, tornando-se
grande centro comercial. Pode-se, ento, supor que, por influncia dos mercado-
res muulmanos da frica setentrional, o Isl tenha sido introduzido no Gobir
bem antes do sculo XIV. Em quarto lugar (apesar de admitirmos no se tratar
de argumento decisivo),  preciso levar em conta o fato de, mesmo antes da
poca de Yaji, j existirem muitas pessoas em Kano com nomes islmicos, tais
com Daud (outro nome de Bagauda), Maidawaki, Abdllh, Zakar, Salmata,
Usman etc.99
    Um documento rabe recentemente descoberto e publicado, a Crnica dos
Wangarawa (Asl al-Wangariyn), datado de 16501651100, nada esclareceu, apesar
das esperanas que despertou, sobre a questo de como o Isl penetrou, pela pri-
meira vez, no territrio haussa. Este documento descreve detalhadamente a che-
gada dos Wangarawa a Kano, no reinado do sarki de Kano Rumfa (14631499),

95   SMITH, H. F. C., 1976, p.165-6. (No h mais dados bibliogrficos disponveis.)
96   ADAMU, 1979.
97   GREENBERG, 1960.
98   PADEN, 1973, p. 48 et seqs.
99   Ver a Crnica de Kano em PALMER, 1928, v. 3, p. 99-100 e 103-4.
100 AL-HAJJ MBAYE, 1968, p. 7-16.
326                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



como contempornea  do clebre al-Maghl, o que levou A. al-Hajj Mbaye a
concluir que esta misso wangarawa proselitista chegou a Kano no fim do sculo
XV, e que a data proposta pela Crnica de Kano (sculo XIV) deveria ser refutada.
A Crnica dos Wangarawa, porm, situando os dois acontecimentos na poca de
Rumfa, confundiu-os; de fato, ocorreram com mais de um sculo de distncia101.
Como o Asl al-Wangariyn foi revisto vrias vezes e contm algumas contradies,
seu contedo no pode ser aceito sem crticas102. Convm, portanto, dar prefe-
rncia s indicaes da Crnica de Kano, no que se refere  data da chegada dos
Wangarawa, ou seja, o sculo XIV. Independente do fato de se saber qual das
datas  sculo XIV ou XV   correta, o Isl, sem dvida, foi introduzido bem
antes no territrio haussa, pelo Air ou pelo Gobir, ou ainda  a probabilidade 
maior , pelo Kanem-Bornu. No se pode excluir a possibilidade de negociantes
muulmanos provenientes do oeste (Mali e Songhai) terem difundido o Isl
entre os comerciantes e parte da elite dirigente haussa, antes da chegada dos
Wangarawa  eruditos e missionrios muulmanos imigrantes , que mais tarde
contriburam para instaurar uma tradio islmica mais forte e extensa.
    Por outro lado, apesar de o Isl estar bastante disseminado pelo territrio
haussa no sculo XIV, continuava sendo sobretudo a religio dos comerciantes
expatriados, de pequenos grupos de mercadores locais e da elite dirigente, pois as
massas continuavam, em geral, apegadas s crenas tradicionais. Contudo, parece
ter sido exatamente no sculo XV que uma forte tradio islmica comeou
a se estabelecer, principalmente em Kano e Katsina, tendncia reforada no
somente pelos eruditos wangarawa, como tambm por religiosos muulmanos
fulbe, que traziam novos livros sobre a teologia e a lei.
    Datam dessa poca documentos de numerosos eruditos muulmanos estran-
geiros, muito ativos no territrio haussa. O mais conhecido e importante foi, sem
dvida, al-Maghl, de Tuat, no Saara103. J clebre no Magreb como erudito,
polemista e perseguidor de judeus, visitou Agadez, Takedda, Kano, Katsina e
Gao por volta de 1490. Apesar de ter desempenhado papel muito importante no
territrio haussa, em Katsina suas obras so lembradas de modo vago, e de forma
bastante contraditria. Segundo alguns textos, o sarki foi convertido pelo prprio
al-Maghl104; outras fontes indicam que o povo reagiu mais favoravelmente s


101 Ver FISHER, H. J., 1977, v. 3, p. 296
102 Ver SA'AD, 1979.
103 Ver, a este respeito, BATRAN, 1973.
104 Muhammad Korau, provavelmente contemporneo de Rumfa em Kano, teria sido o primeiro chefe
    de Estado muulmano. Devido s incertezas da cronologia de Katsina, no se pode saber quem era o
    dirigente quando da visita de al-Maghl. Ver SMITH, H. F. C., 1961, p. 7.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                           327



suas pregaes do que as classes dirigentes. Muhammad al-Tazakht (morto em
15291530), erudito de Tombuctu, tornou-se mais tarde cdi em Katsina, aps
ter feito a peregrinao a Meca.
    Em Kano, al-Maghl escreveu para o sarki de Kano Muhammad Rumfa um
"espelho para os prncipes", intitulado As obrigaes dos prncipes105, aparentemente
para mostrar ao sarki de Kano a forma de governar como chefe muulmano. Pouco
antes de sua visita a Kano, em 1491-1492, al-Maghl manteve correspondncia
com Rumfa, onde exps sua concepo de governo ideal106.  difcil dizer em
que medida o sarki seguiu as exortaes de al-Maghl, pois os documentos
so contraditrios. Algumas "inovaes" mencionadas na Crnica de Kano107
parecem corresponder aos princpios islmicos pregados por al-Maghl, outras
no. A Crnica haussa108 acusa Rumfa de "maneiras desonestas", aludindo a seu
afastamento do Isl e ao fato de ter introduzido alguns costumes explicitamente
proibidos pela lei islmica.
    Entre as personalidades que contriburam para reforar a tradio e o modo
de vida islmicos em Kano destacou-se Ahmad Ibn `Umar Akt de Tombuctu,
ancestral do famoso Ahmad Bb, que visitou Kano e ali lecionou, por volta de
1487. Entre 1504 e 15181519, vindo do Egito, passou a lecionar em Kano o
marroquino `Abd al-Rahmn Sukkayn, discpulo do historiador Ibn Ghz. Seu
colega Makhlf al-Balbal (morto aps 1543) tambm foi ativo no campo da
educao em Kano e Katsina. Como disse J. O. Hunwick,
    as atividades de ensino destes eruditos parecem ter marcado a emergncia de Kano
    como cidade muulmana; sua `converso' foi simbolizada pelo corte das rvores
    sagradas, fato que, segundo a Crnica de Kano e as fontes wangara, ocorreu no reinado
    de Muhammad Rumfa (1466-1499)109.
    Na mesma poca, o Isl penetrou em outros Estados haussa. Em Zaria, o
sarki Muhammad Rabo, no final do sculo XV,  tradicionalmente considerado
o primeiro chefe muulmano110. Em Kebbi, o primeiro sarki, Muhammad Kanta
(c. 15161554) e alguns de seus chefes converteram-se, acredita-se, ao Isl. Isso
 mais que provvel, pois, tendo sido chefe militar no reinado do devoto Askiya


105 AL-MAGHL, 1932.
106 Uma traduo inglesa foi publicada por PALMER, 1913-1914.
107 Ver p. 289.
108 Reproduzida por RATTRAY, 1913, v. 1, p. 10-6.
109 HUNWICK, 1971b, p. 216 et seqs.
110 SMITH, H F. C. 1971, p. 196-8.
328                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



Muhammad I, Kanta deve ter sofrido a influncia do Isl. Os nomes muulmanos
de muitos de seus sucessores evidencia a permanncia de leve verniz de cultura
islmica em Kebbi, apesar de a maioria dos Kebbawa ter mantido a religio tra-
dicional ainda por muito tempo. Temos poucas informaes sobre a islamizao
em outras regies do territrio haussa durante este perodo. No caso de Yawuri,
podemos conjeturar a existncia de pequenos grupos muulmanos antes de 1600,
pois a regio era local de encontro dos mercadores de nozes-de-cola na rota do
Bornu a Gonja;  fato conhecido que esses comerciantes difundiam o Isl ao longo
das vias comerciais, e fundavam pequenas colnias nos lugares mais importantes111.
    De modo geral, a islamizao limitou-se  elite dirigente e a grupos de nego-
ciantes durante este perodo; a religio muulmana s teve impacto nas cidades e
grandes centros e, mesmo neste caso, a maioria dos que se diziam muulmanos
no o era por inteiro, e continuava a crer em outros deuses, invocados perto de
rvores e de rochas sagradas em seus santurios.
    Pode-se afirmar que o Isl se integrou nos esquemas religiosos africanos
porque no era considerado religio estrangeira, ou incompatvel com a viso
religiosa haussa, e  o que  mais importante  porque a sociedade muulmana
no reivindicava, nessa poca, exclusividade para sua ideologia religiosa, estando
disposta a acomodar muitos traos das crenas e costumes tradicionais. Esta foi,
provavelmente, a atitude da maioria dos conversos e seus descendentes; a elite
restrita de eruditos expatriados (ou seus discpulos) esforava-se, no entanto, por
seguir mais estritamente as leis e costumes islmicos. Por outro lado, a popula-
o rural continuou a observar a religio tradicional e a empregar a magia e a
feitiaria ainda por muito tempo. Aparentemente, no houve qualquer oposio
 nova religio, ao menos enquanto os juristas muulmanos no exigiram a
transformao de certas normas sociais e culturais antigas.
    No campo poltico, o Isl apoiou o processo de centralizao em muitos
Estados haussa, ajudando a enfraquecer a estrutura poltica tradicional, baseada
no controle dos locais importantes de culto. Antes do surgimento dos Estados
centralizados, o controle poltico nas pequenas chefarias ligava-se estreitamente
aos atos religiosos dos dirigentes.
    Na Crnica de Kano  escrita do ponto de vista muulmano , h numerosos
relatos sobre a oposio de chefes locais, apresentados como "no crentes", que se
revoltavam contra os esforos de centralizao dos dirigentes de Kano, considerados
verdadeiros muulmanos.  conquista destas chefarias seguiu-se a destruio


111 Ver BALOGUN, 1980, p. 216.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                          329



deliberada  e em grande escala  dos principais pontos de culto tradicional, de
forma a privar os chefes locais de sua fonte essencial de poder. Santolo, em Kano,
foi o ltimo destes antigos stios a ser destrudo, no reinado de Yaji (13491385).
    Outro efeito da difuso do Isl foi o afluxo de grande nmero de eruditos e
religiosos de vrias regies da frica, o que motivou a propagao de novas ideias
polticas, sociais, culturais, e o desenvolvimento da alfabetizao  ou melhor,
da capacidade de escrever e ler em rabe, e depois em haussa, empregando o
alfabeto rabe (sistema ajami)112. Estes fatores contriburam, por sua vez, para
melhorar a administrao do Estado, e tambm para aperfeioar vrias prticas
e operaes comerciais. Enfim, a introduo e a difuso do Isl ligaram o terri-
trio haussa mais estreitamente a uma rea cultural mais vasta e desenvolvida.


    Organizao poltica e administrativa
    Apesar das diferenas regionais, a organizao poltica haussa seguiu uma linha
semelhante, nas diversas etapas de sua formao e desenvolvimento, baseada na iden-
tidade cultural e socioeconmica, que se exprimia, sobretudo, por uma lngua comum.
Ao mesmo tempo, o sistema administrativo surgido nos Estados haussa, desde
o sculo XIV, testemunha a influncia do Kanem-Bornu, de onde vieram os
modelos de muitas instituies e funes  por vezes conservando seus nomes
kanuri/kanembu. De fato, o Bornu foi, durante muito tempo, o modelo de civi-
lizao e cultura superiores, e sua influncia foi continuamente reforada pela
imigrao proveniente da regio do lago Chade.
     interessante observar que os Estados haussa nunca consideraram o Bornu
como inimigo  o que j no acontecia com o Songhai, Kebbi ou Kwararafa
, apesar das incurses dos chefes do Bornu, e dos tributos que eram obriga-
dos a lhes pagar. Parece que os Haussa reconheciam sem maiores problemas
a superioridade do Bornu. Por outro lado, a estrutura poltico-administrativa
haussa, em todos os nveis, exceto no mais elevado, era original e s dependia
das circunstncias locais.
    Em todo o territrio, as pequenas comunidades locais (kanyuka, singular kauye)
eram formadas por grupos de famlias (gidaje, singular gida), dirigidos por um
chefe, o maigari. Estas comunidades eram, de fato, constitudas por aldeias agr-
colas, geralmente muito pequenas, s vezes temporrias. A seguir, situavam-se as


112  preciso observar, entretanto, que ainda no foi encontrado nenhum manuscrito ajami haussa anterior
    a 1600.
330                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



vilas (garuruwa, singular gari), maiores e mais estveis, comandadas por um sarkin
gari ou magajin gari (chefe de vila), que podia ser auxiliado por chefes de distrito
(masu-unguwa, singular mai-unguwa). No topo da hierarquia, encontrava-se a birni
(plural birane), capital do territrio, dirigida no por um sarkin birni (esta expresso
no existia em lngua haussa), mas por um sarkin kasa, ou chefe do territrio, cuja
autoridade se estendia, naturalmente, a todos os chefes de nvel inferior.
    Os fatores que parecem ter sido decisivos para a formao das birane, como sedes
de novo tipo de poder poltico, eram, em primeiro lugar, a multiplicidade de recursos
agrcolas e artesanais do territrio haussa, em segundo, a expanso do comrcio de
longa distncia, principalmente no sculo XV, e, finalmente, a existncia de mura-
lhas, que protegiam a populao urbana e agrcola das cidades-Estado durante as
guerras. As birane eram notveis pelo carter cosmopolita da populao  resultante
do comrcio , e tambm pela lentido com que parecem ter-se estabelecido113.
     frente do pas, o sarki (rei) tinha poder absoluto. Sua pessoa fsica era
sagrada, ao menos teoricamente, pois o destino do reino estava ligado a ela.
Em geral, era escolhido dentre os membros das linhagens reinantes. Apesar
de a sucesso de pai para filho ser comum, deve-se notar que a Crnica de
Kano assinala o nome da me de cada chefe, sem dvida devido a vestgios do
sistema matrilinear. O sarki dividia o poder com oficiais de alta patente; parte
deles pertencia  sua prpria linhagem, outros s linhagens do antigo regime,
transformadas ento em aristocracias hereditrias. Alguns homens desta elite
eram membros do Conselho de Estado, nomeado pelo monarca. No Gobir, este
conselho era chamado Tara-ta-Gobir (os "Nove de Gobir" ou Taran Gobir);
quando o rei morria, todos os candidatos  sucesso deviam aceitar suas deci-
ses114. O Conselho de Kano tambm tinha o nome de Tara-ta-Kano (os "Nove
de Kano"). Estes conselhos lembram o Conselho dos Doze no antigo Imprio
Sfuwa do Kanem-Bornu115. Como observamos acima o sarki de Kano Rumfa
foi o primeiro a nomear escravos e at eunucos para importantes cargos de
Estado, confiando-lhes o controle do tesouro, a guarda da cidade e do palcio, e
as comunicaes com os funcionrios livres; exerciam tambm diversas tarefas
domsticas, como a guarda do harm116. O funcionrio de Estado mais impor-
tante era o galadima117, espcie de primeiro-ministro ou gro-vizir, encarregado

113 Ver SMITH, H. F. C., 1971, p. 187-91; conforme a tradio, foram necessrios pelo menos duzentos
    anos para criar, de fato, a cidade-Estado de Kano.
114 NICOLAS, 1969, p. 207.
115 Ver TEMPLE, 1922, p. 467; URVOY, 1949, p. 37-42.
116 PALMER, 1928, v. 3, p. 112.
117 O ttulo provinha do Bornu, onde designava, porm, o governador das provncias ocidentais, ou seja, as
    mais prximas do territrio haussa.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                        331



de todos os negcios de Estado. Por vezes, este cargo era ocupado por herdeiro
legtimo e, muito frequentemente, o sarki no passava de ttere nas mos de um
galadima poderoso. Este comandava inmeros funcionrios e dignitrios, cada
um responsvel por um setor especfico ou uma unidade territorial, que tanto
podia ser uma provncia inteira como apenas um grupo de vilas.
   Por falta de documentao,  impossvel reconstituir o processo de desen-
volvimento do sistema administrativo haussa. A partir de cerca de 1530, como
sublinhou M. G. Smith, muitos fatores, entre os quais o Isl, e especialmente
os escravos  sua captura, seu papel como pagamento de tributos e produto de
exportao, suas povoaes, os cargos que ocupam como funcionrios, eunucos e
concubinas  foram decisivos para o desenvolvimento de governos centralizados,
por vezes ditatoriais118. A nomeao de escravos para postos oficiais pode ser
interpretada como mais um passo para enfraquecer a posio das antigas linha-
gens e, consequentemente, para assegurar poder mais absoluto ao sarki. Algumas
"inovaes" de Rumfa (o confisco de propriedades e mulheres ou a obrigao
da corveia) ilustram o aumento das prerrogativas reais e assinalam, ao mesmo
tempo, mudanas na estrutura social.


    Desenvolvimento econmico
    As possibilidades de desenvolvimento econmico no territrio haussa podem
ser resumidas desta forma:
    Em primeiro lugar, as jazidas de minrio de ferro eram ricas e bem distribudas,
como atestam no somente a Crnica de Kano (para a prpria regio de Kano),
como tambm pesquisas arqueolgicas em outras reas119. A maioria destas jazidas,
exploradas na poca, localizava-se perto das regies florestais, onde se produzia,
em abundncia, madeira para aquecimento e carvo de madeira, prprio para
a fundio do minrio. O ferro do monte Dala contribuiu, com certeza, para o
desenvolvimento da aglomerao que, mais tarde, tornou-se a cidade de Kano.
    Em segundo lugar, os solos de quase todas as reas do territrio haussa eram
ricos e frteis; os primeiros documentos  de Ibn Battta e de Leo, o Africano
 sublinham que a agricultura era a atividade econmica mais importante dos
Estados haussa, o que  confirmado em todos os estudos anteriores.


118 SMITH, M. G., 1964a e 1964b.
119 A respeito do trabalho em ferro em Zazzau, ver SUTTON, 1976, 1977. Sobre o Gobir, ver artigo de D.
    Grebenart.
332                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



    Em terceiro lugar, apesar de no dispormos de dados estatsticos sobre a
densidade demogrfica haussa, podemos estimar, pelas inmeras cidades e vilas
dos vrios Estados haussa, que o territrio era bastante povoado. A distribuio
da populao era regular, de forma que no havia excessiva concentrao demo-
grfica numa s regio do pas.
    Um quarto fator seria a localizao geogrfica do territrio haussa, entre o
Sahel e o Saara ao norte, a savana e a floresta tropical ao sul; podia, desta forma,
ser intermedirio no intercmbio de mercadorias entre estas regies.
    Graas a estes fatores, o territrio haussa logo desenvolveu o artesanato e o
comrcio de longa distncia. Novas pesquisas seriam, no entanto, necessrias, para
reconstituir a histria econmica do territrio, desde o incio do atual milnio.
    Apesar de ter-se a impresso de que os Haussa se dedicavam sobretudo ao
comrcio, foram, na verdade, antes de mais nada, agricultores, sendo a agricul-
tura o centro da vida econmica do pas. A terra, utilizada sob a superviso de
um chefe, pertencia  comunidade (aldeia, vila, cidade). Nunca era vendida, e
seu usufruto cabia aos que a cultivavam. Os estrangeiros  comunidade podiam
comprar um lote e explor-lo, desde que autorizados pelo chefe comunal. Mais
tarde, com o progresso do feudalismo, o sarki passou a ter a possibilidade e o
direito de doar terras a qualquer indivduo, autctone ou estrangeiro.
    Os agricultores (talawaka, singular talaka) eram dirigidos, em suas atividades,
por um chefe, o sarkin poma (chefe das culturas), responsvel pela observao
rigorosa do incio da estao das chuvas e pelos sacrifcios a serem feitos aos
deuses locais, para que estes assegurassem boas colheitas.
    Com o decorrer do tempo, trs tipos de fazenda desenvolveram-se no territrio
haussa: as gandum sarkin (campos do rei), caracterizadas por grande extenso; as
gandum gide (campos da famlia), chamados geralmente gona (nome genrico
para todos os campos), e finalmente a gayauna ou gayamma (pequeno lote de
terra pertencente a um indivduo)120.
    Nos gandum sarkin, como em todas as grandes propriedades dos dignitrios
de Estado, o trabalho dos escravos tinha papel essencial. Durante o reinado do
sarki de Kano `Abdllh Burja (1438-1452), milhares de escravos viviam em
Kano e seus arredores. A maior parte era, com certeza, empregada na agricultura.
Afirma-se que o galadima do reinado fundou 21 cidades, instalando em cada
uma mil escravos; apesar de no sabermos quais suas ocupaes, podemos supor
que trabalhavam na cultura de terras recentemente conquistadas121.

120 Com o tempo, o termo passou a ser empregado para designar apenas a terra dada a uma mulher, que a
    cultivava e dispunha do fruto de seu trabalho, como bem entendesse.
121 PALMER, 1928, v. 3, p. 110.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                          333



    Praticavam-se muitas culturas no territrio haussa, incluindo diversas varieda-
des de milhete (Pennisetum typhoideum), sorgo, fonio (Digitaria exilis) e arroz (prin-
cipalmente nas regies ocidentais e em Kebbi). A cultura de plantas industriais,
como o algodo e o ndigo, era particularmente importante no Estado de Kano122.
    Depois da agricultura, o artesanato era a atividade mais importante para a
economia haussa, desde bem antes do sculo XIV. Graas  diviso do trabalho
e  especializao, alcanou-se nvel de produo relativamente alto. A indstria
txtil ocupava o primeiro lugar e, desde sua origem, fabricaram-se vestimentas
de algodo no territrio haussa. Todas as etapas do processo de fabricao 
descaroamento, cardagem, fiao, tintura e tecelagem  eram l executadas. Os
artesos em couro e sapateiros do territrio haussa produziam vasta gama de artigos
(vrios tipos de bolsas e calados, selas, almofadas etc.), que supriam no somente os
pases do Sudo, como tambm os mercados da frica setentrional123.
    O trabalho em metal era artesanato muito antigo, e os ferreiros tinham papel
muito importante. A fundio de metal era feita derramando-se, nos fornos,
grande quantidade de pedregulhos ferruginosos, que os Haussa denomina-
vam marmara. A partir desta matria-prima, os ferreiros  os de Kano eram
particularmente clebres  fabricavam todos os instrumentos necessrios 
comunidade: utenslios de cozinha, instrumentos agrcolas, facas, machados,
flechas, lanas etc. Tambm a cermica era fabricada normalmente, e fornecia
os recipientes necessrios para a conservao de lquidos e de cereais.
    As guildas geriam grande parte das atividades artesanais. Seus chefes eram
nomeados pelo rei, que, s vezes, acatava as indicaes dos membros destas
corporaes. Tinham como funo arrecadar as vrias taxas que os artesos
deviam ao fisco, e tambm controlar o ingresso na guilda, os mtodos de pro-
duo, os critrios de trabalho e os preos.
    O local preferido para os intercmbios comerciais era o mercado (kasuwa).
Na medida em que o comrcio foi se tornando uma das atividades mais impor-
tantes da populao urbana, o mercado passou a acumular outras funes: era
    o grande ponto de encontro e local de reunio, para onde afluam parentes e amigos,
    e onde se contactavam os estrangeiros124.



122 LEO, o AFRICANO, 1956, p. 476, escreveu: "Nessa provncia (Kano) so cultivadas muitas espcies
    de trigo, de arroz, e tambm de algodo".
123 LEO, o AFRICANO, 1956, p. 477 et seqs., escreve sobre o Gobir: "Alguns dentre eles fabricam sapatos
    como aqueles usados pelos romanos de antigamente, que so exportados para Tombuctu e Gao".
124 ADAMU, 1979, p. 1.
334                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



O encarregado do mercado, chamado sarkin kasuwa, e seus ajudantes mantinham a
ordem, resolviam disputas entre comerciantes e clientes, e arrecadavam as taxas para
o rei, em gneros ou dinheiro.
    A classe comerciante logo foi dividida em categorias. Os Haussa distinguiam o
ciniki  mercado ou comrcio local, de produtos agrcolas e artesanais, em pequena
escala, mantido pelos prprios produtores  do fatauci  comrcio atacadista, em
mos de profissionais chamados fatake (singular farke ou falke), que tratavam do
comrcio de longa distncia. Os yan koli (singular dan koli) eram intermedirios
que iam de um mercado a outro, vendendo e comprando produtos baratos, ou
vendendo a varejo produtos importados pelos fatake. Os ciniki eram confiados aos
yan kasuwa (singular dan kasuwa), que comerciavam, essencialmente, nas cidades
de origem. Dentro desta diviso geral, havia outros especialistas, como os forne-
cedores de carne, os aougueiros, os fornecedores de cereais etc.
    O corretor (dillali, plural dillalai) tinha funo importante em todos os merca-
dos haussa: conhecia os preos de cada mercado da regio, previa suas flutuaes,
as variaes de oferta e procura, e especulava com base em seu conhecimento.
Os dillalai recebiam, por seu servio, uma porcentagem sobre os preos.
    Apesar da importncia do mercado, as transaes eram frequentemente
efetuadas em outros locais. No caso dos artesos, por exemplo, os clientes iam
aos atelis, instalados nas prprias casas, para comprar o que necessitavam. Por
outro lado, as mercadorias, na maioria das vezes importadas, eram entregues
nas residncias dos representantes das classes dirigentes, ou na corte, pois a
posio social destes superiores no permitia que fossem ao mercado. Outra
caracterstica do sistema comercial haussa era o papel das mulheres, que, casa-
das ou solteiras, geriam barracas de comestveis, prximas ao mercado, ou
vendiam produtos de algodo.
    H pouca informao sobre as moedas utilizadas nas atividades comerciais,
mas pode-se supor que, nessa poca, a troca dominasse as transaes regionais.
As principais unidades monetrias eram fitas de algodo  sawage, em haussa
, sal e escravos. A data de introduo dos cauris  farin kudi, ou seja, moeda
branca  no  conhecida. A oeste, no Mali e no Songhai, os cauris j circulavam
havia muito tempo. No entanto, s foram introduzidos no Kanem-Bornu no
sculo XIX. At h pouco tempo, pensava-se que os cauris haviam comeado a
circular no territrio haussa durante o sculo XVIII125, mas uma fonte do sculo
XVI, publicada recentemente, menciona que em Katsina


125 JOHNSON, M. 1970, p. 33.
Os Haussa e seus vizinhos do Sudo central                                                               335



    como em todos os pases de negros, usa-se como moeda, para comprar pequenos
    objetos, uma espcie de concha marinha muito branca; o ouro, por causa de seu peso,
     trocado por mercadorias trazidas pelos comerciantes126.
     Em virtude da evoluo mais lenta dos governos centralizados nessa rea, o
territrio haussa entrou mais tarde do que seus vizinhos ocidentais  Mali, Songhai
 e orientais  Kanem-Bornu  na rede de comrcio de longa distncia. Mas, assim
que tiveram condies, os Haussa aproveitaram plenamente as possibilidades que
sua situao geogrfica oferecia.  verdade que os Wangarawa foram pioneiros no
comrcio de longa distncia no territrio haussa, mas seu papel parece ter sido um
tanto exagerado por certos autores127. De fato, alm dos Wangarawa, mercadores da
Africa setentrional, tuaregues, Kanuri e outros grupos tambm participavam desse
comrcio. No sculo XV, quando se iniciou, ao que parece, a transformao da eco-
nomia do territrio, os Haussa comearam a desenvolver seus negcios e assumiram
algumas rotas, principalmente as que levavam ao sul. O desenvolvimento de Kano
e Katsina, assim como sua rivalidade, esto estreitamente ligados  ascenso de
um comrcio de longa distncia e  crescente participao dos Haussa neste ramo.
    No se pode descartar a hiptese de que futuras pesquisas nos indiquem a
existncia de um comrcio haussa voltado para leste. Na verdade, o comrcio
flua em vrias direes, aproveitando a localizao geogrfica do territrio e a
diversidade de produtos carentes em outras regies. De modo geral, o eixo prin-
cipal, a princpio, foi o nortesul; a expanso lateral s ocorreu muitos sculos
depois, em direo a leste.
    As principais mercadorias do comrcio haussa podem ser classificadas de
acordo com seu local de origem:

    1. produtos locais  artigos de algodo, couro e artigos de couro, produtos
agrcolas (principalmente o milhete , destinados aos osis do Saara), almscar
de alglia, penas de avestruz e, provavelmente, borracha;
    2. produtos da Africa setentrional (e, em parte, da Europa)  objetos de metal,
armas, cavalos, prolas, artigos de vidro e vestimentas de luxo;
    3. produtos do Saara  barras de estanho das minas de Takedda (Azeline),
sal e natro de Bilma e de outras minas de sal do Saara. Os principais centros do
comrcio de sal eram Agadez e Gobir128;

126 LANGE E BERTHOUD, 1972, p. 335.
127 Ver, por exemplo, LOVEJOY, 1978.
128 O vocabulrio haussa contm mais de 50 palavras para os diversos tipos de sal, o que indica a importncia
    deste produto para o comrcio e a vida cotidiana.
336                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    4. produtos do sul  a) O principal produto importado eram os escravos 
vtimas de incurses ou tributos pagos pelos pases vizinhos. Exerciam vrios
papis, sendo usados como moeda ou mercadoria, domsticos, soldados, guardas,
mo de obra agrcola e artesanal. Alguns ficavam no territrio haussa, outros
eram vendidos em vrias partes da frica, sobretudo no Magreb129. b) O segundo
produto de exportao proveniente do sul eram as nozes-de-cola. O principal
centro produtor era Gwanja (Gonja), ao norte da atual Repblica de Gana. A
rota comercial mais importante de Gwanja para o territrio haussa atravessava
Zaria e o Borgu.

    No sabemos como era organizado o comrcio de longa distncia. Nossos
conhecimentos atuais apenas nos permitem dizer que os comerciantes da frica
setentrional predominavam no comrcio transaariano, enquanto o comrcio
meridional e, em parte, o do lesteoeste estavam em mos de comerciantes
haussa. Parece mais importante o fato de algumas cidades haussa  principalmente
Kano e Katsina  servirem de entreposto entre o norte e o sul, como terminais da
rota transaariana. No  preciso dizer que o desenvolvimento do comrcio enri-
queceu a classe dirigente dos Estados haussa. A opulncia das cortes, a partir
do sculo XV, refletia essa prosperidade, graas  qual Rumfa pde empreender
vastos projetos de construo e numerosas reformas administrativas, polticas
e religiosas.
    No final do sculo XVI, aps a queda do Imprio Songhai, as rotas comerciais
para o oeste tornaram-se inseguras, esgotando-se as relaes entre o Songhai e o
Air. Por outro lado, intensificou-se o comrcio do territrio haussa com o norte,
principalmente depois que Katsina, ponto final das caravanas transaarianas,
tornou-se, mais do que nunca, a espinha dorsal da economia haussa, e, de fato,
de todo o Sudo central.




129 Os Haussa distinguiam dois tipos de escravos: os bayi, que haviam sido capturados ou comprados, com
    poucos direitos, e os cucenawa, que, como segunda gerao, eram mais servos do que escravos. Sobre a
    escravido, ver FISHER, A. G. B. e FISHER, H. J., 1970.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim 337



                                        CAPTULO 12


    Os povos da costa  primeiros contatos
    com os portugueses  de Casamance s
         lagunas da costa do Marfim
                                               Yves Person




    Caractersticas gerais da regio
    Designa-se por Guin a costa ocidental da frica que vai da foz do Gmbia
ao delta do Nger. Sinnimo de "Etipia", ou "pas dos negros", o termo foi usado
pelos primeiros navegantes portugueses em seus escritos sobre a regio. A alta Guin
compreende o territrio situado entre a foz do rio Gmbia e o rio Bandama. Esta
parte da costa e seu interior ficaram fora da rea de interesse de viajantes e
autores rabes.  provvel, no entanto, que desde a poca do Imprio de Gana
existissem relaes comerciais entre a savana e estas regies cobertas por flo-
restas. No se trata ainda da floresta tropical densa, e, por outro lado, o meio 
bem diferente do da savana.
    Uma das caractersticas desse territrio  a fragmentao da populao em
grande nmero de etnias. Com a influncia crescente dos Manden (Mandingo),
a frente das migraes impulsiona suas vanguardas para o sul, regio das
nozes-de-cola, do ouro, dos escravos e do sal. E, de repente, no sculo XV, o
litoral do Atlntico deixa de ser os fundos de um beco sem sada, utilizado
apenas para a pesca costeira e para o comrcio local, e passa a constituir uma
segunda frente de contato com a Europa, em que logo ir predominar o comrcio
de escravos com a Amrica. A partir de ento a histria da alta Guin ir se
pautar pela interferncia destas duas correntes histricas, nunca conciliadas, a
338                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



cujas malhas os povos autctones tentaram escapar multiplicando iniciativas no
sentido de preservar sua identidade e controlar seu prprio destino.
    A civilizao do Sahel sudans, que tem no Manden uma de suas principais bases,
constituiu-se a partir dos sculos VIII e IX por populaes camponesas autctones
confrontadas com os problemas do comrcio transaariano, reorganizado naquele
momento, aps a islamizao da frica setentrional. Uma rede de comrcio de longa
distncia logo recobre toda a zona sudanesa; seus agentes mais conhecidos so os
clebres comerciantes Maninka (Malink). Esta rede j estava suficientemente
organizada no sculo XII para permitir a exportao, para a frica setentrional,
de nozes-de-cola, fruto silvestre eminentemente perecvel.
    Segundo informaes de pocas posteriores, esta rede se estendia at a borda
da floresta, onde existia uma zona de corretagem. Mais para o interior da flo-
resta, os produtores, organizados em guildas por grupos de linhagem, comer-
ciavam por zoneamento: as mercadorias eram passadas de um grupo para o
grupo vizinho sem intermedirios especializados. Esta foi certamente a origem
do comrcio de nozes-de-cola. Foi tambm deste modo, com certeza, que se
comercializou durante os sculos XIV e XV a pimenta-malagueta, originria
exclusivamente da Libria meridional, e que chegava  Europa e principalmente
 pennsula Ibrica pela zona sudanesa e pelo Magreb. Os portugueses desvia-
riam este comrcio para o litoral.
    Os navegantes portugueses, que percorreram a costa em curtas etapas entre
1450 e 1500, deixaram relatos detalhados sobre a populao local, bastante teis
para o presente estudo. A costa  de modo geral baixa e pantanosa, com reas de
vasa muito propcias  rizicultura;  recortada por inmeros cursos d'gua prove-
nientes do Futa-Djalon, que se lanam no mar aps percorrerem algumas cente-
nas de quilmetros. O mar no teve papel preponderante na vida das populaes
costeiras, que permaneceram voltadas fundamentalmente para a agricultura; no
entanto havia os que se dedicavam  cabotagem e extraam sal para vender s
populaes do interior. Mas todos esses produtos alimentavam principalmente
o comrcio regional de longa distncia, o qual, a partir do momento em que
a influncia muulmana abriu as rotas do Saara, foi obrigado a se adaptar ao
comrcio em larga escala com o exterior. Ora, como se sabe, este se baseava
fundamentalmente no ouro sudans  metal raro no mundo mediterrneo desde
a Antiguidade  e secundariamente nos escravos e no marfim.
    O ouro no est diretamente relacionado  alta Guin, pois as principais
zonas de explorao esto fora dos limites da regio, nas bacias do Senegal e
do Nger  no Bambuku ou no Burem , e na do Volta, a leste  em Lobi e
em Akan. Pertencem  regio apenas as minas pouco importantes do Guerze
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   339



(em Kpele, na atual Repblica Popular Revolucionria da Guin), mas no h
evidncias de que fossem exploradas em pocas mais antigas.
   Sero os artigos do comrcio internacional que iro atrair os portugueses
desde a "descoberta", quando se abre a segunda frente de contato. E, natu-
ralmente, ser o ouro a mercadoria mais cobiada. Apesar de o ouro no ser
extrado na regio, a travessia dela faz-se obrigatria a partir do instante em que
a exportao do metal passa a ser dirigida, no mais para o norte, mas para a
costa martima. Veremos, porm, que logo os escravos tomaro seu lugar como
principal item do comrcio.


    Evoluo dos territrios da alta Guin
    Definido o quadro, vejamos o que  possvel conhecer sobre a evoluo
dos povos e suas civilizaes durante os seis sculos que aqui nos concernem.
O levantamento  apenas provisrio, pois a poca  por demais antiga para a
maioria das tradies orais, e os documentos escritos tratam apenas do ltimo
sculo do perodo. As pesquisas arqueolgicas, que um dia devero fornecer-nos as
informaes que procuramos, so ainda incipientes.  necessrio, ento, recorrermos
ao mtodo retrospectivo, com base em dados antropolgicos e lingusticos.

    Do Casamance ao monte Kakulima
   Na zona da alta Guin fronteiria  Senegmbia, em meio a uma rede de bra-
os de mar e aos esturios do rio Casamance e do Rio Cacheu, encontravam-se
os Balante, os Joola (Diola) e os Flup (Felup), povos rizicultores, que viviam em
comunidades rurais autnomas.
   Nesta rea, os Banyun, ou Bainuk (os "Banhun" dos autores portugue-
ses), so considerados autctones. At a metade do sculo XVI, a autoridade
do mande mansa (imperador do Mali) estendia-se por toda esta costa1; os
Biafada (que se dizem Joola) e, mais ao sul, os Kokoli (ou Landuman, ou Lan-
doma) constituram-se em chefarias autnomas. Em meados do sculo XV,
os Biafada espalharam-se rapidamente at o mar. Chocaram-se com os Bijago,
entrincheirados em suas ilhas, que, graas  superioridade naval, se impuseram,
com invases ao continente, at a era colonial. Os Bijago sabiam construir
grandes embarcaes com capacidade para transportar de 90 a 120 pessoas.


1    FERNANDES, 1951, p. 83-9.
340                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 12.1   Portulano de Mecia de Viladestes, 1413 (mapa manuscrito, colorido, em pergaminho).
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   341
                                                               342
                                                               frica do sculo xii ao sculo xvi
Figura 12.2   Mapa da alta Guin no sculo XVI. (Y. Person.)
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   343



    Mais para o interior, da alta Gmbia aos contrafortes do Futa-Djalon, os
ancestrais dos povos Tenda  os "Bassari", os Koniagui, os Bedik e os Badiar
 dominavam vasta regio, organizados em comunidades rurais autnomas.
Alguns participaram no fim do sculo XV, entre 1490 e 1512, das aventuras
militares de Tenguella, conquistador fulah (fulbe ou peul), fundador do Imprio
dos Denianke. Opuseram, porm, feroz resistncia s tentativas de dominao
dos guerreiros fulbe (peul) e manden (mandingo)2. Os Tenda praticavam a
agricultura itinerante; suas aldeias eram acampamentos de cultivo.
    Do Rio Grande ao Rio Pongo, dominavam os Landuman, os Baga, os Nalu
e os Capi (Tyapy) e Temne, todos rizicultores e tambm pescadores. Suas aldeias
eram construdas nos pntanos salgados, s vezes sobre diques. So povos de lngua
mel. Desde o sculo XV, os trs primeiros grupos ocupam praticamente os mesmos
domnios. Os Baga instalaram-se no litoral da Repblica Popular Revolucionria
da Guin, do Rio Nunez ao monte Kakulima, e, provavelmente sob sua presso, os
Temne partiram para o sul da ilha de Tumbo, onde fundaram um novo povoado3.
    Os navegantes portugueses que abordaram estas costas na metade do sculo XV
atestaram que eram bastante povoadas. No existiam, porm, vastos reinos entre os
Flup, os Balante, os Landuman, os Nalu ou os Baga; aqueles a quem os navegadores
chamaram de reis eram antes patriarcas ou chefes de cl, de poder muito limitado.
    Em sua descrio da costa ocidental da frica, Valentim Fernandes
escreve:
    "Os reis das aldeias no recebem rendas ou tributos de seus sditos; mas quando
    querem plantar, semear ou colher, todos os ajudam gratuitamente; quando querem
    construir casas, cercar suas terras ou ir  guerra, todos respondem a seu chamado".
    O poder do rei, no entanto,  limitado pelo Conselho: "Quando o rei quer declarar
    guerra, rene os ancios e forma seu Conselho. Se estes acham que a guerra  injusta
    ou que o inimigo  mais forte, dizem ao rei que no podem ajud-lo e ordenam a
    paz contra a vontade dele"4.
    Essas populaes eram adeptas da religio tradicional; no houve influncia
islmica ao sul do Rio Grande. Os portugueses notaram corretamente a base
comum a todos os cultos encontrados ao longo da costa. Os habitantes da regio
adoravam dolos talhados em madeira; a principal divindade era chamada Kru.
Tambm cultuavam os mortos:


2    Ver o captulo 7 deste volume.
3    MONTEIL, V., 1966; PEREIRA, 1956, p. 47; FERNANDES, 1951, p. 69-105.
4    FERNANDES, 1951, p. 83.
344                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



      (...)  hbito fazer-se um memento de todos os mortos. Se  um notvel, esculpe-
      -se um dolo parecido com ele; se  homem comum ou escravo, a figura  feita
      de madeira e posta numa casa coberta de palha. Sacrificam-se-lhe anualmente
      galinhas e bodes5.
    Esta  a descrio mais antiga dos ritos religiosos e funerrios dos povos
da costa; as estatuetas que refere so os nomoli ou pomta (no singular, pomdo),
talhados em esteatita, pedra malevel, e atualmente encontrados nas sepultu-
ras antigas da Repblica Popular Revolucionria da Guin e da Repblica de
Serra Leoa (ver fig. 12.3). As populaes embalsamavam os mortos antes de
sepult-los.

      Do monte Kakulima ao territrio kru
   Ao sul do monte Kakulima comeava o domnio dos Temne, ou Temene,
descendentes dos Capi (Tyapy ou "Sapes"), dos quais hoje restam apenas vagas
reminiscncias na Repblica Popular Revolucionria da Guin, pois se acham
concentrados atualmente na Repblica de Serra Leoa. A seu lado encontravam-se
os Limba e os Bulom (Bulem), e, mais atrs, para o interior, os Kissi. Os Bulom e os
Kissi falam a lngua sherbro.
   Como os outros, estes povos esto organizados em grupos de linhagem e
aldeias autnomas. Sua estrutura poltica  dominada por sociedades cujos
membros usavam mscaras esotricas, responsveis pela iniciao, como o
simo, ao norte, entre os Baga e os Landuman. Os portugueses no notaram
nenhuma diferena significativa entre essas populaes costeiras. Tanto os
Bulom quanto os Temne possuem numerosas aldeias, cada qual contando
aproximadamente de 150 a 300 habitantes; nossos informantes mencionam
aglomeraes bulom de 1 mil a 3 mil habitantes. Cada aldeia tem seu patriarca
(bai). A cultura de arroz era muito desenvolvida em toda a costa; no fim do
sculo XV, os portugueses transportavam para o norte a produo excedente
das regies de Serra Leoa.
   Os Bulom e os Bijago construam grandes embarcaes e sua atividade pes-
queira era particularmente bem-sucedida. Desenvolveram tambm a escultura
em madeira e executavam excelentes trabalhos em marfim (ver figs. 12.3 e 12.4).
Frequentemente os portugueses lhes encomendavam obras de artesanato, como
colheres, saleiros etc.


5     Ver MONTEIL, V., 1966; PEREIRA, 1956; FERNANDES, 1951, p. 69-105.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   345




Figura 12.3 Nomoli (estatuetas de esteatita) da Repblica de Serra Leoa. (Referncias: MH.02.28.1 a
28.4.) (Fonte: Museu do Homem, Paris.)



   Em poca no exatamente determinada, mas provavelmente entre os sculos
XIII e XIV, a lngua e a cultura temne difundiram-se um pouco para o interior,
do noroeste do Futa-Djalon a Rokel, na Repblica de Serra Leoa. Quando da
chegada dos portugueses, estes povos ainda dominavam a regio desde a altura
de Conacri, mas a linha de frente dos Manden (Mandingo), os Sosoe (Sosso
ou Sussu do Futa-Djalon), j comeava a pression-los para o sul. Apesar de os
portugueses falarem do "Imprio dos Sapes", nunca houve um Estado estrutu-
rado, mas sim um conjunto de chefarias ou grupos de linhagem unidas por uma
cultura comum. Sem dvida, um dia a arqueologia nos esclarecer sobre esse
346                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



antigo movimento para o sul, que no deve ser interpretado, segundo o velho
conceito das migraes, como um deslocamento brusco e macio, mas como
uma lenta difuso cultural, que se estendeu por vrios sculos.
    Ao longo da costa, para alm dos domnios temne e bulam, at o brao do rio
Bandama, encontram-se os povos Kru. Vivem num meio essencialmente flores-
tal que, at o sculo XVI, era praticamente impenetrvel. No que diz respeito ao
perodo considerado, pouco se pode dizer sobre este grupo to original, tanto do
ponto de vista lingustico como do antropolgico. Como os Nalu, Landuman,
Baga e Bulam, os Kru praticavam ativamente a pesca ao longo do litoral, mas
sua agricultura era menos desenvolvida que a dos vizinhos do norte. O arroz,
provavelmente recebido dos Manden do interior, era ento pouco plantado. Os
Kru dominavam territrio mais vasto do que hoje, que chegava a invadir a savana
na direo de Seguela, onde, a partir do sculo XVI, eles cederam lugar aos
Maninka (Malink). Em todo caso, no sculo XV, os portugueses encontraram
os Bassa e os Kru bem instalados no litoral.

      A influncia da savana
    Se observarmos a frente de contato sudanesa, veremos destacarem-se os
Manden; os Fulbe (Fulani) s intervieram marginalmente, e no fim do perodo.
Os Manden do sul, em contato desde tempos muito antigos com os povos da
regio, tiveram sua cultura fortemente influenciada pelos Fulbe. Do sculo XIII
ao sculo XIV, foi contnuo o avano dos Manden em direo ao mar, entre o
Rio Grande e a costa da Libria.
    Os Manden, ou seja, o conjunto de povos de lngua maninka, bambara, jula
etc., constituem o ncleo do mundo manden, e deixaram sua marca na hist-
ria no sculo XIII como construtores do clebre Imprio do Mali. J muito
cedo interessaram-se pela alta Guin. Esto organizados  principalmente
os Maninka e os Bambara  em grandes aldeias por grupos de linhagem
patrilineares, reunidas, por sua vez, em kafu ou jamana, pequenas unidades
territoriais com carter de Estado, que sem dvida no so anteriores ao
Imprio do Mali, mas cuja permanncia  notvel. No mbito das aldeias,
a base da vida poltica so as grandes sociedades de iniciao (jow). O Isl,
embora minoritrio em nmero de adeptos, no pode ser desconsiderado,
pois est ligado ao comrcio de longa distncia, fazendo-se presente em toda
parte. A estratificao social  relativamente bem desenvolvida, e a tradio
de organizao estatal como superestrutura arrecadadora de tributo dos kafu,
bastante generalizada.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   347



   Centrado no Nger, o Imprio do Mali, que sobreviveu at a primeira metade
do sculo XVII, voltava-se para a imensido das savanas e para o controle do
comrcio transaariano. Provavelmente o comrcio de longa distncia  princi-
palmente o de nozes-de-cola e o de escravos  despertou o interesse do imprio
pelas rotas do sul que levavam  borda da floresta, mas, ao que parece, no houve
controle poltico contnuo alm da linha que ia de Kurussa a Kankan (na atual
Repblica Popular Revolucionria da Guin) e at Odienn (na atual Repblica
da Costa do Marfim). No entanto os soberanos sempre estiveram empenhados
em estabelecer boas relaes com os chefes da regio da floresta.
   A leste do Futa-Djalon, que, parece, jamais esteve subordinado ao domnio
do Mali  seus planaltos de arenito estril eram de difcil acesso, constituindo
um obstculo s intervenes , a expanso Maninka deu-se fora do contexto
imperial. Nas zonas mais prximas do imprio, uma lenta expanso de campo-
neses sob a proteo de guerreiros teria possibilitado a absoro dos autctones.
Grandes e nobres linhagens dividiam o poder, sem centralizao poltica, exceto




F igura 12.4 Escultura africana em marfim, representando navio e guerreiros portugueses. Vista de conjunto
e detalhe. (Foto Werner Forman Archive.) (Fonte: Fagg, W. B., 1970.)
348                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



em perodos de supremacia militar: os Konde do Sankaran, no alto Nger, pelo
menos at o sculo XIV, e os cls maninka dos Kuruma e dos Konate do Toron,
de Kankan a Odienn, o mais tardar no sculo XV.
   Mais ao sul, os primeiros a chegar teriam sido os Joola, que foram at a borda
da floresta  procura de nozes-de-cola e ouro, e, sem dvida, a oeste, em busca da
malagueta e de escravos. A leste, fora da zona aqui estudada, teriam atingido o
golfo da Guin, antes dos portugueses, em direo  Costa do Ouro (Repblica
de Gana). Com eles apareceram os primeiros focos do Isl. As contendas com
os autctones levaram-nos a recorrer aos guerreiros maninka, que organizaram
politicamente o pas e trouxeram camponeses, que assimilaram os autctones 
os Koranko, na atual Repblica Popular Revolucionria da Guin e na Repblica
de Serra Leoa, o mais tardar no sculo XV; os Konya (Konianke) e os Mau, por
volta do fim do sculo XV; os Uagadugu (Morodugu), mais tarde, nos sculos
XVI e XVII. Alguns, como os Kono e os Vai, avanaram at o mar a partir do
sculo XV.  quase certo que foram os Kamara do Konya os responsveis pela
grande invaso somba que atingiu a costa da Libria e de Serra Leoa entre
1540 e 1550.
    No Bandama, esta grande expanso maninka encontraria as vanguardas dos
Joola, que no sculo XIV j conheciam as rotas que iam de Djenn s minas de
ouro dos Akan (em Begho) e ao golfo da Guin (nos antigos Boron, Uagadugu




Figura 12.5 Trompa de marfim com cenas de caa. (Foto Werner Forman Archive.) (Fonte: Fagg, W. B.,
1970.)
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   349



e Koro). No final do sculo XVI j havia desse lado, em direo ao baixo Ban-
dama, uma sada para o mar.
   No entanto o novo mundo dos Maninka meridionais, das nascentes do
Nger ao Bandama, no estava voltado para o mar, mas para o Sudo, o Sahel
e o norte, e s bem tarde sofrer o impacto do trfico de escravos. A influncia
do mar, do elemento muulmano e do comerciante s ser significativa no fim
do sculo XVII, quando os povos do alto Nger, indo dar no Atlntico, iro
convulsionar a cultura dos autctones (Sosoe, Temne) e romper o equilbrio de
seu prprio territrio6.

    Os Estados ou provncias manden da costa
     a partir da primeira metade do sculo XIII, e no noroeste, que parece ter
ocorrido uma srie de importantes acontecimentos, que culminaram na formao
de um ncleo de cultura maninka no Kaabu (Gabu), entre o Gmbia e o Rio
Grande. O Imprio do Mali, senhor das zonas aurferas do alto Senegal e do
alto Nger, parece ter imposto sobre toda a Senegmbia uma hegemonia, que
no sobreviver  crise que o ir atingir um sculo mais tarde. Mas, mais ao
sul, do Gmbia aos contrafortes do Futa-Djalon, sua obra ser duradoura, por
se basear num povoamento novo e na transformao profunda das sociedades
indgenas. A tradio atribui essa reviravolta a Tiramaghan Traore, general
de Sundiata, que teria ento conquistado e organizado o Kaabu. Esse grande
Estado, que sobreviver at o sculo XIX  mais precisamente, at 1867 , foi
originalmente o governo ocidental do Mali, cujo domnio se estendia, a oeste,
s minas de ouro do Bambuku, e tinha assegurada uma sada para o mar, que,
embora fosse utilizada apenas para a extrao de sal e para a pesca, parecia j
ter fascinado os Maninka da zona sudanesa.
    O Kaabu  cercado por uma srie de Estados vassalos, povoados s vezes
por no Manden aculturados, como os Kokoli (Tyapy), os Biafada e os Kas-
sanga (Bainuk orientais), ou como o reino de Brassu (Oyo, no Rio Cacheu),
ou ainda como os vrios reinos gambianos que os portugueses encontraro no
sculo XV remontando o rio: Niumi, Bati (Badibu), Niani, Wuli. Os Balante,
hostis a qualquer forma de poder centralizado, mantiveram-se afastados e s
parte deles foi subjugada. Apesar de a lngua e a cultura manden dominarem
e se desenvolverem at hoje, o sistema poltico que se organizou foi bastante
autnomo em relao ao centro do alto Nger.  digno de nota o fato de que,


6    Ver RODNEY, 1970, e WYLIE, 1977.
350                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



sob a influncia dos autctones, a aristocracia do Kaabu adotou o sistema de
sucesso matrilinear. Dela se originou a linhagem dos Gelowar, que organizou
os reinos seereer em data desconhecida, mas com certeza anterior  chegada dos
portugueses em 1446.
    Na direo do baixo Casamance, o reino vassalo dos Bainuk-Kassanga man-
ter a identidade at ser destrudo pelos Balante, em 1830. Do ttulo de seu rei
(casa mansa) os portugueses derivaram o nome dado ao rio.
    O principal acontecimento para os Maninka ocidentais ser evidentemente a
chegada dos portugueses entre 1446 (descoberta do Gmbia) e 1456 (descoberta
do Rio Grande). Da por diante o oceano torna-se a principal frente de acultura-
o, e seu significado para o Imprio do Mali muda completamente. O Gmbia,
amplamente navegvel, continuar sendo uma das principais vias de acesso ao
interior do continente at o sculo XIX. Por ali passa a ser exportado o ouro do
Bambuku e mesmo o do Burem, e pouco depois tambm grande quantidade de
escravos. A partir do fim do sculo XV (em 14841485, em 1487 e em 1534) 
esta a rota seguida pela grande maioria das misses portuguesas para chegar ao
imperador do Mali. Por volta dessa mesma poca, forma-se uma aliana contra
os Denianke de Tenguella, que, por terem conquistado o alto Senegal partindo
do Futa-Djalon, constituam ameaa quela rota. Essa ameaa ser afastada com
o estabelecimento dos Denianke no Futa-Toro. No entanto os Estados Maninka
do norte do Gmbia, do Niumi ao Niani, sero subjugados pelo reino seereer
do Salum, consolidado no incio do sculo XVII, e vivero, at o sculo XVIII,
ao ritmo do trfico de escravos.
    O Kaabu conseguir apenas manter sua autoridade ao sul do rio Gmbia
(Kantora) e se esforar para se comunicar diretamente com os portugueses,
mais ao sul, pelo Rio Cacheu e pelo Rio Grande. Tudo indica, porm, que,
apesar das provaes que ir atravessar no sculo XVI, continuar fiel ao Imprio do
Mali, reduzido e privado de seus territrios sahelianos, mas ainda forte, ao contrrio
do que por muito tempo se afirmou. Pode-se, sem dvida, precisar a data do fim
dessa ligao histrica. Pesquisas cuidadosas levam a crer que o Bambuku, com
suas minas de ouro, permaneceu sob o controle do Mali at 1599, data da derrota
final do mansa Mamudu frente a Djenn. Foi conquistado ento  em nome dos
Denianke de Futa-Toro, que constituam na poca o Imprio do "Grande Ful"
 por renegados portugueses, recrutados pelo famoso Ganagoga, judeu de
Crato convertido ao islamismo, genro do silatigui (rei) dos Denianke7. A partir


7     MOTA, 1969; ver tambm DONELHA, 1977.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   351



de ento, por volta de 1600, torna-se impossvel qualquer comunicao entre
o Kaabu e o alto Nger, e o Mali continuar se desmembrando at o quarto de
sculo seguinte8.
   Mais ao sul, o interior do territrio dos "Sapes" era ocupado pelo imenso
macio do Futa-Djalon, cujos vastos planaltos, cortados por vales profundos, so
estreis, mas propcios, devido ao clima,  criao de gado. A partir de poca
ainda no determinada, este territrio  dominado por dois povos estreitamente
aparentados: os Jalonke e os Sosoe (ou Sussu), que falam dialetos de uma mesma
lngua, o manden, muito prxima, mas diferente, do maninka.

    Os Fulbe e os povos do FutaDjalon
    A civilizao dos Jalonke, que ocupam o norte e o leste do macio, espalhando-se,
a leste, at o Burem, regio do ouro,  do tipo manden, e sua organizao, tradicional,
em linhagens patrilineares, aldeias e pequenas chefarias semelhantes aos kafu. Parte
deles, pelo menos, deve ter estado sob o domnio do Mali, durante o apogeu
do imprio, at os distrbios do final do sculo XV; quanto aos Jalonke do alto
Nger, sem dvida sofreram esse domnio at o fim do sculo XVI.
    A oeste e ao sul do macio, os Sosoe, ao contrrio, parecem ter vivido isolados
em pequenos grupos, e sua cultura ter se transformado pela influncia dos povos
Mel. Assim, sua organizao poltica, muito menos estruturada, deu espao
 sociedade de iniciao simo, de origem temne ou baga. Pouco a pouco, no
entanto, sua lngua se imps aos povos da costa. Nessa poca, os Baga e os Nalu
eram ainda bastante numerosos nos vales do Futa-Djalon, que s abandonaram
definitivamente no sculo XVIII, quando da djihd fulbe (peul).
    Camponeses e caadores, estabelecidos nas franjas do mundo sudans, alheios,
durante muito tempo, ao islamismo, os Sosoe viveram apartados at que dois fato-
res viessem romper seu isolamento trazendo rotas importantes de comrcio a seu
territrio: a irrupo dos Fulbe (Peul ) e a chegada dos portugueses  costa.
    Os Fulbe, pastores seminmades de lngua atlntico-ocidental muito pr-
xima do seereer, entraram na regio no sculo XV. Em meados desse sculo,
quando o Mali comeava a perder sua autoridade sobre o Sahel, grupos fulbe
(peul) deixaram o Futa (no leste da atual Repblica Islmica da Mauritnia)
para atravessar o alto Senegal e o Gmbia por um vau at hoje lembrado pela
tradio. Por volta de 1450, nos confins ocidentais do Futa-Djalon, Dulo Demba
atacou os Biafada, ainda vassalos do Mali. Um pouco mais tarde, o grupo de


8    Ver o captulo 7 deste volume.
352                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Temmala (Tenguella) instalou-se em terras jalonke na regio de Guema-Sanga.
Dali partiu, no final do sculo, para combater os Maninka do Kaabu e do Gm-
bia e depois, no comeo do sculo XVI, para conquistar o alto Senegal e o Futa-
Toro, onde Koly Tenguella fundou a dinastia dos Denianke.
    No fim do sculo XV a ligao do Futa-Djalon ao Imprio do "Grande Ful"
seria apenas simblica, no entanto, ao partir, os Denianke no levaram junto
todos os Fulbe. Estes criadores de gado, ento praticantes da religio tradicio-
nal, se instalam com seus rebanhos nos planaltos habitados pelos Sosoe e pelos
Jalonke. Por volta de 1560, unem-se aos Sosoe do Bena, nos confins de Serra
Leoa, para deter a invaso dos Mane, que acabavam de submeter os territrios
do sul. Contentam-se, no entanto, com sua posio marginal at o afluxo dos
muulmanos, que a eles se unem no fim do sculo XVII. Submetem ento os
Jalonke, cujo territrio conservou este nome, na guerra santa de Karamoxo Alfa,
que tem incio em 1727.
    A chegada dos portugueses, que sbito despertou o comrcio costeiro,
mudou o destino dos Sosoe. A partir do fim do sculo XV intensifica-se o
trfego de caravanas jaxanke (diakhanke), que atravessam a regio para ligar
as minas de ouro do alto Senegal (Bambuku) e do alto Nger (Burem) s
margens dos rios. Os Sosoe acompanham o movimento, rechaando os Baga
e os Temne em direo ao Rio Pongo e ao Bena, aonde chegaram em meados
do sculo XVI. Entre eles aparecero os primeiros ncleos de islamismo, mas
 somente no fim do sculo XVII e comeo do XVIII que iro sofrer, assim
como seus vizinhos do sul, profunda mutao cultural e social provocada pela
influncia sudanesa.

      A presso manden sobre o litoral  avano dos Maninka
   A frente florestal do alto Nger ao rio Sassandra  dominada por diversos
grupos propriamente Manden, como os Koranko ou os Maninka ao sul (Konya,
Mau). Nessa regio os Joola provavelmente estabeleceram, desde muito cedo,
uma rede de comrcio de nozes-de-cola, que inclua uma zona de corretagem,
onde se faziam contatos com os produtores das florestas, considerados "brbaros",
apesar de falarem o manden  como os Gura, Dan, Kpele e Loma (Toma)  ou o
mel  como os Kissi.
   A regio  bem afastada dos centros polticos do Mali, e no se sabe em que
medida e em que perodo o poder central realmente dominou. Embora sem
datas precisas, pode-se afirmar que lentamente se estabeleceu uma colonizao
de guerreiros, camponeses e comerciantes, que passaram a constituir o grosso da
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   353



populao, pela assimilao ou expulso dos povos autctones mencionados acima.
H indicaes de que os grandes movimentos de populao ocorreram nos sculos
XIV e XV9, perodo em que o recuo do Mali para o norte fazia que os esforos
se voltassem para o sul. O maior deles parece ter acontecido antes da descoberta
portuguesa, ou, ao menos, sem relao com ela. De qualquer modo, a forma pela
qual os Mane se referem ao Imprio do Mali sugere que os Konya, ainda que
teoricamente, reconheciam-lhe a autoridade em meados do sculo XVI.
    A leste do alto Nger, o estabelecimento dos Sankaran e dos Toran, em contato
com os Kissi e os Loma, data provavelmente do sculo XIV. Se  possvel compre-
ender a invaso mane, o estabelecimento dos Konya e dos Mau em Tuba, na Costa
do Marfim, apesar de mais recente, deve remontar ao menos ao final do sculo XV.
Deve-se enfatizar a importncia deste planalto, onde as condies so saudveis e
favorveis  criao de gado, pois  cercado de montanhas que dominam ao sul a
floresta tropical, a pouca distncia de Monrvia e de Freetown. Sua posio sugeriria
uma abertura para a costa to logo esta adquirisse importncia comercial. A regio
 povoada por cls Maninka sob o domnio dos cls Kamara e Diamande, cujo
legendrio ancestral, Feren-Kaman, rechaou ou assimilou os autctones Kpele.
Logo depois, essas terras elevadas atraram muitos cls Fulbe, especialmente no
sculo XVII, mas os novos imigrantes iriam adotar a lngua maninka. Estabelecidos
diante da frente florestal, os Manden tiveram de atravess-la pelo menos duas vezes
para alcanar a beira-mar, embora em circunstncias bem diferentes10.

     Os Kono e os Vai
    So Manden que se estabeleceram na zona de florestas de Serra Leoa e da
Libria antes da descoberta portuguesa, ou seja, por volta de 1460.  possvel que
tenham se instalado ali no sculo anterior, mas o fato de as lnguas kono e vai per-
manecerem prximas do maninka conta em favor de data relativamente recente.
    Em todo caso, foi a partir do alto Nger, sem dvida do Sankaran, que cls
maninka, dirigidos pelos Kamara e, portanto, como confirma a tradio, apa-
rentados aos que, em seguida, iriam se instalar no Konya, alcanaram o mar na
altura da zona fronteiria entre a Libria e Serra Leoa. Parte deles ficou pelo

9    Se tomarmos ao p da letra as genealogias, a data mais provvel corresponder  metade do sculo
     XVI, mas a comparao com os Keita do alto Nger prova que  estruturalmente impossvel, por esse
     procedimento, fazer remontar a histria dos Maninka a mais de quatro sculos. Os clculos baseados no
     nmero de geraes mostram apenas a durao mnima do perodo.
10   Esta dupla travessia me levou, em trabalho anterior (PERSON, 1961), a dividir incorretamente a invaso
     mane em duas. A primeira deu origem ao cl Massaquoi, e a segunda, ao cl Fahnbule, ambos dominantes,
     at hoje, entre os Vai (povo manden da Repblica da Libria).
354                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



caminho e veio a constituir o povo Kono, em planaltos salubres semelhantes ao
Konya11. Os outros, dirigidos, segundo a tradio, por Kamala, o Moo, Fango-
loma e Kiatamba, atingiram o mar na altura do lago Pisu (Robertsport), onde
formaram o povo Vai. Os portugueses, impressionados com a quantidade de suas
aves domsticas, chamaram-nos de "Galinhas". Estes antigos sudaneses adota-
ram a civilizao dos recm-chegados, mas parecem ter conservado estrutura
poltica bastante centralizada. Adaptaram-se bem rapidamente ao novo mundo
comercial criado pela chegada dos portugueses, apesar de que inicialmente sua
migrao sem dvida deve ter sido orientada pela busca do sal e pela pesca.
Logo iriam sofrer a invaso de outros sudaneses, os Mane, certamente de mesma
origem, mas estes no iriam abalar-lhes o equilbrio social.

      A invaso mane ou manden
   O segundo grande avano dos Manden em direo ao mar corresponde s
famosas invases dos Mane-Somba e Kwoja-Karu. H documentao imensa,
mas complexa, de qualidade varivel e frequentemente mal estudada a esse
respeito. Sua relao com a etnografia e a histria dos povos modernos ainda
no foi levantada, e os numerosos estudos existentes sobre estes fatos ainda no
permitem traar um quadro completo.
   A invaso mane  um desses grandes movimentos que de tempos em tempos
abalaram a histria de certas regies da frica, como o dos Jaga, meio sculo
mais tarde em Angola, ou o dos Zulu, no sculo XIX. Estes movimentos revo-
lucionaram mais as instituies e as relaes entre os homens do que o mapa
etnolingustico.  o caso da invaso mane, que, neste plano, teve papel menos
importante que a dos Vai, embora, sem dvida, tenha sido responsvel pela
expanso da lngua manden no sul e pela origem da etnia Loko. Mas sobretudo
contribuiu para difundir as instituies polticas centralizadas e para estender a
rede do comrcio sudans de longa distncia.
   No obstante alguns estudiosos, como o professor Hair, ainda paream duvi-
dar12, afigura-se evidente que a invaso mane foi desencadeada a princpio pelos
Manden familiarizados com o comrcio de longa distncia e com as rotas do
ouro do leste (aluso a uma guerra contra Elmina). Como seu movimento surgiu
mais de oitenta anos depois da descoberta portuguesa, pode-se admitir que o

11    Em manden, kono significa esperar. Segundo a tradio de Fandama (centro de tradies manden), assim
      foram chamados esses imigrantes porque ficaram esperando e, no tendo recebido nenhuma notcia da
      linha de frente, permaneceram nos planaltos de Serra Leoa.
12 HAIR, 1967.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   355



desejo de abrir uma rota comercial de ligao direta com a costa estivesse rela-
cionado com ela. Superiores na organizao poltica e militar, os invasores no
eram numerosos nem estavam habituados  floresta. S foram bem-sucedidos
porque mobilizaram progressivamente os vencidos, produzindo um efeito de
bola de neve, de tal modo que, em curto espao de tempo, eram uma nfima
minoria que avanava pela fora do movimento que haviam desencadeado.
Assim se explica a dualidade que, logo  primeira vista, causou surpresa aos
observadores portugueses.

    As ilhas do Cabo Verde
   As ilhas do Cabo Verde, com suas terras ridas e desertas, foram colonizadas
primeiramente em 1462 segundo o modelo da Madeira, mas em 1484 voltaram
ao domnio da coroa portuguesa. Desde o incio estabeleceu-se a capital em
Santiago, a ilha mais prxima da frica, onde residia o governador e, a partir




Figura 12.6 Comerciantes europeus em contato com os habitantes do Cayor em Cabo Verde. gua-forte.
(Fonte: Dapper, 1668.)
356                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 12.7   Habitaes dos negros.



de 1535, o bispo, cuja jurisdio se estendia  costa do continente, do Senegal
ao cabo Mesurado (Repblica da Libria).
   Em razo do clima, o arquiplago foi rapidamente povoado por maioria de
escravos comprados na Senegmbia e Guin. Mais tarde, em 1582, as duas ilhas
principais, Fogo e Santiago, contaro 1600 brancos, 400 negros livres e 13700
escravos. A economia das ilhas no sculo XVI baseava-se na criao de gado, na
cultura do algodo e na tecelagem atravs de tcnicas africanas. Logo, no mais
contentes com importar escravos para uso prprio, as ilhas passaram a export-los
para a Amrica. Enquanto So Tom e o Congo abasteciam o Brasil, as ilhas do
Cabo Verde, a partir dos anos 15301540, voltaram-se para a Amrica espanhola.
Pode-se estimar em 3 mil o nmero de escravos anualmente exportados da
regio, parte deles em troca de tecidos de algodo de Cabo Verde.




Figura 12.8   A cidade negra de Rufisco.
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim   357




Figura 12.9     Fetiches.




    A partir do momento em que entra em questo o comrcio com a costa conti-
nental e a Amrica,  preciso que se tenham em conta as caractersticas especficas
da colonizao portuguesa. Ela se baseava na ideia de um monoplio real do
comrcio, cedido a concessionrios por prazos e regies bem determinados.
A carta de 1466 garantia aos habitantes o direito ao comrcio com a "Guin
do Cabo Verde", ou seja, com a costa at o cabo Mesurado. Mas, em 1514, as
Ordenaes Manuelinas proibiram viajar  Guin sem licena e, mais ainda,
estabelecer-se ali.
    No incio do sculo XVI, a grande preocupao das autoridades portuguesas
era lutar contra seus emigrantes que se fixavam no continente, com a concordn-
cia dos soberanos africanos, e l se casavam e se impunham como intermedirios
comerciais. Eram os lanados (de lanar: lanar-se  aventura) ou tangomos (os
que adotaram os costumes locais)13. Em 1508 um decreto especial visou os que


13   BOULGUE, 1968.
358                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 12.10   O rei de Sestro (sculo XVII).




Figura 12.11   Fauna e flora da alta Guin. (Fonte das figs. 12.7 a 12.11: Barbot, 1740.)
Os povos da costa  primeiros contatos com os portugueses  de Casamance s lagunas da costa do Marfim      359



viviam em Serra Leoa. Foram considerados criminosos, e certamente muitos
eram pessoas marginalizadas, principalmente os cristos-novos, ou seja, judeus
convertidos  fora.


     Concluso
    Os pases da costa oferecem campo ainda virgem para a pesquisa. As fon-
tes escritas a partir do sculo XV devem-se aos navegadores portugueses, e
os arquivos de Lisboa acabam de ser abertos aos pesquisadores. Os trabalhos
da arqueologia mal comearam. O estudo de algumas tradies j mostra que
esta regio no viveu fechada sobre si mesma; o comrcio de nozes-de-cola e
de outros produtos da floresta logo atraiu os Manden, que estabeleceram s
margens da floresta poderosas comunidades de comrcio ou reinos, como o de
Kaabu e o de Konya. Muitos povos da costa, como os Nalu, os Baga e os Bulom,
so conhecidos por suas esculturas. Seu domnio da rizicultura fez daquela regio
verdadeiro celeiro para os povos da savana, cujos reis geralmente tinham boas
relaes com os chefes locais14.




14   Um provrbio maninka diz: "Quem quer azeite de dend e nozes-de-cola no entra em guerra contra o
     rei dos Kisi". Raramente os guerreiros da savana se aventuravam por essa regio; as florestas e os pntanos
     impediam as amplas manobras da cavalaria.
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                               361



                                      CAPTULO 13


           Das lagunas da Costa do Marfim
                     at o Volta
                                             Pierre Kipr




    O territrio
    Depois do cabo Palmas, a costa orienta-se nitidamente na direo sudoeste
nordeste, descrevendo um arco circular, que forma o golfo da Guin;  medida que
nos aproximamos do equador, a vegetao torna-se mais e mais densa, e a floresta
comea a predominar. Uma particularidade notvel  o aparecimento de lagunas
ao longo da costa. A regio costeira pode ser dividida em trs reas: 1) a leste
do cabo Palmas, at o rio Tano, h uma sequncia de lagunas1 paralelas  costa;
2) do Tano at a plancie de Acra, algumas colinas do a iluso de paisagem
acidentada (cabo Three Points); 3) nas proximidades da foz do Volta, a regio
assume aspecto rido; a floresta praticamente desaparece, para ceder lugar a uma
clareira com rvores esparsas.
    O clima predominante  o tropical, com pluviosidade elevada, atingindo a
mdia de 2000 mm por ano. H uma estao chuvosa de maro a julho, a que
se segue uma estao seca de agosto a setembro; depois, outra estao chuvosa
de outubro a novembro e, finalmente, uma estao seca de dezembro a maro.
A atmosfera est sempre carregada de pesada umidade, mesmo em estao seca.
A floresta exerce importante influncia sobre o conjunto da regio.

1   Elas so em nmero de doze  Noni, Tadio, Make, Ebrie, Aghien, Kodio-Bue, Ono, Potu, Ehi, Hebo,
    Tagba e Aby - e totalizam uma superfcie lquida de 2400 km2.
362                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      O problema das fontes
   S recentemente a regio despertou o interesse dos historiadores. Durante
muito tempo, sua ateno esteve voltada para as regies da savana e do Sahel,
mais ao norte, sede dos imprios cuja histria est repleta de fastos e de epopeias.
Os viajantes e historiadores muulmanos que se detiveram no Sudo, entre os
sculos X e XVI, no conheceram as reas florestais. Faltam, portanto, registros
escritos. Quanto  arqueologia, mal comea a prospeco. J as tradies so
abundantes, mas suscitam certo nmero de problemas.

      As fontes escritas
   Trata-se essencialmente dos relatos de viagem de navegadores portugueses
do sculo XV ao XVII; tais fontes s dizem respeito, portanto, ao final do per-
odo que ora nos ocupa. De 1471 a 1480, a regio que vai do cabo Palmas  foz do
Volta foi explorada pelos portugueses, que entraram em contato com as popu-
laes locais; j em 1481 comearam a construir o forte de So Jorge da Mina
(Elmina), que lhes garantiu o controle efetivo sobre o comrcio costeiro. Duas
fontes so essenciais: a obra do navegante Duarte Pacheco Pereira, que partici-
pou do reconhecimento da costa e escreveu, em 15051508, seu Esmeraldo de situ
orbis, no qual descreve a costa ocidental da frica, do Marrocos at o Gabo; e
a descrio da frica por O. Dapper. Este ltimo retoma o conjunto dos relatos
de viagem e apresenta uma sntese do que davam a conhecer sobre a frica no
sculo XVII2. Mas que informaes nos do estas fontes portuguesas?
   Elas descrevem certos povos da costa e apresentam alguns pormenores sobre
suas atividades. No cabo Palmas, Duarte Pacheco Pereira esteve em contato
com povos a quem chamou de Eguorebo, isto , os Grebo. Os rios que se lanam
no oceano so assinalados de maneira precisa; no Santo Andr, ou Sassandra,
observa os "harrari, ou arrozais". Mais a leste, o Rio Pedro pode ser identificado
como sendo o rio Tabu; o Rio Laguoa  o nosso Grande Lahu. Adiante do Rio
Laguoa, Duarte Pacheco Pereira observa "sete aldeias muito populosas", cujos
habitantes se revelam hostis aos navegadores. Trata-se dos Kru; "so gente m",
acrescenta o navegante3; at o Rio Mayo (rio Como), os estrangeiros so mal
acolhidos: "Ignoramos que comrcio essa regio possa ter, mas sabemos que 



2     PEREIRA, 1956; DAPPER, 1668.
3     PEREIRA, 1956, p. 119-21.
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                           363



muito populosa"4. Em Axim, os portugueses construram um fortim, de nome
Santo Antnio; pouco mais tarde, ergueram o forte de Elmina. A descoberta do
ouro na regio foi a causa desse estabelecimento acelerado. Para a construo do
forte, o rei de Portugal enviou nove navios carregados de pedras e de cal; o forte
foi construdo sob ameaa permanente dos habitantes, que, muito naturalmente,
se opunham ao empreendimento portugus. O rei de Portugal tinha encontrado
uma fonte de ouro, que pretendia explorar sozinho.
    Elmina tornou -se rapidamente centro comercial, atraindo muitos
mercadores:
    Esses mercadores pertencem a vrias naes, a saber: Bremus, Attis, Hacanys, Boroes,
    Mandinguas, Cacres, Anderses ou Souzos, e outras que deixo de nomear, para no
    me alongar excessivamente5.
    Nessa lista podemos identificar os Attie (Atchi), os Akan, os Bron (Abron)
e os Manden (Mandingo). O afluxo de mercadores na direo de Elmina com-
prova a importncia do comrcio; antes de chegarem os portugueses, os Manden
(Mandingo) eram os melhores clientes da "gente da floresta". Notemos ainda
que os Akan, os Attie e os Bron tinham interesse em tal comrcio porque, sem
a menor dvida, havia depsitos de ouro em suas terras.
    A maior parte desses povos do sculo XVI foi identificada; o territrio entre
o rio Bandama e o cabo Three Points tinha o nome de Costa das Presas (Mar-
fim) ou Costa dos Quaqu.
    A Costa do Ouro (atual Repblica de Gana) ia do cabo Three Points at o Volta;
os portugueses, em seus relatos, citam o nome de vrias aldeias. A de Sama, com
seus 500 habitantes,  apresentada como aldeia grande; os portos "Pequena Fante"
e "Grande Fante" nos situam em territrio fanti. Esta regio, com Elmina,
converteu-se em fins do sculo XV em importante mercado de ouro.
    Os portugueses deixaram, esparsas, indicaes preciosas sobre os costumes
locais, mas subsistem muitas lacunas por preencher para que se possa reconstituir
a vida desses povos no quadro das instituies por eles implantadas.

    As fontes arqueolgicas
   As pesquisas arqueolgicas comearam h pouco tempo; alguns stios foram
abertos na Repblica de Gana e na Repblica da Costa do Marfim, e os primeiros


4   Ibid., p. 121.
5   Ibid., p. 123.
364                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



resultados indicam que se podem esperar informaes valiosas, mesmo nas
regies em que a floresta parece impenetrvel. Ao norte, l onde a floresta se
limita com a savana, escavaes efetuadas no stio de Begho, em territrio bron,
indicam que muitos objetos culturais teriam vindo de Djenn6. As mesmas
escavaes atestam que havia relaes comerciais intensas com o vale do mdio
Nger, relaes que, segundo M. Posnansky, deviam ser antigas.
    Begho foi centro comercial de ligao entre a floresta e a savana  zona de
contato, na qual se instalara, alm dos Bron, importante colnia de Maninka
ou Jula. As escavaes realizadas a partir de 1970, especialmente na rea Nya-
rko, em Begho, parecem mostrar que esse stio comeou a existir por volta de
11007. Sabe-se ao certo que no sculo XIV Begho era um dos mais importan-
tes mercados de nozes-de-cola. Segundo M. Posnansky,  provvel que  mesma
poca a sociedade akan estivesse estruturada de modo a desempenhar o papel de
intermedirio entre os Manden (Mandingo) e a zona mais meridional de produo
de nozes-de-cola; tambm h evidncias do comrcio de ouro entre Begho e o
Mali. Esse ouro devia provir de regies situadas mais ao sul; as relaes com a
floresta intensificaram-se no sculo XIV, perodo de apogeu, em que a demanda
de ouro se tornou muito intensa.
    Do lado oeste, no territrio guro, a infiltrao mandingo comeara muito
antes dessa poca. O trfico de nozes-de-cola parece, pelo que se conhece hoje,
bem mais antigo do que se pensava; a linha do paralelo 8 N marca o contato
entre a savana e a floresta; ao longo dela se situava a maior parte dos centros
comerciais. Os materiais encontrados nas redondezas de Oda, na Repblica de
Gana, e em Sgui, na Repblica da Costa do Marfim, ainda no foram datados.
Em Sgui, trata-se de fossos de forma ovoide, semelhantes a stios de defesa,
com profundidade variando entre 4 e 6m. As escavaes ali realizadas revelaram
grandes quantidades de cermica8, mas no h certeza quanto  sua datao (ver
figs. 13.2 e 13.4). Faz-se necessrio tambm um estudo comparativo entre a cer-
mica desses stios e a de regies vizinhas; os atuais habitantes, os Ab (Abbey),
dizem que seus ancestrais j encontraram esses fossos assim, ignorando quem os
fez. As tradies sustentam que os Ab se instalaram nesse territrio pouco antes
da grande migrao akan do sculo XVIII9. Em todo caso, a existncia de tais
vestgios em plena floresta autoriza-nos a pensar que ainda se poder encontrar


6     POSNANSKY, 1974, p. 48
7     POSNANSKY, 1975b.
8     POLET, 1974, p. 28-44.
9     POSNANSKY, 1974, p. 46.
                                                                                                                 Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta
                                                                                                                 365
Figura 13.1   Mapa dos stios arqueolgicos na laguna Aby. (Fonte: Revista Godo-Godo, Abidj, (2): 123, 1976.)
366                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 13.2   Cachimbos descobertos no stio de Sgui (subprefeitura de Agboville).




Figura 13.3   Cachimbos descobertos na necrpole de Nyamw (uma das ilhas Eotile da Laguna Aby).
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                                       367




Figura 13.4    Bracelete descoberto no stio de Sgui (subprefeitura de Agboville).




Figura 13.5 Vasos descobertos na necrpole de Nyamw (uma das ilhas Eotile da laguna Aby). (Fotos das
figs. 13.2 a 13.15: Institut d'Histoire, d'Art et d'Archologie Africains d'Abidjan.)
368                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



material muito interessante; h um vazio a ser preenchido. Vimos, com base
nas fontes portuguesas, que a costa era ocupada por comunidades de pescadores
e de agricultores; a pesquisa deve concentrar-se decididamente na costa e em
direo  floresta, mais precisamente nos locais mencionados pelos navegantes.
   O Instituto de Arqueologia e Arte da Universidade de Abidj efetuou son-
dagens na zona das lagunas, mas a pesquisa depara com dificuldades srias nessa
rea de mangues, devido ao grande acmulo de folhas mortas. J se comeou,
porm, a estudar a laguna Aby, mediante sondagens em trs ilhas: Belibele,
Assoco, Nyamw (ver figo 13.1). A par dos concheiros do Neoltico, deixados
pelos primeiros ocupantes da costa10, encontra-se grande quantidade de restos
de cozinha; trs necrpoles foram parcialmente escavadas, e recolhidos ossos,
braceletes e prolas, nenhum ainda datado (ver figs. 13.3 e 13.5).
   Est provado, em todo caso, que existem stios interessantes s margens das
lagunas11.

      As fontes orais
   So abundantes, pois cada etnia conserva um mito de origem, ou uma epopeia, ou
um relato de migrao. A fragmentao tnica chega a extremos, pois se encontram
etnias com menos de 20 mil almas, distribudas em aldeias esparsas na floresta. As
fontes orais apresentam, portanto, srios problemas aos pesquisadores, havendo
algumas particularidades que  foroso destacar. Em primeiro lugar, a memria de
algumas etnias no remonta alm do sculo XVIII; em segundo, constatam-se fre-
quentes contaminaes entre grupos tnicos diferentes. Vrios grupos pretendem
que seus ancestrais tenham descido do cu; para uns, com a ajuda de uma corrente
de ouro, para outros, por uma corrente de ferro etc.; outros grupos afirmam que
seus ancestrais saram de um formigueiro, ou de um buraco. A contaminao 
evidente, ainda mais que certos cls consideram e tratam como "irmos" a outros
cls; os Avikam, por exemplo, afirmam que os Aladian so seus "irmos". Mas
a maior parte das etnias narra migraes efetuadas por seus ancestrais, recla-
mando uma origem exterior ao territrio que atualmente ocupam; tradies
muito difundidas dizem que os Adiukru vieram do oeste, em oito importantes
levas migratrias. Mas qual  seu territrio de origem? A que perodo remonta
a primeira migrao? Em que poca se completou tal movimento? Estas so
questes que no podem ser respondidas com uma pesquisa sucinta.


10    Cf. o captulo 16 do volume III.
11    POLET, 1976, p. 121-39.
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                          369



    Outras etnias, muito numerosas, reunidas sob o nome de Akan, situam sua
origem na regio da atual Repblica de Gana. J as tradies dos Akwapim
(Akwamu) localizam seu territrio de origem em Kong, ao norte, em plena
savana; da mesma forma, os Fanti da costa afirmam que seus ancestrais vieram
de Tenkyiman, no noroeste da Repblica de Gana. O problema no  simples,
portanto. Deve-se comear por efetuar uma coleta sistemtica, identificando e
localizando cada etnia; o concurso de vrias disciplinas revela-se necessrio para
que se possam distinguir traos culturais comuns e efetuar classificaes, pois est
claro que nenhuma etnia constitui uma entidade em si: todas esto relacionadas
a um conjunto mais amplo. Completado o trabalho de coleta e classificao, o
historiador pode ento reconstituir o passado recorrendo aos mtodos usuais
de sua disciplina. Aqui, mais do que nunca, faz-se necessria a colaborao de
linguistas, arquelogos, antroplogos e historiadores. Um exemplo encorajador
desse tipo de cooperao foi dado pelos pesquisadores da Universidade de Gana
e da Universidade Nacional da Costa do Marfim, que se traduziu no Colquio
de Bonduku, de 4 a 9 de janeiro de 1974, cujo tema foi "Os povos comuns a
Gana e  Costa do Marfim". Confrontando os dados fornecidos pela tradio
oral, pela arqueologia e pela antropologia, os pesquisadores ganenses e ebrneos
chegaram  concluso de que no apenas  possvel escrever a histria das etnias,
como ainda se pode discernir o processo pelo qual sua interao numa mesma
rea permitiu que produzissem uma cultura nova.
    Antes de encerrarmos estas linhas sobre as tradies orais, convm assinalar que
a fragmentao tnica de que falamos ocorreu entre os sculos XVII e XIX.
    Com efeito, as tradies parecem ser de pouca ajuda neste campo, uma vez
que so raras as que podem remontar a tempos anteriores ao sculo XVII. Con-
tudo os Akan, os Kru e os Bron j estavam instalados no sculo XV, poca em
que tambm j existia a aldeia de Acra. Um exemplo tpico  o dos Ndenyae.
Segundo suas tradies, eles foram conduzidos ao territrio que atualmente
ocupam por um ancestral de nome Ano Asena. Vinham da regio chamada
Anyanya, situada no leste de Gana.
    Ano Asena deu leis aos homens; antes dele [...] no havia rvore, no havia nada. 
    frente de Ano Asena, desceu uma bacia de cobre do cu, pendendo de uma corrente.
A tradio tambm afirma que foi Ano Asena quem ensinou a agricultura aos
homens, dando-lhes a banana e o inhame. Mas, efetuados a investigao e o con-
fronto de vrias tradies, evidenciou-se que Ano Asena viveu no sculo XVII.
370                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



Claude Perrot, que realizou estas pesquisas, descobriu na Europa documentos que
situam com preciso o ancestral dos Ndenyae no sculo XVII, por volta de 169012.
    Podamos ser tentados a localizar na mais remota antiguidade esse ancestral que
ensinou a agricultura aos homens. Mas o que se passou, na realidade? No final do
sculo XVII, uma guerra eclodiu no reino de Aowin, em Gana. Ano Asena, chefe
de cl, deixou o territrio com seus homens e foi instalar-se na regio de Assinie,
onde vivem atualmente os Ndenyae, que pertencem ao grande cl Akan. Nesse
novo territrio, o povo reconstruiu o mito antigo de origem em torno da figura de
Ano Asena, a quem foram dados todos os atributos de um ancestral mtico. Esse
remanejamento da tradio criou uma nova histria que o povo adotou, relegando
 noite dos tempos os acontecimentos que precederam sua migrao.
    Demos este exemplo para recomendar prudncia no manejo das tradies; 
interessante ver, no caso de Ano Asena, como o pesquisador consegue reconstituir
o passado, confrontando diversas fontes orais e escritas, e mesmo arqueolgicas13.
     precisamente pelo confronto dos diversos dados disponveis que tenta-
remos esboar, em suas linhas gerais, a histria desta regio, do sculo XII ao
XVI. Muitas lacunas permanecero, devido  documentao de que dispomos;
indicaremos, porm, as direes que ora se impem  pesquisa.


      Os povos da costa e do interior
    Tradicionalmente os povos da rea so divididos em dois grupos: os das
lagunas e florestas e os que vivem no interior (floresta rala e savana). Os pri-
meiros eram chamados paleonegrticos, devido  suposio de que se achavam
estabelecidos na floresta e na costa desde a pr-histria. Mas tal esquema no
resiste s novas descobertas da antropologia e da lingustica. Sabe-se hoje, com
efeito, que em sua maioria os povos das lagunas e os do interior pertencem ao
grupo de lngua kwa. Recordemos que os navegantes portugueses deram, a uma
parte da costa, o nome de "Costa dos Quaqu" (ver fig. 13.6)14.
    Num estudo notvel, intitulado "Who are the Akan?" (Quem so os Akan?)15, o
professor Adu Boahen, ao ressaltar os principais elementos da cultura akan, funda-se
nos estudos lingusticos mais recentes para afirmar a unidade lingustica dos povos

12    PERROT, 1974.
13    Ibid.
14    DAPPER, 1668, p. 290-306.
15    BOAHEN, 1974, p. 66-81, refuta as antigas teorias, segundo as quais os Akan so originrios da
      Mesopotmia, da Lbia ou da Gana antiga. Retomando as teorias lingusticas de J. H. Greenberg, o
      historiador ganense situa na regio Chade-Benue o territrio de origem dos Akan.
                                                        Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta
                                                        371
Figura 13.6   Mapa das migraes akan. (D. T. Niane.)
372                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



chamados "Akan" e refaz as etapas da migrao que os levou at sua localizao atual.
 o caso de recordar que os Akan constituem, atualmente, 45% da populao em
Gana e 33% na Costa do Marfim. Deles fazem parte as seguintes etnias: em Gana,
      "os Bono, os Ashanti, os Kwahu, os Akyem, os Akwapim, os Wasa, os Twifo, os
      Assinie, os Akwamu, os Buem, os Safwi, os Aowin, os Nzima, os Ahanta, os Fanti,
      os Gomua e os Azona; na Costa do Marfim dizem-se Akan os Abron (Bron), os
      Anyi (Agni), os Sanwi, os Baule, os Attie, os Ab, os Abidji, os Adiukran, os Ebrie,
      os Ega (Dra), os Eotile, os Abure, os Agwa, os Avikam e os Aladian"16.
    Os Akan formam, portanto, vasto grupo lingustico; no perodo que ora
estudamos, provavelmente ainda no havia ocorrido a fragmentao deles nos
diferentes grupos, embora j estivessem definidos certos dialetos.
    Os povos das lagunas e os Akan pertenceriam ao grupo kwa: uns e outros
integram a famlia lingustica Volta-Como. Os antepassados dos povos que
falam kwa teriam vindo do Chade-Benue por etapas17; passando pelo Nger
inferior, atravessaram o atual Benin e o Togo at chegar s lagunas. Ali teriam
criado as instituies que hoje os governam. Do Adansi numerosos migrantes
partiram para o oeste, onde se mesclaram com os povos das lagunas, dando
origem aos Baule, aos Nzima, aos Safwi e aos Anyi (Agni)18.
    Em sntese, devemos destacar trs centros de povoamento (ou de disperso):
a regio Chade-Benue, territrio de origem; a regio das lagunas, de onde par-
tiram os Akan da atual Repblica de Gana; e o Adansi, onde se originou a
ltima leva, que povoou o oeste (atual Repblica da Costa do Marfim).
    A arqueologia d pouca informao acerca desses movimentos populacionais;
mas vimos que j em 1300, na regio de Begho, os Akan (frao Bron) esta-
vam organizados em comunidades bem estruturadas para o comrcio de ouro e
nozes-de-cola com os Mandingo19.

      Os povos das lagunas
   Quando esses povos chegaram s lagunas? Provavelmente muito antes do
sculo XII20. Vimos que os portugueses entraram em contato com os Kru, os
Fanti e outras populaes costeiras. No sculo XV, os Kru formavam comuni-

16    BOAHEN, 1974, p. 66.
17    STEWART, 1966.
18    BOAHEN, 1974, p. 76-81.
19    Concordando com M. Posnansky, A. A. Boahen considera que foi entre os anos 1000 e 1500 que os
      Akan desenvolveram as estruturas fundamentais de sua sociedade.
20    Cf. o captulo 9 do volume III.
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                                          373



dades organizadas por grupos de linhagem, independentes umas das outras. "Os
negros desta costa so exmios pescadores e tm pirogas com castelo de proa e
usam manteletes como velas"21. Os Kru, como se sabe, so at hoje excelentes
marinheiros. Os portugueses observaram que a costa era densamente povoada e
contava grandes aldeias. Assinalaram que os habitantes de "Pequena Fante", de
"Sabu" e da "Grande Fante" falavam a mesma lngua que os povos de Elmina. Mas
as comunidades eram independentes; os relatos dos navegadores informam-nos
que os chefes eram, acima de tudo, chefes religiosos22. O grupo Kru, que domina
as regies ocidentais, conseguiu manter sua organizao por grupos de linhagem
graas  proteo eficaz que lhe reservavam as lagunas e a floresta.
    Ainda atravs dos portugueses, sabemos que os povos das lagunas manti-
nham relaes comerciais com os povos do interior; as populaes do Rio Lahu
vendiam sal a populaes do interior, com as quais mantinham "grande comr-
cio de roupas". Todas as evidncias nos mostram que os povos das lagunas no
estavam isolados dos vizinhos das florestas prximas ou da savana; entre eles
havia troca de sal, peixe, tecidos, ouro e cobre.
    Concluindo, ao findar o sculo XV, os povos das lagunas viviam em comuni-
dades organizadas por grupos de linhagem, sob a autoridade de patriarcas, cujo
poder era mais religioso que poltico. Dos Kru, segundo o professor M. F. Harris,
"originaram-se os Aisi (de Abra, Nigui e Tiagha), os Adiukru (Bubury e Dibrimon)
e os Ebrie-Abia" 23. Mas, dado o atual estgio dos nossos conhecimentos, parece
difcil afirmar quando tais ramificaes ocorreram e em que condies.
    Assim, ao comear o sculo XVI, uma parte do grupo Akan ocidental,
principalmente os habitantes das margens das lagunas, era organizada por
grupos de linhagem razoavelmente distintos. Muito pouco sabemos a res-
peito de suas instituies; os chefes, porm, j manifestavam clara tendncia
a afirmar seu poder poltico.

     As origens da sociedade akan
    Vimos que os Akan, na verdade, compem a populao bsica dessa regio,
j que os povos das lagunas constituem seu tronco mais antigo24.



21   DAPPER, 1668, p. 302-4.
22   DAPPER, ibid., p. 304, menciona um rei temido em toda a costa devido a seus poderes mgicos.
23   HARRIS, 1974, p. 135.
24   BOAHEN, 1974, p. 72-3.
                                                                                          374
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Figura 13.7   Mapa da rea entre o vale do Nger e o golfo da Guin. (Posnansky, 1974.)
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                           375



   A relativa homogeneidade antropolgica que se constata na regio da floresta
deve-se, segundo o professor M. F. Harris, ao fato de que
     "originalmente trs troncos produziram aquelas populaes, que vieram a se mesclar.
     Do tronco akan, o mais fecundo, cujo principal epicentro est em Gana, provm,
     alm dos Anyi (Agni), os Baule, os Akye, os Abure, os Mabto, os Ab, os Aladian,
     os Nzima, os Ebrie, os Adiukru, os Akradio e os Akan". Menciona o tronco kru, que
     j citamos, e, por fim, os "povos que se estabeleceram em tempos antigos, como os
     Ewotire, os Agwa, os Kimpa etc."25.
    O problema est em situar no tempo a separao desses diferentes subgrupos
do tronco materno. Tambm resta saber se o desenvolvimento das instituies e
dos principais elementos da cultura akan oriental (Gana)  anterior ao sculo XV.
    Em seu estudo sobre a sociedade akan, M. Posnansky postula ser o sculo XVII
o ponto de virada; os novos elementos de cermica encontrados tanto ao longo da
costa como na floresta atestam notvel evoluo. Algumas terracotas apresentam
elementos decorativos antropomrficos ou temas animais26. O trabalho do cobre
e do ouro  muito antigo, embora a arqueologia no tenha descoberto nenhum
objeto dos sculos XIV e XV nos Estados bron, cujo incio se pode situar no sculo
XV. Os objetos culturais encontrados no curso de escavaes devem ser analisados
 luz dos dados da tradio, da antropologia e de outras disciplinas.
    Para que se preencham as lacunas entre o sculo XV, data em que chega-
ram os portugueses, e o XVII, que marca a expanso dos reinos akan,  preciso
recolher mais informaes junto aos guardies da tradio oral; posteriormente,
as escavaes poderiam tambm revelar elementos novos da cultura material
desses povos. Contudo  razovel supor que, no incio do sculo XV, comea-
vam a desenvolver-se reinos akan tanto na costa como no interior: na costa, os
reinos de Asebu, Fetu, Aguafo e Fanti, embora ainda apresentassem dimenses
modestas no final do sculo, j estavam organizados para o trabalho e o comrcio
do ouro; no interior, Begho era a capital de um reino bron muito voltado para
o comrcio com os Mandingo.

     Os fundamentos da sociedade akan
   Os Akan orientais so universalmente considerados como responsveis pela
elaborao dos elementos culturais que ora nos interessam. As guerras dos sculos


25   HARRIS, 1974, p. 135.
26   POSNANSKY, 1974, p. 46-8.
376                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



XVII e XVIII provocaram movimentos migratrios dirigidos para oeste, e vrios
grupos levaram consigo seus traos culturais essenciais, a saber:

    1) uma lngua comum com numerosas variedades dialetais. (Por ocasio do
Colquio de Bonduku, o professor C. Wondji assinalou que a partir daquele
momento os pesquisadores deveriam reservar o termo akan ao "domnio pol-
tico" e empregariam o termo twi para designar o grupo lingustico pertencente
 famlia kwa27);
    2) o sistema matrilinear de sucesso no poder (do tio ao sobrinho pelo lado
materno);
    3) o sistema de denominao das crianas. (Do-se dois nomes  criana: o
do dia da semana em que nasceu, mais outro, que  escolhido no cl paterno);
    4) o calendrio akan, cujo ms tem 42 dias, e que parece resultar da combi-
nao do calendrio akan original, com semana de seis dias, e do muulmano, no
qual a semana tem sete dias. Mas continua havendo muita controvrsia quanto
 origem de tal calendrio28. Segundo Niangoran-Boah, tratar-se-ia de "ms
ritual com um nmero bem definido de dias.  em funo de tal ms que as
populaes das provncias organizam suas atividades religiosas"29.

   A msica dos Akan e suas danas so as mesmas para todos; os festivais e
outras festas coincidem com a colheita do inhame.
   Todo Akan pertence a dois cls, um matrilinear e outro patrilinear. So oito
os cls matrilineares e doze os patrilineares. Na cosmogonia akan, segundo o
professor Adu Boahen, os dois cls so complementares; o cl matrilinear  tido
como o que d o sangue, enquanto o patrilinear, como o que determina o carter,
o esprito e a alma da pessoa30.
   O mundo akan reconhece-se, ento, com facilidade, graas a esses traos
culturais que modelaram os homens. O Estado akan  fortemente centralizado.
Cada Estado compreende um nmero varivel de cidades e vilas, sob a autori-
dade de um rei e de uma rainha.
   Cada Estado akan possui seu panteo, sendo o sacerdote muito escutado pelo rei.
Tambm  de se notar a presena da rainha ao lado do rei, nas solenidades da corte31.


27    WONDJI, 1974, p. 680.
28    GOODY, 1966.
29    NIANGORAN-BOAH, 1967, p. 9-26, apud BOAHEN, 1974, p. 69.
30    BOAHEN, 1974, p. 70-1.
31    DIABAT, H., 1974, p. 178-80.
Das lagunas da Costa do Marfim at o Volta                                     377



De incio, explica H. Diabat, a rainha detinha o poder; parece que foi somente ao
se constiturem os reinos que os homens tomaram o poder, a cujo exerccio, porm,
mantiveram associada a rainha. Provavelmente, nos sculos XIV e XV, quando
os cls viviam "em ncleos isolados, independentes, sem precisarem de um chefe
comum"32, aceitavam uma rainha  sua frente; mas, quando necessitaram combater
com maior frequncia, quer para sobreviverem quer para se expandirem, preferiram
ter um dirigente sempre pronto para a guerra 33. Podemos concluir que os reinos
akan se estruturaram na passagem do sculo XVI para o XVII. As necessidades de
defesa fizeram que o papel da rainha fosse reforado pela presena de um chefe
militar que com ela partilhasse o poder; o aparecimento do rei marca, portanto, a
passagem da sociedade organizada por grupos de linhagem a reino. Desde ento, o
rei passou a ter papel mais poltico que ritual.


     Concluso
    A regio das lagunas viu desenvolverem-se, do sculo XII ao XV, comunidades
organizadas por grupos de linhagem, independentes entre si. J se iniciara uma
relativa diviso social do trabalho; os Kru provavelmente pescavam peixe em
grande quantidade para poder vender o excedente a seus vizinhos; uma corrente
comercial seguia da costa para o norte. Os povos da costa vendiam sal e alguns
tecidos especiais. O ouro exercia muita atrao sobre os Mandingo, que desde
muito tempo praticavam o trfico de nozes-de-cola; aps 1500, transpondo Begho,
atravessaram o territrio bron, chegando a Elmina, onde entraro novamente em
contato com os portugueses, a quem j conheciam da Senegmbia. Antes da che-
gada dos portugueses, no final do sculo XV, os povos akan constituam a maioria
da populao e haviam criado reinos e cidades-Estado.




32   RATTRAY, 1929, p. 81.
33   DIABAT, H., 1974, p. 185.
Do rio Volta aos Camares                                                    379



                                CAPTULO 14


                   Do rio Volta aos Camares
                            Allan Frederick Charles Ryder




    Ecologia e lingustica
   H oito sculos, a orla martima da regio situada entre o rio Volta e os
Camares no tinha aspecto muito diferente do que tem hoje. Mais para o
interior, todavia, os pntanos de gua doce que cobrem a maior parte do delta
do Nger e tambm os cintures de florestas pluviais estavam menos afetados
pela colonizao intensiva. Desde essa poca, as derrubadas de rvores e as
queimadas realizadas na estao seca converteram quase metade da floresta
original numa savana secundria. Nas atuais Repblica do Togo e Repblica
Popular de Benin, onde a rea ocupada por florestas era menor que na atual
Repblica Federal da Nigria, a queimada anual da vegetao virtualmente
destruiu a floresta primitiva. Tambm ao leste do Nger, a agricultura eliminou
centenas de quilmetros quadrados da floresta pluvial original, substituindo-a
por dendezeiros (ver fig. 14.1).
   A derrubada da floresta primria teve incio h milhares de anos, quando
as populaes negras se instalaram pela primeira vez na regio. Acelerou-se
sensivelmente com a difuso das tcnicas de emprego do ferro, que favoreceu a
passagem de uma economia de caa e coleta para uma economia agrcola. No
sculo V da era crist, j se utilizava o ferro em quase toda a zona florestal, o que
resultou num aumento considervel da densidade da populao. Essas tradies
380                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



so particularmente fortes entre os Yoruba  que, historicamente, talvez consti-
tuam o grupo mais importante de toda a rea , embora a anlise dialetal de sua
lngua indique que a migrao desse povo se orientou da floresta para a savana.
H, pois, contradio evidente entre a anlise lingustica e as tradies histricas.
Levantou-se a hiptese de que essa contradio se explicaria pela movimentao
de populaes secundrias da floresta para a savana e vice-versa.
    Trs grupos principais de dialetos yoruba foram identificados1. Dois parecem
apresentar caractersticas de maior antiguidade e, portanto, de estabelecimento
anterior: o central (que compreende as reas de Ife, Ijesha e Ekiti) e o do sudeste
(que compreende as reas de Ondo, Owo, Ikare, Ilage e Ijebu). No sculo XII,
todos esses territrios se localizavam dentro da zona florestal. O terceiro grupo
cujos dialetos eram falados pelos habitantes de Oyo, Osun, Ibad e parte seten-
trional da rea de Egba, formava o grupo do noroeste, associado historicamente
ao Imprio de Oyo, e parece ser menos antigo que os outros. Essa anlise 
confirmada pelo mito de Ife, que situa a criao da Terra em Ile-Ife, enquanto
o mito de Oyo, recolhido por Samuel Johnson, no final do sculo XIX, postula
as origens dos Yoruba em migrao vinda do leste2.
    Uma anlise semelhante da lngua edo mostra que seus vrios dialetos podem
ser reunidos em dois grupos, um setentrional e outro meridional, sendo que
o ltimo comporta o dialeto do reino de Benin, o mais evoludo nos planos
poltico e cultural. No entanto, no se determinou at hoje se essa diviso cor-
responde a uma sequncia histrica de fixao e disperso3. Faz-se necessrio
um estudo sistemtico dialetal da lngua igbo, mas h uma hiptese de que a
populao Ibo se teria expandido para norte, nordeste, oeste e sul a partir do
lugar de origem, supostamente perto de Owerri-Umuahia4.
    Foram encontrados vestgios de migraes dos Ijaw (Ijo) na parte central do
delta do Nger e imediaes. Em resumo, os indcios de que dispomos atualmente
levam a crer que a maior parte das populaes importantes para a evoluo his-
trica dos ltimos milnios provinha das zonas florestais.
    No incio do perodo ora estudado, as lnguas faladas na regio certamente
no haviam assumido suas formas atuais, nem se distribuam segundo o padro
atual. Formalmente,  provvel que fossem mais prximas entre si do que hoje
em dia; o mtodo glotocronolgico, segundo o qual as principais lnguas kwa

1     ADETUGBO, 1973.
2     JOHNSON, S., 1921.
3     ELUGBE, 1974 .
4     OTTENBERG, 1961.
                                                                                                          Do rio Volta aos Camares
Figura 14.1   Mapa da regio entre o Volta e os Camares no perodo de +1100 a +1500. (A. F. C. Ryder.)




                                                                                                          381
382                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



foram formadas com muitos milnios de distncia, est amplamente desacredi-
tado.  provvel tambm que essas lnguas fossem mais numerosas, pois grande
nmero delas, sem dvida, desapareceu, suplantado pela expanso de grupos
lingusticos mais vigorosos e bem-sucedidos. Em apoio dessa hiptese pode-se
indicar o fato de que, em reas pouco acessveis, vrias lnguas  cada uma delas
falada em apenas uma ou duas aldeias  parecem ter sobrevivido em meio ao
avano dos Yoruba e dos Edo5. Acontecimentos decisivos ocorreram entre + 1100 e
+ 1500, como consequncia da expanso de alguns grupos, que impuseram sua supre-
macia lingustica, e s vezes poltica, a vastos territrios, anteriormente ocupados por
populaes mais fracas ou at desabitados. O exemplo mais impressionante dessa
expanso foi a formao de Estados territoriais importantes como os de Oyo,
Benin e Ife, mas nem sempre foi isso o que aconteceu; a disperso dos Ibo, por
exemplo, no levou  constituio de um grande Estado ibo, mas a uma srie de
povoaes independentes, organizadas por grupos de linhagem (ver fig. 14.2).


      As sociedades baseadas em grupos de linhagem
    Esse  o nome dado s sociedades onde no h poder centralizado, nas quais
os cls ou as linhagens vivem lado a lado, em completa independncia. A autori-
dade do patriarca ou chefe do grupo de linhagem no era absoluta, e cada grupo
explorava rea mais ou menos vasta do territrio. Algumas tcnicas agrcolas
eram rudimentares e a procura de bons solos provocava migraes.
    No perodo aqui abordado, nota-se um crescimento da populao associado
ao progresso tcnico e ao surgimento de regime alimentar mais rico. Por isso, no
se pode dissociar a cultura intensiva do inhame e a abundncia de dendezeiros
do estabelecimento macio dos lbo na floresta a leste do Nger. Em certos pontos
do territrio Ibo, as derrubadas chegaram a provocar a devastao da floresta6.
Essa expanso tambm teve como resultado a explorao mais intensiva do solo
e o surgimento de grandes aglomeraes em aldeias. Sem que se possa explicar
como, dessas aldeias originaram-se Estados, cidades bem estruturadas, com uma
autoridade poltica bem individualizada.
    Entre os Ibo, muitas linhagens mantiveram-se independentes, contrastando
com outras sociedades, onde o grupo de linhagem era dirigido por um poder


5     Comunicao pessoal do Doutor Carl Hoffman, do Departamento de Lingustica e Lnguas Nigerianas da
      Universidade de Ibad. A natureza e afinidades internas desse grupo de lnguas so ainda mal conhecidas.
6     ALAGOA, 1972, p. 189-90.
                                                                      Do rio Volta aos Camares
                                                                      383
Figura 14.2   Mapa das populaes do delta do Nger. (D. T. Niane.)
384                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



central  um rei com corte e funcionrios. Pode-se, portanto, distinguir as socie-
dades baseadas em grupos de linhagem das cidades-Estado e dos reinos, cujo
poder poltico era mais elaborado. A forma de sociedade mais comum  a "comu-
nidade dispersa, definida por territrio", resultado de uma conjuntura em que
a reserva de terras perifricas disponveis para uma populao em expanso 
insuficiente; para se fixarem em novas terras, alguns grupos precisam separar-se
dos parentes mais prximos e solicit-las a outros grupos, com os quais tm poucos
ou nenhum lao de parentesco.
    Na floresta encontram-se, ao lado de reinos e cidades, muitos grupos de linha-
gem que mantiveram sua independncia e que vivem sob a autoridade  mais
ritual do que poltica  dos patriarcas. Talvez os Akposo da Repblica do Togo
tenham conseguido preservar sua organizao por grupos de linhagem graas ao
terreno acidentado onde vivem. Mas a maioria dos povos se viu constrangida a
abandonar essa forma de organizao e a fundir linhagens vizinhas em comunida-
des mais vastas, do tipo de aldeias, para formar um sistema de defesa eficaz contra
seus inimigos. s vezes o inimigo era a populao autctone, lutando para prote-
ger seu territrio dos invasores. As tradies ife relativas a um longo conflito, em
tempos remotos, com os Igbo7 podem se referir a uma situao similar. Os Owo
tm uma lenda semelhante, de luta contra um povo conhecido como os "Efene".
No entanto, a defesa no foi a nica razo para o surgimento de comunidades
reunidas em aldeias em oposio  forma dispersa de ocupao.
    Por exemplo: a parte dos Ijaw (Ijo) que migrou do delta de gua doce para a
regio de pntanos salgados foi, consequentemente, forada a trocar sua economia
baseada na agricultura e na pesca por outra, baseada na pesca em gua salgada e
na produo de sal por ebulio. Em seu ambiente anterior, os Ijaw (Ijo) viviam
em grupos autnomos, governados por uma assembleia de todos os adultos do
sexo masculino, presidida pelo decano. Na nova aldeia de pescadores, composta de
vrias linhagens sem laos de parentesco e em competio com outras aldeias pela
ocupao de terras insuficientes, a idade deixou de ser critrio para o exerccio da
autoridade e foi substituda pela competncia pessoal e pelo fato de se pertencer
 linhagem dominante, geralmente a do ancestral fundador.
    Alm de propiciar o surgimento de novas formas de organizao, a aldeia
favoreceu o surgimento de instituies que se contrapunham  afiliao a linha-
gens. As mais comuns eram as classes de idade e as sociedades secretas. As pri-
meiras reuniam os homens e, bem mais raramente, as mulheres, em grupos etrios


7     No se deve confundir os Igbo da lenda de Ife com os Ibo que vivem atualmente na Nigria oriental.
Do rio Volta aos Camares                                                                                   385



que serviam ao conjunto comunitrio da aldeia. Os habitantes de sexo masculino
eram divididos basicamente em dois grupos: os jovens e os mais velhos. Por
vezes, havia um sistema trplice, no qual se distinguia, alm dos jovens e adultos
maduros (que constituam as foras combatentes da aldeia), o grupo dos mais
velhos, que formavam o conselho de governo. As cerimnias de iniciao, que
precediam a entrada em cada classe etria, permitiam afirmar a solidariedade em
nvel de aldeia, em contraste com a solidariedade em nvel de linhagem; tambm
contriburam bastante para libertar os membros das sociedades secretas de seus
vnculos familiares, levando-os a privilegiar a fidelidade ao corpo social8.
    Assim como a felicidade do grupo familiar era  acreditava-se  garantida
pelos espritos dos antepassados, a quem o decano da linhagem rendia homena-
gem em nome de sua famlia, tambm o chefe da aldeia mantinha relaes pri-
vilegiadas com as foras espirituais que poderiam trazer o bem ou o mal a toda
a comunidade. Os cultos de Ama-teme-suo e Amakiri, entre os Ijaw, ilustram
bem como se deu a emergncia de conceitos religiosos especificamente relacio-
nados  comunidade. O de Ama-teme-suo  particularmente impressionante,
pois encarna "a verdadeira essncia e a alma da prpria comunidade, e pode-se
dizer que dele dependia o destino da aldeia"9.
    A aldeia, como estrutura social, era comum no sculo XIII? O fato de os Esta-
dos territoriais mais antigos de que temos algum conhecimento terem se formado
por volta dessa poca atesta que, pelo menos em certas regies, principalmente na
floresta seca, as aldeias j estavam bem estabelecidas. As evidncias arqueolgicas,
atualmente, no ajudaram a encontrar uma resposta categrica para a questo, pois
quase nunca existem meios para determinar se um depsito antigo provm de uma
aldeia ou de colnias dispersas. Da no se poder afirmar que tipo de ocupao do
solo produziu o carvo vegetal extrado dos poos de Ile-Ife, que a datao pelo
carbono-14 situa entre +560 e +980. H a mesma incerteza quanto ao stio de
Yelwa, s margens do Nger, cujos depsitos arqueolgicos indicam uma ocupao
prolongada, desde + 100 at + 700. Somente pesquisas minuciosas e extensivas
em vastas reas poderiam demonstrar inequivocamente a existncia de aldeias e
determinar a poca de sua formao10. O problema tambm poderia ser abordado


8    As classes etrias e sociedades secretas existem na maioria das sociedades africanas, do Senegal  Zmbia,
     incluindo a Nigria e os Camares. As classes de idade so a estrutura ideal para o trabalho coletivo,
     como a caa e a aradura.
9    ALAGOA, 1972, p. 200.
10   O material usado para a construo de habitaes foi, a princpio, a madeira e o bambu; por volta de +900,
     provavelmente, empregava-se a terra batida (ou banco). Nas clareiras e savanas, as aldeias multiplicaram-se
     rapidamente, em meio a uma rede de trilhas e vias de comunicao.
386                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



atravs do estudo cuidadoso das tradies relativas s origens, s migraes e s
instituies religiosas, sociais e polticas. Pesquisas desse tipo entre os Ijaw per-
mitiram retraar a disperso desse povo pelo delta do Nger e demonstrar que
ela comeou, com relativa certeza, o mais tardar no final do sculo XII. Tambm
podemos atribuir a esse mesmo perodo a introduo de povoamentos do tipo de
aldeias entre os Ijaw, pois, como se mencionou anteriormente, foi a disperso no
novo ambiente que deu origem  nova estrutura poltica.
    Se as evidncias arqueolgicas no permitem estabelecer distino entre uma
ocupao agrcola dispersa e uma aldeia, no primeiro milnio da era crist, 
ainda mais difcil afirmar a existncia de unidades polticas mais importantes
que a aldeia nessa poca. , no entanto, razovel supor que elas existissem, no
sendo necessrio procurar influncias externas, nem mesmo sudanesas, para
explicar a transformao de uma aldeia em cidade-Estado na regio de florestas
da Africa ocidental. O modelo proposto por R. Horton para descrever a trans-
formao de uma comunidade organizada por grupos de linhagem em uma
aldeia compacta mostra como, no decorrer do processo, os primeiros rgos de
um "Estado" podem comear a aparecer por adaptao interna11. A liderana
perde seu carter transitrio, as linhagens fundadoras adquirem maior autori-
dade, assiste-se ao surgimento de instituies com um esprito comunitrio, e
no mais familiar, e os princpios de integrao poltica, baseados na residncia
e legislao comuns, tornam-se fundamentos do princpio de soberania.


      Reinos e cidades
    Uma vez estabilizada, a aldeia crescia rapidamente, se o solo fosse frtil,
tornando-se uma comunidade importante; a partir de ento, fazia-se necessrio
montar uma organizao militar eficaz.  bem provvel que, mesmo nas regies
florestais, as rotas e os intercmbios comerciais tenham sido importantes para o
desenvolvimento das cidades. Uma vez constituda, a cidade se tornava um cen-
tro econmico ativo, que atraa comerciantes. Tudo leva a crer que as cidades se
formaram num clima de rivalidade, quando no de hostilidade. As mais comba-
tivas aumentaram seu territrio absorvendo outras cidades e outros territrios.
No entanto, a floresta, alm de frear o expansionismo, contribuiu para limitar os
domnios da cidade; poucas foram as que tiveram um raio de ao para alm de



11    HORTON, 1971.
Do rio Volta aos Camares                                                                             387



60 km da capital; as que ultrapassaram esse limite, dependiam de "vassalos" ou de
chefes de linhagem.
    Nossa insistncia em sublinhar a origem autctone do Estado da regio flores-
tal no deve ser interpretada como a negao de qualquer influncia externa. Um
Estado pode ter-se inspirado em alguma prestigiosa fonte exterior para elementos
de seu fausto e cerimonial, ou mesmo para tomar de emprstimo um chefe. Nos
Estados da regio florestal h alguns exemplos cuja autenticidade  inquestionvel;
o emprego generalizado de espadas cerimoniais e de ttulos de chefaria do Beni 
um entre tantos outros. Assim, no h razo para supor que esse tipo de intercmbio
no ocorresse entre os Estados da regio florestal e os da savana.
    Na poca em que Gana dominava o Sudo ocidental, certamente j existiam
relaes comerciais com os pases da floresta. Essas permutas entre a floresta e a
savana tambm podem ter favorecido o intercmbio de traos culturais e institui-
es entre as duas regies. Nos sculos XII e XIII, a expanso dos povos da savana
na direo da floresta  atestada pela amplitude do comrcio de nozes-de-cola,
ouro e cobre. Os Manden (Mandinga ou Wangara) e os Haussa logo entraram em
contato com os povos da floresta, estabelecendo relaes de guerra e comerciais12.
    Um exemplo de evoluo para Estado sem qualquer influncia exterior per-
ceptvel pode ser encontrado na transformao da aldeia autnoma dos Ijaw
em comunidade com caractersticas de um Estado. Nas aldeias de pescadores,
na parte oriental do delta do Nger, os chefes adotaram o ttulo eloquente de
amanyamabo ("proprietrio da aldeia"). A necessidade de trocar seu peixe e seu
sal por alimentos que no podiam cultivar, estimulou o comrcio dessas aldeias
com os Ijaw e os Ibo do interior. Esse comrcio, por sua vez, reforou a auto-
ridade das instituies estatais; a aldeia cresceu, transformou-se numa cidade,
cujo chefe tornou-se rei ou "proprietrio da cidade".


     Os Yoruba
   O conjunto de Estados que agrupava os povos de lngua yoruba era o mais
importante da regio, pois estendia-se do Atakpame, a oeste, at Owo, a leste;
de Ijebu e Ode Itsekiri, ao sul, at Oyo, ao norte. Suas origens so mais obscuras
que as dos Estados ijaw, pois o prestgio de dois Estados yoruba  Ife e Oyo 
impregnou as tradies dos outros. Sugeriu-se, por exemplo, que a reivindicao


12    praticamente certo que, j nos sculos IX e X, o cobre de Takedda chegava a Ife e Benin, assim como
     a Igbo-Ikwu.
388                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



dos Popo (Gun) de serem descendentes dos Ife teria origem no sculo XVII,
quando seu territrio foi conquistado pelos Oyo, e tornou-se importante para
os conquistadores estabelecerem o vnculo com os Ife, para justificar seu dom-
nio sobre um povo "yoruba"13.  claro que todas as afirmaes tanto de povos
quanto de dinastias que pretendem descender dos Ife devem ser encaradas com
cautela. Mais uma vez,  instrutivo voltarmos aos Estados ijaw, dos quais muitos
pretendem ser originrios do Benin. A este respeito, escreveu-se:
      A pretenso de derivar sua ascendncia do Benin e de outras regies mais distantes
      reflete, de fato, uma atitude singular dos Ijaw em relao s origens, isto , pro-
      fundo preconceito contra indivduos e grupos que no conhecem seus antepassados.
      Assim, um grupo que no mais se lembra do local de origem tende a escolher um
      que era considerado poderoso, antigo e distante o suficiente para no ameaar sua
      autonomia14.
    Esse gosto pela ascendncia no , com certeza, peculiaridade dos Ijaw; os
Yoruba e muitos outros povos que reivindicam origem ife inspiram-se, prova-
velmente, em consideraes do mesmo tipo. Em alguns lugares, a investidura
de um dirigente proveniente de Ife, ou mesmo de outro Estado yoruba, parece
ter levado toda a populao a pretender ascendncia ife15.
    Admitindo-se que o bero dos Yoruba corresponda s regies onde se falam
grupos de dialetos do centro e do sudeste,  nessa rea que devemos procurar
as origens das instituies estatais yoruba. A pretenso dos Ife de serem os
fundadores do primeiro Estado yoruba  com certeza convincente. Todas as
numerosas verses  mesmo as provenientes de Oyo  da lenda de Oduduwa,
fundador desse Estado, reconhecem a supremacia de Ife, e no h outras lendas
rivais que tentem atribuir essa distino a qualquer outro Estado. Estabeleceu-se,
pelo mtodo do carbono-14, que o carvo vegetal descoberto no stio da cidade
de Itayemu data do perodo compreendido entre + 960 e + 1160, o que confirma
as consideraes precedentes, pois esses vestgios so anteriores aos de todos os
outros stios urbanos yoruba16. Outro argumento em favor da reivindicao ife
 a relativa proximidade do ncleo urbano das bordas setentrionais da floresta,



13    LAW, 1973.
14    ALAGOA, 1972, p. 187.
15    A evoluo dos Estados pode ser esclarecida por um estudo dos topnimos. Atualmente esse  um campo
      de pesquisa quase totalmente dominado pela etimologia popular.
16     preciso reconhecer que as pesquisas arqueolgicas em stios yoruba so ainda muito escassas.
Do rio Volta aos Camares                                                           389



o que teria exposto seus habitantes, mais cedo que os demais, a uma presso das
populaes estabelecidas na savana.

     As origens
    Segundo a lenda de Ife, uma primeira gerao de Estados yoruba constituiu-se no
tempo dos netos de Oduduwa, que se teriam dispersado a partir de Ife; esses Estados
eram: Owu, Ketu, Benin, Ila, Sabe, Popa e Oyo. , no entanto, pouco provvel que
sua criao tenha ocorrido simultaneamente e da forma descrita na lenda. O
caso de Popa j foi discutido. A lista de reis de Sabe contm apenas 21 nomes,
enquanto a de Ketu enumera 49 e a de Ife, 47. Por outro lado, Ijebu, que no
consta entre os primeiros Estados yoruba da lenda, parece ser o mais antigo, com
uma lista de 52 reis. Com certeza, ainda resta muito a aprender sobre a ordem
e o modo como nasceram esses Estados.
    Um Estado yoruba tpico tinha dimenses bem modestas, sendo quase sem-
pre formado por uma nica cidade e as aldeias prximas. Nos ltimos sculos,
s a rea de Ekiti contava pelo menos 16 ou 17 reinos, e nada indica que eles
alguma vez tenham sido em nmero menor ou mais extensos. Parece que as
cidades de Egbado nunca constituram um Estado de grandes dimenses ou
uma federao, enquanto os Egba, assim como os Ijebu, formaram uma federa-
o de pequenas cidades-Estado, ao invs de um reino centralizado. Os 130 km
de extenso do eredo correspondem, provavelmente, aos limites do territrio de
Ijebu propriamente dito. Parece que mesmo Ife no chegou a dominar um vasto
territrio17. Os Akoko, estabelecidos no limite nordeste da influncia yoruba,
nunca ultrapassaram o nvel de aldeia em sua estrutura poltica.
     Em meio a essa multido de pequenos Estados, a grande exceo foi o reino de
Oyo, embora seu carter "imperial" s tenha se desenvolvido um tanto tarde, talvez
no comeo do sculo XVII. Esse caso nico pode, talvez, ser explicado pela
topografia  savana tpica , onde prosperou o Imprio Oyo, que permitia uma
facilidade de movimentos maior que na floresta e, portanto, o deslocamento da
cavalaria e de grandes contingentes de infantaria, por distncias maiores. De
fato, acredita-se que o desenvolvimento de Oyo tenha sido mais influenciado pelos
Estados vizinhos da savana  Borgu e Nupe  que pelos Estados yoruba da regio
florestal. Ele teve de se afirmar primeiro frente a seus rivais do norte, antes de poder
lanar-se  conquista dos Yoruba. Pela lista de reis de Oyo, supe-se que o reino
tenha sido fundado no comeo do sculo XV. O abandono da capital, sob a presso


17   ADETUGBO, 1973, p. 193.
390                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



dos Nupe, durante o segundo quarto do sculo XVI, est bem determinado. A evi-
dncia arqueolgica mais antiga at hoje descoberta parece remeter a um perodo
posterior  reocupao da capital, por volta do final do sculo XVI. Em resumo, 
pouco provvel que Oyo tenha atingido grande importncia no fim do sculo XV.

      Ife
    Considerando a posio central que essa cidade ocupa na histria geral dos
Yoruba,  surpreendente que a histria de Ife seja to pouco conhecida.
    Afora a abundncia relativa de detalhes sobre Oduduwa  legendrio fundador
do Estado  e sobre seus sucessores imediatos, os relatos que encontramos na tra-
dio oral so fragmentrios, com relao aos perodos subsequentes. Os vestgios
arqueolgicos conseguem preencher algumas lacunas, mas as pesquisas neste campo
ainda mal se iniciaram. Uma primeira fase da histria do Estado comearia por volta
do sculo XI, caracterizada por um tipo de habitat disperso, pelo emprego comum de
pisos de cacos de cermica justapostos, por uma indstria de contas de vidro e por
uma refinada arte da terracota, especializada na elaborao de figuras naturalistas,
principalmente de cabeas humanas. Estas levaram alguns etnlogos a estabelecer
uma ligao entre as culturas de Ife e de Nok, apesar do milnio que separa uma da
outra. A grande semelhana da arte da terracota de Ife com a encontrada em outros
centros de cultura yoruba  ainda mais reveladora. Cabeas de um estilo prximo
ao de Ife foram descobertas em Ikinrum e Ire, perto de Oshogbo, em Idanre, perto
de Ikare, e, mais recentemente  o que  particularmente interessante , em Owo,
onde grande nmero de esculturas em terracota foram exumadas entre os vestgios
do sculo XV (ver fig. 14.3). A disseminao da prtica desse estilo por vastas reas
poderia testemunhar a grande influncia exercida por Ife, mas  possvel que se trate
simplesmente de fenmeno cultural difundido entre os Yoruba, mais associado a
ritos religiosos que  realeza de Ife. Em outras palavras, Ife  apenas um dos muitos
centros que produziram esse tipo de objeto, e cada vez  mais difcil sustentar que
teria a exclusividade desse estilo. Da mesma forma, os pisos de cacos de cermica,
descobertos juntamente com figuras de terracota, no so exclusivos dessa cidade,
pois outros semelhantes foram encontrados em Owo, Ifaki, Ikerin, Ede, Itaji, Ekiti,
Ikare e, ainda mais longe, em Ketu e em Dassa-Zum, na Repblica Popular de
Benin, e tambm no distrito de Kabrais, na Repblica do Togo. Em Yelwa, foram
encontradas num stio ocupado at cerca de +700; em Daima, perto do lago Chade,
entre depsitos do sculo VIII; e em Benin, entre os vestgios do sculo XIV. Os
pisos de cacos de cermica mais antigos descobertos at agora em Ife datam de cerca
Do rio Volta aos Camares                                                    391




Figura 14.3   Cabea em terracota (Owo, Nigria). (Fonte: Shaw, T., 1978.)
392                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



de + 1100; os mais recentes tm impresses de espigas de milho, o que significa "que
no podem ser anteriores ao sculo XVI18.
    O desaparecimento das tcnicas de fabricao do piso e aparentemente tam-
bm da arte da terracota deve-se provavelmente a uma catstrofe que teria
abalado os Ife no sculo XVI. As 25 cabeas de "bronze" de Ife (trata-se, na
verdade, de lato e de cobre), que estilisticamente e de forma impressionante
se parecem com as terracotas, podem ter sido feitas nos anos imediatamente
anteriores ao desastre, quando, em virtude das importaes de cobre e lato
pelos portugueses, os metais destinados  fundio e  moldagem se tornaram
relativamente abundantes. Atualmente podemos apenas conjeturar sobre a natu-
reza dos acontecimentos que destruram essa cultura; a hiptese mais verossmil
parece ser a de conquista por uma dinastia estrangeira.
    Se essa interpretao da histria de Ife for correta, a dinastia que reina atual-
mente  a mesma que se estabeleceu no sculo XVI, construiu o palcio na sua
atual localizao e tambm os primeiros muros ao redor do centro da cidade. 
possvel que a nova dinastia tenha preservado algumas instituies polticas e sociais
de sua predecessora, mas nada indica que o regime anterior seja mais semelhante
ao seguinte no plano poltico que no artstico. No  possvel, portanto, descrever
exatamente a forma de governo que existia em Ife antes do sculo XVI. Tambm
se ignora se o parentesco com a civilizao ife, reivindicado por bom nmero de
Estados yoruba, data de um perodo antigo ou mais recente da histria de Ife.
    Se o desenrolar das cerimnias de entronizao e os emblemas reais de
hoje so muito semelhantes na maioria dos pases yoruba, inclusive em Ife, eles
diferem sensivelmente das insgnias que usam por efgie os personagens que
supostamente teriam pertencido a famlias reais da primeira fase da histria de
Ife. Podemos, ento, concluir que a realeza yoruba dos tempos modernos pro-
vm de poca mais recente, mesmo que originariamente os Estados se tenham
constitudo segundo os modelos da Ife dos tempos antigos.
    No se exclui a hiptese de que a grandeza e a decadncia dos Estados do
Sudo ocidental nos sculos XV e XVI tenham influenciado direta ou indire-
tamente a formao dos Estados yoruba na zona florestal do golfo da Guin.
Nessa poca formaram-se, ou melhor, reconstituram-se muitos grandes Estados
localizados ao norte dos que tratamos neste captulo, sendo os mais importantes
os de Borgu, Idah e Kwararafa (Kororofa)19. Seu surgimento e sua expanso


18    O milho, originrio do Novo Mundo, foi introduzido na frica pelos portugueses, no sculo XVI.
19    Ainda conhecemos pouco a respeito das relaes entre a savana e a floresta. Considerando a importncia
      do comrcio, cada vez mais evidente,  possvel que as relaes fossem mais intensas no passado do que
      hoje. Ver SHAW, T., 1970, p. 284.
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podem, certamente, explicar as desordens sofridas nesse perodo pelos Estados
vizinhos do sul. Sabemos que os Nupe expulsaram os Yoruba da antiga Oyo no
comeo do sculo XVI, e que, antes de voltarem  sua capital, trs quartos de
sculo mais tarde, os Oyo haviam reorganizado suas foras militares, reforando
a cavalaria, fora de combate dos exrcitos dos Estados da savana. Os Oyo
tomaram dos Nupe o culto Egungun dos ancestrais e, possivelmente, algumas
particularidades de seu Estado reconstitudo tambm tiveram a mesma origem.


     O reino do Benin
    O Benin foi o primeiro Estado desta costa em que estiveram os portugueses, com
o qual logo estabeleceram tanto laos diplomticos quanto comerciais. Localizado
a sudoeste de Ife, acredita-se que o Benin tenha se tornado reino bem cedo, talvez
desde o sculo XII. No sculo XV, ele parece ter sofrido uma transformao que, em
certos pontos, lembra a de Ife no sculo XVI. No se exclui que tenha existido uma
espcie de Estado entre os Edo (Bini) antes do sculo XIII, mas tanto a tradio
do Benin como a dos Yoruba atribuem o estabelecimento definitivo de um reino a
um descendente da prestigiosa famlia reinante em Ife. Diz a tradio que alguns
chefes do Benin pediram ao rei de Ife, Oduduwa, que lhes mandasse um prncipe, e
o rei enviou-lhes o filho Oronyan. Isso aconteceu provavelmente por volta de +1300.
Ainda segundo a tradio, os poderes dos primeiros soberanos dessa dinastia de
Ife eram limitados pelos poderes hereditrios dos chefes autctones, denominados
uzama. No entanto,  possvel que a prpria dinastia tenha conferido aos uzama os
ttulos e a organizao, pois h semelhanas entre esses ttulos e os mais comuns
entre os Yoruba, o que s poderia ser explicado por uma imitao de uma parte ou
de outra20. Os seis chefes uzama parecem ter desempenhado papel poltico bem
semelhante ao que seria atribudo mais tarde aos sete portadores do ttulo de oyomesi
(oyo missi) de Oyo. Se a hiptese de R. Horton sobre a formao dos Estados for
admitida, poder-se- supor que muitos reinos adotaram variantes desse princpio
de base, que prev um equilbrio de poder entre o rei e chefes representantes de
grupos de linhagem. A tradio afirma que o quarto soberano da dinastia do Benin
conseguiu romper o equilbrio em seu favor, depois de luta armada contra os chefes
uzama. Esse soberano instalou-se da por diante num palcio mais amplo, onde


20   A menos que tanto os ttulos yoruba quanto os do Benin provenham de uma mesma fonte exterior. Os
     ttulos edo so oliha, edonen, ezomo, ero, eholo nire e oltoton. Seus homlogos yoruba so olisa, odofin, ojomo,
     aro, osolo e oloton.
394                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



cercou-se de grande corte e criou certo nmero de ttulos no hereditrios para seus
homens mais importantes; mesmo assim, nem ele nem seus sucessores ultrapassaram
a condio de primus inter pares diante dos poderosos uzama.
    No sculo XV, profundas agitaes internas transformaram em autocracia essa
monarquia de poder limitado, e o pequeno Estado tornou-se um grande reino.
A tradio atribui essa transformao a um soberano chamado Ewuare, que se
apoderou do trono, expulsando e assassinando um irmo mais novo; conta-se
que a luta provocou a destruio de grande parte da capital. Essa explicao dos
acontecimentos  em termos de um primognito e sucessor legtimo lutando
contra um irmo mais novo usurpador   suspeita, na medida em que parece uma
tentativa de preservar a legitimidade indispensvel  genealogia de uma dinastia
que, em todos os outros pontos, nesse momento, j estava desacreditada. Tende-
mos mais a ver, na violncia que acompanhou a ascenso de Ewuare ao poder e nas
transformaes radicais que se sucederam, a conquista do Benin por uma potncia
estrangeira.

      A cidade
    Ewuare reconstruiu a capital de acordo com novo plano e deu-lhe o nome de
Edo, denominao que permanece at hoje21. No centro da cidade, como em Ife,
escavaram-se enormes fossos e construram-se muralhas, cujo traado no levava
em conta as construes mais antigas. No interior dos muros, uma grande avenida
separava o palcio da "cidade", ou seja, dos bairros onde habitavam membros de
numerosas corporaes de artesos e especialistas do ritual, a servio do soberano.
O palcio propriamente dito comportava trs departamentos: o guarda-roupa, os
servidores pessoais do soberano e o harm, servidos por um pessoal dividido, por
sua vez, em trs categorias, anlogas s classes de idade das aldeias edo.
    Cada corporao da "cidade" estruturava-se do mesmo modo e era filiada ao
departamento correspondente do palcio. O pessoal mais graduado do palcio rece-
bia ttulos vitalcios. H motivos para crer que Ewuare convocava para servios
palacianos todos os sditos nascidos livres, impondo-lhes um perodo de trabalho
obrigatrio nos postos mais baixos. Aps ter completado esse servio, a maioria
voltava s suas aldeias. Ewuare impunha aos sditos nascidos livres uma escarificao
facial  que lhes conferia a qualidade de "servidores do oba"  para reforar o lao
pessoal que os unia ao soberano.

21    A origem do nome "Benin", como a cidade e o reino so chamados por todos os no Edo,  cercada de
      mistrio. A etimologia popular no d uma explicao satisfatria.  possvel que os primeiros portugueses
      que desembarcaram na costa tenham ouvido dos Ijaw o termo beni, que significa "habitantes das guas", e
      aplicaram-no erroneamente aos Edo.
Do rio Volta aos Camares                                                      395



    O governo de Ewuare
    Remodelado por Ewuare, o governo do Benin era composto pelo soberano
e trs grupos de dignitrios: os uzama, cujo cargo era hereditrio, os chefes de
palcio, e uma ordem (criada por Ewuare) de chefes de "cidades". Esses dig-
nitrios do topo da hierarquia constituam o conselho, que deliberava com o
soberano qualquer assunto que lhe fosse submetido. Cada um se encarregava do
controle de certo nmero de unidades tributrias em que o reino estava dividido.
Os sditos de categoria inferior eram os mensageiros, os efetivos do exrcito,
ou executavam, de vrias maneiras, a vontade do rei. Entre outros princpios
constitucionais que passaram a ser adotados nessa poca, convm citar o direito
de sucesso ao trono por primogenitura; Ewuare conferiu ao seu herdeiro pre-
suntivo o ttulo de edaiken, que ele acrescentou  ordem dos uzama. Tambm no
campo da religio, Ewuare, que era tido como grande mgico, reforou o poder
mstico atribudo ao soberano, ao introduzir a comemorao anual da festa Igue,
durante a qual suas foras vitais eram renovadas.
    Outra realizao de Ewuare  a criao de um grande reino  envolveu-o
em guerras constantes contra os vizinhos.  frente das tropas, submeteu outras
populaes edo, grande parte dos lbo que viviam a oeste do Nger e alguns
Yoruba do setor oriental, inclusive, diz-se, as cidades de Akure e Owo. Entre
os territrios conquistados, os mais distantes conseguiram preservar certo grau
de autonomia, pagando tributos ao Benin; a outros, Ewuare imps governos
calcados no modelo do Benin, tendo  frente prncipes de sua famlia; apenas
os povos que viviam num raio de aproximadamente 60 km da capital estavam
sob o controle direto do Benin. Nessa regio central, s o rei tinha o poder de
condenar algum  pena de morte.
    A tradio no diz se Ewuare reformou radicalmente o exrcito, o que poderia
explicar o sucesso dessa expanso. Talvez o segredo de suas vitrias fosse a capa-
cidade de mobilizar os sditos, que lhe permitiu reunir foras superiores s dos
adversrios. No entanto, para integrar grande nmero de sditos fisicamente fortes
 mquina de guerra, era-lhe tambm necessrio empreender numerosas expedi-
es, cujo butim e tributos obtidos se destinavam  manuteno do exrcito.
    Durante mais de um sculo, os sucessores guerreiros de Ewuare organizaram
regularmente incurses militares nas provncias limtrofes ou mesmo mais dis-
tantes. A maior parte dos povos do Edo setentrional foi dominada pelo Benin.
A influncia yoruba, que se estendia para o leste, foi obrigada a recuar, diante
da forte presso de Edo sobre seu territrio. Ultrapassando Owo e Akure, os
exrcitos do Benin submeteram vastos territrios de Ekiti. Acredita-se no Benin
396                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



que Ijebu, um dos Estados yoruba mais antigos, teria vivido temporariamente
sob a tutela de Edo. Apesar de esse fato no ter sido confirmado em Ijebu,
alguns aspectos de seu governo  a associao do palcio ifore, por exemplo  tm
muitos pontos em comum com o do Benin. Semelhanas desse tipo tambm so
encontradas em Ondo, outro Estado yoruba limtrofe. A conquista pelo Benin
poderia explicar essas semelhanas, mas  possvel que alguns Estados yoruba
tenham reivindicado  ou pelo menos aceito de bom grado  um soberano do
Benin, aps Ewuare ter estabelecido o prestgio de sua dinastia. Foi o caso dos
Itsekiri, um ramo oriental dos Yoruba, entre os quais Iginua, neto de Ewuare,
instalou-se como soberano. Cercado por um grupo fiel a Edo, ele fundou um
reino segundo o modelo do Benin, que reconheceu por muitos sculos a sobe-
rania da dinastia-me.
    As particularidades do Estado do Benin, depois de reformado por Ewuare,
foram descritas aqui com abundncia de detalhes que poderia parecer exces-
siva. Isso se deve porque, por um lado, esse soberano teve papel crucial na his-
tria dos Edo, e, por outro, porque exerceu grande influncia sobre os vizinhos;
e tambm, finalmente, porque o reino do Benin  o nico Estado da regio de
cujas instituies anteriores ao sculo XVI temos conhecimento razovel. A
histria antiga do Benin  bem mais detalhada que os rudimentos recolhidos
em todos os outros Estados graas  riqueza da tradio oral preservada pela
corte, s informaes recolhidas pelos visitantes europeus nos sculos XVI e
XVII e s pesquisas arqueolgicas que vm sendo realizadas na cidade nas
ltimas duas dcadas, que confirmam a tradio, situando no sculo XV a
construo da grande muralha de Ewuare e a renovao do palcio (ver fig.
14.4). A arqueologia tambm esclareceu a evoluo da clebre arte do Benin,
a moldagem do lato e do bronze pela tcnica da cera perdida. Estabeleceu-
-se que todos os objetos de lato descobertos entre os vestgios anteriores ao
sculo XVI tinham sido forjados, e no moldados. Embora seja provvel que
a moldagem pela tcnica da cera perdida j fosse conhecida em tempos mais
antigos, as evidncias arqueolgicas e o estudo estilstico de numerosos obje-
tos em lato encontrados, que ainda hoje existem no Benin, indicam que essa
arte s floresceu no sculo XVI, quando grandes quantidades de lato foram
importadas da Europa22.



22    Uma das peas mais clebres, atribuda  primeira fase das moldagens em lato no Benin,  a cabea
      de uma iyoba, ou "rainha-me". Se a identificao for correta, a cabea no pode ser anterior  primeira
      dcada do sculo XVI, quando o soberano Esigie criou o ttulo de iyoba especialmente para sua me.
Do rio Volta aos Camares                                                                         397



    A arte de Ife e o problema dos bronzes do golfo
   At hoje, a arte africana tem sido estudada quase que exclusivamente do
ponto de vista esttico, negligenciando-se, frequentemente, o contexto sociol-
gico no qual foi criada. Com a civilizao de Ife-Benin, temos ocasio de estudar
uma arte africana em seu contexto histrico-sociolgico. Em geral, a escultura
em madeira domina a arte negro-africana, de forma que a maior parte das peas
que extasiam os estetas  de poca recente; a brilhante exceo  a da civilizao




Figura 14.4 Cidade de Benin  escavao feita na parte mais profunda do muro da cidade, vista do fosso
exterior. (Fonte: Connah, 1975.)
398                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



de Ife-Benin, onde se encontram obras de arte em terracota e bronze: da a
importncia dessa regio na evoluo geral da arte negro-africana.
    Falamos acima que os objetos em lato eram ou forjados, ou feitos pela tcnica
da cera perdida, conhecida em Ife, provavelmente, desde antes do sculo XIII.
 luz de pesquisas mais recentes, uma ligao natural une a arte da terracota de
Ife, ilustrada por figuras naturalistas, principalmente cabeas humanas,  cultura
de Nok, que remonta  Idade do Ferro (no sculo V antes da era crist). Isso 
essencial e sublinha a grande difuso da cultura nok, que no deve ser circunscrita
aos planaltos de Bauchi; alm disso, temos provas de intercmbios e contatos con-
tnuos entre os pases da savana, ao norte, e os da floresta, ao sul. Assim, os clebres
objetos em bronze e lato de Ife e do Benin so o resultado da evoluo artstica,
iniciada pelo menos na Idade do Ferro, numa rea cultural muito vasta.
    Pouparemos o leitor de todas as elucubraes dos colonizadores, que tentaram
descobrir uma origem extra-africana para essas obras de arte, de um naturalismo
to puro que um especialista europeu de arte yoruba observou:
      Se examinarmos a cabea reproduzida [a de um oni de Ife do sculo XIII], seremos
      tentados,  primeira vista, a exclamar: `, sem dvida, uma obra da Renascena!'23.
    Foi o alemo Leo Frobenius quem descobriu as esculturas de Ife, em 1910, durante
uma viagem  frica. Mas, no fim do sculo passado, ocorreu um fato sobre o qual
no se pode silenciar: Ife foi saqueada por uma coluna inglesa e a cidade foi pilhada
pelos conquistadores, que levaram para a Inglaterra muitas esculturas do palcio.
    Leo Frobenius apresentou as obras-primas de Ife ao mundo civilizado; logo
artistas e etnlogos perderam-se em hipteses fantasiosas para explicar o assim
chamado "milagre de Ife"24. Em 1939, descobriu-se, no longe do palcio do oni
de Ife, um grupo importante de bronzes. A partir da, muitas descobertas foram
feitas, tanto em Ife quanto no Benin.

      Caractersticas e desenvolvimento da arte do Benin
    Em 1949, Bernard Fagg coordenou escavaes em Abiri, no muito longe de
Ife. Ali, numa sepultura, descobriu trs cabeas em terracota; uma era elaborada
no mais puro estilo naturalista, enquanto as duas outras eram estilizadas ao
extremo. Como ele prprio observa, aparece


23    FAGG, W. B., 1963, p. 105.
24    W. B. FAGG, 1963, p. 105, escreveu: "J foi dito muitas vezes que estes bronzes eram obras dos egpcios,
      de artistas ambulantes gregos ou romanos, de um italiano da Renascena ou at de jesutas portugueses".
Do rio Volta aos Camares                                                                       399




Figura 14.5 Placa do Benin, representando o cerimonial do abate de uma vaca pelos servidores do oba.
(Foto Arquivo Werner Forman.)
400                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 14.6 Benin: tocador de flauta em bronze. (Foto Arquivo Werner Forman.) (Fonte das figs. 14.5 e
14.6: Forman, W.; Forman, B. & Dark, P., 1960.)
Do rio Volta aos Camares                                                              401



     na cultura de Ife um fenmeno estranho, extremamente raro na histria da cultura mun-
     dial: trata-se da coexistncia, na mesma cultura, de uma arte inteiramente naturalista
     com outra quase completamente abstrata, fenmeno inconcebvel nas pocas clssicas do
     Renascimento, na Europa25.
    Ele considera uma das cabeas o melhor exemplo do estilo realista ou natura-
lista de Ife, pois todas as medidas so rigorosamente harmoniosas e "at se pode
notar a bossa occipital". O rosto reflete calma, e um equilbrio interior confere-lhe
surpreendente densidade de expresso. Ao lado dessa cabea, na mesma sepul-
tura, foram encontradas outras duas, extremamente estilizadas:
     dois buracos representam os olhos e um trao horizontal, a boca. A estilizao  ainda
     mais enfatizada [...] e ainda assim esses objetos, encontrados na mesma sepultura, so
     de mesma origem [...]. Materiais, tcnicas de cozimento e estado de conservao so
     idnticos.  evidente que se deve atribuir duas expresses to diferentes do esprito
     humano no  contribuio de uma raa estrangeira  frica, mas a uma crena
     mstica da antiga religio yoruba26.
    De fato, a princpio, a arte de Ife e do Benin tinha carter essencialmente
religioso.
    O que representavam essas cabeas? Na maior parte das vezes, o oni, chefe
religioso de Ife. Elaboradas aps sua morte, eram colocadas na sepultura. No
museu do palcio do oni encontram-se expostas
     centenas de fragmentos de cabeas e de figuras em terracota, do mesmo estilo que
     os bronzes. Algumas so artisticamente do mesmo nvel, ou at de nvel superior aos
     belos bustos de bronze, e quase todas essas obras e fragmentos foram descobertos
     no em exploraes organizadas, mas por acaso, em dois ou trs dos cem templos
     de Ife. Muitas apresentam evidente carter ritual, pois essa arte era estreitamente
     ligada  vida da comunidade27.
    A tradio afirma ter o oba do Benin requisitado e recebido do oni um hbil
escultor, que iniciou os artesos do Benin na tcnica da moldagem de bronzes;
assim, Ife  verdadeiramente a cidade-me de onde vieram a religio e a arte
com a qual se presta homenagem aos ancestrais. Como o culto dos antepassados
era o fundamento da religio tradicional, Ife criou uma arte para perpetuar a
lembrana "daqueles que velam pelos vivos". O grande nmero de figuras encon-

25   FAGG, W. B., 1963, p. 106.
26   Ibid., p. 106.
27   Ibid., p. 104.
402                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



tradas nos templos tambm sugere que algumas fossem objetos de culto nos
prprios santurios, no se destinando a serem enterradas. Essa arte, porm, no
ficou circunscrita  rea do Ife-Benin. Foram feitas descobertas, no somente
no delta do Nger mas at no norte, nos confins de Nupe.




Figura 14.7 Vaso em bronze enfeitado com corda.
Figura 14.8 Desenho esquemtico do mesmo vaso: (a) borda; (b) insero da borda no corpo do vaso; (c)
corpo do vaso; (d) parte superior do suporte; (e) insero da parte inferior na superior do suporte; (g) enreda-
mento feito de corda; (h) cabo para transporte.
Do rio Volta aos Camares                                                        403




Figura 14.9    Bronze esculpido em forma de altar.




Figura 14.10    Cabaa ritual. (Fonte das figs. 14.7 a 14.10: Shaw, T., 1970.)
404                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



      IgboIkwu
    Descoberto em 1939 no leste da Nigria, o stio de Igbo-Ikwu foi explorado
em 1959 pelo professor Thurstan Shaw, revelando quase 800 peas de bronze,
completamente diferentes das de Ife-Benin. Igbo-Ikwu  um complexo urbano
em cujo centro situavam-se o palcio e os templos. Foram encontradas vrias
construes: uma grande sala, onde havia loua, objetos de culto e tesouros;
a cmara funerria de um grande sacerdote, ricamente decorada; um enorme
buraco onde havia cermicas, ossos e diversos objetos.
    H, certamente, algumas diferenas entre os achados de bronze de Igbo-Ikwu
e as obras de arte de Ife; no entanto, muitos traos comuns mostram que os dois
centros eram parte de uma mesma cultura. De fato, como em Ife, estamos diante
de uma monarquia ritual28.
    O virtuosismo dos artistas de Igbo-Ikwu  notvel, tanto nas obras de ter-
racota quanto nas de bronze; trabalhavam o material habilmente, dando-lhe a
forma pretendida, com uma riqueza de detalhes que beirava a afetao. Reci-
pientes de bronze em forma de cabaa e vasos de cermica ornados de motivos
serpentinos foram elaborados com grande maestria (ver figs. 14.7, 14.11, 14.12
e 14.14-14.16).
    Acredita-se que Igbo-Ikwu tenha sido a capital religiosa de um vasto reino,
onde teriam sido depositados os tesouros, sob a guarda de um rei-sacerdote,
Eze Nzi29. Faltam-nos informaes seguras sobre a cultura de Igbo-Ikwu; as
pesquisas junto aos detentores da tradio oral ainda prosseguem, enquanto
os arquelogos veem ampliar-se a rea de manufatura de bronzes. No entanto,
Igbo-Ikwu, com sua monarquia ritual e abundncia de moldagens pela tcnica
da cera perdida, parece contradizer a hiptese precedente, a respeito da poca
em que foi introduzida a fundio de lato, e at mesmo muitos dos postula-
dos relativos  formao dos Estados; pois a datao pelo carbono-14 indica
que uma cultura altamente refinada j existia no sculo IX entre os Ibo, cujas
sociedades, como se sabe, eram baseadas em grupos de linhagem. Em outras
palavras, a cultura de Igbo-Ikwu antecede de pelo menos dois sculos a de
Ife-Benin e todas as outras culturas com grau comparvel de evoluo at hoje
descobertas na zona florestal. Sem a datao pelo carbono-14, poder-se-ia
situar, sem hesitao, os objetos descobertos em Igbo-Ikwu nos sculos XVI
e XVII. O reino vizinho de Onitsha, alis, foi fundado mais ou menos nessa


28    SHAW, T., 1970, p. 266.
29    Ver WILLETT, 1967, p. 172-3.
Do rio Volta aos Camares                              405




Figura 14.11   Grande vaso em bronze, visto de cima.
Figura 14.12   O mesmo vaso, visto lateralmente.
406                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 14.13   Bracelete de bronze feito em forma de n.
Figura 14.14   Cermica: vista geral.
Do rio Volta aos Camares               407




Figura 14.15   Cermica: detalhe.
Figura 14.16   Cermica: vista geral.
408                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



poca, sob a influncia do Benin; o Estado de Igala, que teria contribudo
para a organizao das chefarias entre os Umeri, grupo ao qual pertencem os
Igbo-Ikwu, s foi criado no sculo XV. Em que medida  possvel confiar na
datao pelo carbono-14? Quando obtida atravs de carvo vegetal, deve-se
ter muita prudncia, porque um depsito superficial de carvo pode remontar
a poca bem anterior quela em que foi enterrado num poo ou qualquer tipo
de escavao. Alm disso, a confiabilidade das datas indicadas pelo carbono-14
nas proximidades do equador tem sido seriamente posta em dvida30. Convm
observar que uma das cinco datas atribudas aos vestgios de Igbo-Ikwu  a de
1445  70, que coincide com a de 1495  95, conferida aos objetos descobertos
24 km a leste, entre os quais se encontram sinos de bronze moldados num estilo
semelhante ao de Igbo-Ikwu. Esse Estado constitui, portanto, um enigma que
merece ser resolvido, ou por um aperfeioamento na tcnica de datao pelo
carbono-14 ou por uma reviso geral nas hipteses atuais sobre a evoluo dos
Estados nessa regio31.

      Os bronzes de Nupe
    Mais ao norte, ao longo do rio Nger, entre Busa e a confluncia do Benue,
foram descobertos bronzes em vrios stios (ver figs. 14.18 e 14.19).
    So chamados os "bronzes de Tsoede", nome do fundador do reino nupe
no sculo XVI. De acordo com a tradio, essas peas foram trazidas de Idah,
capital de Igala, por Tsoede. A tradio tambm diz que Tsoede trouxe consigo
ferreiros, que ensinaram  gente de Nupe a moldagem pela tcnica da cera
perdida32.
    Muitas figuras foram encontradas em Tada, Jebba e Gurap. Cada um desses
centros tem estilo prprio, mas certa semelhana entre eles atesta a influncia
de Ife ou do Benin, como escreve F. Willett:



30    OZANNE, 1969.
31    Foram fornecidas vrias datas, obtidas pelo carbono-14: 1075  130 (sculos IX-XIII); 1100  110
      (sculos X-XIII); 1110  145 (sculos X-XIII). A cronologia de toda a regio precisa ser revista; dos
      estudos j feitos, evidencia-se que o delta do Nger tinha contatos estreitos com o Nupe ao norte e, mais
      ao longe, com a savana do Sudo central, por onde passava o cobre vindo de Takedda, para que chegasse
      em Ife-Benin e Igbo-Ikwu. As grandes correntes de comrcio entre a savana e a floresta j existiam,
      provavelmente, desde a antiguidade remota.
32 O rei Tsoede  uma personagem lendria; uma tradio diz que ele chegou a Nupe numa almadia de
   bronze. Ele representa uma sntese: situa-se seu nascimento por volta de 1463; em 1493, dizem que foi
   levado como escravo para Idah; em 1523, teria fugido, para tornar-se rei de Nupe em 1531. Tsoede teria
   morrido em 1591, o que significa que viveu 128 anos!
Do rio Volta aos Camares                                                                          409




Figura 14.17 Reconstituio feita por arquelogos do enterro de um chefe em Igbo-Ikwu. (Fonte das Figs.
14.11 a 14.17: Shaw, T., 1970.)
                                                                                         410
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Figura 14.18   Mapa dos stios dos bronzes de Tsoede. (Fonte: Shaw, T., 1973, p. 234.)
Do rio Volta aos Camares                                                                  411




Figura 14.19   Esttua em bronze (de Tsoede), de uma figura sentada. (Fonte: Eyo, 1977.)
412                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



      "Na histria da fundio de bronze em todo o vale do Nger, h mais do que um ou
      dois fios a desemaranhar. Trata-se de uma pea de tecido, e ser necessrio muito
      tempo para separar os fios da urdidura e da trama"33.
   Thurstan Shaw indicou algumas orientaes de pesquisa para encontrar a
fonte do cobre utilizado em toda a regio do baixo Nger34. Segundo Shaw, 
necessrio dar mais ateno ao estudo das relaes nortesul, entre a regio e o
mundo rabe-muulmano; o comrcio pode ter comeado desde antes do sculo
X, e foi precisamente para controlar essa via comercial sulnorte que o poder
se deslocou de Ife para a antiga Oyo. Dessa forma, os bronzes encontrados em
Jebba (Tada) situam-se na rea de contato, no Nger.
   Resumindo, sero ainda necessrias muitas pesquisas para estabelecer um
quadro cronolgico e para melhor compreender as diversas escolas de bronze.
Como essa regio no produzia cobre, a fonte mais prxima seria a mina de
Takedda; da o dossi sobre as relaes entre o Nger, o Benue e o Sudo ainda
estar longe de se concluir.


      Os Ijaw e os Ewe
   J falamos sobre a formao dos Estados ijaw, situados no delta do Nger. As
tradies de Okrika, Bonny e Nembe levam a crer que foram fundados antes
do sculo XVI. Nembe, por exemplo, teria sido criada em meados do sculo
XV pelos sobreviventes de um conflito interno. Tornou-se cidade-Estado, agru-
pando povoaes de mesma cultura num raio de 15 km. Absorveu em seguida
um grupo de Itsekiri, que introduziu o culto de Ogidiga ou Ada e se apoderou
dos rituais do Estado. Essa migrao se deu paralelamente  fundao do reino
de Itsekiri pelo Benin, e  interessante notar que, em ltima anlise, as origens do
culto de Ada em Nembe parecem se ligar a oda, que significa "espada", smbolo
da autoridade do rei do Benin.
   A migrao dos Ijaw para a parte oriental do delta fez com que entrassem
em contato com os Ibibio, os Ogoni e os Ndoki, minorias tnicas que, em
condies favorveis, frequentemente se inspiraram nas estruturas estatais
dos Ijaw. O Estado mais notvel foi o antigo Calabar, situado no atual Cross


33     evidente que o perodo em questo  mtico, de acordo com WILLETT, 1967, p. 212: " possvel que
      Tsoede s pertencesse ao final ou, talvez, bem ao incio desse perodo e que sua existncia tenha sido
      `esticada' para preencher o `buraco' que o separa do rei histrico" .
34    SHAW, T., 1973.
Do rio Volta aos Camares                                                     413



River, fundado pelo ramo efik dos Ibibio. Sua criao, entretanto, parece datar
do sculo XVII. Em pocas anteriores, as margens do Cross tinham sido ocupadas
pelos Ejagham, os Ekoy e os Efutop, povos semibantu, originrios da rea meridio-
nal dos Camares. Como os Ibo, preservaram uma sociedade baseada em grupos de
linhagem, at serem absorvidos pelos Efik.


    Concluso
    No final do sculo XV, quando os portugueses chegaram a essa costa, os
Estados mais importantes eram Oyo e Benin. Havia tambm cidades inde-
pendentes muito bem estruturadas, que incorporavam grupos de linhagem a
governos menos elaborados. Benin e Oyo estavam se tornando reinos podero-
sos e expansionistas. O processo de formao de Estados acelerara o ritmo da
interao cultural entre as populaes, favorecendo a difuso das instituies,
prticas e objetos cerimoniais, cultos religiosos e, provavelmente, tecnologia. A
moldagem pela tcnica da cera perdida, por exemplo, segredo cuidadosamente
guardado e associado  monarquia divina, acabou, no entanto, se difundindo.
    As relaes econmicas tambm adquiriram maior intensidade e complexi-
dade: o palcio do soberano, com suas necessidades de suprimento e servios
especializados, foi um fator determinante dessa evoluo. Alm disso, os Esta-
dos estavam melhor equipados para organizar um comrcio exterior, suprir
mercados, organizar a coleta e transporte de produtos e garantir a segurana
dos comerciantes que viajavam para longe. Os Estados ijaw mandavam grandes
almadias para bem longe no interior, com o objetivo de trocar o sal que eles
manufaturavam por gneros alimentcios que no podiam produzir. O rei do
Benin podia organizar um comrcio de escravos, marfim e pimenta em grande
escala. Os tecidos de Ijebu eram fornecidos para os mercados de uma vasta
regio. Graas  sua posio entre os Estados da regio florestal e os da savana,
Oyo controlava grande parte do comrcio entre uns e outros. Assim, quando,
pela primeira vez, os portugueses desembarcaram na costa, no final do sculo
XV, encontraram em Ijebu, Benin e entre os Ijaw Estados bem estabelecidos,
cuja economia j estava adaptada s necessidades do comrcio internacional. A
maneira como enfrentaram o desafio dos contatos comerciais, culturais e pol-
ticos com os Estados europeus constitui um dos temas centrais da histria de
todos os povos dessa regio nos quatro sculos seguintes.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)            415



                                    CAPTULO 15


            O Egito no mundo muulmano
            (do sculo XII ao incio do XVI)
                                     Jean-Claude Garcin




    A importncia do Egito na vida poltica e econmica
    da poca
    Para o observador superficial, o perodo compreendido entre o trmino do
sculo XII e o comeo do XVI pode parecer o menos "africano" de toda a histria
egpcia. O regime que se instalou no Cairo em + 1171 veio substituir o califado
fatmida, nascido no Magreb e cujo poderio assentou definitivamente seu eixo
no vale do Nilo. A regio tornou-se a fora principal de um imprio aibida e,
posteriormente, mameluco  que se estendia at o Eufrates e aos passos do Tau-
rus anatoliano, e cujos maiores empreendimentos se situaram fora do continente
africano; em outros tempos nem sequer o estatuto de provncia integrante do
conjunto omada, abssida ou otomano parece ter deixado o Egito to separado
do resto da frica. Tudo isso pode ser certo; mas no termina a: esse perodo,
no qual a preponderncia egpcia se afirmou no mundo mdio-oriental, foi
tambm aquele em que as rotas transaarianas conduziram ao Cairo os prncipes
do Kanem, do Mali e de Songhai, a caminho dos lugares santos muulmanos
do Hidjz (Hedjaz), e delas se serviram os comerciantes egpcios para chegar
ao interior da frica. E no h dvida de que esses sculos de histria egpcia
foram importantes para a evoluo de grande parte da frica  da parte que
seria afetada pelo Isl. No Egito aibida e mameluco o Isl sunita adquiriu sua
416                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



forma definitiva, que marcaria, em graus variados, os princpios de comporta-
mento e a estrutura de pensamento da maioria dos muulmanos africanos. At
o antigo foco islmico magrebino  tributrio desse perodo da histria egpcia:
o desaparecimento do califado xiita do vale do Nilo de certa forma aproximou
do Magreb o Oriente muulmano, fonte tradicional de cultura e religio, con-
tribuindo assim para o aspecto unitrio que o Isl assumiu na frica. O Cairo
foi a grande escola desse islamismo. Os desenvolvimentos polticos e culturais
que as margens do Nilo conheceram nesse perodo concernem a grande parte
do continente:  Etipia, ao Sudo central e ao Sudo ocidental.

      O renascimento egpcio depois da queda dos Fatmidas
      (Salh alDn e o surgimento de novo espao poltico)
    Todas as regies que constituam a base territorial do sultanato aibida (e, com
pequenas alteraes nos limites geogrficos, do sultanato mameluco) viram-se
reunidas sob a autoridade de Salh al-Dn Ysuf Ibn Ayyb conhecido no Ocidente
como Saladino , na luta contra a Cruzada. Sabe-se que nem o califa abssida
de Bagd  ento dominado pelos emires seldjcidas turcos do Iraque, recm-
-chegados das estepes da sia para o servio do califado, e j divididos  nem o
califa fatmida do Cairo  tambm tutelado por seus chefes militares e ameaado
pela reconquista abssida que os seldjcidas empreenderam na Sria  puderam, ou
quiseram, opor-se  instalao dos ocidentais na Palestina e no alto Eufrates
(territrios situados entre os dois califados), por volta dos anos finais do sculo
XI, e  sua consolidao, no sculo seguinte. Os muulmanos, a princpio pouco
conscientes da natureza dessa instalao, demoraram a reagir; o esprito de guerra
santa quase desaparecera no Isl; a contra-ofensiva dirigida pelos emires que
governavam Mossul resultara na reunificao das regies reconquistadas do alto
Eufrates com os territrios do interior da Sria (de Alepo a Damasco) sob a auto-
ridade de um deles, o turco Nr al-Dn; os califas do Egito, no entanto, s oca-
sionalmente apoiavam esses esforos de seus rivais. A guerra contra o reino latino
de Jerusalm ter-se-ia sem dvida prolongado se, no prprio Egito, a competio
entre os chefes do exrcito fatmida pelo poder efetivo (o vizirato) no forasse
os concorrentes a buscarem ajuda militar externa, em Damasco e Jerusalm. Foi
para impedir a instalao definitiva no Egito das tropas do reino de Jerusalm que
o prprio califa concordou com a ascenso ao vizirato fatmida do comandante
do corpo do exrcito enviado por Damasco, Shrkh, emir de origem curda, que
pouco tempo depois faleceu subitamente, sendo substitudo por seu sobrinho
Saladino (1169). Dois anos mais tarde, este ltimo vizir dos Fatmidas egpcios
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                     417



proclamava a extino do califado xiita, restabelecendo no Oriente a unidade de
obedincia aos Abssidas, sob a autoridade de Nr al-Dn, frente aos Estados
cruzados. Comeava a surgir o espao poltico do novo Imprio Muulmano.
    Na verdade, porm, a submisso terica do emir do Egito ao prncipe de
Damasco no impediria a rivalidade entre os dois poderes no interior do espao
abssida. Prevendo o conflito, Saladino procurou garantir um local para uma
possvel retirada sua em direo ao sul: tentou primeiro a Nbia, que logo desis-
tiu de conquistar, depois o Imen, rapidamente ocupado (1174), futuro posto
avanado da prosperidade egpcia s margens do oceano ndico. Mas Nr al-Dn
morreu no mesmo ano da ocupao, 1174, e, como deixasse herdeiros pouco
capazes de prosseguir sua obra, em alguns meses Saladino chegava a Damasco.
Em 1182, seu poder atingia Alepo; em 1186, anexava os ltimos territrios do
Eufrates que ainda lhe resistiam; no ano seguinte, a vitria de Hattn e a recon-
quista de Jerusalm punham fim  existncia do reino cruzado. A unidade de
fato estava estabelecida, porm desta feita tendo no centro do novo imprio o
Egito, que, at ento pouco empenhado no combate s Cruzadas, iria tornar-se
a principal fora de resistncia ao Ocidente e alvo das futuras expedies.

    A ideologia do novo poder
    Essas circunstncias e a personalidade de Saladino, cujo ideal poltico se resu-
mia no renascimento do Isl, tiveram papel importante na "reconstruo" do
Egito  pois, de fato, aps a queda dos Fatmidas empreendeu-se uma verdadeira
reconstruo do Egito muulmano. O xiismo no era muito difundido entre os
muulmanos egpcios, exceto, talvez, no alto Egito, onde demorou a desaparecer;
mas, considerado ao mesmo tempo um cisma poltico e uma traio ao autntico
islamismo, a ele se atribua grande parte da responsabilidade pela fraqueza em
que se encontrava o mundo muulmano perante as investidas do Ocidente. Era
preciso estabelecer firmemente, na esfera poltica, na social e na mentalidade dos
homens, o Isl da tradio e da comunidade, o Isl "sunita". Os distantes califas
abssidas, que graas  debilitao do poder dos seus protetores seldjcidas, ento
recuperavam a independncia poltica real   verdade que no quadro limitado
das regies iraquianas , passaram a ser considerados com muito respeito. A pere-
grinao a Meca, antes perturbada pela existncia do reino cruzado de Jerusalm,
tornou-se mais fcil, estando agora os peregrinos mais bem protegidos contra os
abusos a que antes se expunham nas mos das autoridades locais egpcias ou do
Hidjz, este, cada vez mais submetido  influncia do Egito: a fama de Saladino
espraiou-se at os confins ocidentais da frica muulmana.
418                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    No prprio Egito, o novo poder empenhou-se em formar uma classe de
homens versados nas disciplinas religiosas, jurdicas e literrias, que veio a cons-
tituir um firme sustentculo do Estado sunita. O sistema de ensino em madra-
as, importado do Oriente seldjcida, instalou-se no Egito definitivamente; as
madraas eram concebidas essencialmente para formar esses homens de con-
fiana, dedicados ao Isl sunita, que se pretendia implantar1. Para o primeiro
impulso, recorreu-se muitas vezes a juristas e professores oriundos dos meios
muulmanos militantes da Sria ou do Oriente; mas, pouco a pouco, os quadros
propriamente egpcios cresceram, configurando uma categoria social que deveria
servir de intermedirio entre os governantes e o povo. Do Oriente, bem como do
Magreb, tambm vieram msticos  especialmente para o alto Egito, de maioria
maliquita. Vivendo em grupo, nos khnkh (conventos), ou isolados, nos ribt
do alto Egito, incumbiram-se de restabelecer a vida espiritual mais ortodoxa
entre os muulmanos ou, simplesmente, de dar a eles a instruo religiosa que
comumente lhes faltava, em especial aos camponeses. Quando o mstico magre-
bino Ab'l-Hasan `Al al-Shdhil se fixou em Alexandria, em cerca de 1244,
apenas veio somar seus esforos ao empenho que j se fazia para a construo
de um Egito sunita. Foi esse o mvel fundamental do empreendimento poltico
aibida, concebido como baluarte contra os inimigos internos e externos do Isl:
culminou com a criao de slidos mecanismos socioculturais, que haveriam de
sobreviver ao prprio regime que contribura para implant-los.

      A paz aibida
   A construo do Egito sunita, que comeara no mpeto da contracruzada,
fez-se num clima de pacificao poltica, em meio  paz e  prosperidade eco-
nmica proporcionadas pelo fim dos combates. A destruio do reino cristo
de Jerusalm e a reduo da presena dos cruzados a umas poucas praas-fortes
ao longo da costa (1187) constituram um violento golpe para os prncipes
europeus, que prepararam vigorosa reao: a Terceira Cruzada, cujos efeitos
Saladino teve dificuldade em conter. Os cruzados, no conseguindo reconquistar
Jerusalm, recuperaram e fortificaram a costa srio-palestina, o que Saladino,
antes de morrer, aceitou como fato consumado (1193). Na verdade, a pequena
dimenso e a m localizao estratgica do territrio costeiro, ora ocupado


1     Com efeito, muito antes da ascenso de Saladino ao poder, j existia um pequeno nmero de madraas
      em Alexandria e no antigo Cairo (al-'Fustt). Ver a tese de doutoramento (Ph. D.) de LEISER, G.,
      1977.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                                           419



pelos ocidentais, tornariam menos ameaadora sua implantao. Alis, por no
haver apenas militares entre eles, mas tambm comerciantes, sua presena at
contribuiria para a prosperidade dos Estados aibidas. A despeito das queixas
nos meios muulmanos, os sucessores de Saladino tambm se empenharam em
garantir a paz, ao mesmo tempo que entre os ocidentais, especialmente entre
os que se haviam fixado no Oriente, diminua o esprito de cruzada, prevale-
cendo a conscincia dos mltiplos interesses que tinham na manuteno do
status quo. Agresses ainda ocorreram, como a instalao de uma base de ataque
em Damieta, de 1218 a 1221 (Quinta Cruzada), visando o corao do poder
que obstaculizava as investidas do Ocidente. Por seu lado, porm, os poderes
muulmanos mostravam-se dispostos a fazer concesses, chegando a desistir de
Jerusalm em 1225, sob a condio de que fosse mantida como cidade aberta.
Graas a essa poltica, as regies srias do Imprio Aibida, em contato com as
feitorias crists da costa, conheceram grande prosperidade2.
    O Egito tambm aproveitou a paz, acrescentando  riqueza que lhe vinha de sua
produo agrcola tradicional (e do cultivo, que ento se difundia, da cana-de-acar)
os lucros de um comrcio menos perturbado com os ocidentais. Como seu prede-
cessor fatmida, o Estado aibida necessitava de tal comrcio. Faltavam-lhe
produtos importantes, como o ferro, a madeira e o pez, indispensveis para a
construo de uma frota de guerra. Comprava-os dos mercadores de Veneza,
Pisa e Gnova, que os forneciam a despeito do interdito religioso contra a venda
de produtos estratgicos que pudessem ser utilizados contra os cruzados3.  que
o Egito tinha a oferecer em troca o alume, utilizado, no Ocidente, pela indstria
txtil, e sobretudo os preciosos produtos do Extremo Oriente.
    Nesse domnio, o Estado aibida tirou grande proveito dos esforos dos califas
fatmidas no sentido de recuperar para as vias do mar Vermelho e do vale do Nilo
o antiqussimo comrcio do oceano ndico, responsvel pela riqueza do Egito
greco-romano. Na segunda metade do sculo XI, a rota dos mercadores de espe-
ciarias encontrou no Egito o traado que manteria por trs sculos (ver fig. 15.1):
as valiosas mercadorias do Oriente eram desembarcadas no cais de `Aydhb, s
margens do mar Vermelho, sendo ento transportadas em caravanas at o Nilo, na
altura de Ks  ento capital do alto Egito, situada um pouco ao norte de Lxor
, de onde seguiam pelo rio at Alexandria. Nesta cidade os mercadores ocidentais


2   Desde o comeo do sculo XIII diminuiu sensivelmente o esprito de cruzada. Embora adeptos das duas
    religies continuassem a bater-se, os interesses comerciais impunham-se cada vez mais aos governantes.
3   Sobre a dominao comercial do espao mediterrnico pelos ocidentais, ver o captulo 26, de J.
    Devisse.
420                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



deviam aguard-las, pois o Cairo lhes fora interditado desde o governo de Sala-
dino. Tampouco lhes era permitido chegar ao mar Vermelho. O Egito, portanto,
tinha total controle sobre esse comrcio, e nada precisava temer quanto ao mar,
ainda mais porque era um prncipe aibida que governava o Imen (at 1231). Os
especialistas desse grande comrcio oriental, os mercadores chamados "do Karim"
ou "Karm", cujo nome e origem ainda hoje no esto bem explicados, tambm
mantinham relaes que pressentimos das mais estreitas com o Imen: j eram
mencionados, no final do califado fatmida, nas cartas dos comerciantes judeus do
Egito, e, com o advento dos Aibidas, repentinamente comearam a aparecer nos
documentos muulmanos. Esse trfico, que fazia circularem homens e mercado-
rias pelo Nilo nos dois sentidos, no era vantajoso apenas para as alfndegas do
Estado e para os que lucravam com seu financiamento; contribua tambm para
a prosperidade e a unidade humana do vale.

      O Estado e sua organizao: a classe militar no poder (os sucessores de
      Saladino)
    Embora a histria da evoluo poltica do Egito aibida ainda esteja por ser
escrita, podemos considerar que a administrao e o governo no procuraram
romper com a tradio fatmida. A despeito da orientao claramente muulmana
do aparelho poltico, os cristos do Egito, ou coptas, ainda eram muito numero-
sos e continuavam, como no tempo dos califas xiitas, a desempenhar boa parte
dos servios administrativos, herdeiros de tcnica burocrtica que sobrevivia s
mudanas no poder. O governo aibida, com seus servios ministeriais (dwn),
foi um prolongamento do fatmida: o fundador da dinastia fora tambm o ltimo
vizir dos califas do Cairo, e os sultes aibidas e mamelucos conservaram dos
vizires o ttulo de soberania, mlik, pelo qual eram frequentemente designados4.
    Contudo Saladino era tambm um emir curdo, nascido numa famlia que ser-
via aos seldjcidas. Tanto o seu empreendimento poltico quanto a estabilidade de
seu poder (da mesma forma que o de seus sucessores) assentavam no exrcito. Este
assumiu, naturalmente, o lugar da casta militar fatmida, mantida, j no segundo
sculo do califado, pelo sistema do ikt`, quer dizer, a cada emir se atribua, sob
estrito controle e superviso, a renda fiscal de uma ou mais localidades, conforme
a importncia do emir e o nmero de homens que ele devia manter a seu servio.
Com pequenas diferenas, tal sistema ento vigorava em todo o Oriente. O exr-
cito de Saladino, composto por curdos e turcos, era, de modo geral, considerado

4     WIET, 1937.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                   421



pelos egpcios como uma tropa de estrangeiros. Na verdade, era principalmente a
estrutura do poder poltico que extrapolava o quadro geogrfico egpcio e obedecia
a concepes at ento desconhecidas nas margens do Nilo. Como outros emires
iranianos ou turcos que o antecederam, que puseram a servio do califado abssida
a fora de seus homens e terminaram por exercer o poder, tambm Saladino tinha
uma concepo familiar da organizao poltica: os diversos membros do grupo
agntico recebiam, sob a direo do chefe, a administrao soberana de provncias
ou cidades. O imprio assim se resolvia numa federao de principados autno-
mos, confiados ao governo de uma famlia que muito tivesse feito pelo Isl, no
se excluindo que um prncipe mudasse para uma outra capital se interesses supe-
riores o exigissem. O Egito, por sua importncia, teve o privilgio de constituir,
de maneira geral, o domnio reservado por aquele que desempenhava ou aspirava
ao papel de chefe de grupo.
    Mas essa eleio de grupos familiares diferentes para a defesa e governo
dos muulmanos (exceto em Alepo, onde a sucesso dos prncipes se fazia
de pai para filho) ameaava acentuar em cada um dos principados a separa-
o que j existia, no plano tnico, entre governantes e governados. A diviso
no bem definida das responsabilidades foi a causa principal das rivalidades
e conflitos armados entre os prncipes, nos quais terceiros foram chamados a
intervir, em especial os cristos da costa srio-palestina: dessa forma, estes se
integravam no jogo poltico mdio-oriental. Em 1193, Saladino legara o Egito
a seu filho al-Mlik al-`Azz, mas logo o irmo de Saladino, al-Mlik al-`dil,
ento governando as regies do Eufrates, mostrou ter mais autoridade para
arbitrar os conflitos entre seus parentes e tambm maior ambio. Depois da
morte de al-Mlik al-`Azz, em 1198, terminou por instalar-se no Cairo em
1200, impondo sua firme direo aos demais prncipes aibidas at a morte,
em 1218, em Damasco, ocorrida ao mesmo tempo que as tropas da Quinta
Cruzada desembarcavam em Damieta. Nessas circunstncias, seu filho al-Mlik
al-Kmil no encontrou dificuldades em suceder-lhe no Cairo, e tentou retomar
a poltica que o pai adotara em relao aos parentes. Teve, porm, muito menos
xito que ele, especialmente devido a sua atitude de conciliao para com os
ocidentais. Quando morreu, em 1237, no conseguira reconstituir a unidade
familial dos tempos de Saladino e al-Mlik al-`dil, e por um momento at
chegara a ver, coligados contra ele, todos os prncipes aibidas, exceto um de
seus filhos, al-Mlik al-Slih, cuja ambio muito precoce o relegara  regio
do Eufrates. Foi este ltimo que, depois de inacreditveis peripcias, terminou
por suceder-lhe no Cairo, em 1240. Com base em suas experincias, porm,
al-Mlik al-Slih chegara  concluso de que um prncipe somente se poderia
422                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



impor, em competio to acirrada pelo poder, se contasse com um exrcito fiel
(mas isso os outros aibidas tambm sabiam, e tambm tentavam obter), formado
por homens que em tudo dependessem do chefe; homens comprados e educados
por ele, cuja sorte dependesse de seu sucesso: mamelucos ou escravos de raa branca
 neste caso, mais precisamente, turcos. Aquartelado na ilha de Roda (Rawda), no
Cairo, o regimento dos mamelucos bahridas (da palavra bahr, que no rabe do
Egito se emprega para designar o Nilo5) logo se tornou o principal sustentculo
do ltimo grande prncipe da Dinastia Curda, cujos princpios de transferncia
do poder haviam feito crescer no Egito o domnio de um grupo, at ento s
conhecido na histria do Oriente muulmano.

      Os Mamelucos turcos
    O regime mameluco representou a instalao, na chefia da sociedade muul-
mana do Egito, da poderosa casta militar, que passou, a partir da, a escolher
entre seus membros os sultes. Embora neste contexto seja comum falar-se em
"dinastias", foi um regime que praticamente deixou de se preocupar com esse
tipo de sucesso familiar, exceto quando isso lhe trouxesse vantagem poltica
imediata. O grupo armado que o prncipe aibida tinha a servi-lo passou a ser
autossuficiente: teve seus chefes naturais e constituiu, com grupos rivais, a nica
classe poltica na qual do jogo das relaes de fora nascia o sulto. Consumou-se
a ruptura entre governantes e governados; para estes ltimos, os primeiros eram
chamados de "Mamelucos turcos" (que os historiadores ocidentais chamaram de
bahridas, termo que s designa, propriamente, o regimento institudo por al-Mlik
al-Slih), e, a partir de 1382, de "Mamelucos circassianos".

      A origem do seu poder: a luta contra os mongis e contra os cruzados
    A tomada do poder pela casta militar resultou do surgimento de um novo
e terrvel perigo  o avano mongol em direo ao Ocidente. A princpio, a
ofensiva mongol s foi percebida em funo de alguns efeitos inesperados que
suscitou. Quando a primeira grande vaga invasora chegou  Hungria, nos anos 1240,
instalando nas plancies do baixo Volga o khanato mongol do Kipck, no Oriente
muulmano, apenas as provncias iranianas, como o sultanato do Khwrizm, e algu-
mas mais adiante haviam sido atingidas pelos mongis. Procurando sobreviver,


5     Parece que esta  mesmo a etimologia autntica de bahrida (em rabe, bahriyya). A ideia de que bahr
      designaria o mar, como no caso do rabe clssico, o que implicaria uma origem ultramarina dos bahridas,
      no nos parece vlida.
                                                                         O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)




Figura 15.1   Mapa do Oriente Mdio sob os Mamelucos. ( J.-C. Garcin.)
                                                                         423
424                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



bandos armados haviam fugido dessas regies, e al-Mlik al-Slih at pensara
em utiliz-los para formar a fora militar de que necessitava para consolidar sua
supremacia sobre os demais Aibidas; porm no demorou a preferir, aos incon-
trolveis khwarizmianos, os escravos brancos de raa turca, que a conquista do
Kipck pelos mongis lanava em grande nmero nos mercados: foram estes os
homens que constituram o regimento bahrida6. Quanto aos khwarizmianos, as
devastaes que fizeram nas provncias srio-palestinas, incluindo o massacre dos
cristos de Jerusalm, em 1244, provocaram a reao do Ocidente. Em 1249, o
exrcito da Sexta Cruzada, comandado por Lus IX, rei de Frana, desembarcou
em Damieta, mais uma vez apontando o Egito como principal responsvel pelos
acontecimentos do Oriente.
    A situao logo se revelou das mais graves, pois al-Mlik al-Slih morreu
nessa ocasio, e o prncipe que deveria suceder-lhe no trono, Turnshh, estava
em campanha no Eufrates. Foi o regimento bahrida que salvou o Egito da inva-
so, vencendo e aprisionando Lus IX. Quando o novo sulto chegou, a vitria
estava assegurada, e os bahridas apareciam como a principal fora no Estado.
Turnshh rapidamente tentou impor-lhes sua autoridade, e foi assassinado
(maio de 1250); com a morte do ltimo soberano aibida do Egito, o poder
voltava aos Mamelucos. Para evitar a reao dos outros Aibidas, mantiveram
por certo tempo a viva de al-Mlik al-Slih no sultanato, associada a um
deles mesmos. Isso, porm, no impediu a guerra com os prncipes da famlia
aibida, nem as intrigas que estes souberam provocar entre os Mamelucos, que
talvez perdessem o poder se uma segunda vaga mongol no viesse mostrar que
somente eles eram capazes de defender o Isl. Em 1258, os mongis tomaram
Bagd, e o califa abssida foi executado por ordem do neto de Gengis Khn,
Hulagu. Os principados aibidas foram rapidamente ocupados, e os invasores
alcanaram Gaza. Se retardaram a entrada no Egito, foi apenas por razes da
poltica interna mongol7. O sulto mameluco Kutuz, aproveitando-se dessa
demora, derrotou, em setembro de 1260, em `Ayn Djlt, perto de Nablus,
as foras mongis que ficaram. Os mongis tiveram que recuar at a outra
margem do Eufrates; a permanncia do regime mameluco estava assegurada.



6     A tomada do poder por uma casta militar no Egito no constituiu um fenmeno isolado  veja-se o
      caso dos Seldjcidas, em Bagd. Do sculo XIII ao XV, at a poca de Tamerlo, a sia exerceu intensa
      presso sobre o Oriente Mdio.
7     Tratava-se essencialmente da morte do grande Khn Mongke, irmo de Hulagu, ocorrida aps a conquista
      de Alepo e Damasco pelos mongis. Pressionado pelas circunstncias, Hulagu regressou  Prsia, deixando
      na Sria apenas parte de seu exrcito.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                        425



    O poder dos Mamelucos turcos nasceu, portanto, dos servios por eles pres-
tados ao Isl, que os prncipes aibidas, seus senhores, no tiveram foras para
guardar dos perigos cristo e mongol. A ameaa mongol e o choque provo-
cado no mundo muulmano, j desamparado devido ao fim trgico do califado,
marcaram de forma duradoura a constituio do sultanato mameluco e sua
poltica: o Estado Mameluco foi simplesmente a perpetuao de uma orga-
nizao sociomilitar de facto, que, nascendo da resistncia  agresso externa,
viabilizou-se pelo gnio militar e poltico de um dos emires do regimento
bahrida, que tomou o poder pela fora em 1260: Baybars.
    A chegada dos mongis havia modificado profundamente a situao no Oriente.
Aproveitando-se da diversidade de religies que marcava os recm-chegados, os
prncipes ocidentais pensaram montar uma coalizo contra o Isl junto com esses
aliados inesperados, que haviam destrudo o califado. As feitorias crists na costa
srio-palestina voltavam, assim, a constituir um perigo: embora em sua maioria se
mantivessem neutras durante a invaso mongol, bem poderiam servir de pontos
de apoio a futuros ataques. Portanto era preciso destru-las. A ameaa mongol
aterrorizava, se comparada com as foras que os Mamelucos lhe podiam contrapor.
A sorte destes era que os prprios mongis se encontravam divididos: Hulagu
e seus descendentes, os Ilkhn da Prsia, que instalaram sua capital em Tabriz,
estavam em conflito com os Khn do Kipck, que se haviam convertido ao Isl
e permitiam que os Mamelucos recrutassem escravos turcos em seu meio. O
motivo do conflito era a Anatlia; como no resto do Oriente, tribos turcomanas
a haviam invadido no decorrer do sculo XI, e, valendo-se da passividade mais ou
menos benevolente dos bizantinos, ali se instalaram, sob a direo dos prncipes
dissidentes da famlia seldjcida (os Seldjcidas ditos "de Rum", isto , os instalados
no antigo territrio bizantino, em oposio aos "grandes Seldjcidas", do Iraque).
Esse sultanato, que teve incio brilhante, foi subjugado em 1243 pela primeira vaga
mongol, a dos mongis do Kipck; porm, na distribuio dos papis no interior
do grande imprio asitico, coube aos mongis da Prsia o controle da Anatlia
dos turcomanos  o que resultou em vrios conflitos, nos quais, por mais de uma
vez, salvou-se o Estado mameluco.
     considerando toda essa situao, dominada pelo fator mongol, que melhor
se pode avaliar a poltica do novo sulto, al-Mlik al-Zhir Baybars (12601277).
Aproveitando-se das trguas proporcionadas aos muulmanos pelas lutas entre
khanatos rivais e pelas tenses internas que ocorriam quando um prncipe mongol
sucedia a outro, Baybars destruiu as bases mais perigosas dos cristos na Sria e na
Palestina (entre 1265 e 1268, e novamente em 1270, ante a ameaa de novo ataque
ocidental, que, porm, foi desviado para Tnis no ltimo instante); e em 1277,
426                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



j na Anatlia, onde as tribos turcomanas toleravam mal a dominao mongol,
comandou uma expedio que veio a afirmar o papel que o novo poder mameluco
entendia desempenhar na proteo de todos os muulmanos. Os grandes sultes
que reinaram depois de Baybars  al-Mlik al-Mansr Kal`n (1279-1290) e
al-Mlik al-Nsir Muhammad Ibn Kal`n (13101341)  deram prosseguimento
a sua empreitada. As tentativas dos mongis se repetiam: em 1282, chegaram at
Homs; em 1300, at Damasco; em 1310, voltaram a atravessar o Eufrates, que se
tornara ento fronteira do Estado. A conquista da ltima praa-forte dos cruzados
na costa palestina, So Joo de Acre, em 1291, foi a resposta dos Mamelucos a
novos projetos de aliana mongol com os reis do Ocidente. A eliminao desse
perigo e a converso ao Isl dos Ilkhn da Prsia, ocorrida em 1295, pareciam
garantir aos muulmanos uma existncia sem mais ameaas. Contudo a tolerncia
acordada pelos Ilkhn em relao ao xiismo (1310), embora no fosse contnua,
comeava a liderar um confronto entre a maioria sunita do Oriente Mdio e um
bloco iraniano-mongol de tendncia xiita, que s podia inspirar desconfiana; a
ameaa, embora diminusse, no desaparecera. Somente a decadncia do Estado
dos Ilkhn permitiu a paz, em 1323. O Estado mameluco superara os perigos
que o haviam feito nascer; estendia sua hegemonia at os limites da Anatlia,
libertada dos mongis, onde a turbulncia turcomana se dissipara no confronto
com diversos principados. O principado dos Otomanos, no norte, havia retomado
sua velha tradio de luta e relaes ambguas com o que restava de Bizncio, e
sua importncia ainda era pequena. Nessa poca, o Estado mameluco apareceu,
realmente, como a grande potncia do Isl.

      O poder mameluco e a frica
    No espanta que esse poder, to duramente conquistado contra as ameaas
tanto da Europa como da sia, v afirmar-se na frica. As vias responsveis pela
prosperidade mameluca pertenciam, na maior parte, ao continente africano. O
grande comrcio com o Extremo Oriente continuava utilizando a rota do mar
Vermelho e do vale do Nilo: o Imen teve que reconhecer a hegemonia egpcia,
que tambm procurou impor-se nas etapas menores do trfico, aliandose com
os emires de Dahlak8, por exemplo, ou reivindicando a soberania sobre Sawkin e
Musawwa. O inimigo mongol tentou desviar para o golfo Prsico o rico comr-
cio, e por certo tempo as especiarias tambm adotaram as rotas mongis. Mas
os negociantes de Veneza, Gnova e Barcelona acabaram tendo que se curvar 


8     Ver WIET, 1951-2.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                                          427



evidncia dos fatos: a partir de 1340, a rota do mar Vermelho, que alimentava os
portos egpcios e as feitorias em recuperao do Levante, praticamente no teve
mais rival. Era pelo grande rio africano que viajavam as especiarias. Os mercadores
karm9 deveram-lhe sua fortuna, e suas atividades estenderam-se  frica ociden-
tal, onde as crnicas registram que um dos mais notveis dentre esses senhores do
grande comrcio internacional veio a morrer em Tombuctu, em 1334.
    Esses relacionamentos africanos so indissociveis do conjunto das relaes
polticas e culturais. Pelo menos a partir de 1261, quando Baybars se instalou
no poder, os prncipes africanos e seus sditos comearam a fazer peregrinaes
a Hidjz passando pelo Cairo. Suas visitas, que se faziam notar, despertaram no
pblico culto o interesse pela existncia dos reinos muulmanos da frica. Foi
ento que Ibn Fadl Allh al-`Umar redigiu sua enciclopdia geogrfica, cuja parte
referente  frica constitui hoje fonte fundamental para o historiador. J ao povo
do Cairo chamaram mais a ateno as marcas de munificncia: a fundao de uma
madraa maliquita pelo soberano do Kanem, em al-Fustt, ou a largueza com que
o mansa Ms do Mali distribuiu ouro, durante a sua peregrinao de 1324. O
ouro do Mali contribuiu para alimentar a cunhagem da moeda egpcia. Tambm
os sultes reservaram aos prncipes africanos uma boa acolhida, por sinal no
sem a inteno de ampliar a influncia poltica egpcia. Esta, calculavam eles, se
expandiria na frica na esteira dos txteis de luxo, das maneiras oficiais da corte,
dos livros que os visitantes encontravam na grande metrpole.
    Naturalmente, graas  grandeza e  prosperidade do Imprio Mameluco,
o poderio egpcio irradiava-se sobre a frica. Mas tambm se afirmava de
maneira mais voluntria, e mais brutal, nas regies prximas ao Egito: em 1275,
foi anexado o norte do reino cristo da Nbia, e instalados prncipes vassalos
em Dongola, os quais, aos poucos, ali foram se fixando. Na sua expanso, alis,
o Estado egpcio contou com auxiliares eficazes: os bedunos. Os Ban Kanz,
ancestrais dos atuais Kenz, que mais tarde se instalaram entre Assu e a fron-
teira do Sudo, contriburam ativamente para a destruio do reino cristo de
Dongola, do qual se tornaram prncipes depois da adoo oficial do Isl, em
131710. Os Djuhayna e outros grupos de rabes do sul, como os Bali, os Djudhm
e os Tayy, j haviam avanado em grande nmero, por essa poca, rumo ao sul,


9    Os especialistas no chegaram a um acordo sobre o sentido de karm. Trata-se de leitura errada, ou
     quem sabe esse termo designaria os comerciantes do Kanem (Kanimi)? Se vlida esta ltima hiptese, o
     Kanem ter desempenhado, no desenvolvimento do comrcio oriental, um papel at hoje insuspeitado.
10   A igreja de Dongola, transformada em mesquita (Dunkula al-'adjz), tem uma inscrio que marca a
     data exata da converso: 29 de maio de 1317 da era crist (16 Rab` I, 717).
428                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



para o Darfr e a frica central, partindo da regio de Asyut e de Manfalut. A
Nbia deixou de constituir um obstculo, e parece que o poder egpcio, que at
os tempos de al-Mlik al-Nsir Muhammad tratara de impedir, na medida do
possvel, os grandes deslocamentos de nmades, passou a v-los com simpatia:
por um lado, a partida de grupos turbulentos aliviava provisoriamente o Egito
e, por outro, esses mesmos homens tornavam-se sditos distantes no extremo
sul, com os quais a chancelaria do Cairo mantinha correspondncia. J em 1320
Manfalut, que se tornara um centro de venda de escravos, alimentava com ren-
dimentos fiscais (ikt`) o tesouro privado do sulto. Isso era apenas o comeo,
porm; o que mais chamou a ateno dos muulmanos africanos, no Egito dos
Mamelucos, foi o modelo de civilizao que este lhes ofereceu.

      O Isl egpcio
    O mvel fundamental do Estado mameluco no podia deixar de ser o mesmo
do Estado aibida: defender o Isl contra todos os ataques  embora j tivesse
praticamente desaparecido o inimigo interno. Os ensinamentos sunitas haviam-se
difundido pelo Egito; no Cairo, em Alexandria, em Ks e at em pequenas loca-
lidades do interior, fundaram-se madraas, entre as quais umas eram construes
suntuosas que deviam servir  glria dos emires e grandes comerciantes que
as houvessem institudo, enquanto outras no passavam de estabelecimentos
modestos, cujos recursos apenas bastavam para pagar os professores e manter os
estudantes. Em todo caso, porm, contribuam para formar a classe de homens
eruditos e religiosos desejada por Saladino. Constitura-se, portanto, um meio
sunita propriamente egpcio, no seio do qual a provncia, atravs de suas elites,
podia participar da vida da capital. A mstica ortodoxa, fiel  inspirao de
al-Ghazzl, animava a vida espiritual: formavam-se shadhil, ou confrarias
religiosas; o ensino da tradio muulmana fazia renascer a histria, atravs
das coletneas biogrficas ou das sumas enciclopdicas de um al-Udfuw, de
um al-Nuwayr, de um Ibn `Abd al-Zhir, de um Ibn al-Furt (para s men-
cionarmos egpcios). Nos postos mais elevados da chancelaria estatal, ainda se
recorria aos servios de srios, como a um Fadl Allh al-`Umar, mas a obra
de um al-Kalkashand, por volta do final do sculo XIV, j mostrava os meios
egpcios preparados para retomar a grande tradio dos secretrios do califado
abssida. O Isl sunita havia constitudo sua base egpcia.
     verdade que a casta militar mameluca, outra herdeira do regime aibida,
nem sempre encontrava, entre esses juristas, professores e religiosos do Egito,
a aprovao irrestrita que teria desejado para sua gloriosa defesa do Isl. Aos
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                    429



egpcios  que, ao contrrio dos srios, nunca tinham sido diretamente atingidos
pelas ofensivas mongis  parecia que a proteo dada aos muulmanos no
justificava o luxo dos emires, sustentado pelos recursos que a casta militar exigia
do pas. Os juristas sentiam-se um pouco como representantes do povo egpcio
frente aos mamelucos estrangeiros e a uma administrao financeira que, em
grande parte, continuava confiada a cristos. Os soldados que chegavam a emires
eram homens rudes, muitas vezes insolentes, com formao religiosa rudimentar
e mais fluentes na lngua turca do que na rabe. Seu ofcio era a guerra. Mas o
povo menos culto era sensvel ao prestgio conferido pelas vitrias muulmanas e
 beleza das construes ordenadas por Baybars, Ibn Kal`un e al-Mlik al-Nsir
Muhammad. A pompa dos sultes, herdada do fausto dos Fatmidas, conquis-
tava os coraes, e as prticas religiosas espetaculares, embora de ortodoxia
duvidosa, de estranhas confrarias originrias do Extremo Oriente e protegidas
pelos emires, seduziam as almas simples. O islamismo do povo comum coinci-
dia com o da casta militar, com pequenas diferenas, o que reforava a unidade
poltica mameluca. O importante no era, doravante, garantir a coeso social e,
por meio desta, afirmar a glria do Isl?
    A glria do Isl era maior no Egito do que em qualquer outro lugar, pois
o Cairo se convertera na residncia do califado abssida restaurado. Baybars
acolhera um membro da famlia do antigo califa, que escapara ao massacre e
lhe pedia ajuda para reconquistar sua capital. Obteve apenas um contingente
simblico e morreu em combate; mas, assim como em Bagd no sculo XI, no
tempo em que um sulto exercia o poder,  frente da casta militar, em nome
e por conta do califa, Baybars recebera do Abssida a investidura oficial que
legalizava seu sultanato. Outro sobrevivente teve reconhecida a sua linhagem
abssida e o califado, mas no quis lanar-se num empreendimento militar sem
perspectivas; assim, o califa do Isl instalou-se definitivamente no Cairo, em
1262, e as oraes passaram a ser feitas em seu nome. Logo eclodiu o conflito
entre o sulto e o califa, no qual os juristas se viam tentados a identificar o
nico prncipe legtimo; mas, no contando com maiores apoios, o Abssida foi
submetido a uma vigilncia permanente em sua residncia. O mesmo aconteceu
com muitos de seus sucessores; porm os sultes no ousaram desfazer-se desses
califas simblicos, e no entanto incmodos, cuja existncia sempre lhes recordava
que o sultanato, no Isl, constitua apenas um poder de facto: fora do Egito, e
mais particularmente entre os muulmanos da frica, a presena do califa no
Cairo aumentava a glria do sulto.
    O Cairo, onde por essa poca a coletnea das Mil e uma noites estava se com-
pletando, tornou-se a nova Bagd. Aquela cidade no era apenas a capital do Egito
430                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



ou do Imprio Mameluco: da Sria e de todos os pases do Isl vinha-se transmitir
em suas madraas uma cultura  qual o meio egpcio apenas comeava a dar sua
contribuio. Essa cultura era certamente menos rica que a dos tempos clssicos, de
inspirao sunita mais uniforme; havia, porm, uma preocupao de no se deixar
perder a herana do passado, de classific-la e assimilar tudo o que o novo esprito
do Isl militante permitisse conservar. Para esse fim compilaram-se enormes sumas,
das quais a obra do historiador Ibn Khaldn (que chegou ao Egito em 1382)
constituiu um dos melhores exemplos  embora a lio genial desse aristocrata
conservador, que vrias vezes exerceu a funo de grande cdi maliquita do Egito,
fosse apenas uma, dentre as muitas que ento se davam nas madraas do Cairo.

      O sistema poltico mameluco
    Esse florescimento da sociedade muulmana ocorreu sob a proteo dos
mamelucos turcos. Era no interior desse grupo, constantemente renovado, com
algumas dezenas de milhares de homens dedicados  defesa do imprio, que
se dava o jogo propriamente poltico. Os mamelucos turcos vinham, em sua
maioria, do Kipck. Das margens do mar Negro, os comerciantes genoveses os
levavam at Alexandria, enquanto grandes negociantes do Oriente muulmano
tambm os importavam por via terrestre. Mas havia igualmente desertores das
mais diversas provenincias, at mesmo mongis. A coerncia do seu meio assen-
tava na uniformidade da educao recebida: treinamento fsico e militar, a que
se acrescentavam rudimentos de instruo para tornar muulmanos esses jovens
escravos, que um dia talvez fossem libertos e pudessem aspirar a altas posies.
A manuteno da casta militar continuava a basear-se na repartio varivel
das concesses fiscais (ikt`) em que se dividia o pas: o sulto tinha direito a
uma parte das concesses, que foi ampliada por al-Mlik al-Nsir Muhammad
para melhor consolidar seu prprio poder; os outros emires recebiam o restante
conforme sua posio. Esses recursos, alis, contribuam indiretamente para o
desenvolvimento das cidades: pois era nos centros provinciais e na capital que
residiam, em geral, os mamelucos. No Cairo, residncias abarrotadas de provi-
ses, dinheiro e produtos valiosos do artesanato urbano abrigavam os emires e
seus homens, sempre a postos para atender aos chamados do sulto, instalado
na cidadela de Salh al-Dn, que dominava a cidade.
    Os mecanismos polticos asseguravam uma seleo impiedosa11. Baybars
e Kal`n tinham sado, ambos, das fileiras do regimento bahrida. Seguindo


11    DARRAJ, 1961.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                  431




Figura 15.2   Cairo: tmulo de Kayt Bay (1472-1474). Arquitetura mameluca.
432                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 15.3   Cairo: prtico monumental da mesquita de Kansuh al-Ghri (construda em 1504).
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                                          433




Figura 15.4 Cairo: interior da mesquita de Djawhar al-Lla, de origem etope (1430). (Fonte das figs. 15.2
a 15.4: Wiet & Hautecoeur, 1932.)
434                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



o exemplo aibida, adquiriram seus prprios mamelucos, e desde ento todo
emir, chegando ao sultanato, passou a ter como primeira preocupao constituir
uma fora que o capacitasse a exercer realmente o cargo. Nem todos o conse-
guiram, pois podia acontecer que fossem depostos antes de comprarem nmero
suficiente de homens. Se o conseguiam, porm, estava garantida a estabilidade
poltica: formava-se um novo grupo de mamelucos, designados pelo nome do
sulto que os recrutara, estreitamente unidos em torno de seu senhor at a morte
deste, quando os vnculos de camaradagem e o mrito pessoal talvez fizessem
surgir do prprio grupo o novo sulto. Cada sulto, portanto, criava um novo
grupo, decidido a conservar-se nos principais cargos do Estado, que ameaaria,
enquanto aquela gerao subsistisse, o poder do sulto seguinte.
    Compreende-se, nesse contexto, que a continuidade dinstica no pas-
sasse de uma aparncia, a despeito da vontade de numerosos sultes e apesar
de muitas vezes se utilizar a expresso "dinastia da famlia de Kal`n" para
designar a dominao dos mamelucos turcos. Com efeito, mais afortunado
que Baybars (12601277), Kal`n", que tomou o poder depois dele (1279
1290), conseguiu transmitir o sultanato a seu filho al-Mlik al-`Ashrf Khall
(12901293), o conquistador de So Joo de Acre, embora este o tenha
conservado por pouco tempo. Duas vezes seu irmo Muhammad tornou-se
sulto porque, nas duas ocasies, os emires que deviam assumir o sultanato
no se sentiam fortes o bastante para impor-se aos rivais; j seu terceiro e
mais duradouro sultanato (13101341) deveu-se ao prprio esforo. Depois
de sua morte, os doze filhos e netos, que reinaram de 1341 a 1382, prati-
camente no chegaram a exercer efetivamente o poder seno por poucos
meses, dada a pouca idade que tinham quando assumiram o cargo. O governo
nessa poca na realidade foi exercido por grandes emires, Ksn, Tz e
Shaykh, cujo prestgio se manteve vivo na arquitetura urbana do Cairo,
pelas construes que eram a manifestao de seu poder. Em compensao,
a belssima mesquita de al-Mlik al-Nsir Hasan (1356-1362) foi a nica
grande construo sultnica.
    A histria desse perodo ainda no foi escrita, mas pode-se perguntar se
foi o respeito  dinastia que impediu aqueles trs grandes emires de aspirarem
ao sultanato. Ou ter sido porque o sistema comeava a falir, faltando-lhes
assim poder suficiente para terem xito? Quando o emir Barkk se tornou
sulto, em 1382, inaugurando um reinado que, com curta interrupo, duraria
at o fim do sculo (1399), restabeleceu a grande tradio mameluca; mas ele
era um circassiano, e um novo tipo de vnculo, de origem tnica, sustentava
seu poder.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                                               435



     O Egito no fim do sculo XV: os contatos africanos (os Mamelucos
     circassianos)
    Pouco se conhece sobre a evoluo do sultanato mameluco na sua segunda
fase, que corresponde principalmente ao sculo XV; grande parte da histria desse
perodo baseia-se em conjeturas. Costuma-se situar a ruptura entre as duas fases em
1382, quando se instaurou o poder dos Mamelucos circassianos, e no h dvida de
que,  poca, podia-se perceber sensivelmente que a vida poltica passava a obedecer
a regras diferentes. Mas a transformao foi mais profunda e comeou antes dessa
data. Por outro lado, foi somente mais tarde, como resultado da grave crise que
afetou o sultanato e o Egito no incio do sculo XV, que o regime mameluco tomou
outra fisionomia. Surgiu um novo Egito, que j no era mais o medieval.

     Mudanas profundas
   Houve mudana no modo de recrutamento dos mamelucos: o khanato do
Kipck, em decadncia durante a segunda metade do sculo XIV, no tinha
mais condies de fornec-los em grande nmero. Procurou-se ento recrut-los
especialmente na regio do Cucaso, e os circassianos, que no eram desconhe-
cidos no exrcito mameluco, impuseram-se aos demais grupos em virtude de seu
senso de solidariedade tnica e familiar. Seu exclusivismo perante as outras raas
acabaria reduzindo ainda mais a classe poltica real, o grupo em cujo interior
podiam ser escolhidos os sultes: a raa, tanto quanto a rgida formao nos
quartis, era o que conferia o direito de acesso ao trono12. Embora necessidades
urgentes obrigassem seguidas vezes  aquisio de mamelucos de origens varia-
das, estes no participariam do jogo poltico, reservado aos circassianos. Soldados
limitados ao ofcio das armas, os mamelucos de outras provenincias tnicas
paulatinamente vieram a medir sua lealdade pelo valor de seu soldo.
   Se a composio e a estrutura da casta militar se modificaram, os recursos
tradicionais advindos do ikt` tambm se alteraram, ou seja, reduziram-se. O
Egito, como por sinal a Europa, j comeava a ser atingido por epidemias, como
as de 1349 (a Peste Negra) e de 1375, que se tornariam frequentes no correr do
sculo XV. Elas afetaram severamente os mamelucos, cujos contingentes tinham
que ser renovados mais rapidamente, e tambm os habitantes das cidades e
os camponeses egpcios. O resultado foi que, baixando o rendimento da terra,
tambm caiu a receita do ikt`.


12   O nome burdjiyya ou burdjis, dado aos mamelucos circassianos, tem origem na prtica poltica e militar do
     sulto "al-Mansr Kal`n, que aquartelara em torres (abrdj, no singular burdj) um regimento formado
     por seus prprios mamelucos.
436                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



    A essas mudanas duradouras, resultado de situaes s quais o poder mame-
luco tinha que se adaptar, acrescentaram-se as consequncias da poltica adotada
pelos sultes turcos no alto Egito, igualmente decisivas. Havia-se tolerado que
as tribos bedunas se instalassem na regio e a usassem como base para suas
expedies contra o sul e a frica central (nessa poca os Djudhm fizeram
incurses no Bornu13). Essas tribos tornaram-se poderosas no alto Egito e, aps
os dez anos de conturbaes e de represso infrutfera que se seguiram  morte
de al-Mlik al-Nsir Muhammad, foi necessrio admitir sua presena. Elas at
foraram os Ban Kanz, implantados na Nbia, a recuarem na direo de Assu,
tornando, portanto, impraticvel a pista de `Aydhb a Ks, que deixou de ser
utilizada por volta dos anos 1360. Ksayr substituiu `Aydhb, por certo tempo,
como porto de desembarque de especiarias. Mas, como os emires procurassem
compensar a queda dos seus rendimentos mediante cobranas excessivas e arbi-
trrias, os mercadores acabaram preferindo desembarcar suas preciosas cargas
o mais longe possvel ao norte, em Tr, na costa da pennsula do Sinai, usada a
partir de 1380. Assim, no foi mais pelo Nilo que circularam as especiarias, o
que iria alterar a utilizao humana do espao egpcio (ver fig. 15.1).
    Quando Barkk chegou ao poder, essas numerosas transformaes eram ainda
imperceptveis, reveladas apenas por certa desordem na conduta do Estado, pela
perda de autoridade e pela turbulncia entre os emires, que se haviam empobre-
cido. O sultanato de al-Mlik al-Zhir Barkk (1382-1399) marcou-se, assim,
por um controle mais estrito sobre as provncias, pela transferncia dos berberes
Hawwra do delta ocidental para o alto Egito, com o fim de reduzir o papel
das tribos rabes, e pelo gradual fortalecimento do poder central. Seu governo
parecia dar continuidade s tradies dos grandes sultes turcos: o Cairo voltou
a ver construes sultnicas.

      A crise do incio do sculo XV
   A verdadeira crise eclodiu depois da morte de Barkk: crise interna e externa, que
por pouco no ps fim ao sultanato mameluco. No exterior, a hegemonia mameluca
viu-se ameaada na Anatlia. Um principado turcomano, o dos Otomanos,
ganhara nova dimenso graas  guerra que movia contra os cristos, at
nos Balcs. (Desde 1366, a Europa pensava em socorrer Constantinopla.)


13    Em 1391, o rei do Bornu escreveu uma carta ao sulto Barkk, queixando-se da m conduta dos
      Djudhm e de outras tribos rabes, que atacavam seu povo e vendiam sditos seus a mercadores do
      Egito, da Sria e outros pases. Ver AL-KALKASHAND, 1913-9, v. 1, p. 306, v. 8, p. 116-8.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                      437



Os Otomanos reivindicavam a sucesso do sultanato seldjcida de Rum e pro-
curavam, pouco a pouco, dominar os outros principados. Suas tropas comeavam
a penetrar em regies sob protetorado mameluco quando um segundo perigo,
ainda mais inquietante, apareceu: na Asia central, Tamerlo, oficial dos prncipes
mongis, empenhara-se na misso de restaurar o grande imprio, desta feita
em nome do Isl purificado pela espada  recomeava o terrvel avano mongol
para oeste. Em 1400, Tamerlo atacou os Mamelucos. Rapidamente chegou a
Damasco e poderia entrar no Egito sem maiores dificuldades; porm tambm
necessitava restabelecer o domnio mongol na Anatlia e preferiu dedicar-se
primeiro a essa tarefa. Depois de ter massacrado os Otomanos (1402), alguns
problemas obrigaram-no a regressar  Asia.
    Uma vez mais, o Egito escapara da invaso, e o sultanato mameluco voltava
a encontrar no Leste condies favorveis para sua influncia. O mpeto oto-
mano rompera-se por um bom tempo, e os principados turcomanos da Anatlia
retomavam suas rivalidades tradicionais, como outros, no Iraque, de instituio
mais recente. Mas que hegemonia o sultanato mameluco poderia reivindicar? Os
mongis haviam abandonado espontaneamente o territrio por eles devastado,
e dessa vez era aos prprios invasores que os prncipes turcomanos deviam o
retorno de sua autonomia. Poupado por milagre, o Imprio Mameluco nada
podia fazer, e essa impotncia iria persistir devido a males que o corroam por
dentro.
    Aps a morte do sulto Barkk, seus mamelucos naturalmente contestaram a
transmisso do poder ao filho, Faradj. Mas talvez porque as solidariedades polti-
cas, que em outros tempos se forjavam num longo aprendizado em comum nos
quartis, j no fossem fortes o bastante para permitir a um dos emires impor-se, ou
ento porque nenhum tivesse poder suficiente para tanto (como antes da ascenso de
Barkk), a casta militar se dilacerou em infindveis rivalidades, sangrentas e vs. Os
nimos estavam to perturbados que, quando finalmente Faradj perdeu o poder
e a vida, em 1411, por um momento se confiou o sultanato ao califa abssida. O
regime parecia vacilar. Ainda mais graves eram os males que atingiam o Egito,
responsveis pela longa demora na soluo da crise poltica. A insuficincia das
cheias do Nilo e a fome que comeara em 1403, mais a peste de 1405 reduziram
a populao, arruinaram as cidades e paralisaram a administrao. No alto Egito,
os bedunos, berberes ou rabes dominavam: durante toda a dcada puderam
governar a regio praticamente sem sofrer nenhum controle do Cairo. O Egito
conhecia uma crise de amplitude raramente igualada em toda a sua histria. O
Estado mameluco iria desaparecer ou transformar-se.
438                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



      O Egito perante o perigo cristo: a luta contra os portugueses  a
      reconstruo e o novo Egito
    Nessas difceis circunstncias, um mameluco de Barkk, Shaykh, tornou-se
sulto sob o nome de al-Mlik al-Mu`ayyad (14121421) e comeou a reagir, com
a mxima energia, a todos os problemas. Sucedeu-lhe outro mameluco de Barkk,
al-Mlik al-`Ashraf Brsby (14221438), que completou a tarefa de restaurao
da ordem. A administrao recuperou sua regularidade, e o alto Egito, talvez sem
a devastada provncia de Assu, voltou ao controle do poder mameluco, graas 
colaborao dos berberes Hawwra, que haviam instalado seu domnio em Djirdja
durante os anos em que o Cairo no exerceu sua autoridade. Mas, para o poder,
o mais importante era encontrar um meio de compensar a queda nos recursos
financeiros do sultanato, causada pela crise  pois as epidemias continuaram at
o fim do sultanato de Brsby e voltaram a irromper mais no final do sculo.
     Ora, havia um domnio no qual o Egito no tinha concorrentes a temer, espe-
cialmente depois das guerras mongis: o comrcio das especiarias. Provenientes de
Aden, as mercadorias ento atravessavam o Egito pelas vias mais curtas: de Tr
at Alexandria, Roseta ou Damieta, ou se dirigiam para os portos srios. Brsby
entendeu (14251427) dever reservar exclusivamente ao sultanato as vantagens
desse comrcio. Para nada perder dele, as mercadorias seriam reunidas e taxadas em
Djeddah, porto do Hidjz ento parte integrante do imprio (os contemporneos
at diziam: do Egito), e a venda aos comerciantes ocidentais ficaria a cargo de rgos
oficiais. Essa mudana evidentemente lesava os interesses dos prncipes iemenitas,
que controlavam Aden, do grande comrcio privado (inclusive os Karm, embora
estes j estivessem em decadncia) e dos comerciantes do Ocidente, forados a
comprar pelo preo estabelecido pelo sulto (sobretudo os venezianos, que durante
o sculo XV respondiam por dois teros das compras feitas ao Egito). As reaes
foram fortes, mas o sulto persistiu em sua poltica. Tambm precisava proteger
esse comrcio, agora estatizado, especialmente no Mediterrneo, cujas costas eram
assoladas por corsrios catales e genoveses. O reino cristo de Chipre, suspeito de
prestar-lhes apoio, foi alvo de uma incurso, na qual seu rei foi levado preso (1425
1426). Operaes anlogas, porm sem o mesmo sucesso, foram tentadas poste-
riormente contra Rodes (14401444). Esse monoplio proporcionou a Brsby e
aos sucessores os recursos de que necessitavam e deu  sociedade egpcia nova base
econmica, que se percebia por vrios indcios.
    Contra os emires, que tinham de se contentar com o rendimento cada vez
menor do ikt`, o sulto adquirira nova fora, que nenhuma oposio, por mais
perigosa, voltaria a ameaar, a no ser em alguns casos muito particulares. Os
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                    439



nicos problemas devidos  casta militar vinham, ento, dos novos recrutas, que
o exclusivismo do grupo circassiano reduzia  condio de simples mercenrios,
treinados depressa demais, vidos e reivindicadores. A natureza do sultanato estava
se modificando. No eram mais emires jovens ou na flor da idade, que, com o
apoio ativo de seus homens, tomavam o poder, no qual exerceriam suas qualida-
des e satisfariam suas ambies  porm homens maduros ou mesmo idosos, que
assumiam um encargo s vezes pesado demais para eles e que se portavam mais
como polticos do que como soldados. Esses homens tambm se consideravam
bons muulmanos, o que atenuou a oposio entre a casta militar e a dos sbios
e religiosos. A legitimidade dos sultes no foi mais contestada, e isto reduziu
bastante a importncia da presena, cada vez mais discreta, dos califas abssidas.
    A proporo dos muulmanos em relao aos cristos parece haver aumen-
tado muito no Egito dessa poca. Durante os anos difceis do primeiro quartel
do sculo, quando o povo mido era tentado a atribuir s minorias a responsabi-
lidade por seus males, houve inmeras converses. O Egito tornou-se mais uni-
formemente muulmano, frente a uma presso do Ocidente, que se manifestava
tanto pelas incurses dos corsrios na costa (at se falava em uma aliana secreta
entre os cristos do Ocidente e o negus da Etipia, para tentarem, uma vez mais,
atacar o Isl pela retaguarda) quanto pela presena de mercadores, que vinham
livremente ao Cairo com seus tecidos caros e suas moedas de ouro. Em suma,
parece que essa renovao do sultanato atravs da explorao mais completa
possvel das vantagens do grande comrcio internacional conferiu  sociedade
mameluca do Egito um vigor novo, uma estabilidade e uma paz que at ento
no conhecera  mas tambm lhe causou a dependncia das relaes de troca
que a ligavam ao Ocidente, fragilidade que j se comeava a perceber.
    Contudo os viajantes ocidentais que se haviam aventurado fora dos funduk das
cidades litorneas, e cujas memrias tm enorme valor para os historiadores, no
eram os estrangeiros mais numerosos no Cairo. Os que vinham da frica ocidental
constituam uma colnia em constante mudana, instalada nos bairros perifricos,
mais vulnervel s epidemias, quando se detinham por curtos ou longos perodos,
s vezes definitivamente, em seu caminho para o Hidjz. Os peregrinos africanos,
cujo nmero parece haver aumentado muito por volta da metade do sculo XV,
agora tambm dispunham, como as delegaes oficiais enviadas de outros pases
aos lugares santos, de seu "emir da peregrinao". O sunismo dos mestres do Cairo
ou do Hidjz, que vemos citados no Ta'rkh al-fattsh e no Ta'rkh al-Sdn, dera
frutos, criando na frica, como anteriormente no Egito, sua base social cujo papel
na vida poltica dos reinos africanos ganhava importncia. Um exemplo estava nas
peregrinaes de prncipes, a quem o califa abssida dava a investidura, quando
440                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



de sua passagem pelo Cairo, como foi o caso do askiya Muhammad, em 1496. J
os sultes mamelucos, que lanavam pesados impostos sobre os peregrinos, eram
sensveis antes de mais nada ao precioso metal que estes portavam.
    Os contatos com a frica se faziam igualmente atravs do alto Egito. Os emi-
res bedunos, que se haviam tornado proprietrios de terras, grandes comerciantes
e bons muulmanos, por sua vez dominavam cada vez mais o pas, enriquecendo-se
com as trocas: os cavalos que criavam e os escravos que mandavam vender no Cairo14
eram itens importantes do comrcio. As especiarias no circulavam mais pelo alto
Egito, que se convertera num mundo distinto do formado pelo delta, pois conti-
nuava a ter numerosa populao crist e conservava um ritmo mais lento de vida.
Assim, foi especialmente no delta que floresceu a riqueza, cheia de contrastes,
do Egito dos circassianos, no qual o animado comrcio das cidades colidia com
a pobreza dos campos. Multiplicavam-se as construes de estilo novo, de que o
longo sultanato de al-Mlik al-`Ashraf Kayt Bay (14681496), que terminou de
dar ao Cairo o aspecto que a cidade ainda hoje conserva, marcou o apogeu: foi o
coroamento definitivo dos esforos dos circassianos (ver figs. 15.2, 15.3 e 15.4).
    A dcada de 1480 sem dvida assinalou uma reviravolta na histria do sul-
tanato e do Egito. As dificuldades com o exterior comeavam a comprometer o
longo processo de reerguimento do pas, mas j ento o sculo XV egpcio, a des-
peito das condies difceis, marcava-se como um perodo a que no faltou nem
estilo nem originalidade. A influncia do Egito fora mantida, graas  majestosa
organizao de seu Estado e ao florescimento de sua cultura. A escola egpcia de
historiadores atingiu o auge de seu desenvolvimento, com destaques que vo desde
al-Makrz, que chegou a testemunhar o triste comeo do sculo, passando por
al-Ayn, Ibn Hadjar al-Askaln, Ibn Taghrbrd, al-Sakhw  todos egpcios e
filhos de mamelucos , chegando at os cronistas dos tempos difceis que estavam
por vir, lbn Iys e o prolfico al-Suyt, que se orgulhava de ver seu renome chegar
at o Takrr.


      Um novo contexto internacional
    Durante muito tempo o equilbrio das foras no Oriente mostrou-se favor-
vel aos circassianos. Os Timridas, sucessores de Tamerlo, prncipes pacficos e
protetores das artes, que governavam o Ir e a sia central, haviam desistido de
qualquer iniciativa belicosa efetiva. Alm disso, o fato de os grupos turcomanos


14    Ver KA`TI, 1913-4; AL-`UMARI, 1927.
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                       441



voltarem a se dividir politicamente permitiu que o Estado mameluco, uma vez
reorganizado, retomasse sem maiores riscos sua poltica tradicional de inter-
veno na Anatlia. Os sultes voltaram a ter seus protegidos. Esse turbulento
mundo turcomano, alis, requeria vigilncia: os Timridas viam as fronteiras
de seus Estados reduzirem-se sob presso dos turcomanos do Iraque, e os sul-
tes no deixaram de estar atentos aos numerosos conflitos que se produziam,
visivelmente conscientes dos limites de suas foras, que uma srie de incidentes
menores pusera em evidncia. Pretendendo controlar a evoluo poltica des-
ses recm-chegados ao Isl, com quem os mamelucos deviam sentir algumas
afinidades, o sultanato do Cairo desempenhava seu papel de grande potncia.
Mas, para obter resultados sempre pouco consistentes na sociedade turcomana,
de foras instveis porm em busca de unidade, terminaria por atrair para o
Egito, e dali para todo o norte da frica, a dominao de um grupo tnico que
inicialmente sequer cogitava de instalar-se em rea to extensa.
    Vencidos e divididos, os Otomanos comearam a recompor suas foras com
muita prudncia. Foi somente sob Mehmed II (14511481) que se retomou o
avano otomano: a queda de Constantinopla (1453) foi festejada no Cairo, mas
conferia ao Estado otomano em expanso a honra, embaraosa para os Mamelu-
cos, de campeo do Isl, enquanto os protegidos turcomanos dos Mamelucos na
Anatlia tornavam sua causa indefensvel na medida em que se aliavam com os
ocidentais, para evitar sua absoro pelos Otomanos. O confronto entre Mame-
lucos e Otomanos, inevitvel, deu-se sob Kayt Bay: um primeiro conflito indireto
comeou em 1468 e, felizmente para o Cairo, chegou ao fim em 1472, graas 
interveno dos turcomanos do Iraque, contra os quais os Otomanos precisaram
reunir todas as suas foras. Seguiu-se uma guerra aberta entre os dois sultanatos,
que durou de 1483 a 1491. A vitria mameluca, duramente alcanada e ao preo
da estabilidade interna do Estado, mais uma vez barrava a expanso dos Otoma-
nos. Estes concentraram seus esforos no Mediterrneo, na guerra santa contra
os ocidentais, com quem aprenderam a manusear armas de fogo. Mas o mundo
turco mano continuava em turbulncia, agora perturbado pelo movimento xiita dos
Sefvidas, que em 1501 conseguiram unir iranianos e turcomanos: o Ir, ento, ofi-
cialmente xiita pela primeira vez na histria, ameaava seus rivais Otomanos, sunitas.
Para explorar tal situao, que tanto podia reservar-lhes perigos quanto vantagens,
os sultes mamelucos precisariam ter muita perspiccia e, acima de tudo, dispor de
grande fora  essa fora, j abalada pela guerra, bruscamente lhes faltou.
    Foi ento que a expanso portuguesa no oceano ndico, atingindo ao mesmo
tempo o comrcio veneziano e os recursos financeiros do Estado mameluco
dele dependente, pareceu ameaar os alicerces econmicos do edifcio poltico
442                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 15.5 Candeeiro em vidro esmaltado (poca mameluca). (Fonte: Cairo, A life story of one thousand
years  969-1969.)
O Egito no mundo muulmano (do sculo XII ao incio do XVI)                   443



dos circassianos. A presena dos portugueses fez-se notar depois da viagem de
Vasco da Gama, em 1498. Eles passaram a comprar especiarias e organizaram
o bloqueio do mar Vermelho. Contornando a um s tempo a frica e o Isl,
os golpes que desferiram no poderio mameluco evidenciavam o quanto este
tinha seu destino ligado ao do continente africano. O ltimo grande sulto
circassiano, al-Mlik al- `Ashraf Kansh al-Ghr (15011516), ainda tentou
reagir. Seu prprio rival otomano, preocupado em exercer o papel de defensor
do Isl e vendo o perigo que ameaava o Hidjz', ajudou-o a constituir uma
frota. Mas, depois da derrota da esquadra egpcia em Diu, na costa ocidental
da India em 1509, restou ao Imprio Mameluco a defesa intransigente do mar
Vermelho. Tal impotncia deveria ter dissuadido o Cairo de qualquer atitude
de provocao a leste, onde o quadro poltico se modificava rapidamente.
    Com efeito, encorajados pelo Ocidente, os Sefvidas estavam criando difi-
culdades para os Otomanos. Quando Salm, o novo sulto otomano, num
mpeto de energia, quis reagir, no teve o apoio dos Mamelucos, apesar da
ajuda que lhes dava no mar Vermelho: no Cairo, os velhos reflexos da pol-
tica turcomana haviam prevalecido sobre a lucidez. Salm travou sozinho o
combate e, graas s armas de fogo otomanas, conseguiu deter a expanso do
xiismo (1514) limitando-o ao Ir. Decidiu ento pr fim  influncia nefasta
que seu rival mameluco, embora j incapaz de proteger o Isl sunita, se recusava
a deixar de exercer sobre o mundo turcomano. O destino do Imprio Mameluco
foi decidido numa nica batalha, em Mardj Dabik, ao norte de Alepo, em 24 de
agosto de 1516, na qual as armas modernas venceram os cavaleiros circassianos,
que as desprezavam. A morte, em combate, do velho sulto mameluco, as
intrigas no meio da casta militar, o prestgio do novo protetor do Isl sunita
e a indiferena dos egpcios transformaram em uma conquista completa e
fcil o que, de incio, parecia constituir apenas um limitado ajuste de contas.


    Concluso
    Quando a dominao dos Otomanos se estendeu ao Egito, em 1517, foi todo
um poder poltico que se esboroou. Como este se tornara patrimnio de uma
classe poltica restrita e que se renovava com dificuldade, acabara perdendo tanto
seus meios de sobrevivncia quanto a legitimidade, advinda da defesa eficaz
do Isl. Um governador otomano instalou-se no Cairo, e confirmou-se o poder de
um emir beduno em Djirdja; assim se oficializou a distino, que seria duradoura,
entre o Egito da costa e o Egito do interior. Mas as estruturas sociais em nada
444                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



se modificaram, mantendo-se assim por muito tempo. A sociedade mameluca
sobreviveria, portanto, a si mesma, como vestgio de um empreendimento pol-
tico e cultural que fora sua razo de ser e que detm um lugar de destaque na
histria do Isl e na da frica.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                  445



                                         CAPTULO 16


                A Nbia, do fim do sculo XII
                  at a conquista pelos Funj,
                   no incio do sculo XVI
                                                L. Kropcek




    Decadncia e morte dos Estados cristos da Nbia
    So poucos, na histria mundial, os exemplos de acordos internacionais que
se tenham conservado por tanto tempo quanto o bakt *, que durante seis sculos
foi considerado a base legal das relaes pacficas entre o Egito muulmano e
a Nbia crist1. Apesar dos ocasionais ataques de pequena escala e represlias
que se seguiam, a paz foi respeitada enquanto as mtuas obrigaes existentes,
inclusive o fornecimento de produtos, eram cumpridas, de maneira que, em
princpio, a trgua no deixava pairar qualquer dvida sobre a validade dos acor-
dos. Com todas as modificaes e suspenses temporrias a que esteve sujeito, o
bakt constituiu uma conveniente frmula de interdependncia econmica.
    Sob os Fatmidas, as relaes entre o Egito e a Nbia parecem haver realizado,
da melhor maneira possvel, o objetivo proposto de boa vizinhana e de uma
certa cooperao. Este objetivo atendia tanto aos interesses dos califas fatmidas,
que precisavam de escravos para os seus exrcitos e de paz em sua fronteira meri-
dional, quanto aos da Nbia, que ento atingia o apogeu de seu poderio poltico
e de seu desenvolvimento cultural. Os perodos dos Aibidas (11711250) e dos
Mamelucos (1250 1517), que correspondem  poca examinada neste captulo,

*    Tratado assinado entre dirigentes do Egito e reis da Nbia. Ver detalhes p. 634.
1    Ver, sobre os aspectos jurdicos do bakt, a Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 996.
446                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



foram marcados por uma progressiva deteriorao das relaes do Egito com
a Nbia. O fator setentrional, entendido no sentido mais amplo, terminou por
revelar-se decisivo para o declnio da Nbia. Podemos discernir dois processos
que se conjugavam: por um lado, a presso que os soberanos egpcios exerciam
sobre o decadente poder nbio, e por outro, a penetrao crescente de nmades
rabes na Nbia, contribuindo para a desagregao de suas estruturas sociais.
    O que sabemos da histria poltica da Nbia crist deve-se, quase inteiramente,
a fontes escritas rabes de origem egpcia2. Os documentos locais do final da poca
crist so escassos e pouco significativos. O valor do testemunho arqueolgico
foi reforado, porm, na dcada de 1960, graas aos programas de recuperao
e preservao exigidos pela construo da barragem de Assu. A campanha de
salvao promovida na Nbia inferior levou ao estudo de stios que em outras cir-
cunstncias no teriam chamado a ateno, como humildes vestgios domsticos;
os resultados obtidos deram grande estmulo  interpretao da histria da Nbia,
na medida em que enfatizaram seus desenvolvimentos internos3.
    Segundo as fontes rabes, a geografia poltica da Nbia, nos sculos XII e XIII,
mantinha-se semelhante  que fora descrita nos documentos mais antigos. Podiam-se
distinguir dois reinos ribeirinhos: al-Makurra (Makuria em greco-copta), que tinha
capital em Dunkula  a antiga Dongola , e `Alwa (Alodia). As fronteiras separando
estes dois reinos situavam-se entre a quinta e a sexta cataratas. O posto avanado
mais ao norte de Alwa  mencionado, muitas vezes, pelo nome de al-'Abwb
("as Portas", hoje Kabushiya). Nos dois reinos, a sucesso ao trono era regulada
sobretudo pelo princpio matrilinear, que reconhecia o direito hereditrio no
filho da irm do soberano.
    As instituies sociais e polticas da Nbia eram essencialmente de carter
tnico  o que parece ter sido mal compreendido, de modo geral, nas fontes
existentes e tambm nas interpretaes que elas suscitaram.

      AlMakurra
    Como j foi sugerido, temos boas razes para acreditar que as relaes entre
os soberanos fatmidas no Egito e na Nbia fossem bastante amistosas. Existem
indcios suficientes, tanto documentais quanto materiais, de que o comrcio
entre os dois pases florescia nessa poca. Para tomarmos um nico exemplo: o


2     As fontes rabes que aqui utilizamos so praticamente as mesmas que foram muito bem exploradas e
      analisadas por HASAN, Y. F., 1967.
3     Ver, especialmente, SHINNIE, 1965; ADAMS, W. Y., 1966 e 1967.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI   447



estudo das cermicas encontradas em escavaes comprova que havia movimen-
tos de pessoas em ambas as direes, bem como influncia das artes fatmidas
sobre os objetos manufaturados na Nbia. O intercmbio comercial, resultante
do sistema do bakt  que naquele momento assumiu provavelmente sua forma
clssica , simbolizava as vantagens da segurana e do comrcio para as duas
partes. A diferena de religio no parecia constituir obstculo srio. Fontes
rabes evocam as boas relaes existentes entre o patriarcado de Alexandria
e o rei da Nbia, que funcionava como seu protetor, a justa punio aplicada
no Egito a calnias antinbias relativas a supostas medidas dirigidas contra os
muulmanos, e tambm a calorosa acolhida e hospitalidade concedidas ao ex-rei
nbio Salomo, no Cairo, em 1079.
    A boa disposio manifestada pelos Fatmidas em relao a seus vizinhos
meridionais pode explicar-se pelo isolamento em que se sentia o regime xiita
no mundo islmico. Do lado nbio, parece que essa simpatia fatmida teria sido
retribuda, ocasionalmente, por ajuda direta. Com efeito, as incurses nbias em
territrio egpcio, no sculo X, coincidiram com a campanha fatmida para a
conquista do mesmo espao, interrompendo-se quando esta se completou, para
somente recomearem depois que os Aibidas depuseram o regime amigo. Os
nbios cooperavam com os egpcios, tambm, devolvendo-lhes escravos fugi-
dos e refugiados polticos. Igualmente sob esse aspecto, as disposies do bakt
refletem as convenes da poca fatmida.
    Um importante fator no poderio militar dos Fatmidas era representado
pelas tropas negras de origem sudanesa, que em larga proporo provinham
de al-Makurra e de `Alwa. Depois de exercerem papel predominante durante a
segunda metade do sculo XI, graas especialmente ao favor da me negra de
Khalifa al-Mustansir, seus rivais turcos e berberes conseguiram expulsar boa
parte desses soldados para o alto Egito. Nessa regio, enfrentariam mais tarde,
e por vrias vezes, os mesmos inimigos polticos. Contudo, as tropas negras
continuaram sendo slidos sustentculos do regime fatmida e, nos ltimos anos
deste, opuseram obstinada resistncia  ascenso dos Aibidas.
    As tropas rabes, que mais tarde se tornariam responsveis por uma srie de
conturbaes, revelaram-se implacveis e, em vrias ocasies, rebelaram-se. Com
toda a probabilidade, parte delas escapou  represso descendo para o sul, sem
que seu efetivo ou comportamento ulterior tomasse propores alarmantes. Na
poltica dos Fatmidas, em relao aos rabes, destaca-se a engenhosa soluo
que deram ao problema dos Ban Hill, a quem enviaram na direo oeste, para
a frica setentrional. Na fronteira meridional, precisaram reprimir os Ban
Kanz, que aspiravam  independncia. Conduziu-se a campanha punitiva em
                                                                                                     448
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Figura 16.1   Mapa da Nbia do fim do sculo XII ao comeo do XVI (conquista funj). (L. Kropcek.)
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI   449



11021103, e o rebelde Kanz al-Dawla, que procurou refgio em al-Makurra,
foi entregue aos egpcios pelo rei da Nbia. Depois disso, instalaram-se postos
militares em Assu para vigiar a fronteira; no houve na regio, porm, srias
perturbaes da paz at a queda dos Fatmidas. Por sinal, os cronistas rabes
nada encontraram que merecesse ser registrado das relaes nbio-egpcias
durante os 70 ltimos anos do califado fatmida, o que permite supor que
essa poca fosse marcada pela coexistncia pacfica e por um comrcio regular.
    O comrcio prosseguiu sem problemas. Os termos do bakt indicam que era cos-
tume autorizar os deslocamentos dos negociantes muulmanos e proporcionar-lhes
proteo, embora sua instalao permanente s fosse tolerada, normalmente, nas pro-
ximidades da fronteira setentrional. A longo prazo, da mesma forma que no Sudo
ocidental, o comrcio abriu caminho ao Isl. Em seus movimentos, os comerciantes
acumulavam conhecimentos sobre o pas, que depois transmitiam aos interessados.
Com o zelo de pessoas privadas, os mercadores fizeram mais pela difuso do Isl
do que os prprios agentes oficiais de propaganda, encarregados pelos Fatmidas de
pregarem a crena xiita. No caso do Sudo niltico, o raio de ao destes ltimos
se restringiria a `Aydhb, enquanto a maior parte das atividades missionrias era
espontnea e discretamente desenvolvida pelos comerciantes.
    Em compensao, a histria das relaes entre o Egito e a Nbia sob os Aibidas
comeou, em 1172, com uma ofensiva nbia   qual o exrcito aibida, chefiado por
Turnshh, irmo de Saladino (Salh al-Dn), respondeu com um contra-ataque
que culminou na captura e ocupao temporria de Kasr Ibrm. J se sugeriu que
o fato de a Nbia tomar a iniciativa das hostilidades, poderia ser o resultado de
uma aliana entre Fatmidas e nbios4.Um pouco mais tarde, o exrcito aibida
venceu os rabes rebeldes Ban Kanz, e os forou a se retirarem de Assu para
al-Mars, a parte setentrional do reino de al-Makurra. Existem numerosos depoi-
mentos sobre a arabizao e a islamizao crescentes dessa regio, ocorridas entre
os sculos IX e XII. A presena dos Ban Kanz (que eram de origem rabo-nbia),
e os casamentos entre eles e os nbios, constituram simplesmente um indcio a
mais desse duplo processo.
    A migrao de cabilas rabes originrias do Egito em direo ao sul desenvol-
veu-se em maior escala, sem precedentes. A forte presso que as cabilas nmades ou
seminmades sofreram sob os Aibidas, e ainda mais no tempo dos Mamelucos,
ocasionou srias confrontaes. As mais importantes campanhas mamelucas contra
os rebeldes `urbn (ou bedunos, como se tornou usual cham-los) so registradas


4    SHINNIE, 1971b, p. 46.
450                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



nos anos de 1302, 1351, 1353, 1375 e 1395. Para os bedunos, s havia uma
maneira de escapar  perseguio impiedosa: o refgio no Sudo. Outras ame-
aas, como a fome e as epidemias de peste, tambm os impeliram na mesma
direo. Em nmero crescente, nmades ladres de comida aproximavam-se,
pelos desertos, da Nbia ribeirinha  elementos destrutivos que avanavam
pelas zonas habitadas, saqueando e lutando com os moradores, com o poder
estabelecido, e tambm entre si. Eram considerados um grave perigo, tanto no
Egito como na Nbia.
    A histria das relaes entre a Nbia e o Egito dos Mamelucos deve ser
considerada nesse contexto. Diante das pilhagens a que estava exposto, e da gra-
dual perda de sua coeso interna, al-Makurra mostrou-se cada vez menos capaz
de sustentar seu papel de vizinho cooperador, garantindo a paz nas fronteiras
meridionais. Os Mamelucos, por sua vez, investiram toda a sua fora numa pol-
tica que visava reduzir esse pas  condio de reino vassalo. Suas intervenes
foram facilitadas pela discrdia no interior da famlia reinante, que mais tarde
se agravou devido  converso de alguns dos seus membros ao Isl.
    Parece razovel pensar que a adoo, a partir do sulto Baybars (12601277),
de uma poltica ativa de interveno nos negcios nbios tenha sido motivada, em
larga medida, por preocupaes com a segurana do Egito. Tambm j se sugeriu
que a grande quantidade de butim conquistado nas campanhas da Nbia e nas
expedies contra os bedunos do alto Egito pode indicar que esses reiterados ata-
ques tivessem, igualmente, motivao econmica5. Os cronistas da poca registram
uma abertura diplomtica, cujo resultado foi a solicitao, pelo sulto, da retomada
das entregas previstas pelo bakt, suspensas desde uma data que se desconhecia.
Ao invs disso, porm, o rei Dwd da Nbia efetuou uma srie de incurses
em territrio egpcio, culminando em 1272 na tomada de `Aydhb, porto no mar
Vermelho que tinha enorme importncia para o comrcio egpcio. J se pensou
que essa ao tivesse o objetivo de ajudar os cruzados, mas nada parece validar tal
hiptese. Os motivos mais provveis seriam a perspectiva imediata de um saque
considervel, e a vingana contra a dominao de Sawkin pelos Mamelucos,
alcanada poucos anos antes. Merece, porm, ser notada a coincidncia no tempo
das campanhas conduzidas pelos Mamelucos na Sria e na Nbia.
    Em 1276, Baybars ordenou uma expedio punitiva de grande envergadura,
que venceu Dwd, e atribuiu o trono de al-Makurra a seu primo e rival, que
as fontes mencionam sob o nome de Shakanda ou Mashkad. Em retribuio


5     Ver HASAN, Y. F., 1967, p. 114.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                  451



pela ajuda dos Mamelucos, Shakanda, mediante um juramento cristo dos mais
solenes, aceitou certo nmero de obrigaes, que praticamente representavam
a substituio do bakt tradicional por uma autntica vassalagem6. Assumindo
o ttulo de n`ib (representante) do sulto, Shakanda prometeu pagar-lhe um
tributo anual que absorvia metade da renda do pas, mais determinado nmero
de animais do Sudo. Al-Mars (ou, o que  mais provvel, os seus rendimentos)
passou ao controle direto do sulto. Os nbios que no se decidissem a abraar
o Isl, deveriam pagar um imposto anual per capita (a djizya). Os nmades ra-
bes que se refugiassem na Nbia seriam extraditados. Alm disso, a poltica de
Shakanda estaria permanentemente sujeita  aprovao do sulto.
    Alm dessas condies polticas e econmicas humilhantes includas no
acordo, a Nbia teve que suportar considervel amputao de seus recursos
humanos  embora certamente seja exagerada a cifra dos 10 mil habitantes
que, segundo as fontes histricas, teriam sido levados ao Egito como escravos.
 significativo, do ponto de vista poltico, que tais prisioneiros inclussem refns
tomados na famlia real e o prprio ex-rei Dwd, entregue pelo governador de
al-`Abwb, a quem pedira asilo. Certo interesse na sua sorte transparece da cor-
respondncia mantida por Baybars e o soberano da Etipia, Yekuno Amlak.
    Reduzido  condio de reino vassalo de poderoso suserano, al-Makurra
no conseguiu restaurar sua ordem interna. Novas expedies mamelucas se
seguiram. Contudo, se a inteno era que a Nbia continuasse a exercer o papel
de Estado-tampo entre o Egito e os nmades saqueadores, essa poltica brutal
de repetidas intervenes terminou por se revelar pouco inteligente. Os Mame-
lucos devastaram e despovoaram o pas, e assim debilitaram a capacidade de
resistncia do Estado ribeirinho contra os nmades, at reduzi-lo  completa
ineficcia. Disso se aproveitaram muitos rabes, que se juntaram aos exrcitos
dos Mamelucos, procurando butim que lhes proporcionasse vida mais fcil fora
do Egito. Ibn al-Furt, em 1289, avaliou seu nmero em 40 mil, cifra esta que
certamente inclua tanto os homens quanto o resto da tribo7. Os Bnu Kanz, por
sua vez, haviam apoiado os Mamelucos desde suas primeiras expedies.
    O rei Shammn foi um adversrio obstinado dos Mamelucos. Embora fosse
vencido duas vezes, atacou a guarnio que os Mamelucos haviam estabelecido
em Dunkula e matou seu chefe e os traidores. Em 1290, escreveu ao sulto
Kal`n, pedindo-lhe perdo e dispondo-se a pagar um bakt de montante mais


6    HASAN, Y. F., 1967, p. 109, d o texto completo do acordo, tal como foi transcrito por al-Nuwayr e
     conservado no Kitb al-sulk de al-Makrz. Ver tambm TRIMINGHAM, 1949, p. 69.
7    IBN AL-FURT, 1936-1942, v. 8, p. 83, citado por HASAN, Y. F., 1967, p. 114.
452                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



elevado. Parece que o sulto, que ento se ocupava em lutar contra os ltimos
restos dos cruzados, aceitou essa oferta.
    A Nbia, assim, ficou a salvo de campanhas militares durante uma dcada. Em
1305, outra expedio foi enviada do Cairo, a pedido do rei Ammy, que necessitava
de ajuda para enfrentar conturbaes internas. Mais tarde, como o sucessor de
Ammy, Karanbas, no quisesse ou no pudesse pagar o tributo combinado, foi efe-
tuada uma expedio punitiva, na qual se inclua um novo pretendente destinado
a substituir o rei. Pela primeira vez, esse pretendente designado era muulmano:
o sobrinho do rei Dwd, a quem as fontes histricas do o nome de Sayf al-Dn
`Abdallh Barshamb (ou Sanb). Karanbas reagiu propondo outro candidato
muulmano, o Kanz al-Dawla (isto , o chefe dos Ban Kanz) Shuj` al-Dn, que,
segundo ele, tinha maior direito  sucesso por ser filho de sua irm.
    A ascenso de Sanb ao trono de Dunkula marca o comeo da converso
oficial de al-Makurra ao Isl. O acontecimento  comemorado por uma placa
em rabe, que registra a transformao em mesquita da velha catedral de dois
andares da capital, o que foi oficialmente proclamado por Sayf al-Dn `Abdallh
al-Nsir no dia 16 Rab` I, 717 da Hgira (29 de maio de 1317). O reinado
desse soberano imposto foi, porm, curto. O Kanz al-Dawla conseguiu obter
bom apoio popular tanto entre os nbios como entre as cabilas rabes, o que lhe
permitiu vencer e matar seu rival, o parente afastado escolhido pelo Cairo.
    O sulto receava que um soberano de sangue tanto nbio quanto rabe
servisse de eixo a uma aliana mais ampla; por isso procurou impor um novo
governante de sua escolha. Depois da morte prematura desse ltimo, outra
expedio, em 13231324, devolveu o trono ao rei Karanbas, que durante o
cativeiro no Cairo abraara o Isl8. O Kanz al-Dawla, porm, expulsou o tio e
retomou o poder. No sabemos claramente por que razo os Mamelucos no
tentaram nova interveno.
    A sequncia da histria dinstica tambm  pouco clara. Evidencia-se, do que
as fontes relatam sobre os acontecimentos de 13651366, que a luta interna pelo
poder prosseguiu, marcada por intenso envolvimento rabe. Os Ban Kanz nela
desempenharam importante papel, assim como seus aliados, os Ban `Ikrima
e os Ban Dja`d, que tomaram controle de Dunkula. O rei refugiou-se no cas-
telo de al-Daw, em al-Mars, enquanto Dunkula era abandonada, em runas.


8     Ibid., p. 120. Este autor se funda na autoridade de Ibn Khaldn e de al-`Ayn.  interessante notar
      que uma inscrio pia grega, em escrita nbia antiga, encontrada no mosteiro de So Simo em Assu,
      ainda exalta o rei Kudanbes, grande monarca cristo, "presidente dos csares". Ver tambm GRIFFITH,
      1928.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI        453



As tropas mamelucas, que emissrios nbios solicitaram ao Cairo, cumpriram
sua misso massacrando os rabes, fazendo prisioneiros nas regies setentrionais
e obtendo a submisso dos Ban Kanz e dos Ban `Ikrima. Os reis nbios man-
tiveram al-Daw como local de residncia, enquanto se abandonava a maior parte
de al-Makurra  desordem, privada de qualquer autoridade central. A nica refe-
rncia ao rei nbio data de 1397, e diz respeito a mais um pedido de ajuda contra
distrbios internos.
    Os ltimos tempos do reino nbio assim nos aparecem envoltos na obscuridade.
As fontes egpcias calam-se a seu respeito. Outros testemunhos, de provenincia
sudanesa, que so a tradio oral e as genealogias, referem-se apenas ao desen-
volvimento de novos sistemas tnicos s margens do Nilo e em suas proximida-
des, sem demonstrarem nenhum interesse pelo desaparecimento daqueles que
tinham sido os soberanos do pas. Os acontecimentos de que temos registro
indicam, pelo menos, que a Nbia jamais foi anexada. As invases egpcias no
podem ser consideradas como uma tentativa sistemtica de destruio ou de
colonizao. Tiveram, porm, o resultado de privarem al-Makurra de boa parte
da sua vitalidade e eficcia enquanto Estado organizado. Aludindo  islamizao
e arabizao da famlia real, um historiador sudans escreve que
     o reino nbio foi vtima mais de uma subverso interna do que de uma destruio9.
Outros autores falam da "subverso da Nbia crist"10, da absoro de seu poder
por imigrantes.
    Os casamentos mistos foram fator importante na arabizao da Nbia. O
sistema matrilinear que vigorava nesse pas capacitava os filhos de pais rabes
com mes nbias  sucesso, da mesma forma que lhes dava direito a uma parte
das terras e a outros bens. J vimos como funcionava esse processo, quando
examinamos a sucesso poltica dos Ban Kanz. A gradual converso ao Isl da
populao nbia constituiu outro aspecto desse mesmo processo complexo, que
se desenvolveria em meio  situao visivelmente catica posterior ao desapa-
recimento da autoridade central.
    O conjunto dos testemunhos que resulta dos trabalhos arqueolgicos mais
recentes permitiu estabelecer, com segurana, alguns fatos concretos que se
referem a essa fase de hostilidades11. O aumento da insegurana, mais ou menos
a partir de meados do sculo XII, foi acompanhado pelo desenvolvimento da


9    HASAN, Y. F., 1967, p. 90.
10   HOLT, 1970, p. 328.
11   Ver ADAMS, W. Y., 1966, p. 149.
454                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



arquitetura de defesa e de implantaes residenciais, destinadas a conferir pro-
teo a concentraes maiores de populao crist. O exame dos stios habitados
revela que se generalizavam certos elementos de construo, para cuja funo
a hiptese mais plausvel  que visasse proteger os bens e vveres contra os
saqueadores, enquanto os habitantes optavam, provavelmente, pela fuga. Mura-
lhas defensivas externas e torres de atalaia (ver fig. 16.2) so frequentes apenas
na Nbia superior e nos stios cristos mais tardiamente ocupados, acima da
segunda catarata. Numerosos vestgios de comunidades crists de implantao
tardia foram encontrados em ilhas. As defesas, que nesses estabelecimentos
insulares se dirigem contra a terra firme, assim como as aberturas na direo
sul nas torres de atalaia da regio da catarata, parecem indicar que se temia um
inimigo vindo do deserto, provavelmente do sul, que no estivesse habituado s
barreiras aquticas12.
    Assim, parece razovel supor que o principal perigo eram os "grupos de
saqueadores do deserto"  rabes, na maior parte, talvez tambm berberes,
Zaghwa e outros. Assim, por um lado, as fontes de poca, que exprimem o
ponto de vista egpcio, fazem-nos imaginar aldeias queimadas, rodas-d'gua
destrudas e quantidades de habitantes escravizados por exrcitos invasores que
vinham do norte (elas tambm mencionam a poltica de terra arrasada, que seria
adotada pelos nbios quando se retiravam face aos invasores); por outro lado, 
luz da arqueologia, vemos que outro perigo era mais importante, mais durvel e
mais agudo. Foi esse fator  a penetrao dos rabes  que mais contribuiu para
destruir a antiga organizao social e poltica da Nbia, e deflagrar um processo
de transformao cultural de longo alcance.

      `Alwa
   A histria de `Alwa  ainda mais obscura que a dos ltimos dias do cristia-
nismo organizado no reino de al-Makurra. A imagem habitual de reino prspero
deve-se, principalmente, aos relatos de Ibn Sulaym (975) e Ab Slih; (comeos
do sculo XIII), completados por informaes dadas por mercadores muulma-
nos. `Alwa era um bom mercado para a compra de escravos. A descrio de Ab
Slih mostra o reino em plena prosperidade, contando com 400 igrejas mais ou
menos, inclusive uma vasta catedral em Soba.


12    ADAMS, W. Y., 1966, p. 150, escreve: "Quanto mais descemos em direo ao sul, mais fortificaes
      encontramos, e mais antigas elas se revelam, na cronologia do perodo cristo". Ele admite, porm, que
      essa afirmao baseia-se apenas em sua observao pessoal, no sistemtica, de stios cristos do Batn
      al-Hadjar e da Nbia superior.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                      455



    Durante o perodo dos Mamelucos, as referncias egpcias a `Alwa torna-
ram-se extremamente raras. A nica personagem a ser mencionada com fre-
quncia foi Adur, soberano de al-`Abwb, que vrias vezes extraditou reis nbios
foragidos, tentando com isso assegurar as boas graas dos sultes mamelucos. Em
1287, um embaixador do sulto foi enviado a Adur, a pedido deste, em misso
de informao que se prendia a queixas que ele fizera contra o rei de Dunkula.
Em 1290, como observa o mesmo autor medieval 13, requereu-se ajuda do sulto
contra um inimigo externo, que com toda a probabilidade vinha do sul.
    A decadncia de `Alwa provavelmente seguiu o mesmo padro da de al-
Makurra. Imigrantes rabes comearam a penetrar em regies marginais, de
onde terminaram chegando ao corao do pas; casaram-se com seus habitantes
e assumiram o controle das pastagens, dissolvendo, dessa forma, o tecido social e
minando a autoridade central. Os ataques de povos negros do sul constituram
mais uma ameaa que pressionou o potencial do pas e seus recursos humanos,
talvez j reduzidos em funo do comrcio de escravos. Tambm a Igreja come-
ou a estagnar no isolamento. Na segunda metade do sculo XV, a degradao
geral permitiu que os rabes se instalassem no prprio centro do pas, perto de
Soba. O ponto mais meridional da expanso rabe na Guezira foi a cidade de
`Arbadj, fundada por volta de 1475.
    At h bem pouco tempo, foi costume situar a queda de `Alwa em 1504, ano
em que se estabeleceu o sultanato funj, com centro em Sennar. No  necessrio,
porm, que os dois acontecimentos tenham se dado simultaneamente, e no existe
razo suficiente para abandonar a tradio antiga, segundo a qual Soba foi tomada
por rabes agindo por conta prpria, provavelmente em data anterior14. A tradio
que descreve essa expedio afirma que ela foi organizada e dirigida por um chefe,
`Abdallh, alcunhado Djamm` ("o que rene"), do ramo Kawsima dos rabes
Ruf`a. O ataque foi lanado contra a alegada tirania dos reis de `Alwa, designados
`Anadj. Soba foi conquistada e provavelmente destruda, e seus habitantes foram
obrigados a se dispersar. Os descendentes de `Abdallh  tambm conhecidos
como `Abdallbi garantiram sua hegemonia sobre as cabilas nmades e os nbios
arabizados, numa extensa regio  volta da confluncia dos dois Nilos e mais ao
norte. A capital desses novos senhores foi estabelecida em Kerr, perto da garganta
de Sablka, que lhes garantia a dominao sobre o curso principal do Nilo.


13   IBN `ABD AL-ZHIR, 1961, .p. 144-5, citado por HASAN, Y. F., 1967, p. 13.
14   Ver HOLT, 1960; ver tambm CHITTICK, 1963b. Segundo este ltimo autor, depois da queda de
     `Alwa um general cristo se refugiou em Kerr, que pareceria ser a praa-forte a que se refere a Crnica
     de `Abddlbi.
456                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    A supremacia dos rabes no demorou a ser contestada. Em incios do sculo
XVI, apareceu subitamente, na Guezira, nova leva de migrantes, que descia o
Nilo Azul. Eram criadores nmades pagos, chamados Funj. A sua origem mais
remota suscitou hipteses to variadas entre si, como a que os identifica com os
Shilluk e as que procuram seu bero em algum lugar do Bornu ou na Etipia
setentrional15. O estabelecimento de relaes entre os rabes e os Funj, a pro-
psito dos acontecimentos de 1504,  explicado por duas tradies divergentes.
A primeira delas, ainda conservada numa reviso efetuada no sculo XIX pela
Crnica funj, fala em uma aliana do chefe funj `Amra Dnks com `Abdallh
Djamm`, dirigida contra Soba, enquanto a segunda, que conhecemos graas a
James Bruce, menciona uma batalha entre rabes e Funj travada nos arredores
de `Arbadj. Sem a menor dvida, os dois grupos disputaram os direitos de pas-
tagem na Guezira meridional, assim como a supremacia poltica.
    A vitria e consequente hegemonia couberam aos Funj, enquanto os rabes
`Abdallbi retomavam  sua posio subordinada. A supremacia funj,  qual se
associaram os `Abdallbi, estendeu-se sobre grande parte do Sudo niltico e
inaugurou novo perodo na histria do pas. O grau de estabilidade poltica que
ento se atingiu facilitou o aumento ulterior do prestgio dos rabes, bem como
a islamizao efetiva da Nbia.


      O triunfo do Isl
      O desaparecimento do cristianismo
    A converso islmica da Nbia no foi um processo contnuo, que se teria
desenvolvido progressivamente do norte para o sul do pas. A propagao do
Isl comeou bem antes do perodo que ora estudamos, prosseguiu segundo
ritmos desiguais nas diversas regies, e somente se pde dizer mais ou menos
completada sob os Funj. Os meios que produziram a islamizao foram nume-
rosos: a atividade de mercadores muulmanos, que eram admitidos na Nbia
havia sculos, a infiltrao dos rabes, assim como a presso direta e, mais tarde,
at o oportunismo, que se constata, por exemplo, entre outros fatos, no tratado
de Shakanda e na converso da casa real de Dunkula.



15    A mais antiga autoridade a defender a "teoria shilluk" foi BRUCE, 1790, que visitou Sennar em 1772.
      J a "teoria bornu" tem A. J. Arkell como principal defensor. Para uma anlise mais pormenorizada a
      este respeito, vejam-se os comentrios de HOLT, 1963.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI          457



   A f crist no desapareceu de um s golpe juntamente com o sistema governa-
mental nbio: perdurou ainda por muito tempo. Na dcada de 1960 descobriu-se,
em Kasr Ibrm, a sepultura de um bispo enterrado com rolos em lngua copta e em
rabe, comprovando que a Igreja ainda tinha dignitrios em atividade pelo menos
at 1372.  possvel que a comunidade crist se tenha mantido por vrias gera-
es depois dessa data. Nos anos ao redor de 1520, um padre portugus, de nome
Francisco Alvares, que viajava pela Etipia, contou a um companheiro seu, a quem
chamava Joo da Sria, que existia um pas dos "Nubiis":
     que estivera nesse pas e que nele existiam 150 igrejas, as quais ostentavam ainda
     crucifixos e efgies de Nossa Senhora, e outras efgies pintadas nas paredes, imagens
     estas todas antigas; que o povo desse pas no era cristo, nem mouro, nem judeu, e
     que ardia de desejo de tornar-se cristo. Essas igrejas situar-se-iam todas dentro de
     velhos castelos, dispersos pelo pas inteiro, e haveria tantas igrejas quantos castelos16.
    Alvares tambm falou em uma embaixada crist enviada desse pas  corte
etope, para pedir a esta que lhes mandasse padres e monges que ensinassem o
povo  o que o "padre Joo" etope no pde atender, em virtude de estar subor-
dinado ao patriarca de Alexandria. At pouco tempo atrs, considerou-se que o
pas em pauta fosse `Alwa, mas recentemente sugeriu-se que se tratava da regio
de Dunkula. A questo continua em aberto; a investigao arqueolgica parece
prometer novas descobertas, atestando a persistncia prolongada de comunida-
des crists locais na Nbia.
    No que se refere  cronologia do avano do Isl, a maior parte dos teste-
munhos, que entretanto no so indiscutveis, provm da regio setentrional.
Provavelmente, as minorias muulmanas viveram muito tempo em paz com seus
vizinhos cristos, com quem dividiam a mesma cultura material. A inexistncia
de tumbas rabes aps a metade do sculo XI suscitou a hiptese de que pode-
ria haver ocorrido uma perseguio dos muulmanos pelos cristos, que parece
corroborada por um depoimento sobre a converso individual de um muulmano
ao cristianismo17. Esse testemunho, porm,  insuficiente para autorizar uma
concluso mais precisa.
    As violncias contra cristos, assinaladas posteriormente e que foram simultneas
s invases, devem ter sido atos ocasionais, em vez de resultarem de algum plano
ou mesmo de dio religioso amplamente difundido. Isso vale para algumas
medidas discutidas em pormenor pelos cronistas, como a converso da igreja

16   Ver LVARES, F., 1881, p. 351-2.
17   Ver, por exemplo, ADAMS, W. Y., 1965, p. 172.
458                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



em mesquita, a priso e tortura do bispo e o abate dos porcos depois da con-
quista de Kasr Ibrm pelos Aibidas. De modo geral, os monumentos cristos
da Nbia no tm muitos vestgios de violncia e destruio, embora alguns
provavelmente tenham sido pilhados pelos bedunos. As fontes escritas no
afirmam, tampouco, que o cristianismo enquanto tal fosse visado pelos ataques.
Como escreve W. Y. Adams,
      o povo cristo da Nbia estava preso entre foras muulmanas, egpcias e nmades,
      cada uma das quais sentia pelas outras hostilidade igual  que tinha pelos nbios. Se,
      afinal, o cristianismo nbio acabou sendo destrudo, foi mais por acidente do que
      por algum desgnio nesse sentido18.
   Existiram, porm, importantes causas internas para a debilitao do cristia-
nismo nbio. Segundo opinio corrente, esta era essencialmente uma religio
de elite, sem razes profundas na massa popular. O culto estava associado, em




Figura 16.2    A igreja e o monastrio de Faras (Nbia) circundados por fortificaes rabes, vistos do
leste.


18    Ver ADAMS, W. Y., 1966, p. 151.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                 459



ampla medida, ao clero copta e a uma cultura estrangeira, excluindo os santos ou
mrtires nbios. As inscries funerrias que encontramos so todas em grego
ou em copta. Nas palavras de J. S. Trimingham, a Igreja nbia
     jamais se tornou indgena no sentido em que o Isl hoje o 19.
    Apesar disso tudo, porm, os afrescos das igrejas nas quais houve escavaes
tambm revelam, s vezes, rostos negros de bispos nbios autctones. Tampouco
se deve ignorar as inscries pias em lngua nbia, embora a devoo do clero
no constitua um indcio seguro quanto  f dos camponeses. A persistncia de
crenas mais antigas que as crists  atestada no relato de Ibn Sulaym (sculo X),
assim como pela sua continuao no islamismo popular sudans de nossos dias.
    A Igreja nbia era associada ao Estado e a uma cultura urbana elaborada, mas
achava-se isolada quase que completamente da cristandade estrangeira devido a




Figura 16.3 Muralha da cidadela rabe de Faras, reconstruda com antigos blocos. (Fonte das Figs. 16.2
e 16.3: Michalowzki, 1962.)




19   Ver TRIMINGHAM, 1949, p. 76.
460                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



seus vizinhos muulmanos. No deveramos, porm, ser enfticos demais a este
respeito. A arte nbia parece indicar contatos com os bizantinos e mesmo, talvez,
com os cruzados20. Ao lado do monofisismo predominante e das ligaes com
o patriarcado copta, deparamos tambm com elementos que comprovam ritos
melquitas, mesmo em tempos mais recentes21. O isolamento tendia, porm, a
aumentar pelos meados do sculo XIII; os vnculos com o patriarcado de Ale-
xandria romperam-se, e, provavelmente, no foram mais enviados padres coptas
para a Nbia. Contudo, ainda nos sculos XIV e XV, h registro de peregrinos
nbios em sua capela da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalm, e, mais tarde
que isso, em servios religiosos na Galileia.
    Assim, numa situao que no  fcil de definir, os fatores externos espe-
cialmente uma imigrao de massa que dificultava a manuteno de Estados
cristos independentes  devem ter sido os fatores decisivos para a transformao
religiosa. Com o declnio da Igreja enquanto fora social, as converses ao
Isl, que os poderosos recm-chegados marcaram como um sinal de prest-
gio, generalizaram-se gradativamente em meio ao povo, tornando-se um dos
principais fatores de reintegrao social.

      A arabizao dos nbios
    Grande parte das migraes das cabilas rabes em direo  Nbia e ao inte-
rior deste pas, assim como as vigorosas combinaes dos povos nbios na for-
mao de novos grupos, produziram-se durante o perodo que ora descrevemos.
O resultado, depois do perodo obscuro que se seguiu ao desaparecimento dos
Estados nbios, h de ter sido uma mesclagem racial em larga escala, na qual
finalmente predominou a adeso  lngua e  cultura rabes. A arabizao do povo
andou junto, porm, a uma africanizao igualmente pronunciada dos imigrantes,
que hoje se evidencia tanto nas caractersticas raciais quanto nos traos culturais
dos rabes sudaneses, bem adaptados ao ambiente de seu novo pas.
    As fontes de que dispomos para um estudo histrico dos movimentos espe-
cficos que levaram  formao do povo da Nbia setentrional somente podem
ser utilizadas com muita cautela. Compem-se, principalmente, de lendas e tra-
dies genealgicas, cuja forma atual  de composio recente. Essas genealogias,


20    Os contatos com Bzncio foram particularmente documentados graas s escavaes efetuadas em
      Faras pelos poloneses. Tambm existem vestgios de relaes com a Prsia. Para mais detalhes sobre
      estas questes, ver MICHALOWSKI, 1965 e 1967.
21    Isso tambm foi confirmado pelas escavaes de Faras. Sobre o cristianismo nbio, ver KILHEFNER,
      1967.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI           461



conhecidas pelos nomes de ansb ou nisba, foram conservadas pela transmisso
oral (ou, em alguns casos, escrita) como bens de grande valor22.  possvel
retraar a um tempo bastante remoto a origem de algumas dessas genealogias.
O autor mais reputado de grande nmero de nisba  al-Samarkand, figura algo
legendria do sculo XVI, que teria compilado um livro de genealogias para os
Funj. Essa obra destinava-se a convencer o sulto otomano da legitimidade da
ascendncia rabe e islmica dos nbios, e portanto dissuadi-lo de eventuais
planos hostis contra estes. O mesmo objetivo  demonstrar a filiao a um
nobre ancestral rabe  torna suspeitas e indignas de f numerosas genealogias,
especialmente nas suas partes mais antigas.
    De modo geral, os grupos de famlias, desprezando os aspectos quantitati-
vos do parentesco pelo sangue, utilizam suas nisba para se orgulharem de uma
identificao com as antigas cabilas e confederaes rabes. Por exemplo, os
Djuhayna histricos alegam ser originrios da Arbia meridional (Kahtn),
enquanto os Dja`aliyyn se dizem da Arbia setentrional (`Adnn), pretendendo
tambm descender do tio do Profeta, al-`Abbs, sendo portanto aparentados com
a dinastia abssida. Os Funj, por sua vez, dissimularam suas origens por trs de
pretensa e tendenciosa ascendncia omada. Outra alegao muito pretensiosa
apareceu em alguns cls e famlias de doutores islmicos, que se apresentam
como sendo `Ashrf, isto , descendentes do Profeta e de sua parentela prxima.
Infelizmente, as informaes suplementares ou as correes que encontramos
nos escritores rabes medievais so fragmentrias e menos impressionantes do
que essas nisba to sofisticadas.
    A descrio dos movimentos de numerosos grupos tnicos no caberia no
quadro do nosso estudo. Sua infiltrao, que durante sculos deu-se de maneira
basicamente pacfica, a partir do sculo XII se desenvolveu, convertendo-se em
migrao de massas. Posteriormente, numerosos nomes de etnias, que estavam
entre as mais mencionadas pelos documentos medievais, desapareceram por
completo, enquanto surgiam novas unidades. Nunca devemos esquecer o carter
fluido dos grupos tnicos, quando considerados num longo perodo. As rotas
que os rabes seguiam em sua extensa marcha, ora conduzindo grandes reba-
nhos, ora na misria, so parcialmente identificveis, graas aos vestgios que
chegaram at ns.
    Assim, o sufixo -b, que aparece com muita frequncia nos nomes tnicos a
leste do Nilo, deve-se  "famlia" ou "cl" Tu-Bedawie (Bedjaw)  e, portanto,


22   A mais rica coleo existente de nisba foi reunida e publicada por MAcMICHAEL, 1922.
462                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



indica a passagem das cabilas pelo territrio bedja. Esta foi, provavelmente, a
primeira regio a sofrer a imigrao rabe, que vinha tanto da outra margem
do mar Vermelho quanto do Egito. A terra era pouco favorvel  instalao
de grande nmero de pastores, e assim os contatos entre os Bedja e os rabes,
embora resultassem at mesmo em casamentos mistos, no culminaram em uma
fuso completa. As cabilas rabes dirigiram-se para mais longe, at as plancies
suavemente onduladas do Butna e o Nilo mdio, onde encontraram outros
grupos que desciam da Nbia. Muitos terminaram se instalando na Guezira.
    Numerosos grupos de rabes dirigiram-se para o sul, pelo vale do Nilo. J
se mencionou que alguns deles participaram, de vontade prpria, das expedi-
es dos Mamelucos. A sua posterior infiltrao nas estepes ao sul de Dunkula
deu-se em vrias direes. Certos grupos foram para oeste. Wd al-Milk e Wd
al-Mukaddam devem ter-lhes parecido vias cmodas. Para penetrarem no Darfur,
outra possibilidade era constituda pelo Darb al-Arba'n (a rota dos "quarenta
dias"), que partia dos osis egpcios do deserto ocidental.
    A maior parte dos grupos nbios de lngua rabe pretende, em suas nisba,
pertencer a um desses dois grupos  os Dja'aliyyn ou os Djuhayna.
    O grupo Dja'aliyyn compreende especialmente os povos sedentrios do vale
mdio do Nilo e do Kordofan, em particular os Djawbra, Bedayriyya, Sh`ikya,
Bathn, Djama`b, Djam`ya e Djawmi`a, alm dos Dja`aliyyn propiamente
ditos, que vivem entre Atbara e a garganta de Sabaluka. Seu ancestral epnimo
comum foi um abssida, Ibrhm Dja`al, que pode ter vivido no sculo XII
ou XIII. Sua alcunha Dja`al explica-se segundo a tradio popular de que era to
generoso e hospitaleiro que dizia aos esfomeados: Dja`alnkum minn, "recebemos-te
entre os nossos"23. As nisba que chegaram at ns no so, em todo caso, confiveis,
em relao aos tempos anteriores ao sculo XVI.
    Em seu conjunto, os Dja`aliyyn eram nbios arabizados e, apesar de alegarem
uma genealogia exclusivamente rabe, na verdade surgiram da mestiagem entre
rabes e nbios. Sua ptria  a regio do Nilo mdio, ao sul da quarta catarata, onde
teriam encontrado espao entre os territrios que ento eram controlados pelos
dois reinos cristos. Os nomes Djama`b, Djam`ya, Djawmi`a sugerem uma
associao etimolgica com a raiz verbal rabe djama`a, "reunir"  o que mais uma
vez comprova a mestiagem dos imigrantes rabes, que continuaram a casar-se
com membros dos povos autctones, fato que as nisba omitem por completo.
    Nos comeos do sculo XVI, certos grupos Dja`al migraram mais para oeste,
at o Kordofan, onde se fundiram nas etnias nbias sem, contudo, perderem o


23    Ibid., v. 2, p. 28 e 128.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI   463



nome nem a conscincia de sua identidade Dja`al. Os casamentos de seu chefe
com as filhas dos poderosos do local so tema constante nas lendas populares
que contam a ascenso dos governos nessa regio. Os soberanos dos Takal, nas
montanhas da Nbia, no Darfr, Wadai e Bornu, assim como os Mussabba`t
do Kordofan alegam ter antepassados dja`al.
   Os Djuhayna tm mais direito de se dizerem rabes. Ao contrrio dos
Dja'aliyyn, preferiram conservar-se nmades, beneficiando-se das condies
favorveis oferecidas pelas pastagens do reino  ento em decadncia  de `Alwa.
Um excessivo esprito de sistematizao induziu os genealogistas a inclurem,
erradamente, entre os Djuhayna todos os grupos nmades ou no  dja`al.
Assim, no sentido amplo dessa denominao, atualmente so considerados como
Djuhayna tambm os rabes do Butna (Shuki`yya e Ruf`a) e os da Guezira
(Kinna e Mesallamiyya), assim como os nmades que criam camelos nas partes
remotas do Kordofan (Kabbsh, Dr Hmid e Hamar) e os Bakkra criadores
de gado. Todos alegam descender do mesmo ancestral: `Abdallh al-Djuhan.
   A penetrao dos rabes no Kordofan provavelmente continuou por per-
odo mais longo. J no sculo XIV, evidencia-se uma penetrao para oeste, at
adiante do Darfr, na savana chadiana. Os pioneiros desse avano foram os rabes
Djudhm, cujo nome posteriormente caiu em desuso. Os Kabbish parecem ter-se
composto de vrios elementos que terminaram por exprimir sua unidade mediante
a inveno de um antepassado epnimo fictcio: Kabsh Ibn Hamad al-Afzr.
Kabsh significa "carneiro", o que no deixa de ser simblico, num meio pastoril. O
irmo de Kabsh seria o ancestral dos Fazra, cujo nome, frequentemente mencio-
nado nas fontes mais antigas, acabou em desuso aps o perodo mahdista.
   O nome genrico Bakkra (de bakara, "vaca") aplica-se aos grupos de cria-
dores que atualmente tm seu habitat ao sul da principal estrada que corta o
Sudo de leste a oeste. O clima dessa zona no  adequado ao carneiro nem ao
camelo, o que levou os Bakkra a abandon-los em favor do gado bovino. Esses
animais, porm, so montados e tratados, de modo geral, da mesma maneira
que os camelos. Imigrantes tardios, provavelmente encontraram as pastagens
do norte j ocupadas e por isso precisaram procurar novo modo de vida. Assim
como fizeram os Kabbish, absorveram alguns dos antigos cls dos Djudhm.
Sua cor negra escura comprova a que ponto chegou sua mestiagem com os
povos negrides.
   A rota pela qual vieram os Bakkra no est bem definida. Alguns deles
pretendem que seus antepassados tenham vindo da Tunsia e do Fezzn. Nume-
rosas tradies locais atestam que houve movimentos migratrios, comerciais e
culturais que tomaram esse caminho, seguindo at o Darfr.
464                                                                frica do sculo xii ao sculo xvi



   Parece que na origem dos Bakkra esteve a miscigenao dos Djudhm, que
vinham do Nilo, com outros grupos que haviam passado pelo Tezzn e pelo
Chade. Uma tradio das mais vivazes conta que, h umas dez geraes, seus
ancestrais partiram para oeste, depois retornaram em direo ao leste, at che-
garem a seu habitat atual. A alegao de laos com os Ban Hill pode tambm
constituir indcio de contatos culturais durveis com a frica setentrional, ou
mesmo da presena de pequenos grupos Hill entre os povos que se deslocaram
do sul do Egito em direo  Nbia24.
   Alm de rabes, as levas de recm-chegados que atingiam o Sudo niltico com-
preendiam berberes puros e berberes arabizados, que foram, porm, menos numero-
sos nessa regio do que nas situadas mais a oeste. As fontes registram movimentos
de Howara parcialmente arabizados no interior do Egito, entre os sculos XIV e XV.
Pequenas implantaes howara encontram-se tanto no Kordofan quanto no Darfr.
Os movimentos migratrios que teriam como origem o Magreb provavelmente
incluam, alm dos Hill e de outros grupos rabes, tambm berberes arabizados.

      As transformaes culturais e sociais
    A Nbia sempre foi regio importante, por estar situada entre as civilizaes
adiantadas do Mediterrneo e as da frica tropical. O desaparecimento de seu
governo central e a mudana de religio, ocorrendo em meio  miscigenao
ou aliana em larga escala de grupos tnicos e lingusticos, fizeram novamente
desse pas  atualmente conhecido pelo nome de Repblica Democrtica do
Sudo  uma encruzilhada de influncias, todas absorvidas e remodeladas at se
tornarem as partes constitutivas de um conjunto novo e nico. A sociedade que
ento surgiu j apresentava caractersticas tnicas e culturais semelhantes, em
muitos pontos, s atuais, que fazem do Sudo uma entidade afro-rabe nica,
um microcosmo da frica25. A primeira consequncia da neutralizao do poder
estatal deve ter sido o empobrecimento e a diminuio da segurana. Alm das
razes histricas j evocadas para a queda do padro de vida, as investigaes
modernas aventaram a hiptese de deteriorao climtica, que se revelou atravs
da baixa do nvel normal do rio Nilo26.
    As fontes anteriores a esse perodo manifestam grandes divergncias quando
tratam da situao material dos nbios, dividindo-se as testemunhas oculares


24    Ver HASAN, Y. F., 1967, p. 169-71.
25    Sobre este tema, veja-se especialmente `ABD AL-RAHM, 1970.
26    Ver HEIZELIN, 1957, p. 320.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                465



em funo de sua origem e partido. Assim, o relato de um enviado aibida do
sculo XII menciona um pas pobre que s cultiva o sorgo e a tamareira, e 
governado por um reizinho ridculo, enquanto o armnio `Ab Slih menciona
com admirao, pela mesma poca, uma cultura urbana elaborada. As investiga-
es arqueolgicas modernas confirmaram essa ltima opinio, ao mesmo tempo
que aumentaram consideravelmente os elementos de que dispomos para apreciar
a produo artstica nbia, em particular os afrescos de igrejas e a cermica.
Enquanto a pintura indica inspirao bizantina, a cermica seguiu a tradio
merotica local. Mudanas importantes s vieram com o Isl.
    Enquanto aguardamos novas revelaes arqueolgicas, no contamos com
nenhum elemento relativo  situao da Nbia propriamente dita (al-Makurra
e al-Mars) durante o perodo obscuro que vai da destruio de Dunkula at
o aquartelamento no pas de guarnies otomanas, em incios do sculo XVI.
W. Y. Adams recentemente formulou a hiptese de que a Nbia mdia (entre
Maharraka e a terceira catarata), por ser uma regio pobre, provavelmente teria
sido abandonada por sua populao crist em fins do sculo XIII. Depois de
trs sculos de nomadismo na zona de chuvas (situada mais ao sul) e de se
converter ao Isl, essa mesma populao teria retomado a seu habitat anterior.
Isso bem poderia explicar a estranha diferena que se constata entre as lnguas
nbias faladas pelos Mahas, na Nbia mdia, e as dos Kenz (mais ao norte) e
dos Dankla (ao sul). Estas duas ltimas lnguas se revelam estreitamente apa-
rentadas, porm muito diferentes do mahasi que  falado entre os territrios de
ambas. Segundo W. Y. Adams, os povos islamizados que falam kenzi teriam se
infiltrado na zona quase despovoada que se encontra ao sul da terceira catarata,
a partir dos ltimos tempos da decadncia do reino, impondo assim sua ln-
gua; por sua vez, os Mahas teriam conservado, graas a seu suposto perodo de
nomadismo, uma lngua mais prxima do nbio antigo. Essa hiptese, porm,
no  aceita por todos os especialistas27.
    De modo geral, parece provvel que durante o perodo mal conhecido da
histria nbia, parte considervel da antiga populao sedentria se tenha tor-
nado nmade, ou seminmade, devido  diminuio do espao cultivvel. Para
Ibn Khaldn, que foi contemporneo do declnio da Nbia crist, a evoluo
do pas correspondia exatamente a seu esquema sociolgico, no qual a vida
sedentria constituiria o ltimo estgio da civilizao, iniciando, a partir da, a
decadncia, a qual ele contrasta com a coragem e a vitalidade dos bedunos. Os

27   Ver ADAMS, W. Y., 1966, p. 153-5. Quanto a opinio de P. L. Shinnie, veja-se HASAN, Y. F., 1971,
     p. 44.
466                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



acontecimentos nbios tambm pareciam corroborar sua opinio a respeito da
rpida morte de uma nao vencida.
   Depois de descrever a maneira pela qual as cabilas rabes, especialmente os
Djuhayna, provocaram a desintegrao do reino e uma situao de anarquia
generalizada, Ibn Khaldn escreve:
      E no resta nenhum vestgio de autoridade central em suas terras, devido s mudan-
      as nelas introduzidas sob a influncia da beduinizao rabe, por meio de casamen-
      tos mistos e alianas28.
Apesar do realismo dessa descrio, seria demasiado simplista considerar que a
Nbia tenha vivido uma nomadizao geral.
    A influncia cultural dos rabes e do Isl deu origem a certo nmero de
inovaes que se encontram intimamente ligadas. Algumas delas j foram men-
cionadas, em particular a passagem da organizao matrilinear  patrilinear, e
a procura  generalizada  de uma identidade rabe. A mudana lingustica
representada pela adoo do idioma rabe poupou apenas a Nbia propriamente
dita, de Assu at um limite situado pouco adiante de Dunkula, na direo do
sul; mesmo assim, o bilinguismo alastrou-se tambm nessa regio. Por outro
lado, os dialetos do rabe que so falados em toda a zona situada entre o Bornu
e o rio Nilo denotam marcadas influncias africanas.
    Os Funj e seus sucessores implantaram as regras islmicas (shar`a) apenas
gradativamente. A posio das mulheres mudou, que se viram eliminadas da vida
pblica. Novos hbitos surgiram quanto ao casamento e s demais cerimnias
que marcam os acontecimentos da vida familiar ou social e religiosa.
    Desapareceram as artes visuais e a arquitetura da poca crist. Os imigrantes
bedunos, confirmando perfeitamente a opinio de Ibn Khaldn, faziam pouco
caso das belas artes; nada trouxeram,  Nbia, da delicadeza de gosto e das
tcnicas requintadas de seus correligionrios das terras centrais do Isl. Desse
ponto de vista, o Sudo no foi mais do que um setor perifrico e negligenciado.
Por outro lado, as estticas africanas autctones subsistiram, continuando a
manifestar sua presena nas artes menores e no artesanato.
    Ibn Khaldn tambm afirma que a converso ao Isl isentava os nbios do
dever de pagarem a djizya. Ignoramos em que medida esse ponto do acordo de
Shakanda foi efetivamente aplicado, se  que o foi.  indiscutvel, porm, que as
pessoas que abraavam o islamismo ficavam a salvo da escravido. No passado,
as invases, as entregas determinadas pelo bakt, assim como eventuais presentes

28    IBN KHALDN, 1956-1961, v. 5, apud HASAN, Y. F., 1967, p. 128.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                   467



e as vendas de escravos a mercadores muulmanos, haviam muitas vezes afe-
tado a prpria populao nbia, nos perodos em que havia falta de cativos que
praticavam as religies tradicionais. Assim, a nova situao, caracterizada pela
expanso do dr al-`Islm (mundo islmico), exigia que se fossem buscar terri-
trios de preao e compra de cativos mais ao sul e mais a oeste. No entanto, 
provvel que tenha havido poucas mudanas no emprego da mo de obra servil,
que continuou a desempenhar papel apenas acessrio na vida econmica. Alm
disso, no dispomos de qualquer indcio de que tenha ocorrido alguma alterao
na tecnologia do trabalho agrcola, que se manteve simples.
    O desaparecimento do governo central, o empobrecimento da populao e a
preponderncia do nomadismo constituram, sem dvida, sintomas de regresso
social temporria. As estruturas tnicas foram reforadas, em prejuzo do poten-
cial crescimento de instituies estatais semelhantes s chefarias. Em compen-
sao, os novos sistemas sociais e culturais adquiridos e desenvolvidos durante
e aps o perodo obscuro prepararam melhor os emergentes povos sudaneses
para o ulterior desenvolvimento histrico nessa zona de contato entre as rbitas
culturais rabe e africana.


     A Nbia e a frica
    Os historiadores contemporneos do Sudo niltico tm a convico, firme
e justificada, de que no passado se atribuiu importncia excessiva ao fator seten-
trional (isto , ao rabe), em detrimento tanto dos desenvolvimentos internos
autnomos quanto dos contatos com as culturas negras da frica29. Este exem-
plo particular de influncias recebidas e exercidas pela zona sudanesa suscitou,
desde algum tempo, abundantes especulaes.
    A natureza especfica das informaes disponveis  razo evidente para esse
desequilbrio. As fontes literrias rabes constituem o conjunto mais importante,
enquanto o trabalho arqueolgico apenas comea a dar os primeiros passos.
Contudo, somando-se  explorao das tradies orais e ao estudo comparativo
das instituies, a arqueologia j produziu resultados interessantes, especial-
mente ao longo do eixo sudans lesteoeste. Continuamos, porm, sujeitos a
cometer mal-entendidos, mediante a identificao errnea de nomes locais e


29   HAIR, 1969. A necessidade de amplo reexame dos estudos sudaneses foi um dos fatores que determinaram
     a organizao da primeira conferncia internacional patrocinada pelo Sudan Research Unit de Cartum,
     em fevereiro de 1968. Ver HASAN, Y. F., 1971.
468                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



tnicos que,  primeira vista, parecem semelhantes, ou  ainda  devido a outros
tipos de interpretao incorreta de diferentes informaes.
    No que diz respeito ao Egito,  conveniente insistirmos, uma vez mais, no
elevado grau de independncia cultural da Nbia perante as comunidades coptas
do outro pas.  claro que os contatos foram estreitos durante muito tempo.
Nos perodos de perseguio, os monges coptas iam procurar refgio na Nbia30.
Existem, em contrapartida, sinais suficientes da influncia nbia sobre o alto
Egito. Os documentos nbios mais interessantes foram encontrados nos mosteiros
coptas. Entre as descobertas feitas no Egito, devem ser citados numerosos cacos
de loua caracteristicamente nbios, do artesanato que  conhecido pelo nome
de "cermica de Dongola". Bastar indicar que temos numerosos testemunhos
literrios e arqueolgicos da existncia de contatos comerciais entre os dois
pases vizinhos.
    A leste, as atividades da Nbia tambm resultaram em contatos com o Egito
e os rabes. Pouco sabemos da poltica nbia em relao aos Bedja, que prova-
velmente no se privaram de efetuar incurses ocasionais nas aglomeraes da
regio ribeirinha. De acordo com Ibn Khaldn, alguns deles converteram-se ao
cristianismo. O problema da presena nbia no deserto oriental, porm, ainda
no foi elucidado em seu conjunto.
    Graas aos escritores rabes, dispomos de melhores informaes quanto
ao comrcio no mar Vermelho, que florescia no perodo que ora nos interessa,
depois que os Fatmidas fizeram dele a principal rota de comrcio com a ndia.
Assim foi at a irrupo dos portugueses, em incios do sculo XVI. Os portos
mais importantes na costa sudanesa eram `Aydhb e Sawkin, ambos fundados
por mercadores muulmanos. O comrcio entre esses portos e o vale do Nilo
estava inteiramente nas mos dos rabes; os Bedja, cujo territrio era percor-
rido por eles, parecem ter cooperado de modo geral, seno sempre. Sua boa
vontade e a segurana das rotas caravaneiras estavam garantidas por tratados
e, em certos casos, pelo pagamento aos chefes locais de parte dos rendimentos.
Na regio de `Aydhb, essa participao tendeu a aumentar, da poca dos Fat-
midas at o sculo XIV, quando Ibn Battta visitou esse porto, ento em plena
prosperidade31.
    `Aydhb servia, principalmente, ao comrcio com o Egito. Os peregrinos que
iam para Meca tambm usavam o porto, especialmente durante a presena dos


30    A presena de monges coptas  documentada, entre outros elementos, pelas estelas funerrias encontradas
      em Ghazli. Para maiores detalhes, ver SHINNIE & CHITTICK, 1961, p. 69 et seqs.
31    HASAN, Y. F., 1967, p. 73.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI                469



cruzados na Palestina, que representavam srio perigo para o itinerrio do Sinai.
Contudo, na segunda metade do sculo XIV, o desenvolvimento de Djeddah 
na margem asitica do mar Vermelho  causou notvel declnio na importncia
de `Aydhb para o comrcio com o Oriente. Isto tambm se deveu, certamente, 
agitao que era constante no hinterland de `Aydhb. Entre 1420 e 1430, o sulto
Brsby, em represlia contra os rabes locais e os Bedja arabizados, desferiu
golpe fatal contra o porto32.
    Devido  sua posio geogrfica, Sawkin provavelmente constitua uma
sada comercial mais importante para a Nbia do que para o vizinho do norte.
A natureza das fontes escritas de que dispomos implica, porm, s termos infor-
maes sobre suas relaes com o Egito. Em 12641265, o sulto Brsby
puniu com uma expedio militar o soberano rabe de Sawkin, mas depois
concordou em nome-lo representante local dos Mamelucos. Durante certo
tempo, a submisso do senhor de Sawkin foi simbolizada pela entrega anual
de 80 escravos, 300 camelos e 30 kintr de marfim, isto , mercadorias tipica-
mente sudanesas, que continuavam muito procuradas no Egito33. Em meados
do sculo XV, Sawkin voltou a ser tomada por um exrcito dos Mamelucos,
ficando, desde ento, diretamente submetida  sua autoridade.
    Por mais estranho que isso possa parecer, os conhecimentos que temos das
relaes da Nbia com a Etipia crist so muito insuficientes. J foram men-
cionados alguns contatos isolados, como a misso nbia enviada sem sucesso
 corte etope, da qual falou F. lvares. Apesar da escassez de testemunhos,
podemos supor que as relaes entre as polticas crists da Nbia e da Etipia
fossem mais estreitas do que j se pde provar.  possvel que novas informaes
venham a ser descobertas do lado etope.
    Para o sul, o quadro  igualmente obscuro. No  sequer possvel assinalar,
com certeza, at onde se estendiam os limites de `Alwa. Os stios mais ao sul
dessa cultura foram localizados perto de Wad Medani, mas  muito provvel
que ela tivesse alcanado uma extenso maior.  igualmente plausvel que regies
situadas nesse lado fornecessem escravos com frequncia. Os autores rabes que
escreveram sobre `Alwa distinguem os Nuba dos outros negros. Um nome de
etnia citado muitas vezes  Kurs, Kersa ou Kars34. -nos dito que estes viviam

32   Uma tradio que se referia  destruio de `Aydhb foi registrada por LEO, o AFRICANO, 1956, p.
     484-5, por volta de 1526. Note-se que, nesse texto, `Aydhb foi erroneamente mencionada pelo nome
     de Zibid ou Zabid. Ver tambm, sobre a mesma questo, HASAN. Y. F., 1967, p. 81-2.
33   A informao  de HASAN, Y. F., 1967, p. 85, que se funda na autoridade de al-Nuwayr,
34   Tais nomes so mencionados por Ibn Sulaym, Ibn Hawkal e Ibn `Abd al-Zhir. ARKELL, 1961, p. 195,
     sugere que sejam povos do Darfr ou, ainda, de etnias idnticas aos Maba do Wadai.
470                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



nus; outra fonte conta que se vestiam com peles e que faziam os espritos locais
efetuar as colheitas em seu lugar. Outros povos negros, provavelmente nus, que
viviam adiante de `Alwa, so mencionados sob o nome de Takunna ou Bakunna35.
    Ibn `Abd al-Zhir conta-nos que, por volta de 1290, o pas dos `Anadj  isto
, `Alwa  foi atacado por um inimigo. Y. Fadl Hasan supe que esse ataque
viesse do sul, talvez dos ancestrais dos Funj, enquanto A. J. Arkell sugere que os
invasores se originariam do Kanem ou do Darfr36. Certamente, no eram raros
os ataques vindos do sul. Por fim, registra-se que os Funj avanaram em Guezira,
partindo do sul e acompanhando o curso do Nilo Azul. No conjunto, somos
levados a considerar a hiptese de que pode haver certa relao entre a destrui-
o da Nbia crist e o que parece ter sido uma reao em cadeia de movimentos
populacionais em toda a regio, que talvez at inclussem o avano para o sul de
nilotas que do Nilo superior seguissem em direo aos lagos equatoriais37.
    Para oeste,  mais fcil determinar os contatos e influncias recprocas. Com
a mesma falta de senso crtico que fazia atribuir  antiga Mroe a difuso da
metalurgia, tambm a Nbia foi considerada como centro de propagao do
cristianismo at regies to remotas como a frica ocidental. Essa tese requer
certas reservas, seno completo ceticismo. U. Monneret de Villard recolheu
muitssimas tradies crists da frica ocidental38, e a ideia de difuso em larga
escala do cristianismo, partindo da Nbia, ainda  sustentada por vrios estudio-
sos39. H, porm, numerosas vozes cticas sugerindo que o cristianismo possa ter
adotado outras vias atravs do Saara  passando, por exemplo, pelo Goraan  ou,
ainda, que tenha havido confuses com a influncia islmica40.
    Na verdade, o problema da influncia da Nbia crist na frica ocidental
 s um pouquinho mais claro que o da irradiao cultural de Mroe, to bem
exposto por A. J. Arkell. Indiscutivelmente, a Nbia amadureceu uma civiliza-
o elevada, que se pode equiparar  dos imprios do Sudo ocidental, e que
podia ser considerada como um modelo sedutor. No podemos negligenciar,


35    Esses povos so referidos por Ibn al-Fakih e al-Mas`d. Ver HASAN, Y. F., 1967, p. 7. Por sua vez,
      ARKELL, 1961, p. 189-90, aventa a hiptese de que seu nome se tenha conservado nas denominaes
      dos Djebel Kon do Kordofan, ou dos Djukun da Nigria,
36 Ver HASAN, Y. F., 1967, p. 137 e ARKELL, 1961, p. 199.
37    Ver o instigante artigo de POSNANSKY, 1971, p. 51-61.
38    MONNERET DE VILLARD, 1938.
39    Para maiores detalhes, ver HOFMANN, 1968. O tema de uma colaborao bizantina, persa, kisra e
      nbia na cristianizao da frica foi retomado, em seguida a Leo Frobenius, por PAPADOPOULOS,
      1966; ver a resenha de sua obra por McCALL, 1968.
40    Ver BECKER, 1913.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI     471



simplesmente, as muitas tradies dos povos da frica ocidental a respeito de
sua origem oriental. P. L. Shinnie assim as comenta:
     Diante de tal massa de material, que sempre sugere contatos com o leste, no h cabi-
     mento em supor que tudo seja apenas fico e mito.  possvel que tais documentos
     contenham elementos de verdade ou, pelo menos, a sugesto de que certas influncias
     culturais vieram do leste41.
Uma vez que  raro essa tradio oral remontar a mais do que uns cinco sculos,
Shinnie prope que tais influncias sejam atribudas  Nbia medieval, mais do
que a Mroe.
    Os escritores rabes forneceram poucas informaes a esse respeito. Ibn
Hawkal, no sculo X, falou numa populao ocidental (al-Djabliyyn), que
estaria sujeita a "Dunkula", e de outra (al-Ahdiyyn), que obedeceria a `Alwa.
Viveriam ambas num territrio de nome Amkal, montando em camelos e usando
armas e sandlias semelhantes s dos ocidentais (Maghriba), com quem teriam
semelhanas fsicas. Essa informao42, sem dvida parcialmente deformada, no
 fcil de se interpretar.
    Os sinais materiais de influncia nbia sobre o oeste so escassos. Conhe-
cemos uma inscrio em nbio antigo e, mais importantes, estruturas em tijolo
vermelho em Zenkor e Ab Sufyn, na estrada lesteoeste que atravessa o
Kordofan setentrional. A cermica de Zenkor assemelha-se  de Soba. Os dois
stios ainda aguardam que se faa algo mais do que simples levantamento e
coleta superficial43. Estruturas de tijolos vermelhos de mesmo tipo encontram-se
mais adiante, no Darfr e no Chade (stio de `Ayn Galakka) e na direo do
Bornu; o stio mais ocidental a t-las  Nguru, ao norte da Nigria. No Darfr,
os stios em questo incluem o palcio real de Uri, a umas 560 milhas de
Dunkula. Arkell sugere que um dos lugares visitados em 1287 pelo enviado
do sulto Kal`n a pedido de Adur  lugares cujos nomes so conservados
no texto rabe sem indicao dos sons de vogal  bem poderia ser Uri44. Em
`Ayn Farah, no norte do Darfr, as runas de construes em tijolo vermelho,
identificadas aps certa hesitao como sendo um mosteiro e algumas igrejas,
contm pedaos de cermica de origem nbia, dos sculos VIII ao XI, decorada
com smbolos cristos. As construes foram datadas entre o sculo VIII e o


41   Ver o artigo de SHINNIE, 1971b, p. 48.
42   Ver IBN HAWKAL, 1938, p. 58.
43   Ver PENN, 1931 e SHAW, W. B. K., 1936.
44   ARKELL, 1961, p. 198.
472                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



XIII, no com certeza absoluta45. Nessa cadeia de stios anlogos, o nico que
pode ser datado com uma certa preciso  Birnin Gazargamo, no Bornu, que 
do sculo XV ou XVI.
    Nos stios chadianos de Koro Toro e Bochianga, a mais de 900 milhas do
Nilo, encontrou-se cermica denotando influncia nbia e produzida por volta
do ano 1000 da era crist46. Ainda no podemos determinar se essas peas
resultam de um comrcio com a Nbia ou de uma implantao local. Tambm
devemos notar que os dois locais apresentam objetos de metalurgia, o que mais
uma vez suscita o problema da difuso dessa tcnica partindo do vale do Nilo.
    A extenso das relaes da Nbia com o Kanem-Bornu e, talvez, com o
Sudo ocidental continua incerta, enquanto esperamos que se proceda a inves-
tigaes arqueolgicas sistemticas. A regio-chave a ser estudada ser o Darfr,
cuja historiografia relativa ao perodo anterior ao surgimento da hegemonia
Fr Kayra (em 1640) ainda  amplamente legendria e conjetural. De modo
geral, s existe acordo quanto ao carter pacfico da transmisso da hegemonia,
dos Ddju do sul aos Tundjur do norte e, finalmente, aos Fr47. A questo da
origem dos dois primeiros povos e da data de suas respectivas hegemonias j
provocou muita especulao48. Como ambos viviam em territrios distintos,
 possvel que seu poder se tenha exercido simultaneamente, pelo menos por
algum tempo. As genealogias e tradies de que dispomos a seu respeito so
manifestamente falsas, seguindo o princpio bem conhecido da inveno de uma
ascendncia rabe.
    A maior parte dos esforos de reconstituio da histria do Darfr foi desen-
volvida por A. J. Arkell. Sua hiptese inicial situava a hegemonia tundjur em
1350153549; contudo, a descoberta de uma influncia crist em `Ayn Farah
levou-o a modific-la50. Passou a situar o reino tundjur sob proteo nbia, tendo


45    A respeito de `Ayn Farah, ver ARKELL, 1960, bem como NEUFVILLE & HOUGHTON, 1965.
      Este ltimo estudo enfatiza as caractersticas muulmanas dos edifcios construdos sobre vestgios mais
      antigos.
46    MAUNY, 1963.
47    Para um resumo sucinto de nossos conhecimentos sobre esta questo, ver BALFOUR-PAUL, 1955. Para
      um estudo mais pormenorizado, ver LAMPEN, 1950, assim como os trabalhos j citados de Arkell (ver
      notas 49 e 50).
48    Quanto aos vestgios do cristianismo encontrados entre os Tundjur, ver MAcMICHAEL, 1920, p. 24-
      32 e 1922, p. 66 et seqs. A tradio de sua origem hill foi registrada por NACHTIGAL, 1879-1881
      e CABROU, 1912. Por outro lado, porm, Barth conservou outras tradies que mencionam os Hill
      vindo do Nilo; BECKER, 1913, tenta conciliar essas duas posies.
49    ARKELL, 1936, 1937 e 1946.
50    ARKELL, 1959 e, mais recentemente, 1963.
A Nbia, do fim do sculo XII at a conquista pelos Funj, no incio do sculo XVI   473



seu apogeu entre os sculos VIII e X. A informao fornecida por Ibn Hawkal
dever ser entendida como um endosso dessa tese? Em todo caso, Arkell faz o
nome tundjur derivar de Makurra, e tambm v ligaes entre este ltimo nome
e o do "sbio estrangeiro" das lendas do Darfr, Ahmad al-Ma`kr. Por volta de
1240, pensa ele, o Darfr foi conquistado pelo grande rei Dnama, do Kanem,
cujos domnios chegavam at al-Mars, no rio Nilo, que  o ponto mais prximo
da rota desrtica Darb al-Arba`n, A mesma hiptese supe que se manteve uma
forte influncia do Bornu sobre o Darfr nos 400 anos seguintes, em especial
sob o reinado do may Idrs51.
    Existe realmente certa documentao interna de semelhanas entre as
instituies de todos os Estados muulmanos emergentes da savana nilo-chadiana
 documentao esta que se pode interpretar como atestando influncia do Bornu,
mas no necessariamente como sinal de supremacia poltica. Tal influncia parece
notar-se, entre outras coisas, nas divises quadripartites da administrao, em certos
traos arquitetnicos e na posio assumida pelas rainhas-mes no governo. O ltimo
trao, porm, tambm se encontra na Nbia.
    Segundo Arkell, Uri, no norte do Darfr, foi um centro de dominao de
Tundjur e, mais tarde, do Kanem. Provavelmente, constitua importante entreposto
destinado ao comrcio de longa distncia, no cruzamento do Darb al-Arba`n com
a rota oesteleste da savana, conhecida esta em rabe pelo nome de tark al-Sdn.
No perodo que ora examinamos, podemos supor que o comrcio por essa via
tenha conhecido altos e baixos, mas no parece provvel que ela tenha sido
utilizada para a peregrinao at Meca antes do sculo XVI. As fontes escritas
nada indicam em contrrio. Todo o trajeto conhecido dos peregrinos do oeste e
do sul do Sudo  inclusive as famosas viagens dos soberanos do Mali, Songhai
e Bornu  dirigia-se para a costa da frica setentrional, passando em seguida
para o Egito e o porto de `Aydhb. A rota terrestre interna, ao longo do cinturo
povoado do Sudo, somente parece ter sido adotada pelas peregrinaes bem
mais tarde, aps as importantes modificaes ocorridas no sculo XVI. Embora,
por um lado, a invaso marroquina do Songhai e a crescente insegurana exer-
cessem influncia negativa sobre as rotas do Saara ocidental, por outro lado
criaram-se condies favorveis ao uso das rotas no Sudo oriental, graas ao
fim da implantao crist no vale do Nilo e  ascenso e consolidao do poder
islmico em Sennar, no Darfr e no Wadai. O movimento de peregrinos na rota
do Sudo s aumentou, porm, lentamente, sendo preciso esperar muito tempo


51   Ver tambm o captulo 10 deste volume.
474                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



para que tomasse propores considerveis52. No que diz respeito ao Darfr,
geralmente se supe que o Isl apareceu nesse pas sob os Tundjur, como religio
de corte, tornando-se realmente popular no tempo dos Fr Kayra.
   O conjunto da regio nilo-chadiana foi muito afetado, nesse perodo, pela
penetrao dos povos rabes. O desenvolvimento cultural, comercial e poltico
que se seguiu no pode ser entendido adequadamente, se no levarmos em conta
os efeitos, cada vez mais notveis, que sua presena teve sobre os povos suda-
neses. Em 1391, o sulto Barkk recebeu no Cairo uma carta do rei do Bornu
queixando-se da m conduta dos Djudhm e de outros rabes, que atacavam seu
povo e vendiam seus sditos, indiscriminadamente, a mercadores de escravos do
prprio Egito, da Sria ou de outros pases. Esse documento, que foi conservado
por al-Kalkashand53,  testemunho admirvel do alcance que tomavam, nessa
parte do mundo, as relaes tanto polticas quanto comerciais.
   Da mesma forma que no vale do Nilo  embora em menor medida , a
presena dos rabes modificou a carta tnica do espao nilo-chadiano, reunindo
condies favorveis para o progresso da islamizao e para o desenvolvimento
de novos Estados sudaneses mais a oeste. Dada a total inexistncia de fontes
escritas mais antigas, esses novos comeos acham-se refletidos nas complexas
montagens de um material legendrio muito rico, abundante na regio. Uma
explorao arqueolgica sistemtica impe-se, para tentar desemaranh-los.




52    Ver AL-NAQAR, 1971.
53    AL-KALKASHAND, 1913-1919, v. 1, p. 306 e v. 8, p. 116-8.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   475



                                       CAPTULO 17


        O Chifre da frica: os Salomnidas
           na Etipia e os Estados do
                 Chifre da frica
                                           Tadesse Tamrat




    Geografia poltica do Chifre da frica, do sculo XIII ao
    sculo XVI
    A partir do ltimo quarto do sculo XIII, a geografia poltica do Chifre da frica
tornou-se extremamente complexa. O Estado mais conhecido da rea era o reino
cristo, nas montanhas setentrionais da Etipia, que, em 1270, passara das mos dos
Zagwe s da Dinastia "Salomnida". Na poca, as fronteiras setentrionais desse
reino estendiam-se aproximadamente, ao sul, at os distritos setentrionais de
Shoa; a oeste, at a regio situada a leste do lago Tana e do curso superior do
Nilo Azul; e, a leste, at as bordas do planalto da Etipia. Mas, afora esse Estado
cristo, existiam na regio vrias unidades polticas de importncia e extenso
variadas. Imediatamente a noroeste do antigo reino zagwe, alm do rio Tacazze,
os Falacha (tambm chamados de "judeus da Etipia") parecem ter constitudo
um Estado independente, que estava constantemente em luta contra as tentati-
vas de invaso crist. Parece que o reino de Godjam, mencionado pela tradio,
se localizava no setor montanhoso logo ao sul do lago Tana. E, o que  mais
importante: pelas tradies histricas da regio, tudo indica que um Estado
poderoso, conhecido como "o reino de Damot", teria dominado um vasto ter-
ritrio ao sul das gargantas do Nilo Azul. Quase nada se sabe sobre esse reino
africano to antigo, mas as tradies que o evocam mostram claramente que,
476                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



muito antes do surgimento dos principados cristos e muulmanos na regio, os
reis de Damot exerciam hegemonia efetiva sobre todo o planalto de Shoa.
    Tambm existiam na rea principados muulmanos estabelecidos ao longo de
toda a costa que vai do arquiplago das ilhas Dahlak, no mar Vermelho,  cidade
somali de Brava, no oceano ndico. A explicao para essa situao geogrfica
seria a importncia estratgica do litoral para os intercmbios comerciais entre
o rico planalto da Etipia central e meridional, a costa da frica oriental e as
regies do golfo de Aden e do mar Vermelho.
    Como consequncia desse comrcio, a partir do sculo XIII surgiram podero-
sas comunidades muulmanas, que acabaram por constituir principados e vrios
Estados bem organizados, entre os quais destacaram-se, no interior, Shoa, Awfat
(Ifat ), Dawaro, Hadya, Fatagar, Bali e Adal1. Apesar de os principais povoamen-
tos da costa  Dahlak, Zayla (Zeila), Berbera, Makdashaw (Mogadscio), Merka e
Brava  parecerem ter se imbudo mais da cultura islmica, foram as comunidades
do interior que se esforaram com maior constncia  e sucesso  para criar um
verdadeiro imprio muulmano na parte oriental do Chifre da frica.


      Povos e lnguas
    O conhecido historiador italiano Conti Rossini descreveu com preciso a
Etipia como um "museu de populaes". Essa imagem, que reflete as extre-
mas antiguidade e complexidade do quadro tnico e lingustico etope, tambm 
vlida para o Chifre da frica como um todo. Alm dos grupos congols-kordofans
e khoisan, duas outras grandes famlias de lnguas africanas, a afro-asitica e a
nilo-saariana, so bem representadas na regio. O grupo afro-asitico  o mais
importante em termos de distribuio e interesse, pois falam-se trs de seus seis
ramos no Chifre da frica  o semtico, o cuxtico e o omtico  sendo cada um
fonte de dialetos bem diversificados2.
    Parece evidente que, durante todo o perodo estudado neste captulo, a maio-
ria das populaes do Chifre da frica falava o cuxtico, que  geralmente



1     Apesar de omitir Adal, AL-`UMAR, 1927, p. 2, cita "sete reinos muulmanos na Abissnia": Ifat,
      Dawaro, Arababni (outras formas: Arabayni ou Arababn), Hadya, Sharkha, Bali e Dara. Essa lista foi
      repetida sem qualquer modificao e nessa ordem por AL-MAKRZ, 1895, p. 5, que as denomina
      "reinos do pas de Zayla".
2     Sublinhamos os termos que servem para classificar as lnguas, devido ao fato de os especialistas ainda
      estarem longe de um acordo sobre a classificao das lnguas africanas.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   477




                                                                                  Mapa da Etipia e do Chifre da frica. (T. Tamrat.)
                                                                                  Figura 17.1
478                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



subdividido em cuxtico setentrional (beja), cuxtico central (agaw) e cuxtico oriental3.
Os Beja (Bedja) eram a populao que vivia na poro mais setentrional da
regio, instalada na rea que hoje constitui o norte da Eritreia. Ao sul dos Beja
encontravam-se os povos que falavam vrios dialetos de agaw e viviam nas ter-
ras montanhosas do centro e do sul da Eritria (os Bilin ou Bogos); em certas
partes de Tigre; no pas dos Zagwe, em Wag e em Lasta; no pas dos Falacha, a
oeste do rio Tacazze; e, finalmente, nas regies montanhosas de Godjam, ao sul
e sudeste do lago Tana.  bem possvel que, nos sculos XIII e XIV, ainda se
encontrassem em Amhara alguns focos de lngua agaw. No interior do Chifre
da frica, porm, a maior parte das terras era habitada por povos que falavam a
lngua e vrios dialetos do cuxtico oriental, cujas duas principais subdivises so o
burji-sidamo e o cuxtico das plancies. Parece que o burji-sidamo se espalhou pelas
reas que hoje correspondem a pores do sul de Shoa, Arussi, Bali e certas par-
tes do planalto de Harar. Por sua vez, o cuxtico das plancies era falado, ao norte,
nas terras baixas, ridas e quentes, entre as bordas do planalto da Etipia e o mar
Vermelho, em todo o interior, habitado principalmente pelos Somali, e em certas
regies da atual Etipia, ao sul e sudeste do lago Chamo, de cujas imediaes
partiram os povos de lngua galla, que se dispersaram no sculo XVI.
    Conhecido at recentemente como cuxtico ocidental4, o omtico era falado
provavelmente pelos habitantes do sudoeste da Etipia, entre a parte meridional
das gargantas do Nilo Azul e a bacia do Orno. Embora a maior parte das lnguas
bem diversificadas que derivam do omtico estejam concentradas no permetro
bem restrito da bacia do Orno, a existncia das lnguas aparentadas, shinasha e
mao, no sudoeste do Godjam e em Welega, respectivamente, parece indicar que
o omtico espalhou-se mais amplamente em todo o sudoeste da Etipia antes da
disperso dos Galla no sculo XVI.
    O terceiro ramo do grupo afro-asitico representado na Etipia e no Chifre
da frica  o semtico. Do sculo XIII ao sculo XVI, os povos que domina-
vam poltica e culturalmente a regio eram, em sua maioria, de lngua semtica.
Conhecidas sob o nome coletivo de etipio-semticas, as lnguas semticas da
Etipia so numerosas e variadas. Antigamente se acreditava que haviam sido
introduzidas no norte da Etipia, aps 700, por imigrantes procedentes do
sul da Arbia, mas essa hiptese j no parece plausvel. Estudos recentes
indicam que sua histria remonta a tempos mais antigos do que se supunha.


3     BENDER, 1976.
4     FLEMING, 1964, deu uma contribuio muito importante, ao demonstrar que o omtico, anteriormente
      classificado como "cuxtico ocidental", constitui uma famlia distinta da afro-asitica.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   479



Hoje, acredita-se que os dois ramos  norte e sul  do etipio-semtico separaram-se
pelo menos trs sculos antes da ascenso de Aksum (Axum). Aparentemente, o
esboo da diviso atual dessas lnguas comeou desde o fim do sculo XIII. O gueze
(ge'es ou ghes), uma das trs lnguas etipio-semticas do norte, era a lngua
literria da Igreja etope desde o sculo IV da era crist e sobreviveu como tal
at hoje, conservando intactas suas formas originais. As duas outras, o tigre e
o tigrinya eram e ainda so faladas nas provncias que foram outrora as mais
importantes do Imprio de Aksum: a Eritreia e o Tigre. Excetuando-se algumas
comunidades de lngua tigre situadas no litoral e no norte da Eritreia, as outras
regies, habitadas originalmente, nos tempos do Imprio de Aksum, por povos
de lngua tigre e tigrinya, passaram quase intactas para o domnio do reino
cristo da Etipia, no sculo XIII da era crista. Em ntido contraste com isso,
muitas lnguas e grupos de dialetos que constituem o etipio-semtico meridional
tiveram evoluo histrica bem mais complexa, cujos detalhes so ainda pouco
conhecidos. As ltimas tentativas de classificao do etipio-semtico meridional
distinguem dois ramos principais, batizados de "exterior" e "transversal"5. Os que
falam etipio-semtico meridional "exterior" (os Gafat, e os Gurage do centro, do
norte e do oeste) parecem ter sido a ponta-de-lana da expanso semtica na
Etipia central; durante o perodo ora estudado, eles conseguiram ocupar um
setor geogrfico mais ou menos contnuo entre o curso superior do Awash e
as gargantas do Nilo Azul, na atual Shoa ocidental. Ignoramos o incio de sua
histria, mas parece certo que j estivessem instalados nessa regio antes do
estabelecimento da Igreja crist em Aksum e da expanso da nova religio para
o sul. Acredita-se que alguns grupos permaneceram em guerra contra a Etipia
crist at os sculos XIV, XV e mesmo XVI.
    As referncias mais antigas aos povos de lngua etipio-semtico meridional
"transversal" (amhara, argobba, gurage oriental, harari) tambm levam a crer que
os prprios Amhara ainda no haviam aderido completamente ao cristianismo
no incio do sculo IX. No entanto, desde esse perodo comearam a se integrar
ao reino cristo, que acabariam por dominar no final do sculo XIII, quando do
advento da dinastia dita "salomnida".  bem mais difcil reconstruir a histria
primeva dos outros ramos do etipio-semtico meridional "transversal" (argobba,
gurage oriental e harari); seus utilizadores parecem ter-se distribudo para o sul
e para o sudeste dos Amhara, e  bem possvel que tenham sido os primeiros
elementos das comunidades muulmanas que se expandiram e se desenvolveram


5    BENDER, 1976.
480                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



em Shoa, em Awfat6 e, com certeza, tambm em Fatagar e em Dawaro. 
importante observar que a antiga cidade fortificada de Harar e suas imediaes,
onde hoje se fala o harari e o argobba, constituram o novo centro poltico dos
prncipes muulmanos Walasma, exilados de Awfat quando seus antigos dom-
nios  como veremos mais adiante neste captulo  foram finalmente anexados
pelos cristos, no final do sculo XIV.
   Alm desses ramos do etipio-semtico, assim distribudos pelo interior da
Etipia, de um extremo ao outro do longo corredor que liga as montanhas da
Eritreia  bacia inferior do Awash, falava-se tambm o rabe: era a lngua reli-
giosa e comercial de todas as colnias do mar Vermelho, do golfo e do oceano
ndico, das grandes vias comerciais e dos mercados importantes do interior; alis,
em vrios stios foram encontradas sepulturas com inscries em rabe.


      Os principados muulmanos do litoral
    Alm do reino cristo da Etipia e de alguns dos principados muulma-
nos mais poderosos, quase nada se sabe a respeito dos numerosos Estados que
certamente existiram na regio, no final do sculo XIII. Os velhos Estados
africanos  Falacha, Godjam, Damot , assim como o grande nmero de povos
islamizados do litoral e interior do Chifre da frica, s aparecem na histria
da regio quando militarmente submetidos por vizinhos mais poderosos, cris-
tos ou muulmanos. Como o objetivo deste captulo  revelar, na medida do
possvel, a interao dessas vrias entidades polticas, convm sublinhar desde
j que os dados de que dispomos para reconstituir a histria poltica e cultural
das populaes do Chifre da frica concernem apenas  Etipia e aos Estados
muulmanos mais poderosos, como os sultanatos de Awfat, Dawaro, Adal e
Dahlak. De modo geral, a histria local desses antigos Estados foi bastante
negligenciada. Muitas pesquisas lingusticas e arqueolgicas seriam necessrias
para se poder afirmar algo sobre a dinmica cultural e poltica desses povos.
    Embora no estado atual de nossos conhecimentos parea difcil fixar linhas
amplas e caractersticas estruturais para a evoluo de grande parte dos povos
do Chifre da frica durante o perodo, a explorao de algumas fontes rabes
permite montar um quadro sucinto dos vrios principados muulmanos do
litoral, que surgiram em funo do comrcio e que eram mais ou menos bem
conhecidos e frequentados por mercadores e negociantes rabes.

6     CERULLI, 1941, v. 1, p. 32-4.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica     481



    Situadas alm do limite setentrional extremo do Chifre da frica, as ilhas
Dahlak, que dominam o canal de Masawah, constituem, com as ilhas Farsan,
localizadas no litoral da pennsula Arbica, uma ponte virtual entre o Imen e
a costa da Eritreia e tambm escala importante nas relaes nortesul do mar
Vermelho. J desempenhavam esse papel desde a Antiguidade, e muito cedo,
no sculo VII da era crist, os muulmanos ocuparam a maior dessas ilhas 
Dahlak al-Kabr , utilizando-a como local de exlio e priso nos reinados dos
califas omadas e abssidas, antes que ela casse em mos da Dinastia Zabid, do
Imen, no sculo IX7.
    Aproveitando as dissenses internas do mundo muulmano no sculo XIII,
da era crist, o arquiplago pde recobrar sua independncia e constituir-se
em emirado. Engajando-se no comrcio e na pirataria, conseguiu neutralizar
as ameaas dos Mamelucos do Egito, atravs de uma diplomacia ativa e uma
poltica eficaz de alianas oportunistas com os prprios Mamelucos contra as
tendncias hegemnicas dos soberanos iemenitas e etopes. Essa poltica dos reis
de Dahlak foi frutfera, pois parece que o arquiplago ainda era independente
quando da chegada dos portugueses, no incio do sculo XVI8.
    Graas a Ibn Battta  que percorreu toda a costa oriental da frica, desde
o litoral egpcio do mar Vermelho at Kilwa , dispomos de detalhes sobre a
regio entre Zayla e Makdashaw (Mogadscio) no sculo XIV9. Segundo esse
autor, a cidade de Zayla era habitada por uma comunidade negra, os Barbara,
certamente os mesmos Barabin (isto , os Somali) mencionados por Ykt10. A
cidade estava ativamente engajada no comrcio, na criao de camelos e ovelhas
e na pesca; a atmosfera reinante era a de uma grande conurbao, que enfrentava
problemas de urbanizao e limpeza.
    Makdashaw era uma grande metrpole comercial. A criao de ovinos permitia
que seus habitantes fabricassem
     o tecido cujo nome  o mesmo dessa cidade, e que no tem rival. De Makdashaw, 
     exportado para o Egito e para outras regies11.
Eles tambm cultivavam bananas, mangas, legumes, alm de arroz, base da
alimentao. O porto da cidade era frequentado por numerosas embarcaes,


7    Sobre as ilhas Dahlak, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 2, p. 90-1.
8    Ver WIET, 1951-1952, p. 89-95.
9    Ver IBN BATTTA, 1922-1949, v. 2, p. 179-91, e 1966, p. 22-6.
10   YKT, 1866-1873, v. 1, p. 100; v. 2, p. 966; v. 4, p. 602.
11   IBN BATTTA, 1966, p. 23.
482                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



acolhidas  entrada da barra por uma flotilha sunbuk  de pequenas embarca-
es , certamente utilizada tanto para a pesca quanto para o transporte a curta
distncia de mercadorias nas imediaes da cidade. Esta  descrita como uma
comunidade bem civilizada, onde a sociabilidade e hospitalidade caractersticas
do mundo do comrcio eram altamente desenvolvidas. Uma importante aris-
tocracia, formada por comerciantes poderosos, jurisconsultos e funcionrios do
sulto, dominava-a. O prprio sulto  xeque, segundo o testemunho de Ibn
Battta  encontrava-se no topo de slida organizao, criada, com certeza, pela
necessidade de se garantirem as melhores condies de troca possveis. Temos
poucas informaes sobre a evoluo poltica da dinastia e sobre a classe poltica
durante este perodo, mas tudo indica que a corte do sulto da cidade contava
com vrios vizires, com funes administrativas precisas.
    O autor no nos informa sobre a lngua local, que coexistia com o rabe
nesse mundo cosmopolita; mas ela atesta toda a fora das estruturas culturais
africanas, embora com o progresso da islamizao o ensino do Coro fosse bem
desenvolvido. Ibn Battta insiste bastante no grande nmero e na forte presena
dos talaba (propagadores), e na preponderncia do rito shafiita entre o povo.
    Os gegrafos rabes tambm nos informam sobre trs outras cidades comer-
ciantes do litoral somali do Chifre da frica: Berbera, Merka e Brava. Ber-
bera, era, de fato, bem conhecida na Antiguidade como porto importante. A
cidade e o interior dessa regio urbana foram bem descritos no Priplo do mar
da Eritreia de Hannon, e tambm por Ptolomeu e por Cosmas Indicopleustes.
Sua importncia certamente no foi menor na poca que ora estudamos, pois
o topnimo serviu para denominar, durante muito tempo, o golfo de Aden,
chamado indiferentemente pelos prprios gegrafos rabes de "mar ou golfo de
Barbara". De acordo com esses gegrafos, os Berbir que habitavam o pas (e
que, como a maioria deles apontou, no so os berberes), eram bem diferentes
dos Swahili (Waswahili) e abissnios. Temos bons motivos para pensar que se
tratasse dos Somali12. Tambm no plano poltico, Berbera parecia ligada, em
sua evoluo, a outras comunidades muulmanas da regio, principalmente a
Zayla, relativamente prxima, e ao sultanato de Adal, entre os sculos IX ou X
e o sculo XIV da era crist.
    Situadas no outro extremo do Chifre da frica, as cidades de Merka e Brava
parecem ter pertencido ao imprio comercial de Mogadscio e de sua flotilha,
o que se explicaria, em parte, pela redistribuio e pela existncia de circuito

12     necessrio frisar que a palavra somali aparece pela primeira vez no incio do sculo XV num hino
      etope, que data do reinado de Negus Isaac. Ver Encyclopaedia of Islam, nova ed., v. 1, p. 1172-3.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   483



comercial nada negligencivel. Estaramos, ento, diante de uma rede relati-
vamente densa de trocas entre Mogadscio e esses dois portos, que eram bem
menos importantes para o comrcio inter-regional.
    As diversas comunidades muulmanas eram peas-chave do que Andr
Miquel chamou de "tabuleiro de xadrez comercial". Sua importncia estava
intimamente ligada  existncia de um vasto interior, rico e ativo.


    Os Estados cristos e muulmanos perante as
    comunidades de religio africana tradicional
    O desenvolvimento de vias comerciais que saam do golfo de Aden em dire-
o ao interior do Chifre da frica foi, desde o sculo X da era crist, um dos
elementos essenciais da histria de todos os povos da regio. Mesmo quando
foram objeto de discrdia entre as principais potncias da regio, que disputa-
vam seu controle, as vias contriburam para todo tipo de interao entre as popu-
laes locais, de cultura, religio e lngua diferentes. Grupos vindos de quase
todos os pontos do pas tiveram papel mais ou menos importante na evoluo
econmica e poltica iniciada com a abertura dessas rotas, principalmente na
poca que ora estudamos, quando houve movimentos prolongados de expanso
e conquista dos principais Estados cristos e muulmanos. A partir de meados
do sculo XIII, at mesmo o reino cristo dos Zagwe, no norte da Etipia, havia
deixado de considerar o sultanato de Dahlak como sua nica sada para o mar
Vermelho e comeou a utilizar a rota de Zayla, que passava por suas provncias
meridionais. Essa mudana capital na importncia econmica de Zayla pode ser
considerada fator determinante, no apenas para a emergncia de Awfat como
o Estado muulmano mais importante entre o golfo e o planalto de Shoa, mas
tambm para o deslocamento gradual, em direo ao sul, do centro poltico da
Etipia crist, o que resultou no advento da Dinastia "Salomnida".
    Yekuno-Amlak, fundador da nova Dinastia "Salomnida", era um dos chefes
locais de Amhara de cuja origem e incio de carreira pouco sabemos. No entanto,
as tradies identificam-no unanimemente como o homem que ps fim  Dinastia
Zagwe, em 1270. As eternas polmicas entre os soberanos zagwe e os "salomnidas"
dominam os anais da poca: boa parte da histria de Yekuno-Amlak foi forjada, de
forma a legitimar seu advento como se fosse a restaurao da antiga Dinastia "Salo-
mnida" de Aksum. Essa concepo eclipsou um pouco as razes de ordem prtica,
que parecem explicar melhor o sucesso de Yekuno-Amlak e de seus partidrios.
Havia muito que as colnias crists das provncias mais meridionais do reino de
484                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



Zagwe estavam integradas  vasta rede de relaes comerciais com os principados
muulmanos distribudos entre o golfo de Aden e o planalto de Shoa. Toda a regio
do alto e mdio Awash era uma zona fronteiria, onde cristos, muulmanos e
comunidades de religio tradicional vinham interagindo havia trs sculos.
    A regio parece ter feito parte dos domnios do famoso "rei de Damot" 
mencionado por Ibn Khaldn13  a quem as tradies crists atribuem papel predo-
minante no sculo XIII. Conhecido nessas tradies pelo nome de Motelami, o "rei
de Damot" era um monarca pago; a existncia de colnias crists e muulmanas
no planalto de Shoa, ao norte do alto Awash, sempre dependia de sua boa von-
tade. Esse quadro de relaes entre as comunidades de crena tradicional e seus
vizinhos cristos e muulmanos comeou a tomar forma, o mais tardar, entre os
sculos X e XI, quando cristos procedentes do norte da Etipia e mercadores
muulmanos do golfo de Aden estabeleceram suas respectivas comunidades
nessa rea. No sculo XII, por ocasio do renascimento da Etipia crist sob o
domnio dos Zagwe, os cristos parecem ter se tornado mais confiantes e at
mesmo ter pedido que os Zagwe interviessem em seu favor. Provavelmente a
tradio zagwe se refere a esse fato, quando evoca uma expedio contra Damot 14.
A expedio foi um fracasso: alm de Damot no cair sob o domnio do rei
zagwe, este e muitos outros cristos perderam a vida no campo de batalha. A
ascendncia zagwe sobre as comunidades crists parece ter-se reforado nessa
poca, e os cristos da rea passaram a se considerar sditos dos reis zagwe. Suas
relaes com as provncias crists de Amhara e, mais ao norte, as de Angot e
do Tigre intensificaram-se.
    Muitos dos colonizadores cristos de Shoa estavam envolvidos no comrcio
de longa distncia com o Tigre, ao norte. Segundo antiga fonte que se refere
ao sculo XIII, os negociantes iam ao Tigre buscar sal, que trocavam em Shoa
por cavalos e mulas15. Isso parece, ento, indicar que os cristos estabelecidos na
poca na regio que hoje  Shoa setentrional, embora fossem em nmero relati-
vamente pequeno, haviam conseguido uma fatia importante do comrcio interno
do planalto da Etipia, ao norte do alto Awash. Tambm praticavam a agricultura
mista, e tradies bem antigas apresentam alguns deles como prsperos fazen-
deiros, com grandes famlias e, inclusive, certo nmero de escravos. Espalhados
por vasta rea, organizavam-se em pequenas chefarias que parecem ter sido,
originariamente, tributrias dos reis de Damot. Essas colnias muito dispersas

13    IBN KHALDN, 1852-1856, v. 2, p. 108.
14    CONTI ROSSINI, 1904, p. 22-6.
15    TAMRAT, 1972a, p. 82.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   485



tinham forte sentimento de sua identidade comum e de sua interdependncia; no
apogeu da soberania zagwe em Lasta, parecem ter constitudo, com seus vizinhos
de Amhara, uma provncia crist maior, na regio do atual Wello.
    Ao lado desses cristos viviam famlias muulmanas estabelecidas nos contra-
fortes orientais do planalto de Shoa. Como as duas comunidades haviam sido, a
princpio, submissas aos reis de religio africana tradicional da rea,  provvel
que seus territrios no tivessem delimitaes bem definidas. Da mesma forma
que os cristos, os muulmanos tinham sentimento bem vivo de sua identidade e
compartilhavam a crena que atribua a fundao de suas comunidades a rabes
de Meca16. No sculo XIII, porm, formaram certo nmero de entidades polti-
cas independentes e concorrentes, que tendiam a ir aos poucos se libertando da
tutela do rei de Damot. Uma delas, o "sultanato de Shoa", compreendia muitos
principados rivais dominados por pequenos grupos de linhagem, originrios de
um mesmo ancestral rabe. Talvez a regio mais tarde conhecida pelo nome
de Fatagar tambm fizesse parte desses povoamentos to intimamente ligados.
Outra comunidade muulmana importante era Awfat, que adquiriu notoriedade
sobretudo no sculo XIII. Desde sua implantao, cada um desses povoamen-
tos tinha sido reforado por um nmero crescente de converses locais ao Isl.
Segundo a anlise lingustica dos nomes de monarcas e os relatos de al-`Umar,
a maior parte da populao das comunidades muulmanas e crists, pelo menos
em Shoa, falava o etipio-semtico17.
    Assim como seus vizinhos cristos, esses muulmanos gozavam de vida rela-
tivamente confortvel, baseada no apenas na agricultura mista, como tambm
 muito mais do que entre os cristos  no comrcio de longa distncia. Nesse
campo, os rabes levavam vantagem, pois as rotas de caravanas entre o golfo de
Aden e Shoa atravessavam reas onde o Isl predominava desde o sculo XIII.
Eles controlavam, assim, com firmeza, o comrcio internacional. No entanto,
para poderem levar o comrcio mais para o interior e at o centro do reino
zagwe, tinham de contar com a cooperao dos cristos de Shoa e Amhara, que
parecem ter atuado como intermedirios e garantido etapas de pouso, na ida
e na volta, nos planaltos cristos. Essa interdependncia criou interesses forte-
mente solidrios entre as comunidades crists e muulmanas da regio. Gra-
as  importncia crescente do porto de Zayla, no golfo, como principal sada
comercial da Etipia central, essa associao tornou-se cada vez mais estreita
e lucrativa. Apesar de estarem conscientes de suas respectivas identidades,

16   CERULLI, 1931, p. 43; 1941, p. 15-6.
17   AL-`UMAR, 1927, p. 1-2.
486                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



existia um esprito de mtua tolerncia entre os dois grupos, de forma que,
provavelmente, nenhum conflito maior no plano religioso atingiu essas zonas
fronteirias durante aqueles tempos to remotos.
    As vsperas da ascenso de Yekuno-Amlak ao poder, portanto, tudo parece
indicar a importncia das comunidades crists de Amhara e Shoa como interme-
dirias comerciais entre as reas muulmanas e o resto do reino zagwe no norte. A
cooperao econmica com os comerciantes reforava sua influncia tanto na corte
dos Zagwe quanto no resto das terras crists. Tem-se a impresso de que, antes de
se consolidar definitivamente como novo monarca da Etipia crist, Yekuno-Amlak
constituiu slidas alianas tanto com os cristos quanto com os muulmanos de Shoa.
 significativo que as tradies mais verossmeis relativas a Amlak sublinhem o papel
de "seus guerreiros", vindos de vrios distritos de Shoa setentrional18. Alm disso,
numa carta a Baybars, sulto do Egito (1260-1277), ele declarava ter numerosos
cavaleiros muulmanos em seu exrcito19. Numa das raras pinturas representando
o novo monarca, ele aparece num trono elevado e cercado, segundo a legenda da
tela, "por muulmanos e escravos" 20. Tudo isso parece indicar que, bem mais do
que a legitimidade de sua pretenso de "restaurar" a Dinastia "Salomnida" do
antigo Aksum, foi sua posio econmica, poltica e militar de destaque que capa-
citou Yekuno-Amlak a depor o soberano zagwe21. A principal consequncia de seu
sucesso foi a transferncia do centro da Etipia crist para o sul, para Amhara e
Shoa. A partir dessa poca, o reino poderia participar mais diretamente do rpido
desenvolvimento do comrcio entre o golfo e o interior da Etipia.


      O reino da Etipia sob os Salomnidas
   Os primeiros tempos da dominao "salomnida" foram muito difceis, pois
a nova dinastia teve de consolidar tanto sua autoridade dentro do reino cristo
quanto suas relaes com os povos vizinhos. Dois dos problemas mais incmo-
dos eram: primeiro, a instaurao de regras coerentes de sucesso ao trono e,


18    PERRUCHON, 1893, p. 368; CONTI ROSSINI, 1922, p. 296-7.
19    MUFADDAL, 1973-1974.
20    WRIGHT, W., 1877.
21    Esse poder foi certamente observado por Marco Polo e vrios gegrafos e cartgrafos da Europa
      mediterrnica da poca. POLO, 1955, p. 292-3, em suas descries das guerras entre Yekuno-Amlak e
      os principados muulmanos, nota que os abissnios "so considerados os melhores guerreiros de toda a
      provncia". Essas informaes diversas seriam retomadas e ampliadas em toda a cartografia mediterrnica
      da poca. Ver FALL, 1978, p. 300-10.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   487



segundo, a elaborao de poltica eficaz para as relaes islmico-crists, tanto
no interior da Etipia quanto no resto do Chifre da frica. O problema suces-
srio foi resolvido com a criao de uma nova instituio no monte Geshen,
que a partir desse perodo ficou conhecido pelo nome de "montanha dos reis".
Todos os descendentes vares de Yekuno-Amlak, exceto o monarca reinante e
a prognie direta, ficavam detidos nos cumes inacessveis da montanha, cujos
desfiladeiros e contrafortes eram vigiados por vrias centenas de guerreiros
incorruptveis. Ali os prncipes eram tratados com todas as honras devidas aos
membros da famlia reinante e, dentro dos limites do monte Geshen, gozavam
de todo o tipo de cortesias. Isolados do mundo exterior, e efetivamente privados
de qualquer relao social ou poltica verdadeira com o resto do reino, a maior
parte dos prncipes dedicava-se a estudos religiosos  nos quais eles exceliam
 e destacava-se por suas criaes poticas em lngua gueze e composies de
msica sacra. Quando o monarca reinante morria sem deixar herdeiros entre
os parentes imediatos, escolhia-se um prncipe do monte Geshen, que subia ao
trono. Assim, a "montanha dos reis" representava um engenhoso instrumento
constitucional que contribuiria, por todo o perodo estudado neste captulo, para
garantir a estabilidade e continuidade do reino cristo.
    Mas tarefa bem mais rdua era estabelecer relaes harmoniosas com as col-
nias e grupos muulmanos  cujo poder estava aumentando  da regio entre o
golfo de Aden e o vale do Awash. Durante os primeiros 50 anos da hegemonia
"salomnida", as relaes entre cristos e muulmanos atingiram um ponto de
equilbrio forado; foi somente durante o reinado decisivo do enrgico Amde
Tsion (1314-1344), neto de Yekuno-Amlak, que o reino cristo, pouco a pouco,
estendeu sobre a regio o domnio militar, que se manteve durante todo o perodo
aqui enfocado. Na poca da ascenso de Amde Tsion ao trono, a Etipia passava
por grandes dissenses internas. Seu territrio limitava-se s antigas possesses
zagwe, com algumas anexaes sem importncia na regio de Shoa. Reinava a
insegurana por toda parte, tanto nos sultanatos muulmanos do leste e sudeste,
como nas comunidades judaicas (Falacha) e naquelas em que se praticavam as
religies tradicionais, que se estendiam do noroeste at o sudoeste e o sul. Amde
Tsion, monarca guerreiro por excelncia, no tardou em atacar, metdica e pes-
soalmente, cada um desses problemas. Ignora-se a cronologia exata de suas pri-
meiras campanhas, mas o prprio rei nos conta, num ato de concesso de terras,
que empreendeu expedies contra os chefes reinantes de Damot e Hadya, de
1316 a 1317, e, pouco aps, contra Godjam. Tambm  provvel que a regio ao
norte do lago Tana, cujos habitantes mais conhecidos eram os Falacha, tenha sido
anexada pela primeira vez nessa poca. Todas as campanhas foram vitoriosas, e
488                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



as zonas que mencionamos foram integradas ao reino cristo. A conquista dessas
provncias no interior dotou Amde Tsion de grandes reservas humanas para seu
exrcito e garantiu-lhe o controle completo sobre os terminais das rotas comerciais
provenientes do golfo de Aden. Assim o rei se encontrou em posio de superio-
ridade para se impor ao conjunto de comunidades muulmanas, distribudas entre
o golfo e o vale do Awash. Alm de Awfat, que se tornara o principado islmico
mais importante desde o reinado de `Umar Walasma, os centros de populao
muulmana de Dawaro, Sharkha e Bali viviam essencialmente do comrcio com
pases longnquos, praticado na regio que Amde Tsion acabava de tomar.
    Essa nova sujeio econmica ao rei cristo, cujos efeitos comearam a se fazer
sentir, parece ter criado na maioria dos meios muulmanos um clima de mal-
-estar e hostilidade contra o conquistador. Entre essas comunidades, a de Awfat
adquirira preeminncia poltica e militar durante o reinado de `Umar Walasma,
contemporneo de Yekuno-Amlak. Alguns anos antes de 1332, Amde Tsion
queixava-se de que a liberdade de circulao de seus sditos tinha sido restrin-
gida por Ak al-Dn, neto de `Umar Walasma, pois dizia-se que um deles havia
sido capturado e vendido como escravo pelos muulmanos. O incidente foi um
pretexto para a invaso de Awfat e suas possesses pelo exrcito cristo. A cidade
foi saqueada e o sulto morto durante a batalha. Apesar de seu filho Deradir ter
corajosamente continuado a lutar, com o auxlio de pastores muulmanos das
plancies a leste de Awfat, toda a resistncia foi aniquilada. Pela primeira vez em
sua histria Awfat foi reduzida, pelas mos de Amde Tsion, a Estado tributrio, com
guarnies militares dos conquistadores ocupando posies-chave no territrio. A
partir da, os outros grandes principados apressaram-se em negociar a paz com Tsion
e diz-se que pelo menos dois deles, Dawaro e Sharkha, fizeram tratados de amizade
com o rei cristo. A vitria militar sobre Ak al-Dn assumiu, assim, todo o seu
significado; e, graas  conquista anterior dos principados de religio tradicional
de Hadya, Damot e Godjam, o rei Amde Tsion encontrou-se, em menos de dez
anos de reinado,  frente de um reino cristo acrescido de rea enorme.
    Mais adiante examinaremos a estrutura administrativa por meio da qual o
rei manteve sob seu firme controle e governou de maneira eficiente imprio to
vasto. Mas  preciso notar que as revoltas contra Amde Tsion eram frequentes,
no s nas provncias recm-anexadas, como tambm em outras regies mais
bem integradas ao reino. Por volta de 1320, por exemplo, Tsion teve de reprimir
um levante local dos cristos ao norte da provncia do Tigre; pouco depois, ele
parece ter empreendido campanha at a costa da Eritreia22. Mas as rebelies mais


22    TURAIEV, 1906, p. 53; TAMRAT, 1972a, p. 95-6.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica       489



graves enfrentadas pelo monarca ocorreram em 1332: vrias regies bem distan-
tes umas das outras se levantaram simultaneamente, o que levou s suas famosas
conquistas daquele ano. As operaes militares e anexaes de 1332 esto bem
documentadas23. Resultaram, em resumo, principalmente na reduo dos grandes
principados muulmanos de Awfat, Dawaro, Sharkha e Bali ao estatuto mais
severo de Estados tributrios, e ao reforo da posio militar dos cristos em todas
as frentes. A partir dessa poca, a fama dos feitos de Amde Tsion espalhou-se
pelo Oriente Mdio, e al-`Umar, seu contemporneo, escreveu sobre ele:
     Diz-se que h 99 reis em suas mos, e que ele completa a centena.
Apesar de essas cifras serem com certeza fantasiosas, al-`Umar inclua expli-
citamente entre os Estados tributrios de Amde Tsion os que denominava "os
sete reinos muulmanos da Etipia", entre os quais estavam Awfat, Dawaro,
Sharkha e Bali 24.


     Os Estados muulmanos da Etipia
    O vasto imprio formado por Amde Tsion e governado por seus descenden-
tes, sem muitas anexaes territoriais, at o sculo XVI, no constitua, porm,
um Estado unitrio. Podemos consider-lo, no mximo, como uma confederao
bastante frouxa de grande nmero de principados, diferentes nos planos reli-
gioso, tnico e lingustico, cuja coeso dependia principalmente da supremacia
do poder central.
    Toda vez que a autoridade da corte relaxava, mesmo que apenas um pouco, os
vassalos sentiam-se tentados a readquirir a independncia. Durante grande parte
do perodo que ora estudamos, a maioria dos principados continuou a ser admi-
nistrada por seus prncipes hereditrios, sob a autoridade suprema dos imperadores
cristos. A melhor descrio das relaes entre os reis cristos e os prncipes vas-
salos dos territrios recm-anexados, na poca,  novamente de al-`Umar:
     Apesar de todos os soberanos desses reinos transmitirem seu poder com base na
     hereditariedade, nenhum tem autoridade efetiva, se esta no lhe tiver sido investida
     pelo soberano de Amhara. Quando um desses reis morre e ainda h vares em sua
     famlia, estes vo ao soberano e empregam todos os meios possveis para obter seus



23   PERRUCHON, 1889, p. 271-363, 381-493.
24   AL-`UMAR, 1927, p. 25-6.
490                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



      favores porque  ele [ ... ] quem detm a autoridade suprema, e, diante dele, no
      passam de lugares-tenentes25.
    Ao escrever essas linhas, al-`Umar s tinha em mente os Estados tributrios
muulmanos, mas a descrio reflete a organizao caracterstica do imprio
cristo da poca. O grande exrcito, que os imperadores cristos sempre man-
tiveram como smbolo de poder, era indispensvel para garantir a submisso
permanente dos territrios vassalos. Guarnies imperiais estavam frequente-
mente estacionadas nas provncias, principalmente nos primeiros tempos que
se seguiam s conquistas. Eram comandadas por uma hierarquia de dignitrios
nobres que agiam sem consultar os prncipes hereditrios locais, e permane-
ciam estreitamente ligados  corte imperial. Como regra geral, os soldados das
guarnies que ocupavam os territrios recm-conquistados eram recrutados
em outras regies, entre populaes de raa e lngua diferentes: dessa forma se
reduzia ao mnimo qualquer risco de conflito ou deslealdade. Os postos mili-
tares cuidavam para que a menor rebelio local fosse imediatamente debelada,
para que o tributo anual fosse devidamente enviado ao imperador, para que as
grandes vias comerciais continuassem abertas  circulao com toda segurana
e, finalmente, para que a vontade do imperador fosse respeitada sob todos os
aspectos. No caso de a guarnio no conseguir dominar os distrbios locais, o
comandante apelava para o imperador, que mandava reforos de tropas estacio-
nadas em territrios vizinhos; se o problema fosse muito grave, como aconteceu
em 1332, o monarca em pessoa liderava a expedio contra os rebeldes.
    Em linhas gerais, este foi o sistema caracterstico do perodo "salomnida",
at o comeo do sculo XVI; o imprio, ento, tornara-se to heterogneo e
difcil de governar que a nica forma de os reis impedirem seu desmembra-
mento era manter a corte em constante p de guerra, pronta para se deslocar a
qualquer momento para onde a gravidade da situao exigisse. Essa  a melhor
razo para explicar as constantes movimentaes da corte e a ausncia de qual-
quer centro urbano nesse perodo.


      Estrutura poltica do Imprio Etope
   Os reis "salomnidas" administravam seus imensos territrios a partir desses
acampamentos mveis. No entanto, apesar do carter itinerante, a corte imperial


25    AL-`UMAR, 1927, p. 19.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   491



permanecia sempre o centro da vida econmica e poltica de todos os sditos
do reino; constitua uma espcie de cadinho, no qual se fundiam suas diferen-
as culturais e lingusticas. A estrutura e organizao interna da corte foram
tratadas detalhadamente em outro trabalho26.  suficiente dizer, aqui, que o
papel da corte nmade correspondia exatamente ao de uma capital fixa. Uma
multido proveniente de todos os pontos do imprio a seguia em seus desloca-
mentos. O grande exrcito e a guarda real, a ela incorporados permanentemente,
eram recrutados em todas as possesses da coroa, e seus oficiais deviam sempre
escoltar o monarca, para onde quer que ele fosse. Alm disso, havia milhares
de pessoas que assistiam o imperador e se encarregavam das tarefas domsticas,
bem como aqueles que acompanhavam os altos funcionrios do reino.
    Padres especialmente designados sempre seguiam a corte em suas viagens,
para oficiar o servio religioso nas numerosas capelas imperiais e assistir as
necessidades espirituais do rei e dos que o cercavam. Onde quer que se insta-
lasse, o acampamento real tambm tendia a se tornar uma espcie de centro de
intercmbio de provises e mercadorias; assim, os negociantes, artesos e vrios
profissionais, cristos ou muulmanos, tambm convergiam para l, a fim de
oferecer seus artigos e servios. Na estao seca, quando o deslocamento era
mais fcil, afluam incessantemente para a corte numerosos sditos vindos das
provncias: os prncipes vassalos e governadores locais trazendo seu tributo, e
muitos outros que solicitavam a justia do monarca e de seus conselheiros para
os litgios difceis de resolver. Assim, a todo momento, o nmero de pessoas que
viviam no acampamento imperial era comparvel ao de uma cidade mdia.
    Da mesma forma que uma aglomerao urbana clssica, o acampamento do
rei desempenhava importante papel unificador, reunindo milhares de indivduos
de lngua, raa e religio diferentes. Num certo sentido, a corte nmade cumpria
essa funo com mais eficcia do que uma corte sedentria: no caso de uma
cidade permanente, o movimento da populao rural se d num sentido nico,
em direo  cidade. Ao contrrio, a corte itinerante, alm de acolher habitante
dos campos, travava  por seus deslocamentos contnuos de uma extremidade a
outra do imprio  relaes bem mais dinmicas com as regies que atravessava.
Seu papel unificador estendia-se, assim, por rea bem mais ampla.
    Esse contato constante entre a corte e o pas contribuiu, sem dvida, para
a assimilao cultural e integrao poltica de milhares de etopes de origens
diversas, que acabavam travando contato. Isso acontecia principalmente com


26   TAMRAT, T. 1972a, p. 103-6 e 269-75.
492                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



numerosos prisioneiros de guerra trazidos de territrios recm-conquistados.
Muitos eram integrados ao exrcito cristo; os outros, ao servio domstico do
monarca e de seus inmeros dignitrios.  provvel que linhagens dirigentes,
cujo poder era hereditrio nos principados vassalos, tenham vivido na corte
como verdadeiros refns, ou em visitas prolongadas a seu suserano. Com o
tempo, muitos deles ligaram-se pessoal e profundamente ao imperador e  sua
famlia e puderam ocupar postos-chave nas altas esferas do poder, tanto na corte
imperial quanto nas provncias. No entanto, como a corte imperial permanecia
numa mesma regio apenas por breve perodo, o contato com a populao local
era passageiro e superficial, quando no opressivo; com efeito, a regio visitada
via-se sobrecarregada por requisies macias, tendo de abastecer e servir a corte
e, definitivamente, a visita do monarca e seu enorme squito no era das mais
agradveis para grande parte da populao. Em consequncia, o papel integrador
da corte reduzia-se consideravelmente.
    Na verdade, a nica autoridade que os imperadores podiam exercer de fato
sobre os territrios vassalos continuou baseando-se no governo indireto. Apesar
da nomeao de grande nmero de funcionrios graduados para a corte e para
os diversos nveis de administrao local, nunca se consumou um sistema de
administrao imperial centralizado, e a vida cotidiana da populao nas vrias
chefarias e principados continuou a ser regida pelos costumes locais. Para ate-
nuar parcialmente os particularismos locais  que os monarcas e seus volumosos
squitos visitavam com regularidade as principais regies do imprio.
    As conquistas de Amde Tsion no somente aumentaram o tamanho da
corte e do exrcito como tambm enriqueceram o rei e seus sucessores. Grande
parte dessa opulncia provinha dos tributos regulares arrecadados nos territrios
vassalos. Os que no pagavam tributos eram culpados de alta traio e frequen-
temente condenados  desonra,  priso ou mesmo  morte. Os anais da poca
no esclarecem as bases econmicas do imprio, mas o grande nmero de con-
cesses de terra que a histria atribui aos reis "salomnidas" desse perodo parece
indicar que um dos segredos de seu poderio era a distribuio de feudos aos
muitos sditos fiis, como recompensa por servios prestados. Alm disso, a con-
quista dos territrios muulmanos das fronteiras do leste parece ter assegurado
boas rendas para os imperadores, uma vez que passaram a dominar o comrcio.
Adquiriram total controle militar das regies do interior, de onde os muul-
manos tradicionalmente traziam suprimentos de escravos habasha, vendidos
por alto preo no Oriente Mdio. Tambm alguns pases recm-conquistados
forneciam ouro e marfim, frequentemente citados como as duas mercadorias
de troca mais importantes da regio. Finalmente, as terras frteis do planalto
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   493



etope supriam as cidades litorneas das duas margens do mar Vermelho em
suas necessidades de cereais e frutas frescas.
    Essas operaes comerciais em toda a regio traziam rendas aos imperadores
de duas maneiras: primeiro, porque todas as mercadorias sofriam uma espcie de
taxao, quando importadas ou exportadas; segundo, porque os monarcas logo
comearam a participar diretamente do comrcio a longa distncia, investindo
seu capital em caravanas ricamente supridas, que viajavam sob a direo de
funcionrios da coroa. A longo prazo, no entanto, o sucesso obtido pelos cristos
nas provncias do interior s serviu para favorecer o restabelecimento e a reorga-
nizao do poder muulmano na regio situada entre Zayla e as fronteiras dos
principados de Awfat, de Dawaro e de Bali. O renascimento das comunidades
muulmanas foi mais uma vez conduzido por um ramo dissidente da famlia de
`Umar Walasma, que transferiu seu quartel-general para o planalto de Harar, a
partir de onde os chefes teceram notvel rede de alianas muulmanas pela vasta
regio que se estendia das ilhas Dahlak, no mar Vermelho,  costa dos Somali,
no oceano ndico, e tambm por todos os pases rabes vizinhos. Essa evoluo
foi descrita detalhadamente em outro texto; basta dizer aqui que o fogo da
oposio muulmana  dominao crist manteve-se sempre aceso nessa regio
at o sculo XVI, quando irrompeu a djihd (guerra santa) pregada pelo im
Ahmad Ibn Ibrhm (c. 1527-1543), tambm chamado Gragne.


    O renascimento da Igreja etope
   Alm das conquistas e da expanso territorial que estudamos brevemente,
uma das consequncias marcantes do crescente poder do Estado cristo sob os
imperadores "salomnidas" foi o renascimento da Igreja etope e suas renova-
das tentativas de evangelizar o interior da Etipia. Quando da emergncia da
Dinastia "Salomnida", em 1270, a Igreja s estava firmemente implantada nas
antigas provncias da Eritreia central e meridional, Tigre, Wag, Lasta, Angot,
Amhara e numa parte das terras montanhosas de Shoa, que separam a bacia do
Nilo Azul da do Awash. Em geral, naquela poca, quanto mais ao sul estivesse a
localidade, mais frgil e precria era a posio da Igreja. Todos os grandes centros
de educao crist ainda se situavam em Tigre e em Lasta, bero dos Zagwe e
sede episcopal dos bispos egpcios. Portanto, no era possvel estudar teologia e
ordenar-se padre sem passar longos anos nessas regies do reino zagwe. Aparen-
temente, essa possibilidade era rara para os indivduos das regies distantes
do sul etope, e a existncia da Igreja em Shoa setentrional devia-se mais 
494                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



lealdade persistente de algumas famlias crists desigualmente espalhadas por
toda a regio que  autoridade espiritual do clero do lugar. Segundo a tradio,
mesmo em Amhara, mais ao norte, a fundao de importante escola monstica na
ilhota do lago Hayk por um monge de Lasta, Iyesus-Mo`a  personagem notvel,
que devia sua prpria formao religiosa ao antigo monastrio de Debre-Damo,
no Tigre, ocorreu somente s vsperas do advento da Dinastia "Salomnida".
Todavia, com a ascenso dessa nova dinastia e o deslocamento do centro do
reino para o sul, comearam a surgir em Amhara e Shoa setentrional muitas
escolas religiosas, que logo se tornaram centros de propagao da f crist em
todas as direes. As duas foras propulsoras da expanso foram as atividades
dentro da prpria Igreja, que parecem ter sido retomadas j no perodo zagwe, e
o compromisso pessoal assumido pelos imperadores "salomnidas" de implantar
a Igreja em todas as possesses. Apesar de a maior parte dos reis zagwe ter tam-
bm se comprometido com a Igreja, seus sucessores "salomnidas" dispunham
de autoridade mais extensa e muito mais recursos para apoiar os esforos do
clero etope.
    Quase todos os novos monastrios que, pouco a pouco, se estabeleceram em
Amhara e Shoa a partir do ltimo quarto do sculo XIII tinham relaes mais
ou menos diretas com a escola de Iyesus-Mo`a na ilha do lago Hayk. Seus fun-
dadores ou eram alunos do monge ou tinham recebido sua educao de algum
de seus discpulos. Durante os primeiros 50 anos do reinado dos "salomnidas" e
antes das grandes conquistas de Amde Tsion, apenas Amhara e Shoa setentrio-
nal ofereciam a segurana necessria para o estabelecimento de monastrios.
    Desde suas origens, a Igreja etope tinha estado profundamente impregnada
das tradies monsticas dos desertos egpcios e do vale do Nilo e, quando fun-
daram suas comunidades, os discpulos de Iyesus-Mo`a seguiram rigorosamente
as regras dos antigos cenobitas, Santo Anto e So Pacmio. O estudo das tra-
dies histricas desses conventos mostra com clareza que, originariamente, seus
fundadores eram levados no tanto pelo proselitismo quanto pela busca de sua
salvao pessoal. Quase sempre, o fundador decidia simplesmente "retirar-se do
mundo" para ir viver longe de sua aldeia num eremitrio isolado. O lugar esco-
lhido era geralmente uma gruta natural nos flancos de uma montanha deserta,
e a razo de os antigos monastrios etopes situarem-se, em geral, em lugares
inacessveis pode ser encontrada, provavelmente, nessas origens histricas. A
princpio, o fundador vivia s, ou em companhia de alguns jovens discpulos. Nos
primeiros anos, esses anacoretas levavam vida severamente asctica, inteiramente
consagrada a oraes e  meditao; infligiam-se jejuns cruis, e at mortificaes
corporais. Inicialmente alimentavam-se de frutos selvagens, mas logo comearam a
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica                   495



desmatar as terras vizinhas para cultivar legumes e outras plantas. Pouco a pouco
entraram em contato com os habitantes da regio, que logo passaram a admirar
o zelo religioso da comunidade e a espalhar pelas regies vizinhas a reputao de
santidade dos fundadores e seus companheiros. O eremitrio comeava, ento,
a receber visitas de devotos ou simples curiosos. Alguns visitantes acabavam
por entrar no convento, enquanto outros contentavam-se em estabelecer laos
espirituais com o fundador, solicitando sua bno e oraes e fazendo doaes
 comunidade. Com o tempo, a influncia espiritual desses monges se ampliava
e, se a localizao geogrfica permitisse, se estendia at os membros da casa do
governador da provncia e aos familiares da corte "salomnida".
    A comunidade recebia terras, gado e outros bens de famlias e dignitrios locais,
quando no do prprio imperador.  medida que prosperava, edificava uma igreja
mais respeitvel, cercada de muitas cabanas, que serviam de alojamento para os
monges ou como escolas e para outras necessidades comunais. Alm dos devotos
 que, em nmero crescente, se integravam  comunidade por motivos puramente
espirituais , miserveis, velhos e rfos procuravam-na em busca de alimento e
abrigo. O renome de santidade do monastrio e de seus religiosos espalhava-se
para regies distantes, de onde eram trazidos muitos doentes de corpo ou esprito
para serem miraculosamente curados pelos homens de Deus. Assim o monastrio
se tornou centro de peregrinaes regulares. Alm disso, a maioria dos monastrios
mantinha conventos sob sua autoridade espiritual, s vezes localizados a muitos
quilmetros de distncia. Vendo-se obrigada a garantir a subsistncia de toda
essa gente, a comunidade tornava-se uma verdadeira cidadezinha com centenas
de habitantes permanentes. Abandonando a simplicidade de suas origens, cada
ordem editava um complexo regulamento para guiar a vida comunitria; uma
hierarquia de monges eleita democraticamente controlava o respeito s leis e geria
os bens temporais do monastrio, que enriquecia continuamente.
    A fama espiritual desses monastrios tambm se devia a outro elemento, seu
papel na educao, pois todos abrigavam permanentemente certo nmero de lite-
ratos que ensinavam, segundo a tradio, a ler e a escrever, a msica sacra  muito
desenvolvida na Igreja etope , a poesia e gramtica gueze, a histria da Igreja
e a exegese das Santas Escrituras27. Favoreciam-se principalmente os mestres da
caligrafia e pintura religiosa: os grandes monastrios disputavam os melhores
especialistas dessas disciplinas, a quem cumulavam de honras e davam excelente
remunerao. Tentando criar um clima cultural mais estimulante e manter o corpo

27   O melhor estudo recente sobre a histria da educao dispensada pela Igreja etope  o de SERGEW
     HABLE SELASSIE, 1972, p. 162-75.
496                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



docente em contnuo desafio, os estudantes necessitados e os que se mostravam
promitentes recebiam ajuda material. Ao final de seus estudos, eles poderiam even-
tualmente optar pela vida religiosa, quer tomando o hbito monstico da ordem,
quer tornando-se padres casados ou cumprindo outras funes eclesisticas.
    Mas no somente os virtuais homens de Igreja seguiam o severo programa de
estudos desses estabelecimentos. At os tempos modernos, as escolas monsticas
mantiveram o monoplio da instruo, e seu ensino era a preparao essencial
para os futuros dirigentes do pas. Afora os privilgios devidos ao nascimento e 
fortuna, o fato de um indivduo ter-se distinguido nos altos estudos religiosos era
a maneira mais segura de acesso  elite crist. Como vimos acima, os membros
da famlia "salomnida" que viviam obrigatoriamente no monte Geshen tinham
 sua disposio instituies de ensino do mesmo tipo e a maioria dos altos
funcionrios da corte ou das provncias havia estudado em escolas monsticas.
Foi essa posio-chave ocupada pela Igreja no ensino mais que qualquer outra
coisa o que fez com que, ao longo dos sculos, sua influncia fosse permeando
toda a estrutura poltica da Etipia crist.
    Essas atividades religiosas, culturais e educativas existiam nos antigos monas-
trios do norte do pas desde a poca do reino cristo de Aksum. Mas foi preciso
esperar o ltimo quarto do sculo XIII e o primeiro do sculo XIV da era crist para
que se difundissem por muitas regies de Amhara e de Shoa setentrional. Durante
esse primeiro perodo, as comunidades fundadas pelos discpulos de Iyesus-Mo`a
desenvolveram-se regularmente. As mais importantes eram Debre Asbo (mais
tarde rebatizada "Debre Libanos"), fundada em Shoa pelo abade Tekle-Haymanot
(c. 1215-1313) e Debre Gol, em Amhara, fundada pela iniciativa do abade Anorewos
e de Beselote Mikael; tambm  preciso citar o monastrio insular de Daga, no meio
do lago Tana, que a tradio atribui a outro discpulo de Iyesus-Mo`a, Hirute Amlak.
Segundo as tradies hagiogrficas dessas escolas monsticas, assim que diplo-
mados, seus discpulos partiam para o interior do pas para fundar suas prprias
comunidades. Toda a regio, principalmente Shoa, ficou coberta de monastrios, e
o nmero de padres com slida formao comeou a aumentar. Nas regies mais
setentrionais da Etipia, ocorria um processo de renovao monstico semelhante,
conduzido por um santo homem de muitos recursos, o abade Eustateos, cujas
atividades religiosas acabaram `por atingir os territrios cristos de Bogos, Marya,
Hamasen, Serac e algumas partes de Kunama, onde hoje  a Eritreia28.



28    Maiores detalhes sobre os movimentos de expanso da Igreja podem ser encontrados em TAMRAT,
      1972a, p. 156-205.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   497



    Coincidindo com a anexao, por Amde Tsion, de numerosos territrios no
cristianizados, a expanso no interior da Igreja era uma verdadeira bno. Com o
assentimento do imperador, o bispo egpcio que era chefe do episcopado etope na
poca, o abunna ("bispo") Jacob' parece ter comeado a organizar sistematicamente
as principais ordens monsticas e a delimitar as dioceses nas quais cada ordem
seria responsvel pela evangelizao e a vida espiritual das populaes. Vimos
acima que Amde Tsion aquartelava guarnies nas regies recm-conquistadas. O
imperador e seu bispo egpcio reforaram esse movimento de expanso, recrutando
padres nos monastrios para envi-los a esses territrios, junto com as tropas cris-
ts. Assim, pouco a pouco, multiplicaram-se as igrejas e conventos no territrio dos
Falacha,em Godjam, em Damot e at mesmo nos feudos muulmanos de Awfat,
Dawaro e Bali. Eram-lhes concedidas generosas pores de terra, e as populaes
locais tinham a obrigao, perante o imperador cristo, de proteger as igrejas e
facilitar-lhes o exerccio do culto. A falta a essa obrigao era frequentemente
citada como o motivo principal das expedies punitivas do exrcito imperial.
    Embora a princpio a proteo poltica e militar tenha acelerado a ecloso de
comunidades crists em todo o Imprio "Salomnida", os laos muito estreitos
que a Igreja sempre manteve com o poder poltico impor-lhe-iam, a longo prazo,
srias obrigaes. Considerada pelos povos vassalos como uma das armas de um
poder civil imperialista e tirnico, ela nunca conquistou o corao ou as almas
dos povos conquistados. Mesmo com a poderosa proteo do Estado imperial,
a Igreja sempre se chocava com a oposio persistente dos tradicionais chefes
espirituais desses povos29, e seu destino foi inexoravelmente ligado ao do imp-
rio. Sob a total dependncia econmica do sistema feudal etope, a Igreja nunca
conseguiu chegar a uma verdadeira autonomia espiritual e moral; sua influncia
foi, de fato, insignificante, a no ser nas antigas provncias setentrionais e nos
principais centros de poder cristo instalados em territrios anexados. A dura
realidade ficou particularmente evidente quando o imprio ruiu, pressionado
pela djihd, nas duas primeiras dcadas do sculo XVI.
    A notvel expanso da Igreja durante esse perodo no acarretou, no entanto,
nenhuma mudana em suas estruturas essenciais. Continuou submissa  autori-
dade espiritual do patriarca de Alexandria, e nomeavam-se bispos egpcios para
a liderana da hierarquia eclesistica. Um fato muito importante foi o apare-
cimento de duas grandes ordens monsticas, as assim chamadas "casas" de
Tekle-Haymanot e de Eustateos. A casa de Tekle-Haymanot tinha bases mais


29   TAMRAT, 1972b.
498                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 17.2 Lalibela: igreja ("casa") de So Jorge. Vista area de conjunto da igreja escavada. (Foto G.
Gerster/ Agence Rapho.) (Fonte: Bernheim, M. & Bernheim, E./Agence Rapho, 1979.)




Figura 17.3 Lalibela: parte superior da igreja ("casa") de So Jorge, vista do interior de sua escavao. (Foto
E. Haberland, Instituto Frobenius.)
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica                           499


Figura 17.4 Lalibela: elevao vertical da
igreja ("casa") de So Jorge. (Foto E. Haberland,
Instituto Frobenius.)




                                                                        Figura 17.5 Lalibela: janela da
                                                                        igreja ("casa") do Redentor do Mundo.
                                                                        (Foto E. Haberland, Instituto Frobe-
                                                                        nius.)
500                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



slidas, por ter laos mais estreitos com a corte do monarca; alm disso, sua
casa-me de Debre Libanos, em Shoa, valia-lhe a obedincia da maioria das
comunidades religiosas do imprio. A "casa" de Eustateos havia comeado
como minoria militante nos primeiros anos do sculo XIV e, apesar de tam-
bm ter fundado, durante o sculo XV, outras comunidades em Tigre, no terri-
trio dos Falacha, em Godjam e em Shoa, seus principais centros continuaram
a ser os monastrios construdos pelos discpulos de Eustateos na Eritreia,
entre os quais o de Debre Bizen teria, mais tarde, um papel dominante.
    No entanto,  importante sublinhar que, como o prprio imprio cristo, a
Igreja etope manteve-se descentralizada. No obstante a tendncia  classifi-
cao dos grandes monastrios por ordem de importncia espiritual e histrica,
cada um deles era praticamente autnomo e quase completamente indepen-
dente de todos os outros. Isso tambm era verdadeiro para as relaes entre os
conventos de uma mesma ordem. O episcopado egpcio e o imperador sempre
se esforaram para reduzir essa descentralizao, com o objetivo de afirmar sua
autoridade direta sobre os monastrios concedendo privilgios econmicos e
fazendo uso do poder de ordenao, que era exclusivo dos bispos. Obtiveram
o efeito desejado no caso de numerosas igrejas seculares, servidas por padres
casados, suscetveis ao controle leigo, mesmo a nvel local. Mas os grandes
monastrios defenderam com todas as foras sua autonomia e impediram o
estabelecimento de uma poderosa hierarquia nacional.  claro que tanto na corte
real quanto na episcopal havia certo nmero de dignitrios eclesisticos, que
granjeavam um poder considervel como conselheiros espirituais do imperador
e de seus bispos egpcios. Durante grande parte do perodo aqui estudado, os
monarcas escolhiam seu dignitrio eclesistico de maior prestgio, o akabe-seat,
no monastrio insular de Hayk; a partir do comeo do sculo XVI, os abades
de Debre Libanos - que mais tarde receberam o ttulo de echege - comearam
a ascender a essa elevada funo. Mas a grande autoridade exercida por esses
eclesisticos em todo o imprio devia-se principalmente  sua posio oficial na
corte do reino, e no ao fato de pertencerem a uma hierarquia nacional dotada,
entretanto, de poderes espirituais incontestveis.
    O presente captulo cobre o perodo histrico mais fecundo da Igreja etope.
Apesar de no ter conseguido implantar-se com firmeza e definitivamente em
todos os territrios recm-anexados pelo imprio, a Igreja, sem dvida, se esta-
beleceu firmemente em muitas regies onde sua influncia ainda era, no final do
sculo XIII, fraca ou nula. No obstante as frequentes rivalidades; as ordens de
Tekle-Haymanot e Eustateos desempenharam papel notvel nesse movimento
de expanso. Mas muito mais importante foi a renovao espiritual e cultural no
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica                        501



interior da Igreja etope. I. Guidi e E. Cerulli elaboraram estudos excelentes sobre
a literatura etope desse perodo30. Pode-se ter uma idia do desenvolvimento das
artes durante esses sculos nos relativamente poucos manuscritos iluminados, nos
dpticos e nos afrescos de igrejas, assim como nas muitas cruzes e bastes episco-
pais de cerimnia ricamente ornados, conservados atravs dos sculos pelos cuida-
dos zelosos dos centros monsticos da Etipia medieval31 (ver figs. 17.6-17.8).
    Esse renascimento cultural foi acompanhado de perto e encorajado pelos
imperadores, alguns dos quais homens de grande saber. O mais notvel foi
o imperador Zera-Yakob (1434-1468), que contribuiu pessoalmente para essa
produo literria e que  considerado autor de vrios tratados de teologia32.
As numerosas tradies hagiogrficas da poca testemunham a intensa ativi-
dade religiosa reinante nas comunidades monsticas, em algumas das quais
empreendeu-se o remanejamento completo do patrimnio eclesistico, litr-
gico e doutrinal, O perodo foi marcado por bom nmero de controvrsias
doutrinais e conflitos a respeito da liturgia, quando se contestou seriamente a
autoridade do patriarca de Alexandria. O esprito de independncia da Etipia
se havia reforado tanto, e a confiana nos bispos egpcios havia declinado a
tal ponto, que durante o ltimo quarto do sculo XV houve um poderoso, mas
fracassado, movimento de secesso total face ao patriarcado de Alexandria33.


     Lutas entre cristos e muulmanos
     Os portugueses entram em cena
    Os laos tradicionais com o patriarca de Alexandria eram de valor inestim-
vel para o imprio cristo. Embora essa lealdade mantivesse a Igreja etope sob
a tutela constante da hierarquia copta do Egito, essa relao constitua a nica
ligao da Etipia com os antigos centros cristos da Terra Santa e com o resto
da cristandade. Tendo sempre compreendido esse fato, os imperadores e seus
principais conselheiros nunca permitiram que os conflitos ocasionais surgidos
no decorrer dos sculos entre o episcopado egpcio e o clero etope provocassem
um cisma definitivo. A diferena religiosa entre seu pas e os povos vizinhos,


30   GUIDI, 1932; CERULLI, 1956.
31   Um estudo detalhado sobre a arte etope desse perodo poder ser encontrado em LEROY, 1964, p. 61 -76;
     ver tambm CHOJNACKI, 1971, p. 21-65.
32   TAMRAT, 1972a, p. 243, nota 4.
33   Ibid., p. 230, nota 4; p. 245-7.
502                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 17.6   Manuscrito etope do sculo XV, representando a rvore da vida (monastrio de Kebran).
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica                        503




Figura 17.7    Manuscrito etope do sculo XV, representando a Crucificao (monastrio de Kebran).
504                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 17.8 Manuscrito etope do sculo XV, representando a Anunciao (monastrio de Yahya Giyorgis).
(Fonte das figs. 17.6 a 17.8: UNESCO/New York Graphic Society, 1961.)
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica                  505



que viviam nas duas margens do mar Vermelho e do golfo de Aden, sempre
colocou um grave dilema para os imperadores da Etipia, no plano da poltica
externa. Por um lado, havia o desejo natural de explorar sua condio de cristos
para estabelecer relaes e alianas militares com a Europa crist, e at mesmo
participar das ltimas Cruzadas; por outro, havia a preocupao de elaborar uma
poltica mais realista de coexistncia com seus vizinhos muulmanos.
    O Egito dos Mamelucos, Estado de maior poder e prestgio da frica orien-
tal, que controlava com firmeza as vias internacionais de acesso ao Mediterr-
neo, possua a chave dessas opes polticas contraditrias. Por esse motivo, os
imperadores "salomnidas", desde sua ascenso ao trono, desenvolveram uma
diplomacia muito circunspecta em relao  corte do Cairo e aos pases rabes
vizinhos, principalmente o Imen, com o qual os etopes mantinham contnuas
relaes comerciais. Diz-se que sempre ofereciam "escravos de ambos os sexos,
ouro e outros presentes" aos sultes mamelucos, cada vez que solicitavam o envio
de novo bispo egpcio34. Escreviam aos sultes para lhes suplicar que facilitassem
a passagem dos peregrinos etopes que iam  Terra Santa e lhes garantissem um
retorno seguro.
    Mas essa circunspeco no era sempre compatvel com o novo sentimento
de poder que tomou conta da Etipia crist aps a anexao de vastos territrios
muulmanos por Amde Tsion. Percebe-se claramente, no perodo seguinte ao
do reinado de Amde Tsion, a atitude cada vez mais agressiva dos imperadores
etopes para com os Mamelucos. Como os sultes egpcios visassem sempre
proteger os interesses islmicos na Etipia, Amde Tsion e seus sucessores logo
comearam a exigir em contrapartida que o Cairo respeitasse a liberdade de
culto e outros direitos civis dos cristos coptas e que os Mamelucos tomassem
enrgicas medidas para a populao parar de perseguir os coptas do Egito.
Segundo as tradies coptas e etopes, esse conflito comeou a se agravar a par-
tir do reinado de Saifa-Arad (1344-1370), filho e sucessor imediato de Amde
Tsion. De acordo com o relato de viajante italiano que percorreu a Etipia no
sculo XV, esse monarca teria conduzido um exrcito at o vale do Nilo, para
servir de reforo s tropas do rei de Chipre, Pedro de Lusignan, que sitiava a
Alexandria em 136535. Al-Makrz conta que David I (1380-1412), filho de
Saifa-Arad, "havia invadido o territrio de Assu, vencido os rabes e saqueado



34   QUATREMRE, 1811, v. 2, p. 268-71.
35   SCHEFER, 1892, p. 148. Para os outros conflitos de Saifa-Arad com o Egito, ver PERRUCHON, 1893,
     p.177-82; BUDGE, 1928, v. 1, p. 177-9.
506                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



as terras do Isl"36. Mas al-Makrz designa especialmente o imperador Isaac
(1413-1430) como inimigo declarado do Isl, relatando que Isaac queria estabe-
lecer uma poderosa aliana com a Europa crist para acabar com a supremacia
muulmana no Oriente Mdio37.
    Outro escritor rabe do sculo XV, Ibn Taghrbird (1409-1470), descreve
mais detalhadamente a histria da delegao que Isaac mandou em segredo
para a Europa e cujos membros foram aprisionados no caminho de volta pelas
autoridades egpcias de Alexandria. O chefe da misso, um persa residente na
Etipia, foi enforcado em praa pblica no Cairo e, entre as mercadorias con-
fiscadas pelos egpcios, encontrava-se
      grande nmero de uniformes sobre os quais estavam bordados uma cruz e o nome
      do hati em letras douradas. Destinavam-se ao exrcito etope38.
    Algum tempo depois, as relaes voltaram ao normal. Mas quando Zera-Yakob
(1434-1468) soube que novas perseguies contra os coptas resultaram na destrui-
o da clebre igreja copta de Mitmak (al-Magtas), enviou uma carta de vigoroso
protesto ao sulto Jakmak (1438-1453). Como este lhe respondesse ironicamente,
Zera-Yakob mandou deter o diplomata egpcio portador da carta, mantendo-o
aprisionado por quatro anos39. Essa arrogncia manifestada pelos imperadores da
Etipia do sculo XV contrasta estranhamente com o tom obsequioso do fundador
da Dinastia "Salomnida", Yekuno-Amlak (1270-1285) que, em suas cartas ao
sulto egpcio Baybars, dizia-se "o mais humilde dos servidores do sulto"40; mas
ela  reflexo das transformaes ocorridas desde o final do sculo XIII.
    Esses fatos tiveram algumas consequncias para a Etipia crist. Apesar das
dificuldades pessoais com que defrontavam, os monges etopes iam, em nmero
cada vez maior, em peregrinao  Terra Santa. Um testemunho isolado, refe-
rente ao perodo entre o sculo XIV e o incio do XV, aponta a existncia de
pequenas comunidades etopes, em certos monastrios egpcios do vale do Nilo,
no monte Sinai, em vrias localidades da Terra Santa, na Armnia, nas ilhas de
Chipre e Rodes e em vrias cidades da Itlia, como Veneza, Florena e Roma.
Para onde quer que fossem, esses etopes vangloriavam-se a seus correligionrios das
conquistas de Amde Tsion, de seus sucessores e da expanso de seu imprio. Talvez


36    AL-MAKRZ, apud QUATREMRE, 1811, p. 276-77.
37    AL-MAKRZ, 1790.
38    QUATREMRE, 1811, p. 277-8. IBN TAGHRBIRD (1382-1469), in POPPER, s.d., p. 59-61.
39    AL-SAKHW, 1897, p. 71-2 e 124-5.
40    MUFFADDAL, 1973-1974, p. 384-7.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica           507



os viajantes exagerassem ao falar das imensas riquezas, dos recursos inesgotveis
e do poder prodigioso dos imperadores etopes. Mas foi exatamente no comeo
desse perodo, que se comeou a confundir o legendrio Preste Joo, das ndias,
com os monarcas cristos da Etipia. Alm disso, certos estrategistas parecem
ter pensado seriamente em levar a Etipia crist a participar das ltimas Cruza-
das, o que seria possvel, no s porque se dizia que os monarcas etopes estavam
em vias de adotar uma poltica agressiva em relao ao Egito, como tambm
porque os Mamelucos tentavam explicitamente cortar qualquer comunicao
entre a Etipia e a Europa. Segundo um viajante que esteve na regio no sculo
XIV, os cristos da Etipia
     teriam se comunicado de bom grado conosco, os latinos, mas o sulto da Babilnia
     [isto , do Egito] nunca deixa um latino ir quele pas, de medo que ele se alie conosco
     para alguma guerra41.
    No entanto, quanto mais fortes e prsperos se sentiam os etopes, mais se
reforava a sua vontade de estabelecer contatos estreitos com o resto do mundo
cristo; assim, apesar do infortnio sofrido pela delegao enviada  Europa
em 1427-1429 por Isaac, seu irmo e sucessor, Zera-Yakob, decidiu enviar, em
1450, uma nova embaixada para terras europeias. Esta foi mais bem sucedida:
depois de visitar pelo menos Roma e Npoles, voltou s e salva para a Etipia,
em companhia de muitos artesos e profissionais europeus 42.
    Mas, afinal, os etopes enfrentavam uma luta sem esperanas, pois no dis-
punham de nenhuma forma de acabar realmente com seu isolamento. Alm do
controle absoluto das vias internacionais que levavam ao Mediterrneo, o Egito
dos Mamelucos dispunha de considerveis meios de presso sobre o patriarcado
de Alexandria. Medidas rigorosas contra o patriarca poderiam facilmente abalar
todas as bases religiosas e polticas da Etipia crist. Houve muitas tentativas
desse gnero, ao longo da histria das relaes etopes-egpcias; mas, quando se
chegava a esse ponto, os etopes sempre eram obrigados a recuar de suas posies
extremadas. No sculo XV, devido  poltica arrogante dos monarcas etopes em
relao aos Mamelucos, os patriarcas egpcios sofreram muitos incmodos e humi-
lhaes. Acabamos de falar, por exemplo, do enviado egpcio do sulto Jakmak 
corte de Zera-Yakob, que foi mantido preso por muito tempo. Como represlia,
o sulto convocou o patriarca, mandou espanc-lo e provavelmente obrigou-o a
pedir a Zera-Yakob que libertasse o embaixador. Afora isso, aparentemente aps

41   CERULLI, 1943, 1947, v. 1, p. 133.
42   CERONE, F., 1902-1903; WITTE, 1956.
508                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



o regresso desse mensageiro, o sulto ordenou que o patriarca (em 1448) se absti-
vesse de qualquer relao com a Etipia sem sua autorizao expressa43.
    As consequncias dessa sano religiosa foram sentidas na Etipia por mais de 30
anos, no se tendo enviado ningum para substituir o ltimo dos bispos egpcios de
Zera-Yakob, falecido antes de 1458. Foi preciso aguardar at 1480-1481 para que se
entronasse um novo bispo, no reino do neto de Zera-Yacob, Eskender (1478-1494).
E, para que isso acontecesse, os etopes tiveram de enviar suas splicas habituais
e os presentes costumeiros ao sulto do Cairo. A profunda vulnerabilidade da
Etipia neste ponto e a imensa satisfao do povo ao ser solucionada a crise
podem ser lidas na crnica real que descreve a repercusso da chegada do novo
bispo:
      Os padres tornaram-se numerosos, as igrejas foram restauradas e a alegria espalhou-
      -se por todo o reino44.
   A Etipia era por demais distante da Europa crist e por demais integrada
ao Oriente Mdio para ter chances de estabelecer relaes fecundas e contnuas
com a cristandade ocidental.


      O declnio da Etipia
    Nas ltimas dcadas do sculo XV, a Superioridade tradicional do imprio
cristo no equilbrio de foras no interior da Etipia e do Chifre da frica
comeou a mostrar sinais de declnio. O reinado de Zera-Yakob marcara o apo-
geu da dominao crist sobre todos os territrios que, no decorrer dos 150 anos
precedentes, tinham sido conquistados por seus ancestrais 45. Mesmo no plano
interno do reino cristo, esse imperador havia sido bem sucedido na reconcilia-
o com a ordem monstica militante de Eustateos, cujas desavenas com o resto
da Igreja etope tinham trazido, havia um sculo, graves consequncias polticas
e regionais. O rei esforara-se por reorganizar completamente a Igreja etope,
para que ela pudesse exercer melhor sua misso evanglica por todo o reino,
onde o monarca proclamara a represso enrgica a todos os costumes e prticas
religiosas tradicionais. Sendo ele prprio um telogo ilustrado, Zera-Yakob ps
fim a srios litgios doutrinais que dividiam a Igreja e perseguiu sem piedade os


43    AL-SAKHW, 1897, p. 210.
44    PERRUCHON, 1894, p. 340.
45    A carreira de Zera-Yakob  estudada mais profundamente em TAMRAT, 1972a, p. 220-47.
O Chifre da frica: os Salomnidas na Etipia e os Estados do Chifre da frica   509



monges dissidentes. Quis at acabar com os deslocamentos incessantes da corte,
fundando uma nova capital em Debre-Berhan, em Shoa, onde estabeleceu uma
administrao fortemente centralizada.
    Quanto  defesa do imprio, Zera-Yakob rechaou os ataques contnuos do reino
de Adal s provncias do leste, esmagou a revolta dirigida por seu vassalo muulmano,
o sulto de Hadya, e reforou sua autoridade militar nas possesses mais longnquas,
onde estacionou tropas de uma lealdade a toda prova. No planalto da atual Eritreia,
Zera-Yakob fundou uma colnia de soldados Maya, recrutados em uma tribo de
famosos guerreiros de Shoa. Mandou construir um porto em Girar, no mar Ver-
melho, no longe do stio atual de Masawah46. Zera-Yakob jamais parou de lutar
contra os grandes problemas, tendo sido bem sucedido na maior parte das vezes.
Seu reino marcou realmente o apogeu do desenvolvimento cultural, poltico e
militar da Etipia no fim da Idade Mdia. Mas s com grandes dificuldades
conseguiu levar seus empreendimentos a bom termo, pois, por todos os lados,
deparava com uma resistncia organizada. As obras escritas por ele prprio, as
crnicas e certas tradies hagiogrficas relativas ao perodo mostram que a
atividade incansvel do monarca desencadeou uma grande agitao poltica e
at mesmo alguns compls para dep-lo. Esses textos tambm revelam que Zera-
-Yakob usou de medidas fortemente repressoras para esmagar a oposio, e muitas
so as histrias de eclesisticos graduados e outros dignitrios condenados  priso
em terras de exlio longnquas. De fato, um dos primeiros atos oficiais de seu filho
e sucessor Baida Mariam (1468-1478) foi a anistia de grande nmero de prisionei-
ros polticos e o abrandamento do poder centralizado que seu falecido pai quisera
instaurar na nova capital de Debre-Berhan. No entanto, o afrouxamento das garras
de ferro com que Zera-Yakob havia governado no tardou em resultar numa nova
exploso de revoltas em muitas frentes. Apesar dos grandes esforos do jovem rei
para domin-las, ele nunca chegou a igualar a temvel autoridade do pai.
    Srias dissenses internas seguiram o breve reinado de Baida Mariam que,
ao morrer, deixou dois filhos menores, ainda jovens demais para assumirem as
responsabilidades imperiais. As querelas de sucesso entre os partidrios dos
dois jovens prncipes, que se prolongaram por muitos anos, minaram o poder
do imprio cristo47. A primeira grande derrota sofrida pelo exrcito cristo na
frente de Adali ocorreu no reinado de Baida Mariam, e pode-se dizer que, a
partir desse perodo, o declnio do poderio cristo na Etipia e no Chifre da
frica no cessou at o colapso final provocado pela djihd do im Ahmad.

46   CONTI ROSSINI, 1903, 181-3; KOLMODIN, 1912-1914.
47   TAMRAT, 1974.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                   511



                                           CAPTULO 18


  O desenvolvimento da civilizao swahili
                                           Victor V. Matveiev




    O perodo compreendido entre os sculos XII e XV da era crist  particular-
mente interessante na histria das ilhas e da costa oriental da frica. Foi a poca
em que se formou na regio uma comunidade tnica cuja melhor denominao
seria populao "swahili", Foi tambm a poca em que se atestou plenamente a
existncia de alguns Estados, cujos primeiros registros datam do sculo X da era
crist. Outro fato importante  que, nesse perodo, o desenvolvimento histrico e
cultural da frica oriental no sofreu qualquer influncia externa perturbadora,
enquanto o surgimento de conquistadores portugueses no comeo do sculo
XVI interrompeu o processo de desenvolvimento, modificando sensivelmente
suas condies e caractersticas. Como o perodo tambm se caracteriza por
grande desenvolvimento cultural,  razovel considerarmos que a civilizao
swahili estava ento em seu apogeu, sobretudo se atentarmos para a sua subse-
quente decadncia.
    No sculo XII, os Swahili no constituam uma comunidade homognea no
plano tnico ou social. No plano tnico, sobre um fundo formado por uma popu-
lao de lngua bantu, acrescentavam-se elementos do interior do continente e
do exterior, tais como rabes, persas e indianos, provenientes da costa setentrio-
nal do mar da Arbia e do oceano ndico. No plano social, havia disparidades,
na medida em que existia uma classe dirigente isolada e distinta da massa de
homens livres. A estrutura formal da sociedade continuava fundamentada em
512                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



cls ou grupos tnicos, mas continha elementos de diferenciao por classes.
Pois, embora considerados iguais aos outros, os membros da classe dirigente
sobressaam por serem ricos e porque suas funes tradicionais lhes conferiam
influncia especial.
    Ao lado da classe dirigente, encontravam-se outros indivduos que eram
ricos, mas no tinham acesso ao poder e  influncia atribuda pela tradio,
pois sua riqueza se originava do comrcio. Gente comum formava a massa da
populao swahili. Alm disso a sociedade swahili, no incio do sculo XII, tambm
inclua escravos, cuja existncia  possvel supor pela leitura dos autores rabes
que descrevem sua exportao. Mas seu papel dentro da sociedade no  claro;
pode ser que fossem exclusivamente objeto de um comrcio inter-regional. No
fim do sculo XV, os escravos parecem ter tido funo econmica, segundo o
relato de um annimo portugus que os descreve em atividades agrcolas em
Kilwa1.
    A civilizao swahili reflete esse processo de diferenciao social; uma
cultura tradicional, a do povo, distinguia-se de outra, a da classe dirigente.
Mas, devido  falta de fontes, nossos conhecimentos sobre essa civilizao
so falhos.


      A economia e os intercmbios comerciais
   A civilizao swahili baseava-se em trs atividades econmicas principais: a
agricultura, a pesca martima e o comrcio.

      A agricultura e a pesca
   A agricultura  atividade da maior parte do povo  ao lado da pesca e da
coleta de frutos do mar constituam as fontes essenciais de subsistncia da
populao. Al-Mas`d, autor do sculo X, enumera as seguintes culturas no
pas: banana, durra (variedade de sorgo), inhame (al-kalari), cleo (da famlia
da hortel), coco2. Outras fontes falam da cana-de-acar e do tamarindo. No
sculo XV, o autor portugus annimo citado conta que em Kilwa Kisiwani
havia coco, laranjas, limes, vrias leguminosas, cebolinha e ervas aromticas,
nozes de areca, vrias espcies de ervilhas, milho (provavelmente durra ou


1     FREEMAN-GRENVILLE, 1962b, p. 217.
2     AL-MAS`D, 1861-1877, v. 1, p. 334; v. 3, p. 7, 11, 29. Ver tambm MATVEIEV, 1971, p. 26-7.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                     513



sorgo). Tambm fala da pecuria (gado grande de chifres, ovelhas, cabras) e
da cultura do algodo. Essas informaes e a descoberta de fusos de terracota
atestam a prtica da fiao e da tecelagem. No plano agrcola, o coqueiro tinha
papel especial para os habitantes da costa oriental da frica e das ilhas.
    A pesca e a coleta de frutos do mar eram to importantes quanto a agri-
cultura; so mencionadas pelos autores rabes, que aludem frequentemente ao
consumo de peixes, frutos do mar e moluscos pela populao local. Mas o oceano
no fornecia recursos apenas para a alimentao. Fontes rabes informam-nos
sobre a coleta e a venda de prolas, conchas, carapaas de tartarugas marinhas,
mbar. O peixe no s era consumido no local onde era pescado como tambm
era vendido, o que leva a supor uma atividade pesqueira em grande escala.
Sabe-se que as conchas eram utilizadas para a manufatura de pratos, colheres e
colares. De modo geral, os relatos rabes falam dessas atividades em todo o lito-
ral, sem maiores detalhes geogrficos. No entanto, em sua descrio de algumas
cidades, al-Idrs faz da pesca a principal atividade de Malindi3.
    A pesca e a coleta de frutos do mar estaro estreitamente ligadas ao desen-
volvimento da navegao em suas duas formas: por um lado, na arte da cons-
truo de navios e, por outro, no desenvolvimento das tcnicas de navegao,
em particular da astronomia. Um estudo dos conhecimentos astronmicos
da poca mostra, com efeito, que eles s puderam ser desenvolvidos por meio
da navegao no oceano ndico; logo, h motivos para se acreditar que os
navegadores africanos tenham dado sua contribuio nesse sentido4.
    Pode-se supor que a construo de navios no se limitava  fabricao de
mtumbwi (barcos talhados a machado) e de mitepe (almadias costuradas). O
autor annimo portugus viu no porto de Kilwa muitos navios grandes, cujas
dimenses eram aproximadamente as de uma caravela de 50 toneladas; infeliz-
mente, no indicou a quem pertenciam. A existncia de diversas categorias de
navios pode ser indiretamente deduzida do fato de haver, na lngua kiswahili,
grande variedade de termos para designar "navio"  o que indica, provavelmente,
uma diferenciao especfica, segundo a utilizao que deles se fazia , alm do
fato de existir grande nmero de tipos de embarcao at o incio do sculo XX.
Caso essa hiptese seja verdadeira, ela invalida a tese de que os habitantes da
frica oriental no praticavam o comrcio martimo no oceano ndico.




3    MATVEIEV & KUBBEL, 1965.
4    MISIUGIN, 1972, p. 165-77.
514                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



      O comrcio e o desenvolvimento da vida urbana
    Os Swahili do povo viviam em cabanas de troncos e barro, cobertas de folhas
de palmeiras ou gramneas. Essas cabanas se agrupavam em aldeias ou cidades.
 provvel que as fontes rabes se refiram a esse setor da populao swahili,
quando descrevem a caa ao leopardo ou ao lobo, a explorao de minrio de
ferro para a venda, a arte de enfeitiar animais ferozes para torn-los inofensivos
(por exemplo, para que no atacassem o homem), os ces ruivos utilizados na
caa aos lobos e aos lees e um tambor enorme, semelhante a um barril, ao qual
os Swahili devotavam um culto e cujo som era assustador5.
    Mas a cultura da costa da frica oriental no se resume a isso. Os rabes
tambm nos informam a respeito de outro tipo de civilizao existente no litoral:
a civilizao urbana, mais refinada e ligada ao desenvolvimento do comrcio
martimo. As diferenas de nvel cultural foram notadas por autores rabes, e
Ab 'l-Ksin al-Andalus indica que, nas populaes como as da frica oriental,
s os habitantes das cidades "extasiam sua alma com o estudo da filosofia" 6.
Parece que as cidades constituam-se essencialmente de cabanas, mas tambm
devia haver construes em pedra, onde moravam os membros ricos e influen-
tes da sociedade swahili. As cidades eram principalmente centros comerciais
para onde afluam mercadorias indgenas e onde aportavam navios estrangeiros.
Eram tambm centros de propagao do Isl.
    Como as estimativas do valor das mercadorias eram variveis, o comrcio era
extremamente lucrativo: no sendo produzidos na regio, os bens importados eram
objetos de luxo, e aos olhos do comprador adquiriam mais valor do que realmente
tinham. Por outro lado, a abundncia de produtos preciosos, como o ouro e o mar-
fim, e a certeza de sempre se poder obt-las faziam com que seu valor diminusse.
Alm disso, a posio geogrfica vantajosa  praticamente todo o litoral da frica
oriental faz parte da zona das mones  favorecia a navegao no oceano ndico
e possibilitava a existncia do comrcio naquela parte do mundo.
    No sculo XII, supe-se que as correntes comerciais da frica oriental pas-
sassem pelo arquiplago Lamu e por Zanzibar. Escavaes arqueolgicas em
Zanzibar mostram que o principal centro de comrcio da rea era a cidade de
Manda, na ilha de mesmo nome, que floresceu nos sculos IX e X da era crist
e continuou ativa at o sculo XII ou mesmo XIII7. Aps esse perodo, a maior


5     MATVEIEV & KUBBEL, 1965, p. 305.
6     Ibid., p. 194.
7     CHITTICK, 1967a, p. 4-19.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                                                    515



parte do comrcio comeou a passar por Kilwa. A riqueza e o brilho da cidade
de Manda podem ser atestados pela grande quantidade de bens importados
que l foram descobertos: cermicas islamos-sassnidas, celadons de Hue e
esgrafitos. Muitas delas, esmaltadas ou no, lembram as que foram descobertas
nas escavaes de Siraf.
    A descoberta de escrias de minrio de ferro atesta a existncia de fundies.
No entanto,  difcil avaliar a importncia dessas fundies apenas pelo testemu-
nho arqueolgico. Pode ser que as indicaes de al-Idrs a respeito da cidade
de Malindi  "O ferro  seu principal recurso e principal objeto de comrcio" 8
 dissessem respeito a toda a regio e que de Malindi se transportasse o ferro at
Manda, cujo bem de exportao mais importante, fonte de riqueza da cidade, era
o marfim.
    AI-Idrs tambm descreve outras cidades do litoral e das ilhas, mencionando
as seguintes: Marka (Merca), Brava, Malindi, Mombaa, Pangani (El-Banas)
e Ungudja (antigo nome de Zanzibar). Segundo uma nova identificao que
parece convincente, a cidade situada aps Pangani, com o nome de Butakhna,
seria Kilwa9. Isso permite supor que Kilwa j existia h algum tempo, mas que
ainda no se tornara um dos grandes centros comerciais da costa. Fontes rabes
mais antigas tambm citam Sofala, de onde era exportado o ouro. Comparando-se
as informaes,  possvel localizar esses stios na regio de Kilwa.
    As pesquisas arqueolgicas efetuadas em Kilwa Kisiwani mostram o quadro
de uma vida comercial bastante ativa10. Foram encontrados um grande nmero
de cauris, usados como dinheiro, de cermicas de importao, do tipo esgrafito,
com decoraes incisas em amarelo com reflexos acobreados ou recobertas de
esmalte verde-escuro, de objetos de vidro, e, em quantidade menor, contas de
vidro, de cornalina e de quartzo, e loua de esteatita de Madagscar. O principal
produto de exportao era o ouro. Em meados do sculo XII, comeou-se a
importar da China porcelana song e, em menor quantidade, celadons.
    Os produtos de importao mais caractersticos de Gedi eram cermicas isla-
mticas "pretas e amarelas", esgrafitos com decoraes incisas amarelas e verdes,
e vrios tipos de celadons. Gedi e Mogadscio  que j devia existir  no so
mencionadas nas fontes rabes. Malindi e Mombaa eram centros comerciais



8    MATVEIEV & KUBBEL, 1965, p. 304.
9    TOLMACHEVA, 1969, p. 276.
10   As descries das escavaes arqueolgicas realizadas na frica oriental e da arquitetura swahili baseiam-se
     nas seguintes obras: KIRKMAN, 1954a, CHITTICK, 1961, 1966, e 1967b, 1974, v. 2.
516                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 18.1 Mapa das rotas de comrcio interno e transocenico das cidades da costa da frica oriental
(V. V. Matveiev.)
O desenvolvimento da civilizao swahili   517
518                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



menos importantes de onde se exportava ferro e peles de leopardo; de Malindi
tambm se exportava peixe.
   No comeo do sculo XIII, Ykt escreveu que Mogadscio era uma das
cidades mais importantes da frica oriental e que seus habitantes eram rabes
muulmanos que viviam em comunidades. Na poca, Mogadscio exportava
bano e sndalo, mbar cinzento e marfim. O autor tambm notou a miscige-
nao de sua populao e mencionou igualmente a existncia das cidades de
Mtambi e Mkumbulu, na ilha de Pemba.
      Cada uma dessas cidades tem seu sulto, independente do vizinho. Na ilha h mui-
      tas aldeias e cidadezinhas. Seu sulto afirma que  rabe e que seus ancestrais so
      originrios de Kufa, de onde partiram para vir a esta ilha11.
    Kilwa foi mencionada pela primeira vez com este nome na obra de Ykt;
Ykt foi tambm o primeiro a falar da cidade de Mafia, que ele situa no
numa ilha, mas no litoral, e da ilha de Tumbatu, em seu relato sobre Zanzibar
(Landjuia-Ungudja). Segundo ele, Zanzibar teria sido um Estado independente,
e a cidade de Ungudja, centro comercial frequentado por navios; os habitantes
de Tumbatu seriam muulmanos.
    Nessa poca, Kilwa e provavelmente a ilha de Mafia eram governadas pela
Dinastia Shirazi. Em meados do sculo XIII, assistiu-se  luta entre Kilwa e o
povo Shanga, que possivelmente era a populao da ilha Sanjo ya-Kati. A causa
provvel do conflito era a rivalidade pelo domnio das correntes comerciais
que passavam pela regio. Como atesta a Crnica de Kilwa, esta cidade teria
finalmente conseguido a vitria12, o que aparentemente teve por consequncia
o desenvolvimento do comrcio e da civilizao swahili, que remonta ao incio
do sculo XIV e coincide com a ascenso ao poder, em Kilwa, de uma dinastia
associada ao nome de Ab al-Mawhib,
    Naquela poca, Gedi continuava a negociar os mesmos produtos alimentcios;
como no perodo precedente, os principais clientes tanto de Gedi quanto Manda
eram as cidades persas, principalmente a de Siraf.
    O volume de mercadorias importadas por Kilwa aumentou sensivelmente. Entre
elas encontrava-se grande quantidade de esgrafitos, geralmente verde-escuros, mais
raramente amarelos com reflexos verdes; porcelanas chinesas da poca song,
entre as quais alguns celadons; objetos de vidro, principalmente garrafas e



11    YKT, 1866-1873, v. 4, p. 75-6; v. 5, p. 302 e 699.
12    Kilwa chronicle, in FREEMAN-GRENVILLE, 1962a.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                    519



frascos, s vezes ornados com motivos em relevo, e que serviam, provavelmente,
para conservar perfumes e quermes (khl).
    Os objetos de vidro encontrados em Gedi se parecem, na forma e na deco-
rao, com os encontrados nas escavaes de Kilwa. So, principalmente em
Gedi, em sua maioria, garrafas e frascos, provavelmente originrios do Iraque
ou do Ir. Importavam-se cada vez mais loua de esteatita e contas de vidro de
Madagscar, sobretudo trs variedades de contas, ornadas com pequenas inci-
ses, e, mais raramente, contas em forma de bastonetes.
    O comrcio parece ter alcanado o apogeu no sculo XIV. A fonte mais
importante em lngua rabe sobre esse perodo  a obra de Ibn Battta, que
visitou a frica oriental13 em 1332. Ele descreveu Mogadscio como grande
centro comercial; explicou que era costume que o comerciante estrangeiro, ao
chegar, procurasse entre os habitantes da cidade um agente de confiana, para
tomar conta de seus negcios. Essa prtica tambm  mencionada por Ykt,
mas ele no entra em muitos detalhes. Alm dos produtos descritos por Ykt,
Mogadscio tambm comerciava seus makdsh, ou seja, "tecidos de Mogadscio".
A rede comercial de Mogadscio no era a mesma que a das cidades mais meri-
dionais. Assim, os makdsh eram vendidos at no Egito, enquanto do Egito e
de Jerusalm vinham outros tipos de tecido. As outras cidades da frica oriental
no mantinham relaes com o Egito ou com a Sria.
    No sculo XIV, Manda j havia perdido sua importncia; a de Malindi,
Mombaa e outras cidades continuava insignificante. De acordo com as pes-
quisas efetuadas por H. N. Chittick, foi somente nessa poca que a cidade de
Patta surgiu, na ilha de mesmo nome14.

     Os intercmbios: centros, produtos, quantidade
   No sculo XIV, Gedi comeou a importar novos produtos: manteve at
meados do sculo XIV a importao de esgrafitos, pouco a pouco substitudos
por cermicas verde e azul de esmalte muito fino e brilhante, que aparentemente
provinham do Ir. Tambm encontravam-se entre as mercadorias vrios tipos de
celadons, de porcelanas brancas e todos os tipos de contas: de barro vermelho,
redondas ou alongadas, de cermica, de vidro, ornadas com pequenas incises
ou com forma de bastonete etc.



13   IBN BATTTA, 1853-1859, v. 2, p. 176 et seqs.
14   CHITTICK, 1967a, p. 27-9.
520                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 18.2 Siyu, ilha de Pate: prato de porcelana chinesa engastado num tmulo, mostrando a utilizao
feita da porcelana.




Figura18.3   Ilha de Mafia: pratos de porcelana chinesa engastados no muro kibla, na mesquita de Juma.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                        521



    O centro comercial mais importante era Kilwa, onde o volume de cermica
importada tinha aumentado muito. Havia pouca cermica islamtica: as mais tpicas
eram vasos de m qualidade, com desenhos negros e esmalte amarelo-fosco, prova-
velmente fabricados em Aden, de onde eram importados. Durante a segunda
metade do sculo XIV, apareceram cermicas islamticas monocrmicas, de forma
semiesfrica, borda arredondada, com o corpo esmaltado de verde-claro.
    Importavam-se cada vez mais porcelanas da China, principalmente celadons,
frequentemente azulados. Encontrou-se grande nmero de celadons em forma
de ltus. A porcelana de barro branco-azulado, de estilo antigo, era mais rara. No
entanto, havia muitas cermicas chinesas verde-plidas, com desenhos negros incisos
sob o esmalte. Tambm era maior a quantidade de contas em forma de bastonete,
comparada ao nmero daquelas com incises; ao mesmo tempo, comearam a sur-
gir contas alongadas azul-cobalto. Os vasos de esteatita deixaram de ser importados,
embora, aparentemente, os objetos de vidro continuassem os mesmos.
    No sculo XV, encontravam-se em Gedi os mesmos objetos de importao
do sculo precedente, ou seja, cermicas islamticas verdes e brancas, recobertas
de fino esmalte brilhante. Pela primeira vez apareceram porcelanas de barro
branco-azuladas, cujos motivos so de um estilo caracterstico da poca ming,
no sculo XV.
    A importao de contas de vidro apresentava praticamente as mesmas caracte-
rsticas do sculo precedente, mas no se importavam mais tantos objetos de vidro.
Geralmente, considera-se o sculo XV em Kilwa como poca de relativa decadn-
cia devido s lutas internas pelo poder entre as vrias faces da camada superior
da sociedade. As importaes, porm, continuavam a aumentar, principalmente
as de cermicas islamticas monocrmicas, cuja qualidade havia melhorado um
pouco. Sua cor ia do verde-azulado ao verde. Havia o dobro de porcelana chinesa
que de cermica islamtica; aqui tambm os objetos de porcelana mais difundidos
eram celadons e objetos de barro branco-azulado. Tambm encontrava-se um
grande nmero de recipientes de vidro, principalmente garrafas. Quanto s contas
de vidro, eram quase todas vermelhas, em forma de bastonetes.
    Os produtos de exportao, como j dissemos, eram sobretudo o marfim e
o ouro, alm de escravos (Ibn Battta descreve razias cujo objetivo era capturar
escravos), presas de rinocerontes, mbar cinzento, prolas, conchas e, nas regies
setentrionais, peles de leopardo.
    Outra mercadoria importante, que era em parte importada e, em parte, fbricada
na regio, eram os tecidos de algodo, que representavam, aparentemente, grande
volume na massa de intercmbios. Sabe-se que no sculo XV quantidades con-
siderveis de tecidos de algodo chegavam a Mombaa e a Kilwa, de onde eram
522                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 18.4   Mapa da ilha e da cidade de Kilwa. (V. V. Matveiev.)
O desenvolvimento da civilizao swahili                                       523



reexpedidas para Sofala15. Pode-se imaginar a importncia dessa mercadoria
pelo registro encontrado na Crnica de Kilwa de que a ilha de Kilwa fora com-
prada, e o preo havia sido uma quantidade de tecido correspondente ao seu
permetro.
    O comrcio martimo que ligava a costa da frica oriental e as ilhas aos
pases da costa setentrional do oceano ndico favoreceu os contatos entre os
habitantes dessas regies, enriquecendo-os. Essas relaes comerciais eram parte
de um processo mundial  e constituam um ramo da grande via comercial
que ligava o Ocidente ao Oriente, onde os portos da frica oriental no eram
terminais, pois outra ramificao conduzia a Madagscar. Sem dvida, existia
contato entre o litoral e os territrios aurferos do interior, prximos do lago
Niassa; dali vinha o ouro que chegava a Kilwa. A partir do sculo XIV, algumas
regies aurferas de Sofala passaram para o domnio dos sultes de Kilwa, que
comearam a nomear governadores para a regio. A antiguidade dos contatos 
atestada por descobertas arqueolgicas de objetos provenientes do litoral ou at de
pases no africanos. G. Caton-Thompson j notara que as contas amarelo-limo
descobertas nas escavaes do Zimbbue eram parecidas com as contas de vidro
encontradas em vrias regies da ndia no sculo VIII da era crist16. O vidro
azul-claro e verde encontrado tambm no Zimbbue pode ter a mesma origem:
parece muito com o vidro da ndia ou da Malsia.
    Da mesma forma, o exame atento das cermicas locais de Gedi (classes 1 e
2) e sua semelhana com uma das variedades de cermica encontradas no Zim-
bbue permitiram a J. S. Kirkman concluir que existiam relaes entre o litoral
e os proprietrios das minas de ouro no interior do continente17. As regies
aurferas prximas do rio Zambeze, no interior do continente e no territrio
da atual Repblica de Zmbia, foram sem dvida as primeiras com as quais se
estabeleceram relaes comerciais, o que pode ser comprovado pela descoberta
de cauris que eram trocados por ouro e marfim, em Gokomera e Kolomo.
    No atual territrio da Repblica Unida da Tanznia, na regio de Engaruka,
as escavaes numa aldeia ligada ao comrcio permitiram que se descobrisse
o mesmo tipo de cauris e de contas de vidro (dos sculos XV e XVI) que as
encontradas em Kilwa e outras cidades do litoral.
    Finalmente, al-Idrs, no sculo XII, observou a existncia do comrcio de
caravanas com as regies do interior.

15   STRANDES, J., 1899, p. 97-100; 1961.
16   CATON-THOMPSON, 1931, p. 81.
17   KIRKMAN, 1954a, p. 72-3 e 78-9.
524                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



      Como no tinham animais de carga, eles prprios transportavam as mercadorias.
      Carregavam-nas sobre a cabea ou nas costas at duas cidades, Mombaa e Malindi,
      onde vendiam e compravam18.
    Os primeiros meios de troca utilizados nas relaes comerciais foram princi-
palmente os cauris, encontrados em todas as escavaes, no litoral e no interior.
Aparentemente as contas de vidro e, mais tarde, a porcelana da China tambm
desempenharam esse papel. Nas regies de comrcio mais intenso apareceu um
novo meio de troca, na forma de moeda metlica, cujos centros de fabricao
parecem ter sido Kilwa e Mogadscio. De acordo com as pesquisas de G. N.
Chittick, as moedas de bronze e prata surgiram em Kilwa com o advento da
Dinastia Shirazi, no final do sculo XII19. Ao contrrio das moedas de Kilwa,
o nico exemplar encontrado em Mogadscio traz a data de 133220. As moe-
das encontradas no litoral no se distribuam de forma equitativa ao longo da
costa. G. S. P. Freeman-Grenville21 observa que nenhuma foi encontrada entre
Mnarani e Kilwa Masoko, e atribui essa ausncia  falta de pesquisas arqueo-
lgicas na rea. Seja por esse motivo, seja por que no se cunhavam moedas e,
assim, elas no eram utilizadas na regio, o fato  que s foram encontradas nos
grandes centros comerciais, em Kilwa Kisiwani e Kisimani Mafia, em Kwa na
ilha Djwani, nas ilhas de Zanzibar e de Pemba, alm de alguns exemplares no
Qunia. A presena de moedas permite supor que o comrcio local tenha se
desenvolvido sensivelmente na costa e nas ilhas circunvizinhas, tornando neces-
sria a adoo dessa forma de pagamento. As moedas deviam ter um valor de
troca maior que o dos cauris, e sua introduo parece demonstrar a importncia
das operaes comerciais. Essa hiptese  confirmada pelo fato de a mercadoria
principal de Kilwa ser o ouro, cujo valor intrnseco era muito alto. Por outro lado,
a abundncia de ouro, considerado como mercadoria, devia ser obstculo  sua
transformao em meio de troca. As regies onde foram encontradas moedas
podem servir como indicao da extenso geogrfica do comrcio local. Alm
disso,  provvel que a explicao para a ausncia de informaes sobre o local,
a data de cunhagem e o valor nas moedas de Kilwa seja dada pelo fato de que,
anteriormente, quando os pagamentos eram feitos em cauris; o que importava
era o nmero de unidades.


18    MATVEIEV & KUBBEL, 1965, p. 305.
19    CHITTICK, 1965.
20    CHITTICK, 1971.
21    FREEMAN-GRENVILLE, 1957, 1960a.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                         525



   Grande fonte de lucros, o comrcio foi a base da riqueza das cidades do litoral e
do desenvolvimento social e cultural da sociedade swahili. Por sua prpria natureza,
permitiu contatos com vrias civilizaes, como a rabe, a persa e a indiana. Apesar
da enorme quantidade de objetos provenientes da China encontrados nas escava-
es, este pas no participou diretamente do comrcio com a frica antes do sculo
XV. De acordo com as pesquisas recentes de V. A. Velgus, um dos especialistas mais
competentes em fontes escritas chinesas, os navios chineses alm de no alcanarem
o golfo Prsico, no ultrapassavam, a oeste e ao sul, as ilhas de Sumatra e Java; no
chegavam, portanto,  costa da frica oriental22. As primeiras indicaes da chegada
de esquadras chinesas  costa da frica oriental datam de 1417-1419 e de 1421-
-1422; eram comandadas por Cheng-Ho.


     A civilizao swahili (do sculo XIII ao sculo XV)
    Esta riqueza e estes contatos influenciaram o desenvolvimento econmico,
social e cultural da frica oriental. Por um lado, as aldeias transformaram-se
em cidades. Por outro, formou-se na sociedade swahili um grupo influente, que
comeou a competir pelo poder com a antiga nobreza, cujos domnios e influncia
eram associados a funes sociais tradicionais. Para reforar sua posio, o novo
grupo tinha necessidade de uma nova ideologia, o islamismo, conhecido atravs
de contatos com rabes e persas. As circunstncias histricas permitiram que
o Isl se difundisse na frica oriental, partindo do princpio que, em caso de
necessidade, as pessoas adaptam suas necessidades a uma realidade estrangeira,
porm j existente, antes de, analogamente, criar a sua prpria. As condies
concretas dessa difuso no so conhecidas; pode-se, no entanto, afirmar que
o Isl no foi imposto  fora, como durante a conquista rabe. Tambm no
houve proselitismo em favor da religio muulmana.  possvel, ento, pensar
a converso ao islamismo como voluntria, exprimindo a necessidade profunda
da sociedade em adotar uma nova ideologia.
    A penetrao do Isl comeou, aparentemente, entre o fim do sculo VII e o
incio do VIII. No sculo X, al-Mas`d mencionou a presena de muulmanos,
que falavam uma lngua africana, na ilha de Kambala. Atribui-se a essa poca
a difuso do Isl pelas ilhas da costa da frica oriental: no sculo XIII, a nova
religio comeou a se espalhar pelo prprio litoral. Era, evidentemente, diferente
da religio muulmana dos pases rabes. Provavelmente, como demonstrou J. S.

22   VELGUS, 1969.
526                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Trimingham a respeito de perodo mais recente, o que importava, no incio,
era simplesmente ser considerado muulmano, e esta religio coexistia com os
cultos tradicionais23. Este fato  por si mesmo muito importante, pois ilustra o
enfraquecimento e o desaparecimento de velhos laos sociais, que cederam lugar
a novos. Alm disso, pode-se supor que o Isl tambm era trao de realce na
diferenciao com os outros africanos no muulmanos. No incio, o Isl mar-
cava essencialmente as aparncias, mas com o tempo sua influncia tornou-se
mais profunda,  medida que o nmero de adeptos aumentava. A prova externa
destas mudanas foi o crescimento do nmero de mesquitas.

      O progresso e difuso do Isl
    O comeo da expanso do Isl deve, sem dvida, remontar s ltimas dcadas
do sculo XII, e seu desenvolvimento ocorreu nos sculos XIV e XV. Assim,
em 1331-1332, Ibn Battta descreveu Mogadscio como uma cidade bastante
islamizada. Dos habitantes de Kilwa acrescentou ainda que "suas maiores qua-
lidades so a f e a justia"; seu sulto recompensava os devotos e os nobres24
Sabemos da existncia de mesquitas nesta poca em Mogadsco, Gedi, Kaole,
Kilwa, Sanjo Magoma etc.
    A converso ao Isl representava, aparentemente, a passagem a uma nova
etapa, inevitavelmente a outras formas de conduta e de vida. A manifesta-
o concreta da mudana consistia na adoo de vestimentas, nomes e ttulos
muulmanos. Este ltimo ponto tinha importncia particular na tomada de
conscincia dos novos laos sociais, embora tenha sido um processo gradual,
que passou por uma fase de coexistncia dos ttulos antigos (africanos) e novos
(muulmanos)  por exemplo, o de mfalme e sulto , resultando, por fim, no
desaparecimento dos primeiros. Tambm  possvel supor que, na prtica, as
prescries e proibies do Isl no foram adotadas em sua totalidade, e que os
costumes e ritos ligados aos cultos tradicionais perpetuaram-se.
    Os primeiros a abraar o Isl foram, provavelmente, os ricos comerciantes,
seguidos pela antiga nobreza e, finalmente, por certas camadas populares, ou seja,
membros da comunidade que ambicionavam chegar ao nvel de seus opulentos
correligionrios.
    A apario e difuso do Isl levaram  adoo, nesta rea da frica, de traos
de civilizao aplicveis ao contexto local. Dando crdito a Ibn Battta, que


23    TRIMINGHAM, 1964, p. 24-8 e 46-7.
24    IBN BATTTA, 1853-1859, v. 2, p. 194.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                       527



menciona cdis em Mogadscio e Kilwa25, pode-se concluir que a sociedade
swahili comeou a aplicar alguns elementos, mas no todos, do sistema jurdico
muulmano.
    A introduo e a difuso do Isl num clima de intensas atividades comer-
ciais explicam a utilizao de muitos termos da lngua rabe, principalmente no
comrcio, na religio e na justia. Adotou-se para a lngua kiswahili, pelas neces-
sidades do comrcio e da religio, para os registros dos ritos que deveriam ser
observados, e para a codificao dos direitos e privilgios das diversas camadas
da sociedade swahili, uma escrita baseada na grafia rabe. Como demonstrou V.
M. Misiugin,  preciso saber kiswahili para ler a escrita, isto , ela s pode ter
sido criada pelos Swahili. A criao remontaria, segundo o prprio Misiugin, a
um perodo entre o sculo X e o XIII26.

     Urbanismo e arquitetura
    Outra consequncia da difuso do Isl, alm do surgimento de mesquitas no
territrio swahili, foi o desenvolvimento das construes em pedra.
    As escavaes dirigidas por J. S. Kirkman e G. N. Chittick permitem que
comecemos a traar um quadro geral da evoluo da arquitetura nas ilhas e na
costa da frica oriental. Seu incio remonta ao sculo XII em Gedi, Zanzibar
e Kilwa. O primeiro perodo caracteriza-se por uma tcnica de construo que
consistia em assentar blocos de coral com argila vermelha. O nico monu-
mento da poca, mencionado nas fontes escritas,  a grande mesquita de Kilwa,
infelizmente reconstruda vrias vezes, nada restando da obra original. Outro
vestgio do sculo XII, que traz a data de 1107,  uma inscrio da mesquita de
Kizimkazi em Zanzibar, que hoje orna uma mesquita do sculo XVIII.
    Do sculo XIII, conhecemos trs mesquitas em Kisimani Mafia, a parte norte
da grande mesquita de Kilwa, uma pequena mesquita na ilha de Sanjo ya Kati,
dois minaretes prximos a Mogadscio  um tem a data de 1238 , e, no mihrb
da mesquita de Fakhr al-Dn, h a indicao do ano de 1269. Houve poucas
mudanas nas tcnicas de construo em relao ao sculo anterior: grandes e
de forma rudimentar, os blocos de coral, de 25 a 30 cm, eram fixados com cal
obtida da calcinao do coral27.



25   Id., ibid., p. 183-4;
26   MISIUGIN, 1971, p. 100-15.
27   Essas indicaes baseiam-se no artigo de CHITTICK, 1963a, p. 179-90.
528                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



    No sculo XIV, Kilwa, principal centro comercial, passou por perodo de
grande desenvolvimento na sua arquitetura28. Comearam a utilizar pedras de
tamanho mais ou menos idntico, fixando-as com argamassa. Conseguia-se,
assim, simplificar ainda mais a construo, apesar de sua qualidade ser natural-
mente inferior  do sculo precedente. As pedras s eram talhadas com cuidado
para o acabamento do mihrb e esquadrias de portas e janelas. Surgiram novos
elementos arquitetnicos: cpulas esfricas ou pontudas, arcos semicirculares,
colunas de pedra, baixos-relevos ornamentais. No entanto, parece que essas rea-
lizaes limitaram-se a Kilwa; em outros locais, os tetos continuaram planos.
    O monumento mais notvel da poca  o palcio  fortaleza ou centro
comercial  de Husuni Kubwa. A meno ao nome do sulto al-Hasan Ibn
Sulaymn II (1310-1333) levou G. N. Chittick a propor o sculo XIV como
data de construo deste edifcio, que serviu de modelo para a arquitetura das
casas das camadas ricas da populao. De modo geral, as habitaes tinham face
norte ou leste, com ptios adjacentes em frente. A morada comportava vrios
quartos longos e estreitos. A comprida parede do primeiro deles  provavel-
mente o vestbulo  era contgua ao ptio, com uma porta de acesso. Os outros
quartos eram paralelos ao primeiro. Seu nmero variava, mas geralmente havia
uma pea principal aps o vestbulo e, em seguida, um dormitrio. Nos fundos,
 direita, situavam-se os banheiros, ao lado dos quais se encontravam instalaes
destinadas s ablues. Como no havia janelas, a no ser na fachada voltada
para o ptio, os quartos interiores eram sempre escuros. Este tipo de moradia
era comum em Gedi, Kisimani Mafia, Kaole e Kilwa. O conjunto de Husuni
Kubwa compunha-se, em grande parte, de habitaes deste tipo; o resto do ter-
reno era ocupado aparentemente por uma piscina. Este monumento, nico na
arquitetura da frica oriental,  verdadeira obra-prima, apesar de sua finalidade
ainda no ter sido esclarecida.
    Outro monumento notvel do sculo XIV  a grande mesquita de Kilwa,
reconstruda nessa poca.
    Durante o sculo XIV, Kilwa foi coberta de casas de pedra e tornou-se
uma grande cidade, mostrando, incontestavelmente, sua crescente opulncia. O
desenvolvimento da construo prosseguiu na primeira metade do sculo XV,
acompanhado por um aperfeioamento das tcnicas. Derramava-se argamassa
misturada a cascalho num molde, mtodo utilizado at para a construo de
cpulas. As colunas, at ento monolticas, passaram a ser feitas de uma mistura

28    Para qualquer informao sobre arquitetura, tcnicas de construo e resultados de escavaes arqueolgicas
      em Kilwa, consultar principalmente o notvel trabalho de CHITTICK, 1974.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                              529



de pedras e argamassa. Manteve-se o tipo bsico de casa, que passou, por vezes, a
mostrar um ou dois andares. Detalhe caracterstico da poca consistia em utilizar
vasos esmaltados de porcelana da China ou da Prsia no corpo da construo,
para decorar abbadas e cpulas. A casa com uma mesquita dentro dos limites
de Makutani  tpica da arquitetura da poca em Kilwa.
    No reinado do sulto Sulaymn Ibn Muhammad al-Mlik al-`dil (1412-1442),
a grande mesquita de Kilwa  uma das obras-primas da arquitetura swahili da
frica oriental  acabou de ser reconstruda, adquirindo seu aspecto atual (ver
fig. 18.5).
    Muitas so as opinies sobre esta arquitetura. G. S. P. Freeman-Grenville,
por exemplo, partindo da semelhana entre a estrutura de certas construes de
Kilwa (principalmente o palcio do sculo XVIII) e das casas comuns de taipa29,
conclui sobre a origem local, africana, das construes em pedra. Os arquelogos
J. S. Kirkman e G. N. Chittick supem que os rabes e os persas estejam na ori-
gem desta evoluo; observam, no entanto, que vrios detalhes das construes
so incompatveis com as regras do Isl aplicadas nos pases rabes. J. S. Kirkman
descobriu na mesquita de Gedi motivos de decorao em forma de pontas de
lana, inadmissvel na Arbia ou no Ir. G. N. Chittick escreve que
     no plano material, e mais especialmente na arquitetura, a populao da costa desen-
     volveu uma civilizao original em muitos aspectos, que podemos definir como
     `protosswahili' 30.
     Esta opinio  prxima da de J. E. Sutton e P. S. Garlake:
     Por sua estrutura e seu estilo de construo religiosa e civil, por suas tcnicas de
     construo, com suas moldagens em pedra talhada e motivos de decorao, a arqui-
     tetura swahili conservou, ao longo dos sculos, tradies originais que a distinguem
     da dos rabes, persas e de outros pases muulmanos31.
Eles, no entanto, parecem querer enfatizar a origem no africana desta arqui-
tetura, seu carter "no criador", pois precisam que se trata mais "de obras de
mestres pedreiros do que de arquitetos"32. Apesar de no dispormos da obra de
Sutton e Garlake, gostararnos de observar que o que aparentemente chamam
de carter "no criador" poderia refletir o esforo consciente dessa arquitetura em


29   FREEMAN-GRENVILLE, 1962, p. 92.
30   CHITTICK, 1971, p. 137.
31   SUTTON, J. E. & GARLAKE, P. S. Tanzania notes and records, n. 67, 1967, p. 60.
32   Ibid.
530                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 18.5 A grande mesquita de Kilwa, com suas duas partes geminadas. (Fonte: Bernheim, M. & Ber-
nheim, E./Agence Rapho, 1979.)



adotar certos modelos; se considerarmos, por exemplo, a evoluo das tcnicas
de construo, podemos constatar sua adaptao racional aos materiais da regio,
que se soube utilizar da melhor maneira possvel.
   De acordo com as fontes portuguesas, as ruas de Kilwa eram estreitas e ladeadas
de casas de taipa, cobertas com ramos de palmeira. Nos bairros de casas de pedra,
as ruas tambm eram estreitas e havia bancos de pedra ao longo das paredes
das habitaes.
   A construo mais importante da cidade era o palcio, que provavel-
mente tinha dois ou at mesmo trs andares em algumas partes. As portas
das edificaes eram de madeira, assim como outros elementos decorativos,
de madeira ricamente esculpida. Este tipo de decorao era bem comum em
vrios pontos do litoral, principalmente em Bagamoyo e Zanzibar. Duarte
Barbosa33 sublinha o alto nvel desta arte, o que leva a supor que sua origem


33    BARBOSA, 1918, v. 1. p. 17-31.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                       531



remonte a sculos anteriores. Como se sabe, os portugueses se impressiona-
ram com o aspecto das cidades, cujas construes em nada ficavam a dever
s de Portugal, e com a riqueza de seus habitantes, a elegncia das roupas, de
seda ou de algodo, ricamente bordadas em ouro. As mulheres usavam brincos
de pedras preciosas e, nos braos e tornozelos, correntinhas e braceletes de
ouro e prata.
    O alto nvel de desenvolvimento da civilizao swahili pode ser avaliado
pela descoberta, nas escavaes, de luminrias de terracota, presumivelmente
usadas para iluminar as partes escuras das casas, o que leva a supor que as
pessoas tinham o hbito de ler, escrever, fazer contas etc. Tambm se utiliza-
vam velas. Compunham o mobilirio tapetes e esteiras e, s vezes, tamboretes
e camas suntuosas com incrustraes de marfim, madreprola, prata ou ouro.
Na casa dos abastados encontrou-se cermica importada: faianas e porcelanas
do Iraque, do Ir, da China e tambm do Egito e da Sria. A cermica local
era utilizada em geral para a preparao de alimentos, e pela populao mais
pobre. No perodo entre os sculos XII e XV, havia dois tipos principais de
cermica com muitas variantes quanto  forma e  decorao; vasos com base
redonda ou pontuda, que se destinavam ao uso sobre o fogo; e vasos largos
e pouco profundos, parecidos com tigelas ou pratos fundos, provavelmente
utilizados para a alimentao.


     As estruturas do poder
    Centros de intercmbio comercial e de difuso do Isl, as cidades swahili da
frica oriental eram tambm frequentemente unidades administrativas, capi-
tais de pequenos Estados dirigidos por dinastias muulmanas locais. O melhor
exemplo desses centros  Kilwa, bem conhecida como sede administrativa de
uma dinastia, graas s duas verses de sua Crnica34. Segundo esta fonte, a
dinastia  cujos membros no eram africanos, mas persas  era originria da
cidade de Shiraz. Em quase todas as cidades da frica oriental existem mitos
semelhantes, mas permanece a questo sobre a origem da camada dirigente das
cidades swahili, que constitua um grupo social rico e islamizado. A resposta a
essa questo seria significativa para se poder determinar se a civilizao swahili
 africana ou se foi trazida  frica por estrangeiros.



34   FREEMAN-GRENVILLE, 1962a e 1962b.
532                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 18.6 Vista geral do portal de entrada do forte de Kilwa Kisiwani.




Figura 18.7   Detalhe do portal de entrada do forte de Kilwa Kisiwani. (Fotos S. Unwin.)
O desenvolvimento da civilizao swahili                               533




Figura 18.8    Ilha do Songo Mnara: runas da mesquita de Nabkhani .




Figura 18.9    Mihrb da grande mesquita de Gedi. (Fotos S. Unwin.)
534                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      Do mito  realidade histrica
    Atualmente h duas teorias a respeito de tal matria. De acordo com a
primeira, a civilizao que se desenvolveu na costa da frica oriental  obra de
persas e rabes; eles teriam construdo as cidades, introduzido o Isl, difundido
sua prpria cultura, que seria de nvel superior  dos africanos; ou, ao menos,
estariam na origem desta evoluo, a que teriam dado o primeiro impulso. 
populao local se atribui papel passivo, ento; os recm-chegados teriam se
cercado de grande nmero de empregados domsticos, mulheres, protegidos etc.,
africanos e teriam sido assimilados mais ou menos rapidamente. Ao invs de se
desenvolver, a herana cultural dos africanos teria, aos poucos, se degradado, de
forma que, no fossem as contribuies do exterior, todo o desenrolar da histria
da frica teria ocorrido em circuito fechado.
    Elaborada no fim do sculo XIX por J. Strandes35, esta teoria baseia-se na
filosofia da histria de Hegel, segundo a qual todos os povos do mundo se
dividem entre os que exercem uma ao histrica, sendo capazes de criar, e
os que, fora da histria, passivos, incapazes de criar, esperam ser guiados pelos
povos ativos. Esta concepo errnea pode ser encontrada, atualmente, com algumas
variaes, nos trabalhos de historiadores como J. Gray36, G. Mathew37, R. Oliver38 e
G. S. P. Freeman-Grenville39, ou nos de arquelogos como J. S. Kirkman40, para citar
apenas nomes ligados  historiografia da frica oriental.
    A outra concepo, desenvolvida no Ocidente pelo arquelogo G. N. Chittick41 e
na Unio Sovitica por V. M. Misiugin42, ainda  objeto de estudos complementa-
res. Aproxima-se, alis, do ponto de vista de historiadores africanos, como Joseph
Ki-Zerbo43 e Cheikh Anta Diop44. Baseia-se na hiptese de uma participao
ativa e dirigente dos africanos em sua prpria histria. Afirma, fundamentando-se
em pesquisas srias e objetivas, que as dinastias dos principados urbanos so de
origem incontestavelmente africana.


35    STRANDES, 1899.
36    GRAY, J. M., 1962, p. 622.
37    MATHEW, 1953 e 1956.
38    OLIVER & MATHEW, 1963; OLIVER, 1962.
39    FREEMAN-GRENVILLE, 1958 e 1962a.
40    KIRKMAN, 1954b.
41    CHITTICK, 1974.
42    MISIUGIN, 1966.
43    KI-ZERBO, 1972, p. 10-2, 190-2.
44    DIOP, 1955, p. 19.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                                535



     O sistema de transmisso de poder
    V. M. Misiugin pesquisou a Crnica da cidade de Pate, demonstrando que
l existia, antes do advento da Dinastia Nabkhani, um Estado dirigido pelos
Wapate, antiga aristocracia que gozava do privilgio do poder real e portava o
ttulo de mfalme.
     Em virtude das regras jurdicas consagradas pela tradio para o ttulo e a funo de
     mfalme, a dinastia reinante de Pate devia conservar, como necessidade de sobrevivncia,
     um sistema de diviso em grupos por grau de parentesco. Nesse sistema os homens
     do cl Wapate que portavam e transmitiam o ttulo de mjalme pertenciam ao mesmo
     grupo de idade [ mesma gerao]  o ndugu. Nestas condies, o ttulo de mfalme era
     transmitido, no de um indivduo para o outro, mas de uma gerao a outra, ou seja,
     a todo o ndugu. Como os Wapate eram uma aristocracia fechada, o ndugu devia ser
     bastante restrito, mas contava alguns indivduos. O ttulo de mfalme no era vitalcio;
     passava de um indivduo a outro do ndugu,  medida que cada um atingia a maioridade.
     Um homem atingia formalmente a maioridade ao se casar. Em razo do carter
     fechado do cl aristocrtico, os homens casavam com mulheres do mesmo cl, que, por
     sua vez, faziam parte do ndugu da mesma gerao. A transmisso do ttulo de mfalme
     ocorria durante a cerimnia do casamento.
     De acordo com a tradio, todos os Wapate portavam, por certo tempo, o ttulo de
     mfalme, que conferia o poder supremo. Os homens, ento, deviam desempenhar as
     funes ligadas ao ttulo, enquanto as mulheres eram depositrias deste poder.
     Assim, Sulaymn, fundador da dinastia nabkhani, recebeu o ttulo de prncipe, con-
     forme a tradio, por ter esposado uma mulher al-Bataviyuni [Wapate]. O ttulo de
     prncipe foi-lhe conferido, no porque sua esposa fosse filha do prncipe da poca  o
     que era uma circunstncia fortuita , mas porque ela pertencia ao ndugu da gerao
     seguinte45.
   No se pode, no entanto, pela sobrevivncia da regra do ndugu, concluir que
a sociedade swahili permaneceu no estado clnico:
     A regra do ndugu significa, originariamente, que, em determinada poca, os Wapate,
     que tinham preponderncia econmica sobre os outros cls, reservaram para si um
     elemento do sistema de relaes de parentesco, privando, no mesmo ato, os outros
     do direito ao poder supremo46.



45   MISIUNGIN, 1966, p. 61.
46   Ibid., p. 63.
536                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



    Consequentemente, o advento de Sulaymn, fundador da Dinastia Nabkhani, e o
fato de ter chegado ao poder pelo casamento testemunham a antiguidade da diviso
social em classes entre as populaes do litoral. No entanto Sulaymn no pertencia
ao grupo de prncipes Wapate; s era ligado ao cl por sua mulher, atravs da qual
havia recebido o ttulo. Dessa forma, o grupo de prncipes corria o risco de perder o
direito ao ttulo, j que pelo regulamento do ngudu, este deveria ser transmitido aos
irmos do marido, que poderiam no ser casados com mulheres wapate. A esposa do
prncipe, que pertencia ao cl Wapate, tornava-se, ento, depositria do direito abs-
trato ao ttulo de prncipe, cuja funo efetiva era desempenhada pelo marido. Assim,
as origens do marido no tinham muita importncia; o essencial era que se tornara
parte do sistema existente, prprio do litoral africano e originariamente africano.
    Tentamos aplicar estes princpios de pesquisa ao estudo da Crnica de Kilwa,
e, ao que parece, a regra do ngudu tambm comandou o modo de transmisso
do poder nesta cidade. Isso fica mais claro particularmente na passagem do
primeiro captulo, onde  mencionado Muhammad Ibn `Al, primeiro prncipe
reinante, sucedido por seu terceiro irmo, Baskht Ibn `Al, e depois pelo filho
deste ltimo, `Al (Ibn Baskht), que, segundo a Crnica, se apropriou do poder
em detrimento dos tios paternos, Sulaymn, al-Hasan e Dwd.  clara a aluso
 regra de sucesso, que foi transgredida: o poder no deveria ter sido entregue
a `Al Ibn Baskht, mas sim aos tios.
    Indicao anloga pode ser encontrada no terceiro captulo da Crnica, que
trata dos respectivos direitos dos irmos al-Hasan Ibn Sulaymn al-Matn
e Dwd ao ttulo de sulto. Dwd, nas funes de sulto, considerava-se
representante do irmo durante sua ausncia e reconhecia que deveria a ele se
submeter, caso voltasse. Essa observao nos parece ainda mais interessante pelo
fato de os dois irmos pertencerem  dinastia Ab al-Mawhib, originria do
Imen e  qual se atribui o florescimento da civilizao de Kilwa.
     tambm interessante observar que a Crnica de Kilwa (em sua variante
swahili), como a Crnica de Pate, relata que o primeiro sulto da cidade era um
persa que esposou a filha do chefe local.
    Pode-se concluir, pela adoo da regra do ngudu como modo de transmisso
do poder, que a organizao estatal nas cidades africanas era de origem local, assim
como a regra do ndugu era uma instituio social de origem puramente africana.
    A ascenso ao poder atravs do casamento com a filha do chefe local no 
fenmeno exclusivo de Pate e Kilwa; G. S. P. Freeman-Grenville cita em sua
obra muitos outros casos idnticos. Parece, ento, possvel admitir a hiptese de
que a mesma situao de Pate predominou em todo o litoral, sob o aparente
domnio do Isl, de seus costumes e regras.
O desenvolvimento da civilizao swahili                                              537



     O Isl e a ideologia do poder
   A influncia do Isl estava ligada ao papel cada vez mais importante das
camadas sociais swahili enriquecidas pelo comrcio. A situao destas camadas
sociais parece ter-se tornado to boa que a velha aristocracia tambm tentou
reforar sua posio atravs do Isl, principalmente por alianas matrimoniais
com muulmanos ricos, que, por sua vez, para se igualarem aos aristocratas
locais, tendiam a dizer-se de descendncia rabe, s vezes at de famlias rabes
ou persas clebres na histria dos pases muulmanos.
     Assim, os antigos mitos swahili que narram a chegada de grupos muulmanos, mais
     ou menos numerosos, s cidades da frica oriental nos sculos VII e VIII e, depois,
     nos sculos IX e X, so substitudos pelos relatos da chegada, provenientes da Arbia
     e da Prsia, dos fundadores das dinastias reinantes em muitas cidades swahili e da
     fundao destas cidades por rabes e persas47
    Tais mitos no so fenmenos isolados, podendo-se encontrar muitos deles
no Kitb al-Zandj48, bem como em outras pocas e outros lugares, dentro e fora
da frica. Sem dvida, em virtude de um mito do gnero, a dinastia etope ainda
hoje afirma descender do rei Salomo e da rainha de Sab. No Sudo oriental,
os povos africanos atribuem sua origem a "tribos" rabes que teriam surgido na
frica. A fundao do Estado do Kanem  atribuda a seu primeiro rei, Sefe, que
a tradio identifica com o rei iemenita Sayf Dhu Yazan. A famlia dos Keita,
que governa o Mali, remonta suas origens aos parentes do profeta Maom. At
na Nigria subsiste um mito segundo o qual os ancestrais dos Yoruba seriam
cananeus vindos da Sria e da Palestina. Como se pode observar, esses mitos
sempre atribuem a origem de povos inteiros, a fundao de Estados, a instalao
de dinastias reinantes a estrangeiros de raa branca, que teriam chegado  frica
em pocas remotas, e nunca a fatores ou acontecimentos puramente africanos.
Trata-se evidentemente de fenmeno de ordem geral que caracteriza, em alguns
casos, as sociedades no momento em que se transformavam em sociedades de
classes.
    Outra evidncia indireta desse fenmeno  fornecida por pesquisadores,
como A. H. J. Prins49, que d exemplos de grupos que se pretendem de origem
rabe ou shirazi, quando no h dvida sobre sua origem africana.


47 Ibid., p. 67.
48   CERULLI, 1957.
49   PRINS, 1961, p. 11-2.
538                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      Concluso
    Parece que a civilizao da frica oriental, a civilizao swahili, foi fruto do
desenvolvimento comercial. O comrcio, expandindo-se, permitiu seu cresci-
mento e progresso; mas foi tambm seu ponto fraco, pois no estava ligado ao
desenvolvimento das foras produtivas da regio. Ao se estudar o nvel de ocupa-
o da populao, constata-se que a sociedade swahili permaneceu no estgio de
desenvolvimento das foras produtivas em que sem dvida se encontrava antes
da expanso de suas atividades comerciais, o que se evidencia pela raridade de
utenslios de ferro ou outros metais exumados pelas escavaes. Quase todos
os bens produzidos ou obtidos pela sociedade swahili  tanto os produtos de
caa quanto o ouro ou o ferro  no se destinavam ao consumo interno, mas
 exportao. Ora, o comrcio por si s era insuficiente para assegurar a base
dessa civilizao e seu desenvolvimento. Bastava que as rotas comerciais fos-
sem interditadas, os circuitos comerciais interrompidos para, com a runa do
comrcio, essa civilizao perder seus elementos fundamentais. Como se sabe,
foi exatamente o que aconteceu com as cidades da frica oriental.
    Avalia-se serem vrias as circunstncias que contriburam para a decadncia
da sociedade swahili. A invaso dos Zimba e, parece, a diminuio das chuvas,
com a consequente modificao no regime das guas constituram obstculo ao
desenvolvimento das cidades do litoral. Mas a causa principal da decadncia,
no nosso entender, foi a destruio do comrcio martimo pelos portugueses.
Bem armados, equipados com artilharia e concebidos para a guerra martima, os
navios portugueses representavam uma fora invencvel. Sua constante presena
na regio sob o comando de Rui Loureno Ravasco, a captura de vinte navios
carregados de mercadorias, a destruio de numerosas embarcaes da flotilha
de Zanzibar, a pilhagem e destruio de cidades litorneas da frica oriental,
principalmente de Kilwa, foram golpes dos quais o comrcio martimo da regio
jamais se recuperou e sob os quais tambm pereceu a civilizao swahili.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                                539



                                      CAPTULO 19


           Entre a costa e os Grandes Lagos
                                        Christopher Ehret




   No incio do sculo XII da era crist, a caracterstica dos caminhos percorri-
dos at ento pela evoluo histrica no interior da frica oriental parece uma
surpreendente correlao entre ecologia e etnicidade. Ainda pouco numerosas,
apesar das importantes migraes bantu para a frica oriental durante o pri-
meiro milnio da era crist, as sociedades de lngua bantu concentravam-se, em
sua quase totalidade, nas regies mais chuvosas, onde as precipitaes alcan-
avam, no mnimo, 900 a 1 000 mm por ano1. Pode-se deduzir que, embora a
maioria dos Bantu da frica oriental tenha adotado o cultivo de cereais e com
frequncia a criao de vrios tipos de gado durante o primeiro milnio2, suas
comunidades ainda davam prioridade s tradies agrcolas baseadas no cultivo
de razes e tubrculos, introduzidas pelos primeiros imigrantes do grupo. Em
compensao, nas plancies e planaltos do interior das atuais Repblica do Qu-
nia e Repblica Unida da Tanznia, dominava a agricultura mista praticada na
frica oriental, que associava o cultivo de cereais  pecuria extensiva. Em todo
o cinturo setentrional dessa zona de solos, em geral, mais secos, a maioria das



1    Os agrupamentos, as posies e a histria da cultura bantu deste estudo baseiam-se sobretudo em dados
     e concluses das seguintes obras: NURSE, 1974; NURSE & PHILLIPSON, 1974; HINNEBUSCH,
     1973; EHRET, s.d.
2    EHRET, 1974a.
540                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



sociedades falava lnguas nilticas, enquanto os cuxitas meridionais eram os mais
numerosos nas terras situadas ao sul3.


      O interior da costa da frica oriental
    No interior imediato da costa da frica oriental, podem-se identificar trs
grupos bantu principais: os Sabaki, os Seuta e os Ruvu.
    A lngua sabaki comportava trs dialetos, utilizados numa estreita faixa de
terra mais recuada da costa do Qunia. O miji-kenda, dialeto ancestral, era
falado ao sul do rio Tana, provavelmente no interior imediato e no sul de Mom-
baa, e de l at o extremo nordeste do territrio da atual Repblica Unida
da Tanznia. Perto da desembocadura do Tana e possivelmente tambm no
interior do territrio lamu, pode-se situar a comunidade que falava o dialeto
protokipokomo do sabaki4. O terceiro dialeto, ligado ao protokiswahili, j se
manifestara nos centros comerciais da costa propriamente dita5.
    Como a faixa litornea d acesso ao interior, mais seco, do Qunia oriental,
as comunidades sabaki deram lugar a povos cujos modos de subsistncia eram
completamente diferentes. Ao norte do Tana, encontravam-se pastores que fala-
vam uma forma antiga do somali. Ao longo e ao sul desse rio, pode-se localizar
os nilotas meridionais, cuja economia tambm era pastoril6. Um importante trao
cultural sabaki, que pode ser resultado da interao dos Bantu com essas popu-
laes do interior,  o sistema de classes etrias dos Miji-Kenda e Pokomo. Em
geral, acreditava-se que o sistema era de origem galla e que se havia difundido
no sculo XVII; no entanto  certo que entre os Pokomo os conceitos nilotas
meridionais continham os primeiros elementos das classes etrias. Portanto as
influncias que resultaram nessa instituio devem ser situadas antes de 1600.
    Os pastores do interior e os Bantu do litoral coabitaram com povos que ainda
praticavam a coleta e a caa; com algumas variaes, esta situao perdurou at
nossos dias. Ao norte do Tana, os Boni de hoje, que falam um dialeto do somali,
claramente distinto, podem ser considerados caadores-coletores que embora
tenham adotado a lngua somali dos pastores, que dominavam a regio h pelo


3     EHRET, 1974b, cap. 2.
4     Ibid., quadro 2-1; as palavras de emprstimo ali so atribudas  lngua kinyika (miji-kenda) mas provm
      do protokipokomo.
5     Ver captulo 18 deste volume.
6     EHRET, 1974b, v. 2, cap. 2 e 4.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                 541



menos um milnio, mantiveram seu modo de subsistncia7. No interior do ter-
ritrio lamu, o vocabulrio dos Dahalo, caadores-coletores de lngua cuxtica
meridional, mostra atravs da evidncia de emprstimos de palavras suas relaes
constantes, mas que no chegavam a ameaar sua integridade, com os Pokomo
e Swahili predominantes na regio durante muitos sculos, relaes estas que
remontam, pelo menos, ao incio do primeiro milnio.
      O segundo grupo bantu, ou Seuta, vivia ao sul das primeiras comunidades
sabaki, atrs da costa noroeste da atual Tanznia, numa rea situada aproximada-
mente entre o Wami e o baixo Pangani. Os Protosseuta do ano 1100 j haviam
acrescentado plantas de origem indonsia  inclusive inhame, taro e banana  s
suas tradies agrcolas africanas mais antigas. Esse tipo de desenvolvimento
agrcola provavelmente tambm foi adotado por Sabaki contemporneos. No 
certo, no entanto, que o cultivo intensivo da banana, como encontrado entre os
Shambaa das regies montanhosas, ltimos descendentes dos Protosseuta, ainda
no fosse praticado. No decorrer dos cinco sculos seguintes, o agrupamento
seuta original dividiu-se em trs grupos de comunidades. O dialeto kishambaa
surgiu no noroeste da rea seuta entre os migrantes que avanavam pelo meio
montanhoso dos Usambara. O protozigula-ngula apareceu em meados do mil-
nio como dialeto das comunidades ceuta que subiram o rio Warni em direo
aos montes Ngulu, enquanto no centro dos primeiros estabelecimentos seuta
falava-se uma forma antiga do dialeto hoje conhecido como bondei.
    Assim como na Repblica do Qunia, a faixa costeira bastante chuvosa do
nordeste da Tanznia d acesso a um interior cada vez mais rido. Desde a era
proto-seuta, e provavelmente no perodo de 1100 a 1600, as comunidades seuta
foram vizinhas prximas dos cuxitas meridionais que falavam uma lngua mbu-
guan. Sendo provvel que os Mbuguan, a princpio, se dedicaram  criao de
gado e posteriormente ao cultivo de cereais, parece conveniente situ-los nas por-
es orientais do atual territrio seuta, entre as estepes massai e a faixa costeira.
    Na bacia do Wami, ao sul dos Seuta, viviam os Bantu Ruvu. No sculo
XII, eles constituam dois grupos de comunidades, cada qual com seu prprio
sistema agrcola. Pode-se dizer que as comunidades ruvu orientais, que deram
origem aos atuais Wakutu, Wakwele, Wadoe, Wazaramo, Wakarni e Waluguru,
concentravam-se nas baixadas mais midas recuadas da costa. Consequentemente
devem ter praticado a agricultura mista afro-indonsia, combinao de plantaes que
se atribuiu, mais ao norte, a seus vizinhos Bantu. Os Ruvu ocidentais, cujos dialetos


7    Ver FLEMING, 1964.
542                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



deram origem s modernas lnguas chikagulu e chigogo, devem ter se afastado
desse quadro no decorrer de sua expanso para o oeste, em direo s nascen-
tes do Wami. Diferem quanto aos mtodos de alimentao, por priorizarem o
cultivo de gros e a criao de gado. Tambm  possvel que difiram quanto
aos mtodos de cultivo em consequncia das relaes com os grupos cuxitas
meridionais que j viviam na regio, embora esta hiptese ainda no tenha sido
comprovada. Os cuxitas, que mantiveram relaes com as primeiras comunida-
des ruvu ocidentais, parecem ter constitudo o prolongamento meridional dos
Mbuguan, vizinhos dos Protosseuta.


      Do lago Niassa ao lago Vitria
    No incio do sculo XII uma segunda e importante regio de povoamento
bantu se estendia ao longo da borda meridional da frica oriental, prxima do
extremo norte do lago Niassa (Malavi). Na regio montanhosa da ponta nor-
deste do lago  possvel localizar a sociedade protonjombe. A lngua njombe
 a ancestral dos idiomas modernos ekikinga, kihehe, ekibena e sango. Outra
comunidade bantu que falava uma forma antiga do ikinyakyusa vivia a oeste
dos Njombe, muito provavelmente na mesma regio dos atuais Wanyakyusa.
A noroeste de seu territrio, ao longo do corredor montanhoso entre os lagos
Tanganica e Niassa, dois outros povos bantu falavam dialetos divergentes da
lngua comum ao corredor; prximos dos antigos Wanjombe e dos Wanyakyusa
situavam-se os Protonyiha, e, a oeste destes, os Protolapwa. No extremo sudeste
dessa regio de populaes bantu, os Protossonge e os primeiros Wapogoro
eram, respectivamente, os vizinhos meridionais e orientais dos Njombe, enquanto
os grupos que falavam lnguas que originaram o chiyao, o chimakonde e o chimwera
espalhavam-se ao longo e a leste do rio Ruvuma, provavelmente at o litoral do
oceano ndico8.
    Toda a regio da extremidade setentrional do lago Niassa foi, ao mesmo
tempo, o ponto de partida de importantes movimentos de expanso bantu e a
rea onde ocorreram, entre 1100 e 1600, migraes internas considerveis. Na
parte ocidental do corredor, as comunidades Lapwa atravessaram, em meados


8     As semelhanas que aparecem no vocabulrio essencial das lnguas songe, calculadas a partir da lista
      utilizada por D. Nurse e D. W. Phillipson (1974) so de mais ou menos 70%. A comparao com as
      datas adotadas por esses autores sugere que a diferenciao no songe comeou h cerca de mil anos. A
      porcentagem de semelhanas entre as lnguas chiyao, chimakonde e chipogoro e entre essas lnguas e o
      songe  menor, o que leva a pensar que j existiam diferenciaes desde o incio do sculo XII.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                                    543



desse perodo, uma era de expanso que permitiu  lngua lapwa espalhar-se alm
dos limites de seu atual territrio, e que levou  diviso do lapwa em seus trs
dialetos modernos: o kinyamwanga, o kimambwe e o ichifipa. O testemunho de
numerosos vestgios permite imaginar que a expanso das populaes de lngua
lapwa deve-se, em parte, ao fato de elas terem absorvido um povo do Sudo central,
na regio interlacustre9. Mas as migraes mais importantes foram as dos Songe
orientais, que se estabeleceram por toda a extenso das baixadas ridas (com pre-
cipitaes anuais inferiores a 1 000 mm), compreendidas entre o rio Rufiji e a
zona mais mida do rio Ruvuma. Entre seus descendentes esto os Matumbi,
os Ndengereko, os Ngindo e os Wabunga. Sua habilidade em se estabelecer
em reas contguas s terras de cultivo bantu e imprprias para a criao de
gado mostra que, j em sua agricultura dos sculos XI e XII, os Protossonge
orientais davam prioridade aos cereais e outros gros. A rapidez de seu avano
e a densidade extremamente baixa de sua populao atual parecem sugerir que
apenas os grupos de caadores-coletores precederam-nos na maior parte das
terras baixas ao sul do Rufiji.
    No entanto os mais importantes movimentos internos de populao ocorre-
ram na rea njombe. Os primeiros Wakinga penetraram, ao sul, em territrios
antes pertencentes aos Songe, enquanto um importante componente njombe
era absorvido pela sociedade protonyiha. Em seguida, no sculo XVI, as duas
principais estirpes de prncipes dos Wanyakyusa e a casa reinante dos Ngonde
de lngua ikinyakyusa foram constitudas pelos imigrantes Wakinga10. Tambm
no final desse perodo, a regio do corredor comeou a receber imigrantes Bantu
vindos de outras partes, principalmente do oeste e do sudoeste. Embora todos os
Bantu da regio houvessem conservado por muito tempo alguns princpios de
autoridade, a unidade poltica local mostrava-se extremamente reduzida e rela-
tivamente instvel.  possvel que os prncipes Wanyakyusa, descritos por S. R.
Charsley11 tenham sido o prottipo dos primeiros chefes da regio do corredor.
Os imigrantes do oeste e do sudoeste parecem ter rompido frequentemente o
sistema de relaes entre as comunidades e assim precipitado a formao de
principados maiores, cujos postos-chave eram assumidos por seus lderes. Dessa
forma criou-se, no sculo XVI, a autoridade nyamwanga, mas, de modo geral,




9    Para conhecimento dos vrios indcios e provas lingusticas dessa absoro, ver EHRET, 1973.
10   Ver a este respeito WILSON, M., 1959a, cap. 1.
11   CHARSLEY, 1969.
544                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



somente a partir do sculo XVII os fatores provenientes do oeste e do sudoeste
tiveram importncia maior12.
    No incio deste milnio uma terceira zona de contnua colonizao bantu
situava-se s margens orientais do lago Vitria. No sculo XII, encontravam-se
comunidades bantu no sudeste do lago Vitria, desde Mara, ao sul, at o golfo
de Kavirondo, ao norte. Ao longo das margens setentrionais do golfo, formando
um arco a noroeste que acompanhava o limite oriental dos Basoga, localizava-se
o mosaico de comunidades de lngua bantu protonordeste-Vitria. Os Bantu do
sudeste do Elgon, ramo destacado do grupo precedente, habitavam a regio situada
ao sul e a sudeste do monte Elgon. Na margem norte do lago, o territrio dos Bantu
do nordeste do Vitria confundia-se com as regies de lngua bantu lacustre.
    Apesar de sua contiguidade ao norte com os Bantu lacustres, as sociedades
situadas no leste do lago Vitria eram sensivelmente diferentes das sociedades
lacustres, diferena esta que refletia muitos sculos de interao e aculturao
entre as populaes bantu e no bantu nas margens orientais do lago Vitria.
Por volta de 1100, todos os Bantu do leste do Vitria praticavam a circunciso
dos meninos e, a sudeste do lago, como parecem sugerir os dados etnogrficos
correspondentes, praticava-se tambm a exciso feminina. Os Bantu lacustres
desconheciam estes dois costumes, que, entretanto, eram prtica normal entre os
cuxitas e nilotas meridionais, vizinhos dos Bantu do leste do Vitria. Alm disso,
as sociedades do leste do Vitria parecem ter-se organizado em pequenas unida-
des locais baseadas no cl ou em grupos de linhagem. Como entre seus vizinhos
no bantu, no existia autoridade, enquanto era regra nas sociedades lacustres
contemporneas a instituio de chefes e monarcas, forma de liderana que pode
ser considerada um dos princpios mais antigos da organizao bantu13.
    Para as comunidades do sudeste do Vitria, limitadas de um lado pelo lago,
os nilotas e os cuxitas do outro flanco constituram obrigatoriamente um fator
contnuo na histria de sua cultura, do sculo XII ao XVII. Para os povos que
falavam o mara, originrio da lngua utilizada no sudeste do Vitria, o cresci-
mento da populao pela absoro dos antigos nilotas meridionais constituiu
uma evoluo particularmente notvel. Esse processo  principalmente entre os
ancestrais dos Kuria, dos Zanake, dos Ikoma contemporneos e outros  aca-
bou por transplantar o sistema cclico de classes etrias dos nilotas meridionais
para a antiga organizao social e poltica, baseada em cls, caracterstica do
sudeste do Vitria. Com a fuso dos Bantu e dos nilotas meridionais numa

12    BROCK, 1968.
13    Cf. VANSINA, 1971.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                               545



nica sociedade, produziu-se a fuso de ideias sobre estrutura social, tomadas
respectivamente das duas fontes, apesar de o mara ter predominado como lngua
do amlgama14. No subgrupo Musoma das comunidades do sudeste do Vitria,
foram atestados tambm claros contatos com os nilotas meridionais15, mas ainda
no h evidncias de que esses contatos tenham exercido o mesmo impacto
sobre a evoluo cultural. No que se refere ao ramo Gusii do subgrupo Mara, no
foram os nilotas meridionais, mas, ao contrrio, os cuxitas do planalto meridional
que sofreram o impacto mais marcante. A primeira comunidade de lngua gusii
desenvolveu-se, aparentemente, absorvendo os povos do planalto, sem nunca ter
adotado o sistema de classes etrias dos nilotas meridionais, como o fizeram as
outras comunidades Mara16. A partir de 1600, mesmo durante os perodos de
relaes estreitas entre os Gusii e os Kipsigi, povo nilota meridional, a adoo
da identidade gusii implicava a manuteno do tipo local de organizao comu-
nitria, que se estabelecera antes de 1600.
    Durante o mesmo perodo, de 1100 a 1600, as sociedades do nordeste do
Vitria foram envolvidas num sistema de contatos culturais os mais variados. A
oeste de seu territrio, os imigrantes Bantu lacustres parecem ter influenciado,
em graus diversos, os costumes sociais e a diviso tnica. Assim, o declnio da
circunciso e de sistemas no cclicos de classes etrias entre os Baluyia pode ser
atribudo ao movimento peridico, fora das regies de lnguas lacustres, das socie-
dades que ignoravam estes conceitos. Da mesma forma, nas encostas ocidentais
do monte Elgon, os Itung'a, que habitavam anteriormente a regio, foram pouco
a pouco substitudos, entre 1100 e 1600, em parte por populaes de lngua gisu
do nordeste do Vitria, mas tambm por uma segunda sociedade bantu, os Syan,
que se aglutinavam em torno dos imigrantes vindos do Busoga ou do Buganda
atuais. Inversamente, as evidncias lingusticas parecem demonstrar que os imi-
grantes do nordeste do Vitria disseminaram-se, em grande nmero, entre os
Busoga e durante o mesmo perodo. Pode-se sustentar com pertinncia que o
perodo do heri legendrio Kintu na histria oral dos Busoga e dos Buganda
representa importante instalao de populaes vindas do nordeste do Vitria,
que talvez remonte ao sculo XIV17, o que explicaria as evidncias lingusticas.
Parece impossvel pr-se em dvida a tradio segundo a qual as aes de Kintu
introduziram a banana no Buganda e no Busoga, se se entender que se trata,


14   EHRET, 1971, cap. 5.
15   Ibid., apndice D4.
16   EHRET, 1974b, cap. 2, pto. 6.
17   COHEN, D. W., 1972.
546                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



no da introduo primeira da banana, mas de um tipo de cultivo e de utilizao
intensivos da fruta, j praticados, na poca, nos arredores do monte Elgon.
   No entanto, entre as comunidades setentrionais e orientais do mosaico do
nordeste do Vitria, predominaram os contatos com os nilotas. O ponto de
encontro das ideias dos Itung'a do oeste do Elgon e dos nilotas meridionais de
Kitoki, que viveram ao sul do monte Elgon durante a maior parte do perodo
estudado, contribuiu para a importncia maior dada ao gado no repertrio
de subsistncia protogisu. Muito tardiamente nesta poca, do sculo XVI em
diante, o encontro dos nilotas meridionais de lngua luyia e kalenjin, nos vales
escarpados de Nandi, resultou na formao de comunidades de lngua bantu que
conservaram os princpios mais antigos da estrutura social e poltica baseada
no cl, aos quais vieram se acrescentar os sistemas cclicos de classes etrias de
origem kalenjin. Outra expanso bem tardia foi a entrada de imigrantes luo na
extremidade meridional da regio, nas proximidades do golfo de Kavirondo, no
sculo XVI. Quase insignificantes a princpio, os Luo rapidamente ganhariam
grande importncia nos sculos seguintes.


      Nas zonas do interior do Qunia e da Tanznia
    Enquanto no interior do Qunia e da Tanznia a maioria das comunidades Bantu
havia se estabelecido em regies com precipitaes anuais de mais de 1 000 mm, no
sculo XI algumas delas j comeavam a se adaptar a climas mais secos. Eram,
entre outras, os Ruvu ocidentais, j mencionados, e talvez tambm um grupo de
comunidades de lngua prototakama da Tanznia ocidental. Com relao  geo-
grafia lingustica das lnguas takama modernas  nyaturu, kimyiramba, kinyamwezi-
-kisukuma e kikimbu  cabe melhor a hiptese de um ncleo prototakama na
margem ocidental do rio Wembere, regio com precipitaes anuais de 600
a 1 000 mm. Se, em certas partes do territrio era possvel cultivar algumas plantas
africanas mais antigas, parece que dificilmente elas poderiam garantir colheitas
regulares, e, portanto, tambm os Prototakama devem ter preferido os cereais
que permitissem maior regularidade de subsistncia.
    Vrias sociedades nilotas e cuxitas meridionais predominaram no sculo XII
no restante do interior do Qunia e da Tanznia, misturando-se com algumas
concentraes isoladas de Bantu. Tanto os nilotas quanto os cuxitas foram atrados
pela criao de gado, mas seria erro consider-los pastores desinteressados do tra-
balho agrcola. De fato, se se fizer uma avaliao com base nas prticas usuais
em sociedades anlogas, mais modernas,  provvel que o cultivo de gros, na
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                               547



maioria dos casos, constitusse o principal meio de subsistncia. No entanto, em
determinadas regies de poucas precipitaes ou com chuvas mal distribudas,
como a estepe dos Massai e vastas reas do nordeste do Qunia,  possvel que
a agricultura tenha sido completamente ou quase completamente suplantada
pela criao de gado.
    O contraste mais marcante com a situao atual reside na importncia e na
expanso das populaes cuxitas meridionais, entre as quais os povos do Rift
Valley oriental, de longe, os mais numerosos. No primeiro milnio da era crist,
no apogeu de sua importncia, as sociedades do Rift Valley oriental dominavam
a vasta regio que se estendia, ao sul, do Kilimandjaro e dos montes Pare ao
territrio dodoma, na atual Tanznia. Criavam gado bovino, ovino e caprino; sua
cultura principal era o milhete-do-mangue, acompanhado do sorgo e, quando
as chuvas permitiam, de Eleusine. Por volta de 1100, a homogeneidade contnua
das terras do Rift oriental foi rompida pela expanso dos Dago (Dadio) e dos
Ongamo, populaes nilotas.
    No centro da Massailndia, apesar da hegemonia dago na regio, a pequena
comunidade dos Asax18 conseguiu se manter com a caa e a coleta, que ainda pra-
ticavam. Com um tipo de economia radicalmente diferente, os caadores-coletores
tinham condies de coexistir socialmente com a populao que dominava anterior-
mente o Rift oriental, mesmo aps terem adotado a lngua do Rift. Enquanto os
pastores do Rift foram expulsos ou absorvidos pelos Dago, os Asax conseguiram
sobreviver como unidade social independente e continuaram a falar sua prpria
lngua, o cuxtico.
    Ao sul da Massailndia central, duas importantes sociedades do Rift oriental
mantiveram a prtica da pecuria e do cultivo de gros, como seus ancestrais
do primeiro milnio. Uma delas, os Kw'adza19, era descendente direta da antiga
sociedade do Rift oriental que predominava na Massailndia, e falava uma lngua
prxima do asax. Seu territrio compreendia partes das reas massai meridionais,
mpwapwa e dodoma na Tanznia 20. A outra, que eventualmente podemos cha-
mar Iringa-cuxita meridional, possua territrios de extenso indeterminada, mas
parece ter sido a vizinha meridional dos Kw'adza e ter-se estendido o bastante
para o sul e em nmero suficiente para ter tido significativa influncia sobre os
Protonjombe por volta do ano 1100 e ter sido um elemento notvel na formao
dos Hehe (Wahehe), Bena (Wabena) e Sango nos sculos seguintes.

18   Em obras e estudos anteriores os Asax so referidos como Aramanik.
19   Esta forma parece ser a transcrio correta. De qualquer modo,  prefervel a "Qwadza".
20   EHRET, 1974b, v. 4, cap. 2.
548                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



    Aps 1100, a aridez dos territrios kw'adza e iringa por muitos sculos con-
tinuou sendo um entrave  expanso bantu. Paralelamente ao seu crescimento
em nmero, seja pela absoro das populaes cuxitas meridionais preexistentes,
seja devido aos intercmbios comerciais, as comunidades bantu substituram
seus antigos mtodos agrcolas por uma agricultura mista do mesmo tipo que
a dos Iringa e dos Kw'adza. Entre aqueles agrupamentos bantu destacam-se
as comunidades dos Njombe das regies montanhosas do sul da Tanznia, dos
Ruvu ocidentais do territrio de Kilosa e vrias comunidades dos Takama situ-
adas a oeste dos Kw'adza. No sculo XVI, iniciaram-se importantes movimen-
tos de expanso dos Bantu a partir dessas trs zonas diferentes. Nos planaltos
meridionais, as comunidades do Rift oriental recuaram no somente com o
primeiro avano dos imigrantes njombe, que falavam o dialeto ekibena-kihehe
ancestral, mas tambm sob a presso de migrantes ruvu vindos do oeste, embora
este movimento no parea ter sido anterior a 1600.
    No territrio dodoma, os Kw'adza comearam a se sentir pressionados simul-
taneamente pelas trs direes. Introduzida pelos imigrantes ruvu orientais, a
lngua chigogo acabou se impondo, mas os vestgios do vocabulrio chigogo21,
assim como da tradio histrica gogo, aludem a expanses da populao do
Uhehe para o sul e do territrio takama para o oeste, suficientes, afinal, para
submergir seus predecessores Kw'adza. Em 1600, porm, esse processo estava
comeando, e os Kw'adza continuariam a ser fator importante na histria da
Tanznia central.
    A disperso dos imigrantes takama em territrio dodoma foi apenas uma das
formas de expanso takama, muito mais importante na Tanznia ocidental, onde
comeou a partir do ano 1000. No decorrer dos primeiros sculos do milnio,
os estgios iniciais dessa disperso resultaram na diviso dos Prototakama em
trs grupos de comunidades. Falando uma lngua takama considerada ances-
tral do iramba e do nyaturu modernos, a sociedade wembere surgiu entre os
colonos takama dos planaltos ridos a leste do rio Wembere.  possvel que as
comunidades que falavam o kikimbu ancestral tenham comeado a se formar
logo ao sul do alto Wembere, enquanto os Protowanyamwezi-Wasukuma resi-
diam em algum lugar a noroeste da bacia do Wembere22. A existncia no atual
Usukuma de uma diversidade lingustica maior do que no Unyamwesi implica
que o territrio de origem dos Protowanyamwezi-Wasukuma seja a regio do


21    Ver RIGBY, 1969, principalmente cap. 2 e 3.
22    Quanto a esta tripartio dos Takama e suas modalidades, ver NURSE & PHILLIPSON, 1974.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                                          549



Usukuma23, e o grande nmero de palavras emprestadas do cuxtico meridional
encontradas no vocabulrio kinyamwezi-kisukuma mostra que a sociedade dos
Protowanyamwezi-Wasukuma nasceu em parte do amlgama dos falantes do
takama com povos cuxitas meridionais que anteriormente habitavam ao sul do
lago Vitria24. Por outro lado, existem poucos traos de influncia do cuxtico
meridional entre os falantes das lnguas protokiwembere e do kikimbu antigo, e
parece que os colonos Wawembere e Wakimbu penetraram em territrios antes
parcamente povoados por caadores-coletores. Assim, os Hatsa do lago Eyasi
parecem ser os ltimos elementos no assimilados destas primeiras comunida-
des. Seus vizinhos, os Sandawe, pertenceriam  mesma categoria, mas teriam
escapado  assimilao dedicando-se  vida agrcola.
   O perodo de 1100 a 1600 marca-se pela expanso e diferenciao contnuas
dos Takama. Muito cedo, os Wawembere comearam a desenvolver a separao
entre o norte e o sul que deu origem respectivamente s sociedades dos Iramba
e dos Nyaturu. No entanto as expanses mais importantes foram as das comu-
nidades dos Wanyamwezi-Wasukuma at que, por volta de 1600, as popula-
es que falavam dialetos da lngua kinyamwesi-kisukuma se espalharam ao sul
das margens do lago Vitria, quase alcanando a regio habitada pelos atuais
Ukimbu. Talvez, a partir de 1600, os imigrantes wakimbu tambm tenham
comeado a se infiltrar para o sul e sudoeste em direo aos territrios que
ocupam hoje. Foi no quadro destes ltimos episdios da expanso dos Takama
que certo nmero de colonos takama deslocou-se para leste e fundiu-se com
outros colonos bantu da regio do Dodoma.


     As regies montanhosas: Kilimandjaro e Qunia
    Ao norte da Massailndia central, nas encostas do Kilimandjaro, uma ou
vrias comunidades cuxitas meridionais do Rift Valley oriental continuaram
vivendo como no sculo XII, enquanto um ou dois grupos do mesmo Rift
oriental podem ser situados nos montes Taita25. Parece que o trao comum
a essas sociedades do Rift Valley oriental era a utilizao da irrigao e do
adubo na prtica de uma agricultura baseada principalmente em cereais. Esses

23   Devemos esta indicao mais precisa a D. Nurse (comunicao pessoal, jul. 1974).
24   Trata-se provavelmente dos cuxitas meridionais do Nyanza; ver EHRET, 1974b, v. 6, cap. 2.
25   Num estudo anterior, ns os descrevamos simplesmente como Rift; ver EHRET, 1974b, v. 4, cap. 2 e
     quadros 4-6, 4-7. Pesquisa indita sobre outros dados de vocabulrio mostrou-nos sua afiliao inequvoca
     ao Rift oriental.
550                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



dois aperfeioamentos foram responsveis pelos fundamentos essenciais de um
grande acontecimento na histria agrcola da frica oriental: o desenvolvimento
de uma agricultura intensiva, de altitude, em que a banana era o produto bsico.
As comunidades de lngua bantu, na medida em que assimilavam os cuxitas
meridionais, operaram com sucesso a fuso da tradio bantu de plantao com
os mtodos agrcolas cuxitas, a ela acrescentando a banana indonsia. No se
sabe com certeza onde e quando apareceu a nova tradio de altitude, mas no
incio do segundo milnio ela j criara razes nas pequenas comunidades bantu
do Kilimandjaro, do monte Qunia e dos montes Pare. A difuso ulterior da
tradio de altitude permitiu o incio da colonizao shambaa na cadeia dos
montes Usambara, em meados do milnio.  possvel que as comunidades dos
planaltos do Rift oriental se tenham familiarizado com alguns cultivos da tra-
dio de altitude, mas  provvel que s as tenham adotado realmente quando
de sua assimilao pelos Bantu em expanso nas terras altas.
    No sculo XII, os grupos da rea montanhosa do Rift Valley oriental foram
confinados s terras altas devido  expanso dos Ongamo pelas plancies de
Kaputie, ao norte do Kilimandjaro, nas bases meridionais da prpria montanha
e provavelmente tambm nos contrafortes da cadeia do Pare26. Os Ongamo
falavam uma lngua to prxima do protomassai dos arredores do monte Qu-
nia que as duas lnguas eram, na poca, igualmente compreensveis para os dois
povos que as utilizavam. Os emprstimos do vocabulrio ongamo s fontes que
tm em comum com o massai indicam que estes povos no somente criavam
gado, como tambm cultivavam a Eleusine e o sorgo. No entanto, se  possvel
que o controle exercido pelos Ongamo nas plancies tenha afastado as popula-
es do Rift oriental para as montanhas, a presso direta sobre as terras do Rift
era feita pelas pequenas comunidades bantu rechaadas para as montanhas.
     bem provvel que os Protochagga do sculo XII tenham se instalado nas
encostas sudeste do Kilimandjaro, embora tambm seja plausvel a existncia de
uma zona primria de colonizao nas proximidades, no norte do Pare. Esses
migrantes j dominavam a agricultura de altitude e, no ciclo de culturas, davam
prioridade  banana. Sustentaremos aqui que a imensa produtividade da tradio
de altitude foi o fator determinante da rpida expanso dos Chagga nos cinco
sculos seguintes, durante os quais assimilaram os Ongamo e as comunidades
do Rift oriental.




26    Ver EHRET, 1974b, quadro 8-2.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                              551



    As primeiras fases da disperso dos Chagga deram origem a quatro grupos
de comunidades. Trs deles estabeleceram-se no Kilimandjaro: os Wajagga oci-
dentais, na encosta sul da montanha; os Wajagga do centro, prximo do atual
Moshi; e os Rombo, na encosta leste. Por outro lado, os primeiros Gweno
apareceram no Pare setentrional, onde se encontram traos de uma populao
anterior do Rift oriental. O constante avano da colonizao chagga durante a
primeira metade do milnio favoreceu a diviso dos Chagga Rombo em vrias
comunidades isoladas na encosta oriental da montanha, enquanto, na mesma
poca, certo nmero de imigrantes wajagga ocidentais passava do Kilimandjaro
s encostas arborizadas do vizinho monte Meru. No sculo XVI, as comunidades
do Rift Valley oriental s predominaram no sudoeste, longe do Kilimandjaro,
como se pode notar pelos emprstimos de vocabulrio do cuxtico meridional no
dialeto siha dos Wajagga ocidentais27. Os Ongamo ainda eram numerosos nos
contrafortes orientais do Kilimandjaro, mas aparentemente no mais exerciam
influncia fora desta zona.
    Mais do que a do Kilimandjaro, a histria dos montes Taita entre 1100 e 1600
parece ter sido dominada por problemas de acomodao entre as populaes do
Rift oriental e os Bantu. As comunidades do Rift oriental precederam os Prototaita
nesta regio; continuaram sendo elemento importante da populao, mesmo aps sua
ciso em sociedades distintas, a Dawida e a Sagala, durante os primeiros sculos
do milnio. Mas a absoro definitiva das populaes do Rift oriental pelas
comunidades bantu dos montes Taita s pode ser situada com certeza em sculos
mais recentes. Um fator adicional de diviso, principalmente entre os Sagala, foi
a intruso de outros imigrantes bantu vindos de reas de lngua sabaki do litoral
e dos montes Pare. O elemento do litoral manifestou-se com tanta fora entre
os Sagala que sua lngua foi enriquecida por numerosos termos emprestados do
sabaki e, ainda mais curioso, sofreu mudanas fonticas, cujos traos podem ser
encontrados nas lnguas sabaki de parentesco mais distante, mas no na dawida,
bem mais prxima. O fator costeiro s comeou a afetar os montes Taita na poca
de declnio da influncia do Rift oriental, aparentemente no anterior ao sculo
XVI. Suas dimenses polticas e sociais manifestaram-se de forma mais evidente
em perodos posteriores, no estudados neste volume.
    O movimento dos grupos sabaki e sua implantao nos montes Taita foram
provavelmente alguns dos elementos da rede de imigraes em torno da qual se
cristalizou a identidade tnica dos Akamba, ao norte dos montes Taita, no Ukambani


27   Ver NURSE & PHILLIPSON, 1974.
552                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



do sculo XVI28. Mas no Ukambani os imigrantes do sul amalgamaram-se com
uma populao com antecedentes no monte Qunia e de lngua thagicu.
    Por volta de 1100, os ascendentes thagicu haviam formado um pequeno grupo
de comunidades bantu nas encostas meridionais do monte Qunia. Da mesma
forma que a sociedade protochagga contempornea, estavam comprimidos entre
os cuxitas meridionais, cuja lngua era, nessa regio, o kirinyaga29, e outras popu-
laes pastoris, no caso, os nilotas meridionais, estabelecidos nas plancies um
pouco abaixo. Os Protomassai viviam provavelmente a noroeste, alm das flo-
restas do monte Qunia; no parece, porm, que as populaes de lngua massai
tenham exercido influncia, antes de 1600, sobre as comunidades thagicu.
    Entre 1100 e 1600, as comunidades thagicu ampliaram seu territrio avan-
ando pela floresta e se espalhando largamente pelo sul da montanha. Na mesma
poca, o protothagicu original dividiu-se em muitos dialetos, que so os ances-
trais do kikuyu-embu, do chuka e do meru. Um desses dialetos apareceu entre os
imigrantes thagicu que se afastaram do monte Qunia em direo ao Ukambani
central e setentrional.
    No sculo XVI, as divises tnicas atuais dos Thagicu comeavam a tomar
forma. As grandes expanses dos sculos ulteriores proviriam de duas destas j
emergentes sociedades, os Kikuyu, na garganta que separa o monte Qunia da
cadeia dos Nyandarua, e os Meru, a leste do monte Qunia, na outra extremidade
dos territrios thagicu. Simultaneamente, os imigrantes sabaki mantinham rela-
es com os Thagicu estabelecidos em Ukambani, criando assim uma sociedade
de lngua thagicu, mas cuja cultura apresentava muitas semelhanas com a dos
Taita ou dos Bantu do litoral. Exemplos disso so o fato de os Akamba terem
adotado como arma usual o arco e a flecha em substituio  lana, e a ausncia
das classes etrias, princpio de organizao poltica e social, de grande impor-
tncia no monte Qunia. As comunidades cuxitas meridionais permaneceram no
leste da monhanha, algumas delas provavelmente nas vizinhanas dos Kikuyu,
enquanto bandos de caadores-coletores controlavam as encostas arborizadas da
cadeia dos Nyandarua ao sul dos Kikuyu. No foi dada ainda nenhuma explica-
o satisfatria para a presena de populaes pr-bantu no Ukambani, mas a
presena de alguns nilotas meridionais  provavelmente parentes muito prxi-
mos dos nilotas das plancies ridas vizinhas do nordeste do Qunia  parece se
comprovar no Ukambani oriental pela sobrevivncia de alguns emprstimos do
vocabulrio niltico meridional no dialeto kitui moderno do kikamba.

28    Ver JACKSON, 1972.
29    Ver EHRET, 1974b, v. 7, cap. 2.
Entre a costa e os Grandes Lagos                                               553



    A oeste de um eixo Qunia-Kilimandjaro estende-se, no interior do Qunia
e da Tanznia, a nica grande regio na qual a tendncia geral  bantuizao do
perodo 1100-1600 revelou-se inoperante. At depois de 1500, as sociedades
nilotas meridionais, em particular os Kalenjin e os Dago, dominaram a regio.
Por volta de 1100, os Protokalenjin e os Kitoki, nilotas meridionais que lhes
eram intimamente aparentados, controlaram o territrio situado a leste e que
se estende dos contrafortes sul do monte Elgon s plancies do Uasingishu.
Durante os dois ou trs sculos seguintes, os Kalenjin espalharam-se por toda a
largura do planalto do Uasingishu, avanando a leste e a sudeste at as reas do
Rift Valley do Qunia central e meridional. Nos sculos ulteriores, as contnuas
expanses dos Kalenjin apenas reforaram as divises lingusticas e tnicas que
comeavam a surgir em diversas partes do territrio.
    No sudeste do monte Elgon, a sociedade Kalenjin Elgoni afastou-se do
modelo comum kalenjin devido  absoro dos Bantu do Elgon do sudeste.
Assim, os cls territoriais, como entre os Bantu do nordeste do Vitria, eli-
minaram as classes etrias cclicas como princpio fundamental da organiza-
o da sociedade kalenjin do Elgon. Pelas mesmas razes, os Kalenjin Elgoni
comearam a evoluir para uma agricultura baseada na cultura da banana e,
aproveitando-se dessa vantagem, comearam a se espalhar pelos arredores das
encostas arborizadas do monte Elgon.
    A leste da montanha, as primeiras populaes potok foram dominadas, em
meados do milnio, por seus vizinhos do norte, os Itung'a, enquanto a sociedade
protonandi tomava forma ao longo da extremidade ocidental do planalto de
Uasingishu, bem ao sul dos Potok. As primeiras etapas do desenvolvimento dos
Nandi foram acompanhadas da incorporao dos cuxitas meridionais do planalto. 
provvel que uma das contribuies cuxitas a seus descendentes e sucessores, os
Kalenjin, tenha sido a difuso da irrigao na agricultura entre as populaes keyo
e marakwet, de lngua nandi, atualmente instaladas nas encostas do Elgeyo. Em
meados do milnio, a expanso nandi tomou o rumo sul, em direo s florestas
e s plancies do territrio banhado pelo rio Nyando. As comunidades nandi e
kipsigi atuais parecem descender, em parte, desses colonos nandi.
    Mas a expanso tnica mais explosiva, que procovou consequncias de
maior alcance, foi a dos Kalenjin meridionais. Suas comunidades ancestrais
evoluram na franja meridional avanada das primeiras expanses kalenjin.
Do sul do Qunia central, infiltraram-se rapidamente para o sul, a princpio
pelas plancies ao longo das escarpas do Rift, depois at o leste dos planal-
tos do Kondoa, passando pela estepe da Massailndia. Em meados do mil-
nio, os imigrantes kalenjin meridionais j se haviam instalado no sul at os
554                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



limites do territrio dos Bantu Ruvu ocidentais. Na Massailndia central e
setentrional, os Dago, predominantes na regio, cederam ao avano kalenjin.
Na Massailndia meridional, os Kw'adza foram por sua vez assimilados ou
expulsos pelos Kalenjin meridionais. Na Tanznia setentrional, as escarpas do
Rift Valley constituram uma barreira  expanso dos Kalenjin meridionais,
pois os Dago continuavam a controlar as regies montanhosas do Loita e do
Ngorongoro bem como, suspeita-se, as plancies ocidentais do Serengeti e de
Mara. O domnio dago sobre essa regio s foi abolido no sculo XVII, no
pelos Kalenjin, mas pelos invasores massai.
   Nos planaltos do Kondoa e de Mbulu, a expanso dos Kalenjin meridio-
nais no afetou os cuxitas meridionais do Rift ocidental, nem os Protoirangi,
sociedade bantu. Pouco se sabe da histria dos povos da regio entre 1100 e
1600, com exceo de uma populao cuxita do Rift ocidental, os Iraqw. A
penetrao dos colonos iraqw em direo ao norte ao longo das escarpas do
Rift at a zona de disputa dos Dago e dos Kalenjin meridionais  claramente
indicada pelos emprstimos do vocabulrio iraqw ao kisonjo30. Os Wasonjo,
povo de lngua bantu, apresentavam a caracterstica nica de ser um grupo
voltado principalmente para a agricultura, isolado, em pequenos territrios
encravados em terras onde a irrigao era possvel, entre pastores Dago e
Kalenjin meridionais. Pode-se imaginar os colonos Iraqw se deslocando 
procura de refgios do mesmo tipo pelas encostas do Rift para desenvolve-
rem um modo de vida semelhante. Por suas prprias tradies, convm situar
os Sonjo antes de 1600, nas encostas do Rift Valley, abaixo dos planaltos do
Loita31. Os grupos iraqw isolados parecem ter sido os vizinhos meridionais
dos Sonjo; viviam possivelmente em locais parecidos com as instalaes sonjo
atuais abaixo do lago Natron  provavelmente no famoso stio arqueolgico
de Engaruka.
   No outro extremo do territrio kalenjin, no Baringo e no planalto de
Laikipia, os Protomassai evoluam, durante este perodo, para uma diviso
em trs sociedades distintas: os Samburu, os Tiamu e os Massai. Desde o
incio do sculo XVI, a mais meridional das trs, a dos Massai, comeou a
fazer incurses nas antigas terras kalenjin ao longo do Rift Valley, no Qunia
central. Por volta de 1600, os Massai haviam se espalhado progressivamente
para o sul, ao longo do Rift, at os limites setentrionais da Tanznia. Dali


30    Ibid., v. 4, cap. 2.
31    Devemos estas indicaes precisas a A. Jacobs (comunicao pessoal, set. 1976).
Entre a costa e os Grandes Lagos                                               555



comearam a ameaar, mais ao sul, a hegemonia dos Dago e dos Kalenjin
meridionais.


    Movimentos de populao e intercmbios culturais
    Em consequncia da complexidade destes eventos, os movimentos de popu-
lao aparecem como fator constante das transformaes histricas no interior
do Qunia e da Tanznia. No entanto, entre 1100 e 1600,  provvel que os imi-
grantes nunca tenham penetrado em terras totalmente desertas. Por conseguinte
a histria de que participaram foi uma histria de sociedades em conflito e de
intercmbios de ideias da resultantes no curso da formao de novos grupos
sociais e polticos. Um fator essencial que explica em grande parte a expanso
particular dos territrios de lngua bantu  a capacidade de adaptao crescente e
rpida  agricultura que muitas populaes bantu possuam. Em grandes reas da
Tanznia central e ocidental, a disposio manifestada pelos imigrantes bantu de
passar do consumo de tubrculos coletados ao do milhete-do-mangue e do sorgo,
conhecidos pelos seus vizinhos cuxitas e nilotas, permitiu-lhes estabelecerem-se
entre as populaes autctones e assimil-las gradualmente. Em vrias pores
montanhosas do nordeste da frica, a expanso bantu foi favorecida por um tipo
de adaptao muito particular: a prtica da agricultura de altitude.
    Uma das consequncias secundrias do desenvolvimento da agricultura entre
os Bantu foi o desmatamento de novas terras at ento ocupadas unicamente
por comunidades que ainda dependiam da coleta e da caa. Em outras partes
da Tanznia ocidental, nas regies imediatamente a leste do rio Wembere, 
possvel que o modo de vida agrcola, afinal, s tenha sido instaurado entre 1100
e 1600, quando do estabelecimento das colnias takama, que cultivavam cereais.
Ao norte, a tradio montanhesa de plantao permitia a utilizao de reas
florestais, anteriormente deixadas aos caadores-coletores, enquanto, no Kili-
mandjaro,  possvel que os Chagga tenham garantido sua expanso, no tanto
por penetrar diretamente nas terras de seus predecessores, mas por conquistar
a floresta, deslocando-se paralelamente e acima de seus competidores e depois
assimilando-os pouco a pouco.
    Paralelamente a essas mudanas culturais e tnicas mais importantes,  pos-
svel que alguns intercmbios limitados entre povos tenham se desenvolvido
de tempos em tempos em todo o interior da frica oriental; mas apenas numa
regio verificou-se a existncia simultnea de diferentes espcies de excedentes de
produo de tal importncia que precipitaram a criao de verdadeiros mercados.
556                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 19.1 Mapa da localizao aproximada provvel dos povos do interior da frica oriental no sculo
XII. (C. Ehret.)
Entre a costa e os Grandes Lagos                                                                  557




Figura 19.2 Mapa da localizao aproximada provvel dos povos do interior da frica oriental no sculo
XVI. (C. Ehret.)
558                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



Essa regio era a dos montes Qunia e Kilimandjaro, onde os montanheses que
praticavam agricultura intensiva viviam lado a lado com criadores de gado, cuja
prtica da pecuria era tambm intensiva; uns e outros coabitavam com gru-
pos de caadores-coletores32. Os pastores produziam excedentes de couro cru;
podiam ento confeccionar vestimentas de couro, necessrias aos agricultores
das montanhas. Por sua vez, os montanheses dispunham de toras, que serviam
de matria-prima para a produo de grandes recipientes, como colmeias, bebe-
douros etc., e cultivavam cucurbitceas (abboras, meles etc.), a partir das quais
faziam cabaas e outros recipientes, to importantes para as comunidades das
plancies. Em pocas de escassez, os montanheses podiam oferecer excedentes
de suas colheitas em troca do gado das populaes das plancies vizinhas mais
ridas. Enfim,  possvel que ocasionalmente os caadores-coletores pudessem
fornecer o excedente de mel e peles de suas atividades de subsistncia.
    Um outro fator era a diviso desigual dos depsitos de minrio. Mesmo durante o
sculo XVI, os Wageno do Pare setentrional estavam integrados ao sistema comercial
plancie-montanha pelo seu papel como principais produtores e fornecedores de ferro
e utenslios de ferro33; os Thagicu parecem ter desempenhado papel semelhante nos
arredores do monte Qunia. Mas, na maior parte do restante do interior do Qunia
e da Tanznia, os mercados s viriam a constituir uma caracterstica regular da vida
econmica bem depois de 1600, e mais por influncias externas que locais.




32    A antiguidade dos termos que designam "mercado" constitui um srio indcio da antiguidade dos prprios
      mercados. So encontrados no protothagicu e no antigo chagga, seno no protochagga.
33    Ver KIMAMBO, 1969.
A regio dos Grandes Lagos                                               559



                             CAPTULO 20


                 A regio dos Grandes Lagos
                             Bethwell Allan Ogot




    O historiador que se propuser reconstituir a histria da regio interlacustre
da frica oriental, no perodo que vai do comeo do sculo XIII ao final do XV
da era crist, h de enfrentar vrios problemas srios.
    Em primeiro lugar, so escassos as tradies orais e os dados lingusticos
relativos a essa poca; tambm no dispomos de dados arqueolgicos adequados.
As tradies orais, por exemplo, muitas vezes evocam figuras paternais legend-
rias que so apresentadas alternadamente como divindades, como ancestrais de
todo o povo, como fundadores de cls ou, ainda, como introdutores de alguma
cultura agrcola (banana, milhete etc.) ou da criao de gado. As histrias de
suas faanhas deram origem a tradies populares, cuja autenticidade histrica
 difcil de determinar. No surpreende, nessas condies, que um historiador
como C. Wrigley tenha concludo que os mitos chwezi, para tomar apenas
um exemplo, no fornecem nenhum dado vlido a respeito da histria antiga
da regio interlacustre. Segundo ele, admitir que os espritos a que aludem os
mitos e as prticas religiosas dos Chwezi representam soberanos que teriam
efetivamente reinado no sculo XV na regio interlacustre seria a mesma coisa
que supor que Odin e Freya (Frija) fossem reis da Sucia em tempos primitivos,
como pretende a Inglinga Saga1.


1   WRIGLEY, 1973 e 1958.
560                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    Um segundo problema que os historiadores que se interessam por essa regio
tm de enfrentar  o do preconceito com que se costuma enfocar as relaes entre
os povos agrcolas e os pastoris. Em muitos textos de histria, os pastores so apre-
sentados como conquistadores civilizados que trouxeram a ordem a um lugar onde
antes s reinava a anarquia. Os agricultores, ao contrrio, so representados como
uma massa silenciosa e dcil, que nunca gerou nenhum progresso, nem fundou
nenhum Estado. Um excelente exemplo desse preconceito encontra-se em Ruanda:
A. Kagame, por exemplo, reluta em admitir que esse Estado possa dever qualquer
instituio aos agricultores; ele tambm no est preparado para aceitar a ideia de
que os "Hutu" possam ter exercido autoridade sobre os nobres pastores "hamitas"2.
Nossa inteno nesse captulo  mostrar que a formao de Estados entre os agricul-
tores antecede a vinda da maior parte dos grupos de pastores. Tambm pretendemos
demonstrar que os dois tipos de povos conviveram em paz durante longo perodo,
at o momento em que, no sculo XV, comeou o grande processo de constituio
de Estados, o qual por sua vez foi em grande medida responsvel pela distino de
classes sociais ou castas na regio. A esse respeito,  importante assinalar que termos
como pastores e agricultores no tm, aqui, significao tnica, mas apenas ocupacio-
nal. As tradies da regio interlacustre indicam que um pastor que perdesse seu
gado e no pudesse reav-lo convertia-se em agricultor, enquanto o agricultor que
adquirisse gado se tornava pastor3. Essas mudanas ocorriam continuamente na
regio, tanto no plano individual quanto ao nvel de grupos.
    Outro problema para um historiador que se ocupe do estudo dessa regio no
perodo considerado  o da cronologia. De 20 anos para c, vrios especialistas
dedicaram-se ao estudo das cronologias bantu e nilotas, combinando os intervalos
entre geraes, as correlaes de referncias e os eclipses mencionados nas tradies.
Uma leitura mais atenta dessa abundante literatura mostra, porm, que no existe
acordo geral nem sobre a cronologia de tal ou qual Estado, nem sobre o quadro
cronolgico relativo  evoluo da regio interlacustre em seu conjunto. Por exem-
plo, a exatido da genealogia bito, no Bunyoro, foi recentemente questionada por
D. P. Herige4. O mesmo problema genealgico tambm  de enorme importncia
em Ruanda. A. Kagame defende a tese de que esse Estado tenha sido fundado
no sculo X da era crist, apresentando uma genealogia real desde 9595. Contudo,


2     KAGAME, 1955, p. 112.
3     Ver KARUGIRE, 1971.
4     HENIGE, 1974.
5     KAGAME, 1959. A genealogia comea assim: Gihanga I (959-992), Gahima I (992-1025), Musindi (1025-
      -1058), Rumeza (1058-1091), Nyarume (1091-1124), Rukuge (1124-1157) e Rubanda (1157-1180).
A regio dos Grandes Lagos                                                     561



alguns autores, como Jan Vansina, consideram que, dos soberanos arrolados por
Kagame, os sete primeiros no seriam personagens histricas, com a possvel exceo
de Gihanga. Segundo Vansina, a fundao do Estado de Ruanda teria ocorrido na
segunda metade do sculo XV6. E, mesmo que consegussemos resolver a questo
da cronologia dos Estados isoladamente, ainda faltaria integrar as cronologias de
Ruanda, Gisaka, Bunyoro, Kiziba, Mpororo, Buganda, Busoga, Nkore, Karagwe,
Ihangi Ihangiro, Kyamutwara, Buzinza e Sukuma, numa estrutura cronolgica
bsica que cobrisse todo o perodo que ora nos interessa. Tarefa, evidentemente,
das mais rduas.
    Finalmente, um historiador interessado no estudo dessa regio teria de
enfrentar o fato de que, at h bem pouco tempo, a maior parte dos relatos his-
tricos publicados dizia respeito apenas aos reis e suas cortes, em cujas tradies
se baseavam para tratar das origens e desenvolvimento dos Estados centralizados
da regio interlacustre.  este o caso, especialmente, dos trabalhos de A. Pags,
Lacger e A. Kagame acerca de Ruanda. Tais obras histricas tm necessaria-
mente alcance limitado, sobretudo no que se refere aos setores da sociedade que
esto fora dos crculos reais.
    Uma vez assinalados os principais problemas, passemos ento  histria da
regio situada entre os grandes lagos da frica. Por razes de convenincia his-
trica, ns a dividiremos em quatro partes: o complexo de Kitara; o complexo de
Kintu; o complexo de Ruhinda, e o complexo de Rwanda (ou Ruanda). Empre-
gamos o termo "complexo" para evocar, a um s tempo, a natureza multitnica da
regio e a confluncia das tradies culturais que constituem sua histria. Mas,
por outro lado, os quatro complexos ligam-se uns aos outros, estando associados
no quadro da histria geral da regio.


    O complexo de Kitara
    A histria do complexo de Kitara, que da perspectiva geogrfica cobre a
maior parte dos atuais territrios do Bunyoro e do Toro, assim como as pores
vizinhas do Nkore, Mubende e Buganda, foi estudada recentemente por Carole
A. Buchanan7. Trata-se, certamente, do mais antigo sistema estatal da regio
interlacustre, e sua histria costuma ser pensada em funo da chegada de trs
grupos de invasores: os Batembuzi, os Bachwezi e os Babito.  bom notar,


6   VANSINA, 1960.
7   BUCHANAN, 1974.
562                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



porm, que essa apresentao histrica  que, em linhas gerais, reflete a diviso
da histria do complexo de Kitara em trs grandes fases  deixa de lado, o que
 muito significativo, os povos de lngua bantu, que predominam na regio.
Devemos da concluir que essa maioria de falantes de lnguas bantu sempre se
limitou a observar a histria, sem jamais dela participar?
    Para responder a essa questo,  indispensvel recordar que a chegada da
maior parte dos Bantu precedeu a dos trs grupos de invasores. C. A. Buchanan
postula que algumas das mais antigas migraes que se conhecem, em direo ao
complexo de Kitara, devem ter ocorrido entre 722 e 1200. Os primeiros cls que
se instalaram nessa regio certamente se originavam do Sudo central; vinham,
portanto, do norte ou do noroeste8. Os especialistas no so acordes com rela-
o  histria antiga dos povos do Sudo central, porm os dados lingusticos
sugerem que sua presena na regio antecedeu a vinda dos primeiros Bantu. Se
assim for, isso significa  considerando-se as evidncias arqueolgicas  que j
estariam estabelecidos na rea antes do sculo IV da era crist9. Os primeiros
cls de lngua bantu parecem ter vindo do oeste do lago Mobutu (lago Albert)
e se dispersaram por toda a regio ao sul do Nilo. Segundo suas tradies,
dedicaram-se principalmente  agricultura, cultivando a Eleusine e o sorgo;
alguns, porm, criavam gado.
    C. A. Buchanan sugeriu que as primeiras migraes bantu para a regio
interlacustre se deram nos sculos X e XI, baseando-se no fato de que no se
encontrou, nas mais antigas camadas de Kibiro (c. do sculo X) nenhum exem-
plar de cermica com depresses na base, que  costume associar  presena de
povos de lngua bantu10.
    Alguns desses cls bantu participaram mais tarde da formao de peque-
nos Estados agrrios, o que C. A. Buchanan associa ao perodo batembuzi da
histria de Kitara e, experimentalmente, data dos sculos X a XIV11. Se tiver
razo, estar resolvida a questo que formulamos anteriormente, acerca do papel
desempenhado pelos povos de lngua bantu na histria da regio. A resposta,
pelo menos no que se refere aos Batembuzi, seria que no estamos lidando com
pastores imigrantes, mas com os mais antigos grupos bantu presentes na rea.



8     EHRET, 1974c, p. 8.
9     EHRET, 1967, p. 3; SUTTON, 1972, p. 11 e 23.
10    PEARCE & POSNANSKY, 1963; CHAPMAN, 1967; HIERNAUX & MAQUET, 1968, p. 43.
11    NYAKATURA, 1947. Sua genealogia prope os anos de 869 a 899 para o primeiro Batembuzi e os de
      1301 a 1328 para o ltimo, que foi o rei Isaza.
A regio dos Grandes Lagos                                                      563



    A obra de Buchanan constitui o primeiro estudo srio do perodo pr-bachwezi,
At sua publicao, os historiadores e outros especialistas chamavam o perodo
batembuzi de "o reinado dos deuses", considerando seu povo como mais mitol-
gico do que histrico. Segundo as tradies kinyoro, foram dezenove os Abakama
Abatembuzi, ou "reis pioneiros" 12; contudo, a tradio nkore registra apenas quatro
deles, no lhes atribuindo qualquer nome coletivo. Alguns desses reis  como Hangi,
Kazoba e Nyamuhanga  so espritos ancestrais adorados pelos Bachwezi.
    Buchanan s conseguiu dissipar as brumas que encobriam nosso conheci-
mento dos Batembuzi porque se preocupou menos com as tradies relativas
s cortes e deu maior importncia  histria dos cls. Uma das mais antigas
unidades polticas por ela identificadas  a chefaria de Bugangaizi, fundada pelo
cl dos Bagabu, que a tradio classifica entre os Batembuzi, e cujo fundador
foi Hangi. Os Bayaga  cujo nome original era Basehe  constituem outro cl
anterior aos Bachwezi, que certamente emigrou do vale do Samliki na mesma
poca. Suas tradies associam-nos  introduo do gado (provavelmente ainda
no se tratava do gado de chifres compridos) na regio, e s salinas de Kibiro,
no lago Mobutu. Outro cl cuja preeminncia parece estar associada a uma base
econmica  o dos Basiita. Este  um dos maiores cls da regio interlacustre.
Seus membros identificam-se com Sitta, fundador de um dos cls de Bugisu,
com o cl abendega (= "carneiro") do Buganda e do Busoga, com os Baswaga do
Bakonjo e os Byabashita do Kibale. Ocupam posio de destaque nas tradies
dos Estados do Nkore, do Kiziba e do Buhaya, onde so vinculados a uma forma
mais antiga de chefaria, que antecede os Bahinda. Sua ascenso ao poder e sua
disperso por regio muito extensa parecem dever-se, segundo suas tradies,
ao fato de que sabiam trabalhar o ferro. O topnimo Mbale ou Kabale, que se
encontra no Mwenge, no Bugisu (na Repblica de Uganda), no noroeste da
Repblica Unida da Tanznia e na parte ocidental da Repblica do Qunia est
ligado, nas tradies,  presena dos Basiita.
    Por volta de 1250 j existia, a leste das montanhas do Ruwenzori, certo
nmero de pequenas chefarias bantu, nascidas das chefarias dos Batembuzi do
Bugangaizi ou copiadas destas. Por exemplo, de acordo com F. X. Lwamgira, o
primeiro rei do Kiziba viveu entre 1236 e 126313; no entanto, ao mesmo tempo
havia vrias outras sociedades de lngua bantu organizadas em unidades polticas
menores, mas importantes, como linhagens e cls.


12   Ibid., p. 6-65.
13   LWAMGIRA, 1949, p. 65.
564                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



    A histria do cl baranzi instaura uma ligao entre os Batembuzi e a dinas-
tia que os substituiu no poder sobre o complexo de Kitara  a dos Bachwezi.
Segundo a tradio kinyoro, o fundador do cl, Bukuku, foi um plebeu, que
exerceu altas funes na corte de Isaza (c. 1301-1328), ltimo dos "reis pio-
neiros". Supe-se que ele tenha sido o sucessor de Isaza e, ao mesmo tempo,
que ele seja o av de Ndahura (c. 1344-1371), o grande monarca do perodo
bachwezi. O prprio cl tinha como totens o gafanhoto e o almiscareiro, e
provavelmente provinha da regio do Busongora, a oeste. Como veremos mais
adiante, esses dois totens exerceram importante papel na histria do Buganda e
do Busoga, enquanto nomes de grupos da poca pr-kintu, e portanto tambm
pr-bachwezi, que emigraram do oeste para o leste, atravessando as savanas para
chegar s margens do lago Vitria (Nyanza).
    Como j indicamos, Bukuku, que era agricultor, permitiu estabelecer rela-
es de parentesco entre os reis pioneiros e os Bachwezi. O pai adotivo de
Ndahura, a seguirmos as tradies do Bunyoro e Nkore, seria um negociante
de cermicas, membro do cl bakopi14  da o outro nome dado a Ndahura:
Karubumbi (de mubumbi, "ceramista"). Talvez essas crenas visassem legitimar
a posio de Bukuku, plebeu que alcanou grande renome. Contudo, tais tradi-
es so muito difundidas na regio, e delas devemos inferir que a fundao e o
desenvolvimento dos Estados centralizados da regio interlacustre no podem
ser atribudos exclusivamente a aristocracias pastoris externas  regio. A soma
de diversos fatores internos, inclusive certas iniciativas locais, poderia fornecer
explicao mais convincente.
    Quando Bukuku sucedeu a Isaza, teve de enfrentar a oposio de vrios
chefes que no admitiam submeter-se  autoridade de um plebeu. Bukuku
esmagou essa rebelio, mas a insatisfao, que continuou generalizada, permitiu
que Ndahura tomasse a coroa e fundasse a dinastia bachwesi. As tradies do
Bunyoro e Nkore so acordes em que essa dinastia teve dois reis  Ndahura e
Wamara  e um regente, Murindwa, que dirigia os negcios pblicos durante
as expedies guerreiras do irmo Ndahura.
    Apesar dessa concordncia quanto aos nomes dos soberanos, e embora exista
ampla literatura sobre a Dinastia Bachwezi, os historiadores ainda no chega-
ram a um acordo acerca da validade de tal literatura. G. W. B. Huntingford
sugere que os Bachwezi fossem de origem "hamita", aparentados aos Sidama do




14    NYAKATURA, 1947; KATATE & KAMUGUNGUNU, 1967.
A regio dos Grandes Lagos                                                                           565



sudoeste da Etipia15. R. Oliver acredita que os Bachwezi fossem personagens
histricas: diz ele que,
     no conjunto, parece que o reino ganda de Chwa se identifica com o dos Chwezi,
     e que o pas conquistado pelos Bito j constitua [...] uma nica unidade poltica,
     dominada pelos pastores hima, sob a gide de reis do cl chwezi16.
   Antes desses autores, J. P. Crazzolara havia proclamado como fato indubi-
tvel que os Bachwezi e os Bahima formavam um nico e mesmo povo, que
pertencia  etnia luo17. M. Posnansky, baseando-se em evidncias arqueolgicas,
admite a existncia histrica dos pastores bachwezi e a correlao entre eles e a
cultura bigo, a qual ele situa entre 1350-1500. Para dizer a verdade, ele vai ainda
mais longe  identifica Bigo como a capital de um reino de pastores que teria
existido no Buganda ocidental, entre 1350 e 150018.
   Enquanto todos esses historiadores admitem a existncia real dos Bachwezi,
C. Wrigley  quase o ltimo, em nossos dias, ainda a sustentar que eles nada
mais foram do que
     um panteo familiar, uma srie de divindades individualizadas e distintas por seus
     nomes, imaginadas como um grupo familiar humano magnificado e associadas mais
     do que tudo s foras e aos fenmenos naturais mais marcantes19.
Neste captulo, aceitamos a existncia histrica dos Bachwezi. Assim, ao apre-
sentarmos os principais acontecimentos que se produziram no complexo de
Kitara entre 1350 e 1500, vamos consider-los como parte da histria da frica
oriental, e no como um aspecto de sua mitologia.
   Existem duas grandes teorias a respeito desses acontecimentos. Alguns his-
toriadores, como R. Oliver, defendem a tese de que o Imprio Bachwezi foi
fundado em decorrncia de uma incurso dos pastores bahima. No chegam a
um acordo, porm, quanto  provenincia exata destes ltimos: antes se pensava
que viessem do nordeste, provavelmente da Etipia meridional; mas, recente-
mente, vrios representantes dessa escola sugeriram que talvez os Bahima se
originassem do sul.


15   HUNTINGFORD, 1963, p. 86.
16   OLIVER, in OLIVER & MATHEW, 1963-1976, v. 1, p. 181-2
17   GRAZZOLARA, 1950-1954, v. 2, p. 94-7 e 102-3. Neste captulo, empregamos a grafia correta  luo , e
     no a variante europeizada, lwoo.
18   POSNANSKY, 1966, p. 4-5.
19 WRIGLEY, 1973, p. 226.
566                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



    Num estudo a respeito da influncia cultural dos cuxitas meridionais sobre
a regio interlacustre, assim se exprime Chris Ehret:
      O fato de que os cuxitas meridionais tenham continuado a exercer papel importante, at
      data bem tardia, na metade sul da regio interlacustre suscita a intrigante possibilidade de
      que a cultura dos pastores tutsi e hima da poca moderna, cuja presena  marcada nessa
      zona, se originaria na dos cuxitas meridionais, e, portanto, aqueles poderiam ter vindo do
      leste, e no do norte20.
    Essa infiltrao dos Bahima na regio produziu-se, ao que se supe, no sculo
XIII e no comeo do XIV. A ela se seguiu um perodo de instabilidade, durante o
qual os Bahima e seus aliados entre os ocupantes anteriores constituram, pouco
a pouco, uma aristocracia por sobre a populao de agricultores, at estabelece-
rem, no sculo XIV, um Estado fracamente estruturado.
    Segundo a outra teoria, que hoje ganha terreno rapidamente, os Bachwezi
seriam chefes locais que se impuseram em decorrncia de transformaes eco-
nmicas e demogrficas que estavam ocorrendo na regio interlacustre.  certo
que o Imprio de Kitara foi fundado por Ndahura (c. 1344-1371), grande rei
guerreiro que, partindo da pequena chefaria do Bugangaizi, estendeu seu poder
a um vasto territrio que compreendia o Bunyoro, o Buganda ocidental, o Toro,
o Kigezi setentrional, as ilhas Sese, o Nkore, o Kiziba, o Karagwe, parte do
nordeste de Ruanda e parte do Qunia ocidental. No contando com os recur-
sos militares e administrativos nem com os meios rpidos de comunicao que
seriam indispensveis para instituir um Estado centralizado em rea to extensa,
ele se apoiou em agentes que designava para represent-lo em todas as partes
do domnio. As principais riquezas econmicas desse imprio de organizao
frgil foram, ao que parece, o sal, o gado e o ferro.
    O rei Ndahura, que muitas vezes comandava o prprio exrcito em campa-
nha, foi capturado no Bukoba, durante uma invaso de Ihangiro, quando suas
tropas entraram em pnico devido a um eclipse do sol. Ao ser libertado, preferiu
emigrar para oeste, em vez de retomar, desacreditado,  sua capital, Mwenge. A
tradio nada diz sobre sua histria ulterior.
    Sucedeu-lhe o filho Wamara (c. 1371-1398), que, por razes de segurana,
transferiu a capital de Mwenge para Ber (Bwera). O reinado de Wamara foi
ainda mais agitado que o do pai, em grande parte devido  chegada de vrios
grupos de imigrantes. Estes incluam os Jo-Oma, que em sua maioria vinham da
regio dos montes Agoro; os cls de lngua bantu originrios do leste, associados

20    EHRET, 1974c, p. 11.
A regio dos Grandes Lagos                                                  567



ao "complexo de Kintu", de que falaremos mais adiante; invasores vindos do sul,
que provavelmente constituam um grupo na vanguarda do cl bashambo; e,
finalmente, os Luo, que comearam a infiltrar-se no imprio de Kitara partindo
do norte do Nilo. Os especialistas ainda no puderam determinar com segurana
se os Jo-Oma eram luo ou bahima, embora as pesquisas mais recentes efetua-
das por J. B. Webster e sua equipe, em Makerere, paream favorecer a segunda
tese21. Seja como for, o ponto que convm enfatizar  o seguinte: segundo a
reconstituio histrica que ora expomos, os Bachwezi no eram nem bahima
nem luo, mas sim uma aristocracia bantu que se destacou em Uganda ociden-
tal, nos sculos XIV e XV. Com a chegada dos pastores bahima (quer tenham
vindo apenas do norte, ou tanto do norte quanto do sul) e dos Luo, durante o
reinado do ltimo rei bachwezi, esse imprio fracamente estruturado tornou-se
heterogneo, tanto do ponto de vista tnico quanto lingustico. As dificuldades
de integrao poltica suscitaram tenses internas, que terminaram levando 
destruio o Imprio de Kitara.
    O rei Wamara havia tentado conquistar o apoio dos recm-chegados,
confiando-lhes importantes cargos polticos; por exemplo, Miramira, do cl
bashambo, e Rugo e Kinyonyi, ambos do cl balisa, foram encarregados de
represent-lo nas regies vizinhas ao lago Masyoro, que mais tarde se tornaram
o Kitagwenda, Buzimba e Buhweju. Um Muhima, de nome Ruhinda, ficou
encarregado dos rebanhos reais; Nono, do cl basiita, foi nomeado subchefe de
Karagwe, enquanto Kagoro, um Luo, recebeu o comando supremo dos exrcitos.
O prprio rei concluiu um pacto de sangue com Kantu, que havia se tornado o
lder dos cls bantu vindos do leste. Essas medidas, porm, foram consideradas
sinais de fraqueza pelas comunidades de imigrantes, que no tardaram em fazer
valer sua fora prpria.
    Houve ento grande fome, a que se seguiu uma doena que se alastrou
por todo o imprio, dizimando o gado; tornou-se geral a insatisfao. Kagoro,
comandante-em-chefe dos exrcitos de Wamara, valeu-se da ocasio para orga-
nizar um golpe de Estado contra os Bachwezi, que foram massacrados impiedo-
samente e cujos corpos foram jogados nas guas. A aristocracia bachwezi, que de
qualquer forma no podia ser muito numerosa, foi, dessa forma, aniquilada, ou,
como afirma a tradio, "desapareceu". Assim terminou o Imprio Bachwezi, que
foi substitudo por dois conglomerados: os Estados luo-babito do Bunyoro-Kitara,




21   WEBSTER, 1978.
568                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Kitagwenda e Kiziba; e, mais ao sul, os Estados bahinda (ou bahima) do Kara-
gwe, Nkore, Kyamutwara, Ihangiro e, talvez, do Gisaka (ver fig. 20.2).
    A queda do Imprio Bachwezi provocou luta encarniada entre os Luo e os
Bahima (os Babito e os Bahinda), pelo controle poltico da regio. A histria
dos dois novos Estados, nos trs sculos que se seguiram, deve ser estudada no
contexto dessa batalha pela hegemonia poltica.
    Comeando pelos novos Estados luo,  importante assinalar que, a nosso
entender, no se pode explicar a evoluo histrica de Uganda ocidental em ter-
mos de uma teoria simplificadora, segundo a qual as sucessivas levas de pastores
que conquistaram esse pas teriam nele introduzido a civilizao22. Conforme
explicamos acima, os Luo comearam a penetrar no territrio de Kitara em
tempos do rei Wamara. Antes dessa poca, porm, os povos de lngua luo j se
estavam irradiando em vrias direes a partir do lugar de origem  que era,
provavelmente, o sul do Sudo. Os Luo setentrionais parecem ter permanecido
nessa mesma regio, enquanto os Luo centrais e meridionais se dirigiram para
o sul, at a regio dos montes Agoro. Um estudo glotocronolgico dos dialetos
luo sugeriu que essa disperso pode ter ocorrido por volta do ano 870 ( 200),
o que a situa, portanto, entre 670 e 107023.
    As tradies orais indicam que os povos de lngua luo continuaram as suas
graduais expanso e disperso durante os sculos XIII e XIV (ver fig. 20.1). Essas
datas esto confirmadas por dados lingusticos, que permitem supor que a sepa-
rao dos Luo protocentrais e meridionais se tenha dado entre c. 1170 e 147024.
No final do sculo XIV, quatro comunidades luo se haviam constitudo: um grupo
vivia perto dos montes Agoro; outro, ao longo do Nilo, perto da ponta norte do
lago Mobutu (Albert), na regio conhecida como tringulo do Pakwac; um ter-
ceiro ocupava a rea entre Nimule e Shambe (Baar); finalmente, os ancestrais dos
Joka-Jok se haviam instalado em algum lugar ao sul dos montes Agoro25.
    Segundo as tradies dos Luo, ao chegarem  regio dos montes Agoro eles
encontraram vrios grupos de outras etnias. Um desses povos foram os Muru,
em meio aos quais se fixaram e com quem fizeram numerosos casamentos. Essa
populao miscigenada deu origem aos Joka-Jok e aos Pawir-Pakwac, que mais


22    Ver OLIVER, in OLIVER & MATHEW, 1963-1976, p. 180; OGOT, 1967, p. 46-7; POSNANSKY,
      1966, p.5.
23    BLOUNT & CURLEY, 1970. Naturalmente, tenho conscincia do fato de que muitos linguistas, hoje
      em dia, j no reconhecem a validade dos estudos de glotocronologia.
24    Ibid.
25    OGOT, 1967. Os Joka-Jok j viviam na parte ocidental do Qunia no final do sculo XV.
A regio dos Grandes Lagos                                                  569



tarde emigraram da regio. Por sua vez, os povos de lngua luo que permanece-
ram nas proximidades dos montes Agoro receberam, mais ou menos entre 1320
e 1360, a imigrao dos Jo-Oma (Bahima). Nessa poca, as principais atividades
dos primeiros eram a caa e a agricultura, e parece que foram os pastores bahima
que os ensinaram a criar o gado. Mais tarde, devido a uma doena que dizimou
o gado na regio, os pastores foram forados a emigrar em grande nmero.
Cruzaram o Nilo e entraram no Imprio Bachwezi sob o reinado de Wamara,
como j relatamos. Os que ficaram na rea dos montes Agoro foram absorvidos
pelos povos de lngua luo, que, sob a direo de seu rei Owiny I (1409-1436),
haviam fundado o Tekidi, um dos mais antigos Estados luo26. De acordo com
as tradies luo, Owiny casou-se com Nyatworo, uma moa do cl bahima, de
quem teve um filho, de nome Rukidi. Chegando  idade adulta, porm, o prn-
cipe Rukidi rompeu com o pai e, com seus seguidores, emigrou para Pakwac.
Depois do golpe de Estado efetuado por Kagoro, foi convidado pelos imigrantes
luo j estabelecidos na regio a assumir o poder poltico no Imprio de Kitara.
Ele e seus homens ficaram conhecidos pelo nome de Babito, e assim foi que
Rukidi fundou a Dinastia Babito de Kitara (c. 1436-1463), da qual falaremos
mais adiante. Dessas histrias do reino de Tekidi, v-se como j nessa poca era
extremamente difcil distinguir os Luo dos Bahima, dada a ampla miscigena-
o reinante.  provavelmente por isso que J. P. Crazzolara e outros autores se
referem a esses Bahima de fala luo como se fossem Luo.
    Mais ao norte, no Baar, uma fuso tnica anloga estava se produzindo entre
os Luo e os Madi. Desse cadinho histrico surgiram vrios cls reais, como os
Patiko, os Nyimur, os Padibe, os Atyak ou Kwong, os Koc, os Pagaya e outros
mais, que haveriam de exercer importante papel na histria da parte setentrional
da regio. Sabemos, por exemplo, que os Patiko, dirigidos por Labongo, migraram
do Pari-Baar para o Nilo, at o tringulo de Pakwac. Alguns deles  inclusive os
membros de outro cl, conhecido como Anywagi (Anywah)  acompanharam
Rukidi at o Imprio de Kitara. Tambm consta que os Bakwonga (que em
sua maior parte eram originrios do Sudo central), assim como os Bacwa e os
Bagaya (ambos cls de origem luo setentrional), emigraram para o sul e penetra-
ram no Kitara. Afirma C. A. Buchanan que isso deve ter acontecido pelo menos
uma gerao antes de Rukidi27. Assim, a ideia de um exrcito luo invadindo o
Imprio de Kitara deve ser descartada, por no ter fundamento. Pequenos grupos


26   Ver BUCHANAN, 1974, p. 181.
27   Ibid.
570                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 20.1   Mapa das primeiras migraes dos Luo. (B. A. Ogot.)
A regio dos Grandes Lagos                                                                            571



continuaram a espraiar-se para o norte, pelo Sudo; o oeste, pelo Zaire; o leste,
pela Etipia; e o sul, pelo Kitara, Bukedi e Qunia ocidental.
    As tradies do Bunyoro, Kiziba, Nkore e Karagwe evidenciam que foi muito
mais fcil para os Babito e os Bahinda depor Wamara que adquirir o controle
do imprio. Os novos governantes criaram e difundiram o mito da extino
dos Bachwezi; tambm tentaram legitimar o poder alegando parentesco com os
Bachwezi, mas, infelizmente para eles, tal propaganda no conseguiu convencer
seus sditos. Os chefes designados pelos Bachwezi continuaram a controlar seus
prprios territrios. O cl real bariisa, por exemplo, conseguiu implantar chefa-
rias independentes no Buzimba e Buhweju28. No Pawir, o cl real luo conservou
a independncia poltica, embora permanecesse  sombra do Bunyoro-Kitara. Nas
demais regies, a autoridade dos Luo e dos Bahima teve de se impor mediante
uma combinao de fora e de astcia.
    No Kiziba, por exemplo, a luta durou mais de uma gerao, at que Kibi, um
caador luo (c. 1417-1444), conseguisse implantar a hegemonia dos Luo. Graas
a hbeis manobras polticas e a generosas distribuies de caa, alcanou o apoio
de vrios cls importantes, como os Bagaba  o velho cl real dos Batembuzi ,
os Basiita e os Baranzi29.
    No Bunyoro-Kitara a luta foi mais longa ainda. Apesar de bem-sucedido
em seu golpe, Kagoro no foi capaz de unificar sequer os Luo, quanto mais o
conjunto do Estado. Garantiu, porm, que pelo menos os atributos reais (entre
os quais os tambores) fossem deixados para os Babito. Afinal, os Luo mandaram
chamar Rukidi para chefi-los, que aceitou vir, acompanhado dos Babito, seus
seguidores. Ele percebeu que, em vrias partes do pas, o povo lhe era hostil. Era
to grande a hostilidade ao novo regime em Bwera, por exemplo, que Rukidi
se viu forado a transferir a capital para Bugangaizi, no centro do velho Estado
batembuzi. Tambm teve dificuldades em fazer reconhecer a legitimidade do seu
poder e em integrar um Estado que se baseava numa sociedade etnicamente to
heterognea. A situao somente se estabilizou depois de 1500, quando princi-
piou a expanso bunyoro em direo aos Estados bahinda e a Ruanda 30.
    Como vimos acima, os Bachwezi haviam designado Miramira, do cl
bashambo, e membros do cl balisa para exercerem a chefaria na regio que cerca
o lago Masyoro. Depois da morte de Wamara, comeou a luta pela supremacia
nesse territrio. Dois irmos babito  Wakole e Nyarwa  conseguiram matar

28   NGANWA, 1948, p. 6-7; KANYAMUNYU, 1951.
29   LWAMGIRA, 1949.
30   Sobre a poltica expansionista do Bunyoro-Kitara, ver nossa contribuio no captulo 26 do volume V.
572                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



Miramira e fundar o Estado de Kitagwenda, ajudados pelo cl bahima dos
Bashekatwa31.


      O complexo de Ruhinda
    Esse complexo tinha como centro geogrfico o que hoje constitui o distrito
de Kigezi, Ankole e o distrito de Bukoba, na Repblica Unida da Tanznia,
assim como uma parte do Burundi e de Ruanda. No perodo que ora estudamos,
os principais Estados foram Nkore e os Estados buhaya de Karagwe, Ihangiro,
Kiyanja, Buzinza e Kyamutwara, assim como certas partes do futuro reino de
Ruanda, como Ndorwa (ver fig. 20.2). Apesar das fronteiras polticas e das bar-
reiras lingusticas, essa regio possuiu uma unidade histrica, que data do perodo
que ora estudamos. Assim, foi nela que a influncia dos pastores Bahima-Batutsi
parece ter sido mais notvel. Vrios cls antigos, como os Basiita, os Bagahe,
os Basigi, os Bazigaaba, os Bakimbiri, os Bashambo, os Baitira, os Batsyaba, os
Bagyesera, os Baishekatwa, os Bungura e os Babanda, esto dispersados por toda
a rea. Isso  especialmente importante numa regio em que os cls, sobretudo
os maiores, tendiam a representar chefarias de populaes miscigenadas mais
do que grupos de parentesco exogmico32. Muitos Bahima se incorporaram a
cls bantu, enquanto famlias bantu se integravam em cls batwa e vice-versa.
Essa homogeneidade  confirmada pelo fato de que em sua maior parte os atuais
habitantes da regio falam rukiga, ruhororo, runyankore ou runyambo  todos
eles dialetos estreitamente aparentados  ou, ainda, runyarwanda. Outro fator
de coerncia histrica  o fato de que a maioria dos grupos da regio sofreu os
efeitos da expanso do Estado de Ruanda  mas esta  uma questo que ultra-
passa os limites do presente captulo.
    As tradies parecem indicar que, por volta de 1200, no incio do perodo que
estamos examinando, as florestas eram muito mais extensas do que hoje em dia;
nelas viviam os Batwa, que se dedicavam  coleta e  caa de maior porte, inclu-
sive de elefantes e bfalos33. Os agricultores bantu ento comearam a introduzir-se
gradativamente na regio, vindo basicamente do sul e do oeste. Derrubaram partes
da floresta e se fixaram, cultivando o milhete e o sorgo; afora isso, praticavam a caa e
trabalhavam o ferro. Os Barongo, por exemplo, eram caadores e ferreiros muito


31    Ver WHEELER, 1971.
32    GRAUD, 1977, p. 24.
33    Ver RWANDUSYA, 1972.
A regio dos Grandes Lagos                                                                    573



tempo antes que os Bahima penetrassem no Buzinza34. As tradies do cl
bazinga tambm ensinam que seu ancestral Kasinga era ferreiro e feiticeiro no
Karagwe. Ele foi expulso de sua terra pelo prprio irmo, Muhaya, e refugiou-se
em Ndorwa antes da chegada dos Batutsi35.
    Inicialmente, os grupos de lngua bantu se organizaram segundo o esquema
da famlia extensa, com os chefes de famlia constituindo a autoridade suprema.
Reuniam-se para ministrar justia e decidir questes relativas ao bem-estar da
populao. Mas,  medida que aumentou o nmero de imigrantes, o sistema cl-
nico foi se desenvolvendo.  bom assinalar, porm, que nessa regio os cls no
se compunham necessariamente de descendentes do mesmo ancestral: o costume
da "fraternidade de sangue", por exemplo, encorajava os recm-chegados a se
integrarem em famlias mais antigas, e certos grupos de imigrantes procuraram
obter a proteo de cls poderosos, juntando-se a eles, adotando sua lngua e seus
costumes. Na verdade, a passagem de um cl para outro parece haver constitudo
prtica corrente nessa regio.
    Dessa forma, os cls se tornaram organizaes polticas dotadas de frontei-
ras territoriais. O chefe do cl tambm chefiava o territrio, que era designado
pelo nome da famlia dominante: assim, o Busigi, por exemplo, era basicamente
ocupado pelos Basigi, o Bugahe, principalmente pelos Bagahe etc. Os grandes
cls, como os Bazigaaba, os Bagyesera, os Basigi e os Bahanda, tinham um rei ou
chefe (mwami), que exercia liderana tanto poltica quanto religiosa; respondia
tambm pelo bem-estar da populao e pelo estado do gado e das colheitas. O
mais das vezes, tais mwami eram igualmente fazedores de chuva36. As tradies
nos ensinam, por exemplo, que os Bagahe do Ndorwa, s margens do lago
Bunyoni, os Basigi do Busigi (regio que hoje pertence a Ruanda) e, ainda, os
Babanda do Kinkizi, eram hbeis na produo de chuvas.
    Parece que, no incio do sculo XV, alguns desses cls bantu j tinham dinas-
tias bem estabelecidas. Sabemos, por exemplo, que membros do cl basiita rei-
navam no Nkore, no Karagwe e outros Estados buhaya antes que os Bahinda
tomassem o poder. As tradies histricas de Ruanda mencionam um grupo
de agricultores conhecidos como os Barengye. Considera-se que fossem dos
mais antigos habitantes da regio; concentravam-se principalmente em torno
de Nduga, na rea ocidental da atual Repblica de Ruanda. Eles utilizavam


34   KATOKE, 1975, p. 14.
35   GRAUD, 1977, p. 28.
36   Segundo PAGS: "A maior parte dos fazedores de chuva de Ruanda so descendentes dos chefes de
     cls bantu locais" (apud GRAUD, 1977, p. 30).
574                                                               frica do sculo xii ao sculo xvi



enxadas de ferro enormes e muito rudimentares37. Supunha-se que tivessem
sido eliminados pelos Babanda, muito tempo antes da chegada dos Batutsi38;
felizmente, sabemos agora que ainda se encontram Barengye no noroeste da
Repblica Unida da Tanznia e na parte ocidental da Repblica de Uganda, de
Bufumbira at Toro. Parece, assim, que essa antiga comunidade de lngua bantu,
que praticava a metalurgia do ferro, devia estar distribuda por Ruanda e pelo
sudoeste de Uganda, antes da chegada dos pastores  regio.Na maior parte dos
casos, era dos Barengye que provinham as famlias governantes.
    Outro cl de agricultores, que provavelmente se inclui entre os mais antigos
habitantes de Ruanda e do sudoeste de Uganda, so os Bungura, que, segundo
M. d'Hertefelt, ainda eram numerosos no Ruhengeri (noroeste da Repblica de
Ruanda) em 196039. Infelizmente, no se encontrou entre os Bungura nenhuma
tradio relativa a uma migrao ou  formao de um Estado  o que pode,
porm, constituir um indcio a mais da sua antiguidade na regio.
    Os Bazigaaba tambm parecem ser parte dos agricultores instalados h mais
tempo nessa regio. Sabemos que fundaram o Estado de Mubari no extremo
leste de Ruanda, com um rei (Kabeija) e um tambor real (sera), na mesma poca
em que os Banyiginya apareceram pela primeira vez na histria40. Mas tambm
so encontrados em grande quantidade no Nkore e na regio de Rujumbura, no
Kigezi. Em cada um desses trs lugares adotaram um totem distinto: o leopardo
em Ruanda, o antlope em Rujumbura e uma vaca rajada no Nkore. Como
assinalou D. Denoon:
      Essa distribuio e diversidade apontam, com segurana, para a existncia de um Estado
      multiclnico (provavelmente o de Mubari), de onde se teria originado uma longa dis-
      pora. Os emigrantes teriam conservado o nome de Bazigaaba, primeiro num sentido
      poltico e depois para designar uma categoria social, e tambm teriam mantido os emble-
      mas totmicos que caracterizavam os cls do Estado bazigaaba inicial 41.
   Havia outros grupos de fala bantu, como os Banyangwe, Basiita, Banuma e
Baitira, que desempenhavam papel importante na regio, no final do sculo XV,
quando os Bahinda comearam a dominar o Nkore.



37    RENNIE, 1972, p. 18-9.
38    GRAUD, 1977, p. 27.
39    HERTEFELT, 1971, quadro 8.
40    PAUWELS, 1967, p. 208.
41    DENOON, 1972, p. 6.
A regio dos Grandes Lagos                                                       575



   Para dar uma ideia do sistema poltico que se havia desenvolvido na parte
ocidental da regio interlacustre no comeo do sculo XV, mencionarei, enfim,
o cl dos Baishekatwa, cujo totem era o ensenene. Membros desse cl se encon-
tram em Ruanda (os Bahondogo, que j reinaram sobre o Bugyesera, seriam
seus descendentes), no Kigezi (onde eles so os mais antigos habitantes do
Rujumbura), em Tora e no Nkore. As tradies de Buganda tambm nos con-
tam que o cl ensenene chegou ao Buganda pelo oeste, seguindo Kimera, como
veremos adiante. Parece, portanto, que os Baishekatwa so um cl muito antigo,
de Uganda ocidental, estendendo-se do Busongora at o sul de Ruanda.
   At aqui s falamos dos agricultores de lngua bantu. Devemos agora tratar
dos pastores. Em primeiro lugar,  importante reiterar o que j foi dito, que a
origem dos pastores nessa regio  incerta. Alguns autores afirmaram que eles
vieram do norte mas, como observou J. K. Rennie,
      impossvel excluir uma origem local do pastoralismo  talvez no Karagwe ou em
     suas proximidades42.
Em segundo lugar,  necessrio revisar a opinio  to amplamente difundida
 de que os pastores j teriam chegado  regio como conquistadores, estabe-
lecendo aristocracias pastoris sobre as populaes de agricultores. Da mesma
forma que no Kitara, podem-se citar vrios casos de coexistncia pacfica entre
pastores e agricultores43. Na verdade, at o sculo XV, quando surgiram vrios
Estados pastoris (como veremos a seguir), foi sobretudo dos cls de agricultores
que se originaram as dinastias reinantes.
    Um grupo como o dos Bariisa, por exemplo,  considerado um dos mais
antigos cls pastoris da regio. Segundo suas tradies, eles emigraram do norte
 possivelmente do Bunyoro  para o Karagwe, no sul, e depois voltaram para
o norte percorrendo os atuais territrios do Kigezi e Ankole ocidental. Quando
chegaram ao Mpororo, os membros do cl se dispersaram nas mais diversas
direes. Entre eles, estava uma famlia de trs irmos  Kateizi, Kinyonyi e
Rugo  e uma irm, Iremera, que foram guiados por uma guia at a corte do
rei Wamara, ltimo dos soberanos bachwezi. Kateizi desistiu da empreitada, para
se fixar no Buhweju, onde se casou com mulheres da regio, tornou-se agricultor
e fundou o subcl dos Bateizi. Os outros dois irmos e a irm prosseguiram at
chegarem, finalmente,  corte dos Bachwezi. Iremera casou-se com o rei, Rugo
foi nomeado governador de Buzimba e Kinyonyi tornou-se representante de

42   RENNIE, 1972, p. 23.
43   KARUGIRE, 1971, p. 122-3.
576                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




F igura 20.2 Mapa da localizao dos Bachwezi e dos imigrantes. (B. A. Ogot.)
A regio dos Grandes Lagos                                                                  577



Wamara no Buhweju. Cada um deles recebeu do soberano um tambor real e
100 cabeas de gado44. Dessa tradio se evidencia que nem todos os pastores
comearam como dirigentes; e o caso dos Bateizi comprova que alguns deles
jamais tomaram o poder.
    Entre os grupos de pastores que emigraram mais tarde, incluem-se trs cls
que tiveram papel determinante na fundao de novos cls no Nkore, Karagwe,
Ihangiro e Kiziba. So eles os Bashambo, os Basiita e os Bahinda. A tradio
registra que os Bashambo, vindos do norte, se estabeleceram em Ndorwa e suas
cercanias, no nordeste de Ruanda, depois se dispersaram para o norte e o leste,
pelo Nkore e o Kigezi oriental45. Eram provavelmente Bahima os que ingressa-
ram no Estado de Kitara antes ou durante o reinado dos Bachwezi. Parece que
os Basiita se orientaram numa direo oposta  dos Bashambo. Aparentemente,
partindo do Karagwe ou de suas adjacncias, seguiram para o norte. Durante o
perodo bachwezi, foram nomeados Basiita para governar o Karagwe e o Nkore
 esses postos couberam, respectivamente, a Nono e Karara.
    Assim chegamos ao ltimo grupo, o dos Bahinda. Existe muita controvrsia a
respeito de sua origem. Segundo as tradies nkore, os Bahinda seriam descenden-
tes dos Bachwezi, e Ruhinda  fundador de uma srie de dinastias no Karagwe,
Kyamutwara, Nkore e Ihangiro  seria filho de Wamara, ltimo rei dos Bachwezi46.
Luc de Heusch, porm, sugeriu que os Bahinda seriam nilotas. Afirma que os Luo,
invadindo o Bunyoro, venceram os Bachwezi; estes ento se retiraram para o sul, at
Bwera e Nkore, que estavam protegidos das incurses dos luo pelas fortificaes de
Bigo. Contudo, foram flanqueados pelos Bahinda (um ramo dos Luo), que chegaram
at eles depois de atravessarem o Karagwe. Os Bahinda conseguiram uma vitria
decisiva sobre o rei Wamara no Nkore, e assim puderam instituir novas dinastias no
Nkore, Karagwe, Ihangiro e Kyamutwara. Essa teoria, porm, foi refutada, de maneira
convincente, por S. R. Karugire47.
    Por outro lado, D. Denoon defendeu a tese de que
     Ruhinda era um Mugyesera, do Gisaka, que ou estava ampliando o territrio de seu
     Estado, ou tinha rompido com ele48.



44   KANYAMUNYU, 1951.
45   As mulheres bashambo  ao que se afirma  casaram-se com homens bachwezi. Ver GRAUD, 1977;
     HEUSCH, 1966.
46   KARUGIRE, 1971, p. 126-7.
47   Ibid., p. 126.
48   DENOON, 1972, p. 10.
578                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi



Para sustentar essa afirmao, assinala que os Bagyesera e os Bahinda possuem
o mesmo totem, um macaco; que os Bafumbira e Batoro chamam o Nkore pelo
nome de "Bugyesera", ou seja, "reino dos Bagyesera"; que a completa ausncia
do cl bagyesera no Nkore, contrastando com a presena de membros desse
cl em todas as zonas que o circundam, s pode ser explicada se admitimos
que Bahinda seja o nome local dos Bagyesera; e, finalmente, que a conhecida
magnitude do poder dos Bagyesera  compatvel com esta teoria. Eles consti-
turam o poder predominante no Nkore ocidental e no Kigezi oriental at o
fim do sculo XVII, e suas incurses setentrionais chegaram at o Busongora e
Mwenge. Contudo, tudo o que D. Denoon demonstrou foi que havia um grupo
pastoril predominante na regio, que talvez pudesse se identificar como sendo os
Bagyesera. Mas no parece estar provada a identificao dos Bagyesera com os
Bahinda, especialmente porque Denoon no conseguiu demonstrar que existisse
uma relao entre Ruhinda e os Bagyesera.
    Parece que as tradies bunyoro registradas por J. Nyakatura fornecem uma
explicao aceitvel para a origem de Ruhinda. Este teria sido um rico pas-
tor muhima, dos tempos do rei Wamara49. Tornou-se importante na corte dos
Bachwezi, sendo nomeado chefe dos rebanhos. Quando Kagoro deu o golpe
de Estado, Ruhinda levou parte dos rebanhos reais para o Karagwe. Segundo
as tradies locais, foram Ruhinda e seus seguidores que introduziram o gado
de chifres longos no Karagwe. Nessa poca, eram os cls basiita e banyangwe
 que tinham recebido dos Bachwezi tambores, smbolos de autoridade  que
governavam essa regio meridional. Nono, um membro do cl basiita, governava
o Karagwe, enquanto Nkombya e Karara, ambos do cl banyangwe, governavam
respectivamente o Ihangiro e o Nkore.
    So poucos os reis dessa poca cujos reinados podem ser datados com tanta segu-
rana como o de Ruhinda. As dinastias de quatro Estados (Buzinza, Kyamutwara,
Karagwe e Nkore) pretendem descender de seus filhos. Combinando os clculos
fundados nessas quatro genealogias, obtemos as datas de c. 1405-1447 para Ruhinda.
As tradies kiziba citam Ruhinda na gerao de c. 1417-1444.
    Quando Ruhinda chegou ao Karagwe, valeu-se da sua enorme riqueza em
gado para afastar Nono do poder. Tratou, ento, de estabelecer uma slida base
de operaes no Karagwe, antes de se dirigir rumo ao norte, para o Nkore.
Assegurou-se do controle desta ltima regio mediante acordo poltico com o
importante e influente cl banyangwe. Em troca do reconhecimento da liderana

49    NYAKATURA, 1947, p. 65-6, 290; ver tambm o manuscrito indito de LWAMGIRA, F. X. "Histria
      de Karagwe, Ihangiro, Nyamitwara etc." p. 1-3.
A regio dos Grandes Lagos                                                  579



de Ruhinda, os Banyangwe receberam a garantia de que no seriam perseguidos
e teriam respeitadas as propriedades. Da mesma forma que Rukidi, tambm
Ruhinda montou uma propaganda bem elaborada, com o fim de convencer seus
sditos de que ele descendia dos Bachwezi.
    Deixou o filho Nkuba governando o Nkore e voltou a ateno para
Kyamutwara e Ihangiro. No primeiro, matou Mashare, o delegado local de
Wamara, e substituiu-o por outro de seus filhos, Nyarubamba. No Ihangiro,
provavelmente agiu por meio de colaboradores locais, que envenenaram outro
representante de Wamara, de nome Ihangiro, membro do cl abayango, e
enviou o filho mais moo, tambm chamado Ruhinda, para reinar nessa rea.
Finalmente, invadiu o Buzinza, deps Nshashame e instalou mais um filho
em seu lugar50. Assim, depois de implantar sua base no Karagwe, Ruhinda
rapidamente conquistou todas as regies vizinhas, nelas substituindo os repre-
sentantes dos Bachwezi pelos filhos. Quando morreu, em Buzinza, estava a
caminho de criar no sul um Estado bahinda semelhante ao Estado babito do
norte, ou ao Estado ruanda institudo pelos Banyiginya do Buganza. Com
sua morte, porm, essa vasta rea sob sua influncia desagregou-se. Os filhos,
que eram seus mandatrios, tornaram-se soberanos independentes, fundando
as dinastias do Karagwe, Ihangiro, Kyamutwara e Buzinza. Esses Estados
bahinda que sucederam ao Imprio de Kitara eram pequenos, e assim per-
maneceram por muito tempo.
    Desta exposio se evidencia que ao "desaparecimento" dos Bachwezi se seguiu
a formao, na regio interlacustre, de uma srie de Estados: Gisaka, os Estados
bahinda, Ruanda, Ndorwa (dos Bashambo), os Estados babito e Buganda (de
que ainda no falamos). Com a possvel exceo do Buganda, a maior parte dos
novos Estados tinha elementos pastoris bem marcados. Ruhinda era um criador
de gado; os Bagyesera, Banyiginya e Bashambo eram pastores, e os Babito, de
caadores e agricultores que tinham sido, rapidamente assumiram todas as carac-
tersticas dos demais grupos governantes, pastores.


     O complexo de Ruanda
   Para estudarmos a histria mais antiga de Ruanda, adotaremos aqui o
esquema de J. Vansina51, com as modificaes propostas por J. K. Rennie em


50   KARUGIRE, 1971, p. 130-1, 137-42.
51   VANSINA, 1960.
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um importante ensaio52. Ao fazer isso, estamos conscientes da enorme influncia
que os trabalhos de Kagame53 e os dos membros da Associao dos Missionrios
Africanos (Frades Brancos) geralmente exercem sobre os estudiosos do perodo;
mas esses trabalhos padecem de duas graves deficincias: em primeiro lugar,
eles se restringem s cortes reais, e por isso pouco nos dizem das reaes das
sociedades que estavam sendo incorporadas ao Estado de Ruanda; em segundo
lugar, a sua objetividade  severamente limitada pela adeso de seus autores 
teoria "hamita", hoje considerada caduca.
    Em sntese, Kagame e a Associao dos Missionrios Africanos sustentam que
o territrio da atual Repblica de Ruanda era anteriormente povoado por uma
mistura heterognea de famlias e cls bantu, que demonstravam escassa organi-
zao poltica. Um grupo homogneo de pastores "tutsi hamitas", vindos do norte,
ento chegou  regio, nela introduzindo a criao de animais, o trabalho do ferro,
o conceito de realeza, uma hierarquia social assentada em castas e vrias culturas
agrcolas at ento desconhecidas. Sob a direo de seu chefe, Gihanga, eles esta-
beleceram vrias dinastias "tutsi", a partir do sculo X da era crist, que depois se
integraram para formar o Estado de Ruanda. Por diversos meios  a diplomacia,
as conquistas e o poder econmico esteado na posse do gado , esse Estado "tutsi"
se expandiu gradativamente, at cobrir todo o territrio da atual Repblica de
Ruanda. Os povos vencidos foram assimilados graas a um sistema que os con-
vertia em vassalos; assim, os Bantu (Hutu) receberam o direito de utilizar o gado
em troca de sua lealdade e da prestao de servios. Esses acontecimentos tambm
assinalaram a origem do sistema de classes em Ruanda, ou o que o socilogo J. J.
P. Maquet chamou de "a premissa da desigualdade em Ruanda" 54.
    Para apresentarmos um quadro equilibrado da histria de Ruanda,  indis-
pensvel que examinemos a histria dos Estados e sociedades da poca anterior
aos Nyiginya.
    Segundo as tradies,  quase certo que os primeiros habitantes da regio
fossem Batwa, que viviam nas florestas, de caa e coleta; alm disso, praticavam
a cermica e a cestaria. Mais tarde, quando comearam a chegar agricultores, que
derrubaram partes da floresta para ali se fixarem, os caadores vieram oferecer-lhes
peles e carnes, em troca de sal e objetos de ferro.
    Os agricultores de lngua bantu cultivavam sorgo, criavam gado e abelhas,
caavam e ainda praticavam um artesanato rural. Vestiam-se com peles de cabra

52    RENNIE, 1972.
53    KAGAME, 1954, 1959, 1961, 1963.
54    MAQUET, 1961.
A regio dos Grandes Lagos                                                      581



e cascas de rvores. Organizavam-se em linhagens e cls, sob a direo de seus
respectivos chefes55.
    No sculo XV, grande parte dos povos de lngua bantu estava organizada em
pequenos Estados, cada um dos quais compreendia vrias linhagens submetidas a
uma linhagem dominante, e era dirigido por um mwami (chefe ou rei), que era ao
mesmo tempo chefe territorial e dirigente religioso encarregado de fazer chover56. A
situao assemelhava-se, portanto,  que descrevemos para o complexo de Ruhinda.
H elementos para se afirmar que algumas dessas linhagens  como a linhagem
Rubunga do cl singa, e a linhagem Heka do cl zigaba  j tinham gado antes
mesmo de se estabelecer em Ruanda o cl dos Nyiginya. Vrios Estados importantes
tambm j estavam constitudos antes da chegada desse cl. Cada um deles estava
sujeito ao controle de um cl dominante, mas  bom recordar que os nomes de cls,
nessa poca, eram mais propriamente etiquetas polticas do que denominaes para
grupos exogmicos que descendessem de um ancestral epnimo.
     do consenso geral que, antes dos Nyiginya, sete grandes cls formavam
Estados: Singa, Zigaba, Gesera, Banda, Cyaba, Ongera e Enengwe57. Os trs
primeiros so considerados como abasangwabutaka, o que significa "os que
estavam aqui antes de todos os outros", ou seja, os primeiros donos da terra
em Ruanda58. Qual era a natureza desses Estados? Como foram incorporados
a Ruanda? Discutiremos aqui a primeira dessas questes, mas a segunda extra-
polaria o quadro de nosso estudo.
    De acordo com as tradies tutsi, o mais antigo Estado em Ruanda pro-
vavelmente foi fundado pelas linhagens renge do cl Singa. Compreendia a
maior parte do territrio atual da Repblica de Ruanda, com exceo da parte
oriental, mas era muito frgil sua organizao, e seu nome sequer foi conservado
pela histria. Contudo, o que as tradies evidenciam  que os Renge tinham
elaborado um complexo sistema de monarquia ritual. Sabemos que, em fins do
sculo XVI, um corpo de especialistas nos ritos, conhecidos como os Tege e que
alegavam descender de Nyabutege, foi integrado s instituies do Estado de
Ruanda. Supunha-se que Nyabutege fosse um descendente de Rubunga, espe-
cialista do ritual renge, de quem Gihanga, fundador dos cls tutsi de Ruanda,
tirou a ideia do tambor real e o cdigo do ritual renge de realeza59. Em meados


55   HERTEFELT, 1962, p. 41-4; VANSINA, 1960, p. 78.
56   VANSINA, 1960, p. 77-8.
57   KAGAME, 1955.
58   KAGAME, 1954, p. 56.
59   KAGAME, 1955, p. 13.
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do sculo XVII, todos os Estados renge haviam sido anexados pelo Estado de
Ruanda.
    No extremo leste de Ruanda se situava o Estado de Mubari, pertencente ao
cl Zigaba, ocupando, ao que parece, vasta regio. O cl nyiginya  mencionado
pela primeira vez na histria de Ruanda no momento em que os Zigaba lhe
doam a colina de Gasabo60, autorizando-o a ter seu prprio chefe, porm sob
a condio de reconhecer-se submetido aos Zigaba. Nessa poca, foram fre-
quentes os casamentos entre membros dos dois grupos. O Estado de Mubari,
contudo, perdeu completamente sua independncia no final do sculo XVI,
quando o soberano ruandense Yuki II Gahima retirou dos Zigaba seu tam-
bor real, sera. Embora perdendo a independncia poltica, a dinastia conseguiu
sobreviver at a segunda metade do sculo XVIII, quando Kigeri III Ndabarasa
(1765-1792) matou o seu rei e ps fim  dinastia. Pequenos grupos de Zigaba
ento emigraram para diversas partes do sudeste de Uganda, onde, conforme j
vimos, tiveram papis de destaque.
    Parentes prximos dos Zigaba eram os Gesera, que governavam o pode-
roso Estado de Gisaka, no sudeste de Ruanda, e provavelmente tambm o de
Bugyesera. O Gisaka conseguiu manter sua independncia at o sculo XIX,
quando terminou por se desintegrar e foi anexado pelo mwami Rwogera (c.
1830-1860). Mas os Gesera continuaram a governar, at o sculo XX, dois
pequenos Estados que se tinham separado do Gisaka: o Busozo, no sudoeste
de Ruanda, aparentemente fundado no comeo do sculo XVII, e o Bushiru,
no noroeste61.
    No centro-norte de Ruanda existia outro Estado  o Busigi , que tinha um
chefe fazedor de chuva, e s foi incorporado a Ruanda no incio do sculo XX62.
    Vrios outros Estados menores poderiam, ainda, ser mencionados. Acre-
ditamos, porm, que j demos exemplos em nmero bastante para provar que
a autoridade de Ruanda no foi imposta a povos que viviam sem Estado. O
Gisaka, para citar um s caso, durante muito tempo foi to bem organizado
quanto Ruanda, no incio de sua histria. Esses Estados, de dimenses e poder
variveis, tinham desenvolvido instituies monrquicas, assim como ritos que
visavam agir sobre a terra e a chuva. Algumas dessas instituies polticas e
religiosas foram adotadas pelo jovem Estado de Ruanda  medida que ele foi
se expandindo, nos trs sculos seguintes. Na verdade, se os ritos da corte de

60    KAGAME, 1954, p. 53-4.
61    ARIANOFF, 1952.
62    PAUWELS, 1967, p. 223.
A regio dos Grandes Lagos                                                                        583



Ruanda eram eficazes no plano poltico, isto se devia em grande medida ao
fato de eles incorporarem rituais agrcolas e pastoris, e de algumas importantes
funes rituais terem sido confiadas a agricultores que, assim, adquiriram par-
ticipao e interesse no sistema.
    Mais ou menos a partir do sculo XV, aumentou rapidamente o nmero de
pastores nesses Estados. Inicialmente, no constituam uma casta dominante, e
pode at ser que em algumas reas tenham desempenhado o papel de "clientes"
dos agricultores. Jan Vansina apresentou provas suficientes para demonstrar que,
no nordeste, no noroeste e no oeste de Ruanda, pastores e agricultores conviviam
em paz. O sistema de vassalagem que viria a caracterizar as relaes entre os dois
grupos se desenvolveu depois de 1500, quando ambos tiveram de se integrar a
um novo Estado de Ruanda.
    Embora sempre haja riscos em se tentar explicar o passado pelo presente, em
geral admite-se que pelo menos nove dos grandes cls de Ruanda sejam Tutsi
e, portanto, tenham origem pastoril. Esses cls so os dos Sindi, Nyakarama,
Ega, Shambo, Sita, Ha, Shingo, Kono e Hondogo. Eles elaboraram uma rvore
genealgica nacionalista, que faz todos os Tutsi descenderem do fundador mtico
Gihanga.
    Esses pastores no se deslocavam em grupos numerosos e homogneos; ao
contrrio, foram chegando em pequenos grupos, at que, no final do sculo XV,
se consideraram fortes o bastante para se organizar em linhagens, no sul, onde
logo entraram em conflito com os agricultores. Contudo, com exceo de dois
grupos, nenhuma dessas linhagens era suficientemente poderosa, no sculo XV,
para constituir um Estado independente. As excees foram os Hondogo e os
Nyiginya. Os primeiros estavam estabelecidos s margens do lago Mugesera, no
sul, e tinham uma organizao poltica que lhes possibilitou expulsar os Gesera
para o Gisaka, a leste. Os Nyiginya formariam a dinastia reinante de Ruanda.
Tinham vindo do Mubari, a leste, e tinham se instalado  como j vimos  no
Gasabo, no centro de Ruanda, s margens do lago Muhazi. Ao terminar o
sculo XV, haviam conseguido formar um Estado centralizado, cujas instituies
incorporavam tanto pastores quanto agricultores. A formao de um Estado
independente de Ruanda, sua consolidao e expanso so assuntos que fogem
ao perodo que ora estudamos63.



63   Segundo a cronologia de RENNIE, 1972, que  uma verso modificada da proposta por VANSINA,
     1960, apenas trs reis pertencem ao perodo de que ora nos ocupamos: Ndahiro Ruyange (1424-1451),
     Ndoba filho de Ndahiro (1451-1478) e Samembe filho de Ndoba (1478-1505).
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      A regio do Buganda, Busoga e do monte Elgon
   Segundo D. W. Cohen, entre os sculos XII e XV vrios cls de lngua bantu
deixaram a regio do monte Elgon-lago Vitria. No so claras as razes para
essa grande migrao. M. S. M. S. Kiwanuka sugeriu que
      o avano dos Luo para sudeste tenha exercido certa influncia sobre esses deslo-
      camentos de populao64,
mas, na verdade, esses movimentos comearam, como as prprias tradies dos
Luo mostram muito bem, pelo menos um sculo antes da primeira migrao
dos Luo na regio.
    Esses emigrantes bantu desempenhariam importante papel na evoluo pol-
tica de sua nova ptria a partir do sculo XII. Entre eles se contava o grupo dos
cls de Kintu, que, segundo Cohen, parecem ter-se fixado ao sul do lago Kyoga
e foram responsveis pela fundao de vrios pequenos Estados, inclusive o de
Buganda, na margem norte do lago Vitria65.
    No sabemos se uma pessoa de nome Kintu realmente existiu. O que parece
evidente  que essa personagem est associada a uma srie de cls de lngua bantu,
que tm como totens o leopardo e o leo. Segundo as tradies do Buganda,
os principais lugares em que Kintu se deteve  como Nnono, Buvvi, Bukesa,
Mangira, Magonga, Butwala etc.  correspondem s terras ocupadas pelo cl do
leopardo, no Buganda. Da mesma forma, Kanyanya e Lwada, que hoje contam
entre os principais territrios do cl do leo no Buganda, so considerados tra-
dicionalmente como pontos em que Kintu tambm se deteve.
    Antes da chegada do complexo de cls leo-leopardo, a margem setentrional
do lago Vitria j era habitada por diversos cls de lngua bantu, como os do
pangolim, do almiscareiro, do macaco Colobus, do passarinho, do peixe Protopterus
e do antlope Redunca. Em Buganda, estes cls recebem o nome de banansagwa,
isto , "os encontrados aqui". Politicamente, esses cls eram dirigidos por chefes
independentes uns dos outros. Contudo, o cl do antlope Redunca havia esta-
belecido, no que hoje  o Busoga meridional, a chefaria multiclnica de Bugulu,
dirigida pelo igulu. A vida dessa comunidade estava centrada numa impor-
tante indstria cermica e num grande templo religioso, ambos controlados
pela linhagem dominante dos Abaiseigulu. Esse cl tinha migrado ao longo da



64    COHEN, D. W., 1972, especialmente as p. 70 et seqs.
65    KIWANUKA, 1971, p. 33.
A regio dos Grandes Lagos                                                      585



margem setentrional do lago Vitria, seguindo o rumo leste-oeste. Seu primeiro
encontro com os cls do leo-leopardo aconteceu em Bugulu.
    O cl do peixe Protopterus tambm pertence aos banansagwa, que encon-
traram o complexo de Kintu na regio de Bugulu. Segundo suas tradies,
recolhidas por D. W. Cohen no Busoga, Buganda e nas ilhas do lago Vitria,
eles provinham de um lugar chamado Bumogera, entre Kisumu e o monte
Elgon, onde se destacavam como pescadores e ferreiros. (Para os cls e lugares
aqui mencionados, ver fig. 20.3.) No sabemos exatamente quando nem por
que deixaram seu lugar de origem. Partindo de Bumogera, atravessaram o lago
Vitria; alguns foram para o sul do Busoga, outros para as ilhas Buvuma, outros
ainda para o Busagazi, na costa do Kyaggwe. Deste ltimo ponto, um chefe
de cl chamado Mubiru se dirigiu para Mangira, no interior das terras, onde
encontrou Kintu.
    Os membros do cl que seguiram para o sul do Busoga eram chefiados por
Walumbe e encontraram o grupo de Kintu no Bugulu. Parece que foi nesse
momento que a personagem real ou simblica de Kintu despontou como chefe
do grupo leo-leopardo. Ele se casou com Nambubi, filha de Walumbe, e assim
comeou a importante associao entre os cls do leo-leopardo e o cl do peixe
Protopterus. A chegeda desse grupos de imigrantes obviamente preocupou o
igulu. Segundo a tradio, foi ele quem  utilizando provavelmente um orculo
 aconselhou Kintu e as famlias leo-leopardo a partirem.
    Kintu e seus seguidores decidiram seguir para oeste. Assim atingiram o
Buswikira, que ainda hoje  considerado, nas tradies busoga, como o "ponto
de chegada" de Kintu e Nambubi na sua viagem comeada em Ggulu, isto , no
"paraso". Esse lugar que a histria da gnese do Buganda chama de Ggulu, ou
"paraso", que Kintu deixa para trs, parece ser uma representao simblica do
Bugulu e seu santurio. Logo a eles se juntaram, no Buswikira, seus parentes por
afinidade, os membros do cl do peixe Protopterus, chefiados por Walumbe. No
demorou, porm, a surgir uma luta entre o cl do leo-leopardo e o do peixe Pro-
topterus a respeito da diviso das terras, o que levou o ltimo grupo a estabelecer-
-se um pouco mais a oeste, no Buyanirwa. As tradies dos Abaisemaganda do
Busoga apresentam Walumbe como a principal de suas divindades, cujo santurio
 sempre cuidado por membros do cl do peixe Protopterus. Segundo as tradies
busoga, Buswikira foi o centro das atividades de Kintu no Busoga; tambm dizem
elas que os grupos dirigentes abaiseisumbwa e abaisekuyema, que fundaram as
chefarias do Bunyole, Bukasango e Bukyema s margens do lago descendem
dos filhos de Kintu.
586                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi
F igura 20.3   Mapa do itinerrio do complexo de Kintu e do complexo de Kimera. (B. A. Ogot.)
A regio dos Grandes Lagos                                                   587



    Do Busoga, Kintu teria emigrado para oeste, at o territrio que iria consti-
tuir o ncleo do Buganda. Afora os cls leo-leopardo, dizem as tradies que
os seguintes cls acompanharam Kintu ou se juntaram a ele em sua marcha para
oeste: elefante, lontra, antlope Cephalophus, hipoptamo, co e inhame. Tam-
bm encontraram uma parte do cl do peixe Protopterus, chefiada por Mubiru,
que chegara antes  regio e era hostil a Kintu e aos seus seguidores. Mas a
ameaa mais sria para Kintu veio do rei Bemba do Buddu. Tirando a chefaria
do Bugulu, da qual j tratamos, a chefaria de Bemba (no Buddu) era a nica
organizao poltica multiclnica bantu da poca anterior a Kintu, nas regies
que correspondem aos atuais Busoga e Buganda. No demorou a eclodir um
conflito entre Kintu, que se aliara com um dos cls autctones (o do macaco
Colobus), e o rei Bemba. Este foi morto, e Kintu (ou seu sucessor) comeou ento
a estabelecer o ncleo do que se converteria no Estado de Buganda.
    Esta reconstruo das histrias do Buganda, Busoga, Uganda oriental e
Qunia ocidental durante o perodo considerado permitiu-nos enfatizar o ponto
que levantamos no comeo do captulo  a saber, que vrios pequenos Estados
haviam sido fundados na regio interlacustre, por agricultores de lngua bantu,
antes que os grupos pastoris comeassem a ter papel poltico importante. Parece
que na rea examinada, no perodo entre 1200 e 1500, as atividades dos pastores
conservaram um carter marginal. O Buganda, em especial, e, em certa medida,
os pequenos Estados do Busoga, desenvolveram-se como Estados florestais,
cujas economias dependiam mais da agricultura que de uma combinao de
agricultura com pecuria, com seus consequentes sistemas de castas e estrutu-
ras de classes. At do ponto de vista demogrfico sabemos que os banansagwa
(povos autctones do Buganda) eram agricultores; os cls de Kintu tambm o
eram; e Kimera e seus seguidores, que vinham do oeste e cuja histria agora
vamos contar, tambm se tornaram, basicamente, agricultores.
    Tanto D. W. Cohen quanto C. A. Buchanan observaram que alguns dos cls
do complexo de Kintu parecem ter se dirigido para oeste, penetrando no Kitara66.
Como a chegada dos grupos de Kintu ao centro do que hoje  o Buganda,
segundo Cohen67, parece ter sido imediatamente anterior ao comeo do reinado
dos Bachwezi em Uganda ocidental, torna-se inteiramente plausvel que o grupo
que emigrava para oeste chegasse ao Kitara em tempos do rei Wamara, como
indicamos acima. Por essa poca uma pessoa de nome Kantu j se destacara
como lder dos imigrantes originrios do leste. O rei Wamara, dissemos, firmara

66   BUCHANAN, 1974.
67   COHEN, D. W., in WEBSTER, 1978.
588                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



com ele um pacto de sangue, dentro de sua poltica de assimilao dos imigran-
tes. Mas esse grupo oriental parece ter constitudo uma grave ameaa a Wamara.
Seu chefe, Kantu, foi morto, o que, segundo as tradies bunyoro, comprometeu
em muito a estabilidade do imprio68. Sentindo-se em perigo, diversos grupos
de cls comearam a migrar, rumo s florestas tropicais que se estendem ao
longo da margem setentrional do lago Vitria. Essa migrao oesteleste at
o Buganda leva-nos a abordar um dos problemas histricos no resolvidos da
regio interlacustre  o que se refere ao complexo de Kimera.
    Kimera (c. 1344-1374)  frequentemente identificado com a regio do Kitara.
Alm disso, o que  mais importante, ele  considerado o fundador de uma nova
dinastia na pequena chefaria do Buganda69. A maior parte das controvrsias a
seu respeito versa sobre a identidade de seu cl. Uma tradio vinculou-o ao
cl do antlope Tragelaphus scriptus, de origem luo. Outra tradio filia-o ao cl
do gafanhoto, dos Bahima. Por essa razo, M. S. M. S. Kiwanuka, por exemplo,
sustenta, baseando-se na histria do cl do gafanhoto escrita por A. Kaggwa,
que Kimera provavelmente seria um membro da Dinastia Basonga, que se havia
estabelecido no Kisozi. De qualquer forma, ele acrescenta, abonando as palavras
de J. L. Gorju, para quem:
      Kimera parece ter chegado ao Buganda antes que os primeiros governantes babito
      penetrassem no Bunyoro70.
Na verdade, porm, o que devemos considerar importante no  a identidade
pessoal de Kimera; deveramos tentar entender o sentido das tradies relativas
a ele ou aquilo que denominamos "o complexo de Kimera".
    Essas tradies parecem referir-se s migraes de diversos grupos que fugi-
ram do Imprio Bachwezi para as florestas equatoriais, desde os tempos de
Ndahura at a runa daquele imprio. Inicialmente, parece que tentavam escapar
da insegurana generalizada que resultara das campanhas militares de Ndahura.
O prprio Kimera parece ter deixado Kitara nessa poca. Com a morte de
Kantu, a que se seguiu a queda do Imprio Bachwezi, novos refugiados deixaram
Kitara para se refugiar no Buganda, ou no Nkore, ou ainda em outras reas que
apresentavam um quadro de estabilidade poltica.
    A tradio  omissa quanto aos itinerrios que esses refugiados tomaram. 
muito possvel que os primeiros grupos, como aquele a que pertencia Kimera,


68    NYAKATURA, 1947.
69    KIWANUKA, 1971, p. 36-41.
70    Ibid., p. 40-1; KAGGWA, 1905; GORJU, 1920.
A regio dos Grandes Lagos                                                   589



tenham estabelecido aglomeraes ou mesmo Estados no seu trajeto, da mesma
forma que os cls leo-leopardo estavam fazendo no Busoga. Ademais, esses
grupos de refugiados compunham-se de vrios cls e falavam diversas lnguas.
Alguns deles eram, provavelmente, grupos indgenas do Kitara que falavam o
bantu; outros eram pastores Bahima; havia caadores e agricultores luo; e, ainda,
cls bantu que procediam do complexo de Kintu. De acordo com as tradies
do Buganda, o complexo de Kimera englobava os seguintes cls: do bfalo, do
antlope Tragelaphus scriptus, do gafanhoto, do esquilo, da gralha e do cervo.
Assim, aquele que recolher as tradies do cl do antlope Tragelaphus scriptus
no Buganda  como fez J. P. Crazzolara  haver forosamente de concluir
que Kimera e seus seguidores eram luo; mas, se estudar unicamente o cl do
gafanhoto  como fizeram A. Kaggwa e seu tradutor, M. S. M. S. Kiwanuka
, ter de deduzir que eles eram Bahima71. Por outro lado, se se invocar a data
em que estabeleceu a dominao babito no Bunyoro-Kitara como argumento
para descartar a hiptese de que Kimera fosse de origem luo, convir recordar
que muitos grupos luo precederam os Babito no Bunyoro, como j observamos
anteriormente.
    Esses povos que fugiam de diversos regimes polticos teriam, naturalmente,
ideologias contrrias aos Bachwezi, aos Babito e aos Bahima. No se estranhe,
ento, que as tradies que ligavam o Buganda a qualquer um desses trs grupos
tenham sido suprimidas, mesmo quando existiam provas extremamente consis-
tentes de tal ligao. Por exemplo, se compararmos as tradies bachwezi do
Bunyoro e Nkore com as do Buganda, que raramente mencionam os Bachwezi,
encontraremos vrias semelhanas, que os historiadores no podem ignorar. No
Bunyoro e Nkore, afirma-se que o porteiro do rei Isaza de Kitara era Bukulu,
do cl balanzi. As tradies do cl da lontra das ilhas Sese (que  o mesmo
que o cl balanzi) tambm se referem a um Bukulu. No Bunyoro e Nkore, a
filha de Bukulu  que foi me do rei Ndahura  chamava-se Nyinamwiru; o
equivalente kiganda  Namuddu, nome que se repete com muita frequncia nas
lendas de Sese. Nas regies a oeste, conta-se que o neto de Bukulu tinha o nome
de Mugasha, enquanto a tradio do Buganda o chama de Mukasa. Dizem as
tradies do Nkore que Mugasha desapareceu no lago Vitria; as do Bunyoro
afirmam que o rei Wamara desapareceu no mesmo lago e que tambm foi res-
ponsvel pelo surgimento do lago Wamala. J no Buganda, este ltimo feito 
atribudo a Wamala, um descendente de Bukulu. Alm disso, assim como os


71   CRAZZOLARA, 1950-1954; KAGGWA, 1971.
590                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



espritos bachwezi so deificados no complexo de Kitara, os Buganda divinizam
os espritos de descendentes de Bukulu, como Nende e Mukasa. No ser pos-
svel, ento, que os descendentes de Bukulu, no Buganda, fossem Bachwezi?
    Voltemos agora aos cls de imigrantes que constituram o complexo de
Kimera. Se deixaram o Bunyoro em pocas diferentes, tambm devem ter che-
gado ao Buganda em tempos distintos. Contudo, desafortunadamente, todos
esses cls refugiados, pouco importando a data de sua chegada, hoje se con-
sideram como tendo pertencido ao grupo de Kimera. A principal razo para
isso  que as pessoas gostam de se associar ao sucesso. Kimera, liderando seus
grupos refugiados, fundou uma nova dinastia e um Estado que unificou os 35
cls de variada provenincia que se haviam estabelecido na regio. Todos esses
cls desejavam associar-se  realeza; da nasceu no Buganda o costume de cada
cl oferecer esposas ao kabaka (rei), tendo assim oportunidade de lhe dar um
sucessor72.
    Por volta de 1500 assim se encerrava, na histria do Buganda, o perodo de
migrao e implantao do novo reino. A sua consolidao e expanso eram
tarefas que pertenciam ao futuro.




72    KIWANUKA, 1971, p. 91-110.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                     591



                                     CAPTULO 21


      As bacias do Zambeze e do Limpopo,
                entre 1100 e 1500
                                     Brian Murray Fagan




    Culturas e sociedades na Idade do Ferro
    por volta do ano 1000
    Pelo final do primeiro milnio da era crist, os povos cujo desenvolvimento
os situava na Idade do Ferro ocupavam a maior parte da regio de savanas arbo-
rizadas que se situa entre os rios Zambeze e Limpopo, chegando at o oceano
ndico, a leste, e cobrindo, ao norte do Zambeze, os atuais territrios da Zmbia
e do Malavi1. Descendentes de grupos de caadores do fim do Neoltico ainda
viviam em bolses mais remotos da savana arborizada, entrando esporadica-
mente em contato com seus vizinhos agricultores e morando em abrigos nos
rochedos ou pequenos acampamentos a cu aberto, nos quais foram encontradas
ferramentas por eles utilizadas, ao lado de cermica da Idade do Ferro. Outros
povos que praticavam a caa e a coleta, ancestrais dos grupos san de nossos
dias, tambm ocupavam boa parte da regio do Kalahari, ao sul e ao oeste das
savanas arborizadas, territrio este que conservaram at tempos mais recentes.
Os povos da Idade do Ferro, nessa vasta zona do sul da frica central, eram em
sua maior parte camponeses que se dedicavam a uma agricultura de subsistncia;
sua produo de alimentos concentrava-se na criao de animais de porte grande


1   FAGAN, 1967-1969.
592                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 21.1   Mapa dos stios e tradies arqueolgicas mencionados no texto. (B. M. Fagan.)
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                             593



e pequeno e no cultivo de cereais como o sorgo e o milhete. A caa e a coleta
representavam importante papel na sua atividade econmica; as nicas formas
de agricultura que eles praticavam era a itinerante, e dependia da cuidadosa
seleo do tipo de terra adequada.
    Embora a mais antiga implantao da Idade do Ferro que se conhece nessa
regio do sul da frica central date do ano 200, e tal ocupao se tenha com-
pletado num prazo de tempo relativamente curto, as primeiras povoaes de
agricultores estavam muito espalhadas em reas livres da mosca ts-ts, e as
densidades demogrficas mdias eram extremamente baixas. A distribuio das
faixas da ts-ts era afetada pelo padro do nomadismo agrcola, que por sua
vez influenciava a distribuio demogrfica. Durante este primeiro milnio, a
populao agrcola aumentou lentamente; estendia-se a superfcie das terras
cultivadas junto com o desenvolvimento dos mtodos de limpeza das flores-
tas e das tcnicas de cultivo. A abertura de novas reas decorria, em parte, do
emprego dos mtodos predatrios da agricultura itinerante que, comparados
com resultados obtidos em tempos modernos, apresentam um aproveitamento
da terra inferior em pelo menos 50%. No plano tecnolgico, o lavrador da Idade
do Ferro conhecia apenas uma metalurgia do ferro das mais rudimentares; sabia
fundir o cobre para fazer ornamentos e, mais tarde, fios. Uma cermica simples,
mas bem feita, era de uso corriqueiro. Como todas as sociedades que praticam
a agricultura de subsistncia, tambm as do sul da frica central estavam bem
adaptadas s savanas arborizadas presentes em toda a regio, conhecendo inti-
mamente os tipos de solo e clima, a vegetao e a arte de empregar os materiais
locais para a construo e para a economia domstica. Cada comunidade era
autossuficiente no essencial, abastecendo-se do restante nas aldeias vizinhas ou
graas a um comrcio local.
    As culturas da Idade do Ferro Antiga no sul da frica central foram estudadas
detalhadamente por certo nmero de arquelogos, cujo trabalho concentrou-se
basicamente nos estilos da cermica e na datao pelo carbono-142. Os vasos
simples, com ranhuras e incises, dos mais antigos agricultores mostram grande
diversidade, de uma ponta a outra dessa regio, e uma srie de variaes regio-
nais, de distintas "tradies" e "culturas" foram propostas para classific-los. No
precisamos tratar, aqui, das mincias dessas sociedades; basta dizer que as tradies
culturais e as implantaes da Idade do Ferro Antiga conservaram-se at muito
depois do primeiro milnio, em vrias partes dessa regio. Mantiveram-se, por


2   Ver especialmente PHILLIPSON, 1968 e 1974.
594                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



muito tempo, a metalurgia rudimentar do ferro, as tcnicas agrcolas baseadas no
emprego da enxada, as cabanas feitas de barro e cobertas de folhas de palmeira,
e uma organizao sociopoltica inteiramente fundada na pequena aldeia. Esses
povos da Idade do Ferro Antiga foram os antepassados imediatos das culturas
que se desenvolveram nos sculos seguintes.
   Uns 1000 anos depois que os agricultores da Idade do Ferro Antiga
instalaram-se s margens do Zambeze, algumas novas tradies culturais surgi-
ram de ambos os lados do rio. Uma destas tinha por centro o planalto de Batoka,
no sul da atual Zmbia. Nesta regio, a savana arborizada cede lugar a reas
em que o capim cresce sem obstculos, proporcionando boas pastagens para o
gado. Essas terras mais altas, a salvo da mosca ts-ts, bem irrigadas, tinham
sido ocupadas por povos da Idade do Ferro Antiga, por volta do sculo IV. No
final do primeiro milnio, seus estabelecimentos foram ocupados por campone-
ses da chamada cultura de Kalomo, cujo modo de vida era bastante similar ao
deles; os novos ocupantes, porm, davam muita importncia  criao de gado.
Contrastando com os vasos marcados por ranhuras e incises dos primeiros
sculos, a nova cermica era mais simples, decorada apenas por alguns motivos




F igura 21.2 A colina de Isamu Pati (Zmbia), durante as escavaes. (Foto B. M. Fagan.)
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                           595



horizontais, em faixas, incisadas ou finamente impressas. Os vasos, muitas vezes,
tinham o formato de sacos.
    Um stio em especial, Isamu Pati, perto da moderna cidade de Kalomo, foi
escavado em larga escala (ver fig. 21.2). Como a maior parte dos stios da Idade
do Ferro que se encontram no planalto de Batoka, Isamu Pati  uma grande
colina, formada pela acumulao, sculos a fio, dos restos de objetos utilizados
por seus moradores. No sculo VII, e nos duzentos anos que se seguiram, havia
pequenas aldeias na colina; as aglomeraes posteriores foram, porm, muito
maiores. Aproximadamente no ano 1000, a cultura de Kalomo manifestava todo
o seu vigor nesse local. A aldeia mais recente das existentes em Isamu Pati, que
foi abandonada no sculo XIII, consistia numa srie de cabanas de pau-a-pique,
construdas  volta de um curral que ficava no topo da colina. Os habitantes
concentravam suas atividades econmicas na pecuria e no cultivo de cereais;
para fabricarem suas ferramentas agrcolas, pontas de flecha e outros objetos
teis, valiam-se de uma tecnologia bem simples. Em cada aldeia dessa cultura
de Kalomo  e tais aldeias foram encontradas tanto no vale mdio e superior
do Zambeze quanto no planalto de Batoka , descobriram-se sinais de escambo
local ou mesmo de longa distncia. Em vrias aldeias, foram descobertos fios
e contas de cobre que, sem a menor dvida, vinham de regies a muitas cente-
nas de quilmetros, onde esse metal era encontrado em jazidas de superfcie e,
posteriormente, fundido. Mais significativa ainda foi a localizao, em stios e
sepulturas da cultura de Kalomo, de um punhado de contas de vidro importa-
das da costa oriental, e de raras conchas de cauri; estes achados comprovam a
existncia do comrcio e do escambo de longa distncia nessas regies remotas
da frica central. Mas o nmero de tais operaes era provavelmente muito
pequeno para poder afetar a estrutura social da Idade do Ferro Antiga.
    Com toda a probabilidade, as origens da cultura de Kalomo esto naquelas
da Idade do Ferro Antiga, existentes no curso superior do rio Zambeze. Como
j se pde deduzir, a tecnologia e as estratgias econmicas do povo de Kalomo
assemelham-se muito s dos camponeses da Idade do Ferro Antiga, o que indica
a longa sobrevivncia da cultura dessa Idade no planalto de Batoka. Presume-se
que a populao da Idade do Ferro tenha-se espalhado rapidamente por uma
vasta rea, em decorrncia tanto da fragmentao das aldeias, quanto das pres-
ses exercidas sobre as terras cultivveis e as pastagens3. Esta adaptao s novas
condies deve ter constitudo um sucesso, pois h indcios de que a cultura de


3   Ver PHILLIPSON, 1968, p. 191 e 212.
596                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



Kalomo se manteve at 1450 em algumas reas perto de Choma, bem como no
vale do Zambeze. Por razes que permanecem obscuras, a cultura de Kalomo
parece no ter alcanado o norte e o noroeste do planalto de Batoka.
    Outros stios, nenhum deles com importncia comparvel  das colinas de
Kalomo, so encontrados na regio de Mazabuka e Loshinvar. A tradio kan-
gila, que tira seu nome de uma localidade perto de Mazabuka, tem sua expresso
mais bela em Sebanzi, nos confins das plancies do rio Kafue (Kafue Flats); nesse
lugar, a tradio kangila funde-se, durante certo tempo,  cultura moderna de
Ila-Tonga, que durante vrios sculos floresceu por todo o planalto de Batoka.
Constatando alguns paralelismos entre os estilos das cermicas de Kalomo e
de Kangila, certos especialistas supuseram que as duas tendncias de cermica
deveriam ser atribudas a povos de lngua ila-tonga   um dos mais antigos
grupos lingusticos implantados ao norte do Zambeze. Os Ila-Tonga teriam-se
instalado em seus territrios atuais h pelo menos uns 1000 anos. No distrito de
Namwala, na extremidade noroeste das Kafue Flats, outro conjunto de grandes
colinas apresenta uma cermica de tipo Idade do Ferro Recente, aparentada s
de Kalomo e Kangila, que os especialistas ainda no puderam definir de maneira
satisfatria. Enquanto aguardamos os resultados das pesquisas em andamento,
podemos pelo menos presumir que estes trs tipos de cermica denotam uma
ocupao muito antiga do sul da Zmbia pelos Ila-Tonga.
    A histria posterior da Zmbia  marcada, acima de tudo, por amplos movi-
mentos de populao e importantes manobras polticas nos ltimos cinco sculos,
resultando na introduo de novas tradies culturais, originrias do Zaire, que
obscureceram e absorveram as culturas da Idade do Ferro Antiga. Na Zmbia
setentrional, ocidental e oriental, porm, os povos da Idade do Ferro Antiga pre-
servaram suas culturas por muito tempo depois do ano 1000. David Phillipson
identificou duas importantes tradies de cermica, que se supe tenham emer-
gido na Zmbia em princpios do segundo milnio. A tradio luangwa cobre
as partes central, setentrional e oriental do territrio, chegando at o Malavi,
enquanto a tradio lungwebungu  encontrada na Zmbia ocidental. Ambas
se mantiveram at tempos recentes; pouco se sabe de suas origens, mas, nas suas
formas atuais, so muito diferentes das tradies da Idade do Ferro Antiga.


      As transformaes econmicas e sociais dos sculos XI e XII
   Ao sul do rio Zambeze, porm, as culturas da Idade do Ferro Antiga, do
primeiro milnio, foram substitudas em vrias regies por novas sociedades,
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                           597



durante os sculos XI e XII. Delas, a mais conhecida possui o nome de tradio
de Leopard's Kopje (Colina do Leopardo), estendendo-se do vale do Limpopo
rumo ao norte, at a regio de Bulawayo e pontos centrais da bacia do Zambeze
e do Limpopo (ver fig. 21.1)4. As aldeias de Leopard's Kopje so menores que
os estabelecimentos agrcolas mais antigos, provavelmente em decorrncia de
alteraes tecnolgicas introduzidas pelo homem. Ao contrrio dos stios da
Idade do Ferro Antiga, muitos destes locais foram ocupados vrias vezes. As
boiadas parecem ter sido maiores. Figuras representando bois e a descoberta de
ossos bovinos em algumas sepulturas fazem supor que esse gado tivesse mais
importncia do que nos sculos anteriores. Leopard's Kopje marca uma ruptura
to ntida com as tradies da Idade do Ferro Antiga, que parece quase certo que
os criadores dessa tradio fossem imigrantes, tendo poucas relaes culturais
diretas com seus predecessores na regio.
    No se encontraram vestgios dos povos de Leopard's Kopje ao norte do
Zambeze. J se sugeriu que eles teriam conquistado seu territrio atual vindo das
pradarias de Botsuana e Angola, regies cuja arqueologia ainda se desconhece;
no entanto, isso no passa de suposio. Como seus predecessores, os primeiros
homens de Leopard's Kopje viviam sobretudo do cultivo do milhete e do sorgo,
bem como da caa e da coleta. Assim como os seus vizinhos de Kalomo, conhe-
ciam uma tecnologia rudimentar do ferro. Algumas contas de vidro e conchas
marinhas, importadas, chegaram a suas aldeias, dispersas pela regio. Pelo final do
sculo XII e comeo do XIII, contudo, como a populao aumentasse, iniciou-se o
cultivo das terras mais frteis, porm de conformao mais difcil para a lavoura,
que se encontram no cinturo aurfero de Matabelelndia. Fundaram-se, ento,
aldeias que foram ocupadas por muito mais tempo, mudana que pode haver
coincidido com o comeo da lavra e do trabalho do ouro, porque os mais antigos
objetos neste metal descobertos ao sul do rio Zambeze datariam mais ou menos
do sculo XII. Alguns desses stios de Leopard's Kopje, como o de Bambandyanalo,
no vale do Limpopo, eram de tamanho considervel, desenvolvendo-se, tambm, 
volta de um curral. Em outro local  Mapela Hill, a 111 km do primeiro , numa
colina de 92 m de altura, construram-se terraos, com pedras sumariamente
empilhadas; de qualquer forma, um trabalho de dimenses to vastas que deve
ter exigido considervel esforo da comunidade. Alm disso, um grupo de caba-
nas maiores que as demais foi erguido no terrao mais alto; elas eram muito
slidas, e, provavelmente, destinavam-se a personagens que gozassem de posio


4   HUFFMAN, 1974b.
598                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



privilegiada em sua sociedade, fato que marca significativo contraste com as
culturas mais antigas, nas quais no se v qualquer vestgio de hierarquia ou
diferenciao social. Contas de vidro e outras importaes tambm se tornam
mais comuns, como se o ritmo das trocas a longa distncia houvesse sensivel-
mente aumentado.
    Em tempos posteriores, a cultura de Leopard's Kopje d a ntida impresso
de que a economia tenha se diversificado, tornando -se mais controlada. As
principais atividades econmicas foram, ento, a minerao, a metalurgia e as
trocas comerciais, assim como a agricultura de subsistncia. O poder poltico
e a riqueza concentraram-se nas mos de nmero relativamente pequeno de
pessoas, que viviam nos maiores centros das principais localidades. Isto se com-
prova no famoso stio de Mapungubwe, onde pequeno grupo de ricos dirigentes
ocupou, no sculo XV, o topo de uma longa colina baixa que domina o vale do
rio Limpopo.  sombra dessa colina, h grandes depsitos de restos deixados por
uma populao bem maior, que vivia numa aldeia ali situada5. Contas e placas
de ouro foram desenterradas de sepulturas do alto da colina, junto a numerosas
contas de vidro e outros objetos importados. As abundantes jazidas de cobre
do vale do Limpopo obviamente constituam grande fonte de riqueza para
os dignitrios de Mapungubwe, cuja residncia eminente  considerada lugar
sagrado ainda em nossos dias. O stio de Mapungubwe seria dirigido por um
grupo minoritrio, que dominava poltica e religiosamente os camponeses da
localidade? Que tipo de relaes havia entre o stio do rio Limpopo e o Grande
Zimbbue, a nordeste? Questes que continuam abertas ao debate. Pouco se
sabe, ainda, a respeito das grandes tendncias que, gradualmente, levaram ao
cultivo de solos mais pesados e  construo de moradias mais espaosas e
durveis; para dizer a verdade, no dispomos sequer de hipteses provisrias
que tentem explicar tais fenmenos.
    Mas existem, por outro lado, vestgios de novas sociedades agrcolas em outras
regies ao sul do Zambeze. Para o lado do nordeste, havia a tradio de Musen-
gezi, que florescia perto dos confins meridionais do vale do rio Zambeze e no
planalto ao norte, enquanto a tradio de Harare foi localizada na rea de Harare
(at poucos anos atrs, Salisbury). So duas sociedades camponesas que apresen-
tam caractersticas sociais e culturais elaboradas, semelhantes s de Leopard's
Kopje aps o sculo XII. A cermica dos dois grupos apresenta um estilo mais
caracterstico da Idade do Ferro Recente. E  possvel que os camponeses que


5     FAGAN, 1964.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                         599



praticam agricultura de subsistncia na regio de Inyanga, a leste, pertenam a
uma etapa posterior das mesmas tradies, uma vez que eles conservaram os
mtodos de cultivo simples nas encostas at os tempos mais recentes.
    Cada uma dessas tradies culturais  que parecem corresponder a novas
tendncias suscitadas, em fins do primeiro milnio, por imigraes ou pela
introduo de inovaes tecnolgicas na regio  sobreviveu, com profundas
modificaes, at recentemente. A tradio de Leopard's Kopje cindiu-se em
dois ramos, o norte e o sul, este ltimo conservando-se at o sculo XIX. J se
tentou, a partir de elementos puramente hipotticos mas bastante plausveis,
estabelecer correlao entre essas tradies descobertas pelos arquelogos e os
grupos lingusticos ainda hoje existentes entre os rios Zambeze e Limpopo. As
lnguas shona constituem a principal famlia lingustica representada nessa rea,
incluindo pelo menos seis grupos de dialetos (chikalanga, chikaranga, chindau,
chimanyika, zezuru e korekore). Entre os demais idiomas esto o ndebele (que
apareceu no sculo XIX), o chitonga, o hlengwe e o chivenda, nenhum deles
originrio da regio. O prprio shona no tem nenhuma relao direta com o
bantu do sudeste. Supe-se, porm, que vrias das tradies culturais descritas
anteriormente possuam ligaes estreitas com algum dos grupos de dialetos
shona. Assim, os povos de Leopard's Kopje esto ligados ao chikalanga, e a
cultura de Harare ao zezuru. Embora ainda no se disponha dos elos que per-
mitiriam ligar o chikaranga, o korekore, o chindau e o chimanyika s tradies
expressas na cermica ou nos stios arqueolgicos, as tradies orais, de certa
forma, autorizam-nos a pensar que a maior parte das culturas que acabamos de
descrever, nascidas entre o Zambeze e o Limpopo na Idade do Ferro Recente,
podem ser associadas a povos que falavam lnguas shona. E foi entre eles que
grandes transformaes polticas e econmicas ocorreram, aps o sculo XII.


    As origens da cultura do Zimbbue
   As clebres runas do Grande Zimbbue, perto da moderna cidade de
Masvingo (que j se chamou Fort Victoria), simbolizam uma das partes mais
notveis dessas transformaes. Elas so famosas tanto pela excelncia de sua
arquitetura quanto pelas teorias extravagantes que cercam sua origem6. Hoje,
todos os estudiosos srios consideram que o Grande Zimbbue foi uma realiza-
o essencialmente africana, construdo com material local e segundo princpios

6   Ver SUMMERS, 1963, para exposio e crtica dessas teorias.
600                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



arquitetnicos desenvolvidos durante muitos sculos. Por outro lado, porm, as
causas ltimas para o surgimento da organizao econmica, poltica e religiosa
que deu origem a este stio, e a outros anlogos existentes entre os rios Zambeze
e Limpopo, permanecem envoltas em mistrio7.

      As descobertas arqueolgicas e a ocupao mais antiga
   Os vestgios da ocupao do Grande Zimbbue no comeo da Idade do
Ferro limitam-se aos estratos inferiores da longa sequncia cultural que aparece
na colina chamada Acrpole (Acropolis Hill), que domina o Grande Cercado
(Great Enclosure), certamente a mais impressionante das construes do Grande
Zimbbue, e a mais uns restos de cermica espalhados pelo vale que fica abaixo.
O nvel da Acrpole correspondente  Idade do Ferro Antiga foi datado de
tempos anteriores ao sculo IV, no se podendo afirmar que o estabelecimento
ento existente no Grande Zimbbue fosse realmente significativo. Com toda
a probabilidade, os vales separando essas colinas bem irrigadas proporcionavam,
na expresso de Peter Garlake,
      "bons terrenos de caa e um campo aberto, com solos leves e fceis de cultivar".
Foi somente por volta do sculo X ou XI  a data ainda  incerta  que povos
da Idade do Ferro Recente instalaram-se no Grande Zimbbue. Pouco se sabe
a respeito, j que foram encontradas poucas reas ocupadas por eles alm da
implantao gumanye no Grande Zimbbue. Sua cermica no se assemelha 
da Idade do Ferro Antiga, e j foi aproximada, por alguns,  de Leopard's Kopje,
embora existam diferenas notveis entre elas.
    A tradio gumanye ainda  mal conhecida, e assim permanecer at que
sejam encontrados e escavados outros stios do mesmo tipo. Os portadores dessa
tradio instalaram-se no Grande Zimbbue antes que as grandes muralhas
deste local estivessem completadas; supe-se que representavam outra tradio
cultural da Idade do Ferro Recente, prxima da cultura de Leopard's Kopje,
que tem vrios traos em comum com Gumanye. Mas, seja qual for a realidade
de Gumanye, o fato  que, por volta do sculo XII, a cultura deste povo sofre
ntida transformao. A cermica melhorou de acabamento, fabricaram-se figu-
ras humanas de argila, e aumentaram muito as importaes de contas de vidro e
outros objetos. As construes de pau-a-pique tornaram-se muito mais slidas,



7     Sobre essa questo, ver GARLAKE, 1973.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                    601



comearam a proliferar os adornos de cobre, bronze e ouro, e fizeram-se comuns,
no Grande Zimbbue, muros e muralhas de pedra.
    Uma evoluo paralela a esta se constata, pelo menos parcialmente, em stios de
Leopard's Kopje, como o de Mapela, j citado. Por volta de 1300, j estavam lanadas
as bases para um Estado poderoso e influente  um Estado cujo centro encontrava-se
no Grande Zimbbue e que dominava uma vasta parte da Mashonalndia central e
meridional. Parece fora de dvida que esse Estado, na sua origem, compartilhasse
numerosas tradies culturais com os povos de Leopard's Kopje, e  muito pro-
vvel que essa identidade fundamental tambm se estendesse ao uso da mesma
lngua, o shona. Citemos, novamente, Peter Garlake:
    Mais ou menos desde o fim do sculo XII, a diversificao, a expanso e a acumulao
    de riquezas, assim como uma crescente especializao social, econmica e funcional que
    resultou destes fatores, haviam ocorrido nestas duas culturas, a tal ponto que se tornou
    possvel a construo de grandes estabelecimentos que, como reas delimitadas nos
    stios arqueolgicos, podiam ser utilizados, para funes definidas, por alguns grupos
    ou agrupamentos de populaes8.
 possvel que o Grande Zimbbue tenha sido um desses estabelecimentos.
    Antes de descrevermos o Grande Zimbbue propriamente dito, convm
examinarmos mais de perto algumas das hipteses aventadas para explicar a
formao do Estado que se ergueu  sua volta. Duas grandes teorias foram
propostas com esta finalidade. A primeira, formulada pelo historiador Donald
Abraham9, considera os Shona como imigrantes do final do primeiro milnio da
era crist, que no somente teriam introduzido na regio as tcnicas de minera-
o e outras inovaes tecnolgicas, como tambm teriam trazido consigo seu
prprio culto dos ancestrais. Isso os levou a fundarem santurios, dos quais o
principal foi construdo numa colina chamada Mhanwa, e recebeu o nome de
dzimba dzemabwe (casas de pedra). Segundo Abraham, os dirigentes dos Shona
souberam, graas a astuciosas manobras polticas, exercer influncia hegemnica
sobre uma confederao bastante flexvel, com os chefes vassalos lhes pagando
tributo, em marfim e ouro em p. Os negociantes rabes da costa da frica
oriental haviam estabelecido relaes com essa poderosa aliana e valiam-se dela
para expandir o comrcio do ouro e do marfim. Mas o poder central do Estado
estava em mos dos chefes e sacerdotes que controlavam o culto do Mwari e
os complexos rituais de sacrifcios aos ancestrais que o completavam, servindo

8   Ibid.
9   ABRAHAM, 1961.
602                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



assim de intermedirios entre o Mwari e o povo. Essa hiptese religiosa  como
 chamada  baseia-se em pesquisas das tradies orais dos Shona, cujos por-
menores, porm, ainda no foram publicados.
    Segundo a outra grande hiptese, o surgimento do Estado de Karanga deve-se,
sobretudo,  intensificao das trocas comerciais. Aumentou muito, no sculo XIV,
o uso no Grande Zimbbue de contas de vidro e outros objetos importados, como
o vidro srio, a faiana persa e o celadon chins, sinais que evidenciam grande
expanso do comrcio. Objetos de ouro e cobre tambm proliferam no Grande
Zimbbue, pois a explorao destes minrios generalizara-se ao sul do Zambeze.
Na mesma poca, a cidade rabe de Kilwa, no litoral, conheceu rpido avano
econmico, sendo provvel que tal prosperidade se devesse  expanso do trfico
de ouro e marfim mantido com a regio de Sofala, na costa de Moambique,
que durante sculos foi o entreposto litorneo para a venda de ouro proveniente
do sul da frica central. Talvez valha a pena notar que, ao visitar Kilwa, em
1331, o viajante rabe Ibn Battta mencionou o comrcio aurfero de Sofala,
originado em "Yufi, na terra dos Limis", situada no interior, a um ms de viagem
de Sofala10.
    Esta hiptese comercial baseia-se no aumento das exportaes e importaes,
e pressupe que, numa sociedade organizada por grupos de linhagem com um
mnimo de estratificao social, o chefe dever ser o homem mais rico. Parte de
sua riqueza, porm,  redistribuda aos demais membros da sociedade, por meio
de funes cerimoniais, casamentos, funerais etc.  medida que se ampliam as
trocas comerciais, no entanto, a riqueza total acumulada e no redistribuda 
sociedade aumenta, levando a uma concentrao acentuada da opulncia e da
autoridade poltica em mos de poucos indivduos, situao esta que, a longo
prazo, pode ser socialmente nefasta. Um rico potentado poder, ento, pagar a
indivduos para que executem obras pblicas, ou ainda, por uma simples deciso
poltica, forar uma populao a trabalhar para o Estado segundo um sistema
de corveias, adotado outrora, por exemplo, entre os Lozi da Zmbia. Assim,
no caso do Grande Zimbbue, a crescente riqueza dos chefes teria favorecido
uma maior redistribuio da mesma, a concentrao da populao num centro
comercial importante e a organizao das foras de trabalho para que se cons-
trussem as enormes muralhas do Grande Cercado e da Acrpole. A hiptese
comercial assenta-se basicamente na ideia de que a criao do Estado teve como


10    IBN BATTTA, 1958-1962. Ainda no existe uma identificao segura desse stio. Podemos incluir no
      arquivo das relaes existentes entre Kilwa e o Grande Zimbbue uma moeda descoberta no Grande
      Zimbbue datando do tempo de al-Hasan ben Sulaymn (c. 1320-1333).
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                        603



causa principal a expanso do comrcio na costa oriental, e na convico de que
o poder econmico  idntico  autoridade poltica  suposio que pode ser
vlida apenas parcialmente. Pressupe, tambm, que a construo das muralhas
de pedra tenha exigido considervel mo de obra, o que tampouco  evidente,
se julgarmos o caso partindo de anlises efetuadas em outras regies.

    Poder poltico e econmico na formao do Estado do
    Grande Zimbbue
    As duas hipteses do bem pouca importncia s realidades de uma agricul-
tura de subsistncia e dos complexos mecanismos de deciso que controlam, no
sentido mais amplo possvel, a orientao global da evoluo social. O Estado do
Grande Zimbbue nasceu muito antes da tradio oral que lhe sobreviveu; tudo
o que dele sabemos deve-se  investigao arqueolgica ou a uma informao
lingustica bastante genrica. Os arquelogos estabeleceram que os povos de
lngua shona podem ter sido os responsveis pelas tradies da Idade do Ferro
Recente surgidas entre o Zambeze e o Limpopo. Por volta do sculo XIII, as
tradies de Leopard's Kopje e de Gumanye apresentavam sinais de considervel
elaborao, que se devia tanto  extenso dos contatos comerciais quanto a uma
maior centralizao da autoridade poltica. Em algumas regies, o aumento sem
precedentes da densidade demogrfica pode ter favorecido o aprimoramento dos
mtodos empregados na agricultura itinerante, adotando-se provavelmente tcni-
cas de desmatamento e de queimada mais eficazes, que permitissem perodos mais
longos de repouso da terra entre as semeaduras. Mesmo que tenha havido certa
concentrao demogrfica no Grande Zimbbue e outros centros, a maior parte
da populao se manteve disseminada nas aldeias menores, que se instalavam
e se transferiam segundo os imperativos do nomadismo agrcola e da pecuria.
Contudo, quando um centro maior, como o Grande Zimbbue, atraa uma
populao rural mais densa, as consequncias a longo prazo teriam sido graves,
no tocante  fertilidade dos solos, ao uso excessivo dos pastos e  degradao
do meio ambiente.
    As sociedades africanas da Idade do Ferro que viviam da agricultura de
subsistncia eram basicamente autossuficientes, embora certas matrias-primas,
como o minrio de ferro ou as madeiras das choupanas, fossem obtidas a uma
distncia razovel. Dispunham de pouco ou nenhum incentivo para praticar o
comrcio de longa distncia, exceto certas motivaes religiosas ou econmicas
 e  difcil identificar estas ltimas numa comunidade alde fundamentalmente
autrquica. Alm disso, uma coisa  sentir estas motivaes em escala limitada,
604                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



outra coisa, bem diferente,  unificar uma populao rural dispersa sob uma
tutela religiosa, poltica ou comercial.
    Se  evidente que a demanda de matrias-primas estimulada pelo comrcio
costeiro da frica oriental suscitou necessariamente novas iniciativas econmicas,
esse comrcio, isoladamente, no bastaria para reunir o povo sob uma nica auto-
ridade poltica ou religiosa. Para que tal evoluo se processasse, era preciso no
apenas que um pequeno nmero de famlias tivesse o entendimento das coisas
religiosas ou polticas, mas tambm que, conscientemente ou no, a sociedade no
seu conjunto optasse por uma organizao social e poltica mais hierarquizada,
mesmo que os interessados no tivessem plena conscincia de tal processo, na
poca.  um erro pensar a origem do Grande Zimbbue, ou de qualquer outro
reino africano, em termos de motivao puramente religiosa ou comercial. O
mais correto  entender que ambos os fatores, assim como muitos outros que as
escavaes arqueolgicas mal permitem identificar, exerceram importante papel
nas sociedades da Idade do Ferro, quando as perspectivas polticas e econmicas
destas se ampliaram do espao da aldeia para um horizonte mais largo.
    Sejam quais forem as causas profundas da expanso do Grande Zimbbue,
no h dvida de que se trata de monumento impressionante11. O stio est
dominado pela Acrpole, longa colina de granito coberta de enormes mataces
(ver figs. 21.3, 21.4, 21.6 e 21.7). Com o correr das geraes, os moradores foram
unindo esses mataces com muros de pedra, formando assim pequenos cercados
e passagens estreitas. O cercado da ponta ocidental  o maior de todos, rodeado
por espessa muralha de pedras sem arrimo. A anlise estratigrfica revelou a
longa sequncia de ocupao na Idade do Ferro Recente, fornecendo, assim,
elementos para dividir a histria do Grande Zimbbue em, pelo menos, trs
fases. A ocupao mais intensa comeou por volta do sculo XI, mas nenhum
muro de pedra foi construdo at o sculo XIII, quando as pequenas cabanas de
pau-a-pique dos primeiros tempos foram substitudas por casas de barro mais
espaosas. O muro de arrimo, em pedra, do cercado ocidental foi construdo
pela mesma poca, quando aparecem mais restos de objetos importados nos
depsitos encontrados. Foi nos sculos XIII ou XIV, tambm, que se ergueram
as primeiras construes no vale que fica abaixo da Acrpole.
    O Grande Cercado, com suas muralhas macias de pedras sem arrimo, foi cons-
trudo pouco a pouco durante o sculo seguinte (ver figs. 21.4 e 21.7). A muralha
que o circunda tem uma altura mdia de 7,30 m, 5,50 m de espessura na base e 1,30


11    Ver HUFFMAN, 1972.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                                     605



a 3,60 m no alto. A muralha propriamente dita tem uma parte central em pedra
bruta, contida de ambos os lados por pedras dispostas horizontalmente sem arga-
massa. Est decorada com motivos de aspas (em ziguezague), num comprimento
de 52 m (ver figs. 21.4 e 21.7). No seu interior, h outra muralha, inacabada, que
evidentemente foi substituda pela que existe atualmente. Entre as duas muralhas,
uma estreita passagem leva a uma torre cnica, admiravelmente bem construda,
que domina o Grande Cercado (ver fig. 21.9). No se sabe qual o significado da
mesma. O Grande Cercado propriamente dito est dividido numa srie de peque-
nos cercados, nos quais se encontram os alicerces de casas razoavelmente grandes
de pau-a-pique. Pode-se supor que essa construo impressionante e de grande
significado poltico servisse de residncia aos governantes do Grande Zimbbue.
    Os sedimentos do Grande Cercado e os estratos superiores da Acrpole
continham muitos enfeites de ouro e cobre, alm de tigelas e esculturas de fina
qualidade feitas em pedra-sabo, retirados pelos primeiros caadores de tesouros.
Foram desenterradas tambm grandes quantidades de contas de vidro impor-
tadas, bem como porcelana e vidro de origem chinesa, persa e sria datando at
mesmo do sculo XIV.  evidente que, por essa poca, o comrcio costeiro da
frica oriental j havia penetrado profundamente no interior do continente. O
Grande Zimbbue tornara-se importante centro comercial, e supe-se que seus
soberanos exercessem um invejvel monoplio sobre as atividades de troca. Afinal
de contas, era vantajoso para o negociante estrangeiro, ou seu agente, trabalhar
em cooperao com os dirigentes polticos do interior, o que garantia tanto sua
segurana quanto o maior lucro possvel. Alis, numa situao em que os mineiros
e a minerao estavam sob o controle poltico do Grande Zimbbue, ligados ao
soberano por tributos e elos religiosos, os comerciantes no tinham outra opo.
 difcil, todavia, avaliar em que medida os rabes, que dominavam o comrcio
costeiro, teriam exercido papel poltico significativo nos negcios do Zimbbue,
ou influenciado a arquitetura e a tecnologia desse Estado africano12.
    Uma escola de pensamento atribui aos rabes papel proeminente no projeto
do Grande Cercado, compara a torre cnica com as mesquitas da frica oriental,
e afirma que as fiadas de pedras das muralhas do Grande Zimbbue so muito
diferentes das construes habituais de pau-a-pique existentes nas aldeias shona.
Contudo, devemos assinalar que a arquitetura do Grande Zimbbue  simples-
mente a extenso lgica dos grandes cercados e bairros reservados aos chefes,
construdos com palha, barro e madeira nos outros Estados africanos, com a

12   Para as relaes comerciais existentes entre a frica oriental e o Oriente, ver os trabalhos de CHITTICK,
     1968, 1970 e 1974, bem como CHITTICK & ROTBERG, 1975.
                                                                                             606
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F igura 21.3   Runas do Grande Zimbbue. Mapa do stio principal. (Fonte: Summers, 1963.)
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                      607




Figura 21.4   O Grande Zimbbue: a Acrpole e o Grande Cercado. (Fonte: Summers, 1963.)
608                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 21.5 Cermica extrada dos estratos superiores da Acrpole, no Grande Zimbbue. (Fonte: Garlake,
1973.)
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                                 609




Figura 21.6 Vista interior da plataforma elptica, partindo-se do alto da muralha externa, perto da torre
cnica do Grande Zimbbue.
610                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



nica diferena de que, no nosso caso, utilizou-se pedra. Foi usada por ser mais
durvel, e porque havia grande quantidade de granito, esfoliado em camadas
naturais de 50 a 100 cm de espessura, nos arredores do Grande Zimbbue. Seus
construtores puderam obter nmero ilimitado de blocos aproveitveis, que mal
precisavam talhar, servindo-se da esfoliao natural do granito em camadas, ou
acelerando este processo pelo emprego do fogo e da gua.
    Com exceo da torre cnica, estrutura excepcional de significado desconhe-
cido, nada existe na arquitetura do Grande Zimbbue que fuja  prtica africana.
Na verdade, as muralhas sem apoio, os terraos e o trabalho decorativo da pedra
foram usados em numerosos outros stios contemporneos e mesmo posteriores
ao Grande Zimbbue. O que ressalta ao visitante  a dimenso das runas, que
suscita tantos mitos sobre sua suposta antiguidade.  praticamente impossvel
discernir uma influncia inegavelmente rabe, quer na construo do Grande
Zimbbue, quer no conjunto de sua cultura. Seria engano ver, nos dirigentes
desse Estado, marionetes que teriam sido manipuladas pelos rabes, seguindo
planos destes. Nem  provvel, a despeito das alegaes em contrrio, que tenha
havido mais do que um pequeno grupo de rabes ou de seus agentes residindo na
esfera de influncia do Grande Zimbbue. O comrcio de longa distncia deve
ter sido, na melhor das hipteses, espordico, consistindo em visitas regulares,
possivelmente sazonais.


      A expanso do Estado do Grande Zimbbue e
      a sua hegemonia na regio
    O carter excepcional do Grande Zimbbue deve-se apenas s suas dimen-
ses, porque se trata da maior entre umas 150 runas existentes na regio gra-
ntica situada entre os rios Zambeze e Limpopo. Nas suas proximidades, bem
como na Mashonalndia, h outras runas, que apresentam de um a cinco cer-
cados, rodeados pelo menos parcialmente de muralhas sem arrimo e tendo no
seu interior cabanas de pau-a-pique. A regularidade de sua alvenaria segue o
mesmo estilo do Grande Zimbbue. As runas que j foram exploradas s vezes
continham objetos de ouro, braceletes de fio de cobre, contas de vidro, assim
como braseiros e fusos com discos perfurados, caractersticos da cultura do
Grande Zimbbue. Nas runas de Ruanga e Chipadze, revela-se a importncia
do gado. Cinco das runas j escavadas permitiram estabelecer uma cronologia,
sugerindo que todas elas tenham sido construdas e ocupadas entre o comeo
do sculo XIV e o fim do XV. Algumas parecem datar at do sculo XVI.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                           611




Figura 21.7 A muralha do Grande Cercado no
Grande Zimbbue.




                                                       Figura 21.8 Escultura em pedra-
                                                       -sabo de um pssaro numa base
                                                       monoltica, nas runas de Philip no
                                                       vale do Grande Zimbbue. (Fonte
                                                       das figs. 21.6, 21.7 e 21.8: Garlake,
                                                       1973.)




                                                       Figura 21.9 A torre cnica do Grande
                                                       Zimbbue. (Foto Department of Information,
                                                       Zimbbue.)
612                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



Todos esses stios so de dimenso menor, porque se destinavam a pequenas
populaes. Habitualmente, encontram-se perto de colinas nas quais a pedra 
abundante, e parecem pequenos demais para terem sido entidades economica-
mente autossuficientes; provavelmente foram construdos por mo-de-obra de
aldeias vizinhas, que viviam da agricultura itinerante praticada na savana. Peter
Garlake insistiu no fato de que nenhuma destas aldeias sem muros apresenta
objetos do tipo que se encontra nas runas:
      Os estabelecimentos que forneciam tal mo de obra devem ter conhecido uma
      cultura material que parece no ter relaes com a das runas, embora nada indique,
      nestas, a existncia de outros grupos culturais.
E prossegue, afirmando que a assistncia fornecida assumia a forma de tributos
ocasionais, o que por enquanto no passa de hiptese.
   Nas runas de Nhunguza, encontrou-se uma nica cabana, muito espaosa,
dividida em trs cmodos. Um destes podia acolher grande nmero de pessoas,
outro continha apenas um assento, o terceiro era
      uma cmara completamente separada, que devia servir para a guarda de objetos
      de especial valor, incluindo ( ... ) algo que devia ser um monolito assentado num
      pedestal de pedra entalhada.
Essa construo nada usual podia muito bem ser a sede em que reinava uma
proeminente autoridade religiosa, cujo poder explicaria a existncia desse cer-
cado singular e constituiria a fora que unificava o Estado do Grande Zimbbue.
Tem-se a impresso de uma autoridade poltica e religiosa extremamente pode-
rosa, incontestada, cujo domnio sobre uma populao rural dispersa pelo pas
baseava-se em alguma espcie de crena unificadora, compartilhada por todas
as famlias, nos poderes do Mwari divino ou de outra divindade. O comrcio
de longa distncia, por mais regular que possa ter sido, nunca constituiria meca-
nismo igualmente eficaz, pois somente afetava uma parte menor da populao
total.
    As fronteiras do Estado do Grande Zimbbue ainda se encontram mal definidas,
embora se saiba que sua base situava-se no centro de Mashonalndia. Algumas
runas semelhantes s do Grande Zimbbue encontram-se na atual Matabele-
lndia, devido  infiltrao de povos do Grande Zimbbue nessa regio que era
ocupada pela cultura de Leopard's Kopje. No entanto, somente aps o declnio
do Grande Zimbbue, no sculo XV, a Mashonalndia adquiriu certa prepon-
derncia em matria de empreendimentos polticos e comerciais; essa questo,
porm, escapa ao quadro do presente captulo.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                                               613



     A s relaes comerciais com a costa da frica oriental
    A influncia do Grande Zimbbue e de seus estabelecimentos tributrios
fazia-se sentir muito alm das fronteiras imediatas, e relativamente prximas, do
prprio Estado. A prosperidade de Kilwa, na costa da frica oriental, seguia de
perto as flutuaes do comrcio de ouro com Sofala. J no sculo X, o gegrafo
rabe al-Mas`d mencionava Kilwa e o comrcio aurfero nos seus escritos13.
Quatro sculos mais tarde, Ibn Battta descrevia a mesma Kilwa como uma das
mais belas cidades do mundo14, uma aglomerao cuja prosperidade baseava-se
no comrcio de ouro com o sul. Sem a menor dvida, a riqueza dos senhores do
Grande Zimbbue cresceu e declinou acompanhando as fortunas do trfico cos-
teiro. A prpria Kilwa conheceu vicissitudes comerciais. Atingiu o pice da pros-
peridade no sculo XV, quando se empreendeu a reconstruo da famosa Grande
Mesquita, com domos e abbadas to bem trabalhados. Um sculo depois, porm,
Kilwa, a costa da frica oriental e at o Estado do Grande Zimbbue estavam em
plena decadncia. Quando os portugueses chegaram a Sofala, o comrcio costeiro
no passava de uma sombra do que j tinha sido. Assim, apesar do seu isolamento,
o Grande Zimbbue havia contribudo, atravs dos contatos comerciais e do ouro
que produzia, para a prosperidade e crescimento econmico no somente da costa
da frica oriental, como de terras muito mais distantes.
    O funcionamento do comrcio costeiro  mal conhecido  poucos stios
comerciais do interior j foram investigados ou escaparam ao interesse insidioso
dos primeiros caadores de tesouros. Nos sculos XIV e XV, porm, houve
atividade comercial notvel ao norte da Mashonalndia e no vale do Zambeze,
cujos vestgios ensejaram magnficas descobertas arqueolgicas. Essa regio era
povoada desde a Idade do Ferro Antiga, que durou, ali, at o fim do primeiro
milnio da era crist. Entre os sculos XII e XIV, o norte da Mashonalndia
foi ocupado pelos fabricantes da cermica de Musengezi, que praticavam uma
agricultura de subsistncia e mantinham um mnimo de contatos comerciais.
Pensa-se que falavam o shona. Embora nos seus estabelecimentos mais tardios
sejam encontrados com certa frequncia objetos adquiridos comercialmente, a
cultura de Musengezi parece estar a uma enorme distncia da riqueza dos seus
vizinhos meridionais do Grande Zimbbue.




13   AL-MAS`D, 1962-1971.
14   IBN BATTTA, 1958-1962, v. 2, p. 379 et seq.; ver tambm Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 5, p.
     106-7.
614                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    O mesmo no se pode dizer, porm, da extremidade noroeste da Masho-
nalndia nem da parte inferior do vale do mdio Zambeze, onde existiram
estabelecimentos maiores, nos quais o trabalho e o comrcio do cobre assumiram
grande importncia. O stio de Chedzugwe, no frtil distrito de Urungwe, cobria
uma superfcie de uns 30 hectares de prados da melhor qualidade; a abundncia
de ossos de gado e de outros animais comprova o destaque que tinham, nas suas
atividades econmicas, a pecuria e a caa. Mas a metalurgia do cobre e do ferro
tambm estava longe de ser secundria, j que ambos os minerais achavam-se
em quantidade na regio. O cobre era fundido em lingotes padronizados em
dois pesos fixos; faziam-se braceletes com fios de cobre, e era corrente o uso de
ligas de estanho. Tambm se conheciam os txteis, e se fabricava cermica de
excelente qualidade, cujas tigelas e copos tinham um acabamento e delicadeza
de decorao praticamente sem rivais no mundo (ver fig. 21.10)15.

      A arqueologia e os limites da influncia do Grande Zimbbue
    Os habitantes de Chedzugwe mantinham relaes no apenas com o Grande
Zimbbue, como tambm com o vale do Zambeze. Seus belssimos lingotes de
cobre e suas cermicas to delicadas foram encontrados at no stio isolado de
Ingombe Ilede, onde, em 1960, realizaram-se marcantes descobertas, que nos
ensinaram alguma coisa sobre os antigos mecanismos de comrcio, tanto local
quanto de longa distncia. Ingombe Ilede fica no alto de uma colina baixa, na
plancie coberta pelo Zambeze em suas inundaes, a alguma distncia da mar-
gem norte do rio. Hoje ocupado por uma estao de bombeamento, o stio da
Idade do Ferro foi descoberto quando se construam grandes reservatrios de
gua. Onze sepulturas ricamente decoradas encontravam-se no alto de Ingombe
Ilede, sendo recuperadas  felizmente  antes de se completar a construo dos
reservatrios. Deitados bem prximos uns dos outros, os esqueletos estavam
cercados por uma espantosa coleo de objetos locais e importados. Um deles,
ricamente adornado, portava um colar de conchas do gnero Conus  conchas
marinhas da frica oriental tradicionalmente associadas ao estatuto de chefe 
bem como colares e fieiras de ouro, ferro, cobre e contas de vidro importadas,
que rodeavam o pescoo e a cintura. Outra concha do gnero Conus e dois
amuletos de madeira  que poderiam estar relacionados com o mundo islmico
 foram encontrados  altura da cintura, na mesma sepultura. Lingotes de cobre
em forma de cruz (ver fig. 21.11), gongos de ferro, enxadas de uso cerimonial


15    Ver GARLAKE, 1970.
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                               615




Figura 21.10   Cermica extrada de Chedzugwe, Zimbbue. (Fonte: Garlake, 1973.)
616                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 21.11    Dois lingotes de cobre em forma de cruz do Ingombe Ilede, Zmbia, ps-sculo XI. (Foto
B. M. Fagan.)



e conjuntos de ferramentas utilizadas para fabricar fios de metal repousavam
junto  cabea ou aos ps de vrios esqueletos. Seus membros estavam rodeados
de manilhas de fios de cobre, que possivelmente haviam sido fabricadas com
as ferramentas encontradas junto aos corpos. O cido cprico dessas manilhas
preservou vrias camadas de tecidos de algodo ou de casca de rvore, provavel-
mente pertencentes s roupas de seus proprietrios. Nos estratos superiores de
Ingombe Ilede, foi encontrado grande nmero de fusos com discos perfurados;
portanto, pelo menos uma parte dos panos era tecida localmente.
    O mais notvel nessas sepulturas  que, excetuando-se a cermica, quase todos
os objetos ali encontrados eram artefatos ou materiais obtidos pelo comrcio de
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                          617



longa distncia. No existia nenhuma jazida importante de minrio de cobre,
ouro ou ferro nessa parte do vale do Zambeze, embora fosse fcil obter tanto
o sal quanto as presas de elefante, duas mercadorias essenciais para o comrcio,
das quais a primeira destinava-se ao consumo domstico. Os lingotes de cobre
so idnticos aos de Chedzugwe, e a cermica de bela aparncia encontrada nas
sepulturas  virtualmente a mesma que existe no stio do distrito de Urungwe.
Em Ingombe Ilede, porm, existem contas de vidro em maior nmero.  pri-
meira vista, nada parece justificar que um lugar como Ingombe Ilede, onde no
havia jazida alguma de minerais, tomasse parte no comrcio de longa distncia.
Mas a explicao pode estar nos abundantes depsitos de sal do rio Lusitu:
durante a Idade do Ferro, os pes de sal constituam mercadoria muito valorizada,
especialmente nas trocas locais. O controle que exerciam sobre as salinas pode ter
levado os habitantes de Ingombe Ilede a manter contatos com outras comuni-
dades, que viviam nos planaltos ao norte e ao sul do Zambeze; estas dispunham
de metais preciosos que podiam trocar pelo sal, e que por sua vez serviriam ao
povo de Ingombe Ilede para adquirir artigos de luxo, no comrcio com a costa
oriental do continente. O papel de intermedirios atribudo aos habitantes de
Ingombe Ilede no passa de hiptese, pois  igualmente plausvel supor que tanto
os bens de luxo como o cobre, o ouro e o ferro fossem trocados diretamente por
sal do rio Lusitu, em transaes efetuadas com Urungwe e o Grande Zimbbue.
    Existe muita incerteza acerca da data das sepulturas de Ingombe Ilede, pois
as tentativas de datao dos esqueletos pelo carbono-14 defrontaram-se com
graves problemas. Sabe-se que existia uma grande construo de pau-a-pique no
ponto mais elevado da aldeia, mas seus alicerces j haviam sido destrudos, antes
do incio das escavaes arqueolgicas, pelos construtores dos reservatrios de
gua. As sepulturas com objetos de ouro encontravam-se sob os alicerces dessa
cabana, que pode ter sido destruda intencionalmente no decorrer dos ritos fune-
rrios. Os esqueletos pertencem aos ltimos anos da existncia de Ingombe Ilede,
aldeia habitada, talvez de maneira intermitente, desde o sculo VII. Pelo final do
primeiro milnio, o local foi abandonado pelos seus moradores, camponeses que
praticavam a agricultura de subsistncia e mantinham contatos com os agriculto-
res do planalto de Batoka, mais ao norte. Ingombe Ilede certamente no foi um
centro comercial durante os primeiros sculos de sua histria. Mas, por volta de
1400, o local voltou a ser ocupado brevemente, ocasio em que foram realizados
os sepultamentos com seus objetos de ouro, nas fossas de cinza fina do alto da
colina.  a este ltimo perodo de ocupao que se podem atribuir os objetos
importados, o ouro, o cobre e a cermica de melhor qualidade encontrados em
Ingombe Ilede. O Grande Zimbbue conhecia, ento, o apogeu de sua importncia
618                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



e prosperidade, e os rabes exerciam firme controle sobre o comrcio da costa
oriental. Contudo, mesmo que Ingombe Ilede tenha sido um centro comercial, a
riqueza e lucros provenientes dessas trocas certamente estariam concentrados nas
mos de poucas pessoas  as que esto enterradas no alto da colina. Nos limites
meridionais desse stio, encontraram-se mais 31 sepulturas, contemporneas
dos esqueletos recobertos de ouro exumados no topo da colina. Somente alguns
desses corpos enterrados s pressas portavam algum modesto enfeite  contas
de vidro, conchas de gua doce ou um bracelete de cobre. Parece, pois, fora de
questo que existia certa estratificao social em Ingombe Ilede.
    A aldeia de Ingombe Ilede marca, provavelmente, o limite setentrional da
atividade comercial que ligava os vales do Zambeze e do Limpopo, limite este
que reflete as idiossincrasias do comrcio costeiro e a complexidade das relaes
polticas do Estado do Grande Zimbbue com seus vizinhos. At o presente
momento, foi-nos impossvel vincular essas sepulturas mais ricas de Ingombe
Ilede a qualquer grupo histrico conhecido, embora certas referncias existentes
em documentos portugueses do sculo XVI excitem nossa curiosidade. Entre
1506 e 1515, Antnio Fernandes partiu de Sofala em duas viagens de explorao
do interior. Visitou os chefes locais e descreveu como funcionava o comrcio do
ouro. Contou que ouviu falar de um grande rio ao norte do reino do Monomo-
tapa, no qual o povo dos "Mobara" trocava cobre por tecido, cruzando o rio em
canoas para comerciar com os rabes. De modo geral, aceita-se que haja alguma
ligao entre Ingombe Ilede e esses Mbara do sculo XVI.


      O final do sculo XV: mudanas e transformaes
    Quando o Estado do Grande Zimbbue est no apogeu, o sul da frica cen-
tral acha-se no limiar da documentao histrica e da tradio oral. Pelo final do
sculo XV, o Grande Zimbbue comea a ser abandonado por boa parte de sua
populao. As foras associadas ao poder econmico e poltico deslocaram-se
para o sul e para o oeste, sob a chefia do poderoso cl rozwi. As tradies orais
registram o surgimento de um soberano hereditrio, o mwene mutapa (senhor
do saque)16, sendo o primeiro Mutota. Seu filho Mutope expandiu o territrio
do mwene mutapa para o norte, transferindo sua capital para uma regio seten-
trional, longe do Grande Zimbbue. Posteriormente, por volta de 1490, as partes
meridionais do reino romperam com a autoridade central, constituindo, sob a

16    Para alguns autores, mwene mutapa quer dizer "senhor dos metais".
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                          619



liderana de Changamire, um poderoso Estado separado. O mwene mutapa s
conseguiu conservar uma pequena faixa de territrio, ao longo do Zambeze, que
se estendia at o oceano ndico. Seu domnio acabou caindo sob a influncia
portuguesa, no decorrer dos sculos XVI e XVII.
    Mas esses acontecimentos polticos no bastam para explicar por que um
stio to importante quanto o Grande Zimbbue foi abandonado de maneira to
rpida e inesperada. Prticas religiosas e atividades econmicas idnticas s suas
eram seguidas em outros lugares. A populao continuou vivendo da agricultura
de subsistncia baseada no nomadismo agrcola. Talvez esteja neste ponto a
razo para o abandono do Grande Zimbbue:  possvel que os campos circun-
dantes tenham se tornado incapazes de manter sequer um circuito disperso de
pequenas aldeias, e menos ainda a complexa superestrutura da populao no
agrcola residente no prprio Grande Zimbbue. A intensificao da agricultura
s pode resultar da irrigao ou fertilizao artificial do solo. Nenhum desses
mtodos era praticvel na savana arborizada que cercava o Grande Zimbbue.
Quando as terras cultivveis esgotaram-se, s restou uma coisa a fazer: procurar
terras novas para desmat-las e iniciar novas lavouras e, desta maneira, alimentar
a populao existente. Bastava que se diminussem os perodos de descanso da
terra, ou que se deixasse entrar o gado (de menor ou maior porte) nos pastos
onde a grama estava se recompondo, para interromper os ciclos agrcolas vitais
, o que inevitavelmente resultava na degradao do meio ambiente, no desgaste
das pastagens, e, finalmente, na migrao de largos contingentes de populao
para novas reas cultivveis. Quando isto aconteceu nas cercanias do Grande
Zimbbue, o mwene mutapa precisou partir, por mais sagrado que se considerasse
seu local de residncia, ou por imponentes que fossem as muralhas de pedra
que definiam os seus cercados. Parece muito provvel que os desequilbrios
polticos do final do sculo XV tenham estado estreitamente ligados s limita-
es ambientais que sempre ameaam as estruturas polticas ou religiosas (por
complexas que sejam) baseadas na agricultura de subsistncia e numa populao
rural dispersa.
    Por volta de 1500, o sul da frica central tinha passado por grandes trans-
formaes polticas e econmicas. Um certo grau de unidade poltica e de estra-
tificao social havia nascido entre os rios Zambeze e Limpopo, favorecida pela
intensificao do comrcio de longa distncia e pelas solicitaes dos mercados
mais remotos, e tambm pela evoluo interna das prprias sociedades africanas
, a concentrao da riqueza em mos de poucos, a centralizao do poder pol-
tico em nvel superior ao da aldeia, a criao de um refinado aparelho estatal no
qual os assuntos seculares e religiosos dependiam da pessoa de um chefe a quem
620                                                                 frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 21.12   As tradies e fases arqueolgicas. (B. M. Fagan.)
As bacias do Zambeze e do Limpopo, entre 1100 e 1500                         621



se atribua ascendncia divina. Estas transformaes, especificamente africanas,
ocorreram tambm em muitos dos Estados mais fortes da frica central e de
outras partes do continente. Mas sua viabilidade exigia a conservao de fortes
redes comerciais e de um sistema de agricultura de subsistncia suficiente para
alimentar a populao. Estes fatores revelaram-se, numa anlise histrica, deter-
minantes para o crescimento e a prosperidade do Estado do Grande Zimbbue,
e de seu sucessor, o Estado rozwi. E, por trs da ascenso e queda de tantas
chefarias maiores e menores, o fio condutor da vida na Idade do Ferro, que nos
 confirmado por muitas descobertas arqueolgicas, continuou a depender da
agricultura e de sua economia de subsistncia, baseada nas diversas lavouras, na
pecuria e na criao de pequenos animais.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   623



                                       CAPTULO 22


                A frica equatorial e Angola:
                as migraes e o surgimento
                   dos primeiros Estados
                                             Jan Vansina




    O estgio atual de nossos conhecimentos
    Reconstruir o passado dessa vasta zona do continente africano no perodo
que vai de 1100 a 1500 constitui um difcil desafio para o historiador. So pou-
cas as fontes de poca de que dispomos atualmente, uma vez que o mais antigo
manuscrito existente data somente de 1492, e as incipientes escavaes efetuadas
em Shaba e no baixo Zaire (Congo) e em outras regies, no nos podem forne-
cer um quadro cronolgico bem definido. J as fontes escritas posteriores tratam
apenas do reino do Kongo. Tornam-se mais frequentes no perodo posterior a
1500, e por isso utilizaremos vrias relaes tardias (de 1587, 1624 etc.), pelas
informaes que nos podem dar sobre o perodo anterior a 1500, ou melhor,
neste caso, a 1483.
    Entre as fontes no contemporneas esto as tradies orais do Kongo, registradas
pela primeira vez em 1624, e outras que tratam dos reinos costeiros, recolhidas por
O. Dapper e G. A. Cavazzi, entre 1641 e 1667  isto , dois ou trs sculos
aps os acontecimentos. Quanto s outras regies, a coleta das tradies orais
s teve incio em fins do sculo passado, mas tornou-se sistemtica desde a
independncia, em 1960. As tradies orais revelaram-se uma fonte essencial
para a compreenso tanto da histria quanto da cultura locais.
    Para o perodo em questo e para o anterior, a utilizao de dados lingusticos
poderia ser fundamental, embora eu acredite que por essa poca as migraes
624                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



bantu j tivessem chegado ao fim  opinio que no  partilhada por todos os
especialistas. Todos concordamos, porm, em que tal perodo comea muito
depois do fim da sociedade protobantu, cujos traos principais podemos
reconstituir mediante a anlise de seu vocabulrio. O estudo das diferencia-
es entre as lnguas e do processo de formao dos Estados, embora tenha
sido apenas comeado, promete dar bons frutos. Quanto s lnguas faladas nas
savanas do norte, pertencentes ao grupo oriental do ramo Adamawa-Leste,
de J. H. Greenberg, e ao grupo sudnico central, ainda no foram analisadas
de maneira rigorosa pela lingustica histrica.
   Restam os dados etnogrficos. Mas  difcil de estabelec-los porque de
incio  necessrio limpar o terreno, mediante uma crtica rigorosa, para
assim se chegar pelo menos  situao existente antes da colonizao; em
seguida, deve-se recorrer a uma metodologia extremamente delicada, como
mostram as tentativas feitas pela antropologia histrica desde o fim do
sculo XIX. Contudo, um estudo etnolgico aprofundado, somando -se a
uma anlise da difuso e dos emprstimos lingusticos, pode esclarecer mui-
tos aspectos da histria. Da mesma forma que acontece com as lnguas,
igualmente na etnografia no basta estabelecer descries pormenorizadas
onde elas ainda no existem;  preciso tambm tentar obter os dados mais
objetivos possveis.
   A cronologia  o ponto mais difcil para todo esse material mais tardio,
que no est datado pelo carbono-14 nem por documentos escritos. Os ele-
mentos lingusticos e etnogrficos de que dispomos no fornecem sequer uma
cronologia relativa. Apenas comparando os resultados assim obtidos com os
da arqueologia  que chegamos a uma certa datao. As tradies orais for-
necem uma sequncia relativa   verdade , mas que s vale para os perodos
posteriores aos tratados pelos mitos de origem. Portanto, nessa rea, com
exceo da regio litornea, toda a cronologia desse perodo continua incerta.
Somente escavaes intensivas, acompanhadas de dataes sistemticas atravs
do recurso ao carbono-14, podero melhorar essa situao.
   Nessas condies, a nica abordagem possvel  tentar reconstituir a his-
tria a partir dos dados arqueolgicos e lingusticos que temos, relativos ao
perodo em estudo e ao perodo anterior, cotejando-os com os testemunhos
mais recentes. Dessa forma construiremos um quadro ligando os fios mais
antigos aos mais novos  embora este conjunto, afinal, no passe de uma soma
de hipteses a serem verificadas.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                          625



    Os povos
    Se a expanso das lnguas bantu pode refletir a ocorrncia de grandes migra-
es, ento estas terminaram bem antes do ano 1100.  verdade que, segundo
R. Oliver, seguindo nisto a tese do linguista M. Guthrie, a origem da grande
massa dos povos de lngua bantu se situaria em Shaba e na regio adjacente
do nordeste da atual Zmbia. Essa rea de provenincia dos Bantu poderia
estender-se, a oeste, at o oceano Atlntico. Segundo R. Oliver, foi nela que se
desenvolveu um estilo de vida "bantu", fundado numa agricultura basicamente
de cereais e no emprego intensivo do ferro. Esse desenvolvimento, segundo
essa teoria, teria levado a uma expanso demogrfica, fazendo os povos bantu
subirem os rios e a costa para penetrar na floresta, onde ainda por volta do ano
1000 existiam grupos bastante esparsos de caadores e pescadores vivendo num
estgio pr-agrcola1. Por volta de 1500 provavelmente j se encerrara esse avano
a partir do sul, embora ainda hoje se constate a existncia de grandes bolses de
agricultores de lngua no bantu e de caadores pigmeus2. Em Angola, tambm
se encontram grupos de caadores  talvez sejam uma parte do povo san que
no foi expulsa para o sul.
    Essa teoria, porm,  rejeitada como inverossmil por numerosos linguistas,
que, concordando com J. H. Greenberg, localizam a origem dos falares bantu
na regio que est entre os rios Benue e Cross. De acordo com J. H. Greenberg,
os povos de lngua bantu se deslocaram gradualmente para o sul, colonizando
a regio entre os rios Sanaga e Ogoue muito antes do ano 1000, talvez at
mesmo antes da era crist. Um movimento paralelo ocorreu ao longo dos rios
Ubangui-M'Bomu durante o mesmo perodo. Depois disso, houve uma espcie
de exploso de lnguas a partir de um ncleo secundrio existente na regio das
lnguas kikongo, ou em Shaba ou na regio interlacustre, j que um ramo dos
mais antigos grupos de lngua bantu teria seguido no rumo leste pelas bordas da
grande floresta, passando depois pelos rios Ubangui e M'Bomu. Mas tambm
essa disperso a partir do ncleo secundrio j estava terminada muito antes do
ano 1000: isso ns sabemos porque no kiswahili  uma das lnguas derivadas do
bantu  um primeiro vocbulo dessa procedncia  assinalado por al-Djkhis
em data anterior a 868. A meu entender, os estudos lingusticos mais recentes




1    OLIVER, 1966; GUTHRIE, 1962.
2    Sobre essa expanso bantu, ver, de B. Fagan, o captulo 6 do volume 3 desta Histria geral da frica.
626                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 22.1   Mapa da frica central, c. 1500. ( J. Vansina.)
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                 627



explicam melhor a questo, e aceito a tese de que as migraes nessa regio
tinham chegado ao fim ainda no primeiro milnio da era crist3.
    Tambm  provvel que o impacto dos povos que falavam as lnguas orientais
do ramo Adamawa-Leste tenha desagregado o bloco dos que falavam as lnguas
do grupo sudnico central, bem antes de 1100. Mas, tanto na parte nordeste da
floresta e ao norte da curva do rio Zaire como na bacia do Ubangui continuava a
disputa entre as diversas lnguas, inclusive as bantu; s vezes uma conseguia afastar
outra, mas parece que isso tudo acontecia sem grandes movimentos de popula-
o. As lnguas do grupo sudnico central no conseguiam impor-se aos povos
que falavam bantu, e vice-versa, enquanto as lnguas mais antigas da regio, que
pertenciam ao grupo oriental do ramo Adamawa-Leste, eram desgastadas pelas
demais. Os pigmeus aderiram, basicamente, s lnguas do grupo sudnico central.
Tudo isso leva a pensar que, no confronto das culturas, as foras presentes se
equivaliam, e que a histria desse sculo deve ter-se resumido a ganhos ou perdas
menores, ora para um lado, ora para outro, sculos a fio. Em outras regies, a subs-
tituio das lnguas autctones pelo bantu estava completada ou por completar-se,
mas devemos supor que, no decorrer desse processo, os imigrantes de expresso
bantu integraram  sua civilizao muitos dos complexos culturais autctones. E
isso pde acontecer sem provocar grandes migraes, as quais, para dizer a verdade,
parecem mais a exceo do que a regra, nessa parte do continente.
    Provavelmente as primeiras formaes tnicas regionais j existiam bem
antes de 1500. O caso mais bem conhecido  o dos Imbangala, formados pelos
Lunda, Luba, Ovimbundu e Ambundu4. A influncia das comunicaes se cons-
tata especialmente na bacia central, onde uma tripla diviso do trabalho ligava
agricultores, caadores (pigmeus, em sua maioria) e pescadores. Estes ltimos
mantinham intensos contatos tanto com os agricultores, a quem vendiam peixe
e cermica, em troca de produtos vegetais e de carne, como com os pescadores
dos canais de gua doce mais prximos. Esse entrelaamento de interaes,
por toda a bacia central, explica por que as lnguas mongo permaneceram to
uniformes nessa regio. J na floresta de Maniema, o relevo montanhoso e
a vegetao particularmente densa tornavam difceis as comunicaes; ainda
assim, porm, encontramos nela dois grandes grupos, os Lega e os Komo, cuja
unidade cultural foi mantida5.


3    GREENBERG, 1963, p. 30-8; HEINE, HOFF & VOSSEN, 1977; COUPEZ, EVRARD & VANSINA,
     1975, p. 152; PHILLIPSON, 1977.
4    MILLER, J. C., 1972a.
5    GUTHRIE, 1953, apresenta um mapa que mostra com clareza essa distribuio demogrfica; VANSINA,
     1966a, p. 93-103, 105-14.
628                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    A influncia permanente dos autctones  obviamente mais visvel na rea
da floresta do nordeste, entre os rios Zaire, Ubangui e M'Bomu. Poderamos
at supor que os diferentes grupos cultivaram deliberadamente suas oposies
lingusticas para traduzirem melhor, nos fatos, sua vontade de se individualizar.
E o linguista C. Ehret vai ainda mais longe. Afirma que os povos que falavam
as lnguas do grupo sudnico central no ocupavam apenas o nordeste, mas tam-
bm todo o territrio a leste do Lualaba (alto Zaire). Antes mesmo da chegada
dos povos de fala bantu, eles j se encontravam divididos em distintos grupos.
Deixaram poucas marcas nas lnguas da regio, mas seu legado mais importante
seria o esprito de individualizao, que teriam transmitido queles cuja lngua
adotaram. Ainda  cedo demais para se julgar a validade dessa teoria ou avaliar
seus resultados6. A marca dos povos que falavam as lnguas do grupo sudnico
central e outros aparece claramente no mapa das savanas setentrionais, expli-
cando a presena de certos "bolses" tnicos  embora nunca devamos esquecer
que o mapa atual representa uma situao produzida pelas grandes migraes
que agitaram essa regio do sculo XVII ao XIX.
    Assim foi que a imigrao banda, originria do Dar Banda  localizado
logo ao sul do Bahr al-`Arab, no Sudo , varreu os grupos sabanga e kreish em
todo o leste e no centro dessa regio. Por volta de 1900 os Sabanga constituam
apenas pequenos pontos perdidos na massa banda, e em sua maioria assimilados
por ela. De todo o seu grupo, apenas o reino nzakara teve fora suficiente para
sobreviver. Os Banda deixaram o territrio de origem para escapar s razias,
cada vez mais frequentes, de escravagistas que vinham do Darfr, e mais tarde
do prprio Nilo. Na mesma poca, o oeste da atual Repblica Centro-Africana
foi agitado por macia migrao gbaya, provocada pelas incurses haussa em
busca de escravos, originrios de Adamawa.


      Histria e civilizao da regio
      Agricultura
    Os dados ecolgicos e arqueolgicos disponveis permitem-nos afirmar que
j antes de 1100 a agricultura era praticada por toda parte, com exceo do
interior de Angola meridional, que fica perto demais do deserto de Kalahari,
e de algumas regies florestais. Os principais cereais cultivados eram o sorgo


6     EHRET, 1974a.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   629



vermelho e outros milhetes (saa-sanga). Dentre os tubrculos, predominavam
os inhames africanos, de vrias espcies; provavelmente no se cultivava o taro
asitico (coco-yam), enquanto a bananeira e a cana-de-acar, da mesma prove-
nincia, eram cultivadas principalmente na floresta, embora tambm o fossem
na savana. Como legumes, consumiam-se feijes e amendoim (Voandzeia). As
protenas indispensveis  alimentao eram fornecidas pela caa, pesca e coleta
de lagartas e larvas. Animais domsticos  galinhas, cabras e ces  tambm
eram criados em toda a regio. No sul da floresta, criavam-se carneiros; e, pelo
menos na parte inferior do rio, tambm gado de chifres e porcos. Certamente
existia uma tecnologia agrcola diferenciada na floresta e na savana: nesta, a
alimentao se baseava nos cereais, contrastando com as bananas e os inhames
da primeira. Havia at reas dedicadas especialmente ao cultivo de palmeiras.
    Mas  fundamental recordar que a floresta era recortada por trechos interme-
dirios de savana natural, ao longo da costa, entre o rio Gabo e o curso superior
do Zaire e dentro da curva deste ltimo; provavelmente tambm se cultivavam cere-
ais nessas regies. O nico impedimento a essa cultura talvez fosse a excessiva
umidade que reina perto do equador, mas essa questo s poder ser resolvida
por meio de escavaes arqueolgicas e estudos de botnica. Nas proximida-
des dessas savanas intermedirias, assim como na orla da floresta, o homem
beneficiava-se, portanto, das vantagens de dois meios ambientes que, muitas
vezes, se complementavam. Era nesses lugares que as colheitas estavam menos
sujeitas ao imprevisvel, e que se podia contar com o crescimento da populao,
j iniciado desde a introduo da agricultura e das ferramentas de ferro. Tal
crescimento deve ter levado, antes mesmo do ano 1000, a migraes para outras
regies menos povoadas.
    Notemos, ainda, que no era apenas na floresta que se podia desfrutar de um
duplo meio ambiente. Tambm na savana arborizada, a presena de matas ciliares
ao longo dos rios desempenhava exatamente o mesmo papel que as savanas inter-
medirias na floresta, especialmente nos vales do Ubangui, do Kasai e do Lualaba.
Ademais, s margens desses trs rios, bem como s do Chari, a abundncia de
peixes favorecia o crescimento e a concentrao demogrficos. Uma dieta rica
em protenas pode ter aumentado a taxa de fecundidade, favorecendo, portanto,
o crescimento da populao.

    Artesanato e comrcio
   Por toda a regio, as tcnicas artesanais j haviam assumido em 1100 as
caractersticas que conservariam at mais ou menos 1900: a metalurgia do ferro
630                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



estava bem desenvolvida, e entre as demais atividades se incluam a cermica,
a fabricao de cestos, a tecelagem em rfia, a tanoaria e a extrao de sal do
mar, dos mangues, de plantas ou ainda de sal-gema. As escavaes efetuadas
em Bouar, na Repblica Centro-Africana, bem como as de Sanga, comprovam
a existncia da metalurgia.  possvel que as minas de ferro de Munza, em
Shaba, tenham sido exploradas desde muito cedo, e que tal fato estivesse ligado
 expanso do reino luba7.
    Com essas tcnicas, nasceu um comrcio regional. As primeiras indicaes do
emprego de cruzetas de cobre como moeda aparecem no Cinturo do Cobre, por
volta do ano 1000; at 1450-1500, essa prtica se havia alastrado do rio Zambeze
at o Lualaba. Os portugueses encontraram no Kongo, em 1483, uma moeda
imaginria, a que se dava o nome de nzimbu; por volta de 1500, quadrados de
rfia circulavam, como unidade de valor, nas rotas comerciais de toda a savana
meridional fronteira ao Atlntico. No sculo seguinte, o sal-gema de Kisama
funcionou como moeda8. Os primeiros transportadores eram provavelmente
os pescadores, cuja atividade no se resumia  obteno de peixe, mas tambm
inclua a produo de cermicas que podem ser encontradas ao longo dos canais
navegveis dos numerosos rios da regio. Em Shaba e na alta Zmbia, certa-
mente houve mineiros-comerciantes especializados em cobre. E tambm deve
ter havido um comrcio de ferro e sal, dirigido para as regies onde somente
se conhecia o sal tirado das cinzas de plantas. Finalmente,  provvel que, na
floresta, os caadores autctones j estivessem se habituando a trocar caa por
pontas de flecha de ferro, bananas e sal.

      A sociedade e a organizao do poder
   Com o aumento demogrfico que sucedeu  expanso e difuso das tcnicas
artesanais e do comrcio, a sociedade organizou-se em linhagens patrilineares.
De incio, os grupos de fala bantu agrupavam-se em aldeias bastante com-
pactas.  muito possvel que tenha havido fortes tendncias matrilineares no
interior dos grupos e que elas se tenham desenvolvido na savana meridional
antes mesmo do perodo de que tratamos. Com efeito, alm de encontrarmos o
tradicional cinturo matrilinear da frica central, da Nambia at o Zambeze
e do Ogoue at o lago Tanganica, sabemos que G. P. Murdock e outros autores

7     VIDAL, P., 1969; VIDAL, P. & DAVID, 1977, p. 3-4, identificaram outro stio da Idade do Ferro
      na confluncia dos rios Nana e Mode, na Repblica Centro-Africana; MARET, VAN NOTEN &
      CAHEN, 1977; REEFE, 1975.
8     GRAY, R. & BIRMINGHAM, 1970; BISSON, 1975.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados           631



afirmaram tambm que os povos da floresta a oeste do rio Lualaba estavam
todos organizados matrilinearmente, assim como os Luba de Shaba. Talvez
essa ainda fosse a norma, por volta do ano 1000. No sculo XV, em todo caso,
os povos da floresta adotavam a sucesso patrilinear, mas os Luba de Kasai, e,
provavelmente, tambm os de Shaba, ainda eram matrilineares. S mudaram
seu regime de sucesso depois de 15009.
    Na prtica, parece que o sistema matrilinear bantu admitia o princpio da
autoridade dos homens sobre as mulheres, o que frequentemente acarretava
uma residncia patrilocal, que por sua vez favorecia a fragmentao dos cls.
As linhagens matrilineares se debilitavam, ao passo que se fortalecia a estrutura
da aldeia, j que era necessrio manter uma ordem na vida comunitria. Essa
autoridade na aldeia se baseava em princpios territoriais e, portanto, polticos.
Assim, desde o comeo, os povos de lngua bantu tiveram chefes polticos a
nvel de aldeia.
    J os povos que adotavam a sucesso matrilinear de outras lnguas que no a
bantu, dispersados pelo territrio da atual Repblica Centro-Africana, viviam
em aglomeraes menores, sob a direo dos homens de uma linhagem, que
no chegavam, porm, a exercer sobre eles o poder de chefe. No tinham pro-
priamente aldeias, mas uma sucesso de povoados menores  o que se ligava,
tambm, ao carter bastante igualitrio de sua sociedade. Contudo, em outras
regies, ao longo dos rios Ubangui e Chari, os habitantes patrilineares da floresta
residiam em conjuntos maiores de povoados, as linhagens detinham mais poder
e existiam chefes reconhecidos como tais10.
    Tambm havia senhores da terra, reconhecidos como tais, em toda a parte
meridional da savana, assim como na orla da floresta, tanto ao sul como ao
norte. Eles mantinham uma relao privilegiada com a terra, por intermdio de
espritos de quem eram os sacerdotes; assim, desfrutavam de uma autoridade
que, na verdade, era poltica. Esses senhores da terra parecem ter governado
conjuntos de aldeias, cada um dos quais constitua uma espcie de distrito ou
uma unidade territorial  um embrio de reino.
    O processo que culminou no reconhecimento dos senhores da terra como
chefes polticos est ligado ao fortalecimento das linhagens. O aumento nas
rendas auferidas por uma linhagem reforava, ao mesmo tempo, o poder do seu
chefe. Dessa forma, o patriarca se converteu em chefe territorial e depois em


9    MURDOCK, 1959, p. 287; VANSINA, 1978, p. 105-10. Esses dados indicam que os Luba (de quem
     os Kete so um subgrupo) eram matrilineares.
10   KALCK, 1959, p. 45-54; VANSINA, 1966a.
632                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



fundador de Estado, mediante a absoro de outras linhagens ou a imposio
de sua autoridade pela fora das armas.
    No mbito da aldeia, a produo de um excedente permitia liberar do traba-
lho manual o chefe da linhagem. Alm disso, como o crescimento demogrfico
proporcionasse braos suplementares, tambm os chefes de famlia se isentaram
do trabalho e constituram um conselho, em torno do patriarca. Assim se deu
a gestao do Estado.
    O Estado nasceu, portanto, do fortalecimento da autoridade de um chefe de
linhagem, que se revelou capaz de impor-se a outras linhagens. Tal Estado pode
definir-se como um territrio que englobava algumas aldeias que reconhecessem
a autoridade poltica de um chefe. Este era rodeado de agentes ou funcionrios
que formavam o seu conselho. Nos primeiros tempos, o rei, como um lder
poltico, conservava ainda o essencial de seus atributos de chefe religioso  da o
carter "sagrado" que lhe era conferido. Mas, uma vez superada essa fase,  medida
que se multiplicaram os conselheiros, juzes, dignitrios e guardas do chefe que se
estava transformando em rei, tornou-se necessrio, para atender s necessidades
do Estado, organizar um sistema de redistribuio dos excedentes retirados dos
produtores. Esses reis, chefes ou conselheiros arrebanhavam seguidores usando
da generosidade, especialmente na farta distribuio de vinho ou cerveja. Foi
por isso que o rito da "bebida do rei" veio a se tornar, em muitos Estados, o mais
importante distintivo da supremacia real. Assim se fez necessria a obteno de
um excedente superior ao normal. Ora, apesar de no haver aperfeioamento da
tecnologia, havia terra disponvel em abundncia: a soluo econmica esteve em
requerer maior nmero de braos. O trabalho era o nico fator que poderia ser
mudado; vem da, provavelmente, o estatuto do escravo domstico. Um escravo
era um servidor que produzia obedecendo s diretrizes de seu amo e aumentava
em uma unidade a fora de trabalho agrcola, at ento basicamente composta de
mulheres. Os primeiros escravos foram certamente prisioneiros de guerra.
    A frequncia dos combates h de ter aumentado  medida que as senhorias
se convertiam em Estados, j que, para se expandirem, elas tinham de absorver
outras senhorias ou patrilinhagens. Outra fonte possvel de trabalho cativo seria
a comutao da pena de morte imposta a certos criminosos11.
    Houve casos, porm, em que no nasceu um Estado, embora as condies
sociais e ecolgicas fossem favorveis. Assistimos, ento,  elaborao de distintos



11    DE JONGHE & VANHOVE, 1949; MIERS & KOPYTOFF, orgs., 1977. Cf. tambm MEILLAS- SOUX,
      org., 1975.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   633



sistemas polticos. Alguns valorizavam a igualdade acima de tudo e recusaram-se
a abandon-la. Outros preservaram parte desse esprito igualitrio, formando
confederaes de linhagens baseadas em associaes ritualizadas sem chefe.
O exemplo mais espetacular dessa "escolha" foi certamente o dos Ngbandi,
que, embora fornecessem linhagens de soberanos a outros povos, continuaram
vivendo, eles prprios, sem ter Estado. Um caso mais comum foi o dos Gbaya,
que mantinham constantes relaes com etnias organizadas em Estados, como a
dos Mbum, mas no quiseram seguir-lhes o exemplo. Da mesma forma, os Sara
ajudaram a constituir o Estado de Bagirmi, mas desenvolveram a sua sociedade
no quadro das linhagens.
    Certas caractersticas religiosas provavelmente eram comuns aos agricultores
de toda a regio: a feitiaria, os rituais de fecundidade dirigidos pelo senhor da
terra, a importncia dos espritos locais e de ancestrais, o respeito tributado aos
adivinhos e curandeiros. A reconstituio de uma srie de termos comprova que
tudo isso j existia no mundo protobantu.
    Todas as formas de autoridade, desde a do pater familias at a do soberano
ou de uma associao, detinham carter sagrado. No deve surpreender, portanto,
que toda a realeza fosse sacralizada, nem que fossem semelhantes as concepes
do sagrado  porque as bases religiosas eram as mesmas por toda a regio. A
esse princpio uniforme deu-se, com excessiva ligeireza, o nome de "realeza
sagrada" e procurou-se encontrar uma origem nica para ele. Mas, dessa maneira,
desprezaram-se as importantes diferenas existentes entre os diversos reinos e
que se devem ao fato de eles terem nascido de processos independentes. Foi esse
o caso dos reinos luba, ou dos Estados da costa atlntica, para citarmos apenas
os exemplos mais conhecidos.
    Se discutimos mais longamente a formao dos conjuntos polticos de maior
dimenso  porque foi justamente durante o perodo ora em pauta que se fun-
daram e consolidaram os Estados, especialmente na savana meridional.


    As savanas setentrionais: os povos
   A tradio oral dos Ngbandi, que vivem hoje em dia na curva do rio Ubangui,
organizados em linhagens patrilineares (o equivalente, de fato, a senhorias), remonta
aos tempos anteriores a 1500. Uma vez interpretados, seus mitos de origem reve-
lam que eles vinham de uma regio limtrofe do Dar Banda, no atual Sudo,
que foi ocupada pelos Banda no sculo XIX. Esse territrio estava limitado,
ao norte, por um afluente do Bahr al-Ghazl, o Bahr al-`Arab, e tinha em suas
634                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi



proximidades as jazidas de cobre de Hofrat en-Nahas, que, por no dispormos
de nenhuma referncia, no sabemos quando comearam a ser exploradas.
    A partir mais ou menos do ano 1300, grupos nmades de rabes Bakkara
chegaram ao norte desse rio;  possvel que tenham sido eles que expulsaram
os Ngbandi. Os mitos evocam brancos armados de arcos e flechas, lanas, facas,
dardos e at mesmo fuzis, a quem se d os nomes de Azundia e Abara. Esse
conflito teria ocorrido no sculo XV; durante dois sculos, uma migrao cont-
nua teria levado os Ngbandi a uma regio prxima a Bangassu. No final da sua
migrao, eles encontraram povos de lngua bantu, a norte do M'Bomu, entre
os rios Chinko e Mbari12.
    Parece provvel que os Zande tenham sido localizados por volta de 1500,
entre Kotto e Dar Runga, que o oeste da atual Repblica Centro-Africana esti-
vesse ento ocupado pelos Manja/Ngbaka, e a sua parte oriental, pelos Bantu.
Os povos que falavam as lnguas do grupo sudnico central j estavam dividi-
dos, nessa poca, em pelo menos dois blocos: um englobava os Sara e o futuro
Bagirmi, o outro se situava no alto Nilo e na floresta do nordeste, mas alguns
grupos, como os Kreish ou os Yulu, j se teriam instalado no Dar Banda e perto
do territrio originrio dos Ngbandi.
    No sculo XVI, urna linhagem ngbandi fundou o reino nzakara, cujos sditos
falavam a lngua zande, enquanto outros Ngbandi instituam grandes senhorias
baseadas em grupos de linhagem13. A anlise dos dados lingusticos disponveis
na regio das florestas de Uele mostra que o caso ngbandi  apenas o exemplo mais
conhecido de um movimento lento e amplo, que levou povos do oeste para o leste e
do norte para o sul. A complexidade da forma pela qual se deu o povoamento dessa
regio foi exposta por J. A. Larochette14; entretanto, ele subestima os movimentos
culturais e histricos que nela ocorreram.
    Seria um equvoco atribuirmos todas essas expanses e contradies lingus-
ticas a migraes espetaculares. J. Costermans provou, quanto aos Bangba, que
sua histria migratria consistiu num movimento errante de famlias que se
deslocavam muito lentamente; esse caso deve ser mais comum do que o de vastas
migraes, a respeito das quais, por sinal, no dispomos de provas diretas para
nenhuma parte desta regio15. Fenmenos lingusticos de aculturao certamente


12    TANGHE, 1929, p. 2-37; BURSSENS, 1958, p. 43-4. Na verdade, porm, as tradies orais do grupo
      ngbandi somente se referem  regio do Chinko e Mbari.
13    DAMPIERRE, 1967, p. 156-81.
14    LAROCHETTE, 1958.
15    COSTERMANS, 1953.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   635



tambm tiveram seu papel. Todos os pigmeus, por exemplo, adotaram lnguas
do grupo sudnico central. Estudos aprofundados de ordem lingustica, cultu-
ral e diretamente histrica poderiam ajudar a resolver pelo menos parte dessa
confuso, e as sequncias culturais poderiam ser datadas atravs de investigaes
arqueolgicas. Enquanto aguardamos esses trabalhos, temos de nos contentar
com os limitados dados a que nos referimos.
    A. de Calonne-Beaufaict, que trabalhou nessa regio antes de 1914, sustentava
que at 1500 ela estava aqum da Idade do Ferro e contava que tinha visto pes-
soalmente machados polidos de hematita cravados em troncos de rvores muito
velhas. Essas pedras polidas, pedras de polir e meias-luas formam o Neoltico
ueliano, que poderia ter relao com indstrias semelhantes da atual Repblica
Centro-Africana e at mesmo de uma rea to distante quanto a regio central
da atual Repblica Unida de Camares. O arquelogo F. van Noten conseguiu
provar, porm, que aqui deparamos com uma sobrevivncia do emprego da pedra,
ao lado do uso do ferro. Com efeito, as ferramentas so fabricadas em hematita
contendo alto teor de ferro.  de se supor que a fuso do minrio e a produo
de uma ferramenta a partir do ferro bruto no resultavam, em muitos casos, num
instrumento de qualidade muito superior, pelo menos se fosse levado em conta
o trabalho que era necessrio para essa transformao. Por isso a ferramenta de
pedra com elevado teor de ferro conseguiu conservar-se em uso durante muito
tempo16. De qualquer forma, no  evidente que o aparecimento da tcnica do
ferro bastasse para pr fim, imediatamente, ao uso da pedra.


     A grande floresta equatorial
    A floresta no constituiu uma barreira, como imaginam tantos autores, entre as
savanas do norte e do sul, e sim um filtro. Pelo menos duas rotas a cortavam: uma
seguia a costa, enquanto outra era uma via fluvial, que partia do Kadei Sangha,
tomava os rios Ubangui e Zaire, at chegar ao lago Malebo (Stanley Pool). A
navegao martima j era praticada antes mesmo do ano 1000, como demons-
tra a presena dos Bubi em Fernando P. Pode-se tambm argumentar que a
estaturia de madeira policromada dos povos que vivem ao longo do golfo da
Guin ou de Benin, desde o territrio dos Yoruba at Loanga, indica a ampla



16   CALONNE-BEAUFAICT, 1921, p. 135; NOTEN, 1968; MARET, NOTEN & CAHEN, 1977, p. 486
     e 498.
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difuso dessas tcnicas transmitidas de lugar em lugar por via martima17. Quando
os portugueses chegaram, toda a costa era povoada por pescadores. Quanto
ao sistema fluvial, a confluncia dos rios Ubangui, Sanga e Zaire forma um
vasto mangue, de mata inundada, no qual somente pescadores conseguem viver.
Tambm aqui encontramos vestgios de influncias que cruzaram a floresta,
tratando-se provavelmente de artigos trazidos por pescadores.

      Deslocamentos pela floresta
    Para citar apenas os exemplos mais conhecidos, observemos que, antes
mesmo do ano 1000, sinos simples, sem badalo, j tinham cruzado a floresta.
Foram seguidos por sinos duplos do mesmo tipo, antes de 1450 (ver fig. 22.2);
estes se encontram em Ife, durante o perodo clssico, e em Zimbbue, por
volta de 1450. Tais produtos envolvem o conhecimento de uma metalurgia que
inclui a fabricao do ferro em placas e a solda. Os sinos duplos eram usados
para reproduzir os tons da linguagem falada e indicam a existncia de lnguas
tonais (bantu) na floresta e mais ao sul. Alm disso, as funes desses objetos
eram anlogas, desde a Nigria at a Zmbia: o sino duplo sempre constituiu um
smbolo, entre outros, da chefia poltica. As facas de arremesso tambm vieram
do norte para o sul, onde foram mencionadas por observadores, mais ou menos
em 1587. Outros objetos ainda  como porta-bilros, alguns tipos de faca e uma
espcie de tambor fendido para a transmisso de sinais  foram encontrados
desde o Benin at, pelo menos, o lago Malebo, sem que possamos saber quais
vieram do norte, quais do sul. O que  mais importante nessa ampla difuso 
que ela mostra que a floresta e a savana meridional no estavam completamente
isoladas do resto do continente. Com os objetos tambm podem ter ido as ideias,
que atravessaram a floresta nos dois sentidos18.
    O que aconteceu de mais importante na prpria floresta, durante esse perodo,
foi a penetrao e difuso da noo de "chefe poltico", como algo distinto do
"chefe de parentela". As lnguas mongo traduzem o direito do sangue pelo termo
mpifo, enquanto usam a palavra okofo para exprimir o direito do primeiro ocupante,
do dono da terra. Entre os Mongo, as "senhorias", ou linhagens nas quais era bem
marcada a autoridade do chefe, desenvolveram-se desde muito cedo. O mpifo, ou



17    OLBRECHTS, 1941. Esse autor observou tais fenmenos, mas atribuiu-os, erroneamente, ao perodo
      posterior  chegada dos portugueses.
18    VANSINA, 1969; CORDELL, 1973.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                 637




Figura 22.2    Sino duplo de ferro, de Mangbetu (Zaire). (Foto Museu Real da frica Central.)




"senhor", que conseguisse aumentar seus rendimentos, formar uma "clientela" de
pessoas a quem alimentava e impor-se a outros "senhores", tornava-se rei.

    A organizao social na floresta e nas clareiras
    Antes de 1500 tambm houve uma expanso lenta, mas considervel, dos
povos que se expressavam em lnguas de tipo mongo, pelo sul dos rios Sankuru
e Kasai. Alguns grupos efetuaram uma profunda penetrao pelos dois lados do
rio Loanga, no territrio entre o Loanga e o Kasai, e nas duas margens do rio
Kamsha. Quanto  passagem do norte para o sul, do rio Lukenye at o Sankuru,
depois mais para o sul at o rio Lulua, j dispomos de provas, sob a forma de tra-
dies orais examinadas por anlise lingustica. Foi possvel reconstituir o modo
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de vida vigente nessas pequenas chefarias, ou nkumu. O chefe  assistido apenas
por um capito-de-guerra.  comum encontrar aldeias dirigidas por conselhos
de ancios que tambm assistiam o chefe. A nvel de aldeia, talvez j houvesse
dois porta-vozes, um para cada lado da rua central. As relaes com os pigmeus
eram ambivalentes. Alguns grupos parecem ter vivido em simbiose, enquanto,
em outros casos, agricultores e pigmeus chegavam a guerrear. Quanto  estru-
tura social, observa-se a quase identidade de conceito entre idade e autoridade e
uma alternncia ntida das geraes. Em comparao com os Mongo em geral,
esses grupos meridionais haviam comeado a estabelecer regras ligadas  aliana
matrimonial, o que diminua a importncia da linhagem primria enquanto
grupo constitudo e fortalecia a unidade territorial. No plano econmico, os
fatos mais dignos de nota eram o cultivo do sorgo (milhete) nos trechos de
savana que existiam em meio  floresta, e a conhecida habilidade dos povos que
nela habitavam na metalurgia do ferro. Os Songye assim admitem que foram os
Kuba, oriundos da floresta, que os ensinaram a fundir o ferro; isso pode ser ou
no verdade, mas a documentao etnogrfica mostra que a metalurgia do ferro
estava bem implantada no meio florestal. Queimando rvores de madeira muito
dura, os homens da floresta conseguiam produzir temperaturas muito elevadas,
e j haviam at descoberto como fabricar o ao19.
    A histria da floresta que vai do Gabo, pelo Camares, at a Repblica
Popular do Congo ainda  muito pouco conhecida. Grupos se deslocaram do
norte de Sanaga at o sul da atual Repblica Unida de Camares;  o que se
costuma chamar de "migrao pahwin", mas que foi, na verdade, um movimento
bastante vagaroso, cujo comeo se deu antes de 150020. Mais ou menos por volta
dessa data, estruturas polticas de tipo nkumu se desenvolveram nessa regio.
Finalmente, sabemos que boa parte da floresta do nordeste do Gabo prova-
velmente no foi habitada, ou pelo menos no o foi por agricultores, j que se
conservou como mata primria at tempos recentes.
    No Maniema, a leste do curso superior do rio Zaire, houve outros movimen-
tos lentos de populao, mas que ainda no foi possvel datar. Tambm aqui os
movimentos resultaram de uma forte mobilidade de grupos minsculos que
conheciam a agricultura, continuavam a praticar a pesca e absorveram comuni-
dades inteiras de caadores pigmeus.
    Antes de 1500, a parte meridional do Maniema certamente j abrigava os
antepassados dos povos lega.  possvel que, por essa poca, eles j tivessem

19    VANSINA, 1978, p. 90-103 e passim.
20    LABURTHE-TOLRA, 1977, p. 79-414.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                      639



desenvolvido associaes sociopolticas conhecidas como bwami. Estas consis-
tiam numa hierarquia complexa de graus; os membros do grau superior exerciam
autoridade coletiva, poltica e moral sobre toda a regio que participava da sua
bwami. Supe-se que foi a partir dessas associaes (bwami) que alguns grupos
interlacustres ocidentais, que viviam entre os lagos Kivu e Tanganica, no pilar
ocidental da fossa tectnica, teriam elaborado suas noes de chefaria e de reino.
Mais uma vez, portanto, o impulso inicial para a definio de estruturas polticas
veio da floresta. Associaes similares da regio florestal podem tambm estar
na origem das "senhorias" eletivas que os Songye desenvolveram, mais ao sul.
Se a conexo for mesmo do norte para o sul, esse processo igualmente dataria
do perodo anterior a 150021.


     As savanas de Shaba
    Nas savanas ao sul da bacia, distingue-se claramente uma tradio oriental
e outra ocidental da costa atlntica. A primeira pode at subdividir-se em uma
tradio luba e uma outra, do alto Kasai e do alto Shaba. Ricas tradies narram
como nasceram os imprios luba e lunda. Mas que crdito merecem? Alguns
as consideram mera fantasia, ou que refletem e justificam estruturas do sculo
XIX. Luc de Heusch entende que so mitos, porm mitos forjados quando da
formao dos imprios22. Na verdade, esses juzos no se baseiam na anlise das
tradies, cujo estudo do valor documental ainda est por ser feito.
    O principal stio que comprova um desenvolvimento precoce das tcnicas
metalrgicas  o de Sanga; mas, antes de propor qualquer cronologia, precisa-
mos aguardar os resultados finais das investigaes arqueolgicas. J podemos
afirmar, porm, que desde o sculo XI da era crist se encontram sinais de
considervel diferenciao social, confirmao indireta de que ocorria um for-
talecimento das chefarias. Muito cedo se estabeleceu uma rede comercial que ia
dos lagos do rio Lualaba at o curso mdio do Zambeze, na qual serviam como
moeda as cruzetas de cobre. Essas cruzetas apareceram pela primeira vez no
Cinturo do Cobre (atual fronteira entre a Zmbia e o Zaire) entre os sculos
IX e XII da era crist, logo depois de comear nessa regio a Idade do Ferro
Recente. Como sabemos que o stio de Ingombe Ilede mantinha ligaes com


21   Ver BIEBUYCK, 1973, p. 11-2 e passim, a respeito da bwami. Esses exemplos provam que a floresta foi,
     em muitos casos, um foco de irradiao cultural.
22 HEUSCH, 1972.
640                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 22.3   Jarra antropomrfica (perodo Kisaliense).
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados        641



o comrcio da costa oriental, restam poucas dvidas de que essa rede regional
estivesse em contato com a do oceano ndico desde antes de 150023.
    A tradio oral menciona chefes "luba" no Malavi e na Zmbia setentrional,
central e oriental em diversas pocas, sendo as datas propostas para o Malavi as
mais antigas. So as mesmas fontes que nos falam da fundao de Estados luba e
lunda; graas aos trabalhos de J. C. Miller 24, sabemos que um Estado lunda j exis-
tia antes de 1450.  possvel que pequenos grupos de artesos tenham emigrado
para essas regies; o comrcio regional provavelmente favoreceu tal expanso.


     Os reinos luba e lunda
     As fontes orais e o conhecimento do pas
   Nas savanas meridionais, os reinos luba e lunda definiram-se precocemente.
   Essas formaes estatais se desenvolveram perto dos lagos do Lualaba.
Shaba, regio mineira tambm rica em recursos agrcolas, bem cedo viu nas-
cerem chefarias que, estruturando-se, deram origem a reinos. As facilidades
para o comrcio, nessa regio de savanas, tambm podem haver estimulado o
surgimento de Estados.
   Foram os Luba e os Lunda os primeiros a organiz-los. A esse respeito, a maior
parte das informaes de que dispomos provm das tradies orais, particularmente
abundantes nestes dois grupos. Por enquanto no dispomos, porm, de um corpus
consolidado de suas tradies, que ainda esto sendo coletadas.
   Reza a tradio que o reino luba foi fundado por um certo Kongolo, que
instalou a capital perto de Kalongo; esse mito luba de origem, combinado com
outras tradies, fornece informaes teis sobre a cultura, seno sobre a histria,
dos Luba. Estima-se, vagamente, que o Estado luba tenha aparecido antes de
1500. Resultou da fuso de diversos cls sob a autoridade de um chefe nico.
No se conhece bem a organizao poltica do reino; o que est certo  que seus
sditos se organizavam em patrilinhagens. Cada linhagem possua suas aldeias e
seus chefes tinham escravos. O kiloto, ou chefe de linhagem, reconhecia a autoridade
do rei. O monarca estava rodeado de funcionrios; destes, conhecem-se pelo menos
dois: o guarda dos emblemas, conhecido como inabanza, e o chefe militar, ou



23   PHILLIPSON, 1977, resume todos os dados anteriores a 1977. MARET, NOTEN & CAHEN, 1977,
     p. 487-9. Ver tambm o captulo 21 deste volume, a cargo de Brian M. Fagan.
24   MILLER, J. C., 1976.
642                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 22.4 Tmulo de Kikulu (KUL-T), com uma cruzeta de metal claramente visvel no trax (tmulo
de Kabambian A, sculos XIV-XVI).



twite. A realeza luba fundava-se no princpio de bulopwe, ou "carter sagrado",
inerente ao sangue real, que os Luba chamavam de mpifo25.
   Os recursos em sal e metais da regio de Shaba favoreceram o comrcio, a
miscigenao e o surgimento de grandes aglomeraes. Desse ponto de vista,
prosseguiu a evoluo constatada no primeiro milnio. A introduo dos sistemas

25    VANSINA, 1966b, p. 71-87; ROBERTS, 1976, p. 36-41; REEFE, 1977, nega as influncias luba sobre
      os Lunda; mas devo observar que J. Hoover (em comunicao pessoal) e Ndua Solol no aceitam seus
      argumentos. LANGWORTHY, 1972, p. 28-30 e tambm 21-7.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                          643




Figura 22.5    Contedo de um tmulo kisaliense clssico, no stio de Kanga (sculo XII).




                                                                    Figura 22.6 Esttua "Ntadi Kongo",
                                                                    de pedra, de Mboma, baixo Zaire.
                                                                    (Fotos das figs. 22.4 a 22.6 P. de Maret,
                                                                    Museu Real da frica Central.)
644                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



de parentesco patrilinear, dando maior nfase  pureza do sangue, favoreceu a
implantao de senhorias nas trilinhagens reinantes e facilitou a coeso territorial.
O princpio sagrado dos Luba, o bulopwe, ainda est vinculado ao sangue real.

      Instituies polticas
    Aqui o princpio ideolgico do reino luba se distingue nitidamente dos princpios
polticos songye. Os Songye tinham uma realeza eletiva, fundada na riqueza das
linhagens; muitas vezes a conferiam por prazo determinado, fazendo-a depender
tambm do conselho de uma associao esotrica, o bukinshi. As associaes esot-
ricas constituam o mecanismo do governo entre os Luba orientais, matrilineares.
Geograficamente, tudo isso se revela bastante prximo do mundo lega da floresta,
e somos tentados a ver uma ligao entre a bwami e estas formas de governo 
ligao muito diferente dos elos (culturais) que existiram entre os Songye e os
Luba centrais. A inveno do bulopwe s teria ocorrido entre estes ltimos, talvez
na regio dos lagos do Lualaba. Houve, alis, vrios reinos luba; alm de Kikonja,
na regio dos lagos, sabemos da existncia da senhoria kalundwe26.
    Quanto aos Lunda, pode-se admitir  at que se prove o contrrio  que toda
a regio que se estende do alto Kwango ao alto Kasai meridional e s regies
adjacentes da Zmbia j praticava o sistema de parentesco perptuo, um sistema
complexo segundo o qual o sucessor "se tornava" seu predecessor, assumindo seu
nome, suas relaes de parentesco, seus encargos e prerrogativas27. O sistema
negava, assim, a passagem do tempo, para garantir uma coerncia sem falhas e
a continuidade de toda a ordem social. Permitia a perpetuao das relaes de
poder derivadas de alianas matrimoniais, conquistas, integrao, e de acordos
mtuos ou "fraternos" entre os chefes. Depois de 1500 se revelou poderoso
instrumento na montagem de um autntico imprio, congregando vrios reinos
sob a autoridade dos Lunda.
    Devemos observar que essa regio situada entre o Kasai e o Kwango  pobre
em recursos naturais e provavelmente era pouco povoada, enquanto a leste, entre
o Lualaba e o Luapula, j estavam sendo exploradas salinas e jazidas de cobre.
Mais para o sul, o vale superior do Zambeze dispunha de mais recursos que o
territrio lunda, porm menos ainda que o sul de Shaba. Nesta regio, porm,


26    WILSON, A., 1972, no acredita que tenha existido um Estado luba de grande extenso territorial antes
      de 1800. Mas sua tese  parcialmente desmentida por YODER, 1977, p. 67-97 e 120-53. Para o caso
      de Kuaba, ver YODER, 1977, p. 56-7 e comparar com WEYDERT, 1938, e WAUTERS, 1949. Ver
      tambm FAIRLEY, 1978, sobre os Ben'ekie. REEFE, 1981,  a obra mais recente sobre a questo.
27    MILLER, J. C., 1972b, p. 45-68, 81-2, 166-8.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados                     645



haveria de se constituir um Estado complexo: o Estado lozi. Pode-se admitir
que sua fundao tenha sido parcialmente inspirada nos Lunda, mas no se sabe
em que data ele se expandiu28.


     Angola
    Na bacia do Lui, um afluente do alto Kwango, as chefarias se desenvolveram
cedo, bem antes de 1500, e seus habitantes eram governados pelos Pende. Tambm
aqui J. C. Miller v um crescimento constante da dimenso das chefarias29. Na
regio do rio Lui havia muitas salinas.
    Finalmente, o mais tardar pouco depois de 1500, viu-se no planalto ao sul
de Libolo um Estado kulembe, que talvez tenha sido uma das primeiras for-
maes estatais dos Ovimbundu. Sua organizao era diferente: caracterizava-o
uma associao de iniciao militar, o quilombo (kilombo). Foi em Libolo ou
em Kulembe que comearam a ser construdas as tumbas de pedra, das quais
hoje s restam runas, que ainda no foram adequadamente escavadas. Quanto
aos outros Ovimbundu, talvez tambm conhecessem a instituio do kilombo,
que se encontra na tradio relativa  fundao de Humbe, Estado cuja data de
formao desconhecemos, situado no sul de Angola. Ou, quem sabe, o kilombo
pode ter sido introduzido em Humbe pelos Imbangala, que somente no sculo
XVI vieram a constituir uma etnia diferenciada. Os Ovimbundu falam uma
lngua bantu do sudoeste, e alguns grupos, como os Huambo, indicam a borda
sul do planalto como seu lugar de origem, especificamente um lugar chamado
Feti, para o qual as escavaes do as datas de 710  100 e 1250  65. A ltima
data se refere certamente ao grupo ovimbundu, mas  possvel que o mesmo
valha j para a data anterior. As escavaes precisam, portanto, ser retomadas
nesse local.  possvel que a formao de alguns dos 14 Estados ovimbundu
tenha comeado antes do sculo XVI; a lngua, a presena do gado e o sistema
de parentesco ligam essa civilizao  dos povos de lngua bantu da Nambia e
do sul de Angola.
    Estes ltimos povos se dividiam em trs ramos principais: os Nyaneka-Humbe,
os Ambo e os Ovaherero. Os primeiros, culturalmente muito prximos dos
Ovimbundu, no se organizaram em Estados importantes, com exceo dos


28   MAINGA, 1973, p. 16-21; PRINS, G., 1980.
29   MILLER, J. C., 1972b, p. 55-88; HEINTZE, 1970 e 1977, p. 754-62. (Este ltimo artigo critica certas
     teses de J. C. Miller.)
646                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



Humbe. Agruparam-se, basicamente, em numerosas chefarias menores. Os
dois outros grupos tambm esto presentes na Nambia. Os Ambo praticavam
a agricultura, mas sua principal atividade econmica era a criao do gado de
chifres longos. Sua organizao poltica consistia, no sculo XIX, em 12 Estados,
dos quais trs possuam considervel poderio militar. Os chefes reinavam de suas
capitais fortificadas. Todos os cargos eram hereditrios pela linha materna. O
poder tinha por distintivos a posse do fogo sagrado e a do gado, servindo esta
ltima tambm de fundamento para a estrutura econmica. Os Ovaherero eram
nmades, como os seus vizinhos, os Khoi da Nambia, vivendo dos rebanhos
de bovinos e ovinos, da coleta e da caa. Da mesma forma que os Khoi, at
o sculo XIV no utilizavam o ferro. Mas eram de lngua bantu, e sua dupla
ascendncia os distinguia dos Khoi. Finalmente, no sul de Angola e no norte da
Nambia tambm havia grupos de caadores San, e alguns caadores negros, os
Twa  entre os quais se incluam os Bergdama ("negros da montanha"), ferreiros
da Nambia , que falavam lnguas khoisan30.
    Esta era a situao da regio, por volta de 1850. Que histria tinham esses
povos? Os Nyaneka-Humbe dizem-se autctones, enquanto os Ambo e os
Ovaherero afirmam ter vindo do leste. Pode-se admitir que tenham vindo do
rio Zambeze, e, com o gado que adquiriram, tenham seguido o rio Cubango
rumo ao oeste. Quanto aos ovinos, os Ovaherero devem-nos aos Khoi  a no
ser que datemos sua migrao da primeira metade do primeiro milnio, o que
parece ser exagerado. Em todo caso, as pinturas rupestres associadas com car-
neiros mostram indivduos que s podem ser khoi. Os Ambo assimilaram muitos
caadores twa e no tm problemas em reconhec-lo, enquanto os Nyaneka-Humbe,
que integraram caadores tanto twa quanto de outras provenincias no especificadas,
sentem vergonha em confess-lo. Tambm os Ovaherero parecem ter assimilado
muitos Twa, porque Kaokovela, que os Ovaherero meridionais ocupam h uns
duzentos anos, chama-se na verdade Otwa, "territrio dos Twa".
    Houve um momento, pois, em que os caadores negros de cultura san, que
ocupavam a costa at 13 de latitude sul, contornaram pelo sul o planalto central
para se juntarem, a leste, a outros grupos san. Ao sul, ocuparam toda a costa
setentrional da Nambia. No interior, tiveram vizinhos san e khoi. Alguns desses
grupos adquiriram a arte de fundir o ferro. Pode-se supor que foi nessa poca
que os grupos de lnguas bantu do sudoeste ocuparam o planalto central de
Angola, alguns pontos no sul e no prprio oeste, enquanto a leste foram viver


30    Ver ESTERMANN, 1960, e VEDDER, 1938, assim como HAHN, VEDDER & FOURI, 1966.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   647



nos vales de Angola oriental, deixando para os San os espaos entre os rios.
Rumo ao norte e s nascentes do Cuito e do Cuando, onde o territrio  mais
bem irrigado, havia povos de agricultores, que culturalmente estavam na Idade
do Ferro e linguisticamente pertenciam ao grupo lunda-guanguella-cokwe. Os
Ovaherero e os Ambo ainda viviam nos vales.


    As savanas do sudoeste
    Os portugueses encontraram dois grandes reinos na costa, os do Kongo e
Loango, e outro no interior, o reino tio do "Grande Makoko". As tradies
registram que os dois primeiros se formaram pela fuso gradativa de Estados
menos importantes e que a dinastia de Kongo se origina no norte do rio, no
muito longe da dinastia de Loango. Pode-se supor que esses reinos tenham
nascido entre os sculos XIII e XIV. De acordo com O. Dapper, todos esses
reinos se originaram nas regies a norte do lago Malebo, isto , onde era o
reino dos Tio. Essa afirmao  plausvel, menos porque uma tradio relativa
a uma mesma pessoa ou lugar (Ngunnu) liga os povos de Tio, Loango e Kongo
 tradio essa que provavelmente tem um carter apenas etiolgico , do que
porque a sucesso  chefia do Estado  bilateral entre os Tio e os Kongo, o que
representa um caso nico na frica, qui no mundo. Segundo essa tradio,
qualquer descendente de um dos reis anteriores poderia  em teoria  pretender
o trono em igualdade de condies com todos os demais. Notemos, ainda, que
o bero dos Kongo foi logo a oeste do Manianga, sob o regime bateke (tio).
    Se for verdadeira essa origem comum, ento os primeiros Estados a norte
e noroeste do lago Malebo j deviam existir antes do sculo XIV  talvez at
mesmo antes do ano 1000. Somente as escavaes nos primeiros cemitrios
conhecidos das dinastias kongo, vili e tio, assim como de Mbanza Kongo (So
Salvador), podero nos proporcionar uma data e um contexto mais definidos.
 razovel supor que as civilizaes dessa regio tenham comeado a adquirir
carter prprio no norte, na orla da floresta, ou j na floresta de Mayombe. Essas
civilizaes se adaptaram  savana e, nos planaltos bateke, at mesmo  estepe. A
sua expanso, inclusive a das lnguas, mostra uma vez mais um "inchao" a partir
de dois centros primordiais, um para os Kongo e outro para os Tio (Bateke).
Os Kongo se espalharam ao sul do rio; os Vili de Loango se disseminaram
ao longo da costa, nos rumos norte e nordeste, at o rio Ngunie, afluente do
Ogoue; finalmente, os Tio, que vinham da orla da floresta (na regio prxima
648                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



ao equador), ocuparam todos os planaltos que encontraram no caminho do sul,
das florestas do Gabo e da regio das cataratas do rio.
    Ao ser registrada pela primeira vez, em 1624, a tradio kongo mencio-
nou um perodo de ocupao gradativa das terras ao sul do rio, no territrio
dominado pelas chefarias ambundu (ou ndembo). O Kongo conquistou tais
chefarias at Matamba e Ndongo, reduzindo-as, pelo menos,  condio de
tributrios irregulares  pois o reino propriamente dito terminava, segundo
parece provvel, em Loje; mas tambm inclua a costa at Luanda, a sua ilha
e a parte do continente situada entre os rios Cuanza e Bengo. Dispomos
de menores detalhes quanto  conquista ou formao de Estados em outras
regies, embora exista uma relao das senhorias independentes que foram
incorporadas para formar as provncias centrais de Loango. Pode -se reco-
nhecer nelas uma evoluo poltica bastante regular, mas no h informaes
relativas s etapas que antecedem o surgimento das grandes senhorias, como
Ngoi, Kakongo, o ncleo de Loango, Bungu, Nsundi e Mbata.  de se presu-
mir que se tenha seguido o mesmo roteiro-padro que na floresta equatorial:
grandes aldeias matrilineares com chefes e conselheiros (um por linhagem);
formao de chefarias em consequncia de casamentos entre aldeias e, talvez,
de conquistas ou de supremacia espiritual (usando-se encantamentos, espritos
etc.); e, finalmente, uma sorte diversa, que fez algumas chefarias crescerem e
outras desaparecerem, durante o processo de constituio de pequenos reinos
como os j mencionados.
    Por toda parte se encontra o culto dos espritos (ligados  terra) e dos
ancestrais, considerados, uns e outros, como deuses. O comrcio parece ter-se
desenvolvido cedo tambm nessa regio, pois em 1483, quando chegaram os
portugueses, j circulavam moedas. Existia uma aristocracia, e os trabalhos
agrcolas eram efetuados por escravos. As escavaes realizadas na ilha de
Mbamu e no Kinshasa podero nos fornecer datas mais precisas para esses
fatos.


      O reino do Kongo antes de 1500 e suas instituies31
   O Kongo merece uma descrio mais longa, no porque fosse o Estado
de maior extenso ou poder, mas por ser o mais conhecido da tradio. Nimi


31    Ver RANDLES, 1968, para a bibliografia mais completa e a descrio mais exata que j foram feitas
      sobre essa questo.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados         649



Lukeni fundou-o quando cruzou o rio, depois de deixar Bungu, no Mayombe, e
foi conquistar a chefaria ambundu de Mbanza Kongo. Ali ele "dividiu" o poder,
e, em seguida, conquistadores e nativos se misturaram, "os nobres com os nobres,
a gente comum com a gente comum".
    Tambm dispomos de uma interessante Descrio do reino de Congo e das suas
terras circunvizinhas, de autoria de dois escritores do fim do sculo XVI, Filippo
Pigafetta e Duarte Lopes:
     O reino divide-se em seis provncias: Bamba, Sogno, Sundi, Pango, Batla e Pemba.
     A provncia de Bamba, a mais extensa e rica,  governada por Dom Sebastio Mani
     Mamba, primo do Rei Dom lvaro, que faleceu recentemente; est situada na
     costa do rio Ambrize, em direo ao sul, at o rio Coanza; nela h muitos senhores
     dependentes, dos quais os mais importantes so Dom Antnio Mani Mamba, irmo
     de Dom Sebastio e seu lugar-tenente, Mani Lemba, Mani Dandi, Mani Bango,
     Mani Luanda, que governa a ilha de Luanda, Mani Corimba, Mani Coanza e Mani
     Cazzani. Todos esses senhores exercem sua autoridade sobre as partes litorneas do
     reino. No interior, para o lado de Angola, ouvimos falar dos Ambundo, que tambm
     esto sob a responsabilidade de Mani Bamba: so os Angasi [Ngasi], Chinhengo
     [Kungengo], Motolo, Cabonda e muitos outros de sangue menos nobre. Observai
     que a palavra mani quer dizer `senhor' e a segunda parte do nome indica a regio ou
     senhoria. Assim, por exemplo, Mani Bamba quer dizer `Senhor da regio de Bamba'
     e Mani Corimba, `Senhor de Corimba', sendo que Corimba  uma parte de Bamba,
     e o mesmo vale para todos os demais senhores (...)

     Bamba, como dissemos,  a principal provncia do Congo; ela  a chave do reino,
     seu escudo e espada, sua defesa, seu bastio contra o inimigo (...) Seus habitantes
     so corajosos e esto sempre dispostos a tomar armas, e a repelir os inimigos que
     lhes vm de Angola (...) Em caso de necessidade, pode-se reunir um exrcito de
     quatrocentos mil homens32.
    Essa passagem nos descreve com suficientes detalhes as divises administra-
tivas. Seguramente so exageradas as cifras relativas ao exrcito que o rei poderia
recrutar em Bamba, mas indicam, pelo menos, que o pas era densamente povo-
ado e possua slida estrutura administrativa. O mani, ou governador, residia em
Banza, que era o nome dado  residncia do chefe33.


32   PIGAFETTA & LOPES, 1965.
33   DAPPER, 1668, p. 219; VANSINA, 1973, p. 339 e 345; RANDLES, 1968, p. 17-25; MARTIN, P.,
     1972, p. 3-11.
650                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



      Governo e organizao provincial
    O rei do Kongo exercia grande autoridade, mas no um poder absoluto.
Competia-lhe a nomeao dos governadores, excetuado o de Mbata, que era
"eleito pelo povo e os dignitrios da famlia Nsuku, com a confirmao real". Na
provncia de Soyo, a funo de governador era hereditria. Parece que, antes de
1500, o soberano do Kongo governava um reino cujo territrio era muito mais
extenso, o que explicaria por que continuou a reivindicar sua soberania sobre
Kisama, Ngoi, Kakongo, Loango e as chefarias e reinos de Teke e Suku.
    Os governadores coletavam impostos e tributos, que depois encaminhavam
ao rei. O tributo compreendia o nzimbu (conchas usadas como moeda), qua-
drados de rfia (que tambm serviam de moeda), sorgo, vinho da palma, frutas,
gado, marfim e peles de animais (de leopardo e leo). Como se v, os tributos e
impostos comportavam uma parte em moeda, outra em vveres, uma em produ-
tos comerciais e ainda uma simblica (as peles de leo e leopardo) .
    Por volta de 1530 o rei do Kongo ainda reclamava a soberania sobre Kisama,
Ngoi, Kakongo, Loango, as chefarias e reinos teke, Kongo ria Mulaza (perto
do rio Kwango) e Suku. Mas essas alegaes provavelmente no passavam de
fico. Em 1483, o cerne do reino compreendia seis provncias: Soyo, entre o
rio e o oceano; Mbamba, ao sul de Soyo; Nsundi, no nordeste; Mbangu, ao sul
de Nsundi; Mbata, no leste; e Mbemba, com a capital, no centro. Alm disso,
tambm dependiam diretamente do rei algumas chefarias cujo territrio chegava
at o Wembo e, talvez, at o Wando.
    O rei era assistido por um corpo administrativo central, cujos membros ele
podia demitir. Na capital, esse rgo inclua o chefe do palcio, que tinha os
encargos de vice-rei, um juiz supremo, um coletor de impostos com os seus
tesoureiros, um chefe de polcia, um chefe dos mensageiros, e ainda outra alta
personagem, conhecida como punzo, de cujas funes nada sabemos. Isso deve,
alis, fazer-nos lembrar que os manuscritos s nos falam das funes que eram
facilmente compreensveis para os europeus que os redigiam. Fora desse corpo
ainda havia o senhor kabunga, que desempenhava as funes de sumo sacerdote e
cujo antepassado fora senhor de terra na rea da capital, antes de Nimi Lukeni.
    Os governadores das provncias eram muitas vezes parentes imediatos do
rei, que confiava o Nsundi e o Mbangu a seus filhos favoritos. Assim, estes
dispunham de slida base para disputar a sucesso, quando da morte do pai. Os
governadores nomeavam os senhores menores, que, por sua vez, davam ordens
aos nkuluntu, chefes hereditrios das aldeias.
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados          651



   As tumbas dos ancestrais ficavam bem perto da capital e eram veneradas.
O poder era sagrado, mas no a pessoa do rei, embora lhe dessem o nome de
nzambi mbungu, "esprito superior". O rei no era como o comum dos mortais.
Cometendo incesto com a irm, tornava-se "sem famlia"  o que o capacitava,
e somente a ele, a governar todas as famlias com justia e imparcialidade. Esse
ato e sua iniciao lhe conferiam formidvel poder sobre os encantamentos, que
era comparvel ao dos feiticeiros. Suas insgnias incluam, entre outras coisas,
um chapu, um tambor, um bracelete de cobre ou marfim, a bolsa dos impostos
e um trono em forma de banquinho quadrado  objetos que simbolizavam sua
posio de primeiro senhor do reino e detentor de um poder supremo que o
separava dos demais homens. Uma etiqueta complexa salientava a preeminncia
e o carter singular do soberano.
   Podemos dizer que conhecemos bem a capital do Kongo e a vida na corte
no sculo XV, graas s descries pormenorizadas de F. Pigafetta e D. Lopes.
Contudo, o stio da capital ainda no foi submetido a escavaes rigorosas.
     Embora a capital do reino do Kongo esteja, de certa forma, englobada no territrio de
     Pemba, a cidade e seus arredores, numa circunferncia de umas 20 milhas, so governados
     pelo rei em pessoa e podem ser considerados como um distrito  parte... Na lngua do
     pas, [a cidade]  chamada Banza, o que quer dizer, de modo geral, `corte, residncia do
     rei ou governador' 34.
Situando-se quase no centro do reino, a capital era uma praa-forte, da qual "se
pode enviar rapidamente socorro a qualquer regio". Cidade bem construda,
cercada de muralhas de pedra, Banza  que os portugueses batizaram de So
Salvador  era tambm uma grande metrpole comercial, onde se encontravam
as principais rotas comerciais provenientes da costa e do interior.
   Teoricamente, o rei devia ser eleito e aconselhado por um colgio de eleitores,
composto de nove ou doze membros. O senhor kabunga tinha direito de veto
sobre suas deliberaes, e o governador de Mbata, inelegvel para a realeza, era
seu membro nato (como depois tambm foi o governador de Soyo). Provavel-
mente, os demais eleitores no pertenciam  famlia real. Na verdade, porm, o
mais das vezes eles se limitavam a referendar o nome do filho do defunto que
parecia dispor de maiores poderes, quando da morte do rei seu pai. Durante o
reinado, esse conselho, que poderia incluir membros do corpo administrativo,
tinha o direito de supervisionar o rei, especialmente nas questes referentes



34   PIGAFETTA & LOPES, 1965, p. 78-9.
652                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



 guerra,  nomeao ou deposio de governadores, e ao comrcio (era sua
incumbncia declarar abertas ou fechadas as estradas).
   O pagamento de "salrios" aos funcionrios comprova que a produo era
comercializada, e que o Estado a controlava, assim como tambm supervisio-
nava a oferta de conchas nzimbu. Deve ter havido longo perodo de intenso
desenvolvimento comercial; os artigos trocados parecem ter includo tanto obje-
tos necessrios  como ferramentas de ferro, cermicas, sal marinho, esteiras
e cestos  quanto bens de prestgio, que englobavam joias de cobre e marfim,
quadrados de rfia e tecidos de fibra originrios do litoral. Se havia escravos,
seu trfico deve ter sido bastante restrito antes de 1483.  de se notar que no
existia especializao em tempo integral em nenhuma atividade de artesanato
e que as duas especialidades mais prestigiadas  tecer a rfia e fundir o ferro 
reservavam-se  nobreza.
   As principais rotas de comrcio levavam  capital: de Luanda lhe vinham
os nzimbu; do baixo Zaire chegavam o sal marinho e outros produtos locais
(peixes, cermicas, cestos); do lago Malebo provinham a rfia e outros artigos da
regio, especialmente cermicas; uma quarta rota servia ao transporte de cobre
do Mbamba, e talvez de cobre e chumbo obtidos ao norte das cataratas do rio;
finalmente, outra estrada trazia artigos de Matamba.
    essencial proceder a escavaes em So Salvador, em Kinshasa, nas capitais
provinciais, na ilha de Luanda e nos demais lugares onde se pode suspeitar da
existncia de um mercado, para que tenhamos uma ideia mais precisa sobre a
vida econmica do reino antes de 1483.

      A sociedade
    Pouco sabemos da estrutura social da poca. Sequer o princpio matrilinear est
claramente atestado, embora se possa supor que ele j existisse. S temos segurana
quanto  sucesso rgia, porque o nome do primeiro rei era composto de um nome
vinculando-o ao pai e de outro ligado ao pai de sua me. Ambos os nomes, porm,
so de cls ainda conhecidos, como o de Mbata  o que nos faz supor que houvesse
grupos de descendncia unilinear, quase certamente matrilineares.
    Tambm se sabe com certeza que as aldeias, dirigidas por nkuluntu, eram peque-
nas e diferenciadas dos centros, cujo governo cabia a senhores. As capitais provinciais
parece que tinham o estatuto de cidades, e de fato  esse o nome que os textos do a
Mbanza Kongo,  residncia do governador de Soyo e, mais tarde, a Kinshasa.
    A estratificao social  ntida. Existiam trs ordens: a aristocracia, os homens
livres e os escravos. A aristocracia formava uma casta, pois seus membros no podiam
A frica equatorial e Angola: as migraes e o surgimento dos primeiros Estados   653



casar-se com plebeus. No interior das duas ordens livres, os casamentos serviam de
instrumentos de aliana entre as famlias; parece que existiam casamentos prefe-
renciais. Na aristocracia, distinguiam-se os kitomi, antigos senhores do cho (ou da
terra), que eram, nas provncias, o equivalente do kabunga da capital; provavelmente
eles formavam uma aristocracia vinculada aos demais senhores por casamentos
preferenciais anlogos aos que uniam a dinastia ao Mbata e ao kabunga.


    Concluses gerais
    A poca de 1100 a 1500 somente ser mais bem conhecida quando se efetuarem
escavaes intensas e se obtiver um progresso considervel nas investigaes
lingusticas e etnogrficas.
    A impresso geral produzida pelo que j conhecemos leva a duas constata-
es bsicas: a importncia da floresta, onipresente, poderosa fora ecolgica; o
precoce desenvolvimento de sistemas estatais. O segundo ponto j se suspeitava,
pois, aps o trmino das migraes e das agitaes por elas causadas, aps a
introduo da metalurgia do ferro, era de se esperar que se formassem reinos.
    A importncia da floresta, porm, at hoje foi totalmente desconhecida.
No se compreendeu que uma floresta intercalada de savanas, assim como a
orla da floresta, forneciam um meio ambiente duplamente rico, comparvel ao
das matas ciliares que se encontram ao sul e ao norte. Em especial, a formao
de todos os Estados mais antigos pode ser atribuda a um ambiente desse tipo,
excetuando-se o centro luba primitivo  que, porm, tambm disps de condi-
es geogrficas das mais favorveis, com seus lagos, suas baixadas, que deviam
ser parcialmente cobertas de florestas, e suas savanas.
    Notemos, para terminar, que nem todas as fontes possveis j foram trabalhadas:
o estudo sistemtico das tradies e dos mitos de origem, a pesquisa lingustica e a
investigao arqueolgica ainda esto comeando. Grandes perspectivas se abrem
para a investigao histrica nessa regio que, durante muito tempo, se sups no
possuir documentos.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                                   655



                                        CAPTULO 23


                    A frica meridional:
               os povos e as formaes sociais
              Lonard D. Ngcongco em colaborao com Jan Vansina




    A historiografia e o problema das fontes
   A histria da frica meridional apresenta muitos problemas. Por isso a
Unesco, responsvel pela Histria geral da frica, promoveu, em 1977, em
Gaborone (Repblica da Botsuana), o encontro de um grupo de especialistas
em historiografia da frica meridional. A atual situao poltica da regio no
favorece a pesquisa histrica. Devido ao apartheid, a histria dos povos negros do sul
do Limpopo foi menos estudada que a de outras populaes africanas. No volume
VIII da presente obra, o problema do apartheid ser tratado no contexto da frica
contempornea, mas cabe aqui tambm examinar seus efeitos nefastos para a
historiografia da regio.
    A tendncia a centrar os estudos no passado da minoria branca dominante acentuou-se
    com as posies rgidas adotadas pelas universidades e editoras sul-africanas em geral,
    que se recusaram a aceitar a validade de fontes no escritas para a reconstruo histrica 1.
    Alm disso, os historiadores brancos da Repblica da frica do Sul recusam o
concurso de cincias como a arqueologia, a antropologia e a lingustica. Ainda mais
srio  o fato de os historiadores oficiais do pas do apartheid escolherem nos arqui-
vos material concernente apenas aos brancos, deixando deliberadamente de lado

1    NGCONGCO, 1980, p. 17.
656                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



os documentos referentes aos povos africanos. Para finalizar essa caracterizao da
historiografia da regio sob o domnio do apartheid, observemos que
      os ricos arquivos portugueses, que tanto contriburam para a compreenso da histria
      de muitas sociedades da frica oriental, principalmente das litorneas, documentos
      que auxiliaram no estudo da histria pr-colonial das sociedades do Zimbbue, de
      Angola e de Moambique, tm sido sistematicamente negligenciados pelos histo-
      riadores sul-africanos2.
Estes historiadores no somente rejeitam a tradio oral corno fonte sem valor,
corno tambm demonstram, em relao aos registros escritos, uma "seletividade
inquietante" e anticientfica.
   Toda a literatura histrica acumulada por quatro geraes de historiadores
da frica meridional inscreve-se contra a histria dos povos africanos. No tem
sido fcil reunir a documentao para escrever esta Histria geral da Africa, mas,
no caso presente, defrontamo-nos com uma poltica deliberada para ignorar,
seno destruir os documentos existentes! A negao (ativa) da cultura e da his-
tria africanas  uma arma perigosa nas mos dos que controlam o apartheid.
   No entanto tm ocorrido mudanas no contexto da frica meridional: a
independncia do Zimbbue em 1980 abriu amplo campo para a pesquisa.
Tambm Angola e Moambique, desde sua independncia, oferecem novas
perspectivas aos estudos, que j se iniciaram nos Estados vizinhos, como Malavi,
Zmbia, Botsuana, Suazilndia e Lesoto; multiplicam-se as conferncias e os
seminrios, e h um esforo real no sentido de integrar as tradies orais.


      O estgio de nossos conhecimentos
   A histria da frica meridional  dominada por dois problemas: em pri-
meiro lugar, o das datas em que os vrios povos l se estabeleceram, ou seja, dos
movimentos ou migraes dos povos; em segundo, o da natureza do poder, que
implica a necessidade de definir suas estruturas, o que, por sua vez, remete-nos
 origem dos reinos ou Estados.
   Primeiramente, deve-se dizer que as pesquisas mais recentes demonstraram a
antiguidade do povoamento khoi-khoi3 na regio; alguns chegam a afirmar que os


2     Ibid., p. 18.
3     Khoi-khoi  como se autodenominam os chamados hotentotes. O termo hotentote, frequentemente usado,
      tem conotao pejorativa.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                                                   657



povos estabelecidos na regio do Cabo eram importantes criadores de ovelhas. No
stio de Lydenburg, no leste do Transvaal, foram descobertas esplndidas cabeas de
cermica (sculo V da era crist) e provas irrefutveis da existncia de agricultura.
O incio da Idade do Ferro Antiga, que terminou por volta de 1100, situa-se neste
perodo. Usando o mtodo de datao por carbono-14, R. R. Inskeep situa por volta
dos anos 80  20 antes da era crist a data mais remota do aparecimento do ferro
entre o Zambeze e o Limpopo. A cultura da Idade do Ferro Antiga propagou-se
pela frica meridional: as cermicas foram encontradas em muitos lugares.
    Por volta de 1100, comeou a segunda Idade do Ferro, ou Idade Mdia do
Ferro, intimamente ligada s migraes dos povos de lngua bantu. Os espe-
cialistas de Gaborone, examinando esta questo, rejeitaram a antiga teoria da
migrao bantu. Um grupo de pesquisadores e o professor C. Ehret, utilizando
um corpus modificado de 90 palavras especialmente adotado a partir das 100
palavras universais de Morris Swadesh, estudaram as correlaes entre dois
grupos de lnguas da rea central da frica meridional. Um desses grupos com-
preendia dialetos shona bem variados, falados entre o Limpopo e o Zambeze,
e o outro, os dialetos sotho, nguni, tsonga, chopi e venda, sendo este ltimo
chamado de lngua bantu do sudeste. Segundo C. Ehret,
    as primeiras populaes de lngua shona teriam se estabelecido no territrio a que
    hoje corresponde o Zimbbue, enquanto os Protobantu do sudeste teriam ocupado
    uma regio mais ao sul, provavelmente no norte do Transvaal4.
    O perodo entre 1000 e 1500 foi decisivo para a histria da frica meridio-
nal. Novos modos de vida difundiram-se aps 1100. Os Khoi-khoi tornaram-se
criadores de gado e se espalharam por vasta rea. A importncia do gado tambm
aumentou consideravelmente entre outros povos, provavelmente de lngua bantu. 
nesse perodo, ou mesmo antes, que se deve procurar a origem das grandes tradies
culturais to caractersticas dos povos de lngua bantu dessa regio, os SothoTswana
e os Nguni5. Foi por volta de 1500 que se cristalizaram algumas dessas tradies,
herdadas pelos principais grupos tnicos conhecidos no sculo XIX, diretamente de
seus ancestrais. As mudanas influenciaram profundamente a vida nas comunidades


4    NGCONGCO, 1980, p. 20. Referimo-nos constantemente ao nmero 4 dos Histoire gnrale de l'Afrique;
     tudes et documents. De fato, a Unesco reuniu em Gaborone, na Botsuana, entre 7 e 11 de maro de
     1977, os melhores especialistas nos problemas do povoamento da frica meridional.
5    Sotho-Tswana e Nguni so nomes de etnias que datam do sculo XIX, e que foram universalmente adotados
     para designar as duas comunidades culturais de lngua bantu da frica meridional, que vivem ao sul e a
     oeste dos Venda e dos Tsonga. Ver WILSON, M., 1969a, p. 75-6, e 1969b, p. 131-3; LEGASSICK,
     1969, p. 94-7; MARKS, 1969, p. 126-7.
658                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



de pescadores instaladas na costa, de pastores estabelecidos prximo do litoral do
Cabo e de caadores6. Mas ainda nos faltam informaes sobre esse perodo crucial.
Os testemunhos escritos so extremamente raros e s tratam dos ltimos anos do
perodo. A arte rupestre, de modo geral, continua sem datao e apresenta proble-
mas de interpretao difceis de resolver. A tradio oral ressente-se de referncias
cronolgicas quando remonta a esse perodo. Os dados lingusticos ainda no foram
suficientemente explorados; dever-se-ia tentar reconstituir sobretudo o vocabulrio
do antigo nguni e do antigo sotho, e seria proveitoso estudar os emprstimos de
palavras khoisan7 nas lnguas bantu e vice-versa. Trabalhos de antropologia com-
parativa sobre problemas regionais a partir de uma perspectiva temporal apenas
comearam8.
    Srios problemas aparecem quando se confrontam indicaes provenientes de
vrias fontes, inclusive as descobertas arqueolgicas.  prtica usual estabelecer-se
paralelo entre uma tradio comum de cermica e laos de ordem lingustica ou
tnica, muitas vezes mesmo quando os indcios so bastante fracos. Este captulo
se apoiar essencialmente nos resultados de escavaes arqueolgicas, mas as
descobertas arqueolgicas s sero associadas a grupos culturais e lingusticos
se os dados disponveis assim o justificarem. Este rigor evitar crticas, vlidas
para grande parte de trabalhos anteriores: em muitos tratados e monografias
consagrados a diversos povos, a especulao  frequentemente elevada ao nvel
de hiptese douta e at mesmo apresentada como evidncia.
    Examinaremos sucessivamente a evoluo das lnguas bantu meridionais, seu
desenvolvimento ao norte e ao sul do Drakensberg e a expanso dos Khoi-khoi.


      A evoluo das lnguas bantu meridionais
   As lnguas bantu da frica meridional pertencem aos grupos venda, sotho,
tsonga, nguni e inhambane9. Apesar de antigamente alguns autores conside-
rarem que essas lnguas e o shona constituam uma subdiviso do bantu, pes-


6     Designamos como "caadores" os povos da frica meridional anteriormente chamados bosqumanos
      ou San. San  um termo khoi-khoi que significa "cliente", "ladro" ou "vagabundo" e no  usado por
      nenhum grupo de caadores para referir-se a si mesmo. Ver ELPHICK, 1977, p. 19-20 e 23-8.
7     O termo khoisan  utilizado para designar as lnguas no bantu da frica meridional. Ver KHLER,
      1975, p. 309-13. Tambm usaremos a palavra khoisan no sentido biolgico, pois os bilogos, infelizmente,
      empregam-na para designar populaes aparentadas da frica austral. Ver HIERNAUX, 1974, p. 98-112.
8     KUPER, 1975.
9     DOKE, 1954.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                          659



quisas posteriores demonstraram que tal classificao era incorreta. O mtodo
lxico-estatstico mostra que as lnguas shona, venda, tsonga, inhambane e
sotho-nguni so ramificaes de mesma importncia do bantu oriental. Isso
significa que a imensa maioria dos povos de lngua bantu da frica meridional
pertencem a um nico grupo lingustico, distinto no somente da lngua shona, mas
tambm do venda do norte do Transvaal, bem como do tsonga e do inhambane,
do sul de Moambique e das plancies do Transvaal.
    C. Ehret e seus colaboradores acharam a correlao mais forte entre o venda e
o shona (55%), depois entre o tsonga e o shona (41%), seguidos do chopi (38%),
do sotho (37%) e do nguni (35%). Para eles, uma vez que os Shona e os Bantu
do sudoeste formam subgrupos distintos do ponto de vista lingustico,  evidente
que houve dois centros de difuso das lnguas bantu para as vastas regies do
sudeste. C. Ehret e seu grupo veem na correlao entre o shona e as outras lnguas
do grupo bantu do sudeste a prova de que o protonguni e o protossotho-tswana
se difundiram rapidamente a partir de sua regio de origem, onde so faladas as
lnguas sotho-chopi-tsonga, que ainda permanecem confinadas ao vale do baixo
Limpopo. O nguni e o sotho-tswana, ao contrrio, difundiram-se amplamente
pelas duas vertentes do Drakensberg10. A diferenciao lingustica entre os grupos
sotho e nguni  muito mais recente que as outras divises e ocorreu na regio
onde atualmente vivem os povos que falam essas lnguas, isto , na prpria frica
do Sul, muito depois de l se terem estabelecido os povos de lngua bantu. Como
veremos, os povoamentos tpicos dos Tswana e outros Sotho e dos Nguni j exis-
tiam por volta de 1500, sendo razovel sugerir que j havia ocorrido a separao
das lnguas, o que nos daria como data-limite aproximada o ano de 1600. Esses
dados confirmariam as rarssimas tradies orais que concernem principalmente
s genealogias que remontam ao sculo XVI e a perodos anteriores.
      impossvel estabelecer relao direta entre os dados arqueolgicos e o
aparecimento dos povos de lngua bantu. At h pouco tempo, os arquelogos
associavam esses povos a comunidades que praticavam a agricultura e a meta-
lurgia, situando, portanto, sua chegada nos primeiros sculos da era crist. No
entanto, mais recentemente, R. R. Inskeep e D. W. Phillipson estabeleceram
paralelo entre a expanso da ltima poca da Idade do Ferro, a Idade do Ferro
Recente, que comeou por volta do ano 1600, e a difuso das lnguas bantu na
frica meridional. Eles se limitam a observar que a difuso dessas lnguas e a
da cermica da Idade do Ferro Recente representam importantes mudanas


10   EHRET, 1973.
660                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



culturais e a ltima grande mudana cultural desse tipo de que temos conheci-
mento. Em consequncia, a chegada dos povos de lngua bantu no pode estar
relacionada a nenhum perodo arqueolgico ulterior11.
    No se pode afirmar que os Bantu tenham levado tcnicas agrcolas superio-
res ou ferramentas melhores a toda parte. O que se deve enfatizar, no entanto, 
que talvez novas tcnicas tenham contribudo para o crescimento da produo
e favorecido novas formas de sedentarizao. A chegada dos Bantu no foi bem
"o acontecimento", como querem fazer crer antigos pesquisadores.
    Deve-se admitir que por um longo perodo houve interao entre as lnguas
shona, venda e tsonga na regio entre o Zambeze e o Limpopo, o que poderia
explicar o grande nmero de termos aparentados em nguni e sotho, e tambm
a semelhana considervel das prticas sociais (herana patrilinear, circunciso e
poligamia)12. Os mesmos costumes e as mesmas formas de organizao sociopo-
ltica so resultado de longa coabitao. Deve-se observar que todos os grupos,
afora os Nguni, tm totens correspondentes s linhagens ou cls.
    Os historiadores concordam quanto s migraes bantu na frica meri-
dional, mas  preciso se dobrar  evidncia de que no houve invaso, e sim
infiltrao de pequenos grupos. As tradies orais no foram suficientemente
examinadas, nem criticadas judiciosamente; elas poderiam fornecer informaes
que remontam ao sculo XVI e at a perodos anteriores. Os arquelogos no
deveriam ignorar esses dados.

      Ao norte do Ukhahlamba
    A segunda Idade do Ferro, ou Idade Mdia do Ferro, ocorreu entre 1100 e 1600.
Esse perodo  representado por aldeias descobertas na regio de Olefantspoort,
em Melville Koppies e em Platberg. As aldeias compreendem dez ou vinte casas
com cho de terra batida, dispostas num plano circular e cercadas por paliada.
Nas runas foram encontrados dentes de bovinos, ovelhas e cabras, utenslios de
ferro e "gros de milhete carbonizados em bom estado de conservao" 13.
    As culturas datadas da Idade Mdia do Ferro so, com certeza, de comuni-
dades de lngua bantu (1100-1600) e quase certamente, segundo R. J. Mason,
de povos sotho-tswana. Nas aldeias podem ser encontradas algumas habitaes


11    INSKEEP, 1979, p. 124-8 e 153; PHILLIPSON, 1977, p. 197-209, principalmente p. 206. Afora essa
      hiptese infeliz, esses dois trabalhos so os mais recentes e modernos da arqueologia de nossa regio.
12    INSKEEP, 1979; EHRET, 1973; PHILLIPSON, 1977.
13    MASON, 1973.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                                             661



com paredes de pedra. Exceto no caso do estilo Leopard's Kopje, ainda no foi
possvel encontrar nenhum stio onde a passagem do incio ao ltimo perodo
da Idade do Ferro Antiga aparea claramente.
    Pode ser que os arquelogos tenham de abandonar esta importante distino,
ao menos em sua forma atual. O nico stio em que  possvel verificar a transi-
o fica em Eiland, no Transvaal central, onde o sal foi explorado durante todo
o perodo. A cermica da Idade do Ferro Antiga foi substituda nos sculos XI
ou XII por produtos de estilo Mapungubwe (na tradio de Leopard's Kopje)
e mais tarde pela cermica de Phalaborwa14. No longe dali, o stio de Silver
Leaves (Tzaneen) mostra a mesma evoluo (ver fig. 23.1).
    Cermica e estilo de vida bem diferentes foram descobertos em Phala- borwa,
um dos dois grandes centros produtores de cobre do Transvaal na poca, situado
prximo do Olifants  afluente do Limpopo que Vasco da Gama chamou, em
1498, de "rio do cobre" , cerca de 80 km a leste do Drakensberg. A minerao
vinha-se desenvolvendo desde pelo menos o sculo VIII, mas a povoao mais
antiga, descoberta at agora, remonta a um perodo entre 960 e 1130 da era
crist. O estilo da cermica no tem equivalente na Idade do Ferro Antiga, mas
ela  praticamente idntica  que  feita hoje pelos habitantes de Phalaborwa.
Vrios sculos antes do incio do perodo aqui estudado, a cermica j tinha seu
carter atual, tambm encontrado entre os Lobedu, a cerca de 90 km ao norte15.
Isso prova que a cermica no  um barmetro para mudanas culturais. Desde
h alguns sculos, a sociedade lobedu vem se diferenciando sensivelmente da
de Phalaborwa, em particular no campo poltico ( famosa por suas rainhas da
chuva). A prpria Phalaborwa encontra-se agora na rbita cultural dos Sotho
ao norte, mas em 1700, como Lobedu, fazia parte do reino venda, e h motivos
para se acreditar que pelo menos no sculo XVII, seno mais tarde, os habitantes
dessa localidade falavam uma lngua prxima do venda, e no do sotho. Desde
ento, grandes mudanas vm ocorrendo, mas que no se refletem na tradio
da cermica16.
    A continuidade na regio foi assegurada por mineradores e comerciantes, que
eram tambm ceramistas, os "indgenas" das tradies orais, que os chamavam
de "Salang de Shokane" e os pretendiam diferentes  talvez porque fossem de
cultura tsonga  e bem inferiores a seus conquistadores, estes, ligados  tradi-
o poltica venda. Por outro lado, pode ser que alguns relatos que comearam

14   INSKEEP, 1979, p. 132; PHILLIPSON, 1977, p. 204; KLAPWIJK, 1974.
15   DER MERWE & SCULLY, 1971-1972.
16   Para maiores informaes sobre a evoluo a partir de 1700 aproximadamente, ver SCULLY, 1978a.
662                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 23.1   Mapa da frica meridional: stios arqueolgicos (1100-1500). ( J. Vansina.)
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                                          663



a proliferar recentemente na regio a respeito dos contatos com caadores de
lngua no-bantu sejam fundamentados numa tradio autntica. Parece ento
que, entre 1100 e 1500, houve, nas plancies do Transvaal, estabelecimentos
agrcolas que comerciavam uns com os outros e trocavam seus produtos artesa-
nais. As minas de Phalaborwa eram fonte de objetos de ferro num raio de pelo
menos 30 km, e fonte de cobre em distncias ainda maiores.  provvel que
parte desse cobre tenha alcanado o baixo Limpopo e, por via terrestre, a costa.
Tzaneen fornecia sal  regio, e, mais ao norte, o cobre extrado em Messina
era comerciado em ampla rea. R. T. K. Scully levantou a hiptese de que a
sociedade tornara-se Estado graas ao desenvolvimento da indstria metalr-
gica de Phalaborwa e ao comrcio dela resultante. As chefarias instaladas em
toda a plancie do Transvaal, a princpio pequenas, tinham ainda de lutar com
bandos de caadores nmades e competir com chefarias vizinhas. Mas, no fim
do perodo que aqui estudamos, ou talvez no sculo XVII, a administrao dos
Venda subjugou-as, unindo-as num s reino17.
    No tringulo ao norte do rio Vaal, delimitado por Rustenburg, Klerksdorp e
Johannesburgo, foram encontrados vestgios de um grupo de aldeias pertencentes
 mesma tradio, numa escala de datas entre 1060 e 1610, e l R. J. Mason18
realizou algumas escavaes. Sobre os pavimentos de gesso das casas redondas
havia plataformas, tambm de gesso, enquanto as paredes eram de materiais
perecveis, provavelmente paliadas de madeira ou, dada a escassez de madeira
no alto veld, bambu revestido de barro. Cultivava-se o milhete e criava-se gado,
inclusive caprino e ovino. As casas eram dispostas ao redor de um espao oval ou
circular, com rea de mais ou menos 1 ha, que, certamente, devia ser um curral
(kraal) para o gado. As aldeias eram pequenas, compreendendo apenas de dez a
vinte cabanas, ao menos nos trs stios estudados. Esse tipo de estabelecimento
provoca grande interesse, pois precedeu a construo em pedra, que, segundo
as evidncias atualmente disponveis, se difundiu amplamente no alto veld do
Transvaal no sculo XVII19. Como apenas quatro, das centenas de estabeleci-
mentos identificados no Transvaal central e meridional, foram escavados,  bem
possvel que pesquisas futuras descubram stios com muros de pedra, datando
de perodo anterior a 1500. Isto  ainda mais provvel quando se sabe que, no
Estado Livre de Orange, um tipo de construo em pedra, o tipo N, remonta
pelo menos a 1400-1450.

17   SCULLY, 1978b, p. 25; ver tambm INSKEEP, 1979, p. 135.
18   MASON, R. J., 1962 e 1973.
19   PHILLIPSON, 1977, p. 198-200. A cermica descoberta nesses stios  conhecida como Uitkomst e
     parece bem prxima da Buispoort da regio de Rustenburg.
664                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



    H stios do tipo N ao norte e ao sul do alto Vaal, at o rio Wilger, a oeste,
e at o Drakensberg, ao sul e a leste.  uma rea de boa pluviosidade e rica em
pastagens. A disposio dos celeiros, estbulos e habitaes com um muro cer-
cando todo o estabelecimento  forte evidncia da economia mista de agricultura
e de criao de gado. Aps 1600, o tipo N transformou-se em outros tipos de
estabelecimentos, que se difundiram por toda a regio do Estado Livre de Orange
situada ao norte do atual Reino de Lesoto. Uma variante desses tipos posteriores,
que apareceu o mais tardar em 1600, tem evidente carter tswana20.
    Somente pesquisas futuras podero determinar se os estabelecimentos cons-
trudos, no em pedra, mas em outros materiais, encontrados no tringulo Rus-
tenburgKlerksdorpJohannesburgo, bem como, talvez, um stio no datado de
Lydenburg, mais a leste so, de fato, precursores dos estabelecimentos em pedra
do tipo N ou prprios do Transvaal. Ao norte do Vaal, os stios anteriores  cons-
truo em pedra e os que correspondem aos estabelecimentos de tipo N ou de
tipo prximo encontram-se na regio entre os rios Marico e Crocodilo, territrio
associado  disperso de alguns grupos sotho, pelo menos desde o sculo XVI21.
Embora tentadora em vista dos dados de que dispomos atualmente, a hiptese
de R. R. Inskeep, que identifica esses estabelecimentos anteriores  pedra e os de
pedra ao modo de vida sotho e, indiretamente, ao grupo lingustico sotho, ainda
 prematura. As tentativas feitas anteriormente por R. J. Mason para relacionar
diferentes estilos de cermica do perodo compreendido entre 1100 e 1500
naquelas aldeias a certos grupos tswana ainda no foram submetidas  prova do
tempo22. Somente pesquisas futuras podero resolver esse problema.
    No entanto os argumentos a favor dessa hiptese tm peso. Os estabeleci-
mentos em pedra do tipo N esto na origem de grupos posteriores, um dos quais
 bem caracterstico dos Tswana (habitaes bilobadas). Por outro lado,  vlido
traar paralelos entre a difuso de novas tendncias arquitetnicas e as tradies
orais que narram os movimentos das famlias governantes, pelo menos depois
do sculo XVI. Na regio correspondente ao atual Zimbbue, os governantes
fizeram construes em pedra durante o perodo que ora estudamos, e as runas
em pedra nessa regio ou em Moambique esto associadas  expanso dos gru-
pos dirigentes. A ideia do uso de pedras para a construo de paredes pode ter
vindo da. Mas talvez seja uma inveno local da regio de Johannesburgo, onde


20    MAGGS, 1976a e 1976b.
21    INSKEEP, 1979, p. 138 (faz generalizaes um tanto excessivas); ver LEGASSICK, 1969, p. 100 e
      103.
22    Ver os comentrios de FAGAN, 1969, p. 60-2; MASON, R. J., 1962.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                            665



as pastagens so boas, mas h pouca madeira. De qualquer forma, ao adotar esse
material, os dirigentes polticos estabeleceram, sem dvida, normas de prestgio
e estilos que asseguraram a difuso desse novo tipo de habitao.
    Os stios de ocupao ao norte do Drakensberg mostram mudanas drsticas
evidentes aps 1100. O gado assumiu muito maior importncia na economia
em relao ao perodo anterior. O grau de organizao local tambm cresceu,
pois, durante o perodo em estudo, as dimenses dos estabelecimentos aumen-
taram consideravelmente. Os dados disponveis correspondem  impresso geral
transmitida pela tradio oral de que os Estados comearam a se constituir no
sculo XVI. Se compararmos essa situao com a do veld (Phalaborwa), ou
com a da Botsuana, as transformaes ocorridas perto do Vaal so ainda mais
espetaculares. As mudanas nos tipos de estabelecimento e na cermica parecem
ter sido bem marcantes. Como se explica tal fato?
     bem possvel que a chave do enigma esteja na Botsuana, onde as pesquisas
de J. R. Denbow levaram  descoberta de mais de 150 stios datando de 800 a
1300. As escavaes empreendidas em dois stios mostram uma evoluo local
contnua da fase Zhizo da cermica Gokomere (Idade do Ferro Antiga) para os
utenslios Tautswe. A maioria dos stios na Botsuana central (norte de Maha-
lapye) mostra claramente uma pecuria intensiva. Alguns depsitos de estrume
na regio chegam a ter 1 m de espessura23. A subsistncia dos habitantes da rea
vinha, em parte, da pecuria: o meio era muito favorvel a essa atividade, graas
s boas pastagens do veld e s nutritivas folhas de mopane. Foi ali, e no em Natal,
como acreditava T. N. Huffman, que o gado parece ter-se multiplicado. Os stios da
Botsuana mostram menos indcios de comrcio com a costa da frica oriental aps
o ano 100 da era crist, fato que no surpreende, pois o Zimbbue, e mais tarde o
Mapungubwe, a leste, comearam a centralizar a atividade comercial. Aps 1300
aproximadamente, o nmero de stios descobertos decresce rapidamente, talvez
porque o clima tenha se tornado mais rido  o Kalahari no  longe dali  ou em
virtude de um deslocamento da regio de incidncia da mosca ts-ts, que teria
forado a emigrao dos habitantes com seu gado.
     muito tentador associar esse declnio populacional com o aparente cresci-
mento demogrfico que teria ocorrido no oeste do Transvaal ocidental e com as
evidncias de criao intensiva de gado. Pode ser que alguns grupos que viviam
parcialmente da pecuria se tenham instalado com seus animais num meio mais
favorvel prximo do Vaal e que os rebanhos tenham atrado outros grupos para


23   DENBOW, 1979.
666                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



suas comunidades. A introduo da lobola (dote pago em cabeas de gado) e dos
contratos de clientela (para o gado) teria tornado isso possvel, favorecendo os
proprietrios dos maiores rebanhos. A lobola, a clientela e o pagamento de tributo
em cabeas de gado caracterizaro posteriormente as culturas sotho e tswana. A
travessia do Vaal fez-se acompanhar da adoo de uma economia agropastoril e,
mais tarde, da introduo da ordenha. Os autctones provavelmente criavam gado,
mas apenas para o aproveitamento da carne e no para a produo de leite.
    Contra essa hiptese pode-se argumentar que at agora no foi possvel
estabelecer qualquer ligao entre a cermica Tautswe e aquela produzida nas
margens do Vaal durante a Idade do Ferro Recente. No entanto ainda no se fez
nenhum estudo comparativo nesse sentido, e estilos mais recentes adotados ao
longo do Vaal no devem necessariamente ser idnticos aos antigos estilos dos
imigrantes24. Uma nova expresso pode ter-se desenvolvido do contato entre o
estilo indgena e o importado.
    Achamos que foi isto o que aconteceu. Mais tarde, uma mudana no meio
ambiente natural ou humano (o desenvolvimento da organizao poltica do
Zimbbue) da Botsuana central levou  imigrao em direo ao Vaal e ao
aparecimento de modos de vida e de lnguas caractersticos dos Sotho-Tswana.
Como veremos,  provvel que os povos que viviam parcial ou totalmente da
criao de gado tenham se deslocado mais para o sul e para o leste e influenciado
toda a populao do sudeste e do sudoeste da frica.

      Ao sul de Ukhahlamba
   At agora s trs stios testemunham a existncia da Idade do Ferro Recente
ao sul do Drakensberg. Atualmente, o territrio  ocupado por povos de lngua
nguni, cujo modo de vida  mais centrado no gado do que entre os Sotho-Tswana;
seus estabelecimentos so bem menores e menos disseminados, e sua cultura
tambm difere em muitos outros aspectos da dos Sotho-Tswana.
   Foram feitas escavaes em Blackburn, prximo da lagoa de Umhlanga, a
cerca de 15 km ao norte de Durban, que trouxeram  luz uma aldeia de mais ou
menos 12 casas, duas das quais foram completamente exumadas25. Construdas
num plano circular, com 5,5 m de dimetro, as estruturas parecem ter tido a
forma de colmeia e seriam sustentadas internamente por uma ou mais estacas


24    Quanto  inovao no domnio da cermica, ver INSKEEP, 1979, p. 132-3 e quadro 9 (interessante, mas
      muito dogmtico).
25    DAVIES, 1971.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                          667



centrais. As paredes provavelmente eram feitas de galhos, e o telhado, de sap.
Nesse aspecto eram muito semelhantes s construes nguni e khoi-khoi. As
dimenses da aldeia correspondem igualmente ao modelo nguni e khoi-khoi.
No stio tambm se encontrou sucata de ferro. Os restos de comida incluam
ossos de caa, conchas e espinhas de peixe. Essas constataes sugerem ser antes
uma aldeia de ancestrais dos Khoi-khoi ou mesmo de pescadores da costa, que
um estabelecimento nguni. Como os Nguni, da mesma forma que os Sotho-
Tswana, so conhecidos pelo tabu de comer peixe, as descobertas significam
ou que esse tabu s se desenvolveu aps o sculo XI ou que o stio pertencia a
caadores do litoral de lngua khoisan. A cermica, conhecida pela classificao
NC2, tem uma vaga semelhana com a Thembu (nguni). O mais interessante
 que o mesmo tipo de cermica foi encontrado numa grande rea de runas
prxima do Vaal: deve ter existido contato entre as populaes das duas regies.
Todos esses indcios fornecem material para reflexo, mas  difcil chegar a uma
concluso, pois nenhum outro stio foi descoberto. R. R. Inskeep tem razo,
portanto, em se recusar a especular sobre esses contatos26.
   O stio de Moor Park, prximo de Estcourt, remonta ao sculo XIII ou
XIV. Localiza-se num promontrio e  cercado por um muro que circunda no
apenas as casas, mas tambm as clareiras e terraos, o que prova que se tratava
obviamente de importante posto de defesa. Os vestgios das casas parecem
indicar que os pisos eram retangulares. Se esse dado for correto, trata-se de um
caso nico em toda a frica meridional. Seus habitantes utilizavam o ferro,
cultivavam o sorgo, caavam e criavam gado. Ainda no foi possvel associar,
com segurana, a nenhum estilo conhecido as cermicas ali encontradas. No
fossem os pisos aparentemente retangulares, o stio estaria mais em consonncia
com as atividades econmicas atribudas aos ancestrais dos Nguni do que com
os vestgios da lagoa Umhlanga27.
   O ltimo grupo de stios foi encontrado em 1978 perto da foz do rio Umngazi,
no Transkei; representa ocupaes da Idade do Ferro Antiga, Mdia e Recente.
Ali foram descobertas evidncias de fundio de ferro e um piso de cabana feito
com barro cozido semelhante aos pisos do alto veld. No se fez nenhuma datao
por carbono-14, tendo-se deduzido a poca a partir dos tipos de cacos de cermica
descobertos. Se se confirmasse uma data antiga para o piso da cabana e para a
fundio, nossa concepo tanto das ligaes entre as sociedades do norte e do sul


26   INSKEEP, 1979, p. 145.
27   DAVIES, 1974.
668                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



do Drakensberg como da poca em que os presumveis ancestrais dos Nguni se
estabeleceram to ao sul sofreria mudana profunda28.
    No momento, a informao mais antiga que temos sobre os Nguni provm dos
sobreviventes dos naufrgios ocorridos no sculo XVI nas costas de Natal ou do
Cabo29. As informaes reunidas a partir de tradies orais indicam que o Transkei
foi habitado pelos Xhosa, organizados em chefarias pequenas e instveis, o mais tar-
dar no sculo XV. Antes disso, as famlias dirigentes haviam vivido durante geraes
perto das margens do alto Mzimvabu, mais especificamente perto do atualmente
desconhecido crrego Dedesi. Em 1959, M. Wilson afirmou, com base em dados
comparativos, que essas famlias l viviam ao menos desde 130030. Mas essa data no
 precisa; apenas aproximada.  certo que, por volta de 1500, os Nguni ocupavam
quase todo o territrio no qual viviam em 1800, apesar de nas regies ocidentais
estarem misturados com os Khoi-khoi, a quem assimilariam progressivamente.
    Os Khoi-khoi deixaram marcas profundas nas lnguas nguni ocidentais e
orientais. Segundo L. W. Lanham, tal influncia s se iniciou quando as lnguas
xhosa e zulu comearam a se diferenciar31. Isso deve ter ocorrido tardiamente,
pois, pouco antes de 1600, um marinheiro que naufragou na costa afirma que
essas lnguas eram apenas dialetos de uma nica lngua, e ele havia percorrido
praticamente todo o litoral32. O khoi-khoi exerceu influncia bastante acentuada
sobre o zulu e o xhosa, contribuindo, respectivamente, com cerca de 14% e 20%
do vocabulrio. Essa influncia transformou o sistema fontico dos Xhosa, o
que significa que ela j se exercia quando o xhosa comeou a se diferenciar do
nguni oriental. Os Khoi-khoi devem ter ocupado um territrio que avanava
profundamente em Natal, pois at as lnguas nguni orientais foram afetadas33.
    Os Nguni comearam a se dedicar parcialmente  criao de gado, prefe-
rindo esta atividade  agricultura, provavelmente em razo da influncia khoi-
-khoi. Mas seus rebanhos no foram diretamente adquiridos dos Khoi-khoi,
pois estes criavam gado Afrikander, e os Nguni, a variedade Sanga, tambm


28    MATIYELA, 1979,
29    WILSON, M., 1969b; h um resumo nas p. 78-85.
30    M. Wilson retoma os aspectos essenciais de seu artigo intitulado The Early History of the Transkei and
      the Ciskei (l959b), sem, no entanto, mencionar datas. Nesse artigo diz: "... durante o perodo coberto
      pelas genealogias, ou seja, desde 1300, mas talvez alguns sculos antes". A data de 1686, associada ao
      reino de Togu, chefe xhosa, foi utilizada para a maioria dos clculos (como em WILSON, M., 1969b,
      p. 95). Mas essa data  incerta. Ver tambm PEIRES, 1973; e HARINCK, 1969, p. 154 e 155.
31    LANHAM, 1964.
32    WILSON, M., 1969a (Naufrgio do Santo Alberto em maro de 1593).
33 LANHAM, 1964; HARINCK, 1969, p. 150-3.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                            669



comum no norte do Drakensberg. Em matria de criao de gado, a influncia
dos Khoi-khoi foi bastante profunda, e os emprstimos de vocabulrio indicam
que eles aprenderam a tratar dos animais com povos menos numerosos. Foi com
eles que os dirigentes xhosa aprenderam a montar em bois e a us-los como
animais de carga34. Do ponto de vista religioso a influncia khoi-khoi sobre os
Xhosa tambm foi marcante; L. W. Lanham considera isto uma prova de que os
Khoi-khoi viviam em terras nguni, presena mais tarde confirmada nas regies
fronteirias ocidentais pela sobrevivncia de topnimos khoi-khoi. Outras indi-
caes da influncia khoi-khoi podem ser encontradas possivelmente no tipo
de habitao e, com certeza, na prtica que consistia em cortar uma falange do
dedo mnimo.
    Fisicamente os atuais Nguni so mestios do tipo "negro" com o tipo
"khoi-khoi" 35. A miscigenao  bem pronunciada entre os Xhosa, cujos gens
parecem ser 60% khoi-khoi. Isto tambm  vlido para os Tswana. Os Nguni
orientais tm menor porcentagem de gens khoi-khoi, mas seu parentesco  ainda
bem acentuado. Isso no  de espantar no caso dos Nguni ocidentais, e mesmo no
dos Tswana, pois seus contatos com os caadores e com os Khoi-khoi esto bem
documentados; mas surpreende constatar indicadores to claros de mestiagem
nos Nguni orientais.
    Se juntarmos os elementos lingusticos (que evocam a influncia khoi-khoi)
aos indcios biolgicos (que podem ser atribudos tanto aos caadores como aos
khoi-khoi), devemos concluir que, em dado momento, grande nmero de
Khoi-khoi viveu em Natal, ou que os Nguni e os Khoi-khoi tiveram contato
ntimo mesmo antes de os Nguni se instalarem em Natal, o que  menos prov-
vel, pois, neste caso, a proporo de palavras khoi-khoi seria mais alta nas lnguas
nguni orientais e ocidentais. Parece ento que os Khoi-khoi tiveram papel mais
importante do que o at agora reconhecido pelos historiadores. Como veremos,
essa influncia no se limitou aos Nguni, mas se estendeu a grande parte da frica
do Sul e da Nambia.

     Os Khoikhoi
  Em 1488, Bartolomeu Dias descobriu o Cabo da Boa Esperana; visitou
Mossel Bay e viu africanos, com os quais teve contato. No final de 1497, durante
uma expedio de Vasco da Gama, estabeleceram-se contatos com africanos


34   WILSON, M., 1969b, p. 96, 103-5, 107-9.
35   HIERNAUX, 1974, p. 107-10.
670                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



na baa de Santa Helena (ao norte do Cabo) e tambm em Mossel Bay. Em
1510, o vice-rei das ndias, dom Francisco de Almeida, foi morto, juntamente
com 60 soldados portugueses, em Table Bay, num confronto entre khoi-khoi e
portugueses36, o que prova que os Khoi-khoi eram suficientemente organizados
para aniquilar a coluna portuguesa munida de armas de fogo. Um sculo e meio
depois, os Khoi-khoi enfrentaram os holandeses (1652), que queriam se instalar
no Cabo. Iniciou-se ento uma longa guerra de extermnio dos indgenas.
    Mais recentemente, tornou-se claro que, do ponto de vista lingustico, o
khoi-khoi pertence ao grupo tshu-khwe, da famlia de lnguas khoisan, que
inclui tambm vrias lnguas faladas pelos caadores da Botsuana setentrional
e mesmo uma lngua falada na costa meridional de Angola37. De fato, a lngua
khoi-khoi, dividida em dois ou trs dialetos, era falada num territrio que,
posteriormente, se estendeu do norte da Nambia ao Cabo e, mais a leste, at
o rio Great Fish. Alm disso, em determinado momento, deve ter chegado a
Natal, como mostra sua influncia sobre o nguni. R. Elphick observa que, con-
sequentemente, o khoi-khoi era uma das lnguas mais faladas na frica, e que
a homogeneidade lingustica deste grupo parece indicar uma disperso bastante
recente e rpida a partir do bero dos Tshu-khwe. Os Khoi-khoi criavam gado
de grande porte e ovelhas de cauda grossa, montavam bovinos e usavam bois
para transportar seus bens e estacas para a construo de suas casas. Isso lhes
dava grande mobilidade, caracterstica que se ajusta  difuso de sua lngua.
Apesar das sensveis diferenas em relao aos caadores, seus caracteres fsicos
tambm correspondem ao grupo "khoisan"38. A maioria das diferenas pode
ser atribuda aos efeitos de uma dieta diferente (leite), apesar de outras, como
as peculiaridades serolgicas, no serem facilmente explicveis. Embora haja
divergncias nesses detalhes, todos os antroplogos aceitam atualmente que os
Khoi-khoi e os caadores pertencem  mesma entidade somtica, o que con-
firma as concluses tiradas a partir da lingustica. Os Khoi-khoi pertencem 
populao de caadores da frica do Sul.
    Constata-se a presena dos Khoi-khoi no sul da provncia do Cabo em 1488.
Tendo em conta a homogeneidade de lngua em to grandes distncias, R. Elphick




36    Ver AXELSON, 1973a e 1973b.
37    WESTPHAL, 1963; KHLER, 1975, p. 305-7 e principalmente p. 305-9 (teoria dos hamitas), p. 322-30
      (Tshu-khwe, que ele chama de "Khoe").
38    ELPHICK, 1977, p. 8-10; HIERNAUX, 1974, p. 100 e p. 103-7, principalmente 106-7.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais   671
                                                        Mapa da expanso khoi-khoi. ( J. Vansina.)
                                                        Figura 23.2
672                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



estima que os Khoi-khoi no tenham chegado muito tempo antes dessa data, embora
o trajeto da Botsuana ao Cabo tenha durado pelo menos um sculo39.
    Os ancestrais dos Khoi-khoi conseguiram obter gado em grande quanti-
dade no norte da Botsuana, e provavelmente desenvolveram a raa Afrikander,
aprenderam a forjar metais, mas no a fundi-los, e abandonaram parcialmente
seu modo de vida baseado na caa e na coleta.  muito tentador sugerir que
alguns stios encontrados por J. R. Denbow na Botsuana constituem vestgios de
antigos estabelecimentos khoi-khoi, e no apenas campos abandonados por povos
de lngua bantu. Embora controversos, os restos humanos de Bambadyanalo,
perto do Limpopo, tambm parecem ser indcios de populaes que se dedica-
vam, ao menos parcialmente,  criao de gado, e pareciam fisicamente com os
Khoi-khoi do sculo XI40. O decrscimo populacional na Botsuana aps 1300
fornece-nos uma data no apenas para a expanso dos agrupamentos humanos
provavelmente de lngua bantu, que foram para o Vaal, mas tambm para o incio
da expanso dos Khoi-khoi (ver fig. 23.2).
    Do alto veld, os Khoi-khoi espalharam-se para o sul e sudeste, seguindo o curso
dos rios quando possvel41. Chegando  confluncia do Orange com o Vaal, uma
parte desceu o Orange, at a Namaqualndia e a Nambia, onde alcanaram
Sandwich Harbour antes de 1677. Outra parte foi para o sul seguindo os cursos
d'gua, atravessou o Sneeuwberge e dividiu-se em dois grupos: um foi para leste e
para o interior, da costa at Natal; outro, para oeste, chegando s maravilhosas pas-
tagens na regio do Cabo. Ainda um ramo deste ltimo grupo migrou pela costa
norte at o rio Olifants e juntou-se finalmente a seus irmos da Namaqualndia42.
    Resta examinar um ponto discordante antes de aceitar essa hiptese: os vest-
gios encontrados em Middledrift. Este stio arqueolgico a cu aberto, prximo
do rio Keiskamma, data do sculo XI43. L eram criados animais domsticos,
mas os utenslios no so da Idade do Ferro. Foram descobertos apenas frag-
mentos de cermica e utenslios de pedra. Se considerarmos Middledrift um


39    ELPHICK, 1977, p. 12-3. No h pinturas rupestres representando gado no oeste do Cabo e na Nambia.
      Por outro lado, foram encontradas s cinco pinturas rupestres representando ovelhas, embora esses animais
      fossem criados nessas regies desde o incio da era crist. Pesquisas mais aprofundadas podero possibilitar
      que se avalie a data da chegada dos Khoi-khoi no extremo sul da regio. No sculo XVII, no entanto,
      os beres no a encontraram completamente despovoada.
40    DENBOW, 1979, n. 14; ELPHICK, 1977, p. 11. Quanto a Bambadyanalo, ver FAGAN, 1969, p. 52-3.
41    ELPHICK, 1977, p. 18-9. O autor baseia-se no comportamento dos Korana ao longo do rio Riet e no
      material arqueolgico da rea, apesar de sua data ser posterior a 1500. Ver INSKEEP, 1979, p. 145-6.
42    ELPHICK, 1977, p. 14-21.
43    DERRICOURT, 1973.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                                                    673



stio khoi-khoi, devemos abandonar a hiptese acima, porque a expanso khoi-khoi
remontaria a um perodo por demais antigo, e talvez tambm porque as tcnicas
testemunhadas por esses vestgios so muito rudimentares. Mas no h razo
para atribu-lo aos Khoi-khoi apenas porque no corresponde a nossas ideias
atuais sobre a cultura dos povos de lngua bantu! Pode-se aceitar provisoriamente
Middledrift como um stio onde os caadores adquiriam seu gado, assim como,
um milnio antes, os povos instalados ao longo da costa do Cabo aperfeioaram
a criao de carneiros. Os caadores de Middledrift teriam sido assimilados ou
expulsos pelos Khoi-khoi.
    A expanso khoi-khoi afetou profundamente a vida de todos os habitantes da
frica meridional. Mencionamos seu impacto sobre os povos de lngua bantu em
Natal e no Cabo oriental. A hiptese mais aceita  a de que os Nguni no encon-
traram os Khoi-khoi em Natal, e que progressivamente repeliram ou absorveram os
encontrados no Cabo oriental. O conjunto de informaes disponveis, porm, con-
tradiz essa hiptese. Os Khoi-khoi encontraram estabelecimentos agrcolas disper-
sos a leste do rio Kei, mas os conquistaram para assegurar seu domnio no Transkei
e talvez mesmo em algumas regies de Natal. Levou um sculo, ou talvez dois,
para as comunidades agrcolas das plancies situadas entre o Drakensberg e o mar
alcanarem densidade suficiente para se tornarem mais poderosas numericamente
que outras populaes, e poderem assim domin-las e absorv-las. Isso explica por
que os Xhosa adotaram tantos traos khoi-khoi, o que no  incompatvel com o
advento da dominao xhosa no sculo XVI.
    A oeste, os Khoi-khoi influenciaram os Herero de forma diferente, mas
tambm marcante. Sem adotar a lngua khoi-khoi, os Herero acolheram seu
modo de vida pastoral e provavelmente em parte a forma de organizao clnica.
Parece que esses povos de lnguas bantu ocidentais encontraram os Khoi-khoi
no oeste da Botsuana, de onde tambm emigraram para a Nambia, porm, mais
ao norte que os Khoi-khoi. No  possvel precisar quando isso aconteceu, mas
no se pode descartar a hiptese de uma data anterior a 150044.
    Politicamente, os Khoi-khoi dividiam-se em grupos de cls, e, s vezes,
quando o nmero de cabeas de gado aumentava, formavam unidades polticas
maiores, sob a liderana de chefes hereditrios. Era frequente as relaes entre
as vrias chefarias terem por base o tributo, pelo menos no sculo XVII, pois
os Khoi-khoi, do Cabo ao Kei, faziam parte de um nico sistema de tributos.


44   BIRMINGHAM & MARKS, 1977, p. 607. As tradies herero conhecidas foram resumidas por VEDDER,
     1938, p. 131-53. Ele sustenta (p. 151-3) que a tradio oral indica uma migrao proveniente da Botsuana
     setentrional, e prope 1500 como data aproximada.
674                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



A organizao poltica baseava-se na riqueza individual, enquanto o sistema
de herana e o regime matrimonial s transmitiam parcialmente a riqueza
de uma famlia para seus descendentes. Consequentemente, apesar da grande
distncia entre ricos e pobres, os reveses da sorte podiam ocorrer em apenas uma
gerao. Acontecia de os mais pobres abandonarem esse modo de vida, voltando 
caa e  coleta, como ocorreu com os strandloopers ("vagabundos de praia") do Cabo.
Os pobres de determinado cl podiam unir-se para atacar um cl vizinho,
apropriar-se do gado e melhorar sua situao.  medida que o gado crescia,
fortalecia-se o sistema poltico, mas, se o nmero de animais se reduzisse por
falta de chuvas ou devido a uma epizootia ou ainda em razo da intensificao
do roubo de gado por criadores pobres, as tenses superavam os interesses
comuns, os conflitos se multiplicavam e os chefes mais ricos tornavam-se as
maiores vtimas dos ladres, o que resultava na reduo de sua riqueza e de sua
autoridade no grupo de cls. Assim, se  fcil compreender que a princpio os
Khoi-khoi conseguiram impor-se aos agricultores, menos organizados e com
menor mobilidade; a longo prazo as variaes climticas e as epizootias, assim
como as pronunciadas desigualdades sociais entre os prprios Khoi-khoi favo-
receram os fazendeiros, pelo menos, os do leste do Kei 45
    A presena dos Khoi-khoi teve consequncias mais profundas entre os caa-
dores e criadores de ovelhas autctones e entre os caadores do litoral porque
todos viviam dos mesmos recursos, numa concorrncia maior do que com os
agricultores e criadores de gado. Entre 1100 e 1500, os autctones  todos
nmades e, em princpio, todos caadores  tinham vrias ocupaes. Ao longo
do litoral, haviam se tornado quase sedentrios e viviam dos produtos do mar46.
Na costa ocidental do Cabo e s margens do baixo Orange, entre Augrabies Falls
e Prieska, criavam ovelhas de cauda grossa; no interior, viviam principalmente da
caa e da coleta de veldkost (bulbos e razes). Naqueles sculos, as regies mais
ridas do Karroo, as areias do Kalahari e os planaltos mais frios provavelmente
no eram habitados. Em alguns pontos do leste, como talvez Middledrift, alguns
caadores comearam mesmo a criar gado.
    Com a chegada dos Khoi-khoi, os criadores de ovelhas e possveis criadores de
gado bovino perderam seus rebanhos e voltaram a caar, ou tornaram-se clientes
dos Khoi-khoi. Os grupos que viviam no sourveld (estepe com terras cidas) da
costa ou nas praias sobreviveram por tempo suficiente para ensinar aos Khoi-khoi
empobrecidos como se tornar strandloopers, mas, ao final, tambm foram dominados

45    Quanto  estrutura sociopoltica, consultar ELPHICK, 1977, p. 23-68; HARINCK, 1969, p. 147-8.
46    INSKEEP, 1979, p. 114-7.
A frica meridional: os povos e as formaes sociais                              675



pelos Khoi-khoi. No interior, os pastores e os caadores competiam com sucesso
varivel e se miscigenavarn em graus diversos. Para os Khoisan, os caadores eram
apenas "ladres" (san), e os caadores consideravam, sem dvida, os criadores de gado
"larpios" que os afastavam das melhores fontes de gua e dos melhores terrenos de
caa. Em geral, por suas dimenses, os cls khoi-khoi levavam vantagem sobre os
pequenos bandos dos competidores. Porm, quando o meio se tornava mais hostil, os
caadores restabeleciam certo equilbrio na medida em que muitos criadores viam-se
forados a recorrer  caa, e alguns chegavam a se integrar aos bandos de caadores.
Mesmo assim, o modo de vida khoi-khoi impunha-se progressivamente. No sculo
XVII, o khoi-khoi havia se tornado a lngua franca de todo o Cabo ocidental, o
que denuncia certa dominao cultural. Parece evidente que a expanso khoi-khoi,
qualquer que seja a forma exata que tomou, transformou a vida de todos os grupos
de caadores autctones. Desde o sculo XIX, ao norte ou ao sul do Kalahari no
h mais caadores "em estado puro".


    Concluso
    O fato mais marcante do perodo que estudamos no presente captulo foi, ao
lado da difuso da lngua bantu, a expanso dos Khoi-khoi na frica meridional.
Esta provavelmente se deveu a uma deteriorao das condies climticas na parte
do Kalahari situada na Repblica da Botsuana ou por uma grande mudana da rea
de incidncia da mosca ts-ts, seno pelos dois fatos. Qualquer que seja a causa, por
volta de 1330, as regies centrais e setentrionais da Repblica da Botsuana, onde se
desenvolveu uma forma original de economia pastoril, estavam sendo abandonadas.
Alguns povos da regio no eram khoi-khoi, mas de lngua bantu, e levavam consigo
seus rebanhos.
    Na regio do Zimbbue e no alto veld, ao sul do Limpopo, o gado foi absor-
vido pela economia agrcola, e os imigrantes, ao menos entre os ancestrais dos
Sotho-Tswana, tomando o poder, comearam a estabelecer chefarias no norte do
Drakensberg. No sabemos ainda se alguns desses imigrantes chegaram a ir mais ao
sul.  possvel que os ancestrais dos Nguni tenham adquirido mais gado do que j
possuam, mas que o nmero de imigrantes tenha se mantido limitado. De qualquer
forma, os Nguni desenvolveram uma economia mais centrada na criao de gado
do que a dos Sotho-Tswana. Era uma inovao adaptada, suscitada pela observao
do modo de vida dos Khoi-khoi que invadiram suas terras.
    Os dados histricos ainda so bastante incompletos. Mesmo que todas
essas hipteses aventadas sejam confirmadas por pesquisas futuras, no teremos
676                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



esclarecido o desenvolvimento de uma economia pastoril, mesmo no norte da
Repblica da Botsuana, talvez entre 800 e 1300. Tampouco saberemos a quem
atribuir essa evoluo. Ela provavelmente no poderia ser atribuda aos povos
de lngua bantu, pois muitos termos de pecuria da frica meridional no so
de origem bantu oriental. Poderiam ser de origem khoisan  um historiador os
atribui s lnguas do grupo sudnico central47. No entanto, at o momento, os
argumentos invocados em apoio a essa tese so por demais frgeis. Com efeito,
seria necessrio provar que populaes de lnguas do grupo sudnico central
saram em massa do nordeste do Zaire indo at a Botsuana e ao Zimbbue, e que
esta expanso precedeu  dos povos de lngua bantu. Estamos mais inclinados
a crer que aqueles termos de pecuria so de origem tshu-khwe, e que foram os
ancestrais dos Khoi-khoi que, durante cinco sculos, aperfeioaram o modo de
vida pastoril. Eles adotaram a criao de gado, mas no quiseram abandonar as
tradies de nomadismo e caa.
    Existem ainda muitas dificuldades para delimitar as realidades histricas da
frica meridional. Muitos pontos permanecem obscuros no estudo das migra-
es bantu:
      Se os Nguni e os Sotho estiveram reunidos numa determinada poca, quando e
      onde se separaram? Que caminhos seguiram em sua migrao para o sul? Quando
      atravessaram o Limpopo?48
    Outra dificuldade vem do fato de que a maior parte dos dados arqueolgicos ao
sul do Limpopo foi recolhida no Estado Livre de Orange e concerne aos Sotho-
-Tswana. Para termos uma sntese dos nossos conhecimentos, devem ser feitas
pesquisas complementares no sul de Moambique, na Nambia, na Suazilndia,
no Lesoto e na Botsuana.




47    EHRET, 1972 e 1973.
48    UNESCO, 1980b, p. 23.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                         677



                                       CAPTULO 24


               Madagscar e as ilhas vizinhas,
                  do sculo XII ao XVI
                                 Faranirina Esoavelomandroso




    Os componentes essenciais da populao de Madagscar j se encontravam
presentes no final do sculo XII, apesar de outras ondas migratrias terem se
seguido entre os sculos XII e XVI. O povoamento de Madagscar faz parte
do vasto quadro de relaes entre o sudeste da sia e a frica atravs do oceano
ndico. Tendo reconhecido a importncia dessa questo, o Comit Cientfico
Internacional para a redao da Histria geral da frica, sob o patrocnio
da Unesco, organizou, dos dias 15 a 19 de julho de 1974, uma reunio de
especialistas em Port Louis (Maurcio) para debater o tema "Relaes histricas
atravs do oceano ndico" 1.
    O problema do povoamento de Madagscar  tratado no captulo 25 do volume
3. Muitas questes ainda no foram resolvidas; a determinao das contribuies
africana, rabe, hindu e indonsia para o povoamento e a cultura de Madagscar,
por exemplo, ainda provoca muitas discusses entre os pesquisadores2.
    Neste captulo, o enfoque ser menos a sntese definitiva da civilizao
e da histria de Madagscar entre os sculos XII e XVI do que a tentativa
de esclarecer a lenta e complexa interao tnica e cultural que, no incio
do sculo XVI, deu uma identidade original  grande ilha. Parece certo que,

1    UNESCO, 1980a.
2    Ver volume 3, captulo 25; ver tambm KENT, 1970: o autor, com base na anlise lingustica, tentou
     avaliar a contribuio africana tanto no plano poltico como no cultural.
678                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 24.1 Madagscar. Mapa das vias de migraes e povoamento da ilha. (F. Esoavelomandroso, com a
colaborao de T. Rajaona, usando elementos do Atlas de Madagscar, de S. Ayache, e do Atlas do povoamento
de Madagscar, de F. Ramiandrasoa). Nota: As ltimas vagas migratrias de indonsios chegaram entre os
sculos XII e XIII. Os povos islamizados (Swahili e rabes) tiveram como base principal as ilhas Comores,
de onde partiram para circunavegar a ilha pelo norte.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                                      679



aps o sculo XII, Madagscar ainda recebeu rabes, indonsios e africanos. As
tradies orais de Imerina e de Betsileo evocam, a este respeito, as guerras que
os reis, no comando dos recm-chegados, teriam liderado contra as populaes
autctones, designadas pelo nome de "Vazimba", vencidas e rechaadas para o
interior3. Essas tradies comportam listas genealgicas que remontam ao sculo
XIV e at ao XIII.
    No entanto muitos estudiosos acreditam que as migraes neoindonsias
dos sculos XIII e XIV s concernem aos Merina; h muitas dvidas quanto 
existncia dos "Vazimba", seus adversrios de acordo com as tradies. De fato,
para alguns, vazimba significa ancestrais; no se refere, portanto, a determinado
povo; o termo serviria para designar, de forma vaga, as populaes, sem dvida
negras, que precederam os indonsios nos planaltos4.
    Os sorabe5, conservados cuidadosamente pelos Antemoro, uma populao do
sudeste, so tambm uma fonte sobre o povoamento da ilha, pois registram a
chegada e a instalao dos rabes vindos de Meca.
    As migraes mais recentes parecem ter tido papel determinante na for-
mao de conjuntos polticos bem estruturados, apesar de terem encontrado
populaes j agrupadas em reinos. Mas quando situar a chegada das ltimas
ondas? Seria necessrio proceder a um estudo crtico das vrias tradies escritas
e orais, principalmente as que vm das dinastias que tendem naturalmente a
insistir na sua antiguidade.
   A partir do sculo XV e at o incio do XVI, as fontes portuguesas descre-
vem os povos e os reinos da ilha. Os reinos estavam em pleno desenvolvimento
quando os portugueses chegaram, mas o problema  saber ainda o perodo de
sua formao. Estariam l antes do sculo XII? Como se formaram? Existem
muitas teorias, mas,  preciso dizer, o atual estgio de nossos conhecimentos e a
insuficincia das pesquisas neste campo no fornecem respostas definitivas.



3    Sobre Imerina, ver CALLET, 1908. Os Tantara, uma das mais importantes compilaes de tradies orais
     do territrio merina, foram coletados por R. P. Callet entre 1868 e 1883 e contm indicaes preciosas
     sobre os Merina. Um estudo crtico dos Tantara foi feito por DELIVR, 1974. Sobre o territrio betsileo,
     ver RAINIHIFINA, 1975; RATSIMBAZAFIMAHEFA, 1971.
4    As discusses sobre os "Vazimba" basearam-se, a princpio, em argumentos de ordem lingustica; ver
     FERRAND, 1891-1902. As antigas populaes designadas por esse termo pareciam no conhecer
     algumas tcnicas (metalurgia, criao de gado); ver BOITEAU, 1958. Para um estudo mais recente sobre
     o povoamento da ilha, ver Ravoajanahary, in UNESCO, 1980a.
5    Os sorabe so manuscritos em lngua antemoro, redigidos em caracteres rabes. So as tradies dos katibo
     (escribas, guardies da tradio). Estes manuscritos so conservados em bibliotecas na Frana, Noruega
     e Inglaterra; ver MUNTHE, 1977.
680                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



   Teriam sido os negros, primeiros ocupantes provveis, que estabeleceram os
fundamentos desses reinos, ou os fundadores teriam sido os imigrantes da Indo-
nsia? O elemento muulmano desde cedo teve papel importante; em vista da
extenso e profundidade desta influncia, a tese da origem rabe ou muulmana
dos reinos no foi afastada por certos estudiosos, como veremos.


      A origem dos reinos em Madagscar
    No existe um povo "vazimba"; as tradies que o mencionam provavelmente
atestam a existncia anterior de certas populaes difceis de identificar. Essas
mesmas tradies serviram de ponto de partida para a afirmao de que no
existiam instituies reais antes da chegada das ltimas ondas imigratrias; no
territrio betsileo, as tradies confirmam os dados: as populaes autctones
no tinham rei, e s se nomeavam chefes em caso de guerra.

      As tradies e as hipteses
    P. Ottino acredita que as populaes vindas da Indonsia distinguiam-se
por traos de cultura, e no por uma escala cronolgica de tempo na ordem de
chegada. Segundo esse autor, havia os imigrantes portadores de cultura popu-
lar "que remonta s tradies malaio-polinsias" e os oriundos de uma cultura
aristocrtica, "caracterstica do hindusmo indonsio, no tocante  separao
de papis do Estado e da realeza"; de fato, as festas dinsticas de Imerina so
reminiscncias das que se encontram nas regies hinduizadas do arquiplago
da Insulndia. Na realidade, muitas tradies insistem no carter recente desta
onda de imigrantes, e distinguem-na das outras. P. Ottino situa a chegada dessa
aristocracia no sculo XII6. A aristocracia de Imerina se distinguiria, ento,
segundo esta tese, por sua cultura hindu.
    J J. Lombard sublinha que
      a constituio das grandes unidades polticas no sul e no oeste se deu em razo da
      chegada de grupos arabizados7.




6     OTTINO, 1975.
7     LOMBARD, J., 1973.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                 681



A tese da origem "rabe" das instituies reais ou monrquicas tem o endosso de
muitos autores, que insistem nas inovaes trazidas pelos muulmanos para as
sociedades do sudeste, a nica rea onde agrupamentos por cl eram conhecidos.
    Observemos que podem ter existido diferentes ncleos de poder e que, de
qualquer forma, estamos diante de uma simbiose no plano biolgico, cultural e
poltico. Por exemplo, encontra-se a influncia muulmana nas instituies polti-
cas dos Merina, mas no se pode ter certeza da poca em que houve contatos entre
Andriana e os imigrantes estabelecidos no sudeste. J. P. Domenichini observa com
exatido que no se deve perder de vista a contribuio africana. Tambm sustenta
que no  correta a ligao da origem dos reinos  chegada dos muulmanos; seria
preciso analisar as instituies de cada regio. Apenas trs dos 14 sampy reais vm
do sudeste. Apoiando-se nos relatos das tradies orais sobre a descoberta de
outros sampy, e na prpria natureza desses feitios mgicos, o autor conclui que
    a instituio do sampy  anterior  difuso da cultura e da religio muulmanas em
    Madagscar, mesmo que mais tarde a instituio tenha sofrido esta influncia8.
   No oeste, P. Ottino situa antes da chegada dos Maroserana o aparecimento
dos primeiros reinos
    de pequena extenso territorial e, sem dvida, sem doutrina de sucesso poltica cla-
    ramente definida.
Liga esses reinos pr-sakalava aos primeiros imigrantes bantu matrilineares,
populaes que viviam da agricultura, enquanto os reinos sakalava provm de
grupos de criadores de gado (bantu patrilineares)9.
   Estes vrios estudos devem ser encarados com prudncia; eles incitam-nos,
sobretudo, a procurar os componentes de uma cultura que esclareceriam as
vrias contribuies e o mecanismo de suas combinaes. Tudo leva a crer que
o surgimento dos reinos  posterior ao sculo XII. Antes dessa data, podem ter
existido aqui e ali cls muito bem estruturados que constituram as clulas de
base dos reinos. O reino nada mais era que a reunio destes cls em grandes
entidades fortemente hierarquizadas.
   No entanto,  verdade que Raminia, fundador do reino islamizado do sudeste,
e seus descendentes tiveram grande influncia. Segundo P. Ottino, o fundador
desse reino seria originrio do sudoeste indiano. Ao estudar as dinastias do oeste
aparentadas entre si (Maroserana, Andrevola), E. Fagereng atribui-lhes uma origem


8    DOMENICHINI, 1971.
9    OTTINO, 1975.
682                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



comum indo-rabe, retomando em parte a hiptese de A. Grandidier criticada por
R. K. Kent10. As tradies destas dinastias associam-nas a estrangeiros que
desembarcaram numa poca tardia na parte sul da ilha, e que teriam emigrado
em seguida para o oeste.
   O entrelaamento de migraes internas  ainda mais difcil de desembara-
ar; parece que, uma vez na ilha, os recm-chegados continuaram a deslocar-se.
Apesar de as entidades tnicas se terem mantido, a miscigenao  evidente,
como testemunha a unidade cultural da ilha.

      A chegada dos Merina e a ocupao de Imerina:
      nascimento do reino merina
    As terras montanhosas so hoje ocupadas pelos Merina, os Sihanaka,
os Betsileo e os Bezanozano; algumas tradies afirmam que sua origem  a
mesma, apesar de os Merina, cujo ancestral Andriantomaza liderou a expedio
que desembarcou na baa de Antongil, constiturem uma aristocracia entre eles.
Deste ponto da costa, os recm-chegados alcanaram pouco a pouco as terras
montanhosas11. O ponto de desembarque parece ter sido mesmo a baa de
Antongil, tanto se vieram diretamente do sudeste asitico a Madagscar quanto
se fizeram escalas no continente africano e nas ilhas Comores.
    A chegada dos ltimos imigrantes da sia pode ser situada entre os sculos
XIII e XV.  provvel que, no fim deste perodo, tenham desembarcado em
pequenas ondas migratrias, espalhando-se na ilha ao longo de uma via marcada
por stios, hoje reconhecidos e estudados. De Maroantsetra chegaram ao interior,
parando nas nascentes do Vaharina, na extremidade ocidental das falsias de
Angavo. Vohidrazana, ao norte de Tamatave, e Ambatomasina Vohidrazana de
Noramanga constituram algumas etapas desta caminhada12.
    Os relatos dos viajantes rabes do sculo XIII, e mesmo dos europeus no
XVI, corroboram a hiptese de uma chegada tardia de imigrantes indonsios
na costa leste13.
    As tradies dos Betsileo tambm evocam o mesmo caminho para os imi-
grantes, da costa s nascentes do Mahatasiatra, conduzidos por Iarivo, fundador



10    Ver FAGERENG, 1971; OTTINO, 1975; KENT, 1970.
11    RAMILISON, 1951-1952.
12    MILLE, 1970.
13    RALAIMIHOATRA, 1969 e 1971.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                                683



das dinastias locais. Foi uma penetrao lenta, que nada teve de invaso macia
e brutal, como nos mostra claramente a anlise das tradies.
    De fato, os recm-chegados no empreenderam guerras contra os antigos
ocupantes logo ao chegar. Os Tantara ny Andriana comeam evocando a longa
coabitao das duas comunidades em Imerina. Teria sido somente aps dois rei-
nados  de Andrianaponga a Andriamanelo , que os hspedes teriam, segundo
a tradio, comeado a guerrear contra seus hospedeiros.
    Num pas to vasto, recoberto provavelmente em grande parte pela floresta e
pouco povoado, era possvel que grupos humanos dispersos vivessem isolados uns
dos outros por bastante tempo, sem concorrncia, enquanto nenhum deles mani-
festasse pretenses territoriais e polticas precisas. No entanto, gradativamente
foram estabelecidos contatos e alianas matrimoniais entre os recm-chegados e
os autctones. Embora as tradies orais distingam claramente os Merina, os
Betsileo e os Sihanaka dos "Vazimba", em outros relatos passa-se, sem ruptura,
de uma genealogia de reis ditos "vazimba" a uma de reis merina. Estes lti-
mos no se apresentariam, desta forma, como herdeiros e sucessores legtimos
dos primeiros reis? No se exclui a possibilidade de que os ltimos a chegar
tenham encontrado um quadro estatal com o qual colaboraram, confiscando-o
e renovando-o em seguida. Mais tarde, houve conflitos entre os tompon-tany
(senhores da terra) e os novos vizinhos. Numa tradio citada por R. P. Callet14,
os motivos parecem ter sido as ambies polticas dos Merina, que admitiam
com dificuldade a diviso de terras com os primeiros ocupantes, os senhores
do solo. O vencedor, o rei Andriamanelo, teria vencido os autctones graas
 superioridade do armamento de ferro de seus soldados, pois os primeiros
habitantes ignoravam o uso desse metal. Uma questo importante: quando e
como o ferro foi introduzido na ilha?15 Segundo uma teoria aceita, o ferro teria
chegado a Madagscar antes do primeiro milnio de nossa era. O problema 
que os ltimos imigrantes atribuem a si essa inveno capital.
    De minha parte, aceito de boa vontade a teoria de J.-C. Hbert, bem engenhosa:
segundo ele, os "Vazimba" seriam simplesmente populaes do interior com as quais
os ltimos chegados (os Merina) e tambm os Sakalava estabeleceram relaes
jocosas (ziva) "que supem privilgios entre os quais o menos curioso no
 o insulto gratuito (ainda hoje manazimba quer dizer insultar)" 16. Assim,


14   Ver CALLET, 1908.
15   Ver volume 3, captulo 25.
16   A hiptese  sedutora. Na frica ocidental, as relaes jocosas de parentesco tm papel importante;
     atenuam, em muitos casos, a tenso social. Nas Repblicas do Senegal, do Mali, da Guin e da Costa
684                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



"vazimba" poderia designar um conjunto de populaes mestias de negros e
indonsios que ocupavam as terras montanhosas antes dos Merina.
    As tradies merina e betsileo evocam, em sua maioria, uma fuga dos ven-
cidos para o oeste at o Menabe. Expulsos pelos reis das terras montanhosas,
instalaram-se em territrio sakalava; a lembrana deste deslocamento perma-
nece viva na memria de seus descendentes. Inquiridos sobre sua origem, os
Mikea, populao que vive na floresta de Befandriana-sul (regio de Tulear),
afirmam descender dos "Vazimba" rechaados por reis merina17. No se pode, no
entanto, admitir sem discusso a hiptese de uma fuga generalizada dos autc-
tones, que teriam deixado no local apenas os tmulos, ao mesmo tempo temidos
e venerados, como prova de sua antiga existncia18. Alm disso, a presena do
cl dos Antehiroka, descendentes dos "Vazimba" no prprio centro de Imerina, a
os-noroeste de Antananarivo, permite refutar a hiptese de uma expulso total das
primeiras populaes. Mesmo que algumas tenham deixado Imerina, o Betsileo
ou o Menabe  os Zafisoro, antiga populao do oeste, teriam emigrado para
leste aps a conquista sakalava , a maioria permaneceu. Os ltimos imigrantes
tinham, de fato, interesse em se entender com os grupos considerados senhores
da terra (tompon-tany), em virtude de sua presena anterior. As alianas matri-
moniais multiplicaram-se e um modus vivendi se estabeleceu, pouco a pouco,
entre os vencedores e os vencidos. Os primeiros garantiram para si a adeso dos
antigos habitantes e os favores das divindades da terra19. Por sua submisso, os
segundos esperaram um tratamento menos rigoroso. No oeste,
      a aliana entre os imigrantes e o grupo tompon-tany dos Andrambe deu origem ao
      primeiro personagem histrico da dinastia dos Andriambolamena20.




      do Marfim, os Manden (Mandingo) e os Fulbe (Peul) fazem festas especiais onde os parentes jocosos
      trocam presentes e insultos num ambiente em que no existem mais barreiras que separam os ricos dos
      pobres, os grandes dos pequenos. (Nota do diretor do volume.)
17 Pesquisa de setembro de 1974 organizada pelo Centro Universitrio de Tulear. Pesquisas feitas antes
   e depois desta trazem-nos outros elementos de resposta sobre a origem das populaes. Os Mikea
   apresentam-se como refugiados ou da autoridade da dinastia real de Maroserana ou dos colonizadores.
   Ver DINA & HOERNER, 1975.
18 Segundo uma tradio betsileo relatada por H. Dubois, no se encontra nenhum trao de "vazimba"
   nem nas famlias reais nem nas de seus sditos. Os "Vazimba" teriam todos se retirado para oeste. Ver
   DUBOIS, 1938.
19 HBERT, 1958. Hbert relaciona as palavras vazimba e ziza, termo que designa o parente jocoso, e
   aventa a hiptese de uma aliana do "tipo fizivana" entre os "senhores da terra" e os recm-chegados.
20    Ver LOMBARD, J., 1973.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                               685



Assim nasceu o reino do Menabe, criado pelos Andrambe, onde se instaurou
um ritual de oraes dedicadas aos ancestrais do rei por um oficiante chamado
mpitoka21.
    Desta forma, os recm-chegados merina, betsileo e outros tornaram-se
gradualmente os senhores do territrio e organizaram os reinos, que contaram
com a contribuio econmica e cultural dos muulmanos, os quais, como
se sabe, frequentavam, desde antes do sculo IX, Comores e Madagscar. A
influncia rabe e muulmana, ao mesmo tempo poltica, econmica e cultural,
tornou-se muito forte na grande ilha e ilhas vizinhas, sobretudo nos sculos XII,
XIII e XIV.

     A penetrao do islamismo em Madagscar e nas ilhas Comores
    Com o desenvolvimento dos centros comerciais da costa da frica oriental22 e
a expanso da cultura swahili, grupos de muulmanos da costa da frica oriental
comearam a frequentar Madagscar e Comores. Um fluxo contnuo de inter-
cmbio desenvolveu-se, ento, entre as duas margens do canal de Moambique,
mais tarde consolidado pelas "colnias" de populaes muulmanas que se insta-
laram nas ilhas Comores e em certas regies de Madagscar. Como ocupantes das
ilhas, etapas entre os emprios swahili da costa da frica oriental e Madagscar,
os habitantes das ilhas Comores conservaram melhor as tradies culturais de
seus pases de origem. Em Madagscar, porm, a situao foi menos definida. O
sudeste, regio mais afastada dos centros de civilizao swahili, foi pouco a pouco
integrado  tradio malgaxe, conservando, no entanto, alguns de seus traos ori-
ginais. Por outro lado, no nordeste, os descendentes dos grupos islamizados, que
mantiveram contato ntimo com os correligionrios comerciantes de Comores
ou dos emprios da frica, conservam at hoje sua verdadeira originalidade que
lhes conferem sua ascendncia, seus costumes e suas tradies de gente do mar.
    As tradies comorianas e malgaxes falam de ancestrais de origem rabe
obrigados a abandonar o pas devido a suas convices religiosas. Os sorabe
Antemoro relatam a chegada, por volta do sculo XV, de Ralitavaratra, ancestral
dos Antemoro-Anakara23 detentor de relquias sagradas  legadas por Moiss
 sua famlia e cobiadas pelo sulto de Meca, `Al Tawarath  que precisou

21   Ibid.
22   Segundo CHITTICK, 1967a, a islamizao desta faixa costeira, que se estende de Mogadscio a Sofala
     s comeou por volta do sculo X com os estabelecimentos muulmanos de Pemba e Zanzibar; ainda
     no sculo XII, em muitas cidades continuou-se a praticar as religies tradicionais.
23   Os Antemoro-Anakara so uma casta nobre antemoro com atribuies religiosas.
686                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



fugir, sendo seguido por cerca de 30 fiis. Aps muitas peripcias, encontraram
a "terra prometida" s margens do rio Matitanana. As tradies conservadas
pelos Antambohoaka e pelos Antanosy (populaes do sudeste malgaxe) evocam
tambm a vinda de Meca de um ancestral comum, Raminia24. Uma tradio
comoriana assinala a chegada a Anjuan, por volta do sculo XIV, de sunitas que
tiveram de abandonar a Prsia por causa da dominao zaidita25. Tais relatos
refletem claramente a vontade de uns e outros de estarem ligados aos centros
mais clebres do Isl para poderem se impor e melhor salientar sua ascendncia
ao mesmo tempo muulmana e rabe26.
    Apesar de as tradies insistirem nas causas religiosas para explicar a migra-
o de grupos de rabes para o sul, a atrao exercida por Comores e Madagscar
foi bastante forte. Era cada vez maior o nmero de migrantes interessados no
comrcio do mundo swahili. Ora, numerosos fatores  o estudo das viagens ra-
bes no oeste do oceano ndico, o conhecimento dos emprios da frica oriental,
a existncia em Comores e no noroeste de Madagscar de tradies culturais
bem prximas das do mundo swahili, a descoberta nos stios do nordeste e
sudeste da ilha de objetos que testemunham claramente relaes comerciais
entre esse territrio e os portos africanos  exigem outra forma de abordagem
do problema das migraes desses povos islamizados.

      A escala do mundo swahili
   Mesmo antes do estabelecimento de colnias muulmanas, as cidades e ilhas
do litoral africano entre Mogadscio e Sofala j desenvolviam intensa atividade
comercial27. Voltadas mais para o mar do que para o interior, essas escalas, cuja pros-
peridade se consolidou a partir dos sculos XII e XIII, estenderam sua influncia
para bem alm da costa. Os emprios serviam de escala entre a Arbia  e talvez
mesmo a ndia , de um lado, e Madagscar e Comores, de outro. Alm disso,
muitos imigrantes islamizados, chegando  regio, foram fortemente impregnados
pela cultura swahili, exercendo papel essencial na difuso do Isl na ilha.
   No entanto, apesar de haver poucas informaes na documentao escrita,
h motivos para crer que a influncia africana foi grande. A arqueologia provou


24    FLACOURT, 1661.
25    ROBINEAU, 1962.
26    Essa tendncia a reivindicar-se de origem rabe  encontrada em quase todas as dinastias islamizadas da
      frica oriental e do Sudo.
27 CHITTICK, 1974.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                687



que as cidades costeiras foram, na realidade, fundadas por africanos e no por
rabes. Deve-se usar de cautela ao se falar na influncia muulmana, pois os
rabes, nesse caso, no estariam necessariamente envolvidos. No h nenhuma
razo para no se admitir a existncia de relaes antigas entre as populaes
negras da ilha e as do continente.

     Os emprios comerciais
    Os emprios do noroeste malgaxe e de Comores apresentavam muitas seme-
lhanas com as cidades da costa da frica oriental, tanto por sua configurao
como pelo modo de vida de seus habitantes. As runas das fortificaes, os ves-
tgios de mesquitas, as antigas casas com portas ricamente esculpidas que ainda
existem em Anjuan so testemunhos de uma vida profundamente marcada pelo
Isl e pela civilizao rabe nos emprios de Mutsamudu, Wani, Domoni e
Sima28. Apesar de seus preconceitos, os portugueses deixaram descries inte-
ressantes da vida nas escalas do noroeste de Madagscar no incio do sculo
XVI. Referindo-se a um dos emprios mais importantes, o de Nosy Langany,
escreveram:
     Sua populao [a de Lulangane] era composta por muulmanos mais civilizados e mais
     ricos do que os que habitavam todos os outros pontos da costa, pois suas mesquitas
     e a maioria das casas eram de pedra calcrea com terraos, como as de Kiloa [Kilwa]
     e Monabza [Mombaa]29.
    Restos de fortificaes comparveis aos da costa da frica oriental foram
descobertos no stio de Mahilaka30. As baas profundas que recortam o litoral
noroeste da ilha, Ampasindava, Mahajamba e Boina, abrigam uma srie de esta-
belecimentos comerciais (Mahilaka, Sada, Nosy Langany, Nosy Boina etc.), que
mantinham relaes estreitas com Comores e com a frica e que participavam
da cultura martima swahili.
    O carregamento das embarcaes rabes nas costas malgaxes consistia em
arroz, objetos de cloritoxisto (recipientes destinados ao uso funerrio: taas com
p, panelas trpodes), cujo principal centro de fabricao encontra-se em Iharana
(na costa noroeste de Madagscar)31. Os emprios malgaxes importavam prolas


28   VRIN, 1967a.
29   Apud POIRIER, 1954.
30   MILLOT, 1912; VRIN, 1973.
31   VERNIER & MILLOT, 1971.
688                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 24.2 Stio de Antongona (sculos XV-XVIII). De acordo com uma gravura do fim do sculo XIX.
No alto da montanha, cercada por aviavy e amontana (Ficus), a vila (rova) era a residncia dos prncipes; a
entrada abre-se numa fortificao de pedra insossa.



                                                                     Figura 24.3 Antsoheribory, na baa
                                                                     de Boina. A arquitetura desta porta de
                                                                     coral talhado de um tmulo antalaotse
                                                                     mostra as semelhanas culturais da
                                                                     costa da frica oriental.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                                                 689



indianas, tecidos, cermica chinesa  pratos e tigelas, presentes, com frequncia,
no mobilirio funerrio. As escalas da costa noroeste garantiam a redistribuio
dos produtos importados; as escavaes em Rezoky e em Asambalahy exumaram
objetos caractersticos de stios swahili32. Apesar da concorrncia europeia a
partir do sculo XVI, as colnias de populaes islamizadas continuaram a
exercer suas to lucrativas atividades.

     O povoamento das ilhas Comores e o grupo dos Antalaoetse.
    Apesar de Comores e, principalmente, a ilha de Anjuan provavelmente terem
recebido imigrantes indonsios e bantu, estes foram submersos por ondas suces-
sivas de populaes islamizadas, originrias da costa da frica oriental. Segundo
um processo clssico, os ltimos a chegar se impuseram pela fora, pretendendo-se
defensores da verdadeira f num pas onde "os crentes, longe das fontes do Isl, ten-
diam a descuidar de seus hbitos religiosos" 33. Procurando estabelecer o domnio
poltico sobre as primeiras populaes, os recm-chegados deram novo impulso
a sua religio34.
    As colnias de muulmanos do noroeste de Madagscar formaram o grupo
dos Antalaotse, preponderante economicamente,  semelhana de uma poderosa
"burguesia" comercial organizada em verdadeiras cidades-Estado, dirigidas por
chefes ao mesmo tempo polticos e religiosos35.


     A civilizao malgaxe, do sculo XII ao sculo XVI
    Convm deixar claro que pouco sabemos da poca dita "vazimba" alm do que
contam as tradies daqueles que rechaaram as primeiras populaes e lanaram
as bases dos reinos. Muito se pode esperar da arqueologia, mas os trabalhos mal
comearam; os projetos de escavaes, sob o patrocnio do Museu e do Centro de
Arte e de Arqueologia da Universidade de Antananarivo, comeam a tornar-se
sistemticos; importantes trabalhos esto em curso em Androy36. O leitor deve


32   VRIN, 1980.
33   ROBINEAU, 1962.
34   Por exemplo, mandando construir mesquitas.  o caso do "xiraziano" Hassani ben Muhammad, que
     mandou construir no sculo XV a mesquita de Sima.
35   Cidades-Estado, rplicas das da costa da frica oriental e smbolos da cultura martima swahili; ver
     MOLLAT, 1980.
36   HEURTBIZE & VRIN, 1974; ver DOMENICHINI, 1979a; ver WRIGHT, T., 1977.
690                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 24.4 Ambohitrikanjaka (Imerina). Planta da complexa rede de fortificaes (fossos s vezes reforados
com muros de pedra insossa) de um stio no alto de um monte, do sculo XV aproximadamente. ( J. P. Domenichini
e D. Rosamuel.)




se reportar ao volume 3 desta obra, onde se trata do primeiro povoamento da
ilha e da cultura encontrada pelos imigrantes que chegaram aps o sculo XII.
    Entre os sculos XII e XV,  medida que os recm-chegados desembarcavam
na ilha, integravam-se aos grupos existentes ou se organizavam segundo o modelo
clssico dos autctones. Desconhecemos o processo em que se deu a interao
entre as etnias africanas e asiticas; em compensao, os documentos escritos
mostram-nos os muulmanos swahili instalando-se em Comores e na ilha, e
mantendo contato com a costa swahili.

      Cultura material
   As pesquisas de campo realizadas por arquelogos mostram que a agricultura
 anterior ao perodo aqui estudado. Aps o sculo XII, a cultura do arroz, do
inhame, da banana e do cacau espalhou-se por toda a ilha. Os animais domsti-
cos, bois e aves, eram de origem africana. Seria arriscado tentar discernir divises
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                               691



sociais extensivas37.  medida que a ilha se povoava, multiplicavam-se as aldeias e
organizavam-se os cls. A pesca era muito importante, e a piroga com flutuador
lateral dava aos ilhus um bom domnio do mar. A cultura do arroz era impor-
tante, constituindo, esse produto, a base da alimentao.
    A cultura material das regies do sul, do oeste e de uma parte do norte parece
ter sido predominantemente africana. Segundo C. Ravoajanahary, a cultura do
arroz em campos inundados  uma tcnica indonsia, enquanto a criao de zebu
e a cultura do inhame so tipicamente africanas38. De acordo com esse autor,
foram as ltimas ondas migratrias do sculo XIV
     que introduziram os modelos polticos e rituais que, a partir do sculo XV, favo-
     receram a formao dos primeiros reinos malgaxes, a princpio no sudeste, depois
     paralelamente no sul, oeste e terras montanhosas.
    Pode-se supor que as estruturas de base j existissem no sculo XV: as famlias
se agrupavam em cls, por sua vez reunidos em aldeias mais ou menos autnomas.
    Os trabalhos arqueolgicos trouxeram  luz muitas cermicas (ver fig. 24.5),
a partir das quais ainda no se podem, todavia, tirar concluses vlidas; no
mximo, definir alguns estilos de cermica prximos do estilo indonsio e outros
prximos do estilo africano. Numerosas dataes por carbono-14 devero ser
feitas para que se possam preencher lacunas em nosso conhecimento39.

     A realeza e suas instituies
     Do cl ao reino
    Organizados em torno de chefes ou patriarcas, os cls parecem ter se formado
muito cedo. Os termos foko, troki, firazana designam as principais caractersticas
do cl: o aspecto comunitrio (foko = comunidade) e uma mesma ascendncia para
os indivduos que o compunham (firazana = ascendncia; troki = seio materno).
O cl constitua a unidade bsica do reino, e se apoiava nas aldeias ou na terra
cultivada. A maioria das tradies pe nfase nas lutas entre cls na fase de
formao dos reinos. Dentro do cl, a autoridade pertencia aos ancios, cujo
porta-voz era o patriarca, o mais idoso. A cultura e os ritos religiosos sedimen-
tavam ainda mais a unidade lingustica.




37   BOITEAU, 1974.
38   Ver RAVOAJANAHARY, 1980, p. 91-2.
39   Ver VRIN, 1980, p. 116-7.
692                                                                    frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 24.5 Reconstituio de uma tigela encontrada em Milangana no Vakinisisaony. Cermica grafitada,
tpica dos produtos de Imerina do sculo XV. (Conforme desenho de J. P. Domenichini, passado a limpo
por Rambeloarison.)




      Os primeiros reinos e sua evoluo
    Apesar de a origem rabe dos prncipes que nas ilhas Comores substitu-
ram os fani  primeiros chefes islamizados que sucederam os beja do perodo
pr-islmico  no ter, aparentemente, apresentado qualquer problema, a das
dinastias conquistadoras malgaxes apresenta alguns. Muitas tradies evocam os
laos de parentesco que uniam as dinastias do oeste e do sul (Maroserana, Sakalava
e Mahafaly, Zafimanara da regio do Androy) s do sudeste (os Zafiraminia
do Anosy). A rea de estabelecimento de grupos arabizados aparece como o
bero de grande nmero de dinastias malgaxes. A tradio mantm a lembrana
de migraes lesteoeste a partir do territrio antemoro, por um lado (migrao dos
Zafiramba Tanala), e do Anosy, por outro (migrao dos Maroserana). A rota tomada
pelos futuros soberanos do Menabe seguia o rio Itomampy, passava ao norte do
Onilahy e atravessava o Fiherenana e o Mangoky antes de chegar a Bengy40.
    Tentar agora ver o que nas concepes monrquicas seria uma herana exclu-
sivamente africana ou indonsia  na medida em que se pode dizer que as
instituies da realeza resultaram, em parte, do dinamismo prprio s primeiras
sociedades  permitiria definir melhor o papel dos arabizados ou muulmanos
na constituio dos reinos malgaxes.  dessa forma que o estudo dos aspectos
africanos da cultura malgaxe levou os historiadores a procurar no continente as
origens de certas instituies fundamentais, como o culto de relquias dos reis


40    Ver LOMBARD, J., 1973.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                         693



mortos (culto dos dady no territrio sakalava). R. Kent assemelha ao clebre
Imprio de Monomotapa o Reino dos Maroserana Volamena, sem, no entanto,
concluir pela origem africana dos ltimos. Depois de criticar severamente o
"mito dos reis brancos" de origem asitica, defendido por A. Grandidier, R. Kent
levanta a hiptese de uma origem muito miscigenada dos Andriana Merina.
No seu entender, eles descenderiam dos tompon-tany, novos imigrantes de ori-
gem desconhecida, e talvez at dos arabizados zafiraminia41. As instituies
polticas so, portanto, uma simbiose das contribuies negra, asitica e muul-
mana, enriquecida por contribuies de novos imigrantes desconhecidos, talvez
Zafiraminia arabizados. E refletem essas muitas influncias; a maior parte dos
autores hoje concorda em que se deva trazer  luz o importante papel desem-
penhado pelos rabes na histria poltica e social da ilha. Os textos estabelecem
claramente que no sculo XIV novas concepes foram introduzidas na esfera
do poder poltico, principalmente na diviso do reino em "unidades territoriais
homogneas". Ns prprios observamos a importncia que as tradies atribuem
s dinastias de Zafiraminia de origem rabo-hindu, assim como a das tradies
de outros grupos antemoro, os quais incluam alguns elementos vindos direta-
mente de Meca, os Antanpansemac ("povo das areias de Meca")42.
    Com relao a essa questo, muito ainda deve ser feito para que se possa
conhecer melhor os fundamentos do poder em Madagscar; no entanto  certo
que a realeza se fortaleceu no sculo XV, com uma influncia muulmana bem
marcada.

     A religio
     uma simbiose de elementos africanos e indonsios, sem excluir a influn-
cia do Isl, que continuou preponderante, principalmente nas ilhas Comores.
Geralmente  difcil distinguir os diferentes grupos de migrantes; mas o que
importa  a simbiose, que d grande originalidade a Madagscar.

     O panteo
   No panteo malgaxe, o primeiro lugar  ocupado pelo principal deus da
Indonsia: Zanahary ou Andriananahary, nas regies litorneas, Andriananitra
(senhor perfumado), no interior.  a divindade mais poderosa, a que criou o
mundo, formou a sociedade e concedeu os costumes.  a primeira divindade


41   Ver KENT, 1970.
42   FLACOURT, 1661.
694                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



evocada nas preces, mas  um deus distante; para atingi-lo, os homens apelam
para divindades secundrias ou gnios, da gua e da floresta. O esprito dos
ancestrais tambm  invocado; as preces so dirigidas aos "Vazimba", senhores
da terra. Florestas, rochedos e rvores grandes podem ser lugares de culto.

      As oferendas
   So feitos sacrifcios para as divindades;  muito frequente o sacrifcio do
bfalo, menos, porm, que o do boi, praticado por toda parte e em vrias ocasies
da vida43.

      O feiticeiro
   Entre as crenas,  preciso mencionar o feiticeiro, temido na sociedade.
    difcil concluir se o feiticeiro  de origem asitica ou africana; o nome pelo
qual  designado, inpamosary,  asitico, mas encontram-se na frica feiticeiros
com as mesmas caractersticas que em Madagscar.

      Os funerais
   Como na Indonsia, pratica-se em Madagscar o funeral duplo; entre os
Betsileo, os que carregam o morto danam como possudos, caminhando para
o tmulo em ziguezague.
   Todos os elementos que hoje podemos analisar remontam provavelmente a
essa poca de sntese entre os sculos XII e XVI.


      Concluso
    Ainda resta muito a fazer para que se possa elucidar melhor este perodo da his-
tria da grande ilha, perodo essencial para a formao do povo malgaxe, que desfruta
de incontestvel unidade lingustica, mas que ainda apresenta problemas.
    Agradecemos a Unesco, que, organizando a reunio de especialistas em
Maurcio, contribuiu para estimular o interesse pelo problema geral das relaes
histricas atravs do oceano ndico. Madagscar est a tal ponto envolvida
em tais relaes que sua cultura e sua histria s sero elucidadas  medida


43    Qual a origem do sacrifcio do boi? Acredita-se que os bois foram introduzidos na ilha pelos negros. 
      uma prtica que remontaria a passado muito distante.
Madagscar e as ilhas vizinhas, do sculo XII ao XVI                              695



que aprofundarmos nossos conhecimentos sobre essas relaes. As escavaes
arqueolgicas e as coletas de tradies orais mais diversificadas, e mais sistemticas
no plano regional, ajudaro a compreender a diversidade dos elementos cons-
titutivos da cultura malgaxe.
    Este estudo apresenta, inevitavelmente, muitas lacunas. Vrios pontos per-
manecem obscuros;  preciso ainda levantar alguns fady (tabus), principalmente
aqueles relativos aos famosos tmulos dos "Vazimba".
    Madagscar apresenta um caso de simbiose, cujo estudo  ainda mais interessante
que o da histria da frica. A Arbia, a ndia, a frica e a Indonsia encontraram -se
nessa ilha, oferecendo ao mundo exemplo eloquente de mestiagem biolgica
e cultural que deu to belos frutos.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                   697



                                         CAPTULO 25


                         Relaes e intercmbios
                          entre as vrias regies
                                         Djibril Tamsir Niane




    Entre 1100 e 1500, a frica foi um parceiro privilegiado nas relaes intercontinentais
do Velho Mundo. Tanto atravs do Mediterrneo como atravs do oceano ndico,
um comrcio intenso, mais frequentemente intermediado pelos muulmanos, ligava
a Europa e a sia ao continente africano. Deve-se enfatizar que vrios tipos de
comrcio organizado no interior da frica j existiam desde a pr-histria. Como
veremos neste captulo, as pesquisas pouco a pouco vo fornecendo informa-
es cada vez mais precisas, em particular no que diz respeito  amplitude dos
intercmbios entre regies do continente africano. No entanto no atual estgio
de nossos conhecimentos no  possvel ainda tratar de maneira exaustiva as
relaes entre as vrias regies da frica do sculo XII ao XVI.
    Parece que no plano econmico e comercial a frica estava em plena expanso
nos sculos XIV e XV; mas os contatos com o Ocidente abertos pelo trfico de
escravos significaram a interrupo de um impulso vigoroso, que teria mudado
o curso da histria da frica, caso o comrcio se tivesse desenvolvido com mer-
cadorias de fato. Grandes correntes de intercmbios culturais atravessaram o
continente em todas as direes, confundindo-se por vezes com as correntes de
comrcio. No havia mais regies isoladas, pois nem florestas nem desertos cons-
tituam barreiras intransponveis. Hoje, as escavaes arqueolgicas, o estudo das
lnguas africanas e das tradies orais abrem novas perspectivas para a pesquisa
histrica e j comeam a esclarecer o problema das migraes, da transferncia de
tecnologia e das relaes entre regies bastante afastadas.
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   O papel do Isl, tanto na difuso de ideias como no comrcio, foi de extrema
importncia  poca, como ilustram as viagens de Ibn Battta para a China e
pela frica oriental e ocidental. Nossos conhecimentos sobre as populaes no
perodo que ora tratamos muito devem aos trabalhos dos gegrafos, viajantes e
historiadores muulmanos.


      O Saara e o Sahel: um espao privilegiado para
      a pesquisa no estudo das relaes exteriores
    Em meados deste sculo, historiadores europeus tentaram explicar o atual
atraso tecnolgico da frica pela existncia do Saara, que, segundo diziam, teria
isolado a frica negra do mundo mediterrneo. Na realidade, mesmo quando se
tornou desrtico, o Saara nunca constituiu uma barreira. Afinal, no era desabi-
tado. Era a terra dos nmades, que mantinham contatos estreitos com os povos
sedentrios do norte e do sul. Entre 1100 e 1500, o Saara serviu como zona de
passagem privilegiada, e pode-se dizer que esse perodo correspondeu  idade
de ouro do comrcio transaariano. A partir do sculo X, o comrcio de ouro da
frica ocidental com a frica setentrional desenvolveu-se com regularidade. O
Saara foi comparado, com procedncia, com o mar: o Sahel sudans e as frontei-
ras meridionais da frica setentrional seriam seu litoral. No sul, Tichit, Walata,
Tombuctu, Tirekka e Gao eram os terminais mais importantes das caravanas de
Tamdult, Sidjilmasa, Tlemcen, Wargla e Ghadames. S o dromedrio se pres-
tava para a travessia do deserto, que levava dois meses, seno trs. Isso explica
a importncia das grandes pastagens ao norte e ao sul do Saara, reservadas 
alimentao e  criao de dromedrios, e tambm as disputas, s vezes violentas,
entre os nmades pelo controle desses pastos.
    Tanto ao norte como ao sul, o comrcio transaariano estendeu-se bem alm
dos "portos" mencionados; o Tuat e o Ghura, o Djard tunisiano e os osis lbios
foram to importantes para o comrcio transaariano quanto os prprios "portos".
Do Sahel  savana florestal, as vias terrestres e fluviais completavam o sistema
transaariano. Certamente  este o caso da atual Repblica do Senegal, sendo
bem conhecido o sistema constitudo pela bacia superior do Nger1. As mais


1     Arquelogos poloneses e holandeses acreditam ter encontrado importante ndice da circulao de pessoas
      e de bens, do alto Nger, onde foi construda Niani, at o territrio dogon, na ocorrncia de algumas
      cermicas de forma to caracterstica que a conexo torna-se indiscutvel. Mas resta saber em que direo
      ela se deu: se do sul para o norte, ou se do norte para o sul.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                         699



recentes pesquisas realizadas em Burkina Fasso (ex-Alto Volta) e nas Repblicas
de Gana e da Nigria sugerem que se desenvolveram relaes comerciais entre
a frica ao sul do Saara e o Magreb. A rea em questo situa-se na savana, e h
muitas evidncias arqueolgicas de que era bem frequentada2. No norte da atual
Repblica Federal da Nigria, essa corrente de circulao certamente encontrava
a que vinha da atual Repblica do Chade, de que trataremos mais tarde.
    Os nmades, senhores do deserto, foram muito beneficiados pelo comrcio
transaariano, pois as caravanas levavam-lhes cereais e tecidos em troca de carne,
sal e gua. Assim, os nmades e os povos sedentrios complementavam-se.
As caravanas necessitavam de guias na imensido do Saara; estes lhes eram
fornecidos pelos nmades, que conheciam as rotas e eram pagos a preo de
ouro. A travessia do Saara tinha que ser preparada minuciosamente; os camelos
eram alimentados durante vrias semanas. Para chegar ao Sudo, Ibn Battta
foi a Sidjilmasa, ponto de encontro dos que partiam do Marrocos para o sul, e
anotou: "Nesta cidade comprei camelos, que alimentei com forragem durante
quatro meses" 3. A caravana era liderada por um chefe, que a todos comandava
como um capito de navio. Comeada a viagem, ningum deveria atrasar-se ou
avanar muito rapidamente, nem se afastar do grupo, pois podia se perder no
imenso deserto.
    Os nmades, como os Messufa, especializados no comrcio transaariano,
forneciam guias e mensageiros para as caravanas. Sigamos a caravana de Ibn
Battta para Niani (Mali), capital do imprio dos mansa. Aps 25 dias de
viagem, a caravana chegou a Teghazza, importante salina do Saara; homens e
animais descansaram at recobrar flego. Depois de dez dias a caravana partiu
em direo a Walata. Dez dias antes da chegada, os caravaneiros enviaram um
mensageiro  cidade. Este levava cartas a correspondentes "que lhes alugariam
casas e viriam encontr-los com uma proviso de gua quando faltassem quatro
dias de viagem" 4. O mensageiro era muito bem pago: 100 mithkl, segundo Ibn
Battta. A caravana estaria perdida se o mensageiro no conseguisse chegar
a Walata; mas isso raramente acontecia, pois os Messufa conheciam bem o
deserto. Em 1964, Theodore Monod descobriu grande quantidade de cauris,



2    Ver POSNANSKY, 1974; BOAHEN, 1974. Ele acredita serem os Akan originrios da regio entre
     o Benue e o lago Chade, mostrando claramente que os movimentos de ida e vinda entre o norte e as
     regies florestais do sul no so um mito; a anlise lingustica e toponmica podem desvendar as formas
     de migrao e as rotas comerciais. Cf. SHAW, T., 1970, v. 2, p. 280-7.
3    IBN BATTTA, in CUOQ, 1975, p. 292-3.
4    Ibid., p. 293.
700                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



barras de cobre e restos de tecido enterrados na areia, na Mauritnia; pode
tratar-se de mercadorias de uma caravana que "naufragou" no deserto5.
    Ibn Battta chegou a Walata, a primeira cidade do Mali, depois de dois
meses de viagem. Ali morava um governador representante do imperador do
Mali, e a caravana teve de preencher algumas formalidades alfandegrias. Walata
tambm era um centro comercial onde mercadores negro-africanos se encon-
travam com mercadores rabo-berberes. Isso explicaria a longa estada de Ibn
Battta na cidade  cerca de 51 dias. De Walata, aps 24 dias, o viajante alcan-
ou "Malli" (Niani), capital dos mansa. As estradas eram seguras; nos limites
do imprio, era possvel viajar sozinho sem temer ladres ou bandidos. Os
viajantes das estradas do Velho Mundo apreciavam muitssimo essa segurana.
Enquanto no Sudo imperou um poder forte, os nmades contentaram-se em
tirar proveito dos servios que podiam prestar s caravanas. Quando o poder se
enfraqueceu, provocando a runa das cidades, eles deixaram o deserto e passaram
a rond-las.

      O comrcio do ouro
      No sculo X, o rei de Gana era, segundo Ibn Hawkal,
      o soberano mais rico da terra [...] possui grande riqueza e reservas de ouro, que tem
      sido extrado desde tempos remotos em proveito dos reis que o antecederam e em
      seu prprio benefcio.
    No Sudo, acumular ouro era uma antiga tradio, ao passo que em Gana o
rei tinha o monoplio sobre as pepitas encontradas nas minas:
      Quando so descobertas pepitas de ouro nas minas do pas, o rei reserva-as para si,
      deixando o p de ouro para seus sditos. Se no fizesse isso, o ouro seria abundante
      e se depreciaria [...] Diz-se que o rei possui uma pepita do tamanho de uma grande
      pedra6.
   No entanto os sudaneses sempre mantiveram os muulmanos na mais com-
pleta ignorncia quanto  localizao das minas de ouro e  forma de explor-lo.
O mansa Ms I, sem mentir e fornecendo vrias explicaes, inclusive sobre a
explorao das minas, no deu maiores esclarecimentos aos habitantes do Cairo


5     A datao por carbono-14 situa estes vestgios em 1165  110 (ou seja, entre 1055 e 1275).
6     IBN HAWKAL, in CUOQ, 1975, p. 74. Quanto a esta pepita, herdada pelos mansa, Ibn Khaldn conta
      que um rei de Niani vendeu-a barato para mercadores egpcios. IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p.
      340-7.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                   701



que lhe fizeram perguntas sobre seu fabuloso imprio. Isso explicaria como o
rei do Mali manteve sua reputao de riqueza extraordinria. Pouco mais de
uma gerao aps sua peregrinao, o mansa apareceu segurando na mo sua
pepita de ouro no famoso atlas de Maiorca feito para Carlos V da Frana. Os
maiorquinos s poderiam ter sabido dessa histria pelos muulmanos. Hoje est
praticamente estabelecido que, alm das conhecidas jazidas de Galam, Burem
e Bambuku, o ouro das regies pr-florestais e florestais  atuais Repblicas da
Costa do Marfim, de Gana e da Nigria  alimentava o comrcio setentrional
daquela poca.  sabido que o comrcio de ouro do Mali foi muito importante
na Idade Mdia, mas seria arriscado adiantar estimativas sobre a quantidade do
metal exportada. A generosidade dos mansa leva  suposio de que o montante
de ouro acumulado era considervel. No Sudo, o ouro era tido como "sagrado",
ou, ao menos, dotado de poder misterioso. No pensamento tradicional, apenas
o rei podia dominar o "esprito" do ouro. A mesma concepo prevalecia nas
regies florestais do sul, onde as chefarias possuam muito ouro.

    O sal e outras mercadorias
   O sal teve um papel preponderante no comrcio transaariano, bem como
no de outras regies africanas. Muitos dirigentes da frica ocidental constan-
temente tentaram abaixar seu preo7. Oficiais alfandegrios controlavam rigo-
rosamente as exportaes e importaes de sal. As minas de Teghazza supriam
os mercados do Sudo ocidental; as regies do rio Senegal obtinham sal-gema
em Awlil, mas a distribuio desse sal dificilmente ultrapassava o interior da
curva do Nger.
   Grande parte da renda da coroa provinha da taxao do sal, e isso se manteve
no sculo XIV. Ibn Battta, que visitou Teghazza, nos d informaes precisas:
    Os sudaneses vm at aqui [Teghazza] para se abastecer de sal. O carregamento vem
    de Iwalatan [Walata] ao preo de 8 a 10 mithkl e  vendido na cidade de Malli
    [Niani] por 20 ou 30 e s vezes at 40 mithkl8.
    O sal servia de moeda comercial para os sudaneses, assim como o ouro e a
prata. Cortavam-no em pedaos para negoci-lo. Apesar de o burgo de Teghazza
ser de pouca importncia, ali se comercializava grande quantidade de p de ouro.



7    DEVISSE, 1972, p. 50 et seq., 61 et seq.
8    IBN BATTTA, in CUOQ, 1975, p. 288-90.
702                                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



    O sal era muito caro no Sudo. O preo era quatro vezes maior em Niani
e Walata; provavelmente os povos da floresta pagavam-no ainda mais caro. O
sal-gema cortado em pedaos pequenos servia de brinde ou dinheiro mido para
os comerciantes itinerantes. Da mesma forma, as nozes-de-cola provenientes da
floresta serviam de moeda nos mercados das aldeias. Comea a parecer provvel
que os povos da floresta obtivessem sal por outros meios, como, por exemplo,
pela queima de plantas salferas. O sal tambm vinha da costa, embora em
pequena quantidade9.
      Falta sal no interior do Sudo; alguns indivduos trazem-no em segredo, e as pessoas
      trocam-no por um monte equivalente de ouro10.
    Essa informao do autor rabe no  destituda de fundamento, apesar de
parcialmente exagerada;  fcil imaginar os Wangara ou os Haussa negociando
com seus clientes nas reas da floresta onde iam comprar nozes-de-cola, ouro
e escravos.
    O cobre tambm era artigo importante no comrcio da frica ocidental e
de outras partes do continente. Pesquisas de anos recentes comeam a revelar as
formas mais antigas do comrcio do cobre na frica ocidental11.
    A possesso de uma mina de cobre no sculo XIV ainda tinha grande sig-
nificado econmico, fato que foi demonstrado na "entrevista" do mansa do Mali
ao povo do Cairo, quando ele disse:
      Na cidade de Tigida [Takedda], h uma mina de cobre vermelho, que  expor- tado
      em barras para a cidade de Niani, constituindo uma fonte especial e inigualvel de
      renda. Na verdade, mandamos esse cobre ao Sudo pago, onde o vendemos  razo
      de 1 mithkl de ouro por dois teros do seu peso em ouro12.
    Trata-se de uma preciso extrema. O mithkl sudans pesa aproximadamente
4,25g. Se o cobre era vendido por quase seu peso em ouro, o Mali deve ter-se
beneficiado de um comrcio particularmente lucrativo com as "populaes da
floresta", a que o mansa se refere quando fala no "Sudo pago".



9     DAPPER, 1686, p. 280.
10    AL-`UMAR, in CUOQ, 1975, p. 282.
11    Ver Histria geral da frica, v. 3, captulo 14. Atualmente se reconhece a antiguidade da produo e do
      comrcio do cobre, principalmente na rea do Sahel. Cabe lembrar a importncia das recentes desco-
      bertas no Air relativas  antiguidade da fundio e provavelmente do comrcio de cobre. Ver tambm
      BERNUS, GOULETQUER & KLEINMAN, 1976.
12    AL-`UMAR, in CUOQ, 1975, p. 282.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                        703



   O relato de viagem de Ibn Battta, que passou muitos meses em Niani,
d a impresso de que as cidades do Sahel e do Saara eram organizadas para
servir ao mesmo tempo de pontos de parada e de centros comerciais.  o caso
de Teghazza e de Takedda ("Tigida"), principais centros comerciais do cobre13.
O grande viajante informa-nos que o cobre era moldado em barras grossas ou
finas. As primeiras eram vendidas ao preo de 1 mithkl de ouro por 400 barras,
e as segundas ao preo de 1 mithkl por 600 ou 700 barras. As barras de cobre
eram utilizadas na regio como moeda para a aquisio de madeira, carne, sorgo,
manteiga e trigo. Ibn Battta tambm diz que o povo de Takedda no tinha
"outra ocupao alm do comrcio". Essa gente todo ano viajava para o Egito, de
onde importava todos os tipos de finos tecidos e outros artigos. Os habitantes de
Takedda eram prsperos e gozavam uma vida abastada, tendo grande nmero de
escravos de ambos os sexos. As escravas instrudas s raramente eram vendidas,
e por um preo alto. Ibn Battta teve dificuldades para comprar uma, j que os
que as possuam recusavam-se a vend-las14. Conta que um habitante que con-
cordou em vender-lhe uma delas arrependeu-se tanto que quase "morreu com o
corao partido". Infelizmente no nos relata em que consistia a educao dessas
mulheres escravas, to requisitadas.  muito provvel que fossem procuradas por
seus talentos culinrios ou por sua grande beleza.
   De Takedda, Ibn Battta partiu para Tuat numa grande caravana, com cerca de
600 mulheres escravas. Esse  um dado muito revelador, pois nos informa quantos
escravos uma caravana podia transferir do Sudo para o Magreb, e tambm que o
objetivo do trfico de escravos era fornecer empregados domsticos, s vezes bem
especializados em algumas atividades, para a aristocracia rabo-berbere. Os sobe-
ranos sudaneses tambm importavam escravos, sobretudo do Cairo, para formar
sua guarda pessoal. Quando o mansa sentava no trono em praa pblica,
     atrs dele postam-se cerca de 30 mercenrios [mamelucos] turcos ou no, comprados para
     ele no Cairo. Um deles segura um guarda-sol de seda encimado por uma cpula e um
     pssaro dourado representando um gavio15.
Para os soberanos e a aristocracia, o que contava era ter uma comitiva bem
dotada e leal.
   Alguns autores tentaram atribuir importncia injustificada  exportao de
escravos para os pases rabes. No perodo ora estudado, esse comrcio no


13   IBN BATTTA, in CUOQ, 1975, p. 295.
14   Ibid., p. 318. Quanto ao cobre de Takedda, ver BERNUS & GOULETQUER, 1976.
15   AL-`UMAR, in CUOQ, 1975, p. 269.
704                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



constitua uma hemorragia, pois o que mais interessava aos rabes no Sudo era
o ouro, cuja necessidade para cunhagem se fazia urgente ao redor do Mediter-
rneo. Raymond Mauny arriscou uma estimativa do nmero de escravos negros
exportados para o norte da ordem de 20 mil por ano, ou 2 milhes por sculo16.
Os rabo-berberes no tinham tanta necessidade de mo de obra para uma
demanda to grande.  importante lembrar o famoso tratado, referido como o
bakt, assinado pelos dirigentes do Egito e pelos reis da Nbia. Estipulava ele
que o rei da Nbia deveria mandar 442 escravos anualmente para o Cairo, assim
distribudos: 365 para o tesouro pblico, 40 para o governador do Cairo, 20 para
seu delegado em Aswan (Assu), 5 para o juiz de Aswan e 12 para os 12 notrios
da cidade. O tributo exigido pelo sulto do Cairo prova que as necessidades da
corte no eram enormes.
   O trfico transaariano de escravos, se foi permanente do sculo VIII ao
XVI, nunca ultrapassou certo limite. Para alimentar esse comrcio, os sobera-
nos guerreavam com o sul, preferindo poupar as reservas disponveis em seus
Estados.
   Os rabo-berberes no s procuravam ouro, como tambm marfim. As presas
de elefantes africanos eram muito valorizadas na Arbia e na ndia por serem
mais moles e, portanto, mais fceis de esculpir do que as dos elefantes da sia,
extremamente duras17. O Sudo tambm vendia peles, nix, couro e cereais
para os osis do Saara. No sculo XIV, quando do apogeu do Mali, a rota mais
frequentada era a que foi utilizada por Ibn Battta; uma outra rota, bastante
usada pelos peregrinos do Mali, ia de Tombuctu a Kayrawn (Kairuan), pas-
sando por Wargla.
   Nas cidades do Magreb, bem como em Ghadames e no Egito, havia dinastias
de comerciantes ricos, verdadeiros "armadores", que carregavam as caravanas
transaarianas. Um exemplo notvel  o dos irmos al-Makkar, de Tlemcen, que
elaboraram criteriosa diviso de trabalho: dois deles ficavam em Tlemcen, um
em Sidjilmasa e dois outros no Sudo, tendo conseguido criar uma vasta rede
comercial sob a proteo dos mansa do Mali.
      O de Tlemcen despachava a seu irmo saariano as mercadorias por ele requisitadas, e o
      saariano lhe enviava peles, marfim, nozes-de-cola e ouro em p. O de Sidjilmasa, como
      a agulha de uma balana, informava-lhes as tendncias de subidas e quedas dos preos e




16    MAUNY, 1961.
17    SHAW, T., 1970, v. 2, p. 272-85.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                        705



     escrevia-lhes sobre a situao dos vrios comerciantes e sobre os acontecimentos locais.
     E assim crescia sua riqueza, e sua situao melhorava consideravelmente18.
   Os irmos al-Makkar constituam, assim, verdadeira corporao em Tlemcen,
com filiais em Sidjilmasa e Walata, e com rede de informao e intermedirios pr-
prios. Provavelmente os mercadores manden (mandingo) e haussa organizavam seus
negcios e casas de comrcio da mesma forma, em suas relaes com os centros
comerciais da savana e da floresta19.
    bem provvel que o papel das comunidades judaicas nesse comrcio tenha
sido muito importante. A pesquisa de T. Lewicki revelou a participao dos
judeus de Tuat j desde os sculos VIII e IX20. Deve-se acreditar no Ta'rkh
al-fattsh quando menciona fazendeiros judeus na regio de Tendirma, no
Nger? Em todo caso, h muitas referncias a judeus: no incio do sculo XVI,
o portugus Valentim Fernandes fala dos "judeus" ricos, mas oprimidos, de
Walata21.
   No sculo XV, com a ofensiva da Reconquista, os cristos estabeleceram-se
no Magreb. Muitos comerciantes italianos foram atrados para o Sudo, pois sua
riqueza em ouro tornara-se lendria. Benedetto Dei, viajante e escrivo floren-
tino, afirma ter errado pela regio at Tombuctu entre 1469 e 147022. O genovs
Antonio Malfante  conhecido pela famosa carta que enviou do Tuat a sua casa
comercial em Gnova. Malfante visitou o Tuat e recolheu valiosas informaes
sobre o Sudo nigeriano e sobre o Tuat enquanto encruzilhada de comrcio23.
Mas o contato direto entre a Europa e o Sudo deu-se pelo Atlntico, no sculo
XV, com os navegadores portugueses.
   Ibn Khaldn nos informa que havia caravanas de 12 mil camelos indo do
Sudo ao Egito24. A travessia do Saara em linha reta era difcil devido s tem-
pestades de areia na diagonal NgerNilo; assim, era raro as caravanas irem
diretamente para o Egito. Nas rotas normais do Nger ao Magreb, as caravanas
tinham em mdia mil camelos.


18   IBN AL-KHATB, in CUOQ, 1975, p. 324-6.
19   Os socilogos hoje podem constatar a existncia de grupos e associaes familiares entre os Maninka, os
     Hal Pulaar, os Haussa e os Soninke. Irmos e primos sediados em Dakar, Bamako, Abidjan, Acra, Kumasi,
     Kano e Lagos dividem o controle do comrcio de nozes-de-cola, tecidos e muitos outros artigos.
20   LA RONCIRE, C. de, 1924-1927, v. 1, p. 143-59.
21   FERNANDES, 1951, p. 85; LEWICKI, 1967; MONTEIL, C., 1951, p. 265-98.
22   LA RONCIERE, C. de, 1924-1927, v. 1, p. 143-59.
23   MAUNY, 1961, p. 50-2; DIOP, 1960.
24   IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 349.
706                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



      A difuso de ideias e tcnicas
     Como resultado do comrcio transaariano, muitos rabo-berberes se esta-
beleceram nas cidades do Sudo  Walata, Niani, Tombuctu e Gao, entre outras25;
a maioria dessas cidades tinha um bairro rabe. Os casamentos criavam laos de
parentesco que os genealogistas sudaneses adoram deslindar. Os historiadores
ainda discutem se foi pelo contato com os rabo-berberes que se introduziu a
filiao patrilinear no Sudo. Na poca do Imprio de Gana, a sucesso ao trono
no era por linha direta, mas colateral; o herdeiro era sempre o sobrinho do rei (o
filho de sua irm). Foi difcil para o Mali do sculo XV aceitar a sucesso direta
(de pai para filho)26. A influncia muulmana no foi um fator decisivo nesse caso
em particular. Se examinarmos as regies florestais do sul, vamos encontrar dois
tipos de descendncia, e  difcil falar de influncia islmica no Congo a essa poca.
     A islamizao da frica negra nesse perodo no se deu pela violncia, mas
pacificamente, pela influncia dos comerciantes rabo-berberes, os Wangara e os
Haussa. Alm do episdio belicoso dos Almorvidas, houve poucas guerras com
o objetivo de propagar o islamismo. A nova religio levava em conta as antigas
prticas das sociedades tradicionais; mas Ibn Battta admirou a devoo dos
muulmanos negros, sua assiduidade s oraes e sua fidelidade ao culto coletivo,
obrigando mesmo seus filhos a seguirem seu exemplo. Os Wangara, sempre
indo de aldeia em aldeia, construram mesquitas em vrios centros comerciais,
como marcos, ao longo das rotas das nozes-de-cola. Em virtude da tolerncia
tradicional dos negros, podiam orar at nas aldeias pags.
     Na cidade, o rabe tornou-se a lngua dos letrados e cortesos; segundo
al-`Umar, o mansa Ms I falava corretamente o rabe; este governante pode
ser considerado o responsvel pela introduo da cultura muulmana no Mali27.
     Nasceu uma literatura africana de expresso rabe, que floresceu na curva do
Nger, principalmente no sculo XVI, sob os askiyas. Do sculo XIV ao XVI,
houve intercmbios constantes entre as Universidades do Sudo e do Magreb.
No sculo XIV, porm, o Cairo foi o grande centro de atrao para os sudaneses;
situado na rota de peregrinao, tinha muitos habitantes negro28.


25    IBN BATTA, in CUOQ, 1975, p. 312-23.
26    Ver captulo 6 deste volume.
27    Foi aparentemente durante o reinado do mansa Ms I que ocorreu a diviso entre os Maninka (Malinke)
      e os Bambara. Os ltimos, recusando-se a aceitar o Isl, criaram a sociedade secreta do "komo", em reao
       poltica imperial. Os Bambara (Ban-ma-na) so "os que rejeitaram os mansa".
28    IBN KHALDN, in CUOQ, 1975. Ibn Khaldn, o clebre historiador rabe, em geral obtinha suas
      informaes de um literato do Mali que vivia no Cairo.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                              707



   Os soberanos do Sudo rodeavam-se de juristas e conselheiros rabes, que, em
sua maioria, seguiam o culto maliquita. No entanto, no sculo XIV, Ibn Battta
menciona a existncia de caridjitas brancos entre os Diafununke do Mali29.
   O papel cultural e econmico dos muulmanos foi mais notvel no sul do
Saara. Ao voltar de sua peregrinao, o mansa Ms I trouxe em sua comitiva
escritores e um arquiteto que empregou para construir a famosa sala de audincia,
onde Ibn Battta foi recebido em 1353 pelo mansa Solimo, irmo e sucessor
de Ms I30.


     As relaes entre o Chade e o Mediterrneo
    Ao estudar as relaes entre a frica ao sul do Saara e o Mediterrneo, os
historiadores concentraram-se particularmente no Sudo ocidental, devido s
numerosas fontes naquela parte do continente. Muitos viajantes rabes, entre
os quais Ibn Hawkal e Ibn Battta, foram ao Sudo pelas rotas ocidentais. No
entanto o Sudo central e os pases da bacia do lago Chade tambm estabele-
ceram relaes ativas com o Magreb, a Lbia e o Egito. Durante o perodo que
estudamos, nessa regio encontravam-se grandes conglomerados polticos, como
o reino do Kanem-Bornu, enquanto as cidades haussa conduziam um comrcio
florescente entre o lago Chade e o Nger31.
    No sculo XIV, o reino do Kanem estendia-se de Fezzn, ao norte, a Wadai,
a leste. A poltica dos soberanos do Kanem era de abertura para o norte, a cujos
reis enviavam embaixadas com ricos presentes32. Havia muitas rotas importantes
do Chade para o norte. A primeira era a do Kanem para o Egito; ia do lago
Chade ao Fezzn, aps cruzar Kawr e suas minas de sal; depois de Zawla, no
Fezzn, a rota cruzava os osis lbios (sokna) e alcanava o Cairo margeando a
costa. A segunda rota, procedente do lago, passava por Bilma, indo para leste
atravs do Tibesti, onde se exploravam pedras preciosas no sculo XV, para
alcanar Aswan e finalmente o Cairo. A terceira rota saa do Kanem para Ght
e Ghadames; dali, um ramo ia para Tnis e outro para Trpoli. Essas rotas eram
to frequentadas quanto as ocidentais. Foram mais movimentadas nos sculos


29   IBN BATTA, in CUOQ, 1975, p. 311.
30   IBN KHALDN, in CUOQ, 1975, p. 347-8.
31   Ver captulos 10 e 11 deste volume.
32   Em 1391, Mai Ab `Amr `Uthmn ben Idrs, sulto do Bornu, mantinha correspondncia com o sulto
     Barkk. Ver captulo 10 deste volume.
708                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



XV e XVI com a ascenso das cidades haussa e do Bornu, mas, quando grupos
rabes se estabeleceram no Darfr para iniciar o trfico de escravos, as relaes
comerciais deterioraram-se.
    Nas regies entre o Nger e o lago Chade e nos arredores do lago, os principais
itens de exportao eram o couro, os escravos e as presas de elefante. Os Haussa
foram os animadores do comrcio no Sudo central, onde atuavam como inter-
medirios entre a savana e a floresta, como os Manden (Mandingo) no oeste. 
bem possvel que os Haussa muito cedo tenham estabelecido relaes comerciais
com os reinos e cidades do delta do Nger: Oyo, Ife, Benin e at Igbo-Ikwu; cada
vez mais pesquisadores acreditam que grande parte do cobre usado tanto em
Ife como em Igbo-Ikwu vinha do Sahel (Takedda). Thurstan Shaw, que con-
duziu as primeiras escavaes em Igbo-Ikwu, levanta a hiptese de um comrcio
intenso entre o delta e a savana33. Em todo caso, os Haussa estavam envolvidos
no comrcio de longa distncia nessas regies. Zaria, a cidade mais meridional,
era a cabea de ponte em direo s regies florestais.


      A savana e a floresta
   At h pouco tempo, a floresta era considerada meio hostil para todas as for-
mas de estabelecimento humano; particularmente densa, a floresta equatorial era
descrita como uma barreira semelhante ao Saara, seno mais hostil. Agora se sabe
que a floresta no deteve nem os povos em migrao nem as tcnicas e ideias.

      frica ocidental
    Os gegrafos rabes, inclusive Ibn Sa`d e Ibn Khaldn, achavam que o
deserto comeava ao sul da savana34. Os povos da savana, que poderiam ter escla-
recido os rabes, preferiram calar-se sobre a regio que fornecia grande quanti-
dade do ouro negociado nas cidades sudanesas; entretanto o mansa Ms I deixou
bem claro no Cairo que tinha grandes lucros com o cobre que explorava. O cobre
do Mali era trocado nas regies florestais por ouro, marfim, nozes-de-cola e tambm
escravos. Esse comrcio entre os imprios do Sudo e a floresta meridional comea a
ser objeto de srios estudos. Rotas comerciais atravessavam a floresta em todas as
direes; torna-se cada vez mais claro pelas pesquisas arqueolgicas, lingusticas

33    SHAW, T., 1970, p. 279-83; e 1973, p. 233-8. A grande quantidade de objetos de cobre em Igbo-Ikwu
      levanta um problema, pois no h minas de cobre na rea; a mina mais prxima  a de Takedda.
34    "As regies equatoriais e mais meridionais no so habitadas." IBN KHALDN, 1967-1968, p. 100.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                         709



e antropolgicas que, no passado, a savana e a floresta complementavam-se. Os
povos da floresta designam os Manden (Mandingo) como Jula (Costa do Mar-
fim) ou Wangara (Gana), os dois termos significando "comerciante". As rotas
de nozes-de-cola eram salpicadas de cidades, habitadas parcial ou totalmente
por Jula ou Haussa.  muito provvel que os Mandingo j tivessem estabelecido
contato com os povos da floresta antes do sculo XIV. Os reinos de Kongo e de
Begho, localizados na savana arborizada, eram postos avanados dos mercados
de nozes-de-cola e de ouro das regies florestais35. A floresta  descontnua ao
redor do golfo da Guin; nas Repblicas de Gana e da Nigria amplas clareiras
se abrem em toda a sua extenso, do norte ao oceano Atlntico. Nessas reas,
os contatos com o Sudo eram mais fceis e mais constantes. Os comerciantes
wangara e haussa tinham alcanado, j nessa poca, o territrio ashanti e tam-
bm o yoruba, passando pelo Bono Manso.
    Nesse caso tambm, no nos  possvel precisar a quantidade de mercadorias
vindas da savana, nem o quanto era mandado das regies florestais ao Sudo. No
entanto, at recentemente, os Mandingo e os Haussa costumavam vender contas,
sal, mbar, bacias de cobre e peixe defumado ou seco de Djenn e Mopti nas fei-
ras das aldeias florestais. A floresta da frica ocidental no  densa, podendo ser
facilmente penetrada; os Wangara percorriam-na em suas caravanas de jumentos.
Mas era mais frequente o estabelecimento dos Wangara e Haussa em grandes
aldeias nas bordas da floresta; havia outros povos, intermedirios entre eles e o
extremo sul, que tinham o monoplio do comrcio de nozes-de-cola.
    As nozes-de-cola tinham importante papel, que mantm ainda hoje, na
vida social do oeste africano. So encontradas at no Congo, como observou F.
Pigafetta36. Seu comrcio envolvia vrios grupos tnicos. Apesar de ainda no
conhecermos o mecanismo dessa atividade, a descrio de Zunon Gnobo 
bastante sugestiva; relata que a zona das nozes-de-cola era dividida em setores
de acordo com a qualidade da fruta.
     Ao norte, a savana arborizada, pobre em cola; ao sul, os setores de Gbalo, Bogube,
     Yokolo, Nekedi, Ndri, que se destacavam pela qualidade de sua cola. Era o ponto
     de convergncia dos circuitos nortesul e dos do interior do Bete. O anteparo guro


35   As tradies orais dizem que a cidade de Kong data da poca de Sundiata. No entanto as escavaes
     arqueolgicas em curso no stio no confirmam este dado. Assim como o trabalho de Thurstan Shaw,
     tambm as pesquisas conjuntas das universidades de Abidjan e Acra sobre os povos comuns aos dois
     Estados mostram a antiguidade das relaes savana-floresta. Shaw, especialista em bronzes de Igbo-Ikwu,
     acredita que o comrcio de cobre entre a savana e a floresta pode datar dos sculos IX e X. Ver SHAW,
     T., 1970, p. 268-70.
36   PIGAFETTA & LOPES, 1881.
                                                                                            710
                                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 25.1   Mapa da circulao de homens e tcnicas na frica ocidental. ( J. Devisse.)
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                       711



     impedia relaes comerciais diretas entre os Jula e os Zebuo. Estes comerciantes
     malinke s podiam alcanar os mercados guro, onde se abasteciam com a cola do
     sul. Os fornecedores guro desciam para encontrar as mulheres zebuo, que colhiam
     a cola nas reas das etnias bete e guro do sul37.
    De todo modo, estamos diante de um comrcio muito antigo entre a savana e a
floresta; os Mandingo estavam mais interessados no ouro do que nas nozes-de-cola;
foi a procura desse artigo que os levou a criar pontos de parada na savana arborizada,
que mais tarde se tornaram grandes centros comerciais38. O ouro era abundante nas
regies meridionais; as pesquisas aos poucos nos permitem descobrir os circuitos
do ouro dessas regies39.
    A floresta, portanto, no constituiu barreira, mas atuou como filtro das cor-
rentes econmicas, ideias e tcnicas (ver fig. 25.1). Nota-se tambm, pelo estudo
das tradies orais, que muitos povos da floresta eram originrios da savana; as
correntes de comrcio tm antiguidade remota. Deve-se observar que muitos
povos da savana reconheciam a superioridade, seno a profundidade, do conheci-
mento das populaes florestais no campo da farmacopeia e no da arte esotrica
da linguagem dos tambores.
    A parte setentrional da floresta tropical sofreu constantes invases de agri-
cultores; recuou tambm em muitas frentes nas Repblicas da Guin, da Costa
do Marfim, da Libria e de Gana. Na Repblica Federal da Nigria, as prin-
cipais rotas de comunicao iam de Nupe ao delta, onde, em vrias localidades
em que a populao procedeu a desmatamentos, abrindo clareiras, floresceram
e cresceram as cidades yoruba.

     A frica oriental e central
   Ainda hoje numerosas questes se colocam para as pesquisas. Pergunta-se,
por exemplo, como eram coletados os produtos exportados das regies litorneas
ao mundo muulmano e  sia, que tipo de organizao existiu nesses sculos
para o comrcio de marfim ou de peles de animais selvagens, cuja importncia
nos perodos mais remotos e nos mais recentes conhecemos, mas dele pouco
sabemos no que diz respeito ao perodo aqui estudado. Havia redes de transporte

37   ZUNON GNOBO, 1976, p. 79.
38   Localizada no noroeste da Repblica de Gana, Begho foi, desde o sculo XIV, ponto central do comrcio
     das bordas da floresta. Estava ligada a Djenn e ao alto rio j no sculo XII. Uma importante colnia
     maninka ali vivia e tambm se encontravam comerciantes haussa.
39   No momento, as informaes de que dispomos so de pocas tardias. Os reinos dos Baule e dos Akan
     dificilmente remontam a perodo anterior ao sculo XVII.
712                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



regulares para tais produtos? Por quais intermedirios passavam? Que artigos
iam, em troca, da costa oriental para o interior do continente? Sendo possvel
estabelecer comparaes com a frica ocidental, onde h evidncia dessas impor-
taes, pode-se perguntar que parte das importaes de tecidos realizadas pelos
centros comerciais costeiros era redistribuda no interior40.
    Seria til saber a quantidade de cauris desembarcada anualmente na costa e
sua destinao41. At agora, fora do Zimbbue, poucos traos foram encontrados
dos artigos de luxo que chegavam aos portos do oceano ndico. Isso significaria
que nada era vendido ou dado aos povos do interior, ou que as pesquisas ainda
no nos permitiram encontrar tais evidncias?
    Pelo menos, podem-se distinguir nitidamente algumas correntes comerciais
pelo interior, da Etipia ao Zambeze. Um exemplo  o do comrcio do sal. Vimos
acima a importncia dos vrios tipos de sal no comrcio transaariano. Todos os
tipos de produo, de Idjil a Bilma, de Taudeni ao Air, competiam para suprir
a frica de sal42. Alm desses exemplos bem conhecidos, j estudados, quantos
pontos de explorao de sal, pela coleta de eflorescncias superficiais ou pela
explorao de pequenos lagos interiores, tiveram papel mais obscuro, mas ainda
mais duradouro? O sal de Danakil era um dos produtos das exportaes axumitas
desde os sculos III e IV da era crist43;  muito improvvel que no o fosse nos
sculos seguintes. Embora a produo desse sal provavelmente nunca tenha adqui-
rido maiores propores44,  bem possvel que o produto tenha sido distribudo ao
menos pelas regies vizinhas durante os sculos que nos concernem.
    Tambm seria til estudar as formas antigas  muito provveis  de explorao
do sal na costa sul da Repblica Democrtica da Somlia e no norte da Repblica
do Qunia at a ilha de Patta. Segundo V. L. Grotanelli, l foram encontrados
muitos depsitos de sal marinho, cuja explorao por coleta era realizada por
mulheres e crianas45. Tambm havia grandes concentraes de sal-gema, que
parece ter sido objeto de comrcio.
    As fontes escritas raramente mencionam esses fatos, que, no entanto, so
essenciais. Quando por acaso o fazem, a referncia  pouco explorada. Vasco da

40    Ver VRIN, 1975, p. 77.
41    Evidncias arqueolgicas de sua penetrao foram encontradas nas Repblicas de Zmbia e do Zaire
      meridional.
42    Quanto ao sal do Air, ver BERNUS & GOULETQUER, 1976, p. 53-65; BERNUS, GOULETQUER,
      KLEINMAN, 1976; HUGOT & BRUGGMAN, 1976, p. 129 et seq.
43 GERSTER, 1974, p. 197-210.
44    A produo dos anos 1964-1966 foi estimada em apenas 10 t anuais. Ver WOLDE-MARIAM, 1970.
45    GROTANELLI, 1965, p. 92.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                    713




Figura 25.2 Mapa da frica central, oriental e meridional do sculo XI ao XV. Produes que alimentavam
um comrcio relativamente de longa distncia. ( J. Devisse.)
714                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



Gama, por exemplo, explica no relato de sua primeira viagem que os africanos
com os quais seus homens tiveram contato no sul do continente carregavam
cabaas com gua do mar para obter sal por evaporao. H muitas evidncias de
que mtodos de produo de sal semelhantes existiam h muito tempo na costa
atlntica, pelo menos ao redor do golfo da Guin, mas no houve um estudo
sistemtico para fundamentar esta informao precisamente datada por Vasco da
Gama. Na mesma passagem, o navegador conta que os homens portavam lanas
de ferro e adagas com cabo de marfim; mas tambm essas informaes, de grande
significado para a histria do transporte do ferro e do marfim, nunca foram
exploradas. Aqui est pelo menos um caso tpico em que parece indispensvel o
recurso s tradies orais relativas aos intercmbios comerciais. De fato, as tradi-
es orais nos permitem, com frequncia, voltar muitos sculos no passado.
    As informaes so maiores sobre a minerao de sal no sul da Repblica
Unida da Tanznia46. As minas de sal de Uvinza no sudeste do pas, ainda hoje
exploradas, estendem-se por mais de 15 km. A primeira pesquisa arqueolgica
revelou que em Uvinza havia intensa atividade de preparao e comercializao
do sal antes de 1500. Foram encontrados recipientes onde se produzia sal por
evaporao, atravs da fervura. A datao por carbono-14 indica que a minera-
o comeou por volta do sculo V ou VI da era crist e que teve continuidade.
Em Ivuna, na mesma rea,  certo que o sal foi produzido do sculo XIII ao
sculo XV (ver fig. 25.2).
    Os pesquisadores concordam com que o sal era exportado para regies dis-
tantes e que permitiu um comrcio regular. Pesquisas semelhantes deveriam ser
feitas mais ao norte, em salinas menos importantes  em Saja, a 230 km ao norte
de Ivuna; em Uganda, em Kabiro; e tambm na Repblica de Zmbia, visando as
fontes de sal de Bazang, que parecem ter sido exploradas desde tempos remotos.
Experincia extremamente interessante foi feita recentemente no Burundi, na
regio do Kumozo47: foi extrado sal de plantas halfilas bem conhecidas dos
detentores da tradio oral, que trazem na memria as tcnicas de fabricao
desse sal de origem vegetal. Parece bastante razovel supor que para muitas
regies da frica oriental a produo de sal de origem vegetal, proibida pelos
colonizadores europeus, foi por muito tempo importante fonte de sdio. No
Reino do Kongo, o sal era monoplio real. So necessrios estudos sobre os
depsitos de sal de Mpinda, perto do esturio do Zaire (Congo), e de Ambriz,
no norte da Repblica Popular de Angola (ver fig. 25.2).

46    FAGAN & YELLEN, 1968; SUTTON & ROBERTS, 1968.
47    NDORICIMPA et al., 1981.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                715



    Com o progresso das pesquisas, poderemos descobrir como o comrcio de mdia
e de longa distncia, alm das ddivas e dos intercmbios locais, garantiam a circu-
lao de valiosos bovinos pela frica oriental. Tambm seria interessante pesquisar,
nessa rea, a circulao de pedras preciosas, objeto de comrcio florescente48. Seria
interessante ainda tentar levantar os vrios tipos de "moeda" que vieram facilitar
as atividades de troca, as quais, de antemo, consideramos intensas e bastante
difundidas; o exemplo das conchas do Kongo, cuja produo era monoplio real
quando da chegada dos portugueses, no  provavelmente nico.
    A densa floresta equatorial, por muito tempo considerada impenetrvel, bar-
reira intransponvel, no impediu as relaes entre as savanas setentrionais e meri-
dionais, principalmente onde as mudanas climticas e o trabalho do homem
abriram grandes brechas. Em seu estudo sobre sinos  uma das prerrogativas dos
reis da savana , Jan Vansina mostrou que estes cruzavam a floresta equatorial de
norte a sul. Assim, foram encontrados sinos em Ife e, bem mais tarde, aps 1400,
no Zimbbue49. Os especialistas em mensagens usavam os sinos para reprodu-
zir os tons do discurso oral. Pesquisas ulteriores revelaram que os punhais de
arremesso foram transmitidos aos povos meridionais pelos do norte atravs da
grande floresta equatorial. Enfim, tcnicas, objetos e ideias puderam cruzar a
floresta do norte para o sul e do sul para o norte. Os povos migravam em todas
as direes sem que a floresta impedisse esses movimentos.
    Nas regies florestais, os rios constituam eixos de circulao permanente;
apesar de cada grande setor ser controlado por grupos tnicos coesos e domi-
nadores, as vias fluviais contriburam em grande parte, graas aos pescadores,
para a difuso de tcnicas e ideias.
    Na costa atlntica, da desembocadura do rio Zaire (Congo) at a Repblica
Popular de Angola, as populaes locais dedicavam-se  cabotagem; especialistas
acham que algumas influncias se difundiram pelo mar. Assim, segundo J. Vansina,
as estatuetas policrmicas encontradas na rea que vai da Repblica Federal da
Nigria at a Repblica Popular de Angola testemunhariam a disseminao por
mar de determinada tcnica. De fato,  bem possvel que o trfego martimo
tenha sido bem mais ativo do que se pensa hoje.
     lamentvel que, apesar de tantas discusses tericas sobre a economia e
a sociedade africanas antigas, haja to poucos trabalhos em conjunto consa-
grados  pesquisa das formas, tcnicas e valores das produes antigas e de sua


48   Um exemplo de pesquisa na frica ocidental  dado por LEWICKI, 1967. Outro exemplo, relativo 
     importncia das joias como fora propulsora do comrcio, est em VRIN, 1975, p. 73.
49   VANSINA, 1969. Ver captulo 22 deste volume.
716                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



comercializao  embora seja evidente a importncia dos resultados de cada
pesquisa. Quantos preconceitos relativos  "imobilidade" das sociedades afri-
canas no que concerne ao desenvolvimento e  inovao seriam eliminados se,
ao invs de se usarem como ponto de referncia os sculos de contato com os
europeus, durante os quais a frica foi oprimida pelos efeitos socioeconmicos
do trfico de escravos, fosse feito um srio esforo no sentido de explorar o
perodo que ora estudamos, do qual, paradoxalmente, no conhecemos nem as
estruturas polticas nem as formas da vida econmica e social. Nesse aspecto,
o campo aberto para a pesquisa  imenso, mas praticamente inexplorado, afora
o trabalho de um pequeno grupo de arquelogos. No entanto  esta frica
que devia ser conhecida, atravs de suas estruturas sociopolticas, no sentido
de estabelecer uma sociedade nova, profundamente enraizada nos valores de
sua civilizao.


      O cobre e o ouro, bases dos intercmbios
      na frica meridional
    Hoje sabemos com certeza que a explorao do cobre em algumas regies
da frica meridional comeou nos primeiros sculos da era crist50. O metal
era extrado principalmente de stios de Shaba, no noroeste da atual Repblica
de Zmbia, no planalto central do Zimbbue e, em menor escala, no alto Lim-
popo. As descobertas arqueolgicas e as dataes obtidas nos ltimos anos no
deixam dvidas a respeito do comrcio de longa distncia de barras, cruzetas
ou ligas de cobre.
    O primeiro nome que os portugueses deram ao Limpopo, quando comearam
a explor-lo, foi "rio do cobre"; a necessidade de encontrar minas de cobre a qual-
quer preo para se libertar da dependncia dos produtores europeus do metal e
a importncia, em termos quantitativos, de suas exportaes de cobre a partir do
final do sculo XV para a frica, onde a demanda era grande, explicam por que
a perspectiva de encontrar cobre na frica meridional era to atraente.
    H numerosas evidncias de que, por muito tempo, o cobre tambm foi
bastante apreciado pelos africanos51. Primeiramente era usado como joia: muito



50    Ver v. 2, captulos 25 e 27; v. 3, captulo 23; e captulo 22 deste volume.
51    A partir do sculo IX da era crist, o cobre trabalhado era um produto importante do comrcio muulmano
      com a frica negra.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                                                             717



cedo, o Compndio de maravilhas52 observou que as mulheres dos negros usavam
"argolas de cobre nos pulsos e orelhas" e que enfeitavam seus cabelos "com aros
de cobre e com conchas". Provavelmente devemos pensar em termos de joias de
cobre quando Ibn Battta53 descreve o povo que ocasionalmente vinha  corte do
mansa "usando grandes brincos de meio palmo de largura". O uso comum do cobre
e de suas ligas como marca de prestgio poltico em vrias regies do continente ,
provavelmente, tambm muito antigo. Estes fatos bastam para nos convencer de
que havia um comrcio de longa distncia desse "metal semiprecioso" 54. No se
pode tambm descartar a ideia de que as cruzetas de cobre podem ter servido de
moeda na frica meridional, da mesma forma que as pequenas barras de cobre
produzidas em Takedda, de que fala Ibn Battta55.
    Ao sul da floresta equatorial, na savana arborizada, as riquezas minerais de
Shaba provavelmente atraram inmeros povos. No h dvida de que foi ali
que se desenvolveu a tcnica de trabalhar metais ferrosos e no ferrosos. Como
consequncia, o comrcio de longa distncia expandiu-se rapidamente naquela
regio. Os reinos luba e o imprio lunda floresceram na rea de Shaba antes de
1500. Estudos sobre as lnguas e as migraes de populaes, a anlise dos mitos
de origem e do sistema de parentesco j possibilitam ter ideia dos problemas
socioculturais da regio56. Parece cada vez mais claro que os homens viajavam
em todas as direes, tanto na floresta como na savana. Essa pesquisa revela que
Shaba foi um polo cultural de onde partiram vastas correntes de intercmbio; a
influncia luba se fez sentir at nas provncias do Zambeze57.
    J no sculo X, al-Mas`d fala do lugar que o ouro ocupava na frica meri-
dional nestes termos:
     Os limites do mar de Zanguebar situam-se nos territrios de Sofala e de al-Wakwak,
     terras que produzem ouro em abundncia58.




52   I. BEN WASIF SAH, s.d.
53   IBN BATTTA, in CUOQ, 1975, p. 313.
54   Para um exemplo de joias de cobre achadas em tmulos, ver VOGEL, 1971, p. 99.
55   IBN BATTTA, in CUOQ, 1975, p. 718.
56   Ver captulo 22 deste volume.
57   Muitos autores consideram as tradies orais dessas regies (luba-lunda) como desenvolvimentos literrios
     ou amplificaes das lendas para legitimar o status quo no sculo XIV. Seria mais cientfico proceder a uma
     anlise mais aprofundada. Ver WILSON, A., 1976.
58   AL-MAS`D, 1965, v. 2, p. 322-3.
718                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



O texto  suficiente para mostrar que j no sculo X os muulmanos tinham
conhecimento do ouro da frica meridional, que ento era explorado e prova-
velmente exportado.
    Mais uma vez a arqueologia confirma e esclarece as fontes escritas. Apesar de
suas concluses serem discutveis,  difcil contestar a qualidade das informaes
bsicas, cronolgicas e quantitativas de R. Summers relativas  explorao do
ouro no planalto dos Shona59. O exame sistemtico dos vestgios de minerao,
das sondagens e das dataes permitiu que o autor traasse mapas precisos. A
minerao parece ter comeado por volta do sculo VII, imediatamente ao sul
do Zambeze, no vale do Mazoe, e ter-se expandido entre os sculos IX e XI
por todo o planalto, de onde alcanou a regio do Limpopo somente no sculo
XV. De acordo com R. Summers, a maior parte das exportaes ia para a costa
atravs do vale do Sabi em direo a Sofala; mas os dois outros eixos desse
comrcio passavam pelo Zambeze e pelo Limpopo (ver fig. 25.2). W. G. L.
Randles, que seguiu em larga medida as concluses de R. Summers, acredita,
como muitos outros historiadores, que a prosperidade do Zimbbue nos sculos
XIV e XV pode ser explicada pela concentrao do comrcio no Sabi nas mos
de uma minoria rica, e que as profundas transformaes na navegao no Sabi
aps o sculo XV explicariam a decadncia do comrcio atravs do Zimbbue
e o enfraquecimento de Sofala60.
    No convm, portanto, como  frequente, ligar a explorao e o comrcio
do ouro ao destino do Zimbbue apenas. Como na frica ocidental, onde as
rivalidades pelo controle da produo e da exportao do ouro explicam muitos
pontos da histria do sculo X ao XV,  provvel que o ouro do sul alcanasse
seus compradores muulmanos por diversas vias, apesar dos esforos dos diri-
gentes do Zimbbue para estabelecer o monoplio, principalmente nos sculos
XIV e XV.
    Qualquer que seja o caso, e mesmo devendo considerar com reservas as
estimativas de R. Summers quanto  produo de ouro a partir do sculo XI de
aproximadamente 9 a 10 t por ano,  preciso admitir que o ouro do sul alcan-
ou o norte mais cedo do que acredita a maioria dos historiadores, interessados
exclusivamente no destino de Kilwa e na cunhagem do metal precioso. Esse ouro
j tinha provavelmente papel importante no comrcio africano no sculo XI.
    Os navegantes muulmanos praticavam a cabotagem at Sofala j nessa
poca; ela s foi interrompida com a chegada dos portugueses, apesar de as

59    SUMMERS, 1969.
60    RANDLES, 1975, p. 14 et seq.
Relaes e intercmbios entre as vrias regies                              719



rivalidades entre as cidades costeiras terem-na tornado talvez mais difcil. A
cabotagem, que chegava a den, gerou correntes de exportao dos produtos
do interior da frica para os mundos muulmanos, indiano e chins e criou
estaleiros, sobre os quais no sabemos praticamente nada.
    Apesar de a extenso do comrcio do ouro no sculo XI ser discutvel, nin-
gum questiona sua importncia nos sculos XIII e XIV. As estimativas de
seu volume quando da chegada dos portugueses a Sofala permitem pensar que,
durante esses sculos, muitos milhares de toneladas de ouro viajavam todo ano do
sul para o norte. Escavaes no bairro fortificado do Grande Zimbbue, infeliz-
mente conhecido como Acrpole, revelaram os locais onde se fundia o precioso
metal;  provvel que o ouro tambm fosse refinado antes de ser exportado.
    Nos sculos XIV e XV, o ouro teve papel predominante entre as mercadorias
exportadas do planalto dos Shona e entre os produtos vendidos para a aristocra-
cia governante do Zimbbue. No entanto atualmente a maioria dos historiadores
concorda com que o ouro no era a fonte da riqueza do Zimbbue e que pro-
vavelmente se deveria pensar antes no desenvolvimento da criao de gado no
planalto ervoso e no infestado pela mosca ts-ts. Uma grande seca no sculo
XIII contribuiu para levar os criadores de gado ao planalto mais hospitaleiro.
Como os reis sacrificiais dos povos criadores de gado, os senhores do Zimbbue
teriam primeiramente construdo a partir dos rebanhos seu poder e riqueza, um
ou dois sculos antes de expandirem-nos consideravelmente pelo maior controle
possvel do comrcio do ouro. Isto , se no seguirmos uma distino antiga,
mas ainda ocasionalmente aceita, entre "mineradores", "criadores de gado", e
"construtores": o primeiro grupo teria explorado o ouro, o cobre e outros metais
antes de 1100; o terceiro seria responsvel pelas famosas construes de pedra
do Grande Zimbbue. Sua origem tnica e sua lngua so desconhecidas; nada,
porm, nos impede de acreditar que estes "construtores" e "mineradores" so
os ancestrais diretos dos povos que vivem no planalto do Zimbbue, isto , os
Sotho e os Shona61.
    Infelizmente, no temos informaes suficientes sobre estas questes. A exis-
tncia do Estado racista da frica do Sul constitui um bloqueio  pesquisa, mas
com a independncia da Repblica do Zimbbue novas perspectivas se abrem.
    Conhece-se bem a pr-histria dessas regies graas aos trabalhos dos pes-
quisadores anglo-saxes, mas o obscurecimento predomina quando se aborda o




61   SUMMERS, 1960 e 1963.
720                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



perodo histrico. Tudo se faz para negar aos negros a paternidade das culturas
florescentes que l se desenvolveram antes de 1500.
    Elementos recolhidos aqui e ali provam, no entanto, que essas civilizaes
estiveram interligadas e apresentam uma unidade incontestvel. A leste, o vale
do Zambeze foi a via de penetrao das influncias do norte, inclusive as dos
Bantu. Nos reinos que se expandiram nas savanas meridionais, o trabalho e o
comrcio dos metais tiveram papel primordial. Ao sul do Zambeze, podem-se
distinguir duas reas de intensa atividade cultural: o planalto zimbbue e, bem
mais ao sul, o planalto do Lughveld62.
    Um outro aspecto do comrcio interafricano vem assumindo grande impor-
tncia nos ltimos anos. P. Vrin foi o primeiro a insistir nas relaes frequentes
entre Madagscar, as ilhas Comores e a costa oriental do continente. Sugeriu
que, se a partir da costa numerosas influncias ganharam as ilhas, alguns pro-
dutos, como os objetos malgaxes talhados em cloritoxisto, podem muito bem
ter se difundido ao longo da costa at Kilwa63.
    Se se confirmarem as intuies e hipteses de P. Vrin em futuras pesquisas,
ser preciso reavaliar seriamente o que com frequncia se tem dito dos limi-
tes meridionais das zonas de navegao africana e rabe no oceano ndico. A
vigorosa retomada da pesquisa arqueolgica em Madagscar a partir de 1977
provavelmente dever trazer, a julgar pelos primeiros resultados anunciados,
elementos importantes para o nosso conhecimento dessas regies.




62    Ver captulo 21 deste volume.
63    VRIN, 1975, p. 72-3; ver DOMENICHINI, 1979b.
A frica nas relaes intercontinentais                                                            721



                                          CAPTULO 26


     A frica nas relaes intercontinentais
                    Jean Devisse, em colaborao com Shuhi Labib




    A frica vista pelo resto do mundo
    difcil dizer o que os africanos, no interior do continente, pensavam de
si mesmos, nos quatro sculos que vo de 1100 a 1500,  luz de seus referentes
culturais, em constante mudana, e de suas tradies seculares. Mas no se deve
desanimar; apesar das dificuldades que apresenta, essa investigao  funda-
mental. Comea-se a discernir que transformaes as sucessivas aculturaes
provocaram do ponto de vista da percepo do espao na frica. Seria fascinante
saber, por exemplo, como um comerciante africano do sculo XV visualizava seu
prprio meio ambiente. Em todo caso, hoje podemos afirmar com segurana
que os negociantes do Takrr, no Mali, mais precisamente, os Wangara1, tinham
uma ideia razovel da geografia do mundo muulmano, e talvez at mesmo de
todo o mundo conhecido na poca. No sculo XV, os comerciantes wangara
eram letrados, ou pelo menos havia entre eles grande nmero de letrados com

1    Wangara: esse termo  grafado de vrias maneiras pelos escritores rabes  Wankra, Wanghra, Wangra,
     Wangarta e talvez mesmo Amdjara (al-Mas`d, no sculo X). Os Wangara so confundidos, por vezes,
     com os Gangara, a quem se atribuem, sem muita preciso, algumas runas antigas do Sahel. Os Wangara
     no aparecem nas fontes rabes antes do sculo XI ou XII. A eles eram atribudas ento a extrao e a
     comercializao do ouro no alto Nger. No sculo XIV, seu nome frequentemente era associado ao de
     Djenn, e, segundo Ibn Khaldn, sua rea de influncia estendia-se at regies muito a leste. Mais tarde,
     o nome Diula ( Jula) tendeu a substituir o anterior, e ainda  utilizado para designar os comerciantes de
     lngua manden (mandingo) da zona de savana at a Repblica de Gana.
722                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi




um conhecimento bastante preciso do meio em que viviam. Os Wangara usavam
o termo Saheli (o Sahel) ou Kogodugu (terra do sal) para referir o norte, de onde
vinham os comerciantes rabes ou berberes com seus camelos carregados de barras de
sal. Os termos Worodugu (terra da cola) e Tukoro (floresta) designavam o sul, cujas
florestas, de difcil acesso, forneciam as preciosas nozes-de-cola. Estendendo-se
de leste a oeste do continente, o Gbe Kan ("terras limpas"), escassamente
arborizado, era percorrido pelos negociantes wangara a p, a cavalo ou em
lombo de burro.
    Graas s peregrinaes de seus soberanos, vrios povos da regio sudanesa
tinham conhecimento preciso do Magreb, do Egito e at da prpria Arbia,
desde o sculo XIII. Embota no seja possvel fazer uma estimativa em termos
numricos, a julgar pelos documentos disponveis, a existncia de embaixa-
dores negros residentes no Cairo por volta do final do sculo XV sugere uma
forte presena de sudaneses naquela cidade. s margens do oceano ndico, os
Zandj e os Swahili deviam conhecer muito bem o mundo rabe oriental, a
ndia e talvez mesmo a distante China.  bastante provvel que comerciantes
negros do Sudo e da frica oriental fossem em misses comerciais at as
cidades e provncias rabes. Ensinava-se geografia nas escolas de Tombuctu, e
sem a menor dvida os manuais de base eram os mesmos utilizados no Cairo.
Al-`Umar conta que um soberano como o mansa Kanku Ms, do Mali, tinha
ideia muito clara da extenso das terras dos povos negros e do lugar que nelas
ocupava seu imprio.
    Por enquanto, temos mais informaes sobre a maneira pela qual as culturas
perifricas conheciam e, acima de tudo, "viam" o continente africano. Falar em
culturas perifricas  agrupar sob a mesma denominao o mundo muulmano,
tanto africano quanto no africano  veremos adiante as importantes implicaes
disso , e os mundos asitico, bizantino e ocidental.
    Os muulmanos conheciam a frica. Mas, no sculos XIV, sua tradio
cultural, transmitida de gerao em gerao, ainda refletia ideias antiqua-
das e conhecimento incompleto. Essa viso escolstica, como veremos, con-
trastava com o processo de descobrimento do continente que, j ativo no
sculo XI, desenvolveu-se notavelmente durante o XIV. At mesmo o grande
Ibn Khaldn reconhecia que suas fontes para tratar de regies inteiras ainda
eram Ptolomeu e al-Idrs 2. Sobre as regies equatoriais, escreve revelando
perplexidade:


2     IBN KHALDN, 1967-1968, p. 100.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                    723



    Os filsofos concluram que, devido ao calor e ao clima seco que caracterizam as
    duas primeiras partes do mundo3, as regies equatoriais e as mais ao sul eram des-
    povoadas". Contudo, afirma o grande historiador, "a observao e a tradio mantida
    sustentam o contrrio. Que posio tomar?" Depois de pesar os argumentos aduzidos
    de ambos os lados, ele conclui que "pode existir uma civilizao nas regies equato-
    riais e mais ao sul, como se conta, mas trata-se de muito pouca coisa4.
    Para compreendermos a atitude mental assumida, frente  frica e aos mares
que a circundam, pelas culturas baseadas em religies monotestas, devemos
levar em conta dois conjuntos de ideias presentes em todos os escritores  judeus,
cristos ou muulmanos  nos sculos que nos interessam. O primeiro decorre
da crena de que a terra  totalmente cercada pelas guas de um oceano. "A gua
foi retirada", diz ainda Ibn Khaldn, "de certas partes do mundo onde Deus quis
criar os seres vivos e que desejou povoar com a espcie humana..." 5. A frica,
o mais meridional dos continentes conhecidos, era banhada por mares muito
extensos e ainda inexplorados6. Para os herdeiros da cultura grega, fossem rabes
ou ocidentais, as regies equatoriais, com seu calor trrido, constituam, tanto
em terra quanto no mar, os limites do mundo em que o homem podia suportar
viver. Alm disso, todos esses legatrios das culturas mediterrneas pensavam,
ainda nas palavras de Ibn Khaldn, que "o bero da civilizao fica entre a ter-
ceira e a sexta parte do mundo"  nem ao norte nem ao sul7. No se encontraro
melhores informaes sobre o oceano Atlntico e suas ilhas no ensinamento
tradicional dos estudiosos de gabinete, tanto muulmanos quanto cristos8. As
ilhas Afortunadas  as ilhas Canrias , no oceano Atlntico, constituam o


3    De acordo com a tradio ptolomaica e muulmana erudita, o mundo dividia-se em sete partes ou
     "climas", da regio sul (equatorial)  norte (boreal). As "duas primeiras partes" aqui mencionadas corres-
     podem aproximadmente, na frica, s regies equatorial e tropical norte (ver fig. 26.1).
4    IBN KHALDN 1967-1968, p. 103-4.
5    Ibid., p. 90 et seq.
6    Ibid., p. 111-2. "A primeira parte do mundo situa-se imediatamente ao norte do equador. Ao sul, h s
     a civilizao mencionada por Ptolomeu; depois, os ermos e os desertos de areia at o crculo de gua a
     que se chama Oceano."
7    IBN KHALDN (ibid., 101-17) fala da parte da frica ocidental frequentada por comerciantes mar-
     roquinos. Nas suas regies meridionais, essa parte da frica constitui uma reserva de escravos "Lamlam",
     diz ele, "com escarificaes no rosto. Mais adiante, ao sul, os homens que existem esto mais perto de
     animais do que de seres racionais [...]. No  possvel inclu-los entre os seres humanos" [p. 166]. O
     modo de vida desses homens deve-se a "seu distanciamento da zona temperada [distanciamento que]
     os faz, em sua natureza, acercarem-se dos animais selvagens e, na mesma proporo, afastarem-se da
     espcie humana".
8    Sobre as ilhas Canrias, ver, por exemplo, ALIDRS, in CUOQ, 1975, p. 127; IBN SA`D, in CUOQ,
     1975, p. 202-12.
724                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 26.1   A Terra segundo al-Idrs e Ibn Khaldn.
A frica nas relaes intercontinentais                                                              725



limite ocidental do mundo conhecido. Muitos autores rabes, at o sculo XIV,
consideravam-nas desabitadas. Dhu 'l-Karnayn (Alexandre, o Grande) certa vez
as visitou, mas no conseguiu navegar mais para oeste, "ou por causa das pesadas
brumas, ou por receio de se perder e perecer" 9.
    Os viajantes muulmanos passaram a ter uma perspectiva completamente
diferente, pelo menos depois do sculo X,  medida que foram penetrando ao
sul do trpico de Cncer, pelo mar, nas costas orientais, ou por terra, na frica
ocidental10. Muitas observaes desmentiram os esteretipos da cultura livresca;
a partir do sculo XIV, essas informaes diretas derivam basicamente de Ibn
Battta e al-`Umar11. Do oceano ndico, ademais, o mundo islmico aprendeu
todo o saber asitico relativo  navegao e  astronomia.
    Para os autores voltados principalmente para a frica ocidental, muitos
problemas que gostaramos de ver abordados e resolvidos continuam sem res-
posta, devido tanto ao mistrio com o qual as culturas africanas, ciosas de sua
autonomia, visivelmente se envolvem, quanto s limitaes impostas pelas auto-
ridades  entrada irrestrita de comerciantes e missionrios muulmanos na rea
do Sahel e da savana.
    Pelo menos, das praias do Mediterrneo  curva do Nger, s nascentes do
Senegal e do Nger,  atual Repblica do Chade e ao norte da atual Rep-
blica Federal da Nigria, um espao contnuo se oferecia  visita,  reflexo e
 descrio dos autores rabes. A regio que deles se conservou desconhecida
 basicamente a rea da floresta  apresentava caractersticas muito mais estra-
nhas, se comparada com a "norma mediterrnea", do que o deserto ou a estepe.
A regio da floresta, com seus mecanismos climticos to particulares, seria
precisamente o espao que os europeus, que no sabiam praticamente nada do
interior do continente, viriam a descobrir. A frica ainda hoje sofre as conse-
quncias da heterogeneidade das reas descobertas, quase aleatoriamente, por
partes distintas.




9    IBN SA`D, in CUOQ, 1975, p. 202.
10   A exceo, no que se refere  frica ocidental, foi a hipottica viagem de Ibn Ftima ao longo da
     costa africana, tal como  relatda por Ibn Sa`d (in CUOQ, 1975, p. 212) e outros, o que discutiremos
     adiante.
11   No  nossa inteno descurar das grandes investigaes empreendidas, no sculo X, por al-Mas`d,
     no XI, por al-Bakr, e, no XII, por al-Idrs. O notvel estudo que T. Lewicki consagrou a este ltimo
     comprova a seriedade com que ele compilou as informaes coletadas, sob sua chefia, por uma grande
     equipe. Ver LEWICKI, 1966.
726                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



   No Ocidente cristo, pouco interesse havia pela frica enquanto tal12. Os
comerciantes desejosos de penetrar os segredos ocultos pela "cortina muul-
mana" lanavam um olhar utilitarista sobre o continente. Alguns seguiram com
muita ateno os esforos dos cartgrafos para reunir a informao recebida
dos rabes e transmitida atravs da Espanha em mapas com nexo, nos quais a
forma da frica, ao norte do trpico de Cncer, aparece mais ou menos correta.
Os maiorquinos, que herdaram a cincia rabe por intermdio dos judeus pro-
venientes da Espanha, consolidaram o conhecimento assim recebido na mais
famosa das primeiras grandes cartas martimas13. Em 1339, o clebre mapa
de Angelino Dulcet (ou Dalorto) revelou aos cristos a existncia de um "rex
Melli", possuidor de muito ouro. Pelo final do mesmo sculo, os acurados mapas
dos Cresques, pai e filho, mostram claramente que, para os seus autores, a chave
para o sul encontrava-se em Tlemcen, e tambm que se comeava a conhecer as
rotas que levavam  "terra dos negros" 14.
   Junto com esse esforo por sintetizar o conhecimento existente, fizeram-se
vrias tentativas  sem dvida numerosas, e provavelmente fadadas ao esqueci-
mento  de chegar  terra dos negros pelas rotas comerciais saarianas. A expe-
dio do genovs Malfante a Tuat, em 1447, pertence a essa srie de tentativas,
que produziu escassos resultados15. Por outro lado, desde o final do sculo XII,
os egpcios proibiram com eficcia a penetrao crist ao sul do Cairo e no mar
Vermelho. Mas, durante muito tempo ainda, os cristos estariam mais interessa-
dos nos muulmanos que viviam na frica do que no continente propriamente
dito.
   Essa situao se manteve at que a expanso portuguesa, pela primeira
vez, levou os europeus a terem contato com grande nmero de negros no
muulmanos. A fundao do Colgio de Miramar, nas ilhas Baleares, em 1276, e
de um centro de estudos do rabe e do islamismo na Ifrkiya, no final do sculo

12    Ver MEDEIROS, 1973. Entre as curiosidades pitorescas, conhecidas em latim como mirabilia, devem
      incluir-se a referncia de Dante ao Cruzeiro do Sul e as aluses de Petrarca s ilhas Canrias (cf.
      HENNING, 1953-1956, v. 1, p. 369 et seq.). Igualmente, a referncia de Raimundo Llio, num famoso
      romance do final do sculo XIII, a "Gana" e aos negros que rodeavm essa cidade  numerosos, idlatras,
      alegres e amantes da justia , deve ser considerada, da mesma forma que tantos detalhes comparveis
      que lemos em outros autores, como um voo de fantasia literria.
13    Cf. VERNET, 1958.
14    Naturalmente, aqui s  possvel indicar de modo sumrio os aspectos mais destacados dessa questo.
      Ela j foi abordada em numerosas publicaes, e merece a ateno dos pesquisadores, pois est muito
      longe de se esgotar o levantamento de todas as observaes contidas nesses documentos.
15    LA RONCIRE, C. de, 1924-1927, v. 1, p. 144 et seq. A verso do texto publicada por La Roncire
      mereceria cotejamento com o manuscrito. Quanto  interpretao dessa viagem dada por esse autor, ver
      HEERS, 1971, p. 66 et seq.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                   727



XIII, corresponde aos desejos e esperanas por parte de dominicanos e francis-
canos de converter os muulmanos. Como efeito secundrio, o conhecimento a
respeito da frica ganhou algumas caractersticas novas.
    Era muito raro os papas intervirem no prprio continente africano. Em
certos casos, nos fins do sculo XI, houve interferncias papais com o fim de
preservar os ltimos vestgios do cristianismo, que ento desaparecia da Ifrkiya.
De outras vezes, elas visaram garantir, mediante representaes diplomticas
enviadas a soberanos muulmanos, a sobrevivncia das igrejas ou  caso do
Marrocos  at mesmo dos bispados criados para as comunidades europeias de
comerciantes e mercenrios residentes no Magreb. Ocasionalmente, tais repre-
sentaes assumiam carter mais indiscreto, constituindo intervenes diretas
na vida do Magreb16. Os cristos da pennsula Ibrica iriam deixar uma marca
decisiva no conhecimento da frica. Buscando metais preciosos e batendo-se
com os muulmanos, acreditavam ter encontrado no "Preste Joo"  figura fami-
liar aos cruzados, que o resto da Europa ento comeava a esquecer  um "aliado"
africano contra o Isl.
    Embora os asiticos conhecessem a costa da frica oriental desde muito
antes da grande e decisiva expanso do sculo XV, deram pouca importncia 
segundo os documentos atualmente disponveis  ao continente africano17.


     Uma rea em expanso: da diplomacia mediterrnea s
     trocas afroeuropeias
    At h bem pouco tempo, os historiadores restringiram sua ateno s rela-
es diplomticas e s guerras entre a frica islmica e o Ocidente. No cabe
aqui repetir o que  fartamente conhecido. Basta simplesmente observar que,
embora a resistncia islmica s investidas dos cristos no fosse bem coorde-
nada, os cristos, por sua vez, no estavam capacitados a agir de maneira coesa
e unificada. De oeste para leste, sob vrias dinastias, que governavam territrios
das mais diversas dimenses, os Estados muulmanos da Espanha, do Marrocos,
de Tlemcen, da Ifrkiya e do Egito, depois do desaparecimento dos Almadas,
estiveram frequentemente em luta uns com os outros. Poderosa fora unificadora


16   Foi este o caso em 1251, quando Inocncio IV pediu a criao de santurios cristos na costa do Marroscos;
     ou ainda em 1290, quando Nicolau IV se dirigiu numa encclica a todos os cristos da frica setentrional;
     ou em 1419, quando Martinho V se dirigiu  hierarquia crist no Marrocos.
17   DUYVENDAK, 1949; FILESI, 1962a e 1962b; CHOU YI LIANG, 1972.
728                                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



do ponto de vista espiritual e cultural, o Isl no constitua, em termos polti-
cos e militares, um elemento de coeso capaz de suplantar as divergncias de
interesses entre os prncipes. Da mesma forma, porm, a diferena de interesses
econmicos levava os Estados cristos, de Castela at a Itlia, a um conflito
aberto, a despeito de sua ideologia comum.
    Aparentemente, a histria diplomtica, militar e poltica da regio mediterrnea
durante esses sculos no tem muita lgica. Gnova constantemente apoiou o reino
de Granada contra o de Castela. Granada, apesar de seus apelos, recebeu pouca
ajuda do Marrocos ou do Egito. A rivalidade entre os habitantes dos dois lados do
estreito de Gibraltar pelo controle dessa via fundamental de acesso ao Atlntico
explica os conflitos diplomticos entre os Marnidas e Granada18. Os interesses do
Egito, Estado cliente de Castela e Arago, mostram as razes de sua fraca ajuda
a Granada. Os Marnidas entraram em conflito com seus vizinhos de Tlemcen,
enquanto os Hafssidas tentavam repelir estes ltimos para oeste e tambm impedir
qualquer expanso marnida mais vigorosa. As relaes difceis e contraditrias entre
venezianos e genoveses, por um lado, e Mamelucos e Otomanos, por outro, tambm
sero incompreensveis se nos prendermos  aparncia das relaes diplomticas. A
realidade situa-se em outros nveis,  de outra escala.
    Os muulmanos, senhores do comrcio entre a sia e a Europa simples-
mente em razo de sua esfera de influncia poltico-econmica, tambm puse-
ram a economia saheliana em estreito contato com o sistema mundial de trocas.
Tanto direta como indiretamente, a frica setentrional obteve importantes recur-
sos  especialmente ouro  das regies meridionais, talvez at das reas s bordas
da floresta. Esse processo se desenvolveu vagarosamente, do sculo VII ao X,
tornando-se mais rpido nos sculos XI e XII. As rotas meridionais ou "oblquas"
agora estavam ligadas s principais artrias do comrcio muulmano19. Envolviam
a frica ocidental  poca dos imprios do Mali e de Gana; mas tambm o Air,
o Chade, o Darfr e o curso mdio do Nilo20. Na regio saheliana, as consequn-
cias foram profundas21; no norte, a partir do sculo XI, organizaram-se Estados


18    O tratado assinado em 1285 por Castela e os Marnidas marcou uma profunda alterao no equilbrio
      de foras. Os Marnidas renunciaram a suas reivindicaes quer  terra espanhola quer  presena naval
      em suas costas. Em troca  fato que para ns se reveste de considervel importncia cultural , obtiveram
      a liberao de 13 carregamentos de livros de Crdoba para Fs. DUFOURCQ, 1966, p. 206.
19    Os Fatmidas, e em seguidda os Omadas da Espanha, os Almorvidas e depois os Almadas benefi-
      ciaram-se sucessivamente das vantagens da hegemonia sobre os mais importantes pontos terminais das
      rotas do sul. Ver ROBERT, D. , ROBERT, S. & DEVISSE, 1970; DEVISSE, 1972.
20    Falta muito para que se esclarea a histria da circulao de pessoas e bens nessa regio.
21    J desenvolvemos este raciocnio; ver DEVISSE, 1972.
                                                                                             A frica nas relaes intercontinentais
                                                                                             729
Figura 26.2 Relaes econmicas entre as margens do Mediterrneo ocidental. ( J. Devisse).
730                                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 26.3 Mapa dos locais onde o ouro africano era procurado (sculos XII-XV) pelos comerciantes
europeus. ( J. Devisse).
A frica nas relaes intercontinentais                                        731



em cada ponto de convergncia das estradas que vinham do sul, entrando cada
um deles em competio com os vizinhos. Entre os prncipes desenvolveu-se
uma concorrncia econmica, que, em geral, no trouxe nenhum benefcio para
os sditos, exceto nos casos  como o de Tlemcen, por exemplo  em que surgiu
uma burguesia comercial. A partir do sculo XII, os Estados cristos comearam
a tirar vantagens dessa concorrncia e do enfraquecimento poltico e militar que
ela acarretava. O espao muulmano e seus anexos meridionais ento se viram
ligados a uma rea muito mais vasta, em plena expanso econmica  os pases
do Mediterrneo ocidental  e, mais tarde,  Europa como um todo. Os mais
notveis efeitos dessa "revoluo" foram sentidos do sculo XIII at o XV22. O
Mali e o Songhai organizaram minucioso sistema de controle das exportaes
e de taxao sobre os bens importados. Ademais, a diversificao das rotas de
exportao e dos clientes, sistematicamente procurados pelos mansa do Mali e
pelos soberanos de Gao, certamente contribuiu em boa medida para desenvolver
todo tipo de relaes entre o Sahel e seus parceiros rivais do norte do continente.
O frequente envio de embaixadas, as viagens e troca de cartas comeam a dar-nos
ideia da ativa e hbil diplomacia dos soberanos negros, que tentavam evitar as
consequncias desastrosas de um monoplio por parte dos compradores de seus
produtos23. Essa situao nova teve repercusses profundas e cada vez maiores
nas relaes entre a frica setentrional e a tropical, assim como na condio
interna dos reinos muulmanos do norte. Os sucessos e reveses das dinastias
marnida, watssida e sdida no Marrocos, por exemplo, estiveram muito ligados
a dificuldades ou melhoras nas relaes com o sul.
    A presso militar e comercial dos cristos ampliava-se. A quantidade de tra-
tados e o nmero de vezes que foram renovados comprovam a obstinao dos
comerciantes e soberanos do norte e a fraca resistncia oposta pelos magrebinos
(ver fig. 26.2). A multiplicao de emprios ou feitorias, mais ou menos isolados
do seu contexto magrebino e em permanente rivalidade entre si, mostra a impor-
tncia que a Europa atribua a seu comrcio com a frica (ver fig. 26.3). Desde
essa poca, a frica, at a faixa da floresta, passou a fazer parte do espao de
explorao econmica do sul pelo norte24. Somente o Egito conseguiu controlar
o comrcio europeu em seus portos, de tal modo que suas sucessivas dinastias
dele tiraram diversas vantagens25.


22   LOPEZ, 1974, p. 252.
23   Ver DEVISSE, 1972; ver tambm ABITBOL, 1979, p. 370.
24   DEVISSE, 1972, p. 369.
25   Ver CAHEN, 1965.
732                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



    Concorrentes ferozes, os europeus no aplicaram os mesmos mtodos no seu
comrcio com a frica. Todos procuravam obter a balana comercial que lhes
fosse mais vantajosa, mas suas possibilidades econmicas e estratgicas eram
bastante variadas. Veneza manteve-se fiel, at o fim do sculo XV, a um tipo de
comrcio que comeava a ceder lugar a formas mais modernas. Os comerciantes
venezianos compravam especiarias asiticas no Egito e na Sria para revend-las a
alto preo. Confiantes de que dispunham do monoplio de vendas num mercado
que no podia ser saturado, eles no cuidavam de importar grandes quantidades,
e assim pediam por sua mercadoria os preos mais exorbitantes. Desse ponto
de vista, o Egito e os pases do Mediterrneo oriental revestiam-se da maior
importncia para Veneza26. Quando surgiram dificuldades no sculo XV, porm,
os venezianos no se recusaram a fornecer vidros, txteis, cobre e coral a Trpoli
e Tnis, em troca de ouro. Outro fator que lhes deu grandes possibilidades de
enriquecimento foi o monoplio sobre o acar que vinha do Oriente, de Chipre
e Creta. Assim, durante muitos anos o Egito e a bacia oriental do Mediterr-
neo, como pontos terminais das rotas comerciais asiticas e mdio-orientais,
interessavam-lhes mais do que a frica propriamente dita27.
    No sculo XIV, os genoveses vendiam trigo28 e escravos a essas mesmas regi-
es orientais. Da Inglaterra obtinham tecidos de l de muito m qualidade, mas
que podiam ser vendidos a baixo preo29. Sem ter muito lucro em cada operao,
conseguiram multiplicar o volume de vendas, constituindo assim importante
comrcio em termos de valor30. Da mesma forma que os catales, mas por mais
tempo e em escala maior, os genoveses fretavam seus navios a muulmanos para
o transporte de pessoas e bens entre o Egito e a Espanha. A frica magrebina

26    Sobre as consequncias que essa opo teve para os venezianos, ver ROMANO, TENENTI & TUCCI,
      1970, p. 109 et seq.
27    A partir do sculo XV, os venezianos, tambm pressionados pela expanso otomana, passaram a dar
      grande importncia ao comrcio com Trpoli  e em especial  importao de ouro , fato de que apenas
      comeamos a nos dar conta.
28    O controle da exportao do trigo do mar Negro pelos genoveses constitua um dos seus trunfos frente
      aos Mamelucos, da mesma forma que em tempos passados os bizantinos se serviam desse controle como
      meio de presso sobre os Fatmidas do Egito. Seria interessante saber se existiriam outras formas de
      "diplomacia frumental" no Magreb, por exemplo, que tivessem constitudo um meio de presso sobre
      pases sujeitos a colheitas irregulares. O estudo do comrcio de gros no interior da frica nesse perodo
      ainda no foi realizado. Existem apenas algumas referncias a respeito em documentos do sculo XIV. Em
      1477, um navio levou 640 t de cereais de Or a Gnova; tambm no sclo XV, o trigo era transportado da
      costa atlntica do Marrocos at Portugal.
29    Os tecidos europeus chegavam at bem longe no sul. Ibn Battta (in CUOQ, 1975, p. 305) refere-se a
      eles ao descrever as roupas dos mansa do Mali.
30    Em 1445, 90 kg de cauris so arrolados entre as mercadorias confiscadas dos genoveses pelo reino de
      Granada. A respeito, ver HEERS, 1975, p. 120.
                                                                                                            A frica nas relaes intercontinentais
                                                                                                            733
Figura 26.4   Mapa do fluxo do ouro africano na economia muulmana da frica setentrional. ( J. Devisse).
734                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



e a bacia oriental do Mediterrneo tinham grande importncia para eles. A
conquista otomana, porm, expulsou-os dessa ltima regio, e eles passaram a
se apoiar inteiramente no comrcio com a frica setentrional Para competir
com os venezianos na venda de acar, pediram preos muito inferiores e, pela
primeira vez na histria, desenvolveram um comrcio a granel desse produto.
Mas isso exigiu que viessem a controlar, direta ou indiretamente, as reas pro-
dutoras de acar. Foram os espanhis  muulmanos ou cristos  os primeiros
a fornecer grandes volumes de acar31. Isso naturalmente os induziu a uma
aproximao com os genoveses, que mais tarde se associaram estreitamente 
poltica portuguesa dos descobrimentos, introduzindo o plantio de cana-de-
acar nas ilhas atlnticas ocupadas pelos portugueses e comerciando o acar
produzido nas ilhas da Madeira e Canrias. Como era de esperar, essa poltica
dos genoveses fez os italianos irromperem no estreito de Gibraltar e no Atln-
tico, despertando seu interesse pelas novas tcnicas de construo naval, ento
pesquisadas sobretudo em Portugal, e levou-os a uma participao mais ou
menos direta na explorao martima32.
    Esses fatos merecem ser enfatizados, pois explicam todos os mecanismos da
futura expanso portuguesa no Atlntico e prefiguram as consequncias que tal
expanso teve para a frica. Os catales, ltimos a entrar em cena, no alcan-
aram o mesmo nvel de poder dos seus fortes rivais italianos; limitaram-se a
multiplicar as pequenas operaes, com baixo rendimento33. Outros portos e
pases ocidentais se esgotaram tentando seguir esses exemplos.
    Mas no  este o ponto mais interessante. O importante no foram as peque-
nas quantidades de nozes-de-cola, de pimenta-malagueta e de outros produtos
mais ou menos decorativos, inclusive o marfim34: foram o ouro e os escravos
arrancados do seio africano que tornaram a presena da frica bastante evi-
dente na economia mediterrnea. Nenhuma investigao exaustiva se fez ainda
sobre esses temas; portanto resta-nos descrever em linhas gerais os resultados
j obtidos.



31    Desse ponto de vista, a queda do reino de Granada, em 1492, certamente constituiu um revs severo,
      embora temporrio, para a poltica genovesa de venda de acar, e provavelmente contribuiu para a
      intensificao da produo nas ilhas do Atlntico. Ver HEERS, 1971, p. 89 et seq. e 170.
32    VERLINDEN, 1966b.
33    Sobre o comrcio catalo, ver DUFOURCQ, 1966.
34    Grotttanelli (1975) mostrou que os europeus importavam objetos de marfim da frica antes mesmo
      da expanso portuguesa. Esse fato, muito pouco estudado, e que mereceria a ateno dos pesquisadores,
      sugere que a influncia da arte africana na europa  anterior ao sculo XV.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                    735



    Do sculo IX ao XII, o ouro africano contribuiu sobremaneira para a exce-
lncia das cunhagens fatmida, omada, almorvida, almada e hafssida35.
Continuou a afluir para o norte da frica, com algumas variaes, das quais
pouqussimo sabemos, at o final do sculo XV (ver fig. 26.4). Proporcionou
aos governantes, que controlavam sua circulao com maior ou menor xito, no
apenas a matria-prima para a cunhagem de moedas, mas tambm o prestgio
poltico e o luxo de suas cortes, de que falam os escritores rabes. Mas fatos novos
vieram pouco a pouco modificar essa situao em proveito dos europeus.
    Agora se sabe que, pelo final do sculo X, os cristos espanhis tinham come-
ado a obter ouro do sul36; os mtodos so, ainda, muito rudimentares. Porm, a
partir do sculo XIII, as coisas mudaram, e os lucros se acumularam37. Estimou-se
que o comrcio com a Tunsia rendesse ento aos cristos de 20 mil a 60 mil dina-
res anuais, e o comrcio com Bidjya (Bougie) de 12 mil a 24 mil. Em 1302 e nos
anos seguintes, Maiorca recebeu cerca de 2 mil dinares de ouro38, saldo do comr-
cio com Bidjya. Em 1377, Gnova importou o equivalente a 68 mil libras de ouro,
cuja maior parte passara por Granada ou pela Espanha crist39; 75 anos mais tarde,
Gnova obtinha cerca de 45 mil ducados por ano atravs dos mesmos circuitos40.
O valor global das exportaes catals para todo o Magreb  e no apenas os lucros
,  estimado no sculo XV, em 400 mil ou 500 mil dinares anuais41, tendo Bar-
celona um rendimento anual da ordem de 120 mil dinares42. Lamentavelmente,
no dispomos de estimativas para o comrcio oriental de Veneza e Gnova, que
certamente lhes rendeu muito dinheiro. No surpreende, em tais circunstncias,
que uma ativa classe de comerciantes surgisse nos principais portos cristos do
Mediterrneo e em algumas grandes cidades, como Milo e Florena. J que lucro
gera lucro, o poder desses "capitalistas", que aumentou graas  organizao de
sociedades de negcios, capacitou-os a empreender a construo naval 43em larga
escala e a armar frotas de tonelagem cada vez maior.


35   Muito se publicou a respeito. Ver especialmente o Jornal of Economic and Social History of the Orient e as
     publicaes da Royal Numismatic Society, inglesa, e da American Numismatic Society of New York.
36 BONNASSI, 1975-1976, v. 1, p. 372 et seq.
37   VILAR, 1974, p. 42.
38   DUFOURCQ, 1966, p. 429.
39   HEERS, 1957, p. 101.
40   Ibid., 1971, p. 177; ARI, 1973, p. 363.
41   DUFOURCQ, 1966, p. 555-6. O autor atribui a Ifrkiya um valor de mais ou menos 125 mil dinares,
     de 30 mil a 70 mil dinares para o Magreb central, de cerca de 200 mil para o Marrocos.
42   Ibid., p. 556.
43   Tornou-se difcil a construo naval para os muulmanos, devido  falta de madeira, desde que perderam
     o acesso aos abundantes recursos desse material na ilhas do Mediterrneo e na Espanha.
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    Pela mesma poca, sabe-se, aps a metade do sculo XIII retomou-se no
Ocidente a cunhagem de moedas de ouro, que estivera interrompida durante
vrios sculos44. No h dvida de que tal fato resultou, em parte  numa exten-
so ainda por ser avaliada , do ouro africano obtido em portos muulmanos.
O estudo dos aspectos cientficos e econmicos dessas moedas est em curso e
certamente ampliar nosso conhecimento sobre tais questes. Porm, seja como
for, mesmo se levando em conta o ingresso do ouro oriental vindo da frica
meridional atravs do Egito, a quantidade de ouro que chegava  Europa con-
tinuava insuficiente para atender s necessidades do Ocidente num perodo de
plena expanso econmica45.
    A "sede de ouro" constituiria um poderoso fator a motivar os europeus para a
conquista e a dominao econmica do mundo. O interesse pelo ouro africano
demonstrado pelos cristos do Mediterrneo, que leva Malfante e muitos outros
 busca de rotas aurferas no interior do continente, nesse contexto se torna mais
compreensvel. Os ganhos obtidos no comrcio, a que os prprios reis no fica-
vam insensveis46, no constituam o nico meio dos ocidentais para a obteno
do ouro africano. Os tributos impostos pelos conquistadores cristos em troca
de uma proteo muito ilusria tambm produziram confortveis lucros para
os governantes, nesse caso47.
    No sculo XII, os reis de Tnis pagavam 33 mil besantes de ouro por ano
 Siclia48. Depois de 1282, Arago tentou, sem sucesso, impor a renovao desse
tributo. (No sculo XIV, a Ifrkiya voltou a pagar, porm, pequenas somas
 da ordem de 20 mil dinares  e de maneira irregular.) A aliana naval
com os catales, que os Marnidas solicitaram em 1274 por curto espao de
tempo, custou aos marroquinos cerca de 40 mil dinares49. Em 1309, o apoio de


44    Gnova teve uma moeda estvel de 1330 at o final do sculo. Em 1443, depois de um perodo de crise,
      reformou seu sistema monetrio em relao ao ouro. As outras cidades italianas, especialmente Veneza
      e Florena, adotaram igual medida. A partir de 1310 Maiorca cunhou 1 real de ouro de 3,85 g. Sob
      Afonso X, Castela passou a usar o peso do dinar almada (4,60 g) para seu dobro de ouro.
45 C. -E. DUFOURCQ (1966) calcula que entrasse em Arago cerca de 70 Kg de ouro africano por ano.
   J. Heers considera que 200 Kg do metal chegassem anualmente a Gnova. Sobre o montante de ouro
   em circulao na economia, comparado com suas necessidades reais, ver VILAR, 1974, p. 32-3.
46    Ao assinarem acordos com seus iguais muulmanos, os reis cristos s vezes obtinham a devoluo de
      parte das taxas alfandegrias pagas na frica por seus comerciantes: em 1229-1230, o rei de Arago
      recebeu aproximadamente 500 dinares de Tlemcen; em 1302, Bidjya prometeu restituir-lhe um quarto
      de suas taxas aduaneiras, cerca de 1500 dinares por ano; no incio do sculo XIV a Ifrkiya restitua a
      Arago 50% desses valores.
47    Sobre os efeitos monetrios de tais negociaes, ver VILAR, 1974, p. 42-3.
48    YVER, 1903, p. 135.
49    DUFOURCQ, 1966, p. 179.
A frica nas relaes intercontinentais                                     737



Arago custou-lhes mais 7 mil dinares. Para apreciarmos o valor desses "pre-
sentes",  o caso de lembrar que uma embaixada de Granada voltou do Cairo,
no sculo XIV, com uma ddiva de 2 mil dinares egpcios para o soberano
nsrida50. Mostrou-se, h pouco tempo, que os granadinos, destinatrios de
parte do ouro africano, remetiam de 10 mil a 40 mil dinares por ano a Castela51
  sem contar as antecipaes efetuadas por ocasio de uma vitria militar cas-
telhana. No sculo XV, essas somas foram reduzidas, talvez porque o ouro se
tivesse tornado mais escasso em Granada. Bidjya prometeu dar 1 mil dinares
anuais  sem dispor deles  a Arago, em 1314 e 1323, e pagou 8 mil dinares
em 1329. Ao mesmo reino de Arago, Tlemcen pagou somas variando de 2 mil
a 6 mil dinares por ano, entre 1275 e 1295.
    Tais pagamentos, est claro, refletiam em ampla medida a relao de fora
entre muulmanos e cristos. Outros mtodos, como o de alugar frotas ou tropas,
provaram-se ainda mais lucrativos. H muitos exemplos de locao de navios.
Em 1304, o Marrocos fretou uma frota aragonesa por 30 mil dinares. Em 1302,
e novamente em 1309, Jaime II de Arago ofereceu aos Marnidas barcos total-
mente equipados e armados, a 500 dinares mensais de aluguel por navio. Fez
igual proposta aos Hafssidas, em 1309, sendo que o lucro real resultou em cerca
de 250 dinares mensais. C.-E. Dufourcq calcula que, mantendo-se esse ritmo, o
custo de construo de um navio se amortizaria em quatro ou cinco meses52. Em
1313, Tlemcen alugou seis galeras por um ano, contra o pagamento de 35 mil
dinares. Em 1377, Pedro IV de Arago forneceu a Granada navios equipados
com besteiros por 900 dinares ao ms53. Quanto aos soldados, a partir de meados
do sculo XIII os catales forneceram uma tropa crist aos Hafssidas. Parte do
preo de locao dos mercenrios era entregue ao rei de Arago, que assim tinha
um lucro de aproximadamente 4 mil dinares anuais54; um sistema equivalente
organizou-se em Tlemcen55, e tambm no Marrocos, onde o preo pago era de
10 mil dinares de ouro, em 1304. C.-E. Dufourcq estimou que, a partir do fim
do sculo XIII, a renda obtida por esses meios pela coroa aragonesa somava 15
mil dinares, isto , mais de 10% de suas rendas totais56.


50   ARI, 1973, p. 119.
51   Ibid., p. 214.
52   DUFOURCQ, 1966, p. 541.
53   ARI, 1973, p. 269.
54   DUFOURCQ, 1966, p. 103.
55   Ibid., p. 149 et seq.
56   Ibid., p. 560 et seq.
738                                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    Com base nessa informao, e enquanto aguardamos um quadro mais com-
pleto,  possvel pensar que proporo no desprezvel do ouro africano ingres-
sou no circuito comercial europeu. Ainda que as somas envolvidas representassem
apenas uma poro muito pequena da quantidade de ouro  possivelmente entre 4 t
e 8 t  importada anualmente do oeste e do sul da frica pelo norte do continente,
e ainda que tais somas fossem ridiculamente pequenas se comparadas com as
necessidades reais da economia europeia, constituam considervel ingresso.
Alm disso, a presso exercida pelos europeus nos emprios comerciais mostra
que todos os interessados estavam conscientes dos lucros que ali podiam obter.
A presso econmica acompanhava-se de novo esforo para o estabelecimento
de comunidades religiosas, especialmente no Marrocos57, numa poca em que
as velhas estruturas da Igreja africana acabavam de desaparecer na Ifrkiya58, e
as tmidas tentativas feitas por Roma para estabelecer relaes com a Etipia,
no sculo XV, praticamente no estavam tendo resultados.
    No nos surpreende que os reinos muulmanos da frica setentrional acei-
tassem tal situao, se observamos que ela em muito os beneficiava. As taxas
alfandegrias percebidas sobre as importaes europeias montavam, em geral, a
10%, isto sem contar os privilgios garantidos em tratados. Somente o comrcio
catalo rendia 6 mil dinares por ano aos cofres dos Marnidas, bem como outras
rendas considerveis a Tlemcen. Durante o sculo XV, a alfndega hafssida em
Tnis teve um rendimento anual de 150 mil dinares59. Ainda compensava para
essas dinastias, embora a Europa se enriquecesse s custas de seus pases, pagar
pelas tropas necessrias para garantir a segurana nas estradas, especialmente ao
sul de Tlemcen, e para a administrao fiscal. Os mais clarividentes dos gover-
nantes do Magreb acusaram a colonizao comercial europeia de desestabilizar,
mais e mais, suas economias; a maior parte de seus colegas, porm, deixou-se
ir com a corrente.
    Desde o sculo VII, as incurses em territrio inimigo e  captura de escravos
 sendo alguns deles vendidos e outros aproveitados nas mais diversas tarefas
 constituram um dos traos constantes das relaes belicosas entre muulma-
nos e cristos. Nos sculos X e XI, tal "mercado" foi particularmente favorvel
aos muulmanos da Espanha. A tendncia reverteu-se, a contar do sculo XII, 
medida que aumentou a presso militar e naval dos cristos sobre os muulmanos.


57    JADIN, 1966, p. 33-69. As ordens mendicantes chegaram ao Marrocos, e bispos foram designados para
      Fs e Marrakech com o fim de assistirem os mercenrios cristos.
58    Ibid., MAHJOUBI, 1966.
59    DUFOURCQ, 1966, p. 563 et seq.
A frica nas relaes intercontinentais                                                               739



Esse desequilbrio deixou os cristos com um nmero crescente de escravos a
empregar ou vender, que inclua no apenas magrebinos, mas tambm negros
da frica setentrional ou mesmo de regies mais ao sul60.
    Sabemos, com certeza, que escravos "sudaneses" ou nbios eram importados
por todos os pases da frica setentrional. Isto j  bem conhecido no tocante
ao Egito, porm menos, por enquanto, no que se refere  frica ocidental61. No
h dvida de que os primeiros contatos entre cristos e negros ocorreram por
intermdio do mundo muulmano. A iconografia, por exemplo, revela o lugar
dos "mouros negros" nos exrcitos da Espanha muulmana que se batiam com
os cristos62; no sculo XII, Ibn `Abdn conta-nos, em seu manual, Hisba, que
esses negros eram encontrados na Sevilha almorvida e reputados perigosos63.
    Durante os sculos XIV e XV, esse vergonhoso trfico esteve basicamente em
mos dos mercadores cristos. Os catales eram mestres em tal comrcio; desde
o sculo XIV os mercadores do norte da Espanha enviavam escravos negros para
o Roussillon. Em 1213 uma mulher negra, escrava e crist, foi vendida por um
comerciante genovs a um de seus colegas. No sculo XV, segundo as fontes de
que dispomos, a bacia ocidental do Mediterrneo e Veneza em menor medida
aumentaram suas importaes de mo de obra negra, e a Cirenaica desempe-
nhou papel essencial nesse trfico, pelo menos de 1440 a 1470. Na segunda
metade do sculo, 83% dos escravos que viviam em Npoles eram negros. Tam-
bm havia muitos negros na Siclia64.
    Um fato importante foi o surgimento, no mercado mediterrneo, de negros
da "Guin" 65. A competio entre os europeus ento se acirrava. J em 1472 as
cortes portuguesas requeriam do rei que a reexportao de escravos  o trfico

60   Durante os sculos XII e XIII, vrias fontes revelam a presena de negros na Siclia: 23 escravos na
     Catnia em 1145, por exemplo, e um negro cristo escravo em Palermo, em 1243; no sculo XII, os
     muulmanos dados pelo rei normando  abadia de Monreale, na Siclia, incluem cerca de 30 nomes
     que poderiam ser de negros. (Essas informaes, parcialmente inditas, so de jovens pesquisadores da
     Universidade de Paris-VIII).
61   Ver, por exemplo: AL-YA`KB (891), in CUOQ, 1975, p. 49; AL-ISTAKHR (951) ibid., p. 65;
     AL-MUKADDS (946-988), ibid., p. 68; AL-BRN (973-1050), ibid., p. 80; AL-BAKR (1068),
     ibid., p. 82; AL-ZUHR (1154-1161), ibid., p. 115 et seq.; AL-IDRS (1154), ibid., p. 127 et seq.;
     IBN `IDHR AL-MARRKUSH (sculo XIV), ibid., p. 220; AL-`UMAR (1301-1349), ibid., p.
     255 et seq.; IBN BATTTA (1356), ibid., p. 380 et seq.; IBN KHALDN (1375-1382), ibid., p. 329
     et seq; AL-MAKRZ (1364-1442), ibid., p. 380 et seq.; AL-MAGHL (1493-6), ibid., 399 et seq.
     Ver tambm MAUNY, 1961, p. 336-43, 377-9 e 442-4.
62   Ver, em especial, STEIGER, 1941; GUERRERO-LOVILLO, 1949.
63   IBN `ABDN, 1947,  204.
64 VERLINDEN, 1966a. O autor d outros exemplos alm desse. Ver tambm VERLINDEN, 1977, p.
   200 et seq.
65   Mencionados, pela primeira vez, em Barcelona, no ano de 1489; VERLINDEN, 1966a, p. 338.
740                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



se iniciara em meados do sculo, com incurses nas costas da Mauritnia  fosse
estritamente fiscalizada; essa nova mo de obra devia servir prioritariamente ao
desenvolvimento agrcola de Portugal e das ilhas sob seu controle. Mas isso seria
desconhecer o esprito de empreendimento dos italianos e dos catales. De 1486
a 1488, Bartolomeo Marchionni, um florentino residente em Portugal, notou
que aumentava o comrcio na Costa dos Escravos66; aumentavam as importaes
de cativos. Os genoveses  cujo controle sobre as finanas e a navegao lhes
atribua importante papel na economia portuguesa  e os catales reexportavam
e revendiam essa fora de trabalho. O mercado escravo de Valencia esteve bem
suprido a partir de 1494. Em 1495-1496 nele se venderam cerca de 800 cati-
vos, que incluam considervel nmero de negros obtidos atravs de Portugal67.
Alguns desses escravos eram de origem senegalesa68.
    As consequncias de tal afluxo foram muito srias. A primeira delas foi a queda
nos preos: os escravos negros passaram a ser vendidos aos preos mais baixos, e sua
sorte foi descrita como a mais miservel de todas. Tornou-se habitual considerar o
trabalho dos negros, que era rduo e confivel, como particularmente adequado para
as tarefas agrcolas mais pesadas; o efeito disso logo se far notar. Algumas classes
sociais das sociedades mediterrneas adotaram atitude desdenhosa e altiva perante
esses negros desafortunados, atitude esta que no era compartilhada, ento, pelos
europeus do norte69.
    No sculo XV, o crescimento econmico que a frica conhecera no sculo
anterior foi comprometido pelos graves acontecimentos que se sucediam na sua
periferia. A luta pelo controle do oceano ndico e a expanso otomana estiveram
entre os fatores de ruptura do antigo equilbrio. A expanso europeia rumo ao
Atlntico viria a constituir outro fator, com ainda mais graves consequncias
para a frica, responsvel pela brutal interrupo, por sculos a fio, do cresci-
mento que se iniciara no sculo XIV.


66    De 15 de junho de 1486 a 31 de dezembro de 1493, chegaram a Lisboa 3589 escravos, dos quais pelo
      menos 1648 estavam destinados a mercados florentinos. VERLINDEN, 1962, p. 29; ver tambm RAU,
      1975.
67    Ver CORTS-ALONSO, 1964. Foram vendidos em Valencia, em 1489, 62 canarinos, e outros 90 em
      Ibiza, nas ilhas Baleares; 21 em Valencia em 1493, 130 no ano seguinte, 99 em 1496 e os ltimos 26 em
      1497. A respeito do trfico dos guanchos, ver VERLINDEN, 1955a, p. 357, 550, 561, 562-7 e 1028. Os
      nmeros de negros africanos foram: mais de 200 em 1484; cerca de 50 em 1490; quase 350 em 1491;
      aproximadamente 180 em 1492; perto de 180 em 1493; mais ou menos 150 em 1495; cerca de 150 em
      1496; e por volta de 110 em 1497. Os fornecimentos foram interrompidos nessa data at 1502.
68    CORTS-ALONSO, 1964, p. 56 et seq. Em geral, tinham muito pouca idade: 9, 12 ou 15 anos.
69    Esperamos contribuir para ampliar este material publicando, em futuro prximo, um longo estudo sobre
      a iconografia dos negros no Ocidente.
A frica nas relaes intercontinentais                                                         741




Figura 26.5 Manuscrito rabe do sculo XIII mostrando a presena de negros nas embarcaes do oceano
ndico. (Fonte: Bibliothque Nationale, Paris, Ms. rabe 5847, flio 119, verso).
742                                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



      A frica, a sia e o oceano ndico
    Os volumes anteriores mostraram que as relaes com os ricos centros pro-
dutores asiticos levaram  abertura de grandes rotas comerciais, por terra e
mar, todas elas orientadas para a sia ocidental. Os muulmanos detinham o
controle de tais rotas desde o sculo VII, porm havia competio acirrada entre
a que terminava no sul do golfo Prsico, alimentando o comrcio mesopotmico
e srio, e a que ia dar no mar Vermelho, passando pelo Nilo, responsvel pelo
desenvolvimento dos portos do delta. Esses dois pontos terminais mantiveram-se
permanentemente em rivalidade. Durante a poca de que tratamos, como ocor-
ressem distrbios de toda sorte na sia e tambm russe a dominao muul-
mana na Mesopotmia, o Egito ficou em vantagem, e conheceu assim seu mais
faustoso perodo de controle sobre o comrcio oriental, do califado fatmida ao
mameluco70.
    O Mediterrneo foi abandonado de fato aos cristos a partir de 1100. Con-
tudo os esforos militares e comerciais destes para atingir, atravs do Egito, a
principal rota internacional de comrcio com o mar Vermelho no deram frutos.
Por seu lado, porm, os egpcios e seus sucessivos soberanos raramente dispu-
seram de acesso direto ao grande comrcio do oceano ndico. Quase sempre
precisaram passar pela mediao das vrias dinastias que se sucediam em den,
o eixo de tal comrcio.
    De qualquer forma, a partir do sculo XII, os especialistas nesse grande
comrcio, os Karm71, asseguraram o trfico de especiarias, pedras preciosas,
ouro e cobre entre a sia e frica, por um lado, e Aderi e o Egito, por outro.
Sua prosperidade foi se consolidando incessantemente durante trs sculos. At
a conquista otomana, os Karm e os mercadores muulmanos, que os imitavam,
gozaram de grande prosperidade, que veio a favorecer os portos mediterrneos
do Egito, aonde os ocidentais iam comprar aqueles raros e preciosos produtos.
    Sob os Aibidas (1171-1250), `Aydhb tornou-se um dos mais movimenta-
dos portos do mundo72. Ibn Djubayr visitou-o, em peregrinao, no ano de 1183.
At desistiu de contar as caravanas que viu, to numerosas eram. A unificao
poltica e naval do mar Vermelho nunca foi muito durvel, porm, e nem os

70    LABIB, 1965.
71    Ocasionalmente se vincula o nome Karm ao do Kanim (Kanem) chadiano. Tal vinculao tem o
      endosso das pesquisas mais recentes. A respeito, ver Encyclopaedia of Islam, nova ed. v. 4, p. 640-3, verbete
      "Karm". Em tamul, karya significa "negcio"; no  fora de propsito achar a uma relao interessante.
      Ver tambm GOITEIN, 1966, especialmente cap. 17 e 18; e GARCIN, captulo 15 deste volume.
72    Sobre o crescimento desse porto, ver GARCIN, 1972; PAUL, 1955.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                  743



Aibidas nem seus sucessores tiveram xito no promov-la. O verdadeiro fator de
unificao era constitudo pelos comerciantes, em especial os Karm, baseados em
den, que transportavam, compravam e vendiam produtos da sia, da frica
e do Mediterrneo. Os Karm atuavam como intermedirios diplomticos
quando surgiam conflitos entre os senhores do Egito e os dinastas de den.
Tambm negociavam acordos entre prncipes asiticos e egpcios. As autoridades
egpcias davam a esses indispensveis auxiliares salvo-condutos para eles e seus
bens, bem como o direito de importarem livremente produtos ocidentais no
Egito. Assim se garantia o fluxo de especiarias e de escravos para os entrepostos
do Nilo. A hegemonia econmica egpcia estendeu-se, sob os Mamelucos, at os
portos na costa ocidental do mar Vermelho  Sawakin, Massawa e Assab.
    den tambm era o principal ponto de passagem obrigatria de um outro
comrcio  o comrcio com a costa da frica oriental, que se estava desenvol-
vendo em grau menor ou menos conhecido que o asitico e com lucros aparen-
temente tambm menores73.  provvel, contudo, que os numerosos sinais de
interesse de membros da famlia fatmida e casas comerciais egpcias por esse
comrcio africano estejam relacionados  necessidade de ouro que tinha o Egito
no sculo XII, quando se esgotavam as minas de Wd al-Allk e era impossvel
ou difcil obter o metal precioso da frica ocidental74.
    De acordo com al-Idrs, no sculo XII j existia intensa atividade comercial
na costa da frica oriental. Exportava-se ferro com grande lucro, especialmente
para a ndia, cujo ao, por ser de alta qualidade, exigia importaes consider-
veis de matria-prima. Por volta de 1240, Ibn al-Ward escreveu, a respeito da
regio ao redor de Sofala: " um territrio imenso, cujas montanhas abrigam
jazidas de ferro, exploradas por seus habitantes. Os indianos vm e compram-
lhes esse metal a preo bastante elevado". Os sculos XIII e XIV assistem ao

73   Ver os volumes 2 e 3 desta Histria Geral da frica. Enquanto aguardamos a publicao de outros
     estudos sobre tal questo, vale a pena notar que, segundo Goitein, nem todo o comrcio passava por
     den. GOITEIN, 1966, p. 355, e 1967 passim. Fontes rabes e chinesas tambm fornecero importntes
     informaes adicionais; ver WHEATLEY, 1959.
74   O problema da importao do ouro do sul ainda no foi abordado com toda a ateno que merece, devido
      falta de colaborao entre os especialistas. Basta, no entanto, agrupar as publicaes mais importantes
     para se compreender que, por volta do ano 1000, sua minerao e exportao certamente j tinham
     comeado. Ver, em particular, SUMMERS, 1969, que parece convencido de que a produo se iniciou
     em tempos antigos, e tambm HUFFMAN, 1974a, que apresenta importante bibliografia. Este ltimo
     autor insiste em que a minerao do ouro em larga escala data do sculo XI. No outro extremo, vamos
     encontrar os artigos bastante eruditos de EHRENKREUTZ, 1959 e 1963, de leitura imprescindvel para
     a apreciao da cunhagem fatmida em sua real amplitude e justa qualidade; essa amplitude e qualidade
     pressupem uma proviso de ouro em tal abundncia que, naquele tempo, nem o Egito, nem a Nbia,
     nem a frica ocidental poderiam fornecer aos Fatmidas. Mas  necessrio assinalar que ainda so muito
     poucos os especialistas que concordam fosse to antigo esse comrcio do ouro no Egito. .
744                                                                            frica do sculo xii ao sculo xvi



desenvolvimento desse comrcio costeiro. Marfim, coletado no interior e muito
prezado nos mercados muulmanos, chineses e indianos, peles de animais, ferro
e ouro constituam os mais importantes produtos de exportao. A madeira sem
dvida dever integrar essa lista, quando estudos comparveis aos j realizados
sobre o Mediterrneo confirmarem o importante papel da frica nesse comrcio
internacional, superado apenas pela sia75.
    O ouro proveniente do sul, exportado atravs de Sofala porm negociado em
Kilwa, predominava nesse trfico. R. Summers avalia a produo sul-africana
em 10 t anuais no correr desses sculos, comeando a declinar no sculo XV76.
Mas, ainda que aceitemos cifras mais modestas, deve-se admitir que esse ouro
certamente desempenhou na economia mundial um papel  por ora pouqus-
simo estudado  comparvel ao do ouro africano ocidental.
    Muitos produtos chegavam, de navio, a essa costa; alguns de particular interesse
devido  sua procedncia: cauris77, plantas novas que rapidamente se aclimataram
na frica78, vestimentas e contas de vidro, vendidas aos africanos a preos eleva-
dos79. Tratava-se fundamentalmente de um comrcio de cabotagem, em navios de
formas e tonelagens variadas, que provavelmente utilizavam Kilwa como porto de
base. As reas mais ao sul, at o canal de Moambique, onde as condies meteoro-
lgicas eram muito diferentes das conhecidas no norte do oceano ndico, no foram
exploradas de forma sistemtica pelos navegadores muulmanos antes do sculo XV.
O "sul", na verdade, manteve-se envolto em mistrio, primeiro porque, de acordo
com Ptolomeu, tinha um carter mais oriental do que verdadeiramente meridio-
nal; depois porque nele se situaria um territrio misterioso  Wakwak , rico de
promessas e ameaas,  espera do viajante intrpido. Tambm havia um "fim do
mundo" do qual se sabia muito pouco (ver fig. 26.1).


75    LOMBARD, M., 1972, p. 153-76.
76    SUMMERS, 1969, p. 195.
77    Ibn Battta estende-se sobre o comrcio dessa concha das ilhas Maldivas na costa oriental. Sobre os
      cauris a biografia  extensa no que respeita  frica ocidental; quanto ao oceano ndico, ver, por exemplo,
      PELLIOT, 1933, p. 416-8.
78    Ver ainda IBN BATTTA. Para um relato mais recente, ver CHITTICK & ROTBERG, 1975;
      UNESCO, 1980a.
79 Em Kilwa e Sofala, comerciantes swahili adquiriam tecidos de algodo, de seda e de l com seu ouro. No
   sculoXIII, 67% das taxas aduaneiras arrecadadas em Kilwa eram provenientes dos tecidos de algodo
   importados. Parece que nessa regio da frica, da mesma forma que na parte ocidental, os ornamentos
   de cobre eram to valorizados quanto os de ouro. Estudos recentes de W. G. L. Randles e R. Summers
   enfatizam, porm, a cautela com que os muulmanos se dedicaram  coleta do ouro no sul. Os dois
   autores notam o contraste desse ritmo mais lento  embora, no total, tenham se encontrado quantidades
   considerveis do metal precioso  com a busca febril do mesmo ouro a que se lanaram os portugueses,
   quando se estabeleceram no sul do continente.
A frica nas relaes intercontinentais                                                         745



    Aproveitando as mones de vero, navios muulmanos zarpavam todo ano
de Mombaa ou Malindi para a sia. Esses barcos tiveram importante papel no
desenvolvimento das tcnicas de navegao, que melhoraram consideravelmente
do sculo XIII ao XV. A navegao astronmica, que muito devia s invenes
e observaes dos chineses; o uso da bssola, que provavelmente chegou aos
rabes e mediterrneos, pela mesma poca, da China; a cincia dos ventos, das
correntes e das variaes da fauna e da flora marinhas; a elaborao de cartas de
navegao, nas quais os pilotos muulmanos anotavam suas observaes: tudo
isso constituiu um capital cientfico e tcnico precioso, do qual os portugueses
viriam a beneficiar-se,  sua chegada a Mombaa80.
    Em suma, esse comrcio, que obviamente contrariava, e muito, os interesses
dos africanos do interior, enriqueceu todos os intermedirios, africanos e no
africanos, estabelecidos nos emprios costeiros81. Marinheiros africanos eram
utilizados em barcos de cabotagem e em outros que regularmente faziam o
percurso entre a sia e a frica, pelo menos a crer em certas pinturas em
manuscritos (ver fig. 26.5). Outros deixaram a frica, talvez de maneira mais
ou menos voluntria, para estabelecer colnias na Arbia meridional e at
mesmo na costa ocidental da ndia, onde comea a ser estudada sua impor-
tncia histrica82.
    Mais de 50 cidades, do cabo Gardafui at Sofala, demonstravam a vitalidade
do fenmeno urbano na zona swahili j antes da chegada dos rabes. A partir do
sculo XII, como comprovam a arqueologia e o estudo crtico das fontes, peque-
nos grupos de emigrantes do mundo muulmano vieram ter a essas cidades e s
ilhas litorneas, embora inexistisse qualquer esforo uniforme ou sistemtico de
colonizao. A vinculao dessas cidades com o comrcio de larga escala, ento
em desenvolvimento, do oceano ndico, passando por den ou na linha direta
fricasia favorecida pelas mones, fez que se desenvolvesse nas cidades
costeiras uma rica aristocracia de mercadores, muulmanos em sua maioria, que
por vezes desafiaram o poder das autoridades tradicionais. Da mesma forma
que na frica ocidental, essas cidades constituam cadinhos tnicos e culturais,
cuja fisionomia ia gradualmente sendo transformada pelo Isl e onde as lnguas
rabe e swahili se mesclavam. As prprias cidades litorneas disseminando-se




80   Estudos a esse respeito multiplicam-se. Ver, por exemplo, BARRADAS, 1967; TIBBETS, 1969.
81   Kilwa cunhava moedas desde o sculo XIII.
82   Ver UNESCO, 1980.
746                                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi




Figura 26.6   Mapa do cerco portugus da frica no sculo XV. ( J. Devisse).
A frica nas relaes intercontinentais                                                                 747



por outros lugares mais ao sul contriburam para tornar inextricvel o problema
das origens dessa populao to mesclada83.
    As classes dominantes da regio desfrutavam de um grau de prosperidade
confirmado pela arqueologia. Belas mesquitas e palcios construdos em pedra,
magnficos vidros importados do golfo Prsico, cermicas de alm-mar e da China,
so todos indicadores claros dessa riqueza. Os soberanos e as classes opulentas
entesouravam em seus palcios preciosas faianas de Sultanabad e Nishapur, por-
celana chinesa de cor verde-plida (celadon) do perodo song, esplndidos pratos
decorados do perodo ming, prolas e pedras preciosas da ndia, estatuetas de ouro
ou marfim, joias de jade e cobre, assim como tapetes do Oriente Mdio.
     claro, porm, que desses exemplos atpicos no se deve concluir que toda a
populao daquelas cidades fosse rica. As cidades sem dvida constituram polos
de atrao: permitiram a importao de tcnicas novas e a emergncia de um modo
de vida que contrastava com o dos africanos do interior, tal como foi descrito por
al-Mas`d, no sculo X. Tambm no h dvida de que contriburam para o desen-
raizamento e empobrecimento daqueles que a elas acorreram desprecavidos.
    Recente estudo de H. N. Chittick e R. I. Rotberg84 apresenta-nos uma das
mais prsperas de tais cidades, Kilwa, que Ibn Battta descreveu como sendo
"uma das mais belas do mundo", com edifcios de quatro e cinco andares, des-
critos pelas fontes chinesas do sculo XV85.
    De fato os chineses visitaram, em grande nmero, essa costa da frica durante
o sculo XV. Faz-se meno da chegada de africanos  China, possivelmente a
partir do sculo VI ou VII86; pinturas do perodo tang mostram negros africanos
em grutas budistas, uma compilao do sculo XIII faz referncia provavelmente
ao territrio swahili. Mas apenas as descobertas arqueolgicas  que indicam
vestgios da "presena chinesa" na frica oriental, a partir do sculo VIII87. E
no h provas de que tais vestgios se devam a relaes diretas antigas entre
chineses e africanos. Tudo mudou no sculo XV: j em 1402 um mapa coreano


83   Foi s muito tardiamente, talvez mesmo antes do sculo XV, que as tradies relativas  fundao dessas
     cidades foram deformadas para que coubesse atribuir-lhes origem asitica. O "mito de shirazi", ainda
     bastante difundido em nossos dias, , na sua formulao rgida, de elaborao muito recente. Ver o
     captulo 18 deste volume. Dentre muitos outros trabalhos relevantes, alguns aguardando publicao, ver:
     HIRSCHBERG, 1931; GROTTANELLI, 1955.
84   CHITTICK & ROTBERG, 1975.
85   Sobre outra dessas cidades, Shungwaya, ver GROTTANELLI, 1955.
86   CHOU YI LIANG, 1972. Ver tambm HIRTH, 1910; ROCKHILL, 1915; FRIP, 1940-1941; LO
     JUNG-PANG, 1955; FILESI, 1962a, 1962b.
87 CHOU YI LIANG, 1972.
748                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



apresentava uma imagem aproximadamente correta, no ptolomaica, do sul da
frica; em 1470, as crnicas ming incluam a descrio precisa de uma zebra;
e uma pintura chinesa de 1444 retrata uma girafa  certamente a que chegara
 corte imperial alguns anos antes (como veremos a seguir). Alm do trfico
de escravos, as fontes chinesas mencionam mais quatro importantes artigos de
exportao da frica oriental: ouro, mbar, sndalo e marfim.
    Uma armada chinesa, de navios enormes para a poca88, sob o comando de
Cheng-Ho, muulmano de Yunnan, fez sete grandes viagens cruzando o oceano
ndico, entre 1405 e 1433; esses navios se detiveram duas vezes em costas afri-
canas, uma entre 1417 e 1419, e outra entre 1431 e 1433. Durante a primeira
viagem, a frota singrou at Malindi, para levar de volta a delegao enviada em
1415 a Pequim para presentear a corte imperial com uma girafa89. As cidades de
Brava e Mogadscio so mencionadas nos relatos da segunda viagem. Tais viagens
so consideradas como o coroamento dos empreendimentos martimos chineses,
porm foram subitamente interrompidas devido a acontecimentos domsticos na
China. No obstante, graas ao trfico martimo rabe, persa e gujarti entre a
China, o sudeste asitico e a frica oriental, produtos chineses, tais como porce-
lana e seda, continuaram sendo vendidos nos mercados da frica oriental depois
dessas expedies, da mesma forma que antes delas90. Na ilha de corais de Songo
Mnara, prxima a Kilwa, G. Mathew descobriu faianas vitrificadas de origem
tailandesa, assim como grandes quantidades de porcelana chinesa datando do final
do perodo song at o incio do perodo ming (aproximadamente de 1127 a 1450
da era crist)91. Na China, entre 1440 e 1449, Wang Ta-Yuan escreveu um livro
em que mencionava as ilhas Comores e Madagscar.
    Por volta de 1450, um estvel sistema de trocas comerciais entre a costa orien-
tal da frica, o noroeste de Madagscar  ento ligado a Kilwa por um trfico
regular , o Egito, a Arbia e a sia contribua para a prosperidade dos emprios
comerciais e da regio do oceano ndico como um todo. Em 1487, Pero da Covi-
lh, encarregado pelo rei de Portugal de misso secreta no Mediterrneo oriental,
obteve informaes sobre as dimenses do comrcio da costa oriental, at a altura
de Sofala. A 24 de julho de 1488, Bartolomeu Dias contornou o extremo sul da
frica, convencendo-se assim de que a forma do continente nas suas partes meri-


88    Tais navios eram de 1500 t, enquanto a capacidade dos primeiros barcos portugueses a singrar o oceano
      ndico era de 300 t.
89    Ver DUYVENDAK, 1938.
90    Ver FREEMAN-GRENVILLE, 1955; KIRKMAN, 1967; CHITTICK & ROTBERG, 1975.
91    MATHEW, 1956.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                       749



dionais no era a que lhe fora atribuda desde os tempos de Ptolomeu. Em 1497-
1498, a armada de Vasco da Gama esteve atracada durante 32 dias, para reparos,
na costa sudeste da frica. Os navegantes observaram que se usavam flechas e
azagaias de ferro, que se produzia sal por evaporao da gua do mar, que as adagas
tinham cabos de marfim, e que algumas das mulheres  cujo nmero superava
o dos homens  portavam ornamentos labiais. A 2 de maro de 1498, Vasco da
Gama encontrou, pela primeira vez, africanos de fala rabe, em Moambique, e
surpreendeu-se com a qualidade de suas vestes. A 7 de abril, o sulto de Mombaa
deu calorosa acolhida aos portugueses. Dezessete dias mais tarde, estes partiram
para a ndia, guiados por Ibn Madjid, autor de uma carta martima92. Em agosto
de 1499, alguns sobreviventes dessa primeira expedio regressaram a Portugal.
Uma era completamente nova na histria do oceano ndico e da costa oriental da
frica iria ter incio  era precedida por grandes insurreies na costa atlntica.


     O domnio do Atlntico e suas consequncias
     para a frica
     O "Mediterrneo atlntico"
    Assim comumente era chamada no sculo XVI a parte oriental do Atlntico
delimitada pelas costas ocidentais da pennsula Ibrica e pela frica, Madeira,
Aores e Canrias.
    As fontes rabes deixam-nos perceber que os autores, restritos a transmi-
tir o conhecimento at ento adquirido, tudo ignoravam sobre essa regio do
mundo, assim como sobre a frica continental93; mesmo as ilhas Canrias eram
muito pouco conhecidas, apesar de ativamente frequentadas por comerciantes
e navegadores94. Temos todas as razes para acreditar, porm, que em muitos


92   O texto rabe dessa carta foi publicado por FERRAND, 1921-1928; cf. nota 80.
93   Sobre o Atlntico, ver a Encyclopaedia of Islam, nova ed. v. 1, p. 934. Os textos de al-Idrs (in CUOQ,
     1975, p. 143) e de Ibn Khaldn (in MONTEIL, 1967-1968, p. 115) bastam para evidenciar a m quali-
     dade da informao que lhes chegava. Cabe assinalar que os escassos conhecimentos dos rabes sobre os
     mares a oeste da frica contrastam agudamente com seu domnio do oceano ndico e de suas costas.
94   No sculo XII, os "aventureiros de Lisboa" talvez tenham chegado s ilhas Canrias (MAUNY, 1960, p. 91;
     1965). No sculo XIII, a viagem de Ibn Ftima, segundo o relato que devemos a Ibn S`ad (in CUOQ,
     1975, p. 212), mostra que os muulmanos ento tentavam explorar a costa africana. O relato de Ibn Ftima
     revela que essa expanso no era, absolutamente, desinteressada, e que no se tratava de interesse cientfico.
     Ao sul do Marrocos, o navegador descobriu uma regio que temos dificuldade de localizar  um deserto
     arenoso porm "excelente para o cultivo da cana-de-acar". No sculo XIV, al-`Umar (in CUOQ, 1975,
     p. 281) conta-nos que um vizir de Almera tentou explorar a costa africana.
750                                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



casos foram navios muulmanos os primeiros a ligar as costas s ilhas, embora
no exista registro escrito de sua passagem95. No se pode colocar em dvida a
importncia do mar para os habitantes da costa. Ibn Sa`d observa que
      o atum  o componente alimentar bsico dos povos do Marrocos e al-Andalus: ele
       cortado em dois, transversalmente, e depois pendurado para secar96.
    No sculo XI, al-Bakr nota a produo de mbar na costa da frica negra97,
e, no sculo XII, al-Idrs menciona o comrcio de sal que ocorria entre Awlil e o
Senegal98. A rea explorada provavelmente no era muito extensa, pois os viajantes
no se aventuravam a distanciar-se muito do litoral99. O uso do mar como meio de
evoluo e como fonte de alimentos  to incontestvel que os primeiros viajantes
portugueses assinalaram a presena de povos que se nutriam de peixe na costa da
frica ocidental, profundamente desprezados pelos caadores do interior.
    A conquista do "Mediterrneo atlntico" pelos europeus no se deveu a uma
superioridade tcnica destes. As verdadeiras razes tm outros fundamentos. No
sculo XII, a armada almada gozava de reputao tal que Salh al-Dn (Saladino)
pediu seu apoio contra as frotas crists que operavam no Mediterrneo oriental.
No final do sculo XIII, o poder naval marnida se exaurira aps as grandes
batalhas travadas pelo estreito de Gibraltar. E fator ainda mais decisivo foi que
os cristos ento controlavam quase todas as principais reas do Mediterrneo
ocidental em que se produzia madeira para a construo de navios100.
    Alm disso, nos portos cristos, a acumulao do capital necessrio  constru-
o naval fez-se em mos de comerciantes e de seus scios, mais frequentemente
do que nas dos detentores do poder poltico. A poltica de construo naval
assim se vinculou diretamente  acelerada expanso econmica de 1200 a 1600.
Este processo se estendeu ao Atlntico norte aps 1277. As frotas genovesas,
e depois tambm as venezianas, ligaram a Itlia mercantil  fazendo escalas
em portos como os das ilhas Baleares, Sevilha, Lisboa, Madeira e Baiona  


95    Parece-nos haver algum exagero nas teses propostas por um autor chins (HUI LIN LI, 1960-1961) a
      partir de fontes chinesas. A identificao dessas regies proposta por esse autor precisaria ser corroborada
      por testemunhos cientficos mais consistentes.
96    In CUOQ, 1975, p. 202.
97    Ibid., p. 83.
98    Ibid., p. 128.
99    A propsito do Atlntico norte, J. Heers (1966, p. 230) reconhece a importncia das descobertas dos
      pescadores, sobre segmentos inteiros de futuras rotas transocenicas, e d o exemplo dos pescadores
      lisboetas que, no sculo XVI, chegaram at a baa de Hudson..
100 LOMBARD, 1972, p. 153-76.
A frica nas relaes intercontinentais                                                              751



Inglaterra e  Flandres industriais. Aqui, o papel predominante coube ao poder
econmico101. Os muulmanos no reagiram ao crescente desafio europeu, tanto
devido  fraqueza dos reinos do Magreb   exceo dos interldios hafssida
e sdida  quanto porque, de modo geral, o mar no constitua fator essencial
para o bom sucesso dos empreendimentos econmicos muulmanos. As carava-
nas carregavam muito mais ouro do que podiam comportar as caravelas102; e os
comerciantes e autoridades dos pases magrebinos no tinham nenhum interesse
econmico evidente, nos sculos XIV e XV, para competir com os cristos no
mar ao custo de pesados investimentos. Isso explica por que foram to desiguais
os esforos para a conquista do "Mediterrneo atlntico": foi necessrio quase
um sculo de investimentos103, de esforos persistentes e de fracassos, para se
consumar tal conquista ao termo do sculo XIV, embora as dificuldades tcnicas
sequer se comparassem com as que aguardavam os exploradores ao sul do cabo
Bojador. E tambm explica o papel predominante dos italianos nessa fase de
expanso104. Durante esse estgio inicial, Portugal no dispunha de comerciantes
e banqueiros capazes de desembolsar o capital necessrio105.
   A maior parte das viagens de "descoberta" feitas nessa rea pelos europeus
jamais ser do nosso conhecimento; de vez em quando, casualmente os histo-
riadores trazem uma delas  baila. Por questo de prudncia, tem sido cada vez
mais comum entre os historiadores o uso do termo "redescoberta" para referir
a primeira expedio europeia bem documentada que tenha levado  ocupao
de um territrio determinado106. Hoje se tornaram evidentes as razes por que
os cristos se estabeleceram to rapidamente no "Mediterrneo atlntico". A
busca de ouro pode ter sido um fator importante107, mas fica evidente que muito
mais determinante foi a expectativa de se obter uma produo em larga escala
de certas colheitas teis  trigo, uvas e cana-de-acar  nas ilhas do Atlntico.


101 Durante o sculo XV, o volume de trfico nessa rota martima representou aproximadamente 40 vezes
    o volume do antigo trfico por via terrestre entre Itlia e Flandres, atravs da Champagne.
102 Ver GODINHO, 1969.
103 HEERS, 1966, p. 273-93.
104 GODINHO, 1962; RAU, V., 1967, p. 447-56.
105 VERLINDEN, 1955b, p. 467-97 e 1961.
106 CORTESO, A., 1971, 1972 e 1973; FALL, 1978. Este ltimo, com vrios argumentos importantes,
    sustenta que existe forte probabilidade de que numerosos outros navegantes, muulmanos e cristos,
    tenham ultrapassado o cabo Bojador antes dos portugueses.
107 Quanto  expedio dos irmos Vivaldi, opinies opostas so expressas por V. de M. Godinho (1962 e
    1969) e J. Heers (1957 e 1971).  certo que os portugueses necessitavam de ouro; entre 1387 e 1416, o
    preo desse metal subiu 12%. A cunhagem de moedas de ouro somente se retomou em Portugal no ano
    de 1436, sendo que moldes muulmanos foram utilizados at 1456.
752                                                                     frica do sculo xii ao sculo xvi



Madeira108, as ilhas Canrias e por certo tempo os Aores, antes de ocorrer a
expanso ao sul do cabo Bojador, foram tomados pelos canaviais. O papel do
comrcio de acar como instrumento da expanso ainda no foi satisfatoria-
mente estudado. J no sculo XIII, o Marrocos exportava acar para Flandres
bem como para Veneza. Os canaviais marroquinos, antes de conhecer uma
verdadeira exploso sob os Sdidas, j se desenvolviam sem interrupo desde o
sculo IX; porm, at a poca dos Sdidas, o rendimento da produo, os investi-
mentos e a organizao das vendas no bastavam para garantir ao Marrocos um
lugar significativo no concorrido comrcio aucareiro. Os esforos marroquinos
deram-se um pouco tarde, quando, sob a presso dos genoveses, pesados inves-
timentos j haviam induzido um notvel aumento da oferta de acar nas ilhas.
Essa expanso ocorreu poucas dcadas antes do desenvolvimento da produo
aucareira americana, no sculo XVI.
    A exportao da mo de obra africana esteve diretamente vinculada a esse
esforo. Antes dos negros africanos, j no sculo XIV os guanchos das ilhas Can-
rias foram sujeitos  escravido relacionada ao acar e  agricultura de lucro109.

      Ao sul do cabo Bojador
      A explorao de uma regio martima
   O Atlntico dos ventos alsios e dos anticiclones, como bem mostrou R.
Mauny, propunha  navegao problemas tcnicos distintos dos que se conhe-
ciam anteriormente110. De 1291 a 1434, pelo menos do lado cristo, muitas das
tentativas de explorao naval ao sul do cabo Bojador fracassaram. A tese de R.
Mauny, segundo a qual os navios que se aventurassem muito ao sul do Bojador
no teriam condies de retomar, voltou recentemente a ser contestada111; mas
permanece o fato de que no sculo XV, para terem xito, essas viagens reque-
riam considervel esforo e investimento e pesados sacrifcios em homens e
material. A experincia adquirida no "Mediterrneo atlntico" ajudou a levantar
solues; mas estas se revelaram insuficientes, e foi necessrio desenvolver pes-
quisas cientficas e tcnicas no Mediterrneo ocidental, com base muitas vezes

108 Por volta de 1455, Ca da Mosto registrou que os canaviais da Madeira estavam em plena produo. Em
    1508, a ilha produziu 70 mil arrobas de acar.
109 Ver GODINHO, 1962 e 1969. No final do sculo XV, escravos guanchos eram vendidos em Sevilha
    (PEREZ-EMBID, 1969, p. 89), ampliando-se seu nmero depois de 1496. Acerca de sua venda pelos
    cristos de Sal, ver o testemunho de Ibn Khaldn (in MONTEIL, V., 1967-1968, p. 115).
110 MAUNY, 1960.
111 Por LONIS, 1978, entre outros.
A frica nas relaes intercontinentais                                                              753



nas realizaes dos rabes, para se conseguir dominar as novas condies112. As
necessidades financeiras eram ainda maiores do que nos tempos precedentes113.
Alm disso, era necessrio dominar as tcnicas de navegao astronmica ou, ao
menos, da utilizao de bssolas e de cartas martimas114, bem como construir
navios pequenos e fceis de manobrar115. As caravelas eram duas ou trs vezes
menores em tonelagem que os cargueiros venezianos. Adaptavam-se bem aos
ventos do Atlntico e podiam remontar rios, porm somente foram teis durante
o curto perodo em que pouca importncia tinha a questo da tonelagem a
transportar. No sculo XVI, sero substitudas por pesados galees no comrcio
com a sia.
    Reunidas todas as condies para o sucesso, a explorao sistemtica desen-
volveu-se muito rapidamente e, embora basicamente relacionada  Europa, sob
certos aspectos teve um serissimo efeito sobre a vida africana no sculo XV.
Descoberto pela primeira vez na totalidade de sua conformao perifrica, o
continente em si mereceu pouca ateno de seus descobridores. Os portugue-
ses, desapontados por encontrar to pouco ouro, j que este na sua maior parte
continuava em mos muulmanas no norte e no leste, rapidamente reduziram
a frica ao papel de fornecedora de mo de obra. Assim, uma vez rompido
o isolamento secular da costa oeste, comeou a exportao para a Amrica
de parte considervel da populao africana. As perspectivas econmicas do
Novo Mundo pareciam infinitas; a sia, a que finalmente os europeus atingi-
ram desviando-se do Isl, agora fornecia especiarias, pedras preciosas, tecidos e
porcelana. A Amrica e a sia eclipsaram o continente negro nas preocupaes
dos brancos.
    Antes de dar prosseguimento a esse ponto, convm chamar a ateno para
um texto de al-`Umar, que, como tantos outros, despertou muita controvrsia,
nem sempre de natureza cientfica. O mansa Kanku Ms, relata al-`Umar,
falava de seu antecessor no trono do Mali nos seguintes termos:
    Ele no acreditava que fosse impossvel cruzar o oceano. Queria atingir o outro
    lado do mar e estava entusiasmado por faz-lo. Equipou 200 embarcaes, que
    levariam os homens, e outras tantas abasteceu com ouro, gua e provises sufi-
    cientes para vrios anos. Ento disse aos encarregados das embarcaes: `No


112 Ver BEAUJOUAN, 1969; MOTA, 1958; e POULLE, 1969.
113 HEERS, 1966.
114 Usadas desde 1317 no mar Mediterrneo, as cartas martimas somente comearam a incluir o Atlntico
    no curso do sculo XV. A primeira a dar configurao satisfatria da frica ocidental e de seu oceano
    data aproximadamente de 1470; a primeira a mencionar as ilhas do Cabo Verde e de So Tom  de
    1483. Ver LA RONCIRE, C. de, 1967; LA RONCIRE, M. de, 1967.
115 GILLE, 1970.
754                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      regresseis antes de atingir o outro lado do oceano ou sem que se esgote vossa gua
      ou proviso'. Eles zarparam. Passou o tempo. Passou muito tempo, e ningum
      regressava. Finalmente um barco, um nico, regressou. Perguntamos a seu mestre
      o que ele tinha visto e conhecido, e ouvimos: `Navegamos durante muito tempo,
      at que no meio do mar apareceu um rio com fortssimas correntezas. Eu estava
      no ltimo barco. Os outros continuaram navegando e, ao chegar a esse ponto, no
      conseguiram retornar e desapareceram. No sabemos o que aconteceu com eles.
      Quanto a mim, regressei daquele lugar sem me aventurar na correnteza'. O sulto
      rejeitou essa explicao. Mandou ento preparar 2 mil embarcaes, mil para ele
      e seus homens e as outras para gua e provises. Nomeou-me para substitu-lo,
      embarcou com seus companheiros e zarpou. Foi a ltima vez que os vimos, a ele
      e a seus companheiros116.
    J se tentou ver nesse interessantssimo documento a prova de uma possvel
descoberta da Amrica pelos malienses antes de Colombo117, por vezes mesmo
de um tal domnio do mar que teria levado os negros do Atlntico at o oceano
ndico118. Nessa disposio "competitiva",  claro que so poucas as chances de
se chegar a concluses firmes e confiveis. Contestando tais interpretaes, R.
Mauny vrias vezes insistiu que as condies tcnicas de que ento dispunha a
frica ocidental tornavam impossvel tal viagem, e que, de qualquer modo, esta
no teria deixado consequncias conhecidas ou efeitos duradouros119.
    Deixando de lado essas questes, gostaramos de sugerir algumas linhas
complementares de reflexo. Antes de mais nada,  preciso desarmar o "debate
tcnico". A navegao existia certamente desde muito tempo em todas as cos-
tas da frica, e no h razo para se supor que os africanos refletissem menos
que outros povos sobre as tcnicas requeridas para vencer as dificuldades reais
e considerveis que o mar apresentava. A pesca, a cabotagem e as atividades


116 AL-`UMAR in CUOQ, 1975, p. 274-5. Sobre esse texto, pode encontrar-se uma bibliografia, j antiga,
    in HENNIG, 1953-1956, v. 3, p. 161-5.
117 WIENER, 1920-1922; ver tambm HAMIDULLAH, 1958, p. 173-83. Este autor retoma de M. D.
    W. Jeffreys (1953a) um argumento que no se pode considerar definitivo no atual estgio de nossos
    conhecimentos  a saber, o de que o "rio" mencionado seria o Amazonas. Isso significa desconhecer
    dois fatos: primeiro, que antes de chegarem a esse "rio no mar" os navios se teriam deparado com vrias
    correntes martimas, das quais as mais fortes os impeliriam para o Caribe e no para o Brasil; segundo,
    que o empuxo do Amazonas repeliria os barcos para o mar, em vez de pux-los para a costa do que hoje
     o Brasil. , verdade, porm, que essas correntes, se fossem seguidas, poderiam fazer navios cruzarem
    o Atlntico de leste a oeste, na latitude de Dakar, rumo  Amrica, mas tornariam impossvel o retorno.
    Ser este o sentido da narrativa de al-`Umar? Ver tambm RILEY, 1971.
118 HUTTON, 1946.
119 MAUNY, 1971.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                755



desenvolvidas ao longo das costas, descritas pelos primeiros navegadores euro-
peus, no deixam margem para dvidas a esse respeito: uma certa parte do mar,
tanto a leste quanto a oeste, era dominada pelos africanos.  verdade, porm, que
o mar no ocupava lugar de destaque na economia ou na organizao poltica
dos poderes africanos. A frica vivia dentro de si mesma: todos os centros de
deciso econmica, poltica, cultural, religiosa situavam-se a longa distncia das
costas120.
    Por isso  ainda mais interessante ver um mansa preocupar-se com o Atln-
tico. Deve-se notar, em primeiro lugar, que a aculturao muulmana provavel-
mente ainda no afetara as classes dominantes do Mali. O legado ptolomaico
com as inibies que entranhava provavelmente no influenciaria as ideias do
mansa: o oceano era uma rea por explorar, como o deserto ou a floresta121.
Depois, tendo em conta o papel desempenhado pelas provncias martimas do
Mali, os esforos desse reino para diversificar as relaes econmicas do Sahel
com seus parceiros e, finalmente, o nmero de tentativas muulmanas ou euro-
peias efetuadas no sculo XIII e em princpios do XIV, no parece nada sur-
preendente que um mansa tentasse explorar e dominar esse oceano, que outros
estavam comeando a descobrir. O prprio tom da narrativa mostra que o mansa
Ms, por sua vez, considerava irrealista essa operao, talvez apenas porque
tivesse falhado. As consequncias econmicas de sua peregrinao, com a macia
exportao de ouro que efetuou, no foram menos desastrosas que a tentativa
de seu predecessor. Reposta em tal contexto, essa tentativa merece ser levada
a srio, com um estudo de suas causas e das possveis consequncias humanas
 por exemplo, um pequeno desembarque na Amrica do Sul122. Consequncias
econmicas, segundo todas as evidncias, no existiram123.


120 Devemos salientar, porm, o forte interesse do Mali por suas "provncias martimas" da Casamance, da
    Gmbia e, mais provavelmente ainda, da atual Repblica de Serra Leoa. Tal interesse tem se evidenciado
    cada vez mais, especialmente pelos trabalhos recentes de jovens historiadores africanos.
121 Para aprofundar a discusso desse tema, conviria empreender uma coleta sistemtica das tradies man-
    den (mandingo) relativas ao oceano, o que jamais foi feito, pelo menos que seja do nosso conhecimento.
    Valer a pena citarmos aqui a resposta atribuda por Zurara queles que foram encarregados pelo infante
    D. Henrique de explorar as regies ao sul do cabo Bojador: "Como passaremos  diziam eles  os termos
    que poseram nossos padres, ou que proveito pode trazer ao infante a perdio de nossas almas juntamente
    com os corpos, que conhecidamente seremos homicidas de ns mesmos? [...] Isto  claro  diziam os
    mareantes  que depois deste cabo no h a gente nem povoao alguma [...] As correntes so tamanhas,
    que navio que l passe, jamais nunca poder tornar". ZURARA, 1896, 1899.
122 Sobre algumas tentativas infundadas e infelizes nesse campo, ver JEFFREYS, 1953.
123 O volume 5 desta Histria geral da frica traz um estudo da controvertida questo da existncia de
    um milho africano pr-colombiano, e da possvel introduo de um milho americano por navegadores
    muulmanos ou negros, que teriam descoberto a Amrica antes de Colombo.
756                                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      Expanso, decepo, explorao
    Logo que conseguiram o firme controle das feitorias das costas do Marro-
cos, de onde importavam tecidos, cavalos e ouro, os portugueses contornaram o
cabo Bojador, em 1434. Levaram nove anos at dominar as tcnicas de retorno
pelos Aores; em 1443, a expanso ao longo das costas africanas tornou-se
possvel (ver fig. 26.6); 54 anos mais tarde atingiram o sul do continente, e ao
se completarem 60 anos navegavam regularmente o oceano ndico. Durante
a segunda metade do sculo XV, trs posturas se superpem, relativamente 
frica: expanso, decepo e explorao.
    A brutalidade e a pilhagem marcaram os primeiros estgios da expanso,
que se tornou mais organizada depois de 1450; o comrcio ento substituiu as
incurses. Com uma importncia varivel, Arguin e Mina (So Jorge da Mina,
atual Elmina) constituram os portos de escala do comrcio portugus na costa
africana. De l partiam pequenas quantidades de produtos bem vendidos na
Europa, como o couro, o mbar e a goma. Mas os artigos mais procurados pouco a
pouco vo se revelar decepcionantes quanto ao volume, em relao s experincias
iniciais. A expanso comeou sob o controle da coroa e parcialmente em seu
proveito. Quando se tornou por demais onerosa, atriburam-se concesses indi-
viduais124. Mas a coroa portuguesa jamais abandonou por completo sua poltica
de controle direto, embora no tivesse meios para exerc-la e, menos ainda, para
defender seu terico monoplio contra os demais pases europeus125.
    Decepes de toda espcie logo se acumularam. A primeira ligava-se  prpria
natureza do comrcio: expedies anuais feitas com reduzido nmero de pequenos
navios dificilmente trariam elevados lucros. As tentativas de penetrar no interior do
continente fracassaram todas. Em 1481, Joo II de Portugal, querendo encontrar
uma via fluvial que levasse ao ouro, ordenou, sem sucesso, que fizessem explodir os
rpidos de Felu, no rio Senegal. Em 1483, outra decepo: o curso do Zaire (Congo),
cuja largura parecia oferecer fcil acesso ao interior,  barrado pelas intransponveis
corredeiras de Yelada. Em 1487, os portugueses tentaram instalar uma feitoria em
Wadane, para obter parte do ouro que se sabia passar por ali, na rota de Tombuctu
para o Marrocos, e depararam com uma hostilidade geral. O comrcio de Kantor,


124 Arguin haveria de permanecer sob constante e firme controle rgio. Ao sul do Gmbia, em vrias ocasies
    assinaram-se contratos com armadores privados de navios. Em troca do pagamento de uma taxa e da
    explorao anual de certa extenso da costa, era-lhes permitido ficar com os lucros obtidos no local.
125 O exemplo mais famoso, no sculo XV, foi a viagem de Eustache de la Fosse e de seus companheiros 
    Costa do Ouro (1479-1480), que terminou em tragdia: foram capturados e ameaados de enforcamento,
    por se haverem aventurado a ir at Elmina sem autorizao real. Ver DE LA FOSSE, 1897.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                   757



no Gmbia, era to rigidamente controlado pelo Mali que no podia ser muito
lucrativo. Mais ao sul, pelo menos at a costa dos Gros, os estrangeiros no eram
muito bem acolhidos nem os ancoradouros eram favorveis a seus navios.
    A ateno dos europeus esteve monopolizada, durante muito tempo, pela
procura do ouro africano126. Hoje sabemos que os portugueses fracassaram em
sua pretenso de canalizar para as costas o grosso da produo aurfera127. Consi-
derando toda a costa atlntica, o montante que os portugueses obtiveram nunca
excedeu e talvez sequer tenha atingido 1 t por ano128. Relativamente s necessi-
dades da economia europeia, em rpido crescimento, passados os primeiros anos,
a decepo foi grande. Os portos do Mediterrneo, como pouco a pouco vamos
descobrindo, continuaram a receber ouro africano, transportado em caravanas.
A malagueta e a pimenta-do-reino129 do Benin substituram o ouro por algum
tempo; mas, no que diz respeito ao comrcio internacional dos fins do sculo
XV, embora a malagueta ainda vendesse bem, a pimenta africana perdeu sua
competitividade assim que apareceu no mercado sua similar asitica.
    Em suma, do ponto de vista econmico, o comrcio era muito modesto,
embora os relatos dos sculos anteriores levassem a esperar maravilhas da frica.
Quantidades bastante pequenas de prata, escassa ao sul do Saara130, de tecidos131
manufaturados nas feitorias do Marrocos, de cavalos e de cobre conseguiam
manter equilibrada a balana comercial.
    No foram menores os desapontamentos fora da esfera econmica. O reino
do clebre Preste Joo, a quem portugueses e espanhis tanto sonhavam, desde
o sculo XIV, em ter como aliado contra os muulmanos, no foi localizado,
nem no norte nem no oeste da frica. Em meados do sculo XV, um francis-
cano annimo declarava fervorosamente situar-se na frica o reino da salvao.
Diogo Co pensou ter encontrado o seu caminho quando, em 1483, descobriu
a embocadura do rio Zaire (Congo). Mas nenhuma parte da frica negra se
revelou crist ou sequer disposta a lutar contra o Isl.

126 Em 1447, a expedio de Antonio Malfante a Tuat teria sido financiada pelo banco genovs dos Centurioni,
    que quele tempo estava interessado em abrir uma rota terrestre at as especiarias asiticas, passando pela
    Rssia e pela sia.
127 Ver GODINHO, 1969; DEVISSE, 1972.
128 Cabe aqui recordar que R. Mauny (1960) avaliou o comrcio de ouro entre a frica ocidental e o norte
    do continente em menos de 4 t anuais.
129 Ver MAUNY, 1961, p. 249-50.
130 Na frica, a prata valia mais que o ouro e era importada dos pases cristos. O prprio Magreb, por razes
    econmicas internacionais, ento constitua excelente mercado para a prata. FERNANDES, 1938, p. 97.
131 Fabricavam-se tecidos, embora os primeiros viajantes j notassem, com compreensvel interesse, que os
    habitantes da frica andavam nus ou com muito pouca roupa.
758                                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



    O desapontamento inicial causado por um clima inslito daria resultados
positivos no futuro, na medida em que iria aguar o senso de observao tanto
dos navegadores quanto dos comerciantes132. As contnuas chuvas de vero da
zona do Benin, assinaladas em primeiro lugar por Ca da Mosto, contrastavam
com as condies ridas das regies mais ao norte133, determinando a completa
interrupo de toda a atividade agrcola numa estao que, na Europa, era a
da colheita. E, no entanto, como observou Ca da Mosto, eles semeavam antes
das chuvas e colhiam depois que elas passavam  estranho tipo de agricultura,
aos olhos de um mediterrneo. A observao do regime dos ventos, necessria
para a navegao, revelou um mecanismo desconcertante: o surgimento e o
desaparecimento dos ventos alsios do nordeste e do sudeste134. O fato de que
as temperaturas variassem bem pouco no era menos espantoso.
Os costumes dos habitantes, a constrangida e s vezes irnica observao de suas
cerimnias religiosas tradicionais, deram origem aos primeiros comentrios etnol-
gicos, como, por exemplo, os de Valentim Fernandes135. A palavra feitio, que mais
tarde viria a ter injustificada popularidade, ainda no havia aparecido136.
    Tais observaes poderiam levar a descobertas teis, como aconteceu na
navegao, mas a esse respeito o mar trouxe melhores resultados que a terra 137. A
princpio os portugueses haviam pensado em aclimatar plantas europeias, como
a uva e o trigo, e homens ao solo africano; mas o meio ambiente geogrfico
repeliu os transplantes agrcolas, e o clima desanimou os homens138. J comeara



132 Ver DAVEAU, 1969.
133 Em Arguin "chove apenas trs meses por ano, em agosto, setembro e outubro". CA DA MOSTO, 1895.
134 Logo se teria que calcular os tempos de zarpar em funo desses ventos. No comeo do sculo XVI, Duarte
    Pacheco Pereira notou que havia apenas "trs meses por ano nos quais os navios que devem ir s ndias
    tm que estar prontos para partir, ou seja, em janeiro, fevereiro e maro; e, dos trs, o melhor  fevereiro".
    Talvez devssemos observar que, nos meses de inverno, navegava-se pouco no Mediterrneo.
135 FERNANDES, 1951, v. 2, p. 71, 73, 77, 83, 101. O autor descreve, entre outras coisas de interesse, os
    "dolos" adorados pelos africanos.
136 Sobre "feitio", ver ARVEILLER, 1963, p. 229-30. O adjetivo portugus feitio, que originalmente
    significa "artificial", no era usado no sentido do francs factice (factcio), atestado no sculo XIII. Feitio
    originou uma srie inteira de palavras em outras lnguas. "Fetichista" vem, em francs, da traduo (1605)
    de um livro holands de viagens, de 1602, de P. de Marees; na mesma lngua, "fetiche" somente aparece
    em 1669. A palavra teria que ser estudada em portugus e castelhano.
137 Foi antes de mais nada por razes utilitrias que o Ocidente saiu de seu etnocentrismo  a constatao
    das diferenas geogrficas levou  busca das causas a que elas se deviam; mas a abordagem cientfica
    demorou muito tempo para completar a rica, e rpida, coleta de observaes.
138 Duarte Pacheco Pereira observou que o clima na costa do Benin era pouqussimo saudvel durante todo
    o ano, sendo particularmente insuportvel nos meses de agosto e setembro, quando chovia sem parar.
    "Todos estes rios  dizia  abundam de febres, que so muito nocivas a ns, brancos."
A frica nas relaes intercontinentais                                                                     759



a revoluo contra o legado cultural ptolomaico139, mas os africanos no viram
esvair-se os preconceitos inerentes a ele.
    A transposio da agricultura europeia para a frica logo se comprovou invivel,
mas restava a possibilidade de novos cultivos de cana-de-acar em terras virgens,
como as da ilha de So Tom, ocupada em 1470, j que o mercado aucareiro con-
tinuava a crescer. Desse projeto surgiu, como algo mais ou menos natural, a ideia
de "deslocar a mo de obra necessria"; assim os negros capturados foram levados
para outras ilhas produtoras de acar no "Mediterrneo atlntico" 140.
    O comrcio de escravos, com efeito, j estabelecera seu ritmo anual nas
costas africanas uns 30 anos antes de comear essa deportao para as ilhas141.
A partir de 1440, escravos capturados em vrios pontos da costa onde hoje se
situa a Mauritnia estavam sendo objeto de um escambo, justificado por Gomes
Eanes de Zurara em termos que bem nos poderiam parecer cnicos, no tivesse
ele revelado, primeiramente, as profundas contradies dos europeus:
    E aqui haveis de notar que estes negros, posto que sejam mouros como os outros,
    so porm servos daqueles por antigo costume, o qual creio que seja por causa da
    maldio que depois do dilvio lanou No sobre seu filho Caim [Cam] [ ... ] pero
    negros fossem, assim tinham almas como os outros, quanto mais que estes negros
    no vinham da linhagem de mouros, mas de gentios, pelo qual seriam melhores de
    trazer ao caminho da salvao142.
   Como a motivao do lucro ressarcia-lhes a conscincia143, muito poucos pare-
cem ter tido escrpulos quer na troca de um mouro branco por vrios negros, quer
na escravizao direta dos negros144. Em 1444, organizou-se uma companhia em
Lagos, Portugal, para explorar o trfico de escravos. No mesmo ano, nessa cidade,
240 escravos foram divididos entre o infante D. Henrique, o Navegador, a Igreja
de Lagos, os franciscanos do cabo So Vicente e comerciantes.


139 Duarte Pacheco Pereira: "Toda a costa africana, do Benin ao Congo, tem muitas rvores e gentes; tal regio
    est perto do crculo equatorial, que os antigos diziam inabitvel; ns, graas  experincia, descobrimos o
    contrrio ..."
140 VERLINDEN, 1955a, p. 630-1.
141 Ibid., p. 617; e 1967, p. 365-77.
142 ZURARA, 1896, 1899, p. 90.
143 Uma bula de 8 de janeiro de 1454, dirigida pelo papa Nicolau V ao rei Afonso V de Portugal, autorizava-o
    a privar da liberdade "todos os mouros e outros inimigos de Cristo", sem excetuar os "guineenses". Ver
    VERLINDEN, 1955a, p. 618,
144 Uma vantagem adicional era que os negros convertidos retomariam a seus pases e difundiriam o cristianismo.
    Antes disso, teriam dado toda a informao de que dispusessem sobre essa frica to pouco conhecida, onde
    haveria ouro em abundncia ...
760                                                                         frica do sculo xii ao sculo xvi



    Em 1448, estabeleceu-se em Arguin um "comrcio regular" que consistia na
troca de bens contra seres humanos. Arguin provavelmente garantiu o forneci-
mento de vrias centenas de escravos por ano at o final do sculo XV. Mais ao
sul, a organizao no foi menos "lucrativa": aps 1460, cerca de 1 mil escravos
foram levados do territrio entre o cabo Verde e Sine-Salum. Para as regies
ainda mais ao sul,  difcil fazerem-se estimativas relativas ao sculo XV145.
    O nmero de cativos chegados de Lagos, em Portugal,  Casa dos Escravos
rgia de Lisboa,  avaliado por C. Verlinden em cerca de 880 por ano146. Castela,
que reconhecera j em 1474 o monoplio portugus sobre esse trfico, comprava
escravos em Lisboa. No final do sculo  certo que havia um fluxo regular de
cativos para Portugal, embora no possamos fornecer dados seguros quanto ao seu
nmero147. A organizao do sistema do escambo estabilizou-se por volta do final
do sculo XV. O valor pelo qual se trocava um escravo, muito oscilante nos pri-
meiros anos desse comrcio, fixou-se ento num nvel uniforme praticamente por
toda parte: mais ou menos 6 escravos por 1 cavalo148. Na costa, como no interior
do continente, o cavalo era objeto muito valorizado nas trocas; mas, em algumas
regies, especialmente nas equatoriais, o cobre gradualmente substituiu o cavalo149.
Durante sculos, desgraadamente, o trfico negreiro constituiria de longe a mais
lucrativa de todas as transaes comerciais efetuadas por europeus nas costas da
frica.
    Em resumo, no sculo XV, os europeus causaram grande impacto nos vrios
arquiplagos da costa atlntica da frica, porm penetraram muito pouco no
interior do continente. No afetaram de forma duradoura os antigos sistemas
comerciais nem o equilbrio bsico de poderes. Sua tentativa de entrar em con-
tato com o mansa do Mali enviando-lhe uma embaixada entre 1481 e 1495
no parece ter tido maiores resultados.  difcil atribuir a essa medida qualquer



145 O florentino Bartolomeo Marchionni, que recebera a concesso para o trfico de cativos na Costa dos
    Escravos de 1486 a 1488, pagava por esse contrato 45 mil ducados anuais.
146 VERLINDEN, 1955a, p. 617 et seq.; ver tambm p. 358-62.
147 Na obra mais bem informada a esse respeito (CURTIN, 1969, p. 17-21) supe-se que 175 mil escravos
    tenham sido levados da frica no sculo XV. Acrescente-se a estes o nmero dado por C. Verlinden (1977).
    Numerosos estudos publicados por autores portugueses e espanhis tambm devem ser consultados, entre
    eles, CORTS-ALONSO, 1963, 1964 e 1972; SILVA, 1979. Ver tambm MOTA, 1981.
148 Ca da Mosto mostra que, de incio, 15 escravos eram trocados por 1 cavalo, no norte. Esse nmero variava
    de 10 a 12 na Senegmbia. No final do sculo XV, em Sine-Salum, a proporo ainda flutuava de 6 a
    15 por cavalo.
149 A importncia deste problema, que excede as costas africanas,  tratada pelo professor D. McCall em
    uma monografia em fase de preparao.
A frica nas relaes intercontinentais                                                                761



influncia sobre a migrao dos Fulfulde (Fulbe) rumo ao sul, que comeou por
volta de 1480-1490.
    As relaes dos europeus com o rei Nkuwu do Kongo, embora mais prximas,
conservaram-se ambguas e no tiveram consequncias decisivas nessa poca.
Em 1483, aps uma embaixada portuguesa, o monarca pediu que lhe enviassem
uma misso. Recebeu-a em 1491; ela inclua alguns franciscanos, que o batiza-
ram no dia 3 de maio daquele ano, carpinteiros, criadores de gado e pedreiros
para ensinar seus ofcios e supervision-los. Srias dificuldades surgiram, porm,
em 1493 ou 1494, quando o rei, tendo que escolher entre a poligamia e a nova
f, preferiu a apostasia. A introduo do cristianismo no teve melhor sucesso,
por essa poca, na costa do golfo do Benin ou na Senegmbia150. Com exceo
do Marrocos, que constitui um caso muito particular151, estabeleceu-se uma
estrutura institucional crist somente nas ilhas  as Canrias, por exemplo,
tiveram um bispo nessa poca.
    Em contrapartida, no tardou a fazer-se sentir a influncia indireta da pre-
sena dos europeus nas costas africanas, ainda que num espao geogrfico rela-
tivamente restrito. Na Senegmbia, os portugueses encontraram um equilbrio
dual estabelecido aparentemente desde muitos anos. Por um lado, realizando
uma espcie de bloqueio do ferro, conforme observaram os viajantes portugueses,
os mansa do Mali impuseram por certo tempo sua hegemonia  regio de Casa-
mance, at o norte do Gmbia; e, por outro, abandonaram a regio situada entre
o Senegal e o Gmbia ao poderoso Estado diolof (jolof ). A introduo do ferro
europeu, embora em pequenas quantidades, alterou esse equilbrio. O comrcio
portugus foi ainda mais eficaz no dissolver as relaes polticas e sociais ento
existentes, o que primeiro aconteceu na Senegmbia, repetindo-se depois o feito,
aps 1500, na costa do Benin e, especialmente, no Kongo. O buurba do Diolof
( Jolof ) conseguira, provavelmente desde alguns sculos, o reconhecimento de
seu poder pelo Cayor e pelo Bawol. A partir de 1455, o buurba pediu cavalos
aos recm-chegados, e por volta de 1484 essa prtica tornou-se regular152. Mas
por essa ocasio o governante do Diolof ( Jolof ), que at ento tinha seu inte-

150 Houve misses franciscanas na Guin-Bissau a partir de 1469. Em 1489, tentou-se converter um chefe
    seereer, que foi assassinado pela prpria escolta de portugueses quando regressava da Europa. Em 1484,
    os dominicanos estabeleceram-se no Benin.
151 De acordo com um tratado firmado pelo Marrocos e seus vrios parceiros europeus, em 1225, os cristos
    tinham sido autorizados a se instalar numa srie de lugares desse pas. As ordens mendicantes tentaram,
    sem sucesso, converter os habitantes; bispos tiveram suas ss em Marrakech e Fs; e abriram-se igrejas,
    nas feitorias da costa, para atender aos grupos de mercenrios cristos. Sobre esses pontos, ver JADIN,
    1965, p. 36-68.
152 Ver BOULGUE, 1968.
762                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



resse voltado para o comrcio domstico, passava a ocupar-se do comrcio que
se desenvolvia nas costas. Porm, como os tempos futuros haveriam de mostrar,
no novo comrcio a vantagem geogrfica seria do Cayor e do Bawol.
    As consequncias sociais dessa nova situao, contudo, logo se revelaram no
mnimo to importantes quanto as polticas. A sociedade da Senegmbia des-
crita pelos escritores ao tempo da descoberta inclua um nmero de ocupaes
das mais tpicas  como a dos griots, teceles, ferreiros e sapateiros  mas no
comerciantes. Na falta destes ltimos, foi o rei quem organizou o comrcio com
os recm-chegados, e tal atividade lhe proporcionou meios para reforar seu
poder, que  poca, por muitas razes, comeava a ser contestado. E, do lado dos
portugueses, cavalos e ferro  muito embora se reiterasse, de pblico, a hipcrita
proibio de exportar este metal para terras no crists  como que exigiam uma
"moeda de troca": o escravo.
    As fontes disponveis mostram, sem sombra de dvida, que existia "escravi-
do" nas sociedades da segunda metade do sculo XV, provavelmente devido a
uma srie de razes que os historiadores vo gradualmente descobrindo  guer-
ras, dvidas, fome , mas a estrutura desse tipo de sociedade no se baseava na
escravido, e a condio desses subalternos, na Senegmbia, era provavelmente
de natureza essencialmente privada.  bvio, porm, que as coisas mudaram bem
depressa, desde que se tornou necessrio "negociar com escravos" para pagar as
importaes. O poder real e aristocrtico obteve lucros pessoais com essa pr-
tica, mas tambm desonra social e moral. Com toda a probabilidade, num curto
espao de tempo as relaes sociais e as relaes com os povos vizinhos viram-se
profundamente alteradas.
    Na Senegmbia ainda existem centros de resistncia ao Isl; fora do antigo
Takrr, poucas chefarias foram convertidas. Entre os Diolof ( Jolof ), o Isl
comea a difundir-se nas camadas populares como um elemento possvel de
contestao do poder tradicional, enquanto os reis, da mesma forma que os
dirigentes da dinastia marroquina dos Watssidas, comeavam a permitir que os
europeus se envolvessem em problemas internos, entre reinos bem como entre
diferentes estratos sociais.
Concluso                                                                763



                             CAPTULO 27


                              Concluso
                            Djibril Tamsir Niane




    Este volume da Histria geral da frica se encerra com o incio da pre-
ponderncia e expanso dos europeus. Os sculos XV e XVI constituem um
perodo de mudana total, no somente na histria do continente negro, mas
tambm na histria geral de nosso planeta. Na verdade, iniciava-se nova era para
a humanidade: a caravela leve com suas velas manejveis, a plvora de canho
e a bssola proporcionaram  Europa o controle do mar e de todo o sistema
comercial do mundo.
    Os portos do Mediterrneo  esse lado do Velho Mundo  caram em
letargia, apesar do imenso esforo dos comerciantes italianos, principalmente
genoveses, que, durante todo o sculo XV, tentaram chegar ao ouro do Sudo
por intermdio dos comerciantes do Magreb. Em 1447, o clebre comerciante
Antonio Malfante conseguiu alcanar Tuat; aps sua estadia na regio, levou a
Gnova informaes preciosas sobre o distante Sudo e sobre o trfico de ouro.
Mas, como se sabe, foram os espanhis e os portugueses que encontraram as
rotas martimas para as Amricas, o Sudo e as ndias;  notvel que os reis
portugueses e espanhis s tenham podido realizar seus sonhos por meio dos
servios prestados pelos navegadores italianos. Com a circunavegao, os muul-
manos, que at ento haviam desempenhado papel preponderante, cederam
lugar aos cristos da Espanha e de Portugal. No foi por acaso que as descobertas
martimas foram feitas pelos portugueses e espanhis, herdeiros da cincia rabe
764                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



aps um longo contato, ao mesmo tempo belicoso e pacfico, como nos mostrou
o professor Mohamed Talbi1.
   Durante o perodo que vai do sculo XII ao XVI, a frica teve papel prepon-
derante na economia mundial; a descoberta da Amrica por Cristvo Colombo,
em 1492, revelou novas fontes de ouro e prata aos europeus; as minas do Peru e
do Mxico logo superaram as do Burem, no Bambuku, do Ngalam e de Mwene
Mutapa no fornecimento de metais preciosos.
   Trs caractersticas principais marcaram a histria da frica no perodo que
acabamos de estudar: primeiro, nos planos poltico e religioso; segundo, nos
planos econmico e cultural; e, terceiro, um dinamismo histrico.


      Nos planos poltico e religioso
    Em primeiro lugar, houve o desenvolvimento de reinos, imprios e cidades.
    O Isl impusera-se, atravs da arabizao progressiva de toda a frica seten-
trional; ao sul do Saara, tornou-se a religio oficial em muitos reinos e imprios,
mas a frica negra no foi arabizada: nessa rea, o Isl foi muito mais um acon-
tecimento poltico do que religioso. No entanto, por toda parte favoreceu as rela-
es comerciais. No Sudo, o volume das atividades comerciais provocou rpido
desenvolvimento social, fazendo surgir uma nova camada, a dos comerciantes e
eruditos negros. Ao sul do Saara, o Isl adaptou-se, ou, mais exatamente, foi um
verniz superficial que cobriu apenas a corte e os comerciantes que mantinham
contato com os rabo-berberes.
    A religio tradicional, baseada no culto dos ancestrais, continuou a mesma,
tanto entre os povos governados por soberanos islamizados quanto entre os
no muulmanos. A analogia do cerimonial de corte em Kumbi-Sleh, Niani e
no Yatenga  significativa. Os sditos cobriam-se de p e prostravam-se, antes
de se dirigir ao soberano. Tambm, por toda parte, o soberano era tido como
responsvel pela felicidade e prosperidade do imprio, sendo este o fundamento
do respeito que os sditos lhe manifestavam. Da alguns especialistas logo pas-
sarem a falar em "realeza sagrada" ou em "realeza divina". Finalmente,  preciso
sublinhar o esprito de tolerncia dos reis negros que favoreceram a instalao
dos rabo-berberes nas cidades, ainda antes de se converterem ao Isl. Mas sua
converso no acarretou o abandono das prticas religiosas ancestrais. Em cer-
tas regies, houve uma simbiose original; assim, no fundo tradicional sudans

1     Ver o captulo 3 deste volume.
Concluso                                                                            765



encontraremos muitas influncias islmicas, cujos mitos e heris foram apresen-
tados de forma bem diferente dos modelos antigos. O mesmo pode ser dito do
cristianismo e do fundo tradicional africano na Etipia. Mas as duas religies
reveladas, o Isl e o cristianismo, ficaram em p de guerra durante sculos. No
entanto, apesar da tenso entre muulmanos e cristos no Chifre da frica, o
comrcio nunca perdeu seus direitos2.
    O desenvolvimento de vias comerciais que saam do golfo de Aderi em direo ao
    interior do Chifre da frica foi, desde o sculo X da era crist, um dos elementos
    essenciais da histria de todos os povos da regio. Mesmo quando foram objeto de
    discrdia entre as principais potncias da regio, que disputavam seu controle, as
    vias contriburam para todo tipo de interao entre as populaes locais, de cultura,
    religio e lngua diferentes. [...] A partir de meados do sculo XIII, at mesmo o
    reino cristo do Zagwe, no norte da Etipia, havia deixado de considerar o sultanato
    de Dahlak como sua nica sada para o mar Vermelho e comeou a utilizar a rota
    de Zayla, que passava por suas provncias meridionais3.
    Desse modo, as oposies religiosas e as guerras episdicas provocadas por elas
no impediram a mistura de populaes, assim como os intercmbios culturais e
econmicos no foram interrompidos.
    No plano poltico, os grupos tnicos eram em sua maioria suficientemente
estruturados para resistir s tentativas de assimilao: mesmo quando um dos
grupos sobressaa e impunha sua lei, da resultava no a fuso em torno do cl
vencedor, mas a criao de uma federao de cls, na qual cada um mantinha
mais ou menos sua personalidade de acordo com o grau de estruturao. O fato
 marcante; no Magreb, por exemplo, os reinos marnida, hafssida e sdida eram
formados por grupos de cabilas (cls) em torno da cabila do soberano. O mesmo
aconteceu no Mali, onde os cls manden (mandingo) se agregaram a outros cls,
e tambm no Mossi, Rwanda e entre os Mwene Mutapa.
    No norte e nordeste do continente, o Magreb e o Egito tomaram-se partes
distintas no mundo muulmano. Aps o breve perodo de unidade do Magreb
sob os Almadas, trs Estados comearam a definir seus contornos: o Marrocos,
no extremo ocidente, a Tunsia e a Arglia. A personalidade de cada uma dessas
entidades se estruturou aps a quebra de unidade poltica efmera. Nessa rea,
 notvel que a arabizao tenha se generalizado muito lentamente. As cabilas
eram uma realidade poltica e social, e os soberanos tinham de contar com os

2   Ver, a esse respeito, o captulo 17 deste volume.
3   Captulo 17 deste volume.
766                                                                   frica do sculo xii ao sculo xvi



xeques, chefes de cls ou cabilas. Entre o golfo de Gabes, limite da Ifrkiya ou
Tunsia com o vale do Nilo, o espao lbio era uma zona fiel, ora aos soberanos
da Tunsia, ora aos do Cairo. Os ltimos, principalmente os da Dinastia dos
Mamelucos, deram ao Egito a supremacia no mundo muulmano. O Cairo foi
uma capital poltica ouvida no Ocidente e no Oriente.
    O Isl cimentou a ligao entre o Magreb, o Egito e o Oriente muulmano;
nenhuma regio, porm, teve a pretenso de se impor ou recriar a unidade
muulmana da poca anterior. No fim do perodo que estudamos, o Isl apre-
sentava claro recuo no plano poltico: os cristos passaram  ofensiva na Itlia
e na pennsula Ibrica; caiu Granada, o ltimo reino rabe da Espanha; os cris-
tos atravessaram o Mediterrneo e lanaram suas primeiras bases no Magreb;
a cruzada dita de So Lus  um exemplo. Na vanguarda da ofensiva crist, os
portugueses estabeleceram-se em Ceuta, no fim do sculo XV, querendo nitida-
mente fazer do Marrocos a cabea-de-ponte para sua penetrao na frica.
    No final do sculo XV, os soberanos da pennsula Ibrica tomaram a iniciativa
dos muulmanos, por terra e por mar, e procuraram as rotas de acesso ao Sudo,
rico em ouro.
    O caso da Nbia, onde o cristianismo foi desenraizado aps longa luta,
merece ser sublinhado4. De acordo com o professor Kropcek,
      segundo opinio corrente, [o cristianismo] era essencialmente uma religio de elite,
      sem razes profundas na massa popular. O culto estava associado, em ampla medida,
      ao clero copta e a uma cultura estrangeira, excluindo os santos ou mrtires nbios. [...]
      Apesar disso tudo, os afrescos das igrejas nas quais houve escavaes tambm revelam,
      s vezes, rostos negros de bispos nbios autctones. [...] A persistncia de crenas mais
      antigas que as crists  atestada no relato de Ibn Sulaym (sculo X), assim como pela
      sua continuao no islamismo popular sudans de nossos dias5.
   Mas a arabizao no foi feita pacificamente. Os invasores tiveram de dominar
muitas revoltas; na realidade, os negros foram submersos por ondas de imigrantes
rabes.
      Os historiadores contemporneos do Sudo niltico tm a convico firme e jus-
      tificada, de que no passado se atribuiu importncia excessiva ao fator setentrional
      (isto , ao rabe), em detrimento tanto dos desenvolvimentos internos autnomos
      quanto dos contatos com as culturas negras da frica. Este exemplo particular de


4     A esse respeito, ver o captulo 16 deste volume, que tambm mostra uma nova abordagem sobre as
      transformaes culturais e sociais ocorridas no mesmo perodo, na Nbia.
5     Captulo 16 deste volume.
Concluso                                                                        767



    influncias recebidas e exercidas pela zona sudanesa suscitou, desde algum tempo,
    abundantes especulaes6.
Pesquisas mais recentes mostraram que o Sudo niltico sempre foi zona de passa-
gem, rea de contato entre numerosos cls ou grupos tnicos negros. Anualmente
a arqueologia revela novos elementos da cultura negra na civilizao sudanesa.
    Existiram cls no deserto: no Saara, cada cl possua um domnio de per-
curso; a extrema mobilidade imposta pela natureza no permitiu o estabeleci-
mento de Estados centralizados; o mesmo aconteceu nas florestas equatoriais,
onde os pigmeus sobreviveram em condies extremamente difceis, acampando
aqui e ali, sempre  procura de caa.  o caso dos Khoi-Khoi, dos San e de todas
as populaes afastadas para os desertos ou para as florestas pelas populaes
sudanesas e bantu mais bem armadas, que conheciam o uso do ferro e sabiam
manejar lanas.
    Para concluir estas observaes gerais sobre a evoluo poltica, podemos
dizer que antes de 1600, em toda a frica, o estgio clnico havia sido alcanado
ou superado e que, onde quer que as condies o tenham permitido, criaram-se
cidades, reinos e imprios viveis. Desse modo, fundaram-se formaes polticas
originais, enriquecidas por contribuies externas, conhecendo-se muitos mto-
dos de governo. O passado africano conta com uma riqueza de experincias pol-
ticas cujo estudo foi apenas esboado. As diferentes etapas do desenvolvimento
poltico mostram uma evoluo que vai do cl ao agrupamento de cls em reinos
e ao agrupamento de reinos em imprios. A partir de agora,  possvel empreen-
der o estudo das instituies polticas em muitas regies do continente.
     certo que, desde antes do sculo XII da era crist, reinos e imprios haviam
se desenvolvido na extremidade meridional do continente, ao sul da linha que vai
da Nambia  foz do Limpopo. Nessa regio prosseguem as pesquisas arqueol-
gicas. Mas a existncia da Repblica da frica do Sul constitui um empecilho
para a pesquisa histrica. So poucas, de fato, as informaes sobre as regies
florestais da frica central e sobre as savanas do sul, apesar das contribuies
da arqueologia para trazer  luz a cultura material da regio. A anlise do pro-
fessor Vansina, especialista em tradies bantu, permite afirmar que, no perodo
considerado, o Estado, ou seja, um corpo poltico estruturado, j era realidade
bem antiga nas regies em questo:
    De qualquer modo, os Estados devem ser antigos. [No  por acaso] que as gran-
    des necrpoles de Sanga e Katoto se localizam s margens dos lagos do Lualaba,


6   Captulo 16 deste volume.
768                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



      exatamente ao sul do prprio centro do imprio luba, que poderia ser sua manifes-
      tao mais tardia. Mas as necrpoles datam de antes do ano 1000 da era crist. 
      indiscutvel que aglomeraes to densamente povoadas como aquelas cujos traos
      so conservados em Sanga no eram mais governadas por simples relaes entre os
      cls. Alm disso, a antiguidade dos Estados de tipo luba explicaria a vasta extenso
      de lnguas aparentadas que cobrem todo o Kasai oriental, a maior parte do Shaba e
      o nordeste, o Cinturo de Cobre e parte do noroeste da Zmbia.
     preciso mencionar tambm que, no comeo de nosso sculo, sditos bri-
tnicos criaram a Rhodesian Ancient Ruins Ltd. ou Ancient Ruins Co. Em
algumas dcadas essa famosa companhia pilhou os tmulos reais da civiliza-
o do Zimbbue-Mapungubwe, arrebatando sistematicamente os tesouros de
vrios deles. Essa civilizao da frica meridional parece ter muitas afinidades
com a do Zimbbue, pois trata-se de uma civilizao mineira, com construes
em pedra, como as de Manykeni em Moambique. No antigo Transvaal, os
Sotho e os Shona construram grandes monumentos em pedra; de acordo com
as pesquisas mais recentes, a civilizao de Mapungubwe realizou a simbiose
da cultura bantu com a de povos mais antigos, como os Khoi-Khoi. O uso
do ferro disseminara-se bem antes do sculo X; temos todos os motivos para
acreditar que os tmulos da colina de Mapungubwe e arredores pertenceram a
uma civilizao que floresceu pelo menos entre os sculos XI e XV, seno mais
cedo ainda, antes de entrar numa agonia longa e lenta sob os efeitos da insta-
bilidade poltica e social causada pelo trfico de negros. H algo de viciado no
raciocnio de certos pesquisadores que tendem a situar a introduo do ferro na
frica meridional somente por volta dos sculos IX e X, quando se sabe que,
em primeiro lugar, as relaes entre o vale do Nilo (Mroe Napata) e a regio
interlacustre e as savanas do Limpopo foram contnuas; em segundo lugar, no
havia nenhum obstculo ao deslocamento dos homens e, consequentemente,
aos intercmbios regionais, tanto no plano cultural quanto no comercial. Alm
disso, as pesquisas mais recentes indicam que talvez j se trabalhasse o ferro na
frica meridional antes da era crist, o que veio abalar muitas teorias.
    H ainda muitos pontos obscuros sobre a gnese e o desenvolvimento dos rei-
nos dessas regies no perodo que estudamos. Mas, se ainda levantamos questes
sobre o Zimbbue, no  mais para saber se os construtores dos monumentos
ciclpicos so brancos ou negros. Est demonstrado que essas construes em
pedra so obra dos Shona. Mas quais foram as instituies polticas desse reino?
Como era sua estrutura social? Como se operavam os intercmbios comerciais
entre o Zimbbue e as cidades do litoral? So questes ainda sem resposta.
Concluso                                                                    769



    Nos planos econmico e cultural
    A caracterstica mais marcante  a intensidade das relaes inter-regionais e
intercontinentais estimuladas por mercadores rabes, persas, berberes, chineses,
manden (mandingo) e haussa. Ao sul, os Shona e outras populaes das savanas
subequatoriais desenvolveram um comrcio florescente em direo ao oceano
Atlntico e ao oceano ndico atravs do Congo, da regio interlacustre e do
Mwene Mutapa.
    Os soberanos negros estavam perfeitamente conscientes do papel econ-
mico e poltico de metais como o ouro, o cobre, o ferro, cuja explorao era
controlada. Esse aspecto  essencial, pois em muitos estudos e artigos sobre a
frica tem-se a impresso de que este continente era um reservatrio de ouro
para rabes, berberes e persas, como se os soberanos s existissem para servir
aos estrangeiros; nesses estudos transparece a negao implcita da existncia
de Estados organizados. No  por acaso que os soberanos africanos proibiram,
nessa poca, o acesso de viajantes rabes s regies aurferas!
    Cada parceiro lucrava com o comrcio, baseado no princpio da igualdade.
Certamente tambm no se devia ao acaso que, no Sudo, o maior soberano
portasse o ttulo de kaya maghan, rei do ouro, e, ao sul, seu homlogo de pa-
ses ricos em ouro, cobre e ferro, de mwene mutapa, senhor dos metais. Esses
soberanos e seus povos sabiam perfeitamente que a prosperidade e a fama dos
reinos fundamentavam-se nos metais preciosos. Os soberanos conheciam a
importncia dos metais em suas relaes com o exterior. O kaya maghan tinha
direito exclusivo sobre as pepitas de ouro e fiscalizava rigorosamente a sada do
metal precioso. O mesmo devia acontecer no Zimbbue e no Mwene Mutapa.
Isto deve ser enfatizado, pois alguns africanistas nos fazem supor que os africa-
nos e seus soberanos entregavam seus tesouros aos primeiros comerciantes que
aparecessem e no tinham conscincia do bem pblico!
    Esses dirigentes souberam jogar com a atrao do ouro para garantir os
servios dos estrangeiros; assim, o mansa Ms I atraiu  sua capital arquitetos,
eruditos e religiosos, a quem pagou penses em ouro. Os soberanos do Zimb-
bue tambm pagaram com ouro a porcelana chinesa e outros produtos de luxo,
muito usados na corte. Graas ao ouro, ao cobre e ao marfim, os soberanos afri-
canos obtiveram produtos e gneros de primeira necessidade, como o sal (pago,
se fosse necessrio, por seu peso em ouro), porcelanas chinesas, brocados, sedas
e excelentes armas, todas coisas que realavam o brilho da corte.
770                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    A frica setentrional e as costas orientais tiveram importncia particular
como intermedirios: pela frica setentrional transitavam produtos e merca-
dorias da Europa e os metais preciosos que davam vida s relaes comerciais
no mundo mediterrneo. Os privilgios de tal posio no explicariam a luta
acirrada entre as cidades comerciantes do Magreb pelo controle das vias por
onde fluam as riquezas do Sudo? Ibn Khaldn compreendeu perfeitamente
esse fenmeno na parte de sua Histria universal em que trata dos berberes.
Foi por isso provavelmente que empreendeu a longa e minuciosa pesquisa para
conhecer a histria dos territrios negros, dos quais dependiam, em grande
escala, o comrcio e a atividade das cidades magrebinas e egpcias.
    A costa oriental, desde o Chifre da frica at Sofala, se abre amplamente
para o oceano ndico, o que pe a frica em contato direto com o mundo
oriental e extremo-oriental. Se o trfego martimo permitiu a edificao de
cidades comerciantes na costa, os reis do interior, principalmente "os senhores
dos metais", no deixaram de construir cidades e monumentos qualificados de
ciclpicos pela imponncia das dimenses e da arquitetura, que no deixam
transparecer nenhuma influncia exterior.
    No perodo que estudamos, o comrcio baseava-se no intercmbio de tecidos,
armas e vrios produtos provenientes das profundezas da savana e da floresta,
vendidos at nas longnquas China e Indonsia. Esta era a importncia do
oceano que banha Madagscar. A grande ilha realizou, como todas as cidades
da costa, uma simbiose das culturas oriental e africana em todos os planos:
lingustico, econmico etc. Com o comrcio, novas plantas originrias da sia
foram introduzidas na frica, como o algodo, importado pelos rabes para o
Sudo desde antes do sculo X.
    As atividades culturais e os intercmbios inter-regionais jamais haviam atin-
gido tal importncia anteriormente: o comrcio do livro florescia em Gao e Tom-
buctu. Em todo o Sudo, do Atlntico ao mar Vermelho, nasceu uma literatura
negro-muulmana. Os reinos da Abissnia, do Bornu e do Songhai, do Takrr e do
Mali desenvolveram uma literatura original, onde a teologia e a histria ocupavam
lugar de destaque; as cidades ao sul do Saara mantiveram relaes culturais com
as do norte por intermdio das peregrinaes ou do comrcio.
    Entre os sculos XII e XVI ocorreu a disperso dos povos de lngua bantu
por toda a frica central. Possuidores de tcnica agrcola mais eficiente, graas
aos instrumentos de ferro, a influncia cultural bantu no cessou de se afirmar
em direo ao sul. Em 1497, quando Vasco da Gama dobrou o cabo da Boa
Esperana, a parte meridional do continente h muito j era sede de civilizaes
brilhantes: a agricultura e a criao de gado prosperavam. Mas, para justificar a
Concluso                                                                     771



instalao precoce de europeus na extremidade sul do continente, os estudiosos
no hesitaram em afirmar que essa parte da frica estava quase vazia! Era uma
justificativa pro domo bem cmoda, mas no resistiu s pesquisas histricas. A
verdade  que, a partir do sculo XVII, os holandeses e, a seguir, os ingleses
comearam a empurrar os africanos para as regies infrteis. No sculo XIX,
aconteceu a invaso das regies mineiras do Zimbbue e do Transvaal, explo-
radas cinco sculos antes pelos poderosos soberanos de Mwene Mutapa, de
Mapungubwe e Manykeni, em Moambique.
    Apesar da grande importncia dos metais nesse perodo, a agricultura era a
base principal da economia dos reinos ao sul do Saara; a produo apoiava-se
na explorao familiar das terras. No entanto, aqui e ali, existiam grupos de
populaes escravizadas que trabalhavam para os soberanos. Na frica negra era
mais comum o sistema de servido, com tributos e prazos fixados pela tradio;
nos osis ao sul do Magreb, escravos e camponeses exploravam a terra para os
grandes senhores e soberanos. Foram desenvolvidas grandes plantaes nas ilhas
prximas das costas da frica oriental. Mas em nenhum lugar, nesse perodo,
grupos de escravos foram explorados de maneira sistemtica.
    A criao de gado, atividade principal em algumas sociedades, estava sem-
pre intimamente ligada, nas regies midas e de campos,  agricultura. A zona
do Sahel sudans era o domnio de percurso dos pastores; alguns grupos que
chegaram a penetrar em terras ao sul, tendiam a se sedentarizar: foi o caso dos
Fulbe (Fulani) no Macina, no Futa-Djalon etc.
    Os ofcios, na frica negra, eram reservados aos membros das castas, pelo
menos na zona sudanesa; em outras regies, como no Magreb ou no Egito, organi-
zavam-se associaes de ofcios, verdadeiras corporaes. A falta de documentao
escrita no autoriza falar da organizao dos ofcios na frica meridional, onde,
no entanto, o trabalho em metal havia atingido alto nvel. O estudo minucioso
das tradies poder dar indicaes preciosas sobre a organizao do trabalho
nessas regies.
    Em geral, o modo de produo patriarcal prevalecia em quase toda parte. O
chefe do cl, o chefe de cabila, o rei ou o imperador no eram tiranos, mas frutos
de uma tradio que tendia a proteger o homem das extorses ou arbitrarieda-
des dos chefes ou reis. Nos sculos XIV e XV, no Magreb, eram frequentes as
revoltas das cabilas contra os coletores de impostos do sulto.
    Um fato muito importante  a existncia de uma classe de mercadores, embrio
de uma burguesia. Os mercadores, islamizados ou no, facilitaram as relaes entre
regies e povos. Isto foi enfatizado em vrios captulos do presente volume. Foi
772                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



nesse perodo que se desenvolveu a vocao para o comrcio de povos como os
Manden (Mandingo) e os Haussa.
   Se  permitido fazer uma comparao, pode-se dizer que, por todo o Velho
Mundo, da frica  China, passando pela Arbia e pela Europa, do Atlntico
ao Bsforo, os reinos e os imprios haviam alcanado alto nvel de desenvolvi-
mento: a aventura europeia, iniciada no sculo XV, poderia ter sido empreendida
pela frica ou pela China, especialmente a segunda, que conhecia h muito
tempo a bssola e a plvora. Um imperador do Mali no havia tentado descobrir
onde acabava o oceano Atlntico, o "mar circundante"?7 Mas a roda da Histria
havia escolhido a Europa. Por quase cinco sculos a Europa Ocidental, esta
ponta avanada da sia, predominaria.


      O dinamismo histrico africano
    Aps essas constataes, no se pode deixar de observar que a grande carac-
terstica do continente durante o perodo estudado foi um dinamismo histrico
prprio. No  possvel explicar o desenvolvimento das civilizaes no conti-
nente, durante o perodo estudado, pela simples influncia do Isl, como se fez
at agora. Vimos que as brilhantes civilizaes do Benin, do Congo (Zaire), do
Mapungubwe e do Zimbbue desmentem tal teoria.
    Mesmo os Estados islamizados tiravam sua fora moral menos do Isl que
da tradio africana, mais viva que nunca. As populaes autctones da frica
setentrional, apesar de islamizadas e arabizadas, preservaram a identidade cultural.
Foi o caso dos berberes, que, tendo aceito o Isl, conseguiram conservar a lngua
e alguns traos de cultura.
    A instabilidade poltica constatada em algumas regies devia-se a causas
internas, e as solues que se davam aos problemas refletiam as tendncias
profundas das populaes. Um caso tpico foi a introduo do Isl na frica
ocidental: o movimento almorvida foi essencialmente negro-berbere; seu
desenvolvimento provocou no Sudo, por exemplo, o desmembramento do
velho imprio de Gana. Seguiu-se uma srie de guerras entre as provncias, do
que resultou a restaurao do imprio sob a gide dos Manden (Maninka), cujos
soberanos se haviam convertido j no sculo XI. O novo imprio ou Imprio do
Mali ganhou novas provncias e estendeu sua influncia para bem alm de Gana.
Num quadro com enfeites islmicos, era uma nova evoluo que despontava,

7     Ver o captulo 26 deste volume.
Concluso                                                                                               773



preldio ao nascimento de novas cidades de uma nova sociedade logo domi-
nada por uma aristocracia de mercadores e eruditos negros. So inmeros os
exemplos que mostram a dinmica interna das sociedades africanas. Tambm o
cristianismo etope foi um exemplo notvel; isolada do resto do mundo cristo,
a Etipia modelou sua Igreja de acordo com seus valores antigos.
    No plano terico, ainda h muitas controvrsias para definir o modo de pro-
duo que prevaleceu na frica pr-colonial. Mas, como se pode caracterizar o
modo de produo de pases dos quais no se conhece a histria, nem mesmo
em linhas gerais? Em primeiro lugar,  necessrio reconstituir o passado, ou
seja, mostrar a inter-relao das instituies e apresentar os componentes das
sociedades, o que ainda requer muitas pesquisas mais8.
    Como dissemos acima, se o ouro, o cobre e o marfim ocupavam lugar de
destaque nos intercmbios da frica tropical com o resto do mundo, para o kaya
maghan, o mansa e o "senhor dos metais", a base da economia era a agricultura,
pois os camponeses e os artesos constituam a maior parte da populao.
    Os comerciantes e os dignitrios formavam, na corte e nas cidades, uma aris-
tocracia numericamente pequena em relao  massa de camponeses e criadores
de gado. Um fato essencial a se observar  que a propriedade privada da terra
no foi a base da evoluo social e econmica da frica negra, como aconteceu
com a Europa. Na frica negra, antes da imposio da economia monetria, a
terra era considerada um bem indiviso da coletividade. Os reis ou imperadores
tinham "domnios humanos", ou seja, terras exploradas por coletividades escra-
vizadas; mas um exame mais atento mostra que se tratava mais de servido que
de escravatura. No Imprio do Mali, por exemplo, e, em seguida, no de Gao, os
povos e as etnias escravizados eram obrigados a pagar tributos fixos por famlia,
como mostrou claramente o professor Skn Mody Cissoko:
    As tcnicas agrcolas no evoluram muito desde aquele tempo. A enxada (o kaunu
    dos Songhai), os adubos animais, a prtica da horticultura no vale, a cultura itine-
    rante na savana etc., so os mesmos h sculos, mas o vale do Nger torna-se mais
    densamente povoado por indivduos que praticam a agricultura, a pesca e a criao.
    As grandes propriedades dos prncipes ou dos ulems eram exploradas por escravos
    estabelecidos em colnias agrcolas. O prprio askiya, grande proprietrio de terras,
    tinha seus campos, espalhados pelo vale, cultivados por comunidades de escravos
    sob a direo de capatazes, os fanfa. Uma espcie de imposto era arrecadado sobre



8   Deve-se evitar, sobretudo, generalizaes apressadas, uma vez que as linhas gerais da histria de certas
    regies do continente apenas comeam a se esboar.
774                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



      as colheitas e enviado a Gao. O mesmo ocorria com os escravos pertencentes a
      particulares9.
    No entanto, em algumas regies os escravos tiveram papel essencial na eco-
nomia e no exerccio do poder. Foi o caso do Sudo central, entre o Nger e o
Chade. Nas cidades haussa, parte do exrcito era formada por escravos. Andr
Salifou tambm distingue os escravos da coroa dos escravos domsticos. Os
escravos da coroa eram escolhidos entre os servidores e colaboradores mais
dedicados aos reis.
    Os jovens escravos cujos pais haviam sido capturados, vendidos ou mesmo
mortos durante o combate eram em geral criados na corte com os prncipes do
pas, e finalmente s reconheciam como pai o prprio sulto, sob cuja sombra
haviam crescido. No eram vendidos ou maltratados. Alm disso, ocupavam
postos importantes nos aparelhos militar e administrativo do pas.
    Esses fatos no eram novidade; com frequncia, para contrabalanar a influ-
ncia da aristocracia, o rei confiava postos importantes a escravos que natural-
mente se haviam devotado  pessoa do soberano e no tinham ambio poltica.
Houve casos clebres de escravos poderosos na histria do Magreb, do Egito e
do Mali. De modo geral, o nmero de escravos nunca ultrapassou o de campo-
neses. Os homens livres trabalhavam o solo por sua prpria conta, mas homens
livres e tributrios deviam servios ao soberano ou ao senhor local.
    Na fase atual das pesquisas podemos afirmar que:

      1. Apesar de a economia fundamentar-se na agricultura e na criao de gado,
         a propriedade privada no era generalizada; o direito principal pertencia
          comunidade. A classe de mercadores comeava a realizar certa acumu-
         lao de capital, mas acabou no formando uma verdadeira burguesia.
      2. A frica no era um continente subpovoado, fato extremamente impor-
         tante; um clebre historiador escreveu: "A civilizao  filha do nmero".
         Sem esse "nmero", os imperadores de Gana no teriam podido edificar
         os grandes palcios de Kumbi-Sleh, nem os magrebinos as belas mes-
         quitas de Fs, Kairuan e os grandes entrepostos de Sidjilmsa. Sem esse
         "nmero", os imperadores e reis do sul no teriam podido construir o
         Grande Zimbbue. Assim, o continente era muito povoado, principal-
         merite a frica ao sul do Saara: no vale do Senegal, no delta interior do



9     Ver o captulo 8 deste volume.
Concluso                                                                                              775



        Nger, ao redor do lago Chade, havia centenas de aldeias agrcolas, centros
        comerciais e cidades.
    As primeiras escavaes arqueolgicas nessas regies permitem a afirma-
o categrica nessa questo. Os monumentos gigantescos no foram obra de
"hordas de escravos"; graas  piedade dos sditos e  sua concepo de realeza,
que fazia com que todos se considerassem filhos do rei, foi possvel realizar
esses trabalhos. A coero sobre as "hordas de escravos" parece cada vez mais
uma explicao superficial, como se as catedrais gticas e as baslicas romanas
tivessem sido construdas por escravos ameaados pelo chicote. A f tem grande
ressonncia no corao e esprito dos homens.
    Temos algumas indicaes sobre a populao de certas regies; de acordo
com Mahmd Ka`ti, o Mali contava 400 cidades ou grandes aglomeraes; as
aldeias agrcolas formavam uma linha contnua ao longo dos rios. A produo
agrcola era muito importante; o j citado professor Skn Mody Cissoko
enfatizou a importncia da produo de arroz, por exemplo, no Songhai dos
sculos XV e XVI: um nico fanfa ou capataz; dirigindo os trabalhos de uma
comunidade de tributrios, podia fornecer mais de 1 000 sunu ao rei. Os sunu
eram grandes sacos de couro cuja capacidade era mais ou menos de 70 kg. Para
se ter uma ideia das reservas de vveres do rei, basta lembrar que o rei de Gao ali-
mentava e sustentava quase unicamente com suas reservas agrcolas um exrcito
permanente (100 mil homens), guarnies perto das grandes cidades comerciais
e uma corte muito numerosa.  difcil se fazer uma estimativa da populao; no
entanto, o grande nmero de cidades comerciais bem povoadas e a construo de
monumentos como os do Zimbbue levam a supor uma populao densa. Nessa
poca de expanso comercial, as cidades podiam totalizar 10% da populao
global do continente. A frica, portanto, estava longe de ser subpovoada; no
entanto, de norte a sul e de leste a oeste a populao se espalhava desigualmente,
devido  existncia de desertos e densas florestas. A frica dessa poca deve ter
sofrido epidemias, perodos de seca ou grandes inundaes, mas os documentos
de que dispomos falam pouco de fome. Os viajantes rabes sublinharam com
frequncia a abundncia de vveres; Ibn Battta, o globe-trotter do sculo XIV,
observou-a nas costas orientais e no Sudo. Para o continente como um todo,
pode-se estimar uma populao de, no mnimo, 200 milhes10.



10   As regies que mais forneceram escravos encontram-se entre as mais povoadas: a costa do golfo da Guin
     (da Repblica da Costa do Marfim  Repblica Federal da Nigria), a foz do Congo (Zaire), a atual
     Repblica popular de Angola etc.
776                                                      frica do sculo xii ao sculo xvi



    3. O comrcio de escravos foi praticado antes de 1600 na frica, mas os
       nmeros envolvidos eram limitados. No h nenhuma comparao com o
       trfico negreiro que a Europa iria impor ao mundo negro a partir de 1500.
       Os europeus mantiveram inicialmente boas relaes comerciais com os
       soberanos do Sudo, da Guin, do Congo etc.; por volta de 1550, porm,
       os portugueses foram afastados pelos holandeses, ingleses e franceses,
       que sem exceo construram emprios e fortes nas costas africanas, para
       obter mais proveito desse trfico.
    Para melhor conhecer a histria do perodo do sculo XII ao sculo XIV,
as pesquisas devem se apoiar cada vez mais na arqueologia, na lingustica, na
antropologia e, tambm, nas tradies orais. Estas podem, por um lado, ser
confrontadas com os escritos e, por outro, podem guiar  como foi o caso em
Kumbi-Sleh e Niani  os arquelogos em campo. A busca de manuscritos deve
continuar; parece que existem bem mais documentos escritos sobre esse per-
odo do que se pensava. A insistncia na necessidade de proceder a uma coleta
sistemtica das tradies orais da frica negra nunca ser exagerada. O caso da
Somlia  um exemplo para reflexo; l foram organizadas coletas sistemticas;
nada foi negligenciado, nem canes infantis, nem cantos populares, nem fr-
mulas mgicas. Gostaramos de citar aqui um trabalho indito do saudoso Musa
Galaal, membro do Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma
Histria Geral da frica, intitulado: "Stars, seasons and weather" 11. Na Somlia,
o estudo das estrelas e das constelaes  mencionado em lngua somali como
xiddigo   apresentado em forma de poemas curtos, assim como o estudo formal
do cu propriamente dito, das constelaes e estrelas visveis em certos perodos
do ano, que serviam de base para o estabelecimento do calendrio.  notvel
que o estudo das estrelas estivesse intimamente ligado  vida do povo. Li com
raro prazer o manuscrito que Musa Galaal teve a gentileza de me emprestar. Sua
leitura confirmou minha crena de que as tradies orais ainda nos reservam
muitas surpresas agradveis. Nessa obra o autor reuniu elementos da astronomia
somali e revelou que os camponeses e pastores conheciam muito bem a cosmo-
grafia. Todas as constelaes e planetas so descritos em breves cantos; o calen-
drio das atividades agrcolas e as migraes dos nmades fundamentavam-se
em conhecimentos seguros, frutos de experincias de muitos sculos. Quando
o estudo de Musa Galaal for publicado, certamente levar muitos africanos a se
voltarem com interesse para a cincia dita "tradicional".


11    GALAAL, no publicado.
Concluso                                                                     777



    Nossa longa experincia no campo da tradio oral nos autoriza a afirmar que
h ainda muito a se estudar neste domnio, onde s se v, na maioria das vezes,
o aspecto histrico ou literrio; os Dogon do Mali e muitas outras populaes
aprofundaram suas pesquisas sobre o cu e as constelaes; outras populaes
dedicaram sua ateno ao estudo do solo e das plantas. A tradio oral oferece
material para muitos tipos de pesquisa; no deve, pois, chamar a ateno ape-
nas dos historiadores ou eruditos, mas tambm dos cientistas, dos juristas e at
dos cientistas polticos, que por vrios motivos teriam interesse em estudar as
antigas instituies da frica negra. Mas reconheamos que  difcil penetrar
no mundo da tradio oral, pois os "iniciados" vivem num mundo pouco aberto,
seno fechado. Cabe aos Estados africanos criar melhores condies para que
os detentores de nosso patrimnio possam participar no desenvolvimento de
nossa sociedade em mutao.
    Ainda h nas aldeias distantes das regies mais isoladas bom nmero de
"iniciados" e "sbios aldees". Pouco foi perdido, mas tudo ainda est por se
fazer. Em ltima anlise,  mais um trabalho para os governos africanos que
para pesquisadores isolados. Por um lado, os governos teriam de definir uma
poltica no campo da pesquisa e proporcionar meios aos especialistas africanos;
por outro, deveriam preparar as populaes para participar de um trabalho de
massa, onde todos se sentissem envolvidos. O conhecimento da terra e da cultura
local  indispensvel para aqueles que querem agir em favor das populaes dos
campos.
    Antes de deixar o problema das tradies, observemos que a tradio artstica
africana tem suas razes justamente nesse perodo, que viu nascerem e se desenvol-
verem os povos e Estados que deram origem  frica moderna. A arte muulmana
do Magreb e do Egito produziu nessa poca algumas de suas obras-primas, como
as mesquitas de Fs, de Tnis, de Tlemcen e do Egito dos sculos XIV e XV. Se
os objetos de arte da frica ao sul do Saara so raros, durante esse perodo,
 porque, no que se refere s esculturas, por exemplo, os artistas trabalhavam
sobretudo a madeira; mas, em parte, essa raridade deve-se tambm a nossa
ignorncia. Existem em Portugal, na Frana, na Itlia, na Gr-Bretanha, nos
museus de Paris, Londres, Bruxelas, Berlim, Lisboa e Vaticano obras-primas de
cuja existncia os africanos nem mesmo tm conhecimento.
    Em compensao, a civilizao do Ife-Benin nos legou os clebres bronzes e
cabeas de lato, conhecidos em todo o mundo. A arte do Ife-Benin  de um natu-
ralismo to puro que os "africanistas" comearam por negar sua origem africana.
Mas hoje se sabe que o Ife no  um caso isolado; os bronzes de Igbo-Ikwu e do
Nupe provam que a tcnica da fundio do bronze era amplamente difundida,
778                                                  frica do sculo xii ao sculo xvi



como foi demonstrado pelas recentes descobertas de estatuetas de bronze na
Repblica da Guin-Bissau. O problema da difuso dessa tcnica se enquadra
num contexto bem mais amplo.
  O que nos revelaro no plano da arte as escavaes do Zimbbue e da frica
meridional? De qualquer forma, pode-se cultivar as maiores esperanas.
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma Histria Geral da frica   779




          Membros do Comit Cientfico
       Internacional para a Redao de uma
             Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa. Sr. Boubou Hama (Nger)  1971-1978 (Demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa. Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
Prof. D. Chanaiwa (Zimbbue)  1975
Prof. P. D. Curtin (EUA)  1975
Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal)  1971 Prof. H. Djait (Tunsia)  1975
Prof. J. D. Fage (Reino Unido)  1971-1981 (Demitido)
S. Exa. Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  1971-1981 (Falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat Ba (Mali)  1971-1978 (Demitido)
780                                                               frica do sculo xii ao sculo xvi



Dr. I. S. El-Hareir (Lbia)  1978
Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Co diretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  1971-1981 (Falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971
Prof. J. Ki-Zerbo (Alto Volta)  1971
Coordenador do volume I
Sr. D. Laya (Nger)  1979
Dr. A. Letnev (URSS)  1971
Dr. G. Mokhtar (Egito)  1971 Coordenador do volume II
Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971
Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)  1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  1979-1980 (Falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  1971-1980 (Falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  1978-1982 (Falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  1976-1978 (Demitido em 1978; fale-
cido em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do
Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, Unesco, 1, rue Miollis,
75015 Paris
Dados biogrficos dos autores do volume IV                                              781




                         Dados biogrficos dos
                         autores do volume IV




  Introduo        D. T. Niane (Senegal): especialista no mundo mandingo; publicou inmeras
                    obras sobre a frica ocidental ao tempo dos grandes imprios, do sculo XI
                    ao XVI; antigo diretor da Fundao L. S. Senghor, Dakar; pesquisador.
  Captulo 2        O. Saidi (Tunsia): especialista na histria dos Almadas; publicou diversas
                    obras sobre a histria clssica do Magreb, da Tunsia em particular; leciona
                    histria na Faculdade de Letras e na cole Normale Suprieure da Uni-
                    versidade de Tnis.
  Captulo 3        M. Talbi (Tunsia): islamlogo; publicou numerosas obras e artigos
                    sobre vrios aspectos da religio e da cultura islamtica; leciona na
                    Faculdade de Letras, Tnis.
  Captulo 4        I. Hrbek (Tchecoslovquia): especialista nas fontes rabes da histria
                    da frica, particularmente da frica ocidental, e no Isl; publicou
                    muitas obras e artigos relativos a essas reas; pesquisador do Instituto
                    Oriental, Praga.
  Captulo 5        H. R. Idris (Frana): especialista na lngua e na literatura rabes; lecionou
                    histria do ocidente muulmano; falecido.
  Captulo 6        D. T. Niane
  Captulo 7        M. Ly-Tall (Sra.) (Mali): especialista na histria do Mali; publicou
                    obras sobre o Imprio do Mali; leciona na cole Normale Suprieure,
                    Bamako; pesquisadora.
782                                                           frica do sculo xii ao sculo xvi



 Captulo 8    S. M. Cissoko (Senegal): especialista na histria do Tombuctu medieval;
               tem vrios trabalhos publicados sobre a histria da frica ocidental;
               mestre-assistente da Faculdade de Artes, Dakar.
 Captulo 9    M. Izard (Frana): especialista na histria da bacia do Volta e particular-
               mente na dos reinos mossi; tem vrias obras publicadas sobre a histria
               pr-colonial, colonial e moderna dessa regio; pesquisador snior no Centre
               National de la Recherche Scientifique, Paris.
 Captulo 10   D. Lange (Repblica Federal da Alemanha): especialista na histria
               pr-colonial do Sudo central; publicou vrios trabalhos sobre esse
               perodo; leciona na Universidade de Niamey.
 Captulo 11   M. Adamu (Nigria): especialista na histria dos Haussa; tem vrias
               obras publicadas sobre a matria; diretor do Centre for Nigerian Cultural
               Studies da Universidade Ahmadu Bello, Zaria.
               A. Salifou (Nger): especialista na histria dos Haussa; publicou diversos
               trabalhos sobre o Nger e a Nigria; leciona no Nger.
 Captulo 12   Y. Person (Frana): especialista em histria da frica, em particular
               no mundo mandingo; tem muitas obras publicadas sobre histria da
               frica; professor da Universidade de Paris I, Panthon-Sorbonne;
               falecido.
 Captulo 13   P. Kipre (Costa do Marfim): especialista na histria moderna e contempo-
               rnea da Costa do Marfim; publicou vrios artigos com base na tradio
               oral; leciona na cole Normale Suprieure, Abidj.
 Captulo 14   A. F. C. Ryder (Reino Unido): especialista na histria da frica oci-
               dental; publicou vrias obras sobre os perodos pr-colonial e colonial
               dessa regio; professor da Universidade de Bristol.
 Captulo 15   J. C. Garcin (Frana): especialista na histria do Egito muulmano;
               publicou vrios estudos sobre o Egito mameluco e sobre o alto Egito
               muulmano; leciona na Universidade de Provena, Aix-en-Provence.
 Captulo 16   L. Kropcek (Tchecoslovquia): especialista na histria social, poltica
               e religiosa do Sudo; publicou vrias obras sobre o Darfr; leciona
               no Departamento de Estudos Orientais e Africanos da Universidade
               Charles, Praga.
 Captulo 17   T. Tamrat (Etipia): especialista na histria medieval da Etipia; tem
               vrios estudos publicados sobre esse perodo; leciona na Universidade
               de Adis-Abeba.
 Captulo 18   V. Matveiev (URSS): historiador e etnlogo; publicou numerosas obras
               sobre as fontes rabes da histria da frica; pesquisador snior do Insti-
               tuto de Etnografia da Academia de Cincias da URSS, Leningrado.
Dados biogrficos dos autores do volume IV                                                  783



  Captulo 19        C. Ehret (EUA): linguista e historiador da frica oriental, tem muitos
                     trabalhos e artigos publicados sobre a histria pr-colonial e colo-
                     nial da frica oriental; leciona na Universidade da Califrnia, Los
                     Angeles.
  Captulo 20        B. A. Ogot (Qunia): especialista em histria da frica, em parti-
                     cular na histria da frica oriental; publicou vrias obras e artigos
                     sobre a histria e a arqueologia da frica oriental; professor, pes-
                     quisador, antigo diretor do International Louis Leakey Memorial
                     Institute for African Prehistory, Nairobi.
  Captulo 21        B. M. Fagan (Reino Unido): antroplogo, arquelogo; publicou nume-
                     rosas obras sobre as culturas da Idade do Ferro e da Idade da Pedra
                     da frica oriental e meridional; professor de antropologia na Univer-
                     sidade da Califrnia, Santa Brbara.
  Captulo 22        J. Vansina (Blgica): especialista em tradio oral; publicou vrias obras
                     sobre a histria da frica central e equatorial; leciona na Universidade
                     de Wisconsin, EUA.
  Captulo 23        L. Ngcongco (Botsuana): especialista na histria pr-colonial da frica
                     meridional; publicou vrios estudos sobre a Botsuana dos tempos pr-
                     coloniais; lecionou na Universidade de Botsuana; diretor do Instituto
                     Nacional de Pesquisa, Gaberones.
                     J. Vansina
  Captulo 24        F. Esoavelomandroso (Sra.) (Madagscar): especialista na histria
                     de Madagscar; publicou vrios estudos sobre a histria de Mada-
                     gscar do sculo XVI ao XVIII; lecionou na Faculdade de Letras,
                     Antananarivo.
  Captulo 25        D. T. Niane
  Captulo 26        J. Devisse (Frana): especialista na histria do nordeste da frica do
                     sculo IV ao XVI; arquelogo; publicou muitos artigos e obras sobre
                     histria da frica; professor de histria da frica na Universidade de
                     Paris I, Panthon-Sorbonne.
                     S. Labib (Egito): especialista na histria medieval da frica; publicou
                     vrias obras sobre a histria social e econmica do perodo; leciona na
                     Universidade de Utah (EUA) e na Universidade de Kiel (Repblica
                     Federal da Alemanha).
  Captulo 27        D. T. Niane
Abreviaes e listas de peridicos                                           785




                                   Abreviaes e
                                listas de peridicos




AA -- African Affairs, Londres, OUP
AB -- Africana Bulletin, Varsvia, Universidade de Varsvia
AEA -- Anuario de Estudios Atlnticos, Madri
AEDA -- Archivo Espaol de Arqueologa, Madri
AEO -- Archives d'tudes Orientales
AESC -- Annales  conomie, Socits, Civilisations, Paris
AFRCD -- Afrique Franaise: Renseignements Coloniaux et Documents, Paris.
   Comit de l'Afrique Franaise et Comit du Maroc
Africa (L), -- Londres.
Africa (R), -- Roma
Africana Linguistica, -- Tervuren, Muse Royal de l'Afrique Centrale
Africanist: -- The Africanist, Washington DC, Howard University, Association of
   African Studies
Afrika Museum -- Groesbeck, Pases Baixos
AHES -- Annales d'Histoire :conomique et Sociale, Paris
AHS -- African Historical Studies (lnternational Journal of African Historical Stu-
   dies), Boston University, African Studies Center
AI -- Annales Islamologiques, Cairo
AIEOA -- Annales de l'lnstitut d'tudes Orientales d'Alger, Argel
AJ -- Antiquaries Journal, Journal of the London Society of Antiquaries, Londres, OUP
AL -- Annales Lateraniensis, Cidade do Vaticano
ALS -- African Language Studies, Londres, School of Oriental and African Studies
   al-Andalus al-Andalus, Revista de Ias Escuelas de Estudios rabes de Madrid
   y Granada, Madri
786                                                        frica do sculo xii ao sculo xvi



AM -- Afrikana Marburgensia, Marburgo
Ambario -- Tananarivo
ANM -- Annals of the Natal Museum, Natal
Annales du Midi -- Revue de la France Mridionale, Toulouse
Anthropos -- Revue Internationale d'Ethnologie et de Linguistique, Friburgo
Antiquity -- Gloucester
Arabica -- Revue d'tudes Arabes, Leida, Brill
Archiv Orientalni -- Oriental Archives: Journal of African and
Asian Studies -- Praga
Arnoldia -- Salisbury, National Museums of Rhodesia
ARSP -- Archiv fr Rechts-und-Sozialphilosophie, Berlim, Leipzig
AS -- African Studies, Johannesburgo, Witwatersrand University Press
ASAM -- Annals of the South African Museum, Cidade do Cabo
ASp -- Afrika Spektrum, deutsche Zeitschrift fr moderne Afrikforschung, Pfaf-
   fenhofen, Afrika Verlag
ASPN -- Archivio Storico per la Province Napoletane, Npoles
A-T Africa -- Tervuren, Tervuren
AU -- Afrika und bersee, Hamburgo, Universitt
AUA -- Annales de l'Universit d'Abidjan, Abidj
AUM -- Annales de l'Universit de Madagascar (Srie lettres et sciences humaines),
   Tananarivo
Awrak -- (textos rabes e espanhis), Madri, 1978  Instituto Hispano-rabe de
   Cultura
Azania -- Nairobi, British Institute of History and Archaeology in East Africa

BA -- Baessler Archiv, Berlim, Museum fr Vlkerkunde
BAM -- Bulletin de l'Acadmie Malgache, Madagscar
BARSOM -- Bulletin de l'Acadmie Royale des Sciences d'Outre-Mer, Bruxelas
Ba-Shiru -- Madison, Wisconsin University, Department of African Languages and
   Literature
BCEHSAOF -- Bulletin du Comit d'tudes Historiques et Scientifiques de
   l'Afrique
Occidentale Franaise -- Dakar
BCGP -- Bolletino Culturale da Guin Portuguesa, Bissau
BEO -- Bulletin d'tudes Orientales, Damasco
BHSN -- Bulletin of the Historical Society of Nigeria, Ibad
BIBLB -- Boletim Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, Lisboa, Fundao
   Calouste Gulbenkian
BIE -- Bulletin de l'Institut d'gypte, Cairo
(B)IFAN -- (Bulletin de l') Institut Fondamental d'Afrique Noire (antigo Bulletin de
   l'lnstitut Franais d'Afrique Noire), Dakar
Abreviaes e listas de peridicos                                               787



BLPHGAM -- Bulletin de Liaison des Professeurs d'Histoire et de Gographie
   d'Afrique et de Madagascar, Mejec-Yaound
BM -- Bulletin de Madagascar, Tananarivo
BNR -- Botswana Notes and Records, Gaborone
Boston University Papers in African History Boston University -- African Studies
   Center
BPH -- Bulletin Philosophique et Historique, Paris, Comit des Travaux Historiques
   et Scientifiques, Section d'Histoire et de Philologie
BRAH -- Boletn de la Real Academa de la Historia, Madri
BSACH -- Bulletin of the Society for African Church History, University of Aberdeen,
   Department of Religious Studies
BSOAS -- Bulletin of the School of Oriental and African Studies, Londres

CA -- Current Anthropology, Chicago
CEA -- Cahiers d'tudes Africaines, Haia, Mouton
China Review -- Hong Kong
CHM -- Cahiers d'Histoire Mondiale, Paris, Librairie des Mridiens
CJAS -- Canadian Journal of Ajrican Studies (Revue Canadienne des tudes Africai-
  nes), Ottawa, Carleton University, Department of Geography, Canadian Association
  of African Studies
CNRS -- Centre National de la Recherche Scientifique, Paris
COM -- Cahiers d'Outre-Mer, Bordus, Institut de la France d'Outre-Mer
CRTSASOM -- Compte-Rendus Trimestriels des Sances de l'Acadmie des Sciences
  d'Outre-Mer, Paris
CSIC -- Consejo Superior de lnvestigaciones Cientficas, Madri
CSSH -- Comparative Studies in Society and History, Cambridge, CUP
CUP -- Cambridge University Press, Londres at 1978, depois Cambridge

Der Islam -- Zeitschrift fr Geschichte und Kultur des Islamischen Orients, Berlim

EAPH -- East African Publishing House
EAZ -- Ethnographisch-Archologische Zeitung; Berlim
EcHR -- Economic History Review, Londres, Nova York, CUP
EHR -- English Historical Review, Londres, Longman
EM -- tudes Maliennes, Bamako
EP -- Etnografia Polska, Wroclaw, Polska Akademia Nauk, Instytut Historii Kultury
   Materialny
thiopiques -- Revue Socialiste de Culture Ngro-Africaine, Dakar, Fondation Lo-
   pold Senghor
Ethnos -- Estocolmo, Museu Etnogrfico da Sucia
EV -- tudes Voltiques, Mmoires, Uagadugu
788                                                          frica do sculo xii ao sculo xvi



FEQ -- Far Eastern Quarterly (mais tarde Journal of Asian Studies), Ann Arbor,
   Michigan
FHP -- Fort Hare Papers, Fort Hare University
Garcia da Orta -- Lisboa, Junta de Investigaes do Ultramar
GJ -- Geographical Journal, Londres
GNQ -- Ghana Notes and Queries, Legon
Godo-Godo -- Bulletin de l'Institut d'Histoire d'Art et d'Archologie Africaines,
   Universit d'Abidjan
HAJM -- History in Africa: a Journal of Method, Waltham, Mass.
Hespris -- Rabat, Institut des Hautes tudes Marocaines
HJAS -- Harvard Journal of Asiatic Studies, Harvard
H-T -- Hespris-Tamuda, Rabat, Universit Mohammed V, Facult des Lettres et des
   Sciences Humaines

IAI -- International African Institute
IFAN -- Ver BIFAN
IJAHS -- International Journal of African Historical Studies (antigo African Historical
   Studies), Boston University, African Studies Center
IIALC -- International Institute of African Languages and Cultures
IRCB -- Institut Royal Colonial Belge

JA -- Journal Asiatique, Paris
JAH -- Journal of African History; Londres, Nova York, OUP
JAI -- Journal of Anthropological lnstitute, Londres
JAL -- Journal of African Languages, Londres
JAOS -- Journal of the American Oriental Society, New Haven
JAS -- Journal of the African Society ; Londres
JATBA -- Journal d'Agriculture Traditionelle et de Botanique Aplique, Paris, Musum
   National d'Histoire Naturelle
JEA -- Journal of Egyptian Archaeology, Londres
JES -- Journal of Ethiopian Studies, Adis Abeba
JESHO -- Journal of Economic and Social History of the Orient, Londres
JHSN -- Journal of the Historical Society of Nigeria, Ibad
JMAS -- Journal of Modern African Studies, Londres, CUP
JMBRAS -- Journal of lhe Malayan Branch of the Royal Asiatic Society, Cingapura
JNH -- Journal of Negro History; Washington DC, Association for the Study of Afro-
   American Life and History
JRAI -- Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland,
   Londres
JRAS -- Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland, Londres
JRASB -- Journal of the Royal Asiatic Society of Bengal, Calcut
Abreviaes e listas de peridicos                                                 789



JSA -- Journal de Ia Socit des Airicanistes, Paris
JSAIMM -- Journal of the South African lnstitute of Mining and Metallurgy,
   Johannesburgo
JSS -- Journal of Semitic Studies, Manchester, Manchester University Department of
   Near Eastern Studies

KO -- Kongo Overzee, Anturpia
KS -- Kano Studies, Kano, Nigria
Kush -- a Journal of the Sudan Antiquities Services, Cartum
L'Homme -- Cahier d'thnologie, de Gographie et de Linguistique, Paris

MA -- Moyen ge, Paris
Man -- Londres
MIO -- Mitteilungen des Instituts fr Orientforschung, Berlim, Akademie der
  Wissenschafte
MNMMR -- Memoirs of the National Museums and Monuments of Rhodesia,
  Salisbury
MSOS -- Mitteilungen des Seminars fr Orientalische Sprachen an die Friedrich
  Wilhelm Universitt zu Berlin
Muslim Digest -- Durban
MZ -- Materialy Zachodnio-Pomorskie, Varsvia
NA -- Notes Africaines, Dakar, IFAN
NAk -- Nyame Akuma, Calgary, University of Calgary, Department of Archaeology
Nature -- Londres, Nova York
NC -- Numismatic Chronicle, Londres, Numismatic Society
NED -- Notes et tudes Documentaires, Paris, Direction de la Documentation

OA -- Oriental Art, Londres
OCP -- Orientalia Christiana Periodica, Roma
Odu -- Journal of West African Studies (antigo Journal of African Studies, Ife; prece-
  dido pelo Journal of Yoruba and Related Studies, Ibad), Ife, University of Ife
OL -- Oceanic Linguistics, Carbondale, Southern Illinois University, Department of
  Anthropology
OSA -- Omaly Sy Anio, Tananarivo, Universidade de Madagscar
OUP -- Oxford University Press

PA -- Prsence Africaine, Dakar
Paideuma -- Mitteilungen zur Kulturkunde, Frankfurt-am-Main
PAPS -- Proceedings of the American Philosophical Society, Nova York

RASGBI -- Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland
790                                                       frica do sculo xii ao sculo xvi



RBCAD -- Research Bulletin of the Centre of Arabic Documentation, Ibad
RDM -- Revue des Deux Mondes, Paris
REAA -- Revista Espaola de Antropologia Americana, Madri, Universidad de
   Madrid
RES -- Revue d'thnographie et de Sociologie, Paris
RGM -- Revue de Gographie du Maroc, Universidade de Rabat, Faculdade de
   Geografia
RH -- Revue Historique, Paris, PUF
RHC -- Revista de Historia Canarias, Las Palmas
RHCF -- Revue de l'Histoire des Colonies Frunaises (mais tarde Revue Franaise
   d'Histoire d'Outre-Mer), Paris
RHCM -- Revue d'Histoire et de Civilisation du Maghreb, Argel, Socit Historique
   Algrienne
RHES -- Revue d'Histoire conomique et Sociale, Paris
RHSP -- Revista de Histria, So Paulo
RIBLA -- Revue de l'lnstitut des Belles Lettres Arabes, Tnis
RNADA -- Rhodesian Native Affairs, Departmental Annual, Salisbury
ROMM -- Revue de l'Occident Musulman et de la Mditerrane, Aix-en-Provence
RRAL -- Rendiconti della Reale dell'Accademia dei Lincei, Classe de Scienze Morale,
   Storiche e Filologiche
RS -- Revue Smitique, Paris
RSACNM -- Recueil de la Socit Archologique de Constantine, Notes et Mmoires,
   Constantine
RSE -- Rassegna di Studi Etiopici, Roma
RSO -- Revista degli Studi Orientali, Roma, Scuola Orientale dell'Universit

SAAB -- South African Archaeological Bulletin, Cidade do Cabo
Saeculum -- Friburgo
SAJS -- South African Journal of Science, Johannesburgo
Sankofa -- Legon (Gana)
Savanna -- a Journal of the Environmental and Social Sciences, Zaria, Universidade
   Ahmadu Bello
Scientia -- Rivista di Scienza, Milo
SHG -- Studia Historica Gandensia, Gand
SI -- Studia lslamica, Paris
SM -- Studi Magrebini, Npoles
SNED -- Socit Nationale d'dition et de Diffusion, Argel
SNR -- Sudan Notes and Records, Cartum
SOAS -- School of Oriental and African Studies, Londres, London University
South Africa -- Pretria
SS -- Sudan Society, Cartum, Universidade de Cartum
Abreviaes e listas de peridicos                                              791



Swahili -- Nairobi, East African Swahili Committee
SWJA -- South Western Journal of Anthropology (mais tarde Journal of Anthropolo-
  gical Research), Albuquerque, University of New Mexico

Taloha -- Revue du Muse d'Art et d'Archologie, Tananarivo
Tamuda -- Rabat
Tantara -- Tananarivo, Socit d'Histoire de Madagascar
THSG -- Transactions of the Historical Society of Ghana (antigo Transactions of the
   Gold Coast and Togoland Historical Society), Legon
Times The Times -- Londres
TJH -- Transafrican Journal of History; Nairobi, East African Literature Bureau
TNR -- Tanzania Notes and Records (antigo Tanganyika Notes & Records), Dar es
   Salaam
TNYAS -- Transactions of the New York Academy of Sciences, Nova York
T'oung Pao -- Revue lnternationale de Sinologie, Leida, Brill

UCLA -- University of California, Los Angeles
Ufahamu -- Journal of the African Activist Association, Los Angeles
UJ -- Uganda Journal, Kampala
Universitas -- Legon, University of Ghana

WA -- World Archaeology; Henley-on-Thames
WAAN -- West African Archaeological Newsletter, Ibad
WAJA -- West African Journal of Archaeology, Ibad

Zare -- Kinshasa
ZDMG -- Zeitung der Deutschen Morgenlndischen Gesellschaft, Leipzig
Referncias bibliogrficas                                                 793




                        Referncias bibliogrficas
                                     Prlogo




   Esta bibliografia foi organizada para atender s necessidades de especialistas
de diferentes pases; inclui as obras referidas no volume IV. As obras esto lis-
tadas por autor, como  conhecido, ou pelo ttulo, sempre em ordem alfabtica.
Quanto s que constituem parte de uma srie geral, figuram todas sob o nome
do autor, como forma de contornar a dificuldade apresentada pela diversidade
de sistemas de catalogao, vindo em seguida o ttulo da srie junto aos dados
concernentes  publicao. Contrariamente  prtica de alguns bibligrafos, a
primeira data indicada para cada obra , na medida do possvel, a da primeira
publicao (ou da fase conclusiva, no caso dos manuscritos rabes), para que se
possam distinguir mais nitidamente as obras antigas das edies ou tradues
modernas. Os primeiros nomes foram adotados somente para os autores rabes,
designados pelos nomes rabes sob os quais so mais conhecidos e/ou citados
no texto; em certos casos, no entanto, sero encontradas remisses s variantes
dos nomes rabes e aos nomes comuns.
   Os nomes e ttulos originalmente escritos em rabe foram transliterados
segundo o sistema utilizado na Encyclopaedia of Islam, valiosa fonte de referncia.
(As transliteraes adotadas pelos redatores e tradutores no foram modificadas
nos ttulos.) Outras informaes bibliogrficas foram levantadas junto a certo
nmero de bibliotecas e catlogos diversos.
794                                                              frica do sculo xii ao sculo xvi



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                           ndice remissivo




frica central, sul: cultura   Agricultura: frica equa-    reas costeiras, europeus
   da Idade do Ferro,             torial, 623-653; frica      em, 11, 743-762; frica
   591-621;        cultura        meridional, 10, 658-         oriental, 443, 445, 743;
   de Leopard's Kopje             676; frica oriental,        alta Guin 337-359;
   (Colina do Leopardo),          interior, 539-558; alta      Benin, 391-413; Mali,
   597-620, Ver tambm            Guin, 337-359; no           193-209, 761.
   Zimbbue.                      Chifre da frica, 475-    Arqueologia, frica cen-
frica equatorial, 622-695.       509; Haussa, 328-9;          tro-meridional, 10-11,
frica meridional: civili-        interlacustre, 559-590;      593-621, 717-18;
   zaes e culturas, 7-15,       lagunas da Costa do          frica equatorial, 646,
   599-621, 655-676,              Marfim, 368-9; Mada-         648; frica meridional,
   766-778; colonizao           gscar, 689; Magreb,         655-676; alta Guin,
   europeia, 769; comr-          118; Mali, 134-192,          337-359; forma de ocu-
   cio, 697-720; pesquisa         214; portuguesa, 758-        pao do solo revelada
   histrica na, 655-676.         9; Songhai; 220-236,         pela, 379-80; lagunas
frica ocidental, ver reas       770;                         da Costa do Marfim,
   costeiras; Florestas.       Algodo, 185-189, 264,          361-377; Madagscar,
frica oriental, costa, 511-      333, 512.                    687-9; Mali, 133-192;
   538, 683-695.               rabe, lngua, 479, 674.        Nbia, 445-474; regio
frica oriental, interior,     reas costeiras, frica         interlacustre, 561; Son-
   539-558; interlacustre,        oriental, 511-38, 600-       ghai, 211-218; Swahili,
   559-590.                       621, 684-720.                516-525, 743; Tanznia,
860                                                                frica do sculo xii ao sculo xvi



   715; zona de floresta da       653; comunicaes                   33; background e vida,
   frica ocidental, 390-         atravs de, 634-6, 716;             130; a respeito dos
   413.                           formao de Estados                 Ban Ghniya, 51-57;
Bantu: na frica meridio-         em, 652.                            a respeito do Chifre da
   nal, 655-676; na rea       Fontes escritas, 1, 8, 135, 777;       frica, 483; a respeito
   interlacustre, 559-590;     Fontes escritas rabes, 7-8,           do comrcio, 706, 769;
   atividades econmi-            289, 697-723.                       conhecimento geogr-
   cas, 539-558, 570-580;      Fontes escritas portu-                 fico, 722-24; a respeito
   cultura, 8-10; estrutura       guesas, sobre a frica              da Cruzada contra
   social, 629; no interior       centro-meridional, 619,             Tnis, 94; a respeito da
   da frica oriental, 539-       717; sobre a costa da               cultura zainida, 107;
   549; lnguas, 656-659;         Guin, 340-360; sobre               a respeito do declnio
   movimentos de popu-            o Kongo, 637-51; sobre              de uma civilizao, 75;
   lao, 554-591,623-6,          Madagscar, 679, 685;               a respeito de dinastias
   656-9, 680, 769; orga-         sobre o Mali, 193-209;              nmades, 97; filosofia,
   nizao poltica, 542-         sobre a Nbia, 455;                 130-1; a respeito do
   647, 768-7; entre os           sobre o Swahili, 512-               Kanem-Bornu, 287; a
   Swahili, 511.                  430; sobre o trfico de             respeito do Mali, 144-
Ferro, metalurgia e comr-        escravos, 715; sobre                149, 156, 164-6, 193;
   cio do, 471, 739, 763;         a zona de lagunas da                a respeito da Nbia,
   frica equatorial,             Costa do Marfim, 361-               466-7.
   628-635; frica orien-         377.                            Al-Idrs, a respeito do
   tal, interior, 557-571;     Griots, 142-176, 219.                  comrcio na frica
   Haussa, 332-334;            Haussa, povos, 299; cul-               oriental, 739; a respeito
   Madagscar, 682; Mali,         tura e civilizao, 311;            do comrcio de sal, 745;
   134, 141, 186; Swahili,        origens, 300-2.                     conhecimento geogr-
   516; Yatenga, 264;          Ibn Battta, 7, 74, 468,                fico, 724; a respeito
   Zimbbue, 616.                 699, 723; a respeito da             de Gao/Songhai, 212;
Floresta, regies de, frica      frica oriental, 519-24,            Geografia, 6; a respeito
   ocidental: cultura, 374-       600-10, 669; a respeito             do Mali, 143; mapa-
   414; ecologia, 361-380;        do Chifre da frica,                mndi, 6; a respeito do
   economia e comrcio,           480-1; a respeito do                Sudo, 8, 135-7, 282-5;
   361-414, 706-720;              comrcio de sal, 700;               a respeito do Swahili,
   lnguas e povos, 361-          a respeito do Isl, 704;            512-522.
   377; reinos e cidades,         a respeito do Kanem-            Ife, 381-413, 706.
   377-394; sociedades            Bornu, 279-286; a               Igbo-Ikwu, 399-405, 706.
   baseadas em grupos de          respeito do Mali, 146-          Imerina, 677-785.
   linhagem, 371-9.               152,172-181, 699-718.           ndico, oceano: africanos
Floresta equatorial, regies   Ibn Khaldn, 7, 74, 427; a              orientais no, 513; rela-
   de: agricultura, 623-          respeito dos Almadas,              es atravs do, 677.
ndice remissivo                                                                   861



ndico, oceano, comrcio      Metalurgia: frica centro-      rial, 623-653; frica
   no, 738-769; atravs do      meridional, 593- 614,         ocidental, zona de
   Egito, 418-464; Mada-        716; frica equatorial,       floresta, 372-414;
   gscar e o, 785, 707,        629-637; frica meri-         Almada, 26-46, 89,
   720; atravs do Swahili,     dional, 9, 661, 770;          127-8; alta Guin,
   514-523.                     Costa do Marfim, 403.         337-359; rea interla-
Lnguas: frica centro-       Migrao: frica centro-        custre, 564-590; Bantu,
   meridional, 598; frica      meridional, 596-600,          542-647, 768-7; Egito,
   equatorial, 623-642;         770; frica equatorial,       415-444; Etipia, 486-
   frica meridional, 657-      623-647; frica meri-         493; Hafssida, 127-
   676; frica oriental,        dional, 656-676; frica       8; Haussa, 302-329;
   interior, 539-551; Chi-      ocidental, zona de flo-       Kanem-Bornu, 277-
   fre da frica, 477-483;      resta, 369-382; frica        299; Khoi-khoi, 674;
   europeias, influncia        oriental, interior, 542-      Madagscar, 677-695;
   rabe nas, 84-5; golfo       555; Kanem-Bornu,             Magreb pos-almadas,
   da Guin, 379-81.            286; Madagscar, 677-         90-131; Mali, 149-
Mali, Imprio, 6-8; admi-       695; Nbia, 460-470;          189, 197-208, 348-
   nistrao e governo,         regio interlacustre,         350, 765; Marnida, 97,
   149-189, 197-208,            559-590; Swahili, 536-        124-5; Mossi, 258-62;
   348-350, 765; alta           38; territrio haussa,        Nbia, 446; sociedades
   Guin e, 337-59; back-       314-324.                      baseadas em grupos de
   ground e origens, 133-     Moedas, 524-5, 735-38;          linhagem, 372-3, 382-
   48; comrcio, 151-172,       frica equatorial, 630-       3; Songhai, 212-226;
   186-209, 701- 762;           653; frica oriental,         Swahili, 531-6; Zim-
   contato europeu, 173-        715; cauri, 8, 266, 335,      bbue, 601-3, 618.
   209, 761; cultura e          523-5, 595, 711, 744;      Ouro, produo e comr-
   civilizao, 168-191,        cobre, 630-641, 703,          cio, 2, 491, 709; frica
   706; declnio, 193-209;      717; nozes-de-cola,           meridional, 9, 596-621,
   economia, 172-209;           701; sal, 630, 701;           718-747; alta Guin,
   estrutura social, 151-       Sudo, 228.                   340-354; Costa do
   2, 199-200; explorao     Nok, cultura, 390-398.          Marfim, 361-377;
   marti- ma, 753-755;       Nmades: ascenso de            envolvimento europeu,
   importncia no mundo         dinastias, 97; comrcio       114, 721-762; impor-
   muulmano, 164-167;          transaariano, 698-700;        tncia para os reinos
   Isl no, 144-172, 187,       efeitos na Nbia, 449-        africanos, 668; Mali,
   209, 700; mansa, 156,        465; no Egito, 427-28;        135-192, 208, 387, 425;
   164-181; povo mossi          no Magreb, 97-115; no         Swahili, 511-520, 743-
   e, 237-242; povos do,        Mali, 172.                    4; Takrr, 138; transaa-
   172-6, 195; Songhai        Organizao poltica e          riano, 136-7, 698-702.
   e, 211-224; viagem de        administrativa, 11, 12,    Portugueses, explorao
   Ibn Battta ao, 699.          765-7; frica equato-         e expanso, 11, 725-
862                                                             frica do sculo xii ao sculo xvi



   762; frica meridio-        Swahili: conhecimento              Egito, 440, 703; envol-
   nal, 669; alta Guin,          geogrfico, 722; cultura        vimento europeu, 738-
   rea costeira, 340-356;        e civilizao, 2, 525-          762, 774; Etipia, 491;
   no Benin, 391, 414;            538, 745; dialeto, 540;         Kanem-Bornu, 279-
   comrcio e atividades          economia e comrcio,            283; Mali, 198, 703;
   econmicas, 756-762;           511-538, 684-687,               Nbia, 450, 453, 703,
   Magreb, 112-116, 765;          745-6; Isl no, 513-558;        738; Swahili, 511-538.
   Mali, 172, 193-209,            organizao poltica e       Al-'Umar, Ibn Fadl Allh,
   771; trfico de escravos,      administrativa, 531-6;          8, 427, 723; a respeito
   721-762.                       povos e estrutura social,       da Etipia, 488-9; a
Religio tradicional, 14,         511-525.                        respeito do Kanem,
   764; frica ocidental,      Tradies orais, 435-6, 775;       282-288; a respeito do
   zona de floresta, 384-         frica centro-meridio-          Mali, 155, 172, 722,
   415; frica equato-            nal, 723; frica equa-          753; a respeito dos
   rial, 649; alta Guin,         torial, 633-48; frica          Mossi, 241.
   343; Chifre da frica,         meridional, 658, 660;        Yoruba: anlise lingustica,
   482-3; Mali, 199-209;          frica ocidental, zona          379-381; cultura e civi-
   Mossi, 260; Songhai,           de floresta, 368-396;           lizao, 368-413; Esta-
   212-236; territrio            evidncias de comrcio          dos, 386-397; origens,
   haussa, 307, 328-9.            a partir de, 712; Haussa,       386-8, 537.
Sudo, arabizao, 4-6,           301-316; Ijaw, 385;          Zambeze, bacia do, 591-
   424-474, 704; comr-           Kongo, 623-4; Mada-             621, 720.
   cio, 337, 340, 699-710;        gscar, 677-695; Man-        Zimbbue, 8, 10, 11, 768;
   conhecimento geo-              den, 135-192, 242-4;            comrcio e importn-
   grfico, 721-2; escra-         Mossi, 242-3, 249-50;           cia regional, 599-618,
   vos do, 4, 702; reinos         sobre a Nbia, 451;             717-720, 769; declnio,
   e imprios, 6, 135-42;         regio interlacustre, 559-      618-620; organizao
   vida intelectual, 235-6,       590; Sudo, 7, 460-1.           poltica e administra-
   705, 769. Ver tambm        Trfico de escravos, 4, 697;       tiva, 601-3, 621; ori-
   Haussa; Mali.                  alta Guin, 340-354;            gens, 598-610.
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
